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sexta-feira, 28 de julho de 2017

Dessa vez

Tarde amena, sol, céu mais ou menos azul turquesa, leve brisa. Coimbra lá fora e calçadas pisadas por estudantes que carregam as suas pastas e livros, muitos livros nos braços. Nesta cidade dos estudantes e doutores já ninguém está de capa. Agora, o tempo é de estudar porque aqui a fama é de passar (apenas) quem souber.

Só existem os registos da memória de uma tarde de comida baiana que incluiu acarajé, abará e  vatapá regado com Quinta do Carmo branco. Os sabores e ingredientes fortíssimos da Bahia provaram não causar mal nenhum. O som não era baiano. Estes baianos de São Salvador não mostraram saber sambar, nem balançar. Não têm pulseira de ouro. Mas têm fita do Senhor do Bonfim, brinco de ouro, um jeitinho que Deus deu e graça como ninguém.

O cenário será os jardins onde (também) aconteceu uma das mais belas histórias de amor em Portugal (Pedro e Inês). Camões eternizou-a num dos seus cantos d’ Os Lusíadas. E está inscrito junto à Fonte dos Amores, de onde brotam as lágrimas e o sangue de Inês, até que o tempo e a água o apaguem.

A noite cai em Coimbra, tardia como todas perto do solstício. No anfiteatro da Colina de Camões na Quinta das Lágrimas, a lua aparece. Ao fundo, muito ao fundo, vislumbra-se a Universidade iluminada. Hoje não é uma lição. Hoje é apenas um concerto, Dessa vez. A cantora hoje será apenas uma cantora e uma performer. No máximo ousará tocar o seu novo instrumento, cortar o seu mais recente livro com as suas letras reunidas e fará uma leitura de um poema da Adília Lopes. Para minha tristeza, não interpretará Poética do eremita. Mas mostrando a sua generosidade, e que os artistas não estão (apenas) enclausurados no seu mundo, e estão abertos a ele, acederá a um pedido de cantar Seu pensamento (pedidos funcionam “só se eu souber e puder atender”).

não é o conhaque 
nem a lua
mas o vinho
mas as promessas 
que me movem como o diabo
Sarah Cohen

Aparece numa pontualidade britânica, sem o jeitinho brasileiro e português do famoso atraso. Dizem que chega sempre antes da hora. O traje é o mesmo vestido longo de veludo azul marinho Gilda Midani do espectáculo Das Rosas. Neste caso, acrescentou-lhe um cachecol da mesma cor.  Começa e nós ainda não nos sentámos. Na primeira fila está o Ministro da Cultura, o Presidente da Câmara e o Professor João Caraça. Temos um lago, que torna o cenário ainda mais bonito, a separar-nos do palco. A primeira música é Esquadros uma daquelas que toda a gente conhece e que um dia um produtor musical surpreendido pelo título, atreveu-se a perguntar: “Você acha mesmo que uma canção chamada ES-QUA-DROS vai tocar no rádio?”.

No concerto incluiu: Vim pra verFado Tropical, um poema musicado de Martim Codax, cantou D. Dinis e Negro amor. A pedido do Miguel Júdice cantou Nature Boy que termina com os magníficos versos:  "the greatest thing you'll ever learn, is just to love and be loved in return".

Cantou as (quase inéditas): Era pra ser "Era pra ser canção de amor / Era o amor em versos / ... / Era pra poder ficar eternamente no presente / O amor soprou de outro lugar / Pra derrubar o que houvesse pela frente / Tenho que te falar / Essa canção não fala mais da gente" cantada por Maria Bethânia e Não demora.

Para mim, Paramgolé Pamplona, tocado assim fez lembrar-me o primeiro concerto que vi da Adriana há 16 anos.  Desta vez, teve grande ideia de colocar a peça do próprio Hélio Oiticica em palco, o parangolé "que você mesmo faz". Um adolescente vestiu um dos parangolés de cor branca, mas mostrou-se pouco feliz porque foi parco a  mexer-se, quanto mais dançar. Feito este reparo, tudo foi fenomenal. A letra, a música simples, a ideia. “O parangolé pamplona você mesmo faz... Com um retângulo de pano de uma cor só/ E é só dançar/ E é só deixar a cor tomar conta do ar... Para o delírio porta aberta / Pleno ar/ Puro hélio...”.  Actualmente, encontra-se em exibição do Hélio Oitica no Whitney em NY: To organize the delirium (até 1 Outubro). Quem puder não perca.

Não esqueceu os sucessos Metade, Esquadros, Mais feliz, Sem saída e Devolva-me. Ao contrário de nas aulas, neste concerto, o último em Coimbra, não cantou a mais bonita do grande poeta, filósofo (e seiu amigo), António Cicero, Inverno.

Terminou com Vambora. E no encore não se esqueceu de  Fico Assim sem você, com a batida electrónica a lembrar o original de Domenico Lancellotti, e até mostrou que sabe (também) dançar.

E a cantora, desta vez a Professora e Embaixadora da Universidade de Coimbra, despede-se da cidade para a qual foi escolhida e aceitou viver por uns tempos. Sem lágrimas, levando as lições como companhia e o significado de saudade, desta que é a capital do amor em Portugal: “ Não permita Deus que eu morra sem que eu volte para cá”. Como “Foi Coimbra que me escolheu e se Coimbra me quiser...”. Esperemos que volte, sempre.



sábado, 25 de fevereiro de 2017

O imiscível

No labiríntico hotel, tentando pela primeira vez não me perder, vou à recepção avisar que deixei a minha mala no quarto. Agora que escrevo é que me dou conta que escusava de ter feito isso in persona. Perderia menos tempo e seria mais eficiente, se telefonasse. Recado dado, nada feito. Tenho que voltar ao quarto para buscar a mochila porque tenho que fazer check out e entregar a chave. Volto para os corredores labirínticos. Mal saio, tenho que parar porque estão duas pessoas a impedir-me a passagem. Um é o senhor que carrega as malas e a outra é ela. Felizmente, estão de costas e como o chão é alcatifado, não dão por mim e eu espero, pacientemente, para retomar o meu passo. Reconhecia-a imediatamente, mesmo de costas. Talvez pelo cabelo muito curto. Aqui, hoje, não é (mais) uma diva. É uma pessoa normal. E como as pessoas normais, está vestida como as pessoas normais a esta hora do dia. Um blazer preto, uma camisa aos quadrados de flanela, jeans apertados e sapatos oxford camel. A única coisa que é (mais) diferente nela é a brancura. Como ela é extremamente branca. Mais branca do que pareceu ser em todas as outras vezes. Talvez pela proximidade. De um branco que reluz. Na mão tem um pequeno saco de compras da Gulbenkian com o que parecem ser um ou dois livros. Ela caminha pelo corredor enorme, vira à esquerda e eu sigo, perdida mas à espera de acertar, em frente, para o meu quarto. Pontualíssima para o evento que começa daí a 15 minutos.Como um dia escreveu Anabela Mota Ribeiro:  "não é uma brasileira do samba, de pele morena, de jeito dengoso. É uma mulher que conjuga o verbo flanar com frequência. Que regressa a casa com as malas cheias de livros. E que gosta de dançar no Lux e de ouvir fado em Alfama. Imensamente requintada, sofisticada. Delicada". Subscrevo na totalidade.

As minhas questões, que não me abandonavam: Quem se lembrou de juntar estas duas pessoas? E a segunda, por consequência era: Como é que ela aceitou o convite? Nunca fui politicamente correcta, para o bem e para o mal.

Se a moderação, os convidados da mesma mesa, e/ou o público não forem adequados, acaba por ser decepcionante. E eu que tinha (quase) a certeza que seria, tive que fazer a prova dos nove. Pagar para ver. Então, juntar uma cantora consagrada, que a maioria conhece (apenas) de cantar mas desconhece as suas outras artes como escrever, compor, desenhar, compilar e o excelso domínio da língua portuguesa.  Um moderador que é praticamente desconhecido, que eu desconfio que ninguém naquela sala conhecia, à excepção do anfitrião (e algumas pessoas que se podiam contar pelos dedos de uma mão). E finalmente,  “o gajo que escreve cenas”, como o próprio se descreve e parece gostar. Quem se define assim já não pode ser alguém cuja qualidade literária é algo muito aprofundado. Ela tira um livro, um ipad, iphone, talvez um caderno e um lápis. Os outros nada. Eu sei que deve haver algum lugar para o improviso. Mas nada? Ela lê talvez dois poemas de amor do Fernando Pessoa.

“O gajo das cenas” é só piadas. Cita uma carta de amor, eleita a melhor de todos os tempos, pelos americanos. O americano comum não é nenhum sinónimo de qualidade. Com um humor tão fácil e tão popular. Tem a mania que é engraçado. Um cita Machado de Assis e outro cita Johnny Cash. Se, pelo menos, citasse Leonard Cohen ou Dylan. A necessidade de fazer rir toda a gente (mesmo que não tenha piada nenhuma, para mim), um palhaço (no mau sentido da palavra). E toda a gente se ri. Serei apenas eu que não tenho vontade de me rir? Será que não tenho sentido de humor? Sou eu apenas que já não me consigo rir do que não é sofisticado? Vende, dizem-me, um número inacreditável de livros por semana. Um best seller, portanto. Mas seja lá o que isso for. Neste país não é preciso grande coisa para se ser best seller. Não me interessa escritores nem livros cujas citações que fazem são de Johnny Cash e das músicas dos Clã e das escritas de Carlos Tê. Percebi hoje, finalmente, o sucesso deste pseudo escritor. Pelo menos tem a noção que é ridículo. "Gosto de ti como de arroz". Usa exemplos de de futebol. Que vergonha, para mim, juntar estas pessoas à mesma mesa. Com tanto de tão bom em Portugal. Mas sala está cheia para o ver. Essa é a verdade. A plateia está cheia de gente muito produzida para esta hora da manhã e para este dia da semana. Dirão que 97% são mulheres e 3% são homens. 

Ela tenta em vão elevar o nível de discussão. Cita um verso de uma música sua, cuja letra foi escrita pelo António Cicero:"Faço longas cartas para ninguém". Nos tempos mortos, em que ouviu mais do que falou, rabiscou e citou Oswald de Andrade: "Amor/ Humor". Termina a dizer que a sua representação do amor é a palavra "revolução". Os exemplos de cartas de amor que citou: as cartas que enviava para a avó quando chegou ao RJ, as cartas que alguém na Central do Brasil quando não se sabe escrever.

Uma das coisas mais bonitas que ouvi, e a melhor intervenção, foi a história de uma senhora que contou a história da avó que era analfabeta e que aprendeu a escrever, já depois dos 40, para escrever cartas de amor para o avô.

O que me chocou foi o politicamente correcto do Luís Osório, que supostamente pertence à elite, e que o elogiou dizendo que gostou muito de o ouvir. Pois eu não. Lamento. E não tem nada que ver com muita gente ler os livros dele e da maioria dos livros dele serem lidos maioritariamente por mulheres. Tem que ver com cuidado, com profundidade, com a forma com que se aborda a temática. Aquilo que se chama estilo. Uma forma de escrever. Eu quando leio estou à espera de aprender, de melhorar, de me surpreender, de admirar. Não quero ler e achar que eu poderia ou saberia fazer melhor. Não me interessa uma literatura acessível, mediana, sem aprofundamento de nada, com um monte de futilidades e banalidades.  Estou farta desta conversa de cosmética e circunstância, do desejo e necessidade que se tem, permanentemente, de se evitar confrontos. 

Nada tenho contra o pseudo escritor, que eu acharia melhor definir como pessoa que escreve, não sei se livros. Simpatizei com a pessoa. Não o achei pretensioso ou à espera de ser mais do que aquilo que é. Achei-o genuíno e sincero. Sem pretensões.

Agora juntar estas duas pessoas foi um erro, desculpem.

Não parece mais tão tímida como diz ser ou como dizem que é. Tira constantemente os óculos para as fotografias. Ninguém lhe pede nada para assinar. Somente fotos. Ela é toda sorrisos e palavras delicadas. Mesmo cheia de pressa, não diz que não a ninguém. Promete encontro (por aí) de tarde. 

Copyright: Isabel Worm

Copyright: Isabel Worm

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