Mostrar mensagens com a etiqueta Porto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Porto. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Robert Mapplethorpe: Pictures


23 de Dezembro de 2018

Já tinha estado no auditório de Serralves em várias conferências. Mas nunca visitei a Casa de Serralves nem os jardins. Desta vez, visitei o Museu, e continuo sem conhecer a casa e os jardins. Já era noite e faltava menos de duas horas para fechar. Na compra dos bilhetes disseram-nos que não teríamos tempo para visitar a exposição do Miró. Fui propositadamente para ver a exposição das fotografias do Robert Mapplethorpe que já tinha visto nos Estados Unidos. Como na altura não achei tão escandalosas como a polémica e os comentários que suscitaram em Portugal, queria ver o que de tão diferente tinha esta exposição. De relembrar que esta exposição provocou a demissão do Director artístico do Museu de Serralves, João Ribas. Algumas das fotografias foram colocadas numa sala à parte com a admissão permitida apenas a maiores de 18 anos. As fotografias presentes nessa sala restrita são essencialmente de “nús não canónicos” e práticas sexuais sadomasoquistas. Honestamente, tirando duas fotos, não achei nada do que vi naquela sala incompreensível para menores de 18 anos. Existem outras fotos fora desta sala restrita igualmente provocadoras. Mas a exposição não são só as fotografias mais polémicas. A maioria são retratos de pessoas mais ou menos famosas e anónimas, autoretratos, flores e estátuas. Esta exposição era muito maior do que a que tinha visto anteriormente. Algumas das fotos que vi anteriormente não estavam nesta e outras que estavam nesta não as tinha visto anteriormente.


Iggy Pop (copyright: Robert Mapplethorpe Foundation)
Isabella Rossellini (copyright: Robert Mapplethorpe Foundation)


Robert Mapplethorpe (copyright: Robert Mapplethorpe Foundation)

Deborah Harry (copyright: Robert Mapplethorpe Foundation)

Louise Bourgeois (copyright: Robert Mapplethorpe Foundation)

Robert Mapplethorpe (Copyright: Solomon R. Guggenheim Museum)

Robert Mapplethorpe (Copyright: Solomon R. Guggenheim Museum)




No jardim da entrada do museu tinha ainda uma instalação "Descent into Limbo" do artista Anish Kapoor, a única que vi. No interior do museu havia uma série de preparações e experiências que o artista fez e também uma quantidade de estruturas tridimensionais em ponto pequeno das obras dele, inclusive a "Cloud Gate" de Chicago.

"Descent into Limbo" Anish Kapoor



segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Adeus Passito

A derrota do PSD era expectável. Pedro Passos Coelho tinha a seu favor as baixas expectativas.  Mas uma hecatombe desta dimensão deixou muita gente surpreendida. A começar por mim. Ficar abaixo da CDU é uma catástrofe. Só uma visão deturpada e uma cegueira intratável justificam o mundo paralelo em que Passos vive desde o dia 4 de Outubro de 2015. Toda a gente sabe que foi Passos que ganhou as eleições legislativas. Toda a gente sabe que a formação da “geringonça” foi o golpe que Passos até hoje ainda não aceitou. Toda a gente sabe que o fim do mundo não chegou e que não haverá eleições legislativas antecipadas como Passos desde o primeiro dia da tomada de posse de António Costa ambicionou. Toda a gente sabe que o diabo não chegará. E como diz João Miguel Tavares: “Já várias vezes escrevi que o país muito lhe deve, e que a História lhe fará justiça. Mas agora é hora de pendurar o retrato na Rua de São Caetano à Lapa e dizer adeus”. Acrescento o que disse Manuel Ferreira Leite “atónita e chocada com os resultados demasiadamente maus”. José Miguel Júdice, que entregou o cartão de militante do PSD, disse que este não é o partido de Sá Carneiro e nem consegue perceber qual a actual ideologia.
Os candidatos do PSD em Lisboa e no Porto eram fraquíssimos e nascem de erros de avaliação, de segundas e tardias escolhas e teimosia do seu líder. Começou com o erro de não ter apresentado um candidato vencedor antes de Cristas e, depois, não ter reconhecido isso e errar pela segunda vez não apoiando Cristas em Lisboa e não ter apoiado Rui Moreira no Porto. Tenho muita pena que o José Eduardo Martins, crítico interno de Passos, aceitasse ter escrito um programa eleitoral que estava derrotado à partida. Tenho pena, também, da Teresa Leal Coelho que aceitou a tarefa ingrata de não ser a primeira escolha e ter-se sujeitado a este papel. Até admiro a frontalidade dela como deputada e as opiniões anti-racismo que expressou, sozinha, durante as eleições. Mas, não conseguiria pensar em candidata tão fraca e com tão pouco entusiasmo durante a campanha. No entanto, acho que ela é a menor das culpadas.
Braga continua completamente irrelevante sob o ponto de vista político nacional. Braga, que  tantos dizem estar no mapa e que é a terceira cidade do país, nunca o é nem nas eleições nem  nas previsões meteorológicas. Com a maioria, pela segunda vez consecutiva, vamos ver se Ricardo Rio saberá usar melhor depois de ter sido, segundo disse, condicionado pelo estado das contas que encontrou no município. Este era um resultado esperado. Primeiro porque uma governação jurássica do Partido Socialista já não acrescentava nada a Braga e a oposição pouco mais fez do que críticas avulsas. Acrescenta-se um PS totalmente descaracterizado, com os arguidos apoiantes de Mesquita Machado de um lado e um Miguel Corais orgulhosamente só do outro. No entanto, existem muitas coisas que têm que melhorar nos próximos anos. É indiscutível como a cidade ganhou vida nos últimos 4 anos. A relação com a Universidade é notória e de salutar. As actividades culturais são muitas e diversificadas. A procura e oferta turística tiveram um aumento exponencial. A revogação de alguns péssimos negócios como o edifício das convertidas é um grande exemplo. A decisão sobre o S. Geraldo depois de muita pressão pública foi outra das grandes decisões a mostrar que esta coligação não está de costas voltadas para a população. As reabilitações do Parque Exposições de Braga (PEB) e do mercado Municipal foram dois dos grandes investimentos desta coligação. No entanto, há coisas que não se percebem: como não se cria mais verde naqueles espaços à volta do parque da Ponte, mais ciclovias e passeios?Como é que aquele parque pode ter tão pouca vida? O que se fez nas margens do Rio Este nestes últimos 4 anos? Uma das promessas da coligação “Juntos por Braga” era a revogação do  aumento de ruas com estacionamento pago. A minha rua fazia parte das ruas acrescentadas cujo estacionamento é totalmente pago. Há uns tempos critiquei publicamente a forma como o actual Presidente da Câmara prometera revogar a decisão da ESSE no que respeita ao aumento do número de ruas com estacionamento pago. Fui corrigida, posteriormente, pela sua Chefe de Gabinete (pessoa que prezo e tenho consideração) que a acção teve parecer positivo do Tribunal mas que a ESSE recorreu. É neste ponto que estamos. O pagamento continua a ser cobrado. Eu sou residente numa rua cujo estacionamento é pago mas eu não tenho garagem. Ou seja, qual a justiça de se cobrar o estacionamento a residentes que não têm lugar de garagem. O que me sugerem é que pague a avença mensal? Tenho centenas de euros por pagar. O que proponho: devia ser criado um dístico isento de pagamento para residentes sem estacionamento. É o mínimo que se pede num país civilizado e cujo cidadão comum paga por tudo o que usufrui. Será pedir muito? Uma das promessas desta coligação é mudar a recolha dos lixos domésticos. Pois bem, para quem conhece a recolha do lixo em Braga é qualquer coisa que considero indescritível para o século XXI. O lixo é colocado nas calçadas à porta dos prédios. Será  que vai mudar em 4 anos?
O resultado de Isaltino em Oeiras  é anedótico. O concelho com maior percentagem de licenciados e doutorados do país elegeu, com um resultado esmagador, um senhor julgado, condenado e preso por crimes praticados no tempo em que era presidente da câmara. O exemplo de Oeiras faz-me lembrar a piada que conto muitas vezes que os maiores burros que conheci na vida são doutorados. A democracia (também) é isto?
Inês de Medeiros derrotar o bastião do PCP em Almada foi outra surpresa, para mim. Uma candidata sem nenhum peso político, como Inês de Medeiros, é a prova de que tudo corre bem ao PS. O estado de graça chegou para ficar.
A frase tantas vezes repetida, a mesma frase tantas vezes lida “não me demito” não é sinónimo de coragem nem inteligência. É sinónimo apenas de teimosia e não saber sair de cabeça erguida. Tomasse como bom exemplo o de Paulo Portas, e quem sabe, pudesse voltar um dia. Desta forma, ficará como o pior exemplo da história de agarrado ao poder. Nunca devemos ser nós a acharmos que somos (sempre) indispensáveis. Os outros é que devem opinar por nós e deverão fazer esse julgamento. Como tudo na vida devemos sair quando estamos a mais e não esperar que nos empurrem.O grande problema do PSD é quem quer ir para o lugar mais indesejável do país? Rui Rio é um homem provinciano, bairrista, dizem que  equilibrou as contas no Porto mas nunca a cidade esteve tão apagada e tão invisível como no seu tempo. Um homem sem visão é tudo o que o PSD não precisa. 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

De Ana Hatherly a Tarkovski

Com Anastasia Lukovnikova, Mariano Marovatto, Matilde Campilho e Tomás Cunha Ferreira na Feira do Livro do Porto, mais precisamente, na Biblioteca Almeida Garrett. Uma sessão, como foi apresentado, com “palavras, imagens e um fio de música”. Foi (bem mais) do que isso.  Palavra dita, imagem, diversidade de idiomas e sotaque, som, música, real e passagem tempo.

Para os apresentar, Anabela Mota Ribeiro, leu o seguinte texto: “Um grande ecrã ao fundo, instrumentos, livros e quatro amigos no palco. Uma conversa de esquina a quatro vozes, um cordel que será desenrolado a oito mãos. Anastasia, Matilde, Mariano e Tomás são poetas, mesmo quando não são. Falarão da revolução e da memória, dos monumentos e do futuro, do silêncio, sem o ferir, e das estórias das ruínas. Com eles: Chris Marker e Chantal Akerman, Leonard Cohen e Susan Sontag, um canto tupi e as câmaras da NASA em direto do cosmos. Copacabana Mon Amour, Meredith Monk, as cores de Pancetti sobre o Tejo, o golo que Maradona marcou com a mão e outras impossibilidades. Maiakovski, James Bond e John Cage. Bashō, Darwin e os habitantes de todas as ilhas. São todos poetas, mesmo os que não são. Estão entre Ana Hatherly e Tarkovski, porque tudo sempre está”.

A primeira imagem (não sei bem se a primeira mas a que me lembro), na grande tela por trás dos quatro foi a de Philippe Petit (que atravessou as torres gémeas do Word Trade Center em 1974) a equilibrar-se num cabo, com a Harbor Bridge como cenário. Petit, o homem que desafiou as vertigens e que disse que nada é impossível. "O fio não tem medo".

De Helio Oiticica, o parangolé, que  Adriana Calcanhotto eternizou numa música como: “um rectângulo de pano de uma cor só/ E é só dançar/ E é só deixar a cor tomar conta do ar/ Verde Rosa/ Branco no branco no preto nu”. Haroldo de Campos referiu-se ao parangolé como uma “asa delta para o êxtase”.

Uma foto de Leonard Cohen, ao fundo. O dono daquela voz grave e sussurrada e cujo timbre nos cuidou tantas vezes. Aquele que viveu em Hydra, em Londres e no Chelsea Hotel em NY. Aquele que cantou Marianne e Suzanne. Aquele que disse que a resposta era sempre sim. Aquele que nos ensinou tanto sobre tanta coisa. Que escreveu para os introspectivos, para os amantes platónicos, para os amantes de todos os graus de sofrimento, para os que se autoflagelam, para os traídos, para os que querem chorar e para muitos mais. E eternizou-se, para todo o sempre, enquanto houver som.

Falaram também de Bashô, o famoso poeta japonês, (re)conhecido pelos haicai (poemas de três versos e dezassete sílabas) .

Exibiram a imagem de John Cage a apanhar cogumelos no seu livro Silence. Sobre os cogumelos, de se saber ou não distinguir entre os cogumelos venenosos ou não, “como a vida seria chata sem uma certa incerteza”. 

Foram exibidas imagens em tempo real do espaço, de onde estamos a ser permanentemente observados, à la Orwell.

Leram Tarkovski em russo e em português.

Falaram de nitrogénio (em inglês é nitrogen), que não sei se quiseram dizer em português do Brasil, mas que em português de Portugal é azoto.

Marovatto e Tomás cantaram uma música inédita e outra de Caetano Veloso “Enquanto seu lobo não vem” que cita a Mangueira e a Avenida Presidente Vargas.

A imagem final foi de cruzamento com passadeiras em forma de pentágono, em Tóquio. Tempo real, lá amanhecia.  O tempo no espaço e o instante que passa.

Li algures que a Matilde nunca foi a NY nem aos EUA. “Quem diria por aquilo que escreve? É aqui que ficção se confunde com o real e a imaginação para formar geografias privadas e imaginárias? Quem sabe?

O auditório da Biblioteca Almeida Garrett estava composto, mas não cheio nem a abarrotar, como parece ter sido tendência em todos os eventos da Feira do Livro do Porto. No entanto, parece que o concerto dos Mão Morta & Remix Ensemble roubou parte do público. Eles nunca saberão mas foi o que perderam. O momento que não se repete.

Copyright: Anabela Mota Ribeiro




sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Das rosas

São pessoas como Adriana e Nestrovsky, e todos os grandes nomes da música brasileira, que dão a mais valiosa e sagrada imagem do Brasil no mundo. Um Brasil culto, informado, moderno, dos grandes escritores e poetas, que domina a língua portuguesa, que pensa, que tem opinião e (sobretudo) que não tem medo.

Já que as pessoas gostam tanto de classificar, este espectáculo é um recital em forma de lição de Adriana Calcanhotto com Arthur Nestrovsky, construído a partir da apresentação única feita na Biblioteca Joanina em Dezembro de 2015, aquando da comemoração dos 725 anos da Universidade de Coimbra. Nesse dia, para uma plateia de somente 100 pessoas, que só incluía convidados, Calcanhotto ainda tinha o cabelo comprido, ainda usava brincos compridos de filigrana da alta joelharia portuguesa, aguentou um frio daqueles, usou o mesmo vestido de veludo comprido preto e foi feita Embaixadora da Universidade de Coimbra.

Em Lisboa, os mesmos estão (sempre) presentes na plateia. Mísia, não foi esquecida nos elogios. Esta amiga é para Calcanhotto a “professora de fado e pastéis de bacalhau, entre muitas outras coisas”. O amigo David, que Adriana, achava por bem lá estar, e ele não falhou, foi tratado por “meu amor” e também foi lembrado pelo envio das manchetes da época sobre “o escândalo, o disparate e a heresia de Amália a cantar Camões”.  Mas “Amália é Amália e ela pode tudo”. Ana Vidigal estava ao meu lado, na segunda fila. Passaram por mim a quase brasileira e a especialista em Brasil, Alexandra Lucas Coelho, e o temido crítico de música do Público, Nuno Pacheco. Avistei ao longe Anabela Mota Ribeiro, Pilar del Rio, Eduardo Lourenço, Mísia, António Barreto, José António Pinto Ribeiro...
Adriana, entra a sorrir sob palmas ruidosas. Coloca cuidadosamente o violão a tiracolo. 

O cenário é minimalista. Uma mesa com uma jarra de rosas vermelhas, uma partitura onde tem o iPAD e os óculos, dois amplificadores, o banco e o microfone de Arthur Nestrovsky, que permanecerá vazio até à décima música. Adriana “de vestido de veludo de seda preto, largo, mangas compridas justas, decote em barco, aquele cabelo curtíssimo que lhe dá um ar antigo e mostra a linha do crânio, impressiona. Graciosa, cultivada, acompanhada pelo Arthur Nestrovsky, outro ser que irradia luz”. Estas últimas palavras são da Fernanda Mira Barros que descreveu em pouco o que eu não vou conseguir dizer com muito.


Copyright: Rita Burmester

O espectáculo começa com Tive um coração perdi-o cujos versos são de Amália. Adriana fala que conhecia os versos de Amália, tem até um livro, mas que nunca tinha prestado muita atenção “tanto quanto, quando”ouviu os versos na voz de Mísia. Para mim, que conheço as duas versões, esta versão em forma de balada sussurrada, não tanto de fado, ficou perfeita.

Segue-se Negro amor popularizada na voz de Gal Costa, um hit radiofónico no Brasil. É uma uma versão para português de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti da canção  It’s all over now baby blue de Bob Dylan, o “nosso Nobel da Literatura”. Adriana sente-se escandalizada por acharem um escândalo Dylan ter sido galardoado com o Nobel. Aquela história chata de sempre de se poder achar que letra de música é menos de que poesia. A voz, nesta canção não atinge, de todo, a perfeição. Mas nesta, o verdadeiramente importante não é a versão mas a mensagem e o significado.

O outro de Mário de Sá-Carneiro que Adriana musicou “se é que se pode chamar isso de musicado”. A descoberta de Mário de Sá-Carneiro deu-lhe a oportunidade, para além de “o conhecer a ele mesmo, de conhecer pessoas muito interessantes que também gostam muito dele". E uma das pessoa mais interessantes que ela destaca é a “Professora Cleonice Bernardinelli que é uma amante e especialista em língua portuguesa. Fizeram alguns saraus juntas “ela fingindo que lê porque ela tem uma memória maior que toda essa sala aqui reunida”.  Cantou em forma de fado  Senhora dos olhos lindos, que Cleonice Bernadinelli lhe pediu, especialmente, para musicar. Genialmente tocada e inesquecível versão. Na sequência, explica que Cleonice Bernardinelli não quer ser chamada de Professora nem de Dona mas apenas de Cleo “para ficar mais próxima da gente, ela tem 101 anos, eu entendo perfeitamente”. Destacou que têm muitos interesses em comum: nasceram as duas no século passado, gostam de Mário de Sá-Carneiro, de ovos moles de Aveiro e gostam muito de Dom Dinis. Na ocasião do concerto na Biblioteca Joanina, dentro da Universidade de Coimbra, “tinha que cantar Dom Dinis, claro”. Relata que quando voltou para o Brasil, ligou para ela e disse: “Cleo, eu cantei Dom Dinis na Biblioteca Joanina em português arcaico” ao que ela respondeu: “Pra quê isso menina? Eu passei isso tudo para português moderno em 1953”. A coincidência improvável é que exactamente o poema O que vos nunca cuidei dizer (cantiga de amor), pelo qual Adriana se interessou, não estava traduzido para português moderno.  “Então, por culpa exclusiva da Professora Doutora Honoris Causa por Coimbra, Cleonice Serôa da Motta Bernardinelli, serei obrigada a cantar a primeira estrofe de uma cantiga de Dom Dinis em português arcaico, me perdoem”.

Depois seguiu-se a canção a cappella do trovador provençal Arnaud Daniel Canso do ill mot son plan e prim traduzida em português por Augusto de Campos Canção de amor cantar eu vim. Adriana chamou-lhe o “Bob Dylan do séc XII”. Mas ao contrário de Bob Dylan, Arnaut Daniel era “muito rarefeito, de um artesanato poético incrível. Ele fazia um tipo de trobar clus. Um trobar muito refinado, muito sofisticado. Foi o inventor forma poética sextina” [sestilha -estrofe de 6 versos de 7 sílabas e rimas simples). “Foi recuperado por Dante na Divina Comédia onde é a única criatura que fala na sua língua nativa (provençal). Mais tarde, Pound, recupera-o de novo. Lança a semente da alta poesia moderna europeia. Nas iluminuras, os trovadores aparecem fazendo gestos. E cada gesto, cada ângulo de cotovelo, cada quebrada de punho tem um significado”. E Arnaut Daniel aparece sempre como “olha como eu sou maravilhoso, olha como eu sou rarefeito, olha como sou incrível”.
Seguiu-se a Poética do eremita de Fiama Hasse Pais Brandão pelo qual Adriana se apaixonou à primeira vista. Referiu a sua dificuldade de entrar nessa poesia tão densa e tão hermética. Esta foi esquecida em Coimbra.


Copyright: Márcia Lessa

Copyright: Márcia Lessa
Adriana terminou a actuação solo com uma versão de Com que voz de Camões eternizada na voz de Amália. Há algum tempo atrás, Adriana soube do escândalo (através do amigo David de Lisboa que lhe mandou as manchetes da época) que foi Amália cantar Camões. Assim como o escândalo de Bob Dylan ter sido galardoado com o Nobel da literatura. “Eu fico escandalizada por alguém se escandalizar com isso”. As manchetes da época classificavam: “Isso é um escândalo. Isso é um disparate. Isso é uma heresia. É Camões. Ela não tem direito de fazer isso”. E o outro lado dizia: “Ela é Amália, pode fazer tudo o que quiser”. Juntos, Amália, Alain Oulman e Camões fizeram Com que voz. Que balada linda ficou a versão de Adriana.

“Não é possível disfarçar para vocês que não preciso mais dos óculos”. Assim começa a segunda parte, em que Adriana lê o poema Mortal loucura de Gregório de Matos no iPAD e entra Arthur Nestrovsky que faz o eco (final de cada verso que era a última parte da palavra anterior), na versão musicada de Zé Miguel Wisnik. O domínio do violão de Nestrovsky é do nível académico. Gregório de Matos nasceu em Salvador mas “era de nacionalidade portuguesa, como todos os que nasciam no Brasil no séc XVII. Estavamos até pensando nisso, em recuperar isso, devíamos todos voltar para cá do jeito que as coisas vão no Brasil”. Cantava os seus versos pelo Recôncavo baiano com uma violinha de cabaça.

Depois fizeram um salto de três séculos e passaram para Vínicius de Moraes, “um extraordinário poeta de livros que viria a tornar-se um extraordinário letrista de canções e também compositor”. Adriana diz (de cor) Soneto de Corifeu, tão lindo.

E a seguir cantou Valsa de Eurídice, letra e composição musical de Vinícius  que a escreveu como presente de aniversário de 15 anos da filha Susana (mulher de Adriana Calcanhotto, falecida em 2015). Esta canção termina, também, com a palavra saudade: “Pensa que a saudade/ mais do que a própria morte/ Pode matar-me/ Adeus”. Para além de ser um letrista maravilhoso que compôs meia dúzia de canções incontornáveis do cancioneiro popular brasileiro. No entanto existe alguma controvérsia: “Susana andou fazendo uns cálculos e descobriu que quando a música foi feita ela já tinha 16...”. Esta valsa foi incorporada anos depois no musical Orfeu da Conceição. Vínicius  teve a primeira ideia da junção da tragédia grega com a cultura negra do povo do morro do Rio de Janeiro. Numa noite, perto do Carnaval, teve uma inspiração fulgurante e passou a noite a escrever praticamente o texto inteiro que viria a ser o Orfeu da Conceição. E para musicar o texto ele procurou um arranjador que estava a começar e tinha muito talento, António Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Seguiu-se outra canção de Vinícius de Moraes compositor, Medo de amar: “...Porém, não se surpreenda se uma outra mulher/ Nascer de mim, como do deserto uma flor/ E compreender que o ciúme é o perfume do amor”.

Seguiu-se a belíssima Noite de São João de Alberto Caeiro musicada por Fred Martins. Para mim, um dos momentos mais bonitos da noite. Mais uma vez, como as flores que deram o nome a esta lição, Adriana leu um poema sobre rosas, As rosas com bolores de Adília Lopes. E Segue o teu destino de Ricardo Reis e musicada por Suely Costa.


Copyright: Márcia Lessa

Há uns anos, a Universidade de Coimbra decidiu atribuir o título de Doutor Honoris Causa ao Reitor da Universidade Federal da Bahia, à época, Edgardo Santos. Esse foi um homem extraordinário que coincidiu com um momento extraordinário da história do Brasil. Foi um período realmente muito curto de florescimentyo da cultura brasileira, de cerca de 10 anos que incluiu: invenção da Bossa Nova, movimento de educação pública, desenvolvimento da arquitectura moderna brasileira, a nova capital do Brasil- Brasília, o cinema novo, o Brasil foi bicampeão de futebol com Pelé. Uma época em que Juscelino Kusbichek começa o seu mandato em 56 até à implementação da ditadura militar em 64, interregno democrático, de marcado crescimento económico e cultural promoveu o supra descrito. Então o Edgardo Santos, Reitor da UFBA, considerado um cosmopolita levou muitos investigadores convidados de fora para a universidade, incluíndo Walter Smetak, um músico suiço com o qual estudaram Caetano Veloso, Tom Zé e Gilberto Gil. Então aquando da vinda de Edgardo Santos, foi convidado também Assis Chateaubriand, o magnata das comunicações, uma espécie de Citizen Kane brasileiro. Como ele não pode vir, convidou Dorival Caymi o representasse, representando a Bahia. Então Caymi veio pela primeira vez a Portugal com a cantora Doris Monteiro. Passou alguns dias aqui e teve alguns encontros, alguns deles memoráveis, incluíndo o encontro com Amália. Diz-se que ali ocorreu “o casamento entre o samba e o fado”. Se o casamento foi ou não consumado, não se sabe. Quando Caymi estava a caminho de Coimbra para a cerimonia, parou nas Caldas da Raínha e existe uma fotografia muito bonita dele junto de um roseiral na estrada. A partir dessa experiência, Caymmi compôs a canção que deu o nome a este espectáculo Das rosas, que eu achava que viesse do Milagre das Rosas da Raínha Santa Isabel (mulher de Dom Dinis).
Sem nenhuma palavra a apresentá-la a seguinte foi a lindíssima Cajuína de Caetano,cantada em dueto,com uma letra tão enigmática que Arthur Nestrovsky explicou:

Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina


Aqui Nestrovsky dá-nos uma verdadeira aula de metafísica filosófica, com perguntas sem resposta e os seus significados. “Existirmos: a que será que se destina?”. Convenhamos que um autor que é capaz de fazer uma canção com a pergunta das perguntas não é pouca coisa. Esta é uma versão da pergunta existencial do filósofo alemão Martin Heidegger (cujo livro, Nestrovky em Coimbra, citou em alemão, uma vez que nas próprias palavras, a plateia devia ser unanimemente constituída por académicos) "por que existe afinal ente e não antes nada?". Existe outra formulação dessa pergunta num conto Manuelzão e Miguilim de Guimarães Rosa, na cena final, em que o menino Miguilim questiona a mãe: “Mãe, mas por que é, então, para que é, que acontece tudo?”. Heidegger pergunta isso na terceira pessoa, a voz do pai fazendo a pergunta de fora; Guimarães pergunta do ponto de vista do menino confrontado com o mistério da existência; e Caetano faz essa pergunta de um modo muito diferente. Existir, neste caso, é ao mesmo tempo substantivo e verbo. A cena da canção remete para o encontro de Caetano Veloso com o pai de Toquatto Neto (amigo e parceiro de Caetano na época da Tropicália que se suicidou no dia do próprio aniversário) em Teresina, capital do Piauí: “A flor já é um presente em si, é uma dádiva, não é uma coisa que vai durar, que vai permanecer. O que permanecerá é o gesto do presente.

Já a rumar para o final, canta Morro dois irmãos de Chico Buarque, que fez parte do repertório do seu disco A fábrica do Poema. Lê depois o poema do Canção do exílio de Gonçalves Dias: “Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o Sabiá;/ As aves, que aqui gorjeiam,/ Não gorjeiam como lá. A penúltima canção foi Sabiá. Com versos de Chico Buarque aos 24 anos e música de Tom Jobim. Esta canção é uma espécie de Canção do exílio. A canção Sabia ganhou o festival da canção no Maracanazinho sob os apupos da plateia porque não perceberam o significado da canção. É sobre um lugar imaginário, um lugar que não existe ou que não existe mais. O sabiá na palmeira não canta, eu que sou bióloga, aprendi isso com um músico). Arthur não esquece de referir que não se cumpriu esse desejo do Brasil, um país que ainda não se cumpriu, e que ainda há pouco perdeu uma grande oportunidade. Sempre velado, nunca directo, foi o mais claro que conseguiu ser na crítica política à situação do Brasil actual. Não se ouviu, como nos concertos de Caetano, “Fora Temer”. Não sei se porque as pessoas estão demasiado desanimadas ou se não eram politizadas... Fica a pergunta por responder.

Termina em apoteose com o pout porri com Coimbra e Chega de saudade com sotaque brasileiro e com melodia de bossa nova, que termina com toque e gesto de Carmen Miranda, e a palavra saudade com sotaque português.

No encore do Porto, Adriana disse que era a primeira vez de Arthur Nestrovsky no Porto: “Eu avisei a ele”. E que também disse: Esta sala parece um pouco fria”. Ao que ela respondeu: “Espera”.Confidenciou que na primeira vez que esteve no Porto com Dé Palmeira e que se lembra que era numa sala com cortina e que ele disse enquanto a corina fechava e olhava para ela: “Isso não é uma platéia, é família”. Como no decorrer do espectáculo faltou o que eles chamaram de “maior compositor gaúcho”, Lupicinio Rodrigues: Nunca e
Voltou para um segundo encore: “Em que é que posso ser útil?” e só em Lisboa terminou com duas músicas: Esquadros e Inverno. Em Coimbra e Porto ficou-se, apenas, pela primeira. O Porto, ah o Porto, acompanhou baixinho.
Comentei com a Anabela Mota Ribeiro o quanto este espectáculo/concerto/recital mais parecia uma aula. A Ana Vidigal classificou-o no seu blog como “lição”. Essa é a verdadeira palavra, a que me faltava. Uma verdadeira lição de literatura e de história da cultura e música brasileira, principalmente dos últimos 50 anos. Este modelo não é totalmente desconhecido nem inovador. Assisti por duas vezes ao que Maria Bethânia denomina de “recital” Palavras. A diferença é que as histórias, referência e notas de rodapé não são tão profundas nem extensas. Ao contrário de Nuno Pacheco, que classificou  de “extensos enquadramentos, explicações e contextualizações” e aconselha que esta é uma “jóia por lapidar, onde a música e a poesia só terão a ganhar com um corte drástico no didactismo”, eu acho que foi magistral. A outra crítica que faz é à voz de Adriana: “a sua voz não esteve nos melhores momentos”. Esta é a diferença entre um crítico e uma leiga. Um crítico é imparcial e uma leiga gosta ou não gosta. E este não era um espectáculo de canção. E Adriana não é uma interprete virtuosa como Gal, Bethânia ou Elis. Então, qual o problema da voz?

Quando se sai do espectáculo quase não se sabe o que fazer com tanta informação. Sai-se de coração cheio. Depois da ovação catártica em Coimbra, quando Calcanhotto, surgiu no palco para o encore com a capa de Lente, ela que é actualmente Professora Convidada da Universidade de Coimbra onde leccionará neste segundo semestre na Faculdade de Letras, a fasquia para o Porto ficou muito alta. Mas o Porto, com as suas gentes tão sinceras e espontâneas, não desiludiu, mais uma vez.


quarta-feira, 30 de março de 2016

As raposas (The Little Foxes)

A peça é sobre dinheiro, poder, valores. “Não quero ser só rico, quero ser milionário”. A luta pelo poder dentro da família. Tão actual. Tudo gira à volta de um grande negócio que uma família quer fazer para aumentar a sua riqueza. Três irmãos, dois homens e uma mulher: Regina (Luísa Cruz), Ben (Virgílio Castelo) e Óscar (Marco Delgado) .  Revelam-se diferentes maneiras de pensar e agir: quem olha a meios, quem não quer olhar a meios mas tem medo, e quem só olha a fins. Os sonhadores, os sentimentais, os pragmáticos. 
Regina tem pretensões de ir para NY e apesar de parecer neutra quer ter uma palavra a dizer neste negócio. Tem a vantagem de os dois irmãos precisarem do dinheiro do seu marido, Henrique (João Perry) que está na Suiça há algum tempo a tentar tratar-se do coração.
As melhores interpretações são as dos veteranos João Perry cuja papel é o do marido doente que tem dinheiro mas que subiu a pulso. Era empregado do banco e depois tornou-se dono dele. Está muito doente do coração e é do bem. Dá uma lição à mulher quanto ao que ganha não é quem joga a última carta. Não há fins perfeitos. Um João Perry que aparenta nesta peça ser mesmo doente e acabado. A  melhor aimulação de um ataque cardíaco que vi até hoje. Apetecia saltar para o palco para ajudar. Morre de ataque cardíaco por não conseguir alcançar o medicamento que a mulher não lhe dá. Regina, mantém-se inerte, sentada no sofá, a vê-lo morrer em agonia.
Outra grande interpretação é de Gracinda Nave, a Betty. A mulher boneca, a tonta, aquela que só sabe tocar piano e que não pode ter opinião sobre nada. Bebe demasiado para esquecer. O seu marido parece ter casado com ela por interesse, apenas para juntar fortunas.
Esta é uma adaptação para os dias de hoje de uma peça dos finais dos anos 30 de Lillian Hellman. Com o elenco: Diana Nicolau, Eurico Lopes, Gracinda Nave, João Perry, Luisa Cruz, Marco Delgado, Pedro Caeiro,  Sofia Cabrita e Virgílio Castelo.
Virgílio Castelo, aquele que interpreta talvez o mais cínico, aquele que dizia as palavras da mãe “Consegue-se tudo com um sorriso”, reconhece que perdeu mas que há mais vida para além deste negócio, mais virão.
O desfecho é dramático e aberto. Nada do que foi um dia voltará a ser.





Copyright: Teatro Aberto

sábado, 5 de março de 2016

"Doce pássaro da juventude" de Tennessee Williams

Doce Pássaro da Juventude (Sweet Bird of Youth) como Um eléctrico chamado desejo (A streetcar named desire) a personagem principal é vítima da passagem do tempo. O desaparecer da beleza. Uma actriz decadente, alcoólica, envelhecida, com pouca ou nenhuma esperança no futuro que bebe e droga-se para (simplesmente) esquecer. Alexandra Del Lago, a “Princesa” (Maria João Luís), acompanha Chance Wayne (Ruben Gomes), um gigolô de 29 anos com aspirações a actor, à cidade onde nasceu, St Cloud, no sul dos Estados Unidos. Percebe-se que tem praia pelo som das gaivotas. Este texto maravilhoso  de Tennessee Williams, um dos que vai mais longe na abordagem à degradação humana. Encenado por Jorge Silva Melo. Uma grande interpretação de Maria João Luís. Uma das grandes vozes do teatro nacional.

Um rapaz, Chance Wayne, de regresso à terra de onde partiu há anos à conquista do mundo (de uma forma fácil). Já não tão novo assim, apira a uma carreira de actor, embora seja mediocre. Quer um futuro com o seu amor, Heavenly. É Páscoa, mas não haverá ressurreição. Todos procuram voltar a um passado que imaginaram feliz. Mas nada do que foi voltará a ser. O tempo passa e não se pode recuperar o que passou. "Tempo... Quem o pode combater, quem o pode vencer?... O tempo que rói". Irrepetível. Heráclito. de

A cena começa num quarto de hotel. Chance acorda ressacado enquanto a Princesa/Alexandra Del Lago aproveita os últimos minutos de sono, com os olhos cobertos. A noite foi difícil, percebe-se. Regada a muito álcool. Incluiu óculos partidos e garrafas de vodka. 
Chance está a queimar os últimos cartuchos da sua juventude. Os anos estão a passar e com eles a levar a juventude e a beleza que foi o seu sustento. Tem 29 anos e o cabelo começa a cair-lhe. Era o rapaz mais bonito, encantador e mais querido de St Cloud, cidade onde nasceu.
Queria ter sido actor: "Tive mais oportunidades do que os dedos da minha mão, e quase o consegui...há sempre qualquer coisa que me bloqueia". Critica a vidinha que as raparigas e os rapazes do seu tempo têm: "As raparigas tornaram-se donas de casa, jogam bridge, e os maridos pertencem à Câmara de Comércio...uma chatice". Ele gaba-se da boa vida que viveu: " talvez a minha única é verdadeira vocação: fazer amor... Dormi com todo o jet-set de NY!... Às pessoas de meia-idade restituía uma sensação de juventude. Às raparigas solitárias, compreensão, apreço! Às pessoas tristes, perdidas, algo de leve e revigorante! Aos excêntricos, tolerância...".  Passou os últimos tempos a "pôr bronzeador nas costas de milionárias gordas". Revela o insucesso da carreira militar quando foi chamado para o Exército: "fui para a Marinha porque me agradava mais a farda de marinheiro. A farda era a única coisa que me agradava... Não era capaz de suportar a maldita rotina, a disciplina... Tinha vinte e três anos. Estava no auge da minha juventude e sabia que a juventude não durava para sempre... Comecei a ter maus sonhos, pesadelos e suores frios durante a noite, e tinha palpitações. Quando ia de licença, embebedava-me e acordava nos lugares mais estranhos, e ao meu lado estavam rostos que nunca vira.... Por motivo de doença, fui dispensado e voltei para casa à civil. E nesse momento reparei como estavam diferentes, a cidade e as pessoas. Educadas? Sim, mas não cordiais. Não havia títulos nos jornais, só umas linhas, uma coisa de nada ao fundo da quinta página.... A dizer que Chance Wayne passara honrosamente à disponibilidade da Marinha devido a doença e que vinha para casa convalescer... Foi então que Heavenly se tornou mais importante para mim do que tudo no mundo".
O sonho de Chance é ter o impossível: a juventude de volta, intacta e honrada. E isso, ninguém poderá voltar  ter. O tempo passa e não volta.

Alexandra Del Lago foi em tempos uma bem sucedida actriz. Uma vedeta de Hollywood. Uma artista. Experimenta agora o declínio, suportado por muito álcool e drogas. O tempo também passou por ela. A sua aparência jovem desapareceu. Segundo ela, cometeu a loucura de regressar, "regresso triunfal". Foi  uma decepção. As pessoas ficaram surpreendidas com o aspecto dela, ficaram chocadas: "aquilo é ela?". Fugiu, qual Gata Borralheira, e tropeçou nas escadas: "caí, rolei como uma puta bêbada até ao fundo... Mãos piedosas sem rosto, ajudaram-me a levantar".

Heavenly, filha de Boss Finley, o político mais poderoso da região. Tinha quinze anos quando Chance Wayne a "possuiu". "Houve uma altura em que me podia ter salvo, se me tivesse deixado casar com um rapaz que ainda era jovem e honesto, mas em vez disso mandou-o embora, expulsou-o de St Cloud... Tentou ser tão importante como esses figurões com os quais o papá quis usar-me, ele foi-se embora. tentou. Mas como as portas certas não se abriram foi às erradas... Se o papá casou por amor porque não deixou fazer o mesmo, quando ainda estava viva por dentro e ele ainda era honesto e decente?"
Heavenly, depois da doença sexualmente transmitida por Chance, "uma doença de putas", teve que se sujeitar a uma operação que lhe cortou a juventude do corpo. "Fez dela uma mulher velha, estéril. Seca, gélida, vazia como uma velha". Espera terminar a vida num convento.

Boss Finley, o político mais poderoso da região. Chegou a St Cloud de pés descalços aos 15 anos. Ostenta o orgulho branco do Sul dos Estados Unidos. Considera que a filha vale cem mil vezes mais do que Chance. Viúvo. Foi sempre infiel enquanto a mulher ainda era viva. Mas, mostra que no fundo, até os maus tem qualquer coisa de bom: "lembras-te dessa jóia? A última que lhe dei antes de morrer.... Quando a comprei sabia que ela estava a morrer. Custou-me quinze mil dólares. E sabes porquê? Para que ela pensasse que ia ficar boa... Quando a pus na sua camisa de noite, coitada, começou a chorar...". Queria convencê-la que ninguém daria um diamante tão grande a alguém que estaria a morrer. " sentou-se na cama, feliz com um passarinho com a sua jóia, recebeu visitas durante todo o dia, riu, brincou com elas, ali com o diamante, e com ele morreu antes da meia-noite. E até ao último instante da vida acreditou que o diamante era a prova que não estava a morrer".

Em Chance e na Princesa observamos um destino comum, o destino da perda. Tal como Chance, ela não pode fazer o relógio voltar para trás. O relógio não pára para nenhum deles, como não pára para nenhum de nós. "" Para Princesa, parece no final, haver um regresso à glória e fama passadas, embora pareça muito transitório: "eu sei que estou morta como o antigo Egipto".

A peça termina com um monólogo de Chance virado para o público: "Não vos peço piedade de, apenas compreensão... Não, nem isso. Apenas que me reconheçam em vós próprios, e reconheçam o inimigo comum: o tempo, o tempo em todos nós".







sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Paulo Cunha e Silva (1962-2015)

Passava pouco das 9 da manhã quando ouvi na Antena 1 a notícia da morte de Paulo Cunha e Silva. Morreu, subitamente, aos 53 anos de enfarte agudo do miocárdio. Saiu inesperadamente de cena. Uma árvore que morreu de pé. Uma grande pena. Deixa um enorme vazio. A perplexidade de todas as pessoas pelo desaparecimento de quem parte tão jovem. Um choque profundo. Angústia e dor. A vida, sempre imprevisível. Tão breve, neste caso. Mas com certeza que viveu cada segundo como nunca mais e a uma velocidade impressionante e difícil de acompanhar.

Médico (que nunca exerceu), Doutor pela Universidade do Porto, professor universitário, adido cultural, crítico de arte, programador cultural, Vereador da Câmara do Porto, amigo, irmão, tio, inesquecível. Passou a vida a cruzar as artes com todas as ciências. Sabia fazer ligações, sabia unir as pessoas em torno das causas em que se envolvia. Tinha uma grande capacidade de gerar consensos.

A unanimidade da descrição, de quem e como era, é reveladora: “um génio bom e generoso”, orgulhoso, lutador, criativo, empenhado, caustico, humano, conhecedor,  profundo, interior, sábio, feliz, confiante. Amigo, simpático, optimista. Único,  genial, ímpar, provocador, entusiasta, vibrante, insubstituível.

Tal como na vida, na morte, a estética não foi esquecida. O velório no Teatro Rivoli que ele devolveu à cidade e ao povo. Com a urna no centro do palco, iluminada apenas por uma luz ténue, e um piano. Ao fundo, uma fotografia gigante, recente de há duas semanas quando acabara de ser condecorado pelo governo francês.

Milhares de pessoas participaram nas cerimónias fúnebres. O funeral de Paulo Cunha e Silva reuniu uma massa impressionante de pessoas, que acompanhou o cortejo fúnebre entre o Teatro Municipal Rivoli e a igreja da Lapa. Uma dose extra de emoção, ao ser ovacionado longamente, em frente à Câmara Municipal. Os elogios fúnebres foram feitos por Rui Moreira, pelos sobrinhos e pelo companheiro Miguel.

Muitos recordam o muito que fez mas sobretudo têm pena daquilo que não teve tempo de fazer. É uma perda irreparável para o Porto e para o país. A cultura da cidade do Porto perde uma peça fundamental. Deixou uma cidade completamente diferente daquela que encontrou quando assumiu a Vereação da Cultura, com uma dinâmica incontrolável, esperemos que impossível de parar. As suas flores plantadas permanecerão. Como o próprio disse: “A maior forma de homenagearmos os autores e os artistas é mostrarmos a obra”.



terça-feira, 8 de outubro de 2013

Boris Yeltsin

Saímos já tarde de Braga e ainda foi o caos para entrar no Porto. Tínhamos mesa marcada no Kyoto na Baixa para as 8 e conseguimos chegar às 8:45!!! A peça, começava às 9:30. O desespero era tanto que implorávamos que tínhamos que sair às 9:25... A verdade é que conseguimos... levar a comida num "taparueco". Conseguímos, evidentemente, chegar atrasadas...

Encontro entre o encenador Nuno M. Cardoso e o dramaturgo Mickael de Oliveira, "Boris Yeltsin" é uma incursão teatral feita de humor negro e mordaz ironia pelo lado b da vida doméstica, mas também pelo espectáculo da discricionariedade política e suas devastadoras consequências num mundo em que se festeja a falência moral e económica.

“É um relato de uma família disfuncional, com um pai, Argaménon (António Durães), vindo do ultramar, de um Portugal já longínquo, com uma visão um pouco extremada, ainda com linhas fascistas e conservadoras; uma mãe (Luísa Cruz) que ficou em Portugal, com uma visão socialista da realidade e consegue lidar melhor com a mudança e que gosta de casos extraconjugais; e um filho, Orestes, na casa dos trinta, interpretado pelo actor Albano Jerónimo, que é médico mas que vive não se sabe de quê. A família vive num conflito geracional, económico, social, político, eco do Portugal contemporâneo, entre pai e filho, onde a mãe tenta, sem sucesso, desempenhar um papel conciliador, que culmina no momento trágico da morte do primeiro às mãos do filho. Este momento trágico simboliza o gatilho de mudança para outro registo completamente diferente, que de outra forma nunca seria possível. Tal como a personagem que dá nome à peça, Argaménon está preso e é vítima de um processo que escapa ao seu controlo: o facto de o poder político não conseguir alterar realmente as coisas. 


O que está descrito acima é o que li depois da peça. Há coisas que durante a peça não percebi. Se quiserem ver o Albano Jerónimo nu durante muitos minutos aproveitem. Faz bem aos olhos! Habitualmente, dizem que as pessoas costumam ser melhores vestidas do que nuas. A Mafalda Lencastre é o contrário. Vestida fica aquém do que sem roupa. Até parece mais gorda, quando na realidade tem a magreza da juventude. Quando a peça acabou fiquei a pensar “que peça marada!”. Há por ali muito complexo de Édipo pelo meio. São claras as ligações às tragédias gregas.

E no final, como era a estreia, ainda fomos à festa no bar do Teatro Nacional São João. A S. apresentou-me o António Durães, que por sua vez, nos apresentou o Albano Jerónimo: "Olá, muito prazer, eu sou o Albano".... Dah!!! Claro que sei!!! 






facebook