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segunda-feira, 29 de julho de 2019

Democracia em vertigem


Vi, finalmente, o documentário “Democracia em vertigem” da Petra Costa. Sem saber, vi muitas vezes, repetidamente, aquela menina tímida, tão nova, a perguntar a Caetano Veloso o significado da canção “Cajuína” que conta o episódio do encontro de Caetano Veloso com o pai de Torquato Neto, em Teresina. A letra que começa com aquela questão existencial “Existirmos, a que será que se destina?”.


E agora, descubro que aquela menina da pergunta é a cinesasta Petra Costa. O documentário que estreou no Festival de Sundance e foi tão elogiado pelo The New York Times é de uma sensibilidade e está tão bem feito que é uma roleta russa de emoções. A revolta, a surpresa, vergonha e incompreensão quando se vê as manisfestações violentas contra Dilma e Lula, quando se assiste aquela palhaçada que foi a votação no Senado do impeachment de Dilma Rousseff e que eu vivi para ver em directo na televisão. E a preocupação de quem vê uma país à beira do precipício: “O que vão pensar de nós”? E a profunda emoção despoltada quando Dilma Rousseff chora no discurso no dia do impeachment. E a serenidade de quem nada teme: “Hoje só temo pela morte da democracia”. Esta mulher guerreira, que não chorou quando foi torturada e que assiste, como todos nós, sem nada que a democacia possa fazer, à derrocada de um Brasil que não existe mais. O Brasil de Lula da Silva que eu aprendi a respeitar porque foi um  Brasil pensado, um Brasil sonhado. Um sonho que se cumpriu. Um país da América Latina onde foi possível ver pessoas que foram ajudadas pelo “Bolsa Família e “Minha Casa minha Gente”. Poder ver os seus filhos estudar, entrar nas universidades, estabelecer uma classe média, onde os ricos ficaram incomodados por ver tanta gente andar de avião, viajar, adquirir poder de compra, conseguir direitos trabalhistas. Uma sociedade com mais igualdade que ameaçou a hegemonia dos ricos. Este país menos desigual não interessava aos privilegiados. Mas como Lula disse antes de ser detido: “Ninguém pode prender um ideal”. Esse viverá com toda a gente que acreditou e acredita porque ninguém poderá prender toda a gente. Como disse Obama: “This is the man”. O político trabalhador metalúrgico, que nunca desistiu, que perdeu muito para poder ganhar, filho de uma mãe analfabeta do nordeste que chegou ao cargo mais alto do Brasil. Ficará para a história por bons motivos e será sempre lembrado. Eu que não gostava de Lula da Silva, com toda esta perseguição política de anos, aprendi a respeitá-lo. E convenhamos, alguém como o Lula que ganhava milhares de euros por palestra, que é uma vedeta na política mundial, ser subornado por uma casa no meio do fim do mundo ou um apartamento numa praia suburbana? Sabemos, agora, que tudo não passou de um plano muito bem feito. E sim, mais vale tarde do que nunca, eu digo #lulalivre. No dia da votação do impeachment de Dilma Rouseff, o então deputado Jean Willys, hoje exilado político disse tudo em pouco menos de um minuto: “Eu me sinto constrangido por participar nesta farsa, conduzidapor um ladrão, urdida por um traidor conspirador e apoiada por torturadores, covardes, analfabetos políticos e vendidos. Em nome da população LGBT, do povo negro exterminado nas periferias, dos trabalhadores da cultura, dos sem tectos, dos sem terra, eu digo não ao golpe. Durmam com essa, canalhas”.




domingo, 4 de novembro de 2018

O que aí vem

Passou-se uma semana e ainda não estou refeita da escolha feita pelos brasileiros. Aprendi muito nesse mês de campanha eleitoral no Brasil. Mais até no segundo turno. Li muito, vi muito, ouvi muito, discuti muito, zanguei-me muito. E apaguei muitas pessoas. Não quero ter pessoas que frequentam os meus dias que sejam racistas, ignorantes, violentas, xenófobas, misóginas, classistas, que tenham "ódio no coração", que não respeitem e que não sejam democratas. Repetiram-me muito, apoiantes de Bolsonaro, que eu não sei nada, que não sei do que falo, que sou uma privilegiada portuguesa de um país seguro e pacífico que sempre viveu protegida pela academia. E a minha resposta, hoje, já que não consegui mudar um voto, é: "vão-se foder porque quem não entende nada são vocês que vivem num país que fez o 25 de Abril, e quer eu goste ou não, mas respeito a decisão democrática permitida pela constituição, é governado por partidos de esquerda.

Como é que alguém no seu perfeito juízo acredita nesta solução simplista de "matar os maus" e dessa forma acabar com a violência? Ou armar melhor "os bons" em vez dos "maus". Esta gente já parou para pensar que para mudar alguma coisa só educação. Estas pessoas já pensaram em que mundo nascem os pobres no Brasil? Que numa mesma casa vive uma mãe jovem com muitos filhos e muitos netos e ainda não chegou aos 50 anos? Acham que laqueação forçada é a solução? Não entenderam nada. Vejam o filme "A que horas ela chega?" E perceberão alguma coisa. 

Infelizmente, fenómenos como Bolsonaro estão a surgir em todo o mundo. A extrema-direita ou neo-fascista está a aparecer ou a sair da toca em todo o lado. Quando eu achava que nada podia ser pior do que Trump, ou que não se podia descer mais, eis que surge Bolsonaro. As suas ideias tão básicas e tanta ignorância fazem parecer o seu discurso uma piada. É mau e mal preparado demais para ser verdade. Junta a ignorância, com o exagero, com a palhaçada. Nunca achei possível que fosse eleito. Tive esperança até à última hora. Um homem com um discurso de ódio e que resolve tudo com a maior das simplicidades. Elimina-se, executa-se, mata-se, faz-se desaparecer, nega a ditadura militar é problema resolvido. Infelizmente, nada disto é novo. Já todos vimos e foi-nos explicado, nas aulas de História, como Hitler subiu ao poder. Nunca nos esqueçámos que Hitler foi eleito democraticamente quando a Alemanha atravessava uma grande crise pós-guerra. Hitler, bem menos ignorante e mais bem falante do que Bolsonaro, com os seus discursos nacionalistas e populistas conseguiu que votassem nele. Não neguemos que os alemães não tiveram culpa é não sabiam ao que iam. Bolsonaro nem português sabe falar. E eu que não oiça nunca que os brasileiros foram enganados ou que não apoiavam o discurso dele. Se há coisa que Bolsonaro nunca escondeu foi ao que vinha.

Tive muita pena que Haddad não tenha sido eleito Presidente. Confesso que me conquistou. Acho-o um homem bom. Mas ele e o PT cometeram o erro de não aceitar a prisão de Lula e para além de uma ideia quiseram transformá-lo num mártir. Nunca gostei do Lula mas acho, depois de tudo o que tenho visto, que ele não foi o pior que o Brasil produziu. Tenho muita pena que, como os apóstolos, o PT e Haddad tenham largado tudo e seguido o mestre (neste caso, Lula). A história encarregar-se-á dos julgamentos mas o grande erro do PT, ou de Haddad, ou de ambos, ou de todos feijão terem abdicado de Lula. Haddad seria muito melhor Presidente do que Lula seria hoje. Lula, que como os grandes egos, em vez de se deixar descrever pelos erros, descreve-se a si próprio, já não é um homem é uma ideia. Pode até ser. Mas já era tempo de ter deixado a luta para os outros. O tempo de Lula acabou e ele devia ter percebido. Haddad foi a segunda escolha. Sempre colado à péssima imagem que a maioria dos brasileiros tinha de Lula. Tarde e mal assumiu e desculpou-se pelos erros do PT. Haddad, um homem bem formado, democrata, ponderado, com ideias. Acima de tudo um professor. Que oportunidade desperdiçada, Brasil.

Depois, ciro Gomes, que se eu fosse brasileira e votasse, teria sido a minha opção no primeiro turno.que desilusão. Que decepção é o engano. Ciro Gomes mostrou que o ego é uma merda. Como as pessoas normais, e não como os grandes estadistas devem ser, Ciro Gomes não soube aceitar os resultados que lhe deram o terceiro lugar e amuou. Abdicando da sua privilegiada posição e de milhões que acreditaram e votaram nele, viajou para a velha Europa, o exterior, como gostam de dizer. Ciro Gomes assinou a sua morte política com esta decisão. Nunca se vira as costas aos eleitores e ao país quando tanto está em causa. Embora ele ache que tenha jogado certo e apostado na futura candidatura em 2022. Só que Ciro Gomes jogou mal é errado. Se houver eleições democráticas em 2022, que desconfio que possa acontecer, os seus eleitores se tiverem memória, não voltarão a confiar num candidato que só quer é aceita ganhar. Para mim, Ciro Gomes morreu politicamente. Como escreveu Drummond: "Nunca me esquecerei desse acontecimento/ na vida das minhas retinas fatigadas". Ciro Gomes perdeu a oportunidade de ficar do lado bom é certo da história. Que triste que foi.

O acesso à educação dos mais pobres e a ascensão social que a educação permite, intimida os privilegiados. Salazar, esse "pai" dos pobres e pregador das vantagens de se ser pobrezinho mas limpinho dizia: "um lugar para cada pessoa é cada pessoa no seu lugar". Não foi por acaso que Portugal em 74 tinha uma taxa de analfabetismo gigantesca e as pessoas não concorriam às universidades, inscreviam-se. Quem é que lá chegava? Os ricos, privilegiados, educados ou um pobre que com um rasgo de muita sorte é uma série de coisas que correram bem conseguia chegar ao topo. A verdade, por mais que digamos mal de Portugal é que conseguimos de 74 até hoje democratizar o ensino. Só não houve necessidade de cotas porque somos uma maioria branca. Ainda estes dias discutia isso com um amigo aqui em Itália. Somos uns privilegiados porque somos brancos. De boca fechada ninguém sabe que não somos italianos. Sim, é assim que está Itália, a transformar-se rapidamente num ninho de apoiantes da extrema-direita. E Salvini ainda há pouco chegou à Ministro. esperem para ver.

E depois, quando todas as previsões e sondagens insistiam em dar a vitória a Bolsonaro, eu insistia em não acreditar. Eu tive esperança até ao fim tal era o clima de mudança é manifestações tão bonitas. A esperança é teimosa. Achei possível uma viragem. A democracia vencer contra o ódio e contra a violência.

Flores e livros. Que melhores símbolos podiam representar um candidato? Apesar de nunca ter gostado do Lula, num ter sido sua apoiante, e nunca ter votado num partido com a ideologia é tão à esquerda como o PT, teria votado em Haddad de olhos e coração bem abertos.

E na hora da derrota, o discurso de conforto e sem confronto.um discurso de abraço e de comunhão. Um discurso tão bonito, de improviso, emocionante, sentido. "Não tenham medo". E como li há pouco, no livro do João Guimarães Rosa "Grande sertão veredas", que tanto queria e me foi dado sem eu esperar e pelo qual me tinha apaixonado por causa de Diadorim na voz de Maria Bethânia: "o correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem".

Hoje, sábado, já depois de saber que Sergio Moro aceitou ser Ministro da Justiça e da Segurança Pública torna tudo mais triste. Afinal, Sergio Moro acaba de desmentir tudo o que disse de nunca aceitar nenhum cargo político. De facto, o ego é uma merda. E Sergio Moro acaba de transformar Lula num mártir e de legitimar a tese do PT de perseguição política. Mais, se houvesse algum resto de respeito por Moro acabaria quando aceita o convite de uma pessoa tão anti-estado de direito. O eleito governador do Rio de Janeiro, um magistrado associado com seitas religiosas defende a "matança d bandidos" com tiros certeiros na cabeça por snipers. É nesta guerra que o Brasil se transformou. 

Mas depois oiço a música de Caetano Veloso, que considero adequada para este momento, e que ganhou a melhor versão que ouvi até hoje acompanhada apenas pelo piano e cantada pela Adriana Calcanhotto (que infelizmente retirou do repertório de "a mulher do pau Brasil" mas que eu tenho a esperança infinita que seja reposta), talvez de resistência em democracia, sem violência e sem ódio: "Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar/ Porque ela vai ser o que quis, inventando um lugar/ onde a gente é a natureza feliz vivam sempre em comunhão/ E a tigresa possa mais do que o leão".

sábado, 27 de outubro de 2018

O dia da virada

Ontem, discutia que achava impossível haver um fenómeno Bolsonaro em Portugal. Pelo simples facto que um neo-fascista palhaço e ignorante não encontraria muitos apoiantes em Portugal. É que Bolsonaro é ainda pior que Trump. Posso estar muito enganada mas Bolsonaro comparado com Trump é muito pior. Antes de ser eleito, Bolsonaro não engana ninguém e diz ao que vem. A última é tirar o Brasil da ONU. Não perdeu tempo a ameaçar os seus opositores “cadeia ou exílio”, coisa que nem a ditadura militar se atreveu. Defensor, sem qualquer vergonha, da tortura.  E teve a desfaçatez de dizer que o erro da ditadura militar foi não ter eliminado umas 30 mil pessoas. Depois defende coisas absurdas como o conceito de família normal mas tem uma família constituída por marmanjos que vivem e enriqueceram da política. O nepotismo no seu melhor. E foi “batizado” em adulto por uma das seitas que mais poder tem no Brasil. Fala e expressa-se mal em língua portuguesa, imaginem nas outras. É um ignorante em todas as matérias técnicas. Não é por acaso que deve ter sido um dos únicos candidatos em todo o mundo a recusar debates com o seu adversário.  Dizem que é contra a corrupção mas há muitos anos que vive da política e vê o seu património, e o da família, aumentar exponencialmente. É um homem grotesco. O absurdo em pessoa.
 Depois de Trump achei que não se podia descer mais baixo. O problema é que o buraco parece não ter fundo. E quando se instiga à violência e ao ódio e se provoca medo, não há como não votar em Haddad. mesmo que não se seja de esquerda, mesmo que não se concorde, mesmo que não se goste, nem que seja o mal menor, ou de olhos fechados. E eu que nunca votei em Portugal num partido da ideologia do PT digo com toda a convicção e com os olhos e o coração nem aberto, eu apoio Haddad. Que pena ter sido a segunda escolha do PT. Quem sabe, com mais tempo, não houvesse segundo turno e o inominável não estivesse cheio de esperança.

E Ciro Gomes foi a desilusão. Amuado, pegou nos votos das pessoas que confiaram e acreditaram nele e veio descansar para Paris. Tão fácil? Independentemente do que se passará amanhã não haverá Ciro em 2022. 

Mas erros todos cometemos e Ciro Gomes ainda está a tempo de ficar ligado ao lado bom da história. Todos contamos com o apoio e as palavras de Ciro Gomes. O Brasil fará história amanhã, dando uma grande lição ao mundo de como a ditadura não passará? Eu quero acreditar que sim. Pela língua portuguesa, pelos meus amigos que não quero ver exilados, pelos artistas que quero continua a ver terem voz sem medo, pelos esquecidos , pelos que não têm voz, pela esperança num Brasil melhor, eu serei sempre pelos candidatos democratas. Eu sou Haddad. Contra o ódio e a favor da democracia no Brasil!

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

"Eu vejo o futuro repetir o passado"


Ressacada do resultado das eleições democráticas no Brasil com Bolsonaro quase a não precisar de uma segunda volta, sinto-me como os versos de Caetano: "Estou triste, tão triste/ Por que será que existe o que quer que seja... sinto o meu prato vazio e ainda assim farto". E para piorar, Bolsonaro teve 59% dos votos dos brasileiros em Portugal. Apetece dizer, no calor da coisa, mudem-se para esse país que vocês idealizam porque vocês devem merecer. Depois recupero alguma lucidez e penso que o Brasil perdeu uma tão boa oportunidade de eleger um homem bem preparado tecnicamente, com ideias, com um programa bem explicado, que fez uma campanha informada e que já foi ministro e governador do Ceará, Ciro Gomes. Mas pelos visto, desta vez, parece que o que os brasileiros queriam era uma guerra ou um combate à dois. Avaliação de forças.  Como se justifica esta dicotomia Bolsonaro vs Haddad? 


Nunca simpatizei com Lula da Silva. Já escrevi muito sobre isso. Mas não há como negar que o primeiro governo de Lula tirou muita gente da miséria. E muitos, pela primeira vez na vida, puderam sonhar. No entanto, quando em 2015 estive em São Paulo, pude constatar que era uma cidade de extremos. Uma cidade com a maior favela da América Latina com restaurantes com preços mais altos que NY. Hotéis 5 estrelas que tinham tantos empregados como hóspedes, pessoas cujo trabalho era abrir a porta e dizer: "cuidado com o degrau". Apartamentos em pleno século XXI ainda construídos com separação entre patrões e funcionários. Mulheres mestiças e negras a quererem parecer brancas e alisar os cabelos e a pintá-los de loiro. Médicos  e cientistas que não dominavam a língua inglesa. Brasileiros de classe média a invadir as lojas em Miami e NY.



O maior erro do PT foi manter-se refém de Lula da Silva. E não ter querido ouvir os protestos de um país. Concordo que Haddad é um bom candidato. Bem preparado. Foi um grande Prefeito da cidade Pde São Paulo com ideias progressistas como diminuição da velocidade e fecho de ruas ao trânsito e implementação de outros meios de transporte como a bicicleta. É unânime que foi também um bom Ministro da Educação. Tinha tudo para ter um bom resultado. No entanto, o PT preferiu não fazer o mea culpa e achar que tudo no Lava Jato foi uma "armação". E como todos os mártires, Lula decidiu ir até ao fim e medir forças com a justiça. Acabaram a perder todos. Haddad que foi a segunda escolha e quase não fez campanha como principal candidato. Perdeu o PT porque quando se assume culpas ganha-se o respeito dos seus eleitores e perdeu o Brasil que poderia não estar agora a um passo do abismo. Poderemos sim, para sempre, culpar o PT por este erro estratégico.



Obviamente que Bolsonaro,um péssimo candidato, péssimo político que viveu os últimos 27 anos na e da política e tão pouco contribuiu para ela, sendo ignorante, racista, sem ideias, sem planos, sem projecto de governo, homofónico, xenófobo, misógino, defensor da violência, primário na resolução dos problemas, só podemos concluir que o resultado obtido é um voto de protesto. Os brasileiros estão fartos.
Pobreza, desemprego, desigualdade, violência, falta de oportunidades. É disto que os brasileiros mais se queixam.



Foi assim que Hitler chegou ao poder. E é assim que chegam ao poder (quase) todos os ditadores. Como alguém disse os democratas deviam ter-se unido na primeira volta para derrotar o fascista Bolsonaro. Infelizmente, o meu optimismo não abunda, e acredito que milagres só Deus e os santos. 



Mas o mais revoltante é ver que 59% do emigrantes brasileiros que vivem em Portugal (e não, não são só ricos e milionários) votaram em Bolsonaro! Como é possível os alvos de Bolsonaro votarem a favor dele?! Perceber que São Paulo, a maior cidade do Brasil e mais cosmopolita elegeu novamente o palhaço Tiririca e Alexandre Frota, um ex-actor pornográfico, a quem um dia Bolsonaro disse ser a sua escolha para Ministro da Cultura. Como Cazuza cantou há 30 anos e é tão actual: "eu vejo o presente repetir o passado".Agora, com 20% de vantagem sobre Haddad, Bolsonaro só precisa de continuar igual a si mesmo. E a mim resta-me tentar convencer os meus amigos brasileiros que votaram em Bolsonaro ou Ciro a mudar o voto. Porque apesar dos muitos tiros nos pés de Haddad, como continuar sob a batuta de Lula (o que foi aquela visita a Lula no dia seguinte às eleições? Precisa da autorização do mestre?). Mas mesmo assim, confirmo convictamente que nunca votaria num candidato de extrema-direita, apoiante da ditadura, defensor da tortura e da violência, tecnicamente ignorante, misógino, racista, xenófobo, homofónico. Por isso, a solução é o mal menor. Esqueçam os pecados do PT, votem de olhos fechados, votem no mal menor como um dia Paulo Portas se referiu ao apoio de Cavaco Silva na primeira candidatura à Presidência da República. Não consigo imaginar um Brasil regredir em pleno século XXI.Que país é esse?

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

#elenão


No dia em muitas das cidades do Brasil, e incluíndo outras como Lisboa, vão manifestar-se contra Bolsonaro eu também digo: “ele não”. Bolsonaro é o exemplo de que pode sempre existir pior. Está na hora de a sociedade brasileira perceber que Bolsonaro à frente dos destinos do Brasil será uma desgraça. E não confiemos no absurdo da possibilidade. Arrisco-me a dizer que Bolsonaro é ainda pior do que Trump. Bolsonaro, o homem que fala abertamente e sem vergonha em resolver a violência matando; que deseja a morte de adversários políticos; que tem como ídolo um torturador; que nega a existência de ditadura; que insulta mulheres, que ameaça bater-lhes; que é apologista da tortura, que incita ao uso de armas, que se mostra publicamente a fingir empunhar uma arma; que apesar de viver num país de extremos económicos não aceita como solucão a reformulação dos privilégios dos políticos; que acha que ter uma filha é uma fraqueza, que se vangloria de só ter filhos homens; que não acredita na educação como mudança de uma sociedade; que acha melhor ter um filho drogado do que um filho gay, que acredita na cura gay; que enriqueceu com a política e que todos os filhos vivem da política; e por aí vai.

Um homem sem qualidades. Um político sem ideias, sem plano, sem estratégia. Um político que é o pior que a política pode ter como exemplo: um homem sem preparação alguma, sem qualidade técnica, sem empatia. Um homem que vive da descrença de um povo e de sound bytes. Um homem que nem falar sabe.

Hoje e até ao dia das eleições no Brasil é importantíssimo que os grandes exemplos não fiquem calados e usem a sua importância como “influenciadores” de opiniões e também digam “ele não”!   

Como estou fora de Portugal só  acompanho as notícias pelas redes sociais e o que me contam. Soube há poucos dias, com o sentimento que a humanidade de facto falhou, que juizes do Porto consideraram consentida a violação de uma mulher inconsciente. Para além  de repugnar a decisão destas pessoas supostamente acima de qualquer suspeita e superiormente educadas, o que leva seres humanos, seres bípedes com suposta inteligência violar uma pessoa inconsciente? Que prazer há nesse cenário mórbido? Uma pessoa inconsciente, que não responde a estímulos ser abusada por duas pessoas? Estes pseudo humanos não têm mães, irmãs, filhas, mulheres que respeitam e de quem gostem?  Que sentido faz isto? Isto não se passou no Brasil ou na Índia aconteceu em Portugal em pleno século XXI. Mostremos a nossa indignação. Falemos, ensinemos, gritemos que tudo se baseia em consentimento e respeito. Nem os animais irracionais são capazes de tal aproveitamento.,


quinta-feira, 10 de maio de 2018

O mal menor


Há uns anos, quando Cavaco Silva foi pela primeira vez candidato a Presidente da República contra Jorge Sampaio, Paulo Portas subira ao púlpito da Assembleia da República para apoiar o “mal menor”. Ele que tinha sido um dos principais alvos e manchetes d´O Independente no período político conhecido como “cavaquismo.  É esta a analogia que faço com Lula da Silva.

Nunca gostei do estilo. Nem das amizades. Nem de quem se rodeou. Nem dos silêncios. Nem dos desconhecimentos. Nem do mau-gosto. Nem do apoio a Chavez. Nem da apresentação do livro de Sócrates. No entanto, com tanto anti-Luluismo, até eu me rendi. Lula da Silva é o mal menor. Não vou dizer, como li muito, que “roubou mas fez”. Não sei se roubou. Não sei se foi corrompido. Cabe à justiça esse papel. O(s) crime(s) de que é acusado já foram confirmados em duas instâncias,  mas não transitou em julgado. O principal crime de que é acusado é um triplex no Guarujá. Ou seja, o equivalente em Portugal a ter um apartamento no Barreiro. Não é um apartamento em Ipanema ou no Leblon ou uma mansão em Trancoso ou Fernando de Noronha. Mas se é verdade, demonstra um imenso mau gosto e a aptidão para “vender-se” por pouca coisa. No entanto, até hoje, não vi prova nenhuma que demonstre que o apartamento era realmente seu. Mais, a ser verdade, 12 anos? É inegável que Lula da Silva tem imensos opositores, principalmente a alta burguesia e alta sociedade brasileira que vive no século XXI mas com tiques de século XVIII. Esta elite branca, de direita, milionária, priviligiada, que vive como (quase) nenhum lugar do mundo. Talvez algo comparado a alguns países de África em que só há miséria e fome e do outro lado esbanjamento. Esta elite perdeu direitos com a subida de Lula ao poder. Em vez de 5 a 7 seres humanos para tarefas domésticas correntes que incluiam: motorista, jardineiro, porteiro, faxineira, diarista, cozinheira, babá pagos a preços abaixo de electrodomésticos, começaram a ter que diminuir os seus luxos. Estas pessoas começaram a ter direitos e a não serem tratados como antes da abolição da escravatura.

Agora façamos o exercício de ser verdade que Lula da Silva é corrupto. Outros políticos como Aécio Neves que tem uma ligação difícil de explicar com um helicóptero com 500 kg de cocaína e que foi apanhado em escutas telefónicas a sugerir matar alguém que sabia muito. Temer que é Presidente sem ter sido eleito e suspeito de muitos crimes mas não foi a julgamento porque a política, nomeadamente o Congresso brasileiro permitiu que assim fosse. Aquele Congresso eleito pelos brasileiros, em eleições livres e democráticas, votou pelo impeachment de Dilma e não permitiu que Temer fosse julgado. Não sei quem naquele congresso brasileiro é isento de mácula.

A Isabel de Moreira que se intitula como Constitucionalista ter com cartazes “Lula livre” é uma anedota. Aliás, acho que a Isabel Moreira está no partido errado. De facto, ela deveria ser coerente e filiar-se no Bloco de Esquerda.

Ter visto José Sócrates, acusado de crimes semelhantes em Portugal em muito maior, comentar a prisão “política” de Lula da Silva foi lindo. Não conhecesse a excelente capacidade de argumentação combinada com a mentira compulsiva e eu acharia que estava a ouvir um dos mais brilhantes pensadores do séc XXI.

O mais curioso é que as pessoas que usam os argumentos anti-direita, que eu corroboro na íntegra, se esqueçam das situações políticas em Cuba e Venezuela. Os eternos mitos que estampam t-shirts por todo o mundo com as caras de Fidel e Che. Uma ditadura de quase 60  anos que fez milhares de exilados políticos e causou milhares de mortes no mar em fugas clandestinas. Nunca nos esqueçamos de Reinaldo Arenas. E a Venezuela, senhores? Primeiro Chavez, depois Maduro. Preciso de descrever a situação que lá se vive e que a comunidade internacional insiste em ignorar e a esquerda não aborda deliberadamente?

sexta-feira, 30 de março de 2018

Seremos todos (algum dia) Marielle


O EUA é esse país capaz do melhor e do pior. A mais antiga e mais usada linha celular foi criada sem consentimento da sua dadora, Henrietta Lacks, uma mulher negra, pobre, nos anos 50 que sofria de cancro. O país da Rosa Parks que se recusou dar o lugar a um branco mas que ainda existe o Klu Klux Klan. O país que viu nascer e morrer assassinados John F. Kennedy, Martin Luther King e Malcolm X. O país que foi capaz de eleger o primeiro Presidente negro mas foi também o país que preferiu um louco para Presidente em vez de escolher uma mulher. O país onde na semana passada o The New York Times reconstruiu, baseado em imagens de comeras de hotel, os dias do atirador que matou dezenas de pessoas em Las Vegas. Carregou várias dezenas de malas, durante vários dias, com tudo planeado, alugou dois quartos e foi o responsável pelo maior número de mortes resultante de um tiroteio. Um país onde entre 2006 e 2009 me era pedida identificação para comprar cigarros mas onde comprar uma arma ou várias era (mais) fácil. O país onde várias pessoas mataram outras pessoas em tiroteios só porque sim, por razões políticas, por ódio, por racismo ou sem se saber a razão e porque qualquer pessoa pode ter acesso a uma arma. Um país cuja capital parou para dizer não às armas. Um país que tem adolescentes capazes de se mobilizarem e de discursos como os que se fizeram na semana passada em Washington é um país com futuro e onde a esperança não está (de todo) perdida.

Depois, na América do Sul, temos o Brasil. Há anos que se morre por nada. A vida (lá) vale muito pouco. Tenho um amigo que é um acérrimo defensor de Lula. Por causa dele, diz ter conseguido estudar e chegar a um dos mais altos graus académicos. Ele que é, como se apresenta, por desordem alfabética: brasileiro, pobre e preto. Pior, no Brasil, só se fosse mulher, favelado e homossexual. Há umas semanas foi executada uma vereadora Câmara do Rio de Janeiro, do partido político PSOL. Ainda não se sabe quem foi nem a razão. Sabe-se (apenas) que foi uma execução política. Nunca tinha ouvido falar dela. Mas conhecia Marcelo Freixo o candidato a Perfeito do Rio de Janeiro e o deputado federal Jean Wyllys. Marielle que reunia tudo o que uma pessoa no Brasil de agora não pode ser: nasceu pobre, na favela da Maré, era preta, mulher e lésbica mas estudou e chegou a vereadora. Era uma activista, uma voz incomoda, (quase) sem medo. Ousou denunciar a extrema violência da polícia militar nas zonas pobres e era a personificação de que estudar vale a pena.  Mas quando pessoas que apesar de estereotipadas têm voz são silenciadas, já não basta só ter medo nem vir para as ruas. Nunca gostei de Lula mas tenho que aceitar que de tudo o que aconteceu nos últimos anos foi o melhor. Quando no Brasil existem políticos com o baixíssimo nível que vemos na televisão todos os dias, quando o Perfeito do Rio é um Bispo da IURD cheio de cirurgias plásticas e cabelo pintado que quer tornar a cidade mais bonita pintando as fachadas das casas das favelas, quando se ausenta da cidade no Carnaval, a época mais crítica da cidade, e quando insiste num estado sem ser laico; quando um dos possíveis candidatos à Presidência do Brasil é um reaccionário, apoiante da ditadura militar, que numa discussão pública afirmou que uma deputada merecia ser violada, que acha que a solução da violência no Rio está em bombardear as favelas; Quando os maiores intelectuais brasileiros dizem que os alunos saem das escolas analfabetos funcionais. Quando quem não está a favor, está contra. Quando não existe meio termo. Quando as pessoas destilam ódio e ameaças nas redes sociais. Quando se é julgado e seleccionado pela cor de pele... resta perguntar: o Brasil (ainda) tem solução? É  por isso que eu sendo branca, não sendo de esquerda, muito menos caviar, de não ser burguesa, digo: devemos ser todos Marielle!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Das rosas

São pessoas como Adriana e Nestrovsky, e todos os grandes nomes da música brasileira, que dão a mais valiosa e sagrada imagem do Brasil no mundo. Um Brasil culto, informado, moderno, dos grandes escritores e poetas, que domina a língua portuguesa, que pensa, que tem opinião e (sobretudo) que não tem medo.

Já que as pessoas gostam tanto de classificar, este espectáculo é um recital em forma de lição de Adriana Calcanhotto com Arthur Nestrovsky, construído a partir da apresentação única feita na Biblioteca Joanina em Dezembro de 2015, aquando da comemoração dos 725 anos da Universidade de Coimbra. Nesse dia, para uma plateia de somente 100 pessoas, que só incluía convidados, Calcanhotto ainda tinha o cabelo comprido, ainda usava brincos compridos de filigrana da alta joelharia portuguesa, aguentou um frio daqueles, usou o mesmo vestido de veludo comprido preto e foi feita Embaixadora da Universidade de Coimbra.

Em Lisboa, os mesmos estão (sempre) presentes na plateia. Mísia, não foi esquecida nos elogios. Esta amiga é para Calcanhotto a “professora de fado e pastéis de bacalhau, entre muitas outras coisas”. O amigo David, que Adriana, achava por bem lá estar, e ele não falhou, foi tratado por “meu amor” e também foi lembrado pelo envio das manchetes da época sobre “o escândalo, o disparate e a heresia de Amália a cantar Camões”.  Mas “Amália é Amália e ela pode tudo”. Ana Vidigal estava ao meu lado, na segunda fila. Passaram por mim a quase brasileira e a especialista em Brasil, Alexandra Lucas Coelho, e o temido crítico de música do Público, Nuno Pacheco. Avistei ao longe Anabela Mota Ribeiro, Pilar del Rio, Eduardo Lourenço, Mísia, António Barreto, José António Pinto Ribeiro...
Adriana, entra a sorrir sob palmas ruidosas. Coloca cuidadosamente o violão a tiracolo. 

O cenário é minimalista. Uma mesa com uma jarra de rosas vermelhas, uma partitura onde tem o iPAD e os óculos, dois amplificadores, o banco e o microfone de Arthur Nestrovsky, que permanecerá vazio até à décima música. Adriana “de vestido de veludo de seda preto, largo, mangas compridas justas, decote em barco, aquele cabelo curtíssimo que lhe dá um ar antigo e mostra a linha do crânio, impressiona. Graciosa, cultivada, acompanhada pelo Arthur Nestrovsky, outro ser que irradia luz”. Estas últimas palavras são da Fernanda Mira Barros que descreveu em pouco o que eu não vou conseguir dizer com muito.


Copyright: Rita Burmester

O espectáculo começa com Tive um coração perdi-o cujos versos são de Amália. Adriana fala que conhecia os versos de Amália, tem até um livro, mas que nunca tinha prestado muita atenção “tanto quanto, quando”ouviu os versos na voz de Mísia. Para mim, que conheço as duas versões, esta versão em forma de balada sussurrada, não tanto de fado, ficou perfeita.

Segue-se Negro amor popularizada na voz de Gal Costa, um hit radiofónico no Brasil. É uma uma versão para português de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti da canção  It’s all over now baby blue de Bob Dylan, o “nosso Nobel da Literatura”. Adriana sente-se escandalizada por acharem um escândalo Dylan ter sido galardoado com o Nobel. Aquela história chata de sempre de se poder achar que letra de música é menos de que poesia. A voz, nesta canção não atinge, de todo, a perfeição. Mas nesta, o verdadeiramente importante não é a versão mas a mensagem e o significado.

O outro de Mário de Sá-Carneiro que Adriana musicou “se é que se pode chamar isso de musicado”. A descoberta de Mário de Sá-Carneiro deu-lhe a oportunidade, para além de “o conhecer a ele mesmo, de conhecer pessoas muito interessantes que também gostam muito dele". E uma das pessoa mais interessantes que ela destaca é a “Professora Cleonice Bernardinelli que é uma amante e especialista em língua portuguesa. Fizeram alguns saraus juntas “ela fingindo que lê porque ela tem uma memória maior que toda essa sala aqui reunida”.  Cantou em forma de fado  Senhora dos olhos lindos, que Cleonice Bernadinelli lhe pediu, especialmente, para musicar. Genialmente tocada e inesquecível versão. Na sequência, explica que Cleonice Bernardinelli não quer ser chamada de Professora nem de Dona mas apenas de Cleo “para ficar mais próxima da gente, ela tem 101 anos, eu entendo perfeitamente”. Destacou que têm muitos interesses em comum: nasceram as duas no século passado, gostam de Mário de Sá-Carneiro, de ovos moles de Aveiro e gostam muito de Dom Dinis. Na ocasião do concerto na Biblioteca Joanina, dentro da Universidade de Coimbra, “tinha que cantar Dom Dinis, claro”. Relata que quando voltou para o Brasil, ligou para ela e disse: “Cleo, eu cantei Dom Dinis na Biblioteca Joanina em português arcaico” ao que ela respondeu: “Pra quê isso menina? Eu passei isso tudo para português moderno em 1953”. A coincidência improvável é que exactamente o poema O que vos nunca cuidei dizer (cantiga de amor), pelo qual Adriana se interessou, não estava traduzido para português moderno.  “Então, por culpa exclusiva da Professora Doutora Honoris Causa por Coimbra, Cleonice Serôa da Motta Bernardinelli, serei obrigada a cantar a primeira estrofe de uma cantiga de Dom Dinis em português arcaico, me perdoem”.

Depois seguiu-se a canção a cappella do trovador provençal Arnaud Daniel Canso do ill mot son plan e prim traduzida em português por Augusto de Campos Canção de amor cantar eu vim. Adriana chamou-lhe o “Bob Dylan do séc XII”. Mas ao contrário de Bob Dylan, Arnaut Daniel era “muito rarefeito, de um artesanato poético incrível. Ele fazia um tipo de trobar clus. Um trobar muito refinado, muito sofisticado. Foi o inventor forma poética sextina” [sestilha -estrofe de 6 versos de 7 sílabas e rimas simples). “Foi recuperado por Dante na Divina Comédia onde é a única criatura que fala na sua língua nativa (provençal). Mais tarde, Pound, recupera-o de novo. Lança a semente da alta poesia moderna europeia. Nas iluminuras, os trovadores aparecem fazendo gestos. E cada gesto, cada ângulo de cotovelo, cada quebrada de punho tem um significado”. E Arnaut Daniel aparece sempre como “olha como eu sou maravilhoso, olha como eu sou rarefeito, olha como sou incrível”.
Seguiu-se a Poética do eremita de Fiama Hasse Pais Brandão pelo qual Adriana se apaixonou à primeira vista. Referiu a sua dificuldade de entrar nessa poesia tão densa e tão hermética. Esta foi esquecida em Coimbra.


Copyright: Márcia Lessa

Copyright: Márcia Lessa
Adriana terminou a actuação solo com uma versão de Com que voz de Camões eternizada na voz de Amália. Há algum tempo atrás, Adriana soube do escândalo (através do amigo David de Lisboa que lhe mandou as manchetes da época) que foi Amália cantar Camões. Assim como o escândalo de Bob Dylan ter sido galardoado com o Nobel da literatura. “Eu fico escandalizada por alguém se escandalizar com isso”. As manchetes da época classificavam: “Isso é um escândalo. Isso é um disparate. Isso é uma heresia. É Camões. Ela não tem direito de fazer isso”. E o outro lado dizia: “Ela é Amália, pode fazer tudo o que quiser”. Juntos, Amália, Alain Oulman e Camões fizeram Com que voz. Que balada linda ficou a versão de Adriana.

“Não é possível disfarçar para vocês que não preciso mais dos óculos”. Assim começa a segunda parte, em que Adriana lê o poema Mortal loucura de Gregório de Matos no iPAD e entra Arthur Nestrovsky que faz o eco (final de cada verso que era a última parte da palavra anterior), na versão musicada de Zé Miguel Wisnik. O domínio do violão de Nestrovsky é do nível académico. Gregório de Matos nasceu em Salvador mas “era de nacionalidade portuguesa, como todos os que nasciam no Brasil no séc XVII. Estavamos até pensando nisso, em recuperar isso, devíamos todos voltar para cá do jeito que as coisas vão no Brasil”. Cantava os seus versos pelo Recôncavo baiano com uma violinha de cabaça.

Depois fizeram um salto de três séculos e passaram para Vínicius de Moraes, “um extraordinário poeta de livros que viria a tornar-se um extraordinário letrista de canções e também compositor”. Adriana diz (de cor) Soneto de Corifeu, tão lindo.

E a seguir cantou Valsa de Eurídice, letra e composição musical de Vinícius  que a escreveu como presente de aniversário de 15 anos da filha Susana (mulher de Adriana Calcanhotto, falecida em 2015). Esta canção termina, também, com a palavra saudade: “Pensa que a saudade/ mais do que a própria morte/ Pode matar-me/ Adeus”. Para além de ser um letrista maravilhoso que compôs meia dúzia de canções incontornáveis do cancioneiro popular brasileiro. No entanto existe alguma controvérsia: “Susana andou fazendo uns cálculos e descobriu que quando a música foi feita ela já tinha 16...”. Esta valsa foi incorporada anos depois no musical Orfeu da Conceição. Vínicius  teve a primeira ideia da junção da tragédia grega com a cultura negra do povo do morro do Rio de Janeiro. Numa noite, perto do Carnaval, teve uma inspiração fulgurante e passou a noite a escrever praticamente o texto inteiro que viria a ser o Orfeu da Conceição. E para musicar o texto ele procurou um arranjador que estava a começar e tinha muito talento, António Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Seguiu-se outra canção de Vinícius de Moraes compositor, Medo de amar: “...Porém, não se surpreenda se uma outra mulher/ Nascer de mim, como do deserto uma flor/ E compreender que o ciúme é o perfume do amor”.

Seguiu-se a belíssima Noite de São João de Alberto Caeiro musicada por Fred Martins. Para mim, um dos momentos mais bonitos da noite. Mais uma vez, como as flores que deram o nome a esta lição, Adriana leu um poema sobre rosas, As rosas com bolores de Adília Lopes. E Segue o teu destino de Ricardo Reis e musicada por Suely Costa.


Copyright: Márcia Lessa

Há uns anos, a Universidade de Coimbra decidiu atribuir o título de Doutor Honoris Causa ao Reitor da Universidade Federal da Bahia, à época, Edgardo Santos. Esse foi um homem extraordinário que coincidiu com um momento extraordinário da história do Brasil. Foi um período realmente muito curto de florescimentyo da cultura brasileira, de cerca de 10 anos que incluiu: invenção da Bossa Nova, movimento de educação pública, desenvolvimento da arquitectura moderna brasileira, a nova capital do Brasil- Brasília, o cinema novo, o Brasil foi bicampeão de futebol com Pelé. Uma época em que Juscelino Kusbichek começa o seu mandato em 56 até à implementação da ditadura militar em 64, interregno democrático, de marcado crescimento económico e cultural promoveu o supra descrito. Então o Edgardo Santos, Reitor da UFBA, considerado um cosmopolita levou muitos investigadores convidados de fora para a universidade, incluíndo Walter Smetak, um músico suiço com o qual estudaram Caetano Veloso, Tom Zé e Gilberto Gil. Então aquando da vinda de Edgardo Santos, foi convidado também Assis Chateaubriand, o magnata das comunicações, uma espécie de Citizen Kane brasileiro. Como ele não pode vir, convidou Dorival Caymi o representasse, representando a Bahia. Então Caymi veio pela primeira vez a Portugal com a cantora Doris Monteiro. Passou alguns dias aqui e teve alguns encontros, alguns deles memoráveis, incluíndo o encontro com Amália. Diz-se que ali ocorreu “o casamento entre o samba e o fado”. Se o casamento foi ou não consumado, não se sabe. Quando Caymi estava a caminho de Coimbra para a cerimonia, parou nas Caldas da Raínha e existe uma fotografia muito bonita dele junto de um roseiral na estrada. A partir dessa experiência, Caymmi compôs a canção que deu o nome a este espectáculo Das rosas, que eu achava que viesse do Milagre das Rosas da Raínha Santa Isabel (mulher de Dom Dinis).
Sem nenhuma palavra a apresentá-la a seguinte foi a lindíssima Cajuína de Caetano,cantada em dueto,com uma letra tão enigmática que Arthur Nestrovsky explicou:

Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina


Aqui Nestrovsky dá-nos uma verdadeira aula de metafísica filosófica, com perguntas sem resposta e os seus significados. “Existirmos: a que será que se destina?”. Convenhamos que um autor que é capaz de fazer uma canção com a pergunta das perguntas não é pouca coisa. Esta é uma versão da pergunta existencial do filósofo alemão Martin Heidegger (cujo livro, Nestrovky em Coimbra, citou em alemão, uma vez que nas próprias palavras, a plateia devia ser unanimemente constituída por académicos) "por que existe afinal ente e não antes nada?". Existe outra formulação dessa pergunta num conto Manuelzão e Miguilim de Guimarães Rosa, na cena final, em que o menino Miguilim questiona a mãe: “Mãe, mas por que é, então, para que é, que acontece tudo?”. Heidegger pergunta isso na terceira pessoa, a voz do pai fazendo a pergunta de fora; Guimarães pergunta do ponto de vista do menino confrontado com o mistério da existência; e Caetano faz essa pergunta de um modo muito diferente. Existir, neste caso, é ao mesmo tempo substantivo e verbo. A cena da canção remete para o encontro de Caetano Veloso com o pai de Toquatto Neto (amigo e parceiro de Caetano na época da Tropicália que se suicidou no dia do próprio aniversário) em Teresina, capital do Piauí: “A flor já é um presente em si, é uma dádiva, não é uma coisa que vai durar, que vai permanecer. O que permanecerá é o gesto do presente.

Já a rumar para o final, canta Morro dois irmãos de Chico Buarque, que fez parte do repertório do seu disco A fábrica do Poema. Lê depois o poema do Canção do exílio de Gonçalves Dias: “Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o Sabiá;/ As aves, que aqui gorjeiam,/ Não gorjeiam como lá. A penúltima canção foi Sabiá. Com versos de Chico Buarque aos 24 anos e música de Tom Jobim. Esta canção é uma espécie de Canção do exílio. A canção Sabia ganhou o festival da canção no Maracanazinho sob os apupos da plateia porque não perceberam o significado da canção. É sobre um lugar imaginário, um lugar que não existe ou que não existe mais. O sabiá na palmeira não canta, eu que sou bióloga, aprendi isso com um músico). Arthur não esquece de referir que não se cumpriu esse desejo do Brasil, um país que ainda não se cumpriu, e que ainda há pouco perdeu uma grande oportunidade. Sempre velado, nunca directo, foi o mais claro que conseguiu ser na crítica política à situação do Brasil actual. Não se ouviu, como nos concertos de Caetano, “Fora Temer”. Não sei se porque as pessoas estão demasiado desanimadas ou se não eram politizadas... Fica a pergunta por responder.

Termina em apoteose com o pout porri com Coimbra e Chega de saudade com sotaque brasileiro e com melodia de bossa nova, que termina com toque e gesto de Carmen Miranda, e a palavra saudade com sotaque português.

No encore do Porto, Adriana disse que era a primeira vez de Arthur Nestrovsky no Porto: “Eu avisei a ele”. E que também disse: Esta sala parece um pouco fria”. Ao que ela respondeu: “Espera”.Confidenciou que na primeira vez que esteve no Porto com Dé Palmeira e que se lembra que era numa sala com cortina e que ele disse enquanto a corina fechava e olhava para ela: “Isso não é uma platéia, é família”. Como no decorrer do espectáculo faltou o que eles chamaram de “maior compositor gaúcho”, Lupicinio Rodrigues: Nunca e
Voltou para um segundo encore: “Em que é que posso ser útil?” e só em Lisboa terminou com duas músicas: Esquadros e Inverno. Em Coimbra e Porto ficou-se, apenas, pela primeira. O Porto, ah o Porto, acompanhou baixinho.
Comentei com a Anabela Mota Ribeiro o quanto este espectáculo/concerto/recital mais parecia uma aula. A Ana Vidigal classificou-o no seu blog como “lição”. Essa é a verdadeira palavra, a que me faltava. Uma verdadeira lição de literatura e de história da cultura e música brasileira, principalmente dos últimos 50 anos. Este modelo não é totalmente desconhecido nem inovador. Assisti por duas vezes ao que Maria Bethânia denomina de “recital” Palavras. A diferença é que as histórias, referência e notas de rodapé não são tão profundas nem extensas. Ao contrário de Nuno Pacheco, que classificou  de “extensos enquadramentos, explicações e contextualizações” e aconselha que esta é uma “jóia por lapidar, onde a música e a poesia só terão a ganhar com um corte drástico no didactismo”, eu acho que foi magistral. A outra crítica que faz é à voz de Adriana: “a sua voz não esteve nos melhores momentos”. Esta é a diferença entre um crítico e uma leiga. Um crítico é imparcial e uma leiga gosta ou não gosta. E este não era um espectáculo de canção. E Adriana não é uma interprete virtuosa como Gal, Bethânia ou Elis. Então, qual o problema da voz?

Quando se sai do espectáculo quase não se sabe o que fazer com tanta informação. Sai-se de coração cheio. Depois da ovação catártica em Coimbra, quando Calcanhotto, surgiu no palco para o encore com a capa de Lente, ela que é actualmente Professora Convidada da Universidade de Coimbra onde leccionará neste segundo semestre na Faculdade de Letras, a fasquia para o Porto ficou muito alta. Mas o Porto, com as suas gentes tão sinceras e espontâneas, não desiludiu, mais uma vez.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Luana Carvalho

As pessoas que me conhecem bem sabem o quanto a música está ausente na minha vida e o quanto sou ignorante neste tema. Ouço cada vez menos, menos, menos música. E acho que há cada vez mais música desnecessária e que só polui o mundo. E com o passar dos anos, não me consigo concentrar na presença dela. Uso-a apenas para “mascarar” o barulho quando me incomoda, no ginásio (que vou com muita pouca frequência) e a andar de bicicleta (que era o meu meio de transporte em Houston). Para piorar os meus conhecimentos musicais, saio cada vez menos à noite e a pouca música nova que vou conhecendo limita-se à obra do acaso. Ou à grande transposição de resistência que às vezes concedo às músicas que os meus amigos me enviam.

A Luana foi uma das grandes surpresas do último ano. Conheci-a, e a sua voz, num fim de tarde lindo em Óbidos. Fiquei encantada. Falou bem, cantou bem e vim a saber que escreve (ainda) melhor. Acompanhada da poeta Alice Sant’Anna, do baterista e baixista da banda Tono. Foi daqueles encontros memoráveis e irrepetíveis que ficam apenas gravados na memória, em que tudo parece ser perfeito. Ali era apenas a Luana. Com as letras, as canções, a voz, a música, os óculos e o violão. Lembro-me, para sempre, que se falou de Machado de Assis, de baleias, de mar, de Moby Dick, da Mangueira...

Em Outubro foi convidada especial do Moreno Veloso no S. Luiz. Cantou “Deusa do amor” e “Invente-me” que serão para sempre a imagem dela, para mim. E no final do concerto foi-me apresentada pela Anabela Mota Ribeiro. Pessoalmente Luana é tal e qual como a cantora que se revelara no palco, como leitora de poesia dela e dos outros, como compositora, como instrumentista: gentil e delicada. Disse-me que os discos seriam lançados em Janeiro, e assim foi. Cumpriu-se.

“Sul” saiu saiu primeiro em todas as plataformas digitais. Ouvi do princípio ao fim, repetidamente, sem me cansar. Tem sido a minha companhia, como barulho (bom) de fundo. A capa, na primeira vez que a vi, lembrou-me “Moby Dick”. Não sei se era essa a intenção. E estão lá, tão perceptíveis a guitarra de Pedro Sá e o violoncelo de Moreno Veloso. “Invente-me” é de morrer de amores. E já sei o significado de “cabrocha”.

“Branco” é diferente. Parece-me um trabalho muito mais experimental e autoral, muito decantado. Um conjunto de sons e palavras cuidadas que não se parece com nada. Talvez daí o nome branco. Ou um zero (não absoluto). Algo no disco me fez (re)lembrar da sonoridade de “Cantada” de Calcanhotto. Sou só eu que achei?

Este trabalho duplo da Luana não é só música, nem canção, nem interpretação. É muito mais. Mais além. Para lá. Muitas expressões artísticas numa só. O muito que se transforma em pouco. A simplicidade tão difícil de conseguir, atingida. A beleza da arte como uma coisa só.


sábado, 10 de dezembro de 2016

Deus-dará de Alexandra Lucas Coelho

Este livro é uma exaltação sobre uma cidade. São Sebastião do Rio de Janeiro. A “melhor cidade da Via Láctea”. Sete dias nesta cidade, na semana do carnaval. Este livro faz-nos ter muita vontade de a conhecer. Essa cidade tão tudo: exagerada, diferente, insegura, tão cheia de contrastes, cheiros e cores. Uma cidade que exalta a força da natureza e a forma inatingível dessa beleza que não foi feita pelo Homem. Como os livros de Jorge Amado que nos mostraram a Baía, este mostra-nos o Rio real. Nu e cru. Como diz a personagem portuguesa, Inês: “Incrível, é como chegar a Nova Iorque (...) Nunca aqui estive, mas estive. Porque a gente cresce com isto, estas imagens”.

O livro tem exactamente 551 páginas e é viciante. Não sei como o classificar. Já que as pessoas gostam tanto de dar um nome às coisas: é ficção, mas também é memória e ensaio e deve ter muito de autobiográfico. O que sei (bem) é o trabalho de pesquisa contido nele. É um cruzamento de histórias dos sete personagens principais no presente (não necessariamente por ordem cronológica  nem no mesmo espaço temporal) com o passado da descoberta do Novo Mundo, com a independência e respectiva abolição da escravatura, com o Brasil presente, com a escravatura mascarada.

Gabriel Rocha “pirata crioulo”, tem uma pala no olho esquerdo. “O olho se foi num estilhaço, briga de facções carioca”s. É o mais cortejado sociólogo do IFCS, bastião da Universidade pública. Tem um filho adolescente de 14 anos, viciado em laptop, celular e playstation.

Judite Souza Farah, 1,80 m, um arraso, irmã de Karim e Zaca, faz parte da elite carioca Não conduz. Está prestes a ser sócia do maior escritório de advogados do Rio de Janeiro. Ficou com Gabriel que a deixou em poucos dias. Casar-se-á com o rico Rosso de quem ficará viúva. Largará a advocacia.

Zaca, irmão de Judite. Fez a biografia do maior sambista brasileiro e ficou famoso aos trinta. Descobre-se homossexual.

Lucas 90 kg, 1.97 m. Nasceu em 91,índio arraçado de negro e de branco. Entrou em História na UERJ. Orfão e mudo. Ficou assim depois do trauma de encontrar a mãe pendurada numa árvore e depois de quase ter sido sufocado pelo assassino dela. Trabalha num elevador enjaulado por horas como o da estação 168 em NY  (Columbia Medical Center). Volta a falar graças ao amor de Noé e depois da experiência psicadélica com ayahuasca.

Noé “carapinha black power”, universitária bolsista da favela, finalista de Ciência Política na PUC. Engravida de Lucas.

Tristão nascido em 83. Português, antropólogo e católico. O seu nome vem do navegador Tristão da Cunha. Está nos antípodas do carioca: sem músculo e a perder cabelo antes dos 30.

Inês, portuguesa, sozinha na vida, franja curta, sobrancelhas separadas, boca bem vermelha, pele bem branca. Fuma. Veio de Beirute onde foi deixada pela namorada Yasmine. Tem a cabeça no Líbano. Yasmine saiu de Beirute e foi para a Tasmânia onde abriu uma pousada.

Li o livro em pouquíssimo tempo, apenas 5 dias (antes de dormir). Este texto demorou-me bem mais. Só sei que sou mais rápida a ler do que a escrever. A palavra que me ocorre é epopeia. Talvez um romance épico recheado pela “crueza” da verdade. A verdade é uma coisa difícil de se falar e difícil de se ouvir. Há factos, que talvez soubéssemos, mas que nos foram escondidos ou diminuídos, e quando sabemos deles neste livro temos um grito de revolta. Talvez a interiorização da verdade contida neste livro me choque tanto. Ocorre lembrar-me dos livros de António Lobo Antunes e da guerra colonial tão pouco explorada na nossa literatura. Os africanos que combatemos em África, das barbaridades que lá cometemos e que a culpa, por mais que até a queiramos assumir, não consigo dizer quem tem. Não sei a quem apontar o dedo. É de quem está ao longe a mandar? Quem dava a ordem? Quem tão jovem e ingénuo, tirado do país sem querer, e lá longe num país distante, sob o efeito daquela adrenalina do momento desata a matar, pela catarse de sentir-se muito grande no meio da multidão? Aquilo que António Lobo Antunes exalta sempre da coragem dos homens com quem esteve em África, que são os que menos culpa têm e que tão marcados ficaram.

O narrador, que é um brasileiro, é a voz de Alexandra Lucas Coelho. É um narrador que olha de fora, exterior a cada personagem. Não sei o que os brasileiros acharão mas eu acho que o narrador é bem brasileiro. Alexandra, parece conhecer o Rio como os cariocas que são “bonitos, bacanas, sacanas, dourados, espertos e que não gostam de sinal fechado, nem de dias nublados”. E só alguém com muito mundo, com muita experiência do Brasil, uma quase carioca (que não nasceu no Rio) podia ter escrito um livro destes sem “apanhar dos dois lados”. O lado do colonizador e o lado do colonizado, se é que existe um lado, se é que as coisas se dividem (tão simplesmente) em preto e branco. O lado da culpa ou a total ausência dela. E o melhor de tudo: o que aprendemos com este livro. Uma verdadeira lição histórica. E as referências bibliográficas. Obriga-nos, pelo menos, a pensar. E depois, uma lição literária e musical: Nelson Rodrigues (esse grande cronista que eu já li há algum tempo porque comprei alguns dos seus livros e biografia em São Paulo), Machado de Assis esse mulato órfão de mãe desde criança, que era disléxico, epiléptico, doente dos olhos, casado com uma portuguesa, fundador da ABL e não tinha filhos), Carlos Drummond de Andrade, Caetano...

Este romance mistura muito bem o presente com o passado. Para além de ficção inclui factos históricos. Aprende-se muito com este livro. Os portugueses, que poderiam nem pensar nisso, ou sentirem-se redimidos com o passado histórico, da descrição d’Os Lusíadas’ de Camões que exalta a epopeia portuguesa pelos mares. Um nobre povo, quase à semelhança do povo judeu, o escolhido, põe a descoberto o lado negro do “achamento” do Brasil. Coloca o dedo na ferida e coloca sal em vez de bálsamo. Esta visão fria e crua do nosso passado colonial, de um país colonizador à força, é muito pouco comum quando é uma portuguesa a fazê-lo. Alexandra, é por isso, uma das poucas.  Faz-nos (re)lembrar os índios que nós matámos e os milhões de africanos que tirámos de África e que escravizámos e que estão apagados da maioria dos manuais escolares.  Nós que exaltamos os nossos descobridores e navegadores mundo desconhecido adentro, aprendemos (apenas) que a História de Portugal é só triunfo, ousadia e audácia. E este livro traz, relatos verdadeiros. Eu que sou cientista, que leio muitos ensaios, romances e biografias mas que não leio muito sobre história, fiquei chocada com o que li do Vasco da Gama que está ao lado de Camões nos Jerónimos. Nós que aprendemos desde sempre que a nossa colonização tinha sido a melhor, que nos misturamos, que criamos a miscigenação, que criamos uma nova raça, os mulatos, não foi isso. Pouco nos questionamos que essa mistura foi com toda a certeza feita à força assim como os militares da Guerra Colonial no Ultramar abusavam e violavam nativas (obviamente) sem o seu consentimento. Isso são os factos que ninguém quer falar. Aquilo que ficou morto e enterrado e que ninguém quer trazer à luz do presente com a desculpa que ninguém tem culpa dos erros dos nossos antepassados.

Este romance mostra que há sempre novas possibilidades de se olhar o mundo. As múltiplas possibilidades. O que me surpreende é a base teórica, bibliográfica e factual deste livro. Não se trata de um romance que se limita à voz da imaginação mas aos factos históricos negros e crus. Faz-nos pensar (tanto). Quem sabe redimir dos nossos pecados, tão judaico-cristãos?

Para quem como eu, não conhece o Rio e apenas o imagina, fica ainda com mais vontade. Parece uma cidade imprevisível, caótica, inesperada onde a alegria está (sempre) à espera de acontecer.

E este romance que insinua um apocalipse, e uma das personagens diz “que nunca acontecerá aqui”, mesmo quando tudo parece perdido, quando se elege um Prefeito evangélico que acredita no criacionismo, achamos que tudo está (mesmo) perdido e que não terá solução. Mas é o contrário, esta cidade (Rio) e este país (Brasil), são sobreviventes, reaprendem e renascem sempre reinventando-se. E agora, que escrevo numa altura em que a eleição Trump parece ser o apocalipse temos a esperança que ao contrário da música que diz “anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar”, o mundo não acabe (de vez).


sábado, 1 de outubro de 2016

A antítese

Percorro a Rua Direita de manhã e o ambiente de hoje não é o mesmo. Turistas e mais turistas. Daqueles que querem ver o maior número de coisas em menor tempo. Brasileiros, muitos brasileiros. Mulheres plastificadas de caras iguais. Daquelas que falam muito alto. Lula teve essa responsabilidade, democratizou o acesso das viagens para o exterior. Estas brasileiras não são daquelas que habitam muitos dos prédios em Portugal. Não são daquelas que descem à rua a mostrar mais do que devem, mesmo quando os seus corpos não sejam (para ninguém) um objecto de desejo, mas que ganham dinheiro para mandar para a terra natal com os anúncios que colocam no jornal a publicitar os seus serviços (cada vez a preços mais baixos. Dizem que é a crise, senhores). Não, não são dessas. Mas são aquelas que entram numa livraria e dirigem-se (apenas) para a secção infantil para comprar os presentes de Natal. São daquelas que apregoam aos sete ventos, no Brasil, perante as suas faxineiras e diaristas que são descendentes directas de alemães, espanhóis ou italianos. [Portugueses não. O português é europeu mas é  brega. O português é (apenas) o dono de padaria, supermercado ou restaurante. E isso, não é suficientemente bom para elas]. Estas são aquelas que dizem que são caucasianas puras e não morenas, pardas, pretas, mestiças. Apregoam isso, como se fosse uma virtude. E são aquelas que vêm a Portugal e continuam com o síndrome do colonizado. A culpar Portugal pelo mal do Brasil, que foi descoberto em 1500 e é independente desde 1882 mas não sabem que José Bonifácio foi quem descobriu o lítio. Eu gosto é de grandes mulheres brasileiras que assumem o que são. Que não têm vergonha do que são. Que não precisam da sua ascendência nem da sua genética para provarem o que valem.
O cenário muda quando chego à tenda do Folio Lounge. Tudo atrasado, felizmente. Agradeço ao universo pelos americanos que tentaram entrar no meu quarto porque confundiram o número. E mesmo com o aviso de "Não incomodar" insistiram em tentar abrir. O barulho foi tanto que acordei de uma sesta que devia ser de minutos e foi de mais de uma hora. Acordei na hora do evento. 

Passam por mim Pedro Sá, o grande amigo de Moreno Veloso. O estupendo músico, guitarrista da banda Cê que acompanhou Caetano Veloso. Deixou crescer o cabelo. Vejo o Pedro Luís, grande músico, também. Passa por mim, também, a (aparentemente) tímida Alice Santa'anna, uma enorme poeta que para pena nossa ainda não está publicada cá. Vejo também a omnipresente Anabela Mota Ribeiro que se desculpa pelo atraso. Este será o evento da Casa Cais idealizado pela Luana Carvalho (que eu não conhecia, como é possível?). É esta a composição: Luana Carvalho, Alice Sant'anna, Pedro Sá e Rafa. Um palco sóbrio com uma laranjeira que até se verão folhas a cair. A vida em movimento. Pedro Luís subirá ao palco para os acompanhar numa música. Anabela Mota Ribeiro abre com a leitura de um excerto do grande livro do não menos grande Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas" personagem que fez Direito na Universidade de Coimbra e viajou de Lisboa, onde chegou de barco e depois seguiu para a cidade dos estudantes. Eu não tenho palavras para descrever o que este evento foi. Tanta música desnecessária no mundo e eu não conhecia a Luana Carvalho? Que descobri hoje ser filha da Beth Carvalho. A Alice Sant'anna é a delicadeza em pessoa. Lê bem, apresenta-se bem e (ainda) canta bem. Leu partes de um dos seus livros e as palavras que mais retive foram: baleia e Japão. Que lindo que foi. Que maravilha. A vida feita de pequenos nadas. É aquela laranjeira, carregada de laranjas, cujas folhas caiam... A iluminação perfeita. Uma obra de arte. Inesquecível. E estes são também brasileiros. A antítese perfeita. Como não amar?

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