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segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Robert Mapplethorpe: Pictures


23 de Dezembro de 2018

Já tinha estado no auditório de Serralves em várias conferências. Mas nunca visitei a Casa de Serralves nem os jardins. Desta vez, visitei o Museu, e continuo sem conhecer a casa e os jardins. Já era noite e faltava menos de duas horas para fechar. Na compra dos bilhetes disseram-nos que não teríamos tempo para visitar a exposição do Miró. Fui propositadamente para ver a exposição das fotografias do Robert Mapplethorpe que já tinha visto nos Estados Unidos. Como na altura não achei tão escandalosas como a polémica e os comentários que suscitaram em Portugal, queria ver o que de tão diferente tinha esta exposição. De relembrar que esta exposição provocou a demissão do Director artístico do Museu de Serralves, João Ribas. Algumas das fotografias foram colocadas numa sala à parte com a admissão permitida apenas a maiores de 18 anos. As fotografias presentes nessa sala restrita são essencialmente de “nús não canónicos” e práticas sexuais sadomasoquistas. Honestamente, tirando duas fotos, não achei nada do que vi naquela sala incompreensível para menores de 18 anos. Existem outras fotos fora desta sala restrita igualmente provocadoras. Mas a exposição não são só as fotografias mais polémicas. A maioria são retratos de pessoas mais ou menos famosas e anónimas, autoretratos, flores e estátuas. Esta exposição era muito maior do que a que tinha visto anteriormente. Algumas das fotos que vi anteriormente não estavam nesta e outras que estavam nesta não as tinha visto anteriormente.


Iggy Pop (copyright: Robert Mapplethorpe Foundation)
Isabella Rossellini (copyright: Robert Mapplethorpe Foundation)


Robert Mapplethorpe (copyright: Robert Mapplethorpe Foundation)

Deborah Harry (copyright: Robert Mapplethorpe Foundation)

Louise Bourgeois (copyright: Robert Mapplethorpe Foundation)

Robert Mapplethorpe (Copyright: Solomon R. Guggenheim Museum)

Robert Mapplethorpe (Copyright: Solomon R. Guggenheim Museum)




No jardim da entrada do museu tinha ainda uma instalação "Descent into Limbo" do artista Anish Kapoor, a única que vi. No interior do museu havia uma série de preparações e experiências que o artista fez e também uma quantidade de estruturas tridimensionais em ponto pequeno das obras dele, inclusive a "Cloud Gate" de Chicago.

"Descent into Limbo" Anish Kapoor



terça-feira, 18 de setembro de 2018

Resultados Investigador FCT

Ontem recebi um telefonema sobre os resultados do concurso FCT IF. Aqui já era noite e tinha deixado o meu carregador na minha mesa do instituto. Não pude saber do meu resultado até hoje de manhã. Quando soube os resultados do laboratório onde fiz o meu último Pós-Doc fiquei surpreendida com o elevado número de contratos atribuídos. Afinal, desta vez, aquele grande instituto com apenas 20 anos não precisa de ter um nome inglês para se destacar. Finalmente o reconhecimento começa a surgir em Portugal quando há muito já o era fora de portas.E já não se poderão queixar do esquecimento de uma terriola do norte recôndito, provinciano, escondido, com muito pasto, onde está a sua sede e que meia dúzia de kms entre duas das cidades mais próximas demoram mais de meia hora. Provavelmente, estes excelentes resultados do concurso IF FCT foram uma alegre excepção à regra da maioria dos institutos, unidades e grupos portugueses.

Muitos (500 investigadores) estarão mais felizes do que nunca. E dei comigo a pensar que, pelo menos estas dezenas de pessoas, não terão o coração nas mãos nos próximos anos. Muitos deles já com família constituída e vida estabelecida em determinado local. E fiquei, momentaneamente, feliz por eles. Mas depois pensei que em 4000 candidaturas somente 500 tiveram contratos. No meio da alegria de muitos há (sempre) os vencidos. Os não contemplados. Os tristes. Os esquecidos. Os injustiçados. Não vou analisar resultados, nem estatísticas, nem fazer críticas, nem dizer que este governo é melhor ou pior do que o anterior. Vou falar de mim. Porque foi de mim que me lembrei há quase dois anos atrás quando queria muito ter tido um contrato em Portugal e não consegui. Eu não queria mais do que isso. Queria o que via começar a acontecer à minha volta. Investigadores da minha geração que começavam a ver, e muito bem, as suas bolsas trocadas por um contrato pela primeira vez na vida. Era tudo o que eu queria. Um contrato a termo, com 14 meses/ano, descontos para a segurança social e (se possível) ADSE. Mas isto, que eu considerava muito, e muitos acham pouco, nunca tive no meu país. Aos 39 anos, depois de um doutoramento em que passei parte a fazê-lo em Houston, no Texas,  depois de 8 anos de Pós-Doc que incluíram vários períodos em Columbia University em NY, 10 papers como primeira autora, 1 projecto em colaboração, não foram suficientes para conseguir uma posição, digamos, mais estável. A verdade é que o que parece muito currículo era menos do que alguns dos meus colegas no grupo a que pertencia. Não vou dizer nunca que foi fácil não ter tido um contrato naquela altura. Nem mesmo o tempo fez com que me esquecesse. Com a distância de quase 2 anos consigo compreender que novos caminhos podem surgir. Mas não me apetece relembrar o quão difícil foi. Os critérios de escolha, mesmo conhecidos, não são nunca compreendidos pelos que não são contemplados. Somos humanos e não conseguimos na maioria das vezes separar a razão do coração. E eu, provavelmente, tão bem como muitos ou melhor do que muitos sei, porque senti na pele o que é não ser uma das escolhidas quando não existem muitas opções. E é isto que acontece à maioria dos meus colegas investigadores/ cientistas.  Hoje, mais do que nunca estou solidária com os 3500 que não conseguiram um contrato. E damos connosco, erradamente, a culpar alguém.  A culpar os estrangeiros que conseguem mais facilmente quando nem o trabalho, nem CV, nem qualidade são melhores do que os nossos; as pessoas que são apadrinhadas pelas padrinhos certos e que conseguem ter mais papers em colaboração;  os preferidos, não necessariamente os melhores, que conseguem (mais) alunos de doutoramento...

E depois, concluo que aos 39 anos consegui uma posição competitiva não só pelo meu CV, entrevista, plano de trabalhos, apresentação, mas também porque o meu orientador na época apoiou a minha candidatura. Porque esse apoio, mais do que tudo, mesmo que o nosso desempenho seja perfeito e irrepreensível, será a chave da decisão final. E expiro de alívio por não ter, hoje mais uma vez, o coração nas mãos. Mas para isso mudei de cidade, de país, de colegas, de trabalho. Deixei a minha casa, a minha família, a minha cadela, os meus amigos, o meu carro e comecei de novo. Do princípio, do inicio, do começo e com tudo o que ser desconhecida e começar de novo implica. E percebi, sim, à minha custa, que a crítica sem acções não nos levará nunca a lado nenhum. Porque aquela velha máxima que aprendemos desde crianças que tudo na vida resulta de acções justas, não passa disso mesmo, de apenas uma frase como outra qualquer. A verdade é que uns mais do que outros, dependendo de muitas variáveis ao longo do caminho, teremos mais ou menos sorte mais ou menos sucesso e que isso dependerá (sempre) mais dos outros do que nós próprios. E depois, o pensamento foge-me, mais uma vez, para o futuro. Que no fim deste contrato estarei mais uma vez de coração nas mãos e tudo começará de novo e de novo e de novo. Até não haver mais início.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

O mal menor


Há uns anos, quando Cavaco Silva foi pela primeira vez candidato a Presidente da República contra Jorge Sampaio, Paulo Portas subira ao púlpito da Assembleia da República para apoiar o “mal menor”. Ele que tinha sido um dos principais alvos e manchetes d´O Independente no período político conhecido como “cavaquismo.  É esta a analogia que faço com Lula da Silva.

Nunca gostei do estilo. Nem das amizades. Nem de quem se rodeou. Nem dos silêncios. Nem dos desconhecimentos. Nem do mau-gosto. Nem do apoio a Chavez. Nem da apresentação do livro de Sócrates. No entanto, com tanto anti-Luluismo, até eu me rendi. Lula da Silva é o mal menor. Não vou dizer, como li muito, que “roubou mas fez”. Não sei se roubou. Não sei se foi corrompido. Cabe à justiça esse papel. O(s) crime(s) de que é acusado já foram confirmados em duas instâncias,  mas não transitou em julgado. O principal crime de que é acusado é um triplex no Guarujá. Ou seja, o equivalente em Portugal a ter um apartamento no Barreiro. Não é um apartamento em Ipanema ou no Leblon ou uma mansão em Trancoso ou Fernando de Noronha. Mas se é verdade, demonstra um imenso mau gosto e a aptidão para “vender-se” por pouca coisa. No entanto, até hoje, não vi prova nenhuma que demonstre que o apartamento era realmente seu. Mais, a ser verdade, 12 anos? É inegável que Lula da Silva tem imensos opositores, principalmente a alta burguesia e alta sociedade brasileira que vive no século XXI mas com tiques de século XVIII. Esta elite branca, de direita, milionária, priviligiada, que vive como (quase) nenhum lugar do mundo. Talvez algo comparado a alguns países de África em que só há miséria e fome e do outro lado esbanjamento. Esta elite perdeu direitos com a subida de Lula ao poder. Em vez de 5 a 7 seres humanos para tarefas domésticas correntes que incluiam: motorista, jardineiro, porteiro, faxineira, diarista, cozinheira, babá pagos a preços abaixo de electrodomésticos, começaram a ter que diminuir os seus luxos. Estas pessoas começaram a ter direitos e a não serem tratados como antes da abolição da escravatura.

Agora façamos o exercício de ser verdade que Lula da Silva é corrupto. Outros políticos como Aécio Neves que tem uma ligação difícil de explicar com um helicóptero com 500 kg de cocaína e que foi apanhado em escutas telefónicas a sugerir matar alguém que sabia muito. Temer que é Presidente sem ter sido eleito e suspeito de muitos crimes mas não foi a julgamento porque a política, nomeadamente o Congresso brasileiro permitiu que assim fosse. Aquele Congresso eleito pelos brasileiros, em eleições livres e democráticas, votou pelo impeachment de Dilma e não permitiu que Temer fosse julgado. Não sei quem naquele congresso brasileiro é isento de mácula.

A Isabel de Moreira que se intitula como Constitucionalista ter com cartazes “Lula livre” é uma anedota. Aliás, acho que a Isabel Moreira está no partido errado. De facto, ela deveria ser coerente e filiar-se no Bloco de Esquerda.

Ter visto José Sócrates, acusado de crimes semelhantes em Portugal em muito maior, comentar a prisão “política” de Lula da Silva foi lindo. Não conhecesse a excelente capacidade de argumentação combinada com a mentira compulsiva e eu acharia que estava a ouvir um dos mais brilhantes pensadores do séc XXI.

O mais curioso é que as pessoas que usam os argumentos anti-direita, que eu corroboro na íntegra, se esqueçam das situações políticas em Cuba e Venezuela. Os eternos mitos que estampam t-shirts por todo o mundo com as caras de Fidel e Che. Uma ditadura de quase 60  anos que fez milhares de exilados políticos e causou milhares de mortes no mar em fugas clandestinas. Nunca nos esqueçamos de Reinaldo Arenas. E a Venezuela, senhores? Primeiro Chavez, depois Maduro. Preciso de descrever a situação que lá se vive e que a comunidade internacional insiste em ignorar e a esquerda não aborda deliberadamente?

domingo, 25 de março de 2018

O Feliciano


Se eu quisesse ser má diria que alguém com este nome não augura nada de bom. O Feliciano, tal como o Relvas, o Vara, o Sócrates, mais outros tantos políticos menos conhecidos, e assessores  dos aparelhos partidários são o resultado do “chico-espertismo” português. Um país onde o tratamento por “doutor” e “engenheiro” chegou (quase) ao nível do Brasil. As universidades privadas proliferaram como fungos nos anos 90. Venderam licenciaturas aos betos jotas dos partidos que não tinham notas para entrar nas universidades públicas, aos betos que não conseguiam terminar os cursos nas universidades públicas, aos trintões que queriam uma licenciatura que lhes concedesse o tratamento pelo grau e/ou lhes legitimasse a desempenho profissional. Para melhorar tudo, esta semana, ficamos a saber que os licenciados pré-Bolonha vão ter equivalência a Mestrado. Estamos conversados quanto a facilitismos.

Voltando ao Feliciano, é outro dos casos que envolve a dupla maravilha de combinar um curso tirado numa universidade privada com a demora da obtenção do curso. Dir-me-ão que a conclusão desta combinação é uma generalização e um preconceito. Pode ser, mas convido quem tiver tempo e paciência a analisar os políticos e os seus boys que tiraram os cursos em universidades privadas. Infelizmente, a política portuguesa está cheia destas ervas daninhas que ajudam a sustentar os partidos e os governos.

Não é preciso ter tirado um doutoramento numa universidade americana ou em colaboração com uma universidade americana para saber que quando se é aluno de doutoramento ou aluno de doutoramento visitante, o processo começa com uma carta/convite da universidade americana em inglês, nunca em português. Juntamente com isso vem a obtenção do DS e do visto J1. O esperto do Feliciano não só demorou o dobro dos anos da duração da licenciatura numa universidade privada como se aproveitou de uma carta de uma Professora de Berkeley em português a dizer que orientaria o seu doutoramento. Como todos os espertos, aproveita-se de tudo o que pode. Dizem à boca pequena que mal fala inglês e que, quando contrariado, diz mal de toda a gente e que queria chegar a Ministro, coisa que nunca aconteceu. Mas, pasme-se, chegou a Secretário de Estado em dois governos e foi chefe de gabinete de Passos Coelho (que não gostava dele... imaginem se gostasse). Li das coisas mais anedóticas sobre este senhor desde ter publicado mais de 20 livros a fazer-se anunciar no Bombarral à sua chegada com buzinadelas do motorista oficial.

Mas onde eu quero chegar é que Felicianos há muitos. E o exemplo do Feliciano é um dos exemplos de como se ascende na vida. Depois, também há os que sem mácula e sem nada que se lhes aponte têm uma biografia irrepreensível e repleta de graus mas subiram na vida porque se encostaram às pessoas certas. Porque se é verdade que há muita gente que não consegue tirar uma licenciatura sem ter sido paga, há muita gente que não se pode gabar de grande inteligência mas ter conseguido tirar um doutoramento. É célebre a frase: “um burro com livros é sempre um burro”. Há muitos anos uma pessoa que era respeitadíssima, e que caiu anos depois em desgraça, dizia uma coisa que nunca esqueci: “ não interessa o que diz a tua tese mas quem é o teu orientador”. De facto, a vida depois de 38 anos ensinou-me que é (quase) uma verdade absoluta.  Com raras excepções, nunca chegaremos a lado nenhum  sem um telefonema ou sem uma (boa) carta de recomendação.

Pedro Passos Coelho chegar ao topo da hierarquia académica pelo simples facto de ter sido Primeiro-Ministro causou grande indignação.  Um licenciado por uma universidade privada, depois dos 30, leccionar numa Universidade pública com a equiparação a Professor Catedrático Convidado? Que sacrilégio! Concordemos ou não, não é ilegal. Podemos lembrar-nos de outros como Vitor Constâncio e Guilherme de Oliveira Martins.  O que a mim me causa perplexidade e azia não é ele ser professor catedrático convidado numa universidade pública, que é legal,  mas eu não poder fazer o mesmo. E nunca me esqueço do comentário infeliz que fez sobre aconselhar os melhores qualificados a emigrar. Foi o que fiz. Na inevitabilidade de não conseguir no meu país um emprego, conseguiu-o no estrangeiro, aos 38 anos pela primeira vez. O que me faltava?

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Que acordão é este?

Hoje ouvia que não há classe mais avaliada e escrutinada do que a dos juízes porque os acordãos são colocados à disposição de quem os quiser ler e consultar. E depois, esse trabalho está sob os holofotes das partes, do MP, dos advogados, das outras instâncias superiores, dos jornalistas... Tudo verdade.

O Conselho Superior da Magistratura reagiu timidamente ao acórdão do Tribunal da Relação do Porto em que dois magistrados declaram ser compreensível a punição violenta das “mulheres adúlteras”. No comunicado defendem que “nem todas as proclamações arcaicas, inadequadas ou infelizes constantes de sentenças assumem relevância disciplinar”. A questão pertinente que se coloca é quem pode agir contra o Juiz Desembargador Neto de Moura que é o autor do acordão inqualificável sobre um recurso do Tribunal de Felgueiras que  foi assinado, também, pela sua colega Maria Luísa Arantes (sim, uma mulher)?

Os argumentos do acordão para justificar a violência são tão arcaicos e medievais que parece impossível terem sido escritos no século XXI, numa cidade da Europa:  “O adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem. Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte. Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte. Ainda não foi há muito tempo que a lei penal [de 1886] punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando a sua mulher em adultério, nesse acto a matasse.” Um provinciano, misógino, preconceituoso, inculto que julga com base no divino em que acredita é péssimo mas  não censurar e não conseguir despir-se de todos os preconceitos de uma sociedade machista  é muito pior. Há argumentos no acordão que parecem ser ele o traído. De facto, os juízes também são humanos. O grande problema aqui foi a balança do sentimento lhe ter pendido para o lado errado. Acusou e julgou, parecendo, na minha opinião, colocar-se  no papel de traído, como se isso fosse o importante, e nunca por exemplo de pai ou irmão da “traidora”. É sempre interessante perceber para que lado pende a balança da nossa (cega) justiça.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Aestas horribilis

Vários países da Europa têm dimensões maiores e mais florestas do que Portugal. É um facto que este foi um verão longo, extremamente seco e com temperaturas altas. Mas a verdade é que tragédia de Pedrogão não nos ensinou nada. Morreram 66 pessoas, um incontável número de feridos, bens perdidos, casas, florestas irrecuperáveis nos próximos anos. A culpa não foi de ninguém. Aliás, culpa, é uma palavra proibida e associada a crenças religiosas judaico-cristãs. Troquemos então a palavra culpa por responsabilidade. Quem deve assumir? Em Pedrogão: ninguém até agora. Não se demitiu nem foram demitidas pessoas nesta tragédia que ceifou 66 vidas. Toda a gente nos atentados de Paris colocou “Je suis Charlie” mas 66 pessoas morrerem queimadas a fugir ou a proteger os seus bens não é tão mediático como ser morto por terroristas. Que medidas foram tomadas para que algo do género não se repetisse? Tudo se adia neste país.

Num outono pouco comum, com temperaturas de verão e chuva que teima em não cair, repete-se a tragédia. Portugal a norte do Tejo a arder. Quarenta e um (41) mortos. Um secretário de Estado da Administração Interna que acha que os cidadãos têm que ser proactivos. A sério? Um senhor com responsabilidades políticas achar que os civis podem ajudar em vez de atrapalhar numa tragédia? Quais as razões para se terem extinguido as vigias nas florestas, sabendo que as temperaturas continuariam altas? Qual a razão de os militares não terem sido convocados para ajudar na patrulha de estradas e/ou florestas para dar nem que fosse uma sensação ínfima de respeito e segurança e demover os supostos incendiários?  Relatos de estradas não cortadas por falta de efectivos? E declarações como “os bombeiros não podem estar em todo o lado”? Como é possível uma mata real, mandada plantar por Dom Dinis no séc. XIII,  que sobreviveu durante séculos e que é propriedade do Estado português ter 80% da sua área queimada num fim de semana? Como é possível uma das dirigentes da Protecção Civil ler (não falar de improviso) que Vieira do Minho e Guimarães são no distrito da Guarda. Como há margem para erros destes na leitura de comunicados? Tudo parece improvisado. Era como se me colocassem a mim a falar de microeconomia.

Eu vi em directo as declarações de  António Costa na madrugada de segunda nas instalações da Protecção Civil em Carnaxide: “não existem varinhas mágicas”. Foi inacreditável o que ouvi. Só lhe faltou dizer: “vamos esperar e sentar-nos à espera que tudo arda”. Alguém dizia, e bem, que a António Costa tem-lhe faltado sentimento, afecto, conforto. O homem parece um autómato insensível a tamanha tragédia. Ontem à noite, preferi manter a tv desligada, porque me bastava o cheiro e a visão que tenho de casa. Mas li que a postura de António Costa se manteve. Um discurso técnico, insensível, arrogante. Não é isto que se espera de um Primeiro-Ministro. Palavras de força e apoio, de energia, de alento. Esperávamos um homem mais sensível e mais humano. Um homem que se comovesse, que falasse mais com o coração e menos com a cabeça. Ele e a Ministra da Administração Interna suportada (apenas) por ele são pessoas sós no autismo dos seus gabinetes e na segurança das suas cosmopolitas casas.

Onde estão as consequências políticas do relatório de Pedrogão? Não é nos momentos adversos que se conhecem as pessoas? Como é possível nenhuma das deputadas das geringonça, sempre tão activas nas redes sociais a apontar erros aos outros, não fazerem um mea culpa e proporem alterações nas leis, como por ex,  aumentar drasticamente a moldura penal para quem deflagra incêndios que têm consequências que as três gerações futuras ainda poderão ver e sentir?

Hoje de manhã passei nos montes que rodeiam Braga e era um manto coberto de preto e fumo. Que tristeza que me deu. Impossível ficar indiferente a este cenário de devastação. E que inúteis nos sentimos quando a única ajuda que podemos pedir e clamar seja a universal natureza. Quando temos um Primeiro-Ministro que está mais preocupado em manter uma Ministra. E uma Ministra a dizer que seria mais fácil abandonar porque não teve férias. Estas atitudes de irresponsabilidade política fazem recuar-me uns anos e louvar quando tínhamos homens e políticos de verdade que assumiam politicamente erros que não tinham directamente intervenção deles, como foi o caso da demissão do então Ministro Jorge Coelho aquando da queda da ponte de Entre-os-Rios.

Que (mais) esta tragédia nos ensine alguma coisa. Que sejam nomeadas pessoas competentes para os cargos de chefia, gente com valor demonstrado na sociedade e na academia. Empreguem os boys dos partidos nos gabinetes e como putos de recados com bons salários e os seus fatos de bom corte, mas por favor, não coloquem (mais) gente incompetente a coordenar coisas para as quais não têm conhecimento.

O numero de mortos e feridos nestes incêndios foi uma tragédia. Pessoas que morreram na maior das aflições sem serem ajudadas. Como poderemos ficar indiferentes? Como poderemos não pedir responsabilidades? Como poderemos continuar com a nossa vidinha? Como podemos nos calar? E saber que uma Ministra com esta incompetência e esta falta de noção das suas limitações se mantenha no cargo, como uma lapa, repetindo “não me demito”, é de dar dó. Esta morte lenta na fogueira do poder não dignifica ninguém. Mas, de facto, já perdeu o tempo. Já nada do que fizer será uma atitude digna e sair de cabeça levantada.

Não estou a pedir a cabeça de ninguém. Somos todos humanos. Errar é humano. Mas errar duas vezes, no mesmo ano, separados apenas por meses, com consequências tão devastadoras é resignarmo-nos à nossa inutilidade. Informaram-me que 234 800 000 EUROS: é quanto o Estado prevê gastar em 2018 em combate a incêndios. Zero (0) EUROS: é quanto o Estado prevê gastar em 2018 em prevenção de incêndios. (Mais) palavras para quê? Deitemo-nos, pois, em posição fetal a chorar e acordemos quando já não restar mais nada para arder e mais nada para salvar.


Copyright: Pedro Remy

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Adeus Passito

A derrota do PSD era expectável. Pedro Passos Coelho tinha a seu favor as baixas expectativas.  Mas uma hecatombe desta dimensão deixou muita gente surpreendida. A começar por mim. Ficar abaixo da CDU é uma catástrofe. Só uma visão deturpada e uma cegueira intratável justificam o mundo paralelo em que Passos vive desde o dia 4 de Outubro de 2015. Toda a gente sabe que foi Passos que ganhou as eleições legislativas. Toda a gente sabe que a formação da “geringonça” foi o golpe que Passos até hoje ainda não aceitou. Toda a gente sabe que o fim do mundo não chegou e que não haverá eleições legislativas antecipadas como Passos desde o primeiro dia da tomada de posse de António Costa ambicionou. Toda a gente sabe que o diabo não chegará. E como diz João Miguel Tavares: “Já várias vezes escrevi que o país muito lhe deve, e que a História lhe fará justiça. Mas agora é hora de pendurar o retrato na Rua de São Caetano à Lapa e dizer adeus”. Acrescento o que disse Manuel Ferreira Leite “atónita e chocada com os resultados demasiadamente maus”. José Miguel Júdice, que entregou o cartão de militante do PSD, disse que este não é o partido de Sá Carneiro e nem consegue perceber qual a actual ideologia.
Os candidatos do PSD em Lisboa e no Porto eram fraquíssimos e nascem de erros de avaliação, de segundas e tardias escolhas e teimosia do seu líder. Começou com o erro de não ter apresentado um candidato vencedor antes de Cristas e, depois, não ter reconhecido isso e errar pela segunda vez não apoiando Cristas em Lisboa e não ter apoiado Rui Moreira no Porto. Tenho muita pena que o José Eduardo Martins, crítico interno de Passos, aceitasse ter escrito um programa eleitoral que estava derrotado à partida. Tenho pena, também, da Teresa Leal Coelho que aceitou a tarefa ingrata de não ser a primeira escolha e ter-se sujeitado a este papel. Até admiro a frontalidade dela como deputada e as opiniões anti-racismo que expressou, sozinha, durante as eleições. Mas, não conseguiria pensar em candidata tão fraca e com tão pouco entusiasmo durante a campanha. No entanto, acho que ela é a menor das culpadas.
Braga continua completamente irrelevante sob o ponto de vista político nacional. Braga, que  tantos dizem estar no mapa e que é a terceira cidade do país, nunca o é nem nas eleições nem  nas previsões meteorológicas. Com a maioria, pela segunda vez consecutiva, vamos ver se Ricardo Rio saberá usar melhor depois de ter sido, segundo disse, condicionado pelo estado das contas que encontrou no município. Este era um resultado esperado. Primeiro porque uma governação jurássica do Partido Socialista já não acrescentava nada a Braga e a oposição pouco mais fez do que críticas avulsas. Acrescenta-se um PS totalmente descaracterizado, com os arguidos apoiantes de Mesquita Machado de um lado e um Miguel Corais orgulhosamente só do outro. No entanto, existem muitas coisas que têm que melhorar nos próximos anos. É indiscutível como a cidade ganhou vida nos últimos 4 anos. A relação com a Universidade é notória e de salutar. As actividades culturais são muitas e diversificadas. A procura e oferta turística tiveram um aumento exponencial. A revogação de alguns péssimos negócios como o edifício das convertidas é um grande exemplo. A decisão sobre o S. Geraldo depois de muita pressão pública foi outra das grandes decisões a mostrar que esta coligação não está de costas voltadas para a população. As reabilitações do Parque Exposições de Braga (PEB) e do mercado Municipal foram dois dos grandes investimentos desta coligação. No entanto, há coisas que não se percebem: como não se cria mais verde naqueles espaços à volta do parque da Ponte, mais ciclovias e passeios?Como é que aquele parque pode ter tão pouca vida? O que se fez nas margens do Rio Este nestes últimos 4 anos? Uma das promessas da coligação “Juntos por Braga” era a revogação do  aumento de ruas com estacionamento pago. A minha rua fazia parte das ruas acrescentadas cujo estacionamento é totalmente pago. Há uns tempos critiquei publicamente a forma como o actual Presidente da Câmara prometera revogar a decisão da ESSE no que respeita ao aumento do número de ruas com estacionamento pago. Fui corrigida, posteriormente, pela sua Chefe de Gabinete (pessoa que prezo e tenho consideração) que a acção teve parecer positivo do Tribunal mas que a ESSE recorreu. É neste ponto que estamos. O pagamento continua a ser cobrado. Eu sou residente numa rua cujo estacionamento é pago mas eu não tenho garagem. Ou seja, qual a justiça de se cobrar o estacionamento a residentes que não têm lugar de garagem. O que me sugerem é que pague a avença mensal? Tenho centenas de euros por pagar. O que proponho: devia ser criado um dístico isento de pagamento para residentes sem estacionamento. É o mínimo que se pede num país civilizado e cujo cidadão comum paga por tudo o que usufrui. Será pedir muito? Uma das promessas desta coligação é mudar a recolha dos lixos domésticos. Pois bem, para quem conhece a recolha do lixo em Braga é qualquer coisa que considero indescritível para o século XXI. O lixo é colocado nas calçadas à porta dos prédios. Será  que vai mudar em 4 anos?
O resultado de Isaltino em Oeiras  é anedótico. O concelho com maior percentagem de licenciados e doutorados do país elegeu, com um resultado esmagador, um senhor julgado, condenado e preso por crimes praticados no tempo em que era presidente da câmara. O exemplo de Oeiras faz-me lembrar a piada que conto muitas vezes que os maiores burros que conheci na vida são doutorados. A democracia (também) é isto?
Inês de Medeiros derrotar o bastião do PCP em Almada foi outra surpresa, para mim. Uma candidata sem nenhum peso político, como Inês de Medeiros, é a prova de que tudo corre bem ao PS. O estado de graça chegou para ficar.
A frase tantas vezes repetida, a mesma frase tantas vezes lida “não me demito” não é sinónimo de coragem nem inteligência. É sinónimo apenas de teimosia e não saber sair de cabeça erguida. Tomasse como bom exemplo o de Paulo Portas, e quem sabe, pudesse voltar um dia. Desta forma, ficará como o pior exemplo da história de agarrado ao poder. Nunca devemos ser nós a acharmos que somos (sempre) indispensáveis. Os outros é que devem opinar por nós e deverão fazer esse julgamento. Como tudo na vida devemos sair quando estamos a mais e não esperar que nos empurrem.O grande problema do PSD é quem quer ir para o lugar mais indesejável do país? Rui Rio é um homem provinciano, bairrista, dizem que  equilibrou as contas no Porto mas nunca a cidade esteve tão apagada e tão invisível como no seu tempo. Um homem sem visão é tudo o que o PSD não precisa. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Mário Soares,1924-2017

(Escrito no dia em que morreu: 7/01/2017)


Nunca votei Soares. Quando andava na primária usei e abusei do "Soares é fixe e o resto que se lixe", mal sabia eu o que era política. Mas ninguém pode negar a importância dele na política portuguesa. Depois, sempre respeitou muito Sá Carneiro e reconciliou Amália com Portugal,conseguindo prestar-lhe a homenagem que ainda viu em vida. Um homem culto, moderno, visionário, leitor voraz.Um conhecedor e admirador de arte, admirava as coisas belas. Um defensor da ciência e dos cientistas. O político português mais conhecido no mundo. Errou Ao candidatar-se ao Parlamento Europeu e ao recandidatar-se a PR, contra a vontade até dos seus amigos e familiares. Numa época em que a política é inundada de gente sem qualidades, Soares é um exemplo. Fui a maior das críticas da Fundação Mário Soares, ainda em vida. Não é porque na morte toda a gente é boa mas porque é merecido. Abomino as destilações viscerais de muita gente com pouco o que fazer no anonimato das redes sociais.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Dan's Finger Food and Drinks

10.12.2016

Foi a nossa segunda vez. Noite de sábado. Fria, como todas, no inverno do Minho. Mas, felizmente, sem chuva. Não existem reservas. Quando chegamos por volta das 8 a fila de espera era considerável. E o nosso desafio era grande: 10 pessoas (3 crianças, 6 adultos e uma bebé no carrinho). Esperamos aproximadamente uma hora.

A primeira vez que experimentamos foi há mais de 6 meses e ficamos com óptima impressão e com vontade de voltar. Fomos menos mas também levamos uma criança. Pode dizer-se que é um restaurante completamente kids friendly. Existe um menu especificamente para crianças. E os nuggets ( que não são mais do pequenos panadinhos muito bem feitos). Da primeira vez bebemos sangria de frutos vermelhos. A cerveja que existia era de uma marca espanhola da qual não me recordo o nome.

Desta vez, a lista de cervejas era muito maior e incluía as artesanais, nas quais recaiu a nossa escolha. Pedimos 3 tipos diferentes e duas delas em tamanhos familiares e que foram trazidas numa taça de gelo. Pedimos várias entradas. Levamos um bolo de aniversário e foi-nos trazido pratos e talheres (o que muitas vezes não acontece em muitos restaurantes). Apesar de Guimarães ser uma cidade reconhecida pela sua tradicional comida minhota, este Dan’s merece uma visita. De vez em quando os adultos anseiam por um hamburguer de qualidade e uma boas batatas fritas e os miúdos adoram. Pedimos várias doses de de entradas de nuggets e camarão enrolado em bacon. Os adultos escolheram entre os 13 hamburgueres disponíveis e as crianças os respectivos menus mais pequenos.


O melhor: A luz e a iluminação. A meia-luz. E o ambiente a fazer lembrar um típico bar americano. Um dos funcionários que tem um humor que merece ser falado. Dois dos molhos que acompanham o hamburguer: caril e maionese com alho . As batatas fritas

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O triunfo das mulheres

Sou suspeita para falar de Madonna. Acho que é o verdadeiro icon pop. Transgressora. Revolucionária. Autora de uma grande música chamada Music que tem apenas um acorde (o máximo da simplicidade na linguagem musical). Autora de várias músicas que são verdadeiros hinos. E autora de músicas, que de alguma forma, toda a gente conhece. E é, nas suas próprias palavras “uma má feminista”. Madonna está a dois anos de fazer 60 e acaba de ganhar, esta semana, o prémio de “Mulher do ano”. Destaco o seu discurso de aceitação e agradecimento. Um discurso emocionante, verdadeiro, íntimo, revelador, sincero, cru e doloroso.

Com o seu conhecido humor começou o seu discurso centrado, principalmente, no facto de ser mulher. Começou por referir que hoje, com as novas tecnologias, as pessoas não precisam de ter coragem de insultá-la “cara-a-cara”. Falou da sua experiência de se mudar para NY, ainda adolescente, em 1979, ano em que eu nasci. Ao contrário de hoje, NY era uma cidade assustadora. No primeiro ano, apontaram-lhe uma arma, foi violada num terraço com uma faca na garganta e o apartamento foi tantas vezes assaltado que deixou de fechar a porta. Nos anos que se seguiram, perdeu quase todos os amigos com SIDA, drogas, ou tiros. Estes acontecimentos avassaladores, não só a tornaram na mulher que é hoje, mas também lhe relembra o quanto é vulnerável. Afirmou, claramente, que não é dona dos seus talentos, que não é dona de nada. Tudo o que tem é um presente de Deus. Para os crentes, esta é a maior das humildades. Depois falou especificamente na questão de género, no facto de ser mulher. Quando começou a escrever não pensava nisso. Mas depois começou a sentir como isso era importante. Se se é mulher é permitido ser-se bonita, gira, sexy. Mas não se pode ser muito inteligente. Não é permitido que se tenha uma opinião diferente do status quo. Não é permitido envelhecer. Envelhecer é um pecado. Falou de quando o álbum Erotica e o livro Sex foram lançados. E o que escreveram sobre ela. Uma das manchetes comparou-a ao Diabo. E nessa mesma época, o Prince andava de saltos altos, baton e mostrava o rabo... mas era homem. Falou de como se conseguiu recompor de todas as críticas e de todos os insultos, encontrando força na poesia de Maya Angelou, na escrita de James Baldwin e na música de Nina Simone. Deu como exemplo a Camille Paglia uma escritora feminista, que em vez de a apoiar a criticou. E terminou a dizer o mais importante: que as mulheres devem apoiar-se mutuamente.

E nesta semana, este discurso é especialmente importante, porque coincide com a atribuição de um pretigiadíssimo prémio a duas colegas do meu laboratório em Portugal. O que é de destacar é que não foi apenas um prémio mas dois prémios atribuídos a duas mulheres do mesmo grupo de investigação, e consequentemente, da mesma universidade. Estes prémios foram especificamente duas bolsas ERC Consolidator Grants de quase 2 milhões de euros para cada uma e é  um dos maiores reconhecimentos científicos a nível monetário e de mérito. Duas mulheres. Esta é a parte importante. Não sou amiga nem íntima de nenhuma delas. Somos mais de 100 pessoas no mesmo edifício. Uma delas conheço-a desde o dia que entrei no lab, há mais de 13 anos. Como mulheres que são, com toda a certeza, já as acusaram de tudo. E o facto de não ter nenhuma ligação a não ser profissional, faz este comentário ser (ainda) mais legítimo e verdadeiro. Tiveram e têm um director que é sábio, visionário, que acreditou nelas e que apostou nelas. Sem isso não seria possível. E não só nelas mas noutras tantas que compõem o seu grupo. É um director que aposta em mulheres e que acredita, sobretudo, nelas. Os números do seu grupo não enganam. Quem sabe esse seja talvez a razão do sucesso deste laboratório? Tal como no discurso da Madonna, nós mulheres, deveríamos sempre ficar contentes com o sucesso de outras mulheres e saber reconhecer-lhes isso. Não porque são mulheres mas pelo difícil que é conquistar o sucesso em igualdade de competição com os homens.

Não podemos esquecer-nos que em quase 30 anos de Prémio Pessoa somente 5 mulheres, num universo de 29 premiados foram mulheres: Maria João Pires, Menez, Irene Flunser Pimentel, Maria do Carmo Fonseca e Maria Manuel Mota.

No entanto, os  números  são animadores e mostram-nos que as mulheres são as que entram em maior número nas universidades, as que têm melhores notas e as que concluem os cursos com sucesso. Mostram-nos um presente brilhante e um futuro muito promissor.

Na política, uma vergonha. Um parlamento que tem que ter cotas para que haja um número mínimo de mulheres. O antigo governo com 14 ministros, apenas 4 eram mulheres: Maria Luís Albuquerque, Anabela Rodrigues, Paula Teixeira da Cruz e Assunção Cristas No actual governo o cenário piora, num universo de 17 ministros, 4 são mulheres: Maria Manuel Leitão Marques, Constança Urbano de Sousa, Francisca Van Dunem e Ana Paula Vitorino. No entanto, a Fundação Champalimaud tem como presidente uma mulher, Leonor Beleza e a Fundação Calouste Gulbenkian terá como próxima presidente Isabel Mota. Nem tudo é mau, portanto. Temos, também, na ciência e na academia grandes mulheres que lideram instituições como Maria do Carmo Fonseca e Maria Manuel Mota. Como diria Madonna, o importante é não desistir continuar a persistir. Um dia, as coisas mudarão.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Os telhados de vidro dos políticos

Conheço pessoas com muito talento na política. Ao contrário da maioria, considero que muitos dos políticos são bons, bem preparados e de boa índole. O grande problema, é como todos os seres humanos, os políticos também o são. E aqui é que reside muitas das suas fraquezas. Não entendo, nem sei qual a motivação, dos muitos dos políticos que conheço pessoalmente, pelos quais tenho grande consideração e apreço profissional e pessoal, tenham alguns boys and girls  absolutamente pouco recomendáveis. Conheço gente que subiu, com muito talento, desde a juventude dos partidos até ao topo e sempre acompanharam quem se tornou grande. O problema, é que juntamente com estas pessoas de confiança, subiram as "ervas daninhas”. Gente que lhes estão amarrados como lapas. Gente que eles nunca deixarão cair. Gente que, independentemente dos cargos políticos que ocuparão, segui-los-á sempre. Já se deram ao trabalho de apreciar os curricula destes assessores ou adjuntos? Estas ervas daninhas caracterizam-se por, primeiro de tudo, serem uns grandes engraxadores. Uns lambe-botas. Personalidades tupperware. Gente que anda no último grito da moda. Que tem tempo para ir ao ginásio. Que estão sempre atrás ou à frente do chefe, sempre junto. O grande organizador da banda. O cabelo no último grito. Um carro topo de gama. O pequeno poder. A pessoa que socialmente e profissionalmente não vale nada mas acha-se muito. A verdadeira pessoa sem vergonha e sem qualidades. Aqueles que quando surge uma notícia verdadeira nos jornais culpam a oposição (dentro do partido e fora). Aqueles que desmentem a notícia verdadeira como sendo um ataque pessoal, mesmo sabendo que tudo aquilo é verdade, e que depois acabará (também) por ser provado em tribunal (mas aí toda a gente já se esqueceu). Têm um salário alto mas não têm valor para tal. Mas têm um lugar de confiança política. Pessoas que se inscreveram à pressa num curso, numa qualquer universidade privada (que sobrevive à custa de gente como eles). Gente que é tratada por Senhor Doutor e Senhor Engenheiro, mesmo que nunca chegue a ser, tal como os doutores das praxes. Gente que queria ter um curso à séria mas que por incapacidade intelectual comprará apenas aquilo que consegue com um nome duvidoso. Gente que anda de cabeça levantada, quando deveriam ser as primeiras pessoas a não ter coragem (nem) para sair de casa. Gente cheia de tiques. Gente que quando chega a algum lugar da moda identifica-se pelo cargo que ocupa junto do político a quem lambe as botas. Gente que nunca será aplaudido por aquilo que é mas por quem acompanha. Gente que rasteja como as minhocas, um nemátode. Mas nem isso eles conseguem ser.  São como as ténias, parasitas. Reduzem-se a um platelminte, com um sistema nervoso muito rudimentar, com uma capacidade intelectual que serve apenas para cumprir ordens e executar (mal) funções. Mas que sobreviverá a tudo, como os vermes. Conseguirá sempre um favor, um tachinho, uma avença, uma consultoria, um ajuste directo.

Quando o padrinho cair, cairá junto. Mas levantar-se-á de novo e de novo e de novo. A resistência e a resiliência são os seus elos mais fortes. Resistem a tudo. A teoria de Darwin no seu melhor. Os (mais) espertos sobrevivem (sempre).

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Sócrates (José), o esperto

Sócrates, esse grande Mestre e intelectual de Sciences Po. Por acaso foi em Paris, mas podia ter sido em NY. Há quem assegure que ele pensou em fazer o Mestrado em Columbia. Compra da licenciatura numa privada, cadeiras feitas ao Domingo, outras avaliações por fax, e finalmente, um grau que lhe foi atribuído mas que não merece. Pagou a um ghost writer. O caso de Sócrates é o exemplo de que a realidade pode superar a ficção. Nem nos meus maiores devaneios achava possível Sócrates dominar, comprar, controlar tanta gente.  Pagou para lhe escreverem a tese, para escreverem posts favoráveis ao seu governo, comprou silêncios, opiniões, pagou a várias mulheres despesas correntes (ainda não consegui perceber o motivo), pagou para lhe escreverem a tese de Mestrado, para que lhe comprassem o livro, pagou ao Lula para escrever o prefácio (como se Lula fosse um grande escritor ou académico na área) e parece que pagou para lhe escreverem o segundo livro.  O tal do Domingos Farinho, disse ter (apenas) revisto o livro . Consta-se que para isso recebeu qualquer coisa como 40 mil euros. A ser verdade, fez  pagar-se bem por esse (pequeno) trabalho.  E a ser verdade, que mal tem isso? Que crime é esse de pagar a alguém, 40 mil euros, para rever uma tese? Que tipo de crime existe nesse facto? É com este tipo de perguntas (idiotas) que Sócrates e a sua defesa costumam justificar os seus actos. Aqui percebe-se a falta de tacto da imprensa portuguesa. Não é ofício do orientador rever/corrigir uma tese de Mestrado? Quem foi o orientador da tese de Sócrates. Ninguém coloca essa questão?

O Domingos Farinho vem dar razão aquilo que eu defendo e escrevi várias vezes. Ser doutorado não diz nada sobre uma pessoa. Apenas que essa pessoa se especializou num tema em particular. Muitos (as) deles (as) não sabem nada (mais) para além disso. Não vou dizer a maioria, para não ferir susceptibilidades, mas muitos dos Doutorados que conheço são as pessoas mais incultas do mundo e que me fazem ter vergonha de dizer que sou doutorada (como se isso fosse uma vantagem). Este Dominhos Farinho falta-lhe uma coisa: tempo, vida, sabedoria. Doutorou-se em 2013. Ou seja, um Doutor à la Bologna. É um menino. Tem 39 anos, 2 anos mais velho do que eu. Licenciou-se antes de mim mas doutorou-se 4 anos depois. Ao contrário de mim, deve ser um bem sucedido Professor Universitário, e com isso ter uma vida profissional estável. E deve achar, como todas as crianças, insensatas que são, que quarenta mil euros vale para que outro receba os louros por si. Ora bem, quarenta mil euros, dava para pagar o empréstimo da minha casa. Ao contrário de mim, que continuo com o mesmo estado de bolseira desde o dia que me licenciei. Só as bolsas, o financiador e o valor mudaram ao longo dos anos. A situação mega, giga tera precária, permanece. E vocês obviamente, como bons portugueses que são, devem estar a achar-me uma invejosa. E como tal, só devo estar a criticar o meu colega porque queria ser como ele. E isso faz-me lembrar há uns anos, quando me ofereceram dinheiro para eu escrever teses de Mestrado, muito bem pagas, por sinal, ao que eu respondi: “por dinheiro nenhum do mundo porque a escrita é a única propriedade intelectual que me representa e que é minha”.

Há uns tempos, Sócrates deu uma entrevista em frente ao rio Tejo, no Altis Belém a Clara Ferreira Alves, num tom confessional, verdadeiro, que vivia da ajuda da mãe e do empréstimo que fizera para ir estudar para Paris. Querem imaginar a Clara Ferreira Alves que acreditou e transcreveu o que ele disse e que agora se sente e vê enganada como todos nós? Poder-se-á nunca se provar nada do ponto de vista jurídico mas conseguem perceber a grandiosidade do esquema do Sócrates. Um gajo que tem um amigo que lhe dá dinheiro para tudo. Um amigo que é o multibanco. Paga-lhe as viagens, as roupas, os restaurantes, os carros dele e da família, as casas, as contas dos filhos e da ex-mulher, as cópias, os livros, os envelopes, as malas, os vôos, os dentistas, o funeral do irmão, as férias... Não sou licenciada em Direito, não percebo nada de leis, mas existe uma expressão que se chama “livre convicção”. [Desculpem-me, é como o Paulo Pedroso que foi ilibado e não foi condenado. Mas a história do sinal que retirou, ninguém consegue apagar. Esse pode até estar livre, andar de cabeça levantada, receber uma indeminização do Estado português mas se a justiça terrena não funcionou, aguardá-lo-à justiça divida, e dessa, não poderá fugir].

Sócrates poderá nunca ser condenado por corrupção mas nunca se livrará da verdade, que nunca deixará de ser verdade, mesmo que não seja provada pela justiça portuguesa. Factos são factos e ele nunca poderá negar as transcrições dos telefonemas que existem. Podem ser ilegais. Podem não ser uma prova válida. Mas é um facto, aconteceu. Sócrates é o exemplo do trapaceiro, do fingidor, do que leva a melhor sobre os outros, do que se fica a rir. Sócrates é o exemplo do que a política portuguesa fabricou de pior. Mas a justiça portuguesa, não sei apontar a principal razão, peca por tardia. Ao contrário do Brasil, ainda não conseguimos julgar efectivamente grandes figuras de poder. Os únicos exemplos são os de Vale e Azevedo e Isaltino Morais. Mas esses não são exemplos do topo da pirâmide. Esperemos que a justiça portuguesa consiga formular uma acusação exemplar, sem erros, ou seremos para sempre conhecidos como a “república das bananas”. Só um Sócrates se lembraria de um Lula para escrever o prefácio do seu livro.


O lançamento do segundo livro já tem data marcada. Daqui a pouco temos um Doutor por extenso sem o merecer. E ele a rir-se de todos nós. 

Copyright: Expresso

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Cumpriu-se Portugal

O Infante

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Este foi o poema de Fernando Pessoa do livro “Mensagem” que saiu no meu exame de Português no 12º ano. Começámos pequenos, com a conquista do que é agora Portugal aos Mouros. Fomos grandes na época dos Descobrimentos, que apesar de todo o mal causado aos povos nativos, teve o mérito de espalhar a língua portuguesa pelo Mundo. Tivemos as invasões Napoleónicas. Sobrevivemos e resistimos. Um grande português deu a independência ao Brasil (Grito de Ipiranga). Demos a independência a Goa, Damão e Diu, Timor e a todas as colónias de África. E finalmente Macau. Voltamos ao pequenino que sempre fomos. Não sendo, como se dizia no tempo do Estado Novo que Portugal era “do Minho a Timor”, mas do Minho ao Algarve (Portugal Continental) e ilhas (Açores e Madeira).

Os franceses demonstraram mau perder. Acreditavam que já estava ganho. O autocarro já estava pronto. A Torre Eiffel que sempre se iluminou com as cores da bandeira nacional que ganhara, apagou-se. Ganhar é bom mas saber perder é uma virtude. Um país a achar que era superior...

Pelo Ronaldo que saiu pequenino da Madeira que teve uma infância mais do que humilde e que, como a mãe, sonhou o sonho de ser feliz. Ele é o exemplo para muitos meninos espalhados pelo mundo. E a mim, particularmente, faz-me acreditar que tudo é possível e que nada está predestinado à nascença. Um menino que disse em tempos à sua mãe:  “A mãe que não chore. Quando for grande, vou ganhar bastante dinheiro. Vou comprar uma casa e tirar a mãe do trabalho”. Dizem que todo ele é força de vontade e muito trabalho. E um homem bom.

Pelos portugueses espalhados pelo mundo que já ouviram uma piada/crítica/comentário xenófobo, pelos emigrantes que algum dia foram humilhados, pelos portugueses que fazem sucesso, pelos muitos que brilham, pelos muitos estudantes, pelos que trabalha arduamente e honestamente. Isto também é a vitória deles.

Como diz Fernando Pessoa “a minha pátria é a minha língua”, talvez seja isso que une os portugueses espalhados pelo mundo. Dizem que somos 11 milhões, mas somos mais. Mundial ou um Europeu como o deste ano, só vivi o de 2004 ou quando estava nos EUA. Nessa altura que me senti uma emigrante. Privilegiada mas emigrante. Estar longe da pátria. E quando se está longe é quando mais se sofre e quando mais se ama. Saudade, essa palavra tão portuguesa que não tem tradução.

Como escreveu uma grande amiga “Porque já estive lá fora e sei a falta que o nosso país nos faz e a alegria que é quando aterramos em casa. Pode ser futebol e 11 malucos com a bola nos pés, mas hoje é uma alegria que dão aos 11 milhões. Aproveitemos. E acreditemos que conseguimos. No futebol e na vida”. É (só) isto! Ontem e hoje. “Sonhar é grátis”, como disse o Ronaldo. Só vacilei quando ele saiu lesionado. Aí achei que estava tudo perdido. Mas os 11 em campo, apoiados pelos milhares no estádio e milhões em Portugal e espalhados pelo mundo, continuaram a acreditar. Se não tivéssemos ganho não seria o mesmo. Mas o sentimento de gratidão seria igual. É (só) futebol. Mas sonhar e acreditar que é possível é a melhor metáfora da vida.

Ganhámos contra tudo e contra todos. Dizem que jogámos mal, que não merecíamos. Pelos que nos chamaram nojentos, que nunca acreditaram que seria possível, que nos criticaram, que falaram mal, que nos consideraram menores, que só sabíamos construir casas e ser porteiras, que nos humilharam. “Não importa se jogamos bem ou mal, o que importa é levar a taça para o nosso Portugal”.  

Que esta vitória sirva para termos orgulho e acreditarmos sempre. Nada é impossível. E como dizia alguém: “O céu é o limite”.

E domingo, merecidamente, com justiça e pelos portugueses espalhados pelo mundo, ganhamos! Demonstramos união e espírito de missão, e isso é quase tudo! E no dia seguinte fui de directa trabalhar, depois de muito festejar e de o barulho na minha rua não ter terminado até de manhã. No dia 10 de Julho cumpriu-se Portugal! Obrigada!














quinta-feira, 7 de julho de 2016

Sonhar é grátis

Quando tudo corre bem, todos falam bem. Mas a verdade é que esta selecção ouviu de tudo desde o início do EURO 2016: a equipa não era forte, não tinha suficientes valores individuais, CR7 não estava ao melhor nível, não jogava um futebol bonito, teve sorte,quem mandava na selecção era o Jorge Mendes e a Nike, o Messi é que é, Fernando Santos não é um bom treinador... Talvez por excesso de críticas, desde o início, acreditei nesta selecção. Não sei exactamente o motivo. Não jogávamos bonito mas éramos eficientes. No final era sempre a sensação de dever cumprido. Temos um seleccionador que antes de ser um grande treinador é um senhor e um grande ser humano. Um homem cheio de valores e que acredita e mima a sua equipa. Os jogadores parecem estar mais unidos que nunca e parece que querem tanto ganhar quanto os adeptos. Não sei o que me fez acreditar que estaríamos na final. Mas acho que estes jogadores merecem e os portugueses também. 

Numa época que estamos tão cheios de maus exemplos, de crise, de austeridade, de má governação, de más notícias, de roubalheira, de fuga aos impostos, temos um CR7. Um jogador que não desiste de investir em Portugal. Vejam o último CR7 Hotel. Vejam o encanto daquela família. Um jogador que apesar dos milhões que ganha não quer ser (só) milionário basta-lhe ser rico. Não foge aos impostos. Não foi apanhado nas listas dos paraísos ficais, por exemplo.

Quando vimos o primeiro golo de CR7, o que pensamos é que desafiou as leis da física. O que muitos o acusaram, de não estar ao seu nível nos jogos anteriores, culminou no grande primeiro golo e na assistência para o segundo. E o que é mais bonito? O melhor do mundo (ainda) chora! E diz coisas tão simples e tão tocantes como: “Sonhar é grátis”. #JesuisPortugal!


 Se fosse a escolher quem quero na final preferia a França para o “acertar” de contas quando fomos eliminados por causa de uma suposta mão do Abel Xavier. Ainda se lembram? Principalmente para alegria dos milhares de emigrantes portugueses França e que vão encher Paris no Domingo. E depois para todos os portugueses em Portugal e espalhados pelo mundo. Que alguma coisa nos faça alegres por algumas horas. O tal do sonho. Sejamos grandes por um dia!









quarta-feira, 22 de junho de 2016

Cristiano Ronaldo

O Cristiano Ronaldo não precisa que o defendam. Mas num mundo como o que vivemos, que é muito mais fácil criticar do que enaltecer, e muito mais fácil humilhar do que aplaudir, junto-me ao grupo daqueles que não esquecem os feitos deste grande jogador.

Não podemos nunca esquecer qual a origem do Ronaldo e que faz dele um grande exemplo. Um menino de uma zona muito pobre da Madeira que tinha, se não fosse o seu enorme talento e trabalho, um destino comum ao de tantos outros. No entanto, ainda menino foi para Lisboa onde se formou nas escolas do SCP e antes do 20 anos era já jogador do Manchester United. Depois, tornou-se numa das mais caras transferências de sempre do futebol quando se transferiu para o Real Madrid. Este jogador pago a peso de ouro, ajudou toda a família, amigos e muitos mais. As irmãs e a mãe têm mais do que uma mala Birkin que custam mais de cinco milhares de euros, numeradas e feitas manualmente. Ele faz com que os sonhos dos seus mais próximos se concretizem como se da lâmpada de Aladino se tratasse. O Ronaldo nas passagens de ano manda fechar o Ritz do Funchal a família e amigos. Aluga barcos e aviões. Paga férias de luxo aos que mais gosta. Tem casas em Madrid, Lisboa, Gerês, NY e Algarve, só para dizer algumas.

Sei de muitas doações que faz anonimamente a crianças e adultos vítimas de cancro e doenças raras. Já todos vimos as muitas acções que faz quando alguém lhe pede uma camisola ou alguém que contra tudo e todos quer com ele tirar uma selfie.

Assume e tem orgulho da família que tem, tem nela o seu exemplo e a sua maior força, vive orgulhosamente com a família. E depois, é unânime o que dizem sobre ser um profissional exemplar, metódico, correcto, trabalha sempre muito, mais e melhor.

Há 12 anos quando estava a tirar o Doutoramento em Houston ia frequentemente a uma loja de conveniência e um dos funcionários adorava o Ronaldo. Naquela altura ainda não era o astro mundial de hoje mas esse rapaz já lhe previa um grande futuro. Tinha uma camisola dele da selecção portuguesa. Lembro-me que nesse ano foi o Mundial de 2006 na Alemanha e a diferença horária era de 6 horas. Os jogos eram sempre de manhã ou à hora de almoço. Só quem está fora do país é que sabe do que é que falo. Não se explica por palavras. Parece que somos melhores portugueses. Chora-se a ouvir o hino. Temos um orgulho imenso e qualquer motivo é suficiente para nos juntarmos. E foi o Ronaldo que levou novamente o nome de Portugal ao mundo. É verdade, por mais que muitos queiram negar e não ver as evidências. Lembro-me ainda há muitos mais anos ouvir uma entrevista da Purificação Tavares no rádio em que ela dizia que quando estava nos Estados Unidos fazia kms para ir ver uma equipa portuguesa de qualquer coisa.

Em NY toda a gente conhece o Ronaldo, principalmente pelos grandes cartazes de publicidade da Armani espalhados pela cidade. Foi por causa do Ronaldo que a Irina Schayk se tornou numa modelo mediana e com acessos directos a mundos restritos. Ronaldo é um nome por si só que tem valor.
Basta de crucificarem o rapaz porque falhou um penalti e porque muitos dos seus remates teimaram em não entrar. Mas não o acusem, por favor, de não ter lutado! Há dias assim, menos bons para todos, E ele, apesar de especial, é (também) humano.

Hoje, concordo com a Dona Dolores que Portugal vai ganhar e eu acredito (ainda mais) que vão ser vários os golos. Os emigrantes merecem esta festa para comemorarem. Os portugueses merecem para se esquecerem (por horas) da crise em que teimamos não sair. Os jornais e os jornalistas precisam de fazer um mea culpa.


E eu espero que depois deste Europeu, dos anos de sucesso que o Cristiano Ronaldo ainda tem pela frente como jogador, tenha a coragem, tal como outros, de fugir ao preconceito instalado e ao machismo no futebol e assumir-se orgulhosamente. Um homem honesto, talentoso, um exemplo só se tornará ainda maior quando se assumir por inteiro. E aí sim, ainda mais palmas e elogios merecerá porque os enormes exemplos são eternos. É o que sobreviverá para sempre e ficará escrito nos livros.

Copyright: RR

P.S. Quanto ao episódio de hoje de manhã em que o Ronaldo atirou o microfone da CMTV ao lago fez muito bem. Pegar no microfone e atirá-lo sem magoar ninguém foi a coisa mais sensata que fez. Aquilo que aqueles pseudo-jornalistas fazem não é jornalismo... nem sei que nome chamar aquilo. Podia ter sido muito pior. Eu atirava-o ao jornalista ou dar-lhe-ia um murro.

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