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sexta-feira, 19 de abril de 2013

Olhos de onda @ Culturgest


No livrinho que nos deram à entrada tinha um texto da Adriana:
Adoro o palco da Culturgest. Nunca vou esquecer do meu primeiro concerto em Lisboa, sozinha com minha guitarra e uma audiência mágica, em Outubro de 2000. Na primeira noite caí de amores pela cidade, e por Portugal, dentro dela. Naquela noite fiz amigos queridos e é tudo nítido e intocado na minha memória, em geral bem turva. Naquela noite entrei em Portugal, ou Portugal entrou em mim, vá lá, para sempre, a porta de entrada sendo o convite da Culturgest, por António Pinto Ribeiro. Lembro que no camarim, em um carrinho, haviam garrafas de guaraná do Brasil sem que ninguém houvesse pedido e aquilo me comoveu logo antes de entrar em cena. Lembro também de sentir mais frio do que imaginava. Lembro sobretudo do frio na barriga antes de entrar no palco, que de algum jeito dura até hoje.

De modo que quando recebi o convite para me apresentar no mesmo formato solo, nas comemorações de vinte anos da casa, disse sim na mesma hora. Não tinha um concerto preparado, não tocava há muito, não saberia se conseguiria e até aqui, sinceramente, não sei, mas por isso mesmo. Andava doida para retomar a guitarra, portanto para inventar um roteiro pensado para Portugal, para pegar a estrada, pela janela do quarto, pela janela do carro, trancafiada em quartos de hotel enquanto Portugal está lá fora, tocando compulsivamente para que o concerto seja lindo e inesquecível como só em Portugal pode ser, enfim, o novo convite da Culturgest era tudo o que mais eu podia querer no momento em que ele chegou. Depois pegar a estrada seca, com Diogo ao volante, comer doces de ovos em Aveiro, partir atrás de baleias açoreanas, ir ao Fado e acordar inchada na manhã seguinte para dar entrevistas sem parar, me emocionar cantando meus poetas amados para as pessoas, pensando bem, o que mais alguém poderia querer?(...) Fiz turnês solo, pela Europa, toquei na África, no jardim das esculturas do MoMA, no complexo do Alemão no Rio, em salas antigas, em salas míticas, em ginásios, em espeluncas. Foi sempre assim, tomando e retomando, que convivemos, o instrumento fora de moda no Brasil, e eu.

A retomada desta vez deve-se ao fato de que precisei parar de tocar, o abandono desta vez foi obrigatório, por conta de uma lesão chatinha na mão direita. Exatos um ano e seis meses sem poder tocar sendo que no justo momento em que deveria sair em turnê com O micróbio do samba, punhado de canções que compus e gravei, adivinhem, na guitarra. O óbvio, que seria então não fazer os concertos do álbum, acabei não conseguindo, já que não tive coragem de cancelar os três concertos portugueses agendados e eles acabaram gerando o Micróbio vivo e o resto é lenda.

No mais, como sempre digo, no meu ofício quem comanda são as canções, e não me debato com isso. Gosto, aliás, de ser levada por elas. Então nunca tenho a menor pretensão de ser coerente com um alinhamento adiantado, adiantando que ando tocando aquelas das quais estava com muitas saudades, algumas das quais havia até esquecido, algumas do micróbio do samba, algumas das quais tenho inveja porque gostava de as ter escrito, algumas que escrevi mas foram gravadas por outros artistas, poemas que musiquei, e alguma coisa nova que ninguém é de ferro. Olhos de onda, por exemplo, que batiza o alinhamento, qualquer que ele seja, fiz enquanto ensaiava. Além de inaugurar nova safra, o que sempre é motivo de alegria, a canção ajudou a dar o norte do recital. Constatei quando essa canção nasceu que as outras já estavam também falando do que ela fala e da língua portuguesa e do mar da língua e por aí vai.

De tudo um pouquinho, como a receita da felicidade, deixando sempre aberto o espaço para poetas que me apareçam e para novas canções que podem sempre me arrebatar mais perto da hora ou que podem ser escritas no camarim, sacrificando para isso certezas absolutas no repertório, tudo é possível, graças aos deuses.
Aqui estamos, eu, a guitarra e algumas canções que adoro, nos reencontrando, como se fosse a primeira vez, nos encontrando pela primeira vez quando é o caso, desejando viver mais uma noite "daquelas", no palco querido da Culturgest, antes de por o pé na estrada, enfim. Importante é que aquele frio na barriga antes de entrar no palco sozinha com minha guitarra, permanece, se não aumentou e foi para isso que vim”.

Quem escreve assim, como não esperar o melhor?

Dizem que não há concerto como o primeiro. Começo a acreditar que é verdade.  A primeira vez que vi a Adriana foi há muitos anos, em 2000 ou 2001 no dia 1 de Portugal (24 de Junho), em Guimarães. Estava um dia de calor que tudo parecia derreter. Eu não conhecia o trabalho dela e fiquei a gostar nessa tarde e nessa noite.  Tocou com o António Chaínho e mais um violoncelista e um percurssionista. O concerto foi na Praça de Santiago e enche para vê-la.
Hoje passados mais de 10 anos, a receita voltou a ser quase a mesma. Entra elegantemente vestida de vestido azul petróleo a cobrir-lhe os pés e cabelo preso. Achei o concerto melancólico ou eu é que estou “tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar”.  Apeteceu-me chorar várias vezes. Mas tinha um gajo a ressonar ao meu lado, com a cabeça tombada quase a tocar-me no ombro. Eu, a um metro de distância do palco, passei o tempo envergonhada porque achei que a Adriana ouvisse e visse aquelas figuras.
O alinhamento do concerto, segundo a própria, foi escolhido propositadamente para a estreia em Lisboa. Os dois poemas de Sá-Carneiro “O outro” e “Vislumbre”, não podiam ser esquecidos. Cantou a novíssima “Olhos de onda” que dá o nome ao espectáculo. Canta outra quase desconhecida “Maldito rádio” com um “ajudante” a mudar de estação enquanto ela toca. Não se esqueceu das mais conhecidas "Inverno", “Esquadros”, “Mais feliz”, “Vambora”. O encore terminou triunfalmente ao som de “Fico assim sem você “ e “Maresia” (na qual ela solta o cabelo e um ventilador simula o vento vindo do mar). A Adriana, com quase 48 anos mostra que é como o vinho do Porto.  Eu cortaria o cabelo....mas ela é quem sabe!


Copyright: Hiromi Konishi
Copyright: Hiromi Konishi

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Clarice Lispector - A hora da Estrela

Hoje abre a exposição "A hora da Estrela" na Fundação Calouste Gulbenkian sobre a obra e vida de Clarice Lispector, no ano que passam 35 anos desde a sua morte. Deixo aqui um vídeo de «uma canção que Caetano Veloso escreveu baseado num livro de Clarice Lispector "A hora da Estrela. Essa canção fala da chegada da Macabé que é a personagem central do livro. O impacto que ela sofre chegando npo Rio de Janeiro e olhando os contrastes e enfim...Quando eu cheguei no Rio de Janeiro tive mais ou menos a mesma sensação da Macabé, achei isso interessante, engraçado porque a Macabé é alguém que chega no Rio de Janeiro vinda do norte. E eu cheguei do sul e era muito parecida à chegada. A canção se chama "Nome da cidade"...».

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Domingo em Lisboa

Apesar do tempo atípico para Lisboa, que amanheceu nublada e com um imenso nevoeiro, que nem dava para ver o majestoso Tejo, continuava com aquela luminosidade que só esta cidade tem. Aqui estamos, eu, e Lisboa num reencontro, como se fosse a primeira vez. O que eu não gosto nesta cidade são dos taxistas. Quase sempre parecem mudos e com cara de poucos amigos, conduzem mal e têm carros péssimos. Parecem que estão habituados a corridas de carro. Não poucas vezes discutem com os outros condutores  Na sua maioria fazem sempre o trajecto mais comprido e gostam muito pouco de dar trocos. Foi o que aconteceu, mais uma vez, desta vez entre o Parque das Nações e o Campo Pequeno. Nestas alturas lembro-me tanto do meu querido C. que me salvou tantas vezes de perder o comboio, que me levou a mim e à C. a casa nas muitas noites em que não levávamos carro ou o deixávamos algures pela cidade. Ainda hoje quando não me pode ir buscar manda-me o melhor dos seus amigos e telefona-me a saber se já estou no comboio.

Encontrei-me com as queridas S. e R. na entrada do Campo Pequeno. Fomos almoçar demoradamente ao “Rubro”. Muito bom. Comemos várias tapas, não me lembro quais (se não as fotografar é o que acontece) e bebemos um excelente vinho espanhol “MURUVE”. Estes almoços e jantares são sempre demorados, carregados de risos e sorrisos, de memórias, de histórias, de disparates e sempre regados a excelentes vinhos e com óptima comida. São as nossas maratonas gastronómicas, como disse um dia a S. Bebi demais, como quase sempre, e nada melhor do que deambular por livrarias onde não conseguia ler nada!! Fomos a várias livrarias no centro de Lisboa para comprar um livro que não encontrei. No fim da tarde atravessamos a minha amada Lx para o meu regresso a casa.



1º Encontro PARSUK/ PAPS/ FIIP - Percursos em Ciência: Diversidade contra a Adversidade – Parte II

A Maria Mota, que eu também só conhecia da televisão, pela malária, como o nosso amigalhaço (não é caríssima?!) Miguel Che Soares. A Maria disse que no 5º ano já sabia o que queria ser quando olhou para um esfregaço de sangue. E que antes de entrar para a faculdade foi visitar com a mãe as duas faculdades de medicina do Porto, uma vez, que era de V.N. Gaia. Gostei desta coisa de ela assumir que é de Gaia e não fazer como todas as pessoas que são de Ermesinde, Gondomar, Maia e afins, dizem que são sempre do Porto. Entrou em Biologia no Porto e disse que detestava ecologia e acordar cedo para ver as aves e isso. Mas como vinha de uma família rígida, o que se começava era para acabar. Contou que ela mais uns amigos, naqueles anos de “vacas gordas” candidataram-se a “fundo perdido” de milhares de escudos para desenvolver umas plantas. E aquilo até ia dar certo. Até que um dia, quando passava num dos corredores do ICBAS viu um anúncio de Mestrado que lhe chamou a atenção. Foi para a entrevista, com a Maria de Sousa (pelo que tenho ouvido dizer bastante intimidadora) e a meio da entrevista mudaram para inglês, que ela não dominava. Saiu a achar que tinha corrido muito mal, que não seria aceite e nem sequer contou a ninguém. Mas afinal enganou-se, foi aceite. E para ela foram meses fantásticos, foi muito duro mas maravilhoso. Foi para Londres e o chefe de laboratório era fantástico, inteligentíssimo mas só esteve com ele de Jan de 1995 a 8 Set de 1995. Reformou-se depois disso. Teve toda a liberdade do mundo. O doutoramento foi “o prazer da descoberta”. Muda-se depois para NYC para fazer o post-doc, aí, foi “o amadurecimento e o entusiasmo extrovertido”. Voltou para Portugal, para o IGC, onde continuou a ter “completa liberdade”. Três anos mais tarde mudou-se para o IMM com muitos investigadores muito jovens, todos têm o prazer pela descoberta. Não falou do regresso a NYC... Reparei, como todos os investigadores tem um vício, o de roer as unhas.

O Nelson Lopes, o outro orador, é médico, farmacêutico e é o responsável pela divisão de ensaios clínicos na BIAL. Começou por dizer que a ideia que as pessoas têm da indústria: “uma investigação de terceira, com trabalho de segunda e ordenado de primeira”. Disse que a indústria recruta cientistas de alto calibre. A carreira dela não foi um percurso convencional para um médico. Entrou em Farmácia, que não gostou. E tal como a Maria Mota, também é de V.N. Gaia e de uma família rígida. Andava numa fase romântica com as leituras do Camilo Castelo Branco. E nessa altura teve uma conversa com um grande amigo, Dr. Jorge Ferreira, grande pneumologista português que lhe disse que ele tinha duas opções: doutoramento ou Medicina. O que ele queria era investigação, algo mais aliciante. Entrou em Medicina na Universidade de Lisboa com o objectivo de seguir investigação clínica.

O Nuno Arantes de Oliveira que eu conheci há muitos anos numa conferência de células estaminais no IST, disse nunca ter sido um aluno brilhante, ao contrários dos oradores anteriores. Apesar de ter feito Biologia, nunca se considerou biólogo, mas a mãe ainda hoje diz que ele é biólogo. Foi a uma entrevista no IGC com o Prof. Coutinho para doutoramento em Biologia e Medicina e foi aceite. Mas ainda sem saber o que queria ser. Escolheu a UCSF em San Francisco. A escolha teve a ver  com a cidade (olha outro como eu!!!)  porque laboratórios fantásticos conheceu ele pelo mundo fora. A cidade para ele era fantástica. O seu doutoramento foi feito na área do envelhecimento e a pergunta a que queria responder era “Porque é que as pessoas morrem?”. Fez um Post-doc na área de inovação. Formou a ATGC/Alfama, empresa de desenvolvimento de fármacos.

Depois ainda houve outros oradores, menos interessantes, na sua forma de cativar a plateia e de contar a sua história.

Gostei de ouvir falar o Carlos Caldas que é oncologista e tem um laboratório no Cambridge Research Institute. Nunca teve fama em Portugal. Primeiro foi para Dallas, depois para Baltimore, Londres e ficou em Cambridge, onde conseguiu a cátedra. Segundo ele “subiu à procura da excelência”. Citou várias vezes poemas, a que não me esqueci foi tirada do “Livro do desassossego” de Fernando Pessoa: “ Saber não ter ilusões” e ainda parafraseou o “Comboio descendente”:

No comboio descendente.
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E os outros nem sim nem não

Fernando Pessoa

Um investigador que gosta de poesia, só pode ser bom! E ainda apareceram por lá o Carlhos Fiolhais e o Mariano Gago.

Do segundo da esquerda para a direita: Nelson Lopes, Nuno Arantes Oliveira, Diana Marques, Irene Fonseca e Maria Mota 


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

1º Encontro PARSUK/ PAPS/ FIIP - Percursos em Ciência: Diversidade contra a Adversidade – Parte I

Este primeiro encontro, com lotação esgotada, em Lisboa, no Pavilhão do Conhecimento realizou-se no sábado dia 22. Estavam lá os que mandam na Ciência em Portugal: o Ministro da Educação e Ciência (Nuno Crato), a Secretária de Estado da Ciência (Leonor Parreira) e o Presidente da FCT (Miguel Seabra). Foi surpreendente ver estas pessoas, qque deveriam ter muito mais o que fazer em véspera de Natal, estar presente neste evento. Acho que não está tudo perdido! Falaram que aumentaram ligeiramente as bolsas de pós-doutoramento e diminuíram as bolsas de doutoramento. Querem saber a minha opinião? Acho muito bem.

Começar um doutoramento está a tornar-se a única saída para muitos, mas uma saída ilusória e temporária. É como aqueles candidatos a programas de música que cantam muito mal e que perante um juri percebem que nunca ninguém lhes disse o quão mal cantavam.  Isto dava pano para mangas. Mas com uma população envelhecida, com a falta de incentivos à natalidade, é de perceber que cada vez menos alunos entram nas universidades  e que o número de professores funcionários públicos não diminui, e por isso há que criar novos Mestrados e Programas Doutorais para manter  o sistema. Não sei como isso se resolve. Não tenho uma solução, mas também não acho, como muitos, que existe uma solução a muito curto prazo. As mudanças são dolorosas, envolvem lobbies, e situações estabelecidas intocáveis.

O presidente da FCT disse que o financiamento dos projectos aumentou de 70 para 90 milhões. Eu de números não percebo nada, mas como ninguém na sala contestou, eu acredito.  Ele disse também que a FCT antigamente era um multibanco e  é agora muito mais gestão. Falaram na habitual meritocracia e de um sistema de boas práticas de avaliação. Propôs uma coisa que eu já há muito pensei. E o Ministro falou para aquela sala de investigadores que era um luxo podermos fazer ciência em Portugal, porque não estávamos no 3º mundo. No Uganda não deve haver dinheiro para comer, quanto mais para ciência. Claro, e eu por mim falo, que ninguém imagina o quanto um doutoramento feito, em parte no estrangeiro, nos enriquece. A questão é que um país como o nosso, não se pode dar ao luxo de patrocinar na totalidade bolsas, ajudas de custo, propinas e afins. O mais justo seria um sistema de co-financiamento, mecenatos ou projectos. Eu, com muito desgosto meu, não fiz o doutoramento à custa da FCT, que a única coisa q me pagou no meu doutoramento foi a impressão das teses. Mas fiz o doutoramento porque alguém acreditou em mim e me deu uma bolsa equivalente à da FCT e que arranjou um acordo com um laboratório estrangeiro (que é comum no meu grupo) para o qual vamos pro bono mas as experiências são sustentadas pelo lab de acolhimento.


Da esquerda para a direita: João Íncio, Leonor Parreira. Nuno Crato, Miguel Seabra e Tiago Fleming Outeiro

O orador seguinte foi o António Coutinho, ex-director do Instituto Gulbenkian de Ciência. Acho que nunca o tinha ouvido falar pessoalmente. Pelo sotaque notei ali qualquer coisa do norte, achei que fosse do Porto, confirmo agora na wikipedia que é de Aveiro. Começou por dizer a piada que um colega indiano lhe dissera que o presidente e o primeiro-ministro indiano sabem calcular uma derivada. Formou-se em Medicina e o internato complementar na FMUP e queriam que fosse para a tropa, e como ele não queria foi para fora. Esteve 30 anos fora. Como ele disse, não percebia nadinha de investigação e o primeiro orientador dele disse-lhe: “You go around and talk to the people, I´m not here to teach technitians”. “You need to know what you want to do”. Segundo ele, os estudantes têm que saber fazer e convencer o orientador sobre a sua ideia. Claro que ele criticou esta nova forma de fazer doutoramento em 3 anos que é totalmente não-inovadora. Os alunos não desenvolvem a sua ideia, desenvolvem a ideia dos seus orientadores, que é a coisa pior que se pode fazer, proibir os jovens de pensar por eles próprios. O Prof. Coutinho disse que em 1972 trabalhou dia e noite e não fez nada que se visse, nada de jeito, isto no Karoliska Institute. Mas depois de resolver o problema, as coisas acabam sempre por acontecer.
Depois, mudou-se para Basileia para fazer o Post-Doc e as questões mudaram e já eram 3:
What you want to know? Then, is just to think about it all the time and to find the most acute continuation;

Uns anos mais tarde foi nomeado catedrático de Medicina- Head of Department.Não havia ninguém lá dentro.  Nunca tinha feito administração nenhuma na vida a não ser dos seus ratos. Mas afirmou que lá foram passados os melhores anos da vida dele. Arrisquem, foi o que disse.

Na sua opinião é uma excelente altura para se voltar para Portugal. O dinheiro está a diminuir mas a execução está a aumentar, as farpas lançadas. As posições da FCT são livres, por mérito.

O IGC por muitas críticas que se façam, tem n laboratórios individuais, com n PIs, tem uma média de publicação incrível em termos de Factor de Impacto, as ERC atribuídas a iniciantes são imensas. E ele diz uma coisa, claro que é mais importante e tem mais valor um Science ou um Nature ser conseguido aqui do que em qualquer outro lab do mundo. Quando falou de publicações, referiu sempre que era o factor de impacto que contava e não o número.
Fez uma crítica directa aos painéis de avaliação da FCT, que não compreendia, como é que as pessoas que estão nos conselhos científicos são as mesmas que estão a concorrer para essas mesmas grants.

E terminou a dizer “Deus nos livre ou o Menino Jesus de pormos a nacionalidade à frente da qualidade científica”. E eu termino a dizer que quem me dera que o CV dos estrangeiros fosse avaliado como o nosso e não pelo facto de ser estrangeiro já ser bom! Mas eu sei do que é que ele está a falar, daquelas “cabeças” estrangeiras que estão no IGC e que o seu CV fala por eles.
António Coutinho

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Hélio Oiticica – “Museu é o mundo” @ Museu Colecção Berardo




A exposição do Hélio Oiticica tinha uma projecção do Magic Square nº 5 permanente do Museu do Açude no Rio de Janeiro. 




A exposição valeu por ter visto de perto os “Parangolé Pamplona” a capa que “a gente mesmo faz”.



Parangolé Pamplona

O parangolé pamplona você mesmo faz 
O parangolé pamplona a gente mesmo faz 
Com um retângulo de pano de uma cor só
E é só dançar 
E é só deixar a cor tomar conta do ar
Verde Rosa 
Branco no branco 
no peito nu 
Branco no branco no peito nu
O parangolé pamplona 
Faça você mesmo
E quando o couro come 
É só pegar carona 
Laranja Vermelho
Para o espaço estandarte
"Para o êxtase asa-delta"
Para o delírio porta aberta 
Pleno ar 
Puro Hélio
Mas, o parangolé pamplona você mesmo faz

Adriana Calcanhotto


Artur Bual

Agora deu-me para isto... Já não me bastava a minha paranóia por livros e agora interessar-me por arte. Como não sou rica, nem tão pouco milionária, os meus objectivos são assim por baixo. Encontrei um site de leilões onde foram leiloadas várias serigrafias e desenhos originais... Estava muito interessada numa janela/porta com varanda da Maluda mas ficou para além do meu orçamento... Acabei por conseguir esta serigrafia sobre papel, assinada e datada de 1993, série H.C. numerada 14/20, motivo "Terreiro do Paço", com 45x62 cm (moldura com 78x96 cm). Ainda não a vi pessoalmente. Estou a aguardar o envio. Vamos ver o quão viciada vou ficar... 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

António Lobo Antunes no Festival LER

No Domingo ao fim da tarde ainda corri para conseguir assistir ao encerramento da 1ª edição do Festival Ler no Cinema São Jorge. Por volta das 5, quando cheguei ainda me cruzei com Gonçalo M. Tavares e consegui comprar uma 1ª edição do livro do António Lobo Antunes “Não é meia noite quem quer”. Enquanto esperava e as pessoas iam aglomerando-se à espera que a sala abrisse, passou por nós um distante, carrancudo, distraído, antipático, ou quem sabe, somente tímido, Lobo Antunes.

A primeira vez que conheci pessoalmente António Lobo Antunes foi em Braga na Centésima Página e apesar de adorá-lo como escritor achei-o irónico, distante, antipático, revoltado, desinteressado, gozão... e na altura, a conversa foi tediosa, desinteressante, queixosa, pessimista...Aliás, achei que estava a ouvir um louco saído do Miguel Bombarda... e se não fosse as dezenas de livros que carregava comigo teria saído antes de acabar.

Anos depois, no domingo, ia com essa falta de expectativa mas quando começo a ver o início da conversa com a simpatia e sorrisos do Carlos Vaz Marques comecei a pensar que o Lobo Antunes ficasse cativado. E foi o que aconteceu. Eu acho o Carlos Vaz Marques o melhor entrevistador/ conversador deste país depois da ausência da Margarida Marante (noutro estilo). [Fazendo um parêntesis, foi depois de uma entrevista do António Lobo Antunes à Margarida Marante sobre o “Esplendor de Portugal” que comecei a ser uma fiel leitora dele]. Nesta conversa falou-se de tudo. Elogiou a voz do Carlos Vaz Marques dizendo “é a voz mais bonita que conheço”. Falou de tudo, de sentimentos, da família, de escritores, de livros, de escrita, da doença... Um incomum Lobo Antunes mais descontraído, confessional e que conseguia para além do seu humor característico, contar piadas e rir-se. Cada vez mais nota-se uma abertura nas suas conversas, fala cada vez mais da família e do pai. Nota-se que apaziguou de um período de afecto conturbado. Disse ter sido muito injusto com muita gente, principalmente com a família. E disse também que pediu desculpa a Vasco Graça Moura “um grande poeta”. Elogiou Scott Fitzgerald mas disse que achava grandes escritores chatos como Thomas Mann e Kafka. Mencionou que Garrett e Herculano eram escritores que escreveram maravilhosamente bem. O filme que mais viu na vida foi “Joselito, o pequeno cantor”. Adora filmes piegas.Assumiu para ele o maior defeito é a ingratidão. Afirmou também que viveu sempre aterrorizado com o tempo desde menino, que sempre sentiu que tinha muito pouco tempo e viveu e vive com esse medo.“as mentiras que os outros exigem que nós digamos”. Citou frases mal feitas de vários livros: “Quando acordou estava morta”; “Era uma praia perto do mar”.

No plano auto-confessional disse aos 14 anos disse aos pais que queria deixar de estudar  e ser escritor. “Teria ficado um Prado Coelho se fosse para letras. Já que não foi para letras foi para medicina. Escolheu medicina por pertencer a uma família de médicos. Sempre estudou jogadas de xadrez, estudava tudo menos Medicina. Falou da guerra e de como os generais sempre foram para com ele muito generosos, leais e honestos. Confessou que a pessoa que mais gostou foi do avô materno, a pessoa mais tolerante que conheceu. Fazia-lhe carinhos, ao contrário dos pais que nunca o fizeram. Os seus amigos eram sempre mais velhos e os melhores foram Cardoso Pires, Eugénio de Andrade e Ernesto Melo Antunes. “Quando um amigo morre fica um vazio”.

Quando esteve doente há 6 anos, o cirurgião pegou-lhe na mão e ele, dessa forma, achava que não ia morrer. O quanto esse gesto foi importante para ele.



segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

The Big Lettuce

Viajei para Faro com a Ryanair. Sou pouco habitual. Foi a minha 2ª vez. Quase ia perdendo o avião e ainda por cima implicaram com a minha mala (acho que é o modelo mais pequeno da Samsonite que eu comprei propositadamente para ser a minha mala de cabina). Depois de ter ficado doente quando me disseram que eram 53 euros e que não podia pagar com CC ainda fui levantar dinheiro... lá segui para o avião debaixo de chuva diluviana. Pouco mais de uma hora aterramos em Faro, outro dilúvio mas mais quente, com a minha querida G. À minha espera. A minha apresentação ainda não estava pronta mas já tinha lido a tese e as perguntas que iria fazer... Ainda passei parte da noite a adiantar a apresentação. Dormi pouquíssimo. Faro estava lindo de manhã. Seguimos para a Universidade. Seminário de uma hora acabamos e seguimos para o sushi. Às 3 defesa da tese de Mestrado. O que parecia uma tese não muito brilhante, verificou-se o contrário pelo brilhantismo da apresentação da candidata e pela defesa segura e conhecedora do trabalho. Eu que ia com uma opinião, rendi-me completamente e não tive dúvida nenhuma em dar a nota. Sou justa sempre e sou generosa quando fico rendida. Saí feliz pelo dever cumprido.

Chegar a Lisboa, vinda do Sul, atravessar a Ponte 25 de Abril e aparecer aquele mar imenso de claridade, aquele rio gigante e aquela cidade que se debruça sobre nós, é algo que não se explica por palavras. E a luz de Lisboa é única!
Como o dia anterior tinha sido longo, com uma lecture e como arguente principal numa tese de Mestrado, não tinha dormido quase nada. Mas o dia acabou com um brilhante peixe de mar fresquíssimo.  Vinho branco, salada montanhesa  e torta de amêndoa. Se é para fazer asneira, é em grande. Depois seguimos para o “artistas” uma associação cultural tipo Velha-a-Branca mas centenário. Decorria uma festa electro com dois DJs.
Como não sou mais tão jovem assim, não fiz muitos planos para Lisboa. Mas tinha uma conversa marcada por volta das 6. Essa que me fez ir a Lx. Saí do hotel e fui ao El Corte Inglês procurar uns ténis da Tiger Mexico 66. Acreditam que não sabiam o que era nem a marca?? Na secção se desporto!! Perdi-me nos livros e depois fui jantar ao gourmet. Tinha combinado ir à festa do “fim do Mundo” do “Alfama-te” mas estava cansadíssima.

No dia seguinte tinha combinado peq. almoço com duas amigas. Acabei por tomar o meu no hotel e seguimos para o Corte Inglês. Falamos imenso de política e de discordar e muita coisa mas concordar em tantas outras. Atrás de mim estava uma senhora que quando eu defendia a inutilidade da greve se insurge e diz-me:...As minhas amigas foram umas queridas e levaram-me ao CCB porque eu queria ver a exposição do Hélio Oiticica. Até lá chegarmos fizemos um verdadeiro tour por LX, melhor do que aqueles autocarros do City Sightseeing.
Lá cheguei ao Museu Berardo e já passava da uma. Comecei pela exposição do Hélio Oiticica que tinha uma projecção do Magic Square nº 5 permanente do Museu do Açude no Rio de Janeiro. A exposição valeu por ter visto de perto os “Parangolé Pamplona” a capa que “a gente mesmo faz”.


A colecção Berardo estava  muito reduzida nem Paula Rego, Nem Warhol, Licheistein, Mondrian, Klein, Picasso... nadinha. Só 2 Julião Sarmento e o retrato do Joe Berardo pelo Julião Sarmento. O resto não reconheci nada. Depois andei nos jardins dos Jerónimos e fui aos pasteis de Belém comprar uns mimos para os papis e mano. 
Regresso à Rua da Prata, vejo as lojas, vou para a Rua Augusta com lojas engraçadas e artistas de rua, rua cheia. Na rua Augusta apaixono-me por uma aguarela de um eléctrico com um motivo de azulejo. Vou para a Rua do Ouro. 




Subo pela Rua Do Carmo, a abarrotar de gente. Que bem me senti ver a minha capital com as lojas foras dos centros comerciais repletas de gente, castanhas a assar, pessoas a passear, muita gente. Entro na Foot Locker e pergunto novamente pelos ténis: “Ah? Não conheço essa marca...” OMG, estou na capital ou na província?! Quem trabalha nas lojas não é suposto ter formação?? 
Fui à Assírio e Alvim onde no dia anterior tinha sido a apresentação do livro do Al Berto.
Adiante, sigo para o Chiado para a Benard mas estava fechada. Torro dinheiro na Massimo Dutti e sou ainda ajudada pelo Nuno Santos que via o mesmo pullover que eu queria para o meu irmão mas que não tinha a certeza do número. Ele questiona a funcionária sobre a existência da mesma com cotoveleiras e eu aproveito para pedir o mesmo. Perguntei se sabia se um L corresponde ao 40 ao que ele diz: “Eu sou um XL”.



 Depois fui à rua Anchieta aos saldos da Bertrand, nada que me agradasse. Sigo para a “Vida Portuguesa” onde me perdi pelos sabonetes da Ach Brito, um táxi dos antigos vermelho e verde para o meu sobrinho mais velho e uma moto com condutor e com uma carroça para o mais novo.



Sigo para o Cinema São Jorge para o Festival da Ler para ver a conversa entre o Carlos Vaz Marques e ainda me cruzei com o Gonçalo M. Tavares. Saio, com muita pena minha às 6:40 para ainda passar no hotel e seguir para o Oriente. O taxista dizia-me que era quase impossível chegar a tempo... 





quinta-feira, 25 de outubro de 2012

"Um eléctrico chamado desejo" - Tennessee Williams


Em 2010 vi "Um eléctrico chamado desejo" no Teatro Nacional Dona Maria II encenado pelo Diogo Infante com Alexandra Lencastre, Albano Jerónimo, Lúcia Moniz, Pedro Laginha e Paula Mora nos papéis principais. Depois de um dia de trabalho no já nem lembrado "Portugal Tecnológico", um dos exemplos do despesismo do governo Sócrates, rumei de um hotel no Parque das Nações ao Rossio de táxi. Esta peça marcava o regresso da Alexandra Lencastre ao teatro, quando era "mais " conhecida pelos seus papéis na tv. Foi a primeira vez que a vi no teatro. Foi uma noite mágica. Na altura não tive a certeza se isso se deveu à qualidade dos actores, à qualidade da encenação ou à qualidade da tradução. Hoje, 2 anos depois, e depois de ter assistido à mesma peça em NYC, posso afirmar e ter a certeza que as representações da  Alexandra Lencastre no papel de Blanche Dubois e do Albano Jerónimo no papel de Stanley Kowalski foram memoráveis.

Esta obra prima da dramaturgia do séc XX consagrou Tennessee Williams como um dos maiores escritores americanos. Aqui retrata-se o confronto entre os valores tradicionais do sul da América e o materialismo agressivo da América moderna. 

Blanche Dubois, uma frágil e solitária sulista, decide visitar a sua irmã Stella que vive nos bairro pobre de New Orleans. A célebre frase de Dubois "Eu não quero realismo, eu quero magia"reflecte a história de uma mulher literalmente atormentada pelo passado e a viver num mundo de fantasia que só existe na cabeça dela. Fisicamente, apesar de nunca admitir, é visível o passar do tempo "Apaga essa luz demasiado forte! Apaga isso! Não quero ser vista debaixo desse clarão impiedoso!". Quando questiona  a irmã sobre o seu aspecto e tendo ela respondido que estava óptima: " Uma mentira piedosa! Nunca a luz do dia mostrou uma ruína tão completa"(...) "Detesto lâmpadas sem quebra-luz". É uma mulher extremamente frágil, com um medo terrível da solidão: " As pessoas frágeis têm de brilhar. Têm de usar cores suaves, cores de asas de borboletas, abafar a luz com uma lanterna de papel... Não chega ser suave. tem que ser suave e atraente. E eu já estou a murchar! Não sei por quanto tempo consigo manter a ilusão!" (...) e que tem o álcool como grande companheiro: "Vá, não te preocupes, a tua irmã não se tornou numa alcoólica, está apenas abalada, cheia de calor, abalada e suja". E está sempre a ouvir piadas do cunhado Stanley: "O whisky desaparece com o calor. Há pessoas que quase não tocam no whisky, mas o whisky toca-as a elas." 

Com o desenrolar da história percebe-se que teve um grande desgosto de amor e que o amava insuportavelmente quando descobriu que o seu marido estava na cama com um homem mais velho. Depois disso fingiram que nada se tinha passado. Um dia, muito bêbados e a dançar a Varsoviana, ela disse-lhe saber de tudo e que tinha visto. O marido parou de dançar e saiu e após isso ouviu-se um tiro... Após essa tragédia: "a luz do mundo apagou-se outra vez e nunca, desde então, por um só momento, houve luz mais intensa do que esta... vela de cozinha...". O Stanley  (marido de Stella) é nas palavra se Blanche :" Um animal, comporta-se como um animal, tem comportamentos de animal, come como um animal, mexe-se como um animal, fala como um animal... é um sobrevivente da idade da Pedra... e talvez te bata e grunha... Stanley é o arauto da tragédia, é ele que vai desmascarar Blanche: "Devias saber o que ela tem contado ao Mitch...ele pensava que ela nunca tinha ido além dos beijos com nenhum homem...é tão famosa como o Presidente dos Estados Unidos, com a diferença de não ser respeitada por ninguém!”. A decadência, solidão e loucura de Blanche vai-se percebendo até se tornar catártica. E termina com a frase: “Eu sempre dependi da bondade de estranhos”.


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