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sexta-feira, 19 de abril de 2013

Olhos de onda @ Casa da Música


Como a própria Adriana diz nunca nada é igual todas as noites. Apesar de ela cumprir um rigoroso alinhamento. Até as piadas obedecem a um roteiro pré-definido. Tudo obedece estritamente a um guião como se de uma peça teatral se tratasse. Adriana Calcanhotto é assim, tudo nela e nos seus espectáculos é pura arte.Basta reparar na pontualidade, no cuidado do figurino, nas luzes, e até na simplicidade do palco onde ela passa quase uma hora e meia.

No Porto, cidade que ela diz "estar no seu destino" (ela é quem sabe), cantou os já conhecidos poemas do Mário de Sá-Carneiro, O outro e Vislumbre. Seguiu-se Eu vivo a sorrir:pro caso de o destino me haver reservado a alegria/ e o meu fado estar fadado a ser a sua sina”. Não parece tão português?

A terceira foi Três, dos irmãos António Cicero e Marina Lima, “ uma das tais que ela gostaria de ter feito mas não fez”: “(...) Trêseu quero tudo o que há/ o mundo e seu amor/ não quero ter que optar/ quero poder partir/ quero poder ficar/ poder fantasiar/ sem nexo e em qualquer lugar/ com seu sexo junto ao mar”.

Inverno, escrita com António Cicero e que nunca falta nos concertos da Adriana, mais referências ao destino, a saudade e ao mar: “...Lá mesmo esqueciQue o destino/ Sempre me quis só/ no deserto sem saudade, sem remorso só/ Sem amarras, barco embriagado ao mar...”. 

O nome da cidade,lindíssima canção que Caetano Veloso  escreveu baseado num livro de Clarice Lispector, A hora da Estrela. Esta canção fala da chegada ao Rio de Janeiro da Macabé que é a personagem central do livro.

A partir daqui começam os habituais monólogos confessionais da Adriana: “Vocês podem perguntar o que é que a próxima música tem a ver com Portugal e eu vou explicar. A Marisa Monte faz de vez em quando um ‘amigo oculto’, um ‘amigo secreto’, isso tem um nome diferente em cada lugar, enfim, é um sorteio...Ela fez o convite onde os compositores faziam composições de um sorteio, do acaso. Ela me ligou dizendo:  “Traga uma melodia, uma letra,  um trecho, um refrão, uma ideia...”. Eu levei o que eu tinha, uma melodia e no sorteio tirei o Dadi que é um autor de melodias, não faz letras. Então eu fui embora e me esqueci do assunto. Um tempo depois, algum tempo depois, eu esqueci logo porque a minha memória é um poço sem fundo. Muito tempo depois, eu estava no camarim no Coliseu de Lisboa pronta para entrar para fazer o espectáculo e me aviaram que o Arnaldo Antunes estava na plateia: “ele quer falar com você porque trouxe  a letra da canção de vocês”. E eu “A letra da nossa canção?!”. Isso tudo para dizer que nós concebemos essa canção em Portugal, no camarim do Coliseu de Lisboa e o Dé Palmeira, meu director musical, é que deu o título à canção: Para lá”.

Cantou também a inédita Olhos de onda quebatiza o alinhamento, qualquer que ele seja, fiz enquanto ensaiava. Além de inaugurar nova safra, o que sempre é motivo de alegria, a canção ajudou a dar o norte do recital. Constatei quando essa canção nasceu que as outras já estavam também falando do que ela fala e da língua portuguesa e do mar da língua e por aí vai”.

Olhos de onda
Ela parece comigo
Nalgumas coisas, doidas
Naquilo que crê não deixar transparecer
Ela parece comigo
Numas pequenas coisas
Gosta da lua cheia sobre a Lagoa
Porque será que ela tem os olhos de onda?
Porque será que ela tem medo de amar
Ela parece comigo
Nalgumas coisas, doidas
Naquilo que crê não deixar transparecer
Ela parece comigo
Numa porção de coisas
Gosta da lua inteira sobre Lisboa
Porque será que ela tem os olhos de onda?
Porque será que ela tem medo de amar?

Seu pensamento foi a seguinte. Para quem ainda tivesse dúvidas que este concerto foi tão pensado para Portugal, como a própria assumiu: “A uma hora dessas/ por onde andará seu pensamento/ Dará voltas na Terra/ ou no estacionamento? Onde longe Londres Lisboa/ou na minha cama?...”.

As confissões continuam com Motivos reais banais: “ Essa é uma das minhas parcerias com o Wally Salomão. Quando ele estava vivo nós trabalhavamos da seguinte forma: ele mandava o poema e eu começava a musicar e aí ele ia fazendo uma modificações. Modificações no vocabulário do Wally eram  apenas acréscimos, ele não fazia ideia o que eram cortes. Ele acrescentava versos, mais 2 veros, mais 3 versos, mais 8 versos, mais estrofes... e não havia como musicar e eu aí dizia “Parou aqui, tudo o mais que você acrescentar você publica no seu livro. Este trecho, de um poema muito extenso dele, eu fiz uma canção pequena que se chama Motivos reais banais.

A próxima canção foi um  poema do Augusto de Campos “que é um poema interactivo, para ser lido na tela do computador. E o Cid Campos, filho do Augusto, musicou esse poema. O que ele diz nesse poema é que após 50 anos de poesia concreta, ele está respondendo na verdade,  aos detractores  que disseram que ele com a poesia concreta ia levar a poesia para um lugar sem saída, ia se encurralar, q a poesia ia se pôr num beco sem saída. E ele fez esse poema lindo para dizer: “É isso mesmo”.

Por esta altura, alguém do lado oposto da plateia gritou, também com o sotaque do outro lado do Atlântico, “Adriana, você é a melhor!”, ao que ela respondeu envergonhada “Agora você me desconcentrou”.

Seguiu-se Tua popularizada por Maria Bethânia e Maldito rádio que contou com um colaborador, que ia mudando de estação de rádio e respectivas interferências. Leva-nos à questão: O que é ou não música? O que é arte? O que é apenas barulho que só polui?...

Devolva-me, não podia faltar mas faltou em Lisboa...

Cantou uma desconhecida, que me apetecia ter tido coragem no fim do concerto, perguntar qual o nome da canção com “você desperdiçou sexo do bom”.

Você não quis
Não deu valor
Que sendo amor de verdade
Desperdiçou sexo do bom
Meu próprio som, silêncio e outras raridades
Que faço eu?
Aonde vou?
Uma dor que me reparte
Aonde for
Para quem eu dou
A flor que em flor se  debate?
....

Para terminar deixou as que toda a gente estava à espera de ouvir:  Esquadros, Mais feliz, Cantada e Vambora.

O primeiro encore foi com Fico assim sem você do seu alter-ego Partimpim e terminou com Maresia, trocou  "um amor em cada porto” por “um amor aqui no Porto” e onde soltou o cabelo e ventoinhas simulavam o vento vindo do mar.

Depois de alguma insistência, La Calcanhotto voltou, não devia estar à espera. O segundo encore parece não ter sido pensado. Ela surge novamente no palco, um tanto ou quanto perdida, ao estilo de discos pedidos: “O que vocês querem ouvir?” E terminou com Ela é carioca e Mentiras.










Olhos de onda @ Culturgest


No livrinho que nos deram à entrada tinha um texto da Adriana:
Adoro o palco da Culturgest. Nunca vou esquecer do meu primeiro concerto em Lisboa, sozinha com minha guitarra e uma audiência mágica, em Outubro de 2000. Na primeira noite caí de amores pela cidade, e por Portugal, dentro dela. Naquela noite fiz amigos queridos e é tudo nítido e intocado na minha memória, em geral bem turva. Naquela noite entrei em Portugal, ou Portugal entrou em mim, vá lá, para sempre, a porta de entrada sendo o convite da Culturgest, por António Pinto Ribeiro. Lembro que no camarim, em um carrinho, haviam garrafas de guaraná do Brasil sem que ninguém houvesse pedido e aquilo me comoveu logo antes de entrar em cena. Lembro também de sentir mais frio do que imaginava. Lembro sobretudo do frio na barriga antes de entrar no palco, que de algum jeito dura até hoje.

De modo que quando recebi o convite para me apresentar no mesmo formato solo, nas comemorações de vinte anos da casa, disse sim na mesma hora. Não tinha um concerto preparado, não tocava há muito, não saberia se conseguiria e até aqui, sinceramente, não sei, mas por isso mesmo. Andava doida para retomar a guitarra, portanto para inventar um roteiro pensado para Portugal, para pegar a estrada, pela janela do quarto, pela janela do carro, trancafiada em quartos de hotel enquanto Portugal está lá fora, tocando compulsivamente para que o concerto seja lindo e inesquecível como só em Portugal pode ser, enfim, o novo convite da Culturgest era tudo o que mais eu podia querer no momento em que ele chegou. Depois pegar a estrada seca, com Diogo ao volante, comer doces de ovos em Aveiro, partir atrás de baleias açoreanas, ir ao Fado e acordar inchada na manhã seguinte para dar entrevistas sem parar, me emocionar cantando meus poetas amados para as pessoas, pensando bem, o que mais alguém poderia querer?(...) Fiz turnês solo, pela Europa, toquei na África, no jardim das esculturas do MoMA, no complexo do Alemão no Rio, em salas antigas, em salas míticas, em ginásios, em espeluncas. Foi sempre assim, tomando e retomando, que convivemos, o instrumento fora de moda no Brasil, e eu.

A retomada desta vez deve-se ao fato de que precisei parar de tocar, o abandono desta vez foi obrigatório, por conta de uma lesão chatinha na mão direita. Exatos um ano e seis meses sem poder tocar sendo que no justo momento em que deveria sair em turnê com O micróbio do samba, punhado de canções que compus e gravei, adivinhem, na guitarra. O óbvio, que seria então não fazer os concertos do álbum, acabei não conseguindo, já que não tive coragem de cancelar os três concertos portugueses agendados e eles acabaram gerando o Micróbio vivo e o resto é lenda.

No mais, como sempre digo, no meu ofício quem comanda são as canções, e não me debato com isso. Gosto, aliás, de ser levada por elas. Então nunca tenho a menor pretensão de ser coerente com um alinhamento adiantado, adiantando que ando tocando aquelas das quais estava com muitas saudades, algumas das quais havia até esquecido, algumas do micróbio do samba, algumas das quais tenho inveja porque gostava de as ter escrito, algumas que escrevi mas foram gravadas por outros artistas, poemas que musiquei, e alguma coisa nova que ninguém é de ferro. Olhos de onda, por exemplo, que batiza o alinhamento, qualquer que ele seja, fiz enquanto ensaiava. Além de inaugurar nova safra, o que sempre é motivo de alegria, a canção ajudou a dar o norte do recital. Constatei quando essa canção nasceu que as outras já estavam também falando do que ela fala e da língua portuguesa e do mar da língua e por aí vai.

De tudo um pouquinho, como a receita da felicidade, deixando sempre aberto o espaço para poetas que me apareçam e para novas canções que podem sempre me arrebatar mais perto da hora ou que podem ser escritas no camarim, sacrificando para isso certezas absolutas no repertório, tudo é possível, graças aos deuses.
Aqui estamos, eu, a guitarra e algumas canções que adoro, nos reencontrando, como se fosse a primeira vez, nos encontrando pela primeira vez quando é o caso, desejando viver mais uma noite "daquelas", no palco querido da Culturgest, antes de por o pé na estrada, enfim. Importante é que aquele frio na barriga antes de entrar no palco sozinha com minha guitarra, permanece, se não aumentou e foi para isso que vim”.

Quem escreve assim, como não esperar o melhor?

Dizem que não há concerto como o primeiro. Começo a acreditar que é verdade.  A primeira vez que vi a Adriana foi há muitos anos, em 2000 ou 2001 no dia 1 de Portugal (24 de Junho), em Guimarães. Estava um dia de calor que tudo parecia derreter. Eu não conhecia o trabalho dela e fiquei a gostar nessa tarde e nessa noite.  Tocou com o António Chaínho e mais um violoncelista e um percurssionista. O concerto foi na Praça de Santiago e enche para vê-la.
Hoje passados mais de 10 anos, a receita voltou a ser quase a mesma. Entra elegantemente vestida de vestido azul petróleo a cobrir-lhe os pés e cabelo preso. Achei o concerto melancólico ou eu é que estou “tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar”.  Apeteceu-me chorar várias vezes. Mas tinha um gajo a ressonar ao meu lado, com a cabeça tombada quase a tocar-me no ombro. Eu, a um metro de distância do palco, passei o tempo envergonhada porque achei que a Adriana ouvisse e visse aquelas figuras.
O alinhamento do concerto, segundo a própria, foi escolhido propositadamente para a estreia em Lisboa. Os dois poemas de Sá-Carneiro “O outro” e “Vislumbre”, não podiam ser esquecidos. Cantou a novíssima “Olhos de onda” que dá o nome ao espectáculo. Canta outra quase desconhecida “Maldito rádio” com um “ajudante” a mudar de estação enquanto ela toca. Não se esqueceu das mais conhecidas "Inverno", “Esquadros”, “Mais feliz”, “Vambora”. O encore terminou triunfalmente ao som de “Fico assim sem você “ e “Maresia” (na qual ela solta o cabelo e um ventilador simula o vento vindo do mar). A Adriana, com quase 48 anos mostra que é como o vinho do Porto.  Eu cortaria o cabelo....mas ela é quem sabe!


Copyright: Hiromi Konishi
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