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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O furacão Ike


Hoje que “a Sandy” está a provocar estragos na costa leste dos EUA revivo uma das mais assustadoras experiências da minha vida. Ao contrário do que os meus amigos em NYC fizeram hoje, e bem, ao cumprir as instruções dadas pelas autoridades, naquela altura, eu menosprezei  a grandeza “da coisa”. 

Em Setembro de 2008, depois de ter estado em Portugal a tratar-me de um problema de estômago, voltei para Houston para terminar as minhas experiências. Passados alguns dias o Ike surgiria. Lembro-me que na altura as autoridades foram bastante convincentes a antecipar os estragos que o Ike faria. Eu nunca acreditei, achei sempre que era o exagero americano.  Em Rice University seria um dos locais de Houston que não faltaria água nem luz. Foram preparados nos diferentes edifícios autênticos abrigos para milhares de estudantes. Quem quisesse poderia levar o seu colchão e/ou saco-cama e mantimentos seriam fornecidos. Lembro-me perfeitamente de ver supermercados com prateleiras vazias e filas intermináveis de pessoas a comprar mantimentos. O meu orientador na altura mandou os filhos e a mulher para um local seguro fora do Texas. E eu continuei a achar que o exagero cinematográfico americano continuava. Os meus amigos e colegas convidaram-me para ir para suas casas. E eu recusei sempre, amavelmente. 

No dia da chegada do Ike com o aproximar da hora, avistavam-se cada vez menos pessoas. O dia amanheceu lindo, como quase sempre em Houston. Calor abafado, como quase sempre. Mas com o passar das horas começou a ficar nublado e a escurecer. As autoridades avisavam que as pessoas deviam recolher-se em lugares seguros à tarde. Essa foi a única instrução que cumpri. Fui de manhã para a universidade e no final de almoço regressei a casa munida, podem não acredita, de um autêntico laboratório ambulante. Tinha um procedimento de desidratação histológico que não podia abandonar... Montei o meu arsenal na casa de banho, coloquei  uma mesa com o tampo a fazer de parede na minha secretária (seria debaixo dela que passaria a noite)... De repente, não mais do que de repente, do dia fez-se noite. Quando a noite chegou parecia que não passaria de vento e alguma chuva e eu continuava no meu quarto de tv ligada e internet. Tinha falado com os meus pais, com os meus amigos que tudo não passava de um exagero mas estava muito optimista e comportar-me demasiado como uma pessoa inconsequente para o gosto deles. Às 10 da noite o terror começou. Quando o vento começou a piorar a luz foi-se imediatamente, e o barulho começou a tornar-se medonho. A chuva era tanta que eu já não conseguia distinguir a chuva do vento. A coragem foi-se imediatamente à vida. Coloquei o meu capacete de andar de bicicleta e fui imediatamente para debaixo da secretária. Achei que aquilo demorasse tipo uma hora, no máximo duas.... Mas o terror não passava. E eu só pensava: “Que tristeza morrer em posição fetal debaixo de uma secretária, ridícula com um capacete, e sozinha”. Ainda tive coragem de me levantar e espreitar à janela e ver, que apesar de não haver luz, e o céu estar escuro como breu, o vento tinha cor. Nunca consegui explicar isto e nunca vi nada assim na vida. Bem á mariquinhas, regressei a correr ao meu bunker.



Lembro-me que estive acordada madrugada dentro mas que depois das 4 adormeci de exaustão. Quando acordei de manhã, o barulho tinha cessado e percebi que não tinha morrido e que nada no meu apartamento estava destruído. A luz continuava sem existir e a água também.  Um calor infernal (afinal não havia AC...). Abro a porta e tudo à minha frente é destruição. A piscina parecia uma sopa de ramos e de tudo o que era lixo. Dou um passo e “puf” fiquei com água acima do joelho. Dou uma volta ao meu condomínio e percebo que não há ninguém. E só pensava: “Como vou sair daqui, com as ruas inundadas, fios de electricidade rebentados, árvores caídas, casas sem telhado...?”. Vi um dos meus vizinhos que conhecia de vista (era um americano que era casado com uma espanhola e tinha um filho bebé; ele tinha ficado em Houston e a mulher e o filho tinham ido  para Espanha). Nestas alturas, a vergonha desaparece, e eu com a maior das latas, ou talvez instinto de sobrevivência, perguntei-lhe se tinha carro e se me podia levar ao Hilton doMedical Center (era o hotel que costumava ficar no dia anterior das viagens para Portugal. Ele com a maior das boas vontades e devia ter tido pena de mim, lá me levou ao hotel. Quando cheguei ao hotel havia muita gente no hall de entrada e junto à recepção, onde tinham colocado uma tv que ia dando a conhecer a real situação. Pedi um quarto e disseram-me que teria que ficar em lista de espera porque não havia luz e não podiam aceitar reservas. No entanto, disseram-me que poderia aguardar e estaria em lista de espera. Como as horas que ali passamos foram muitas, havia as horas das refeições, que foram todas servidas e eu fui sempre aconselhada a ir. Lembro-me de ter ligado aos meus pais e alguns amigos e da preocupação deles com as notícias que viam na tv. Entretanto, a noite chegou, e a luz não. E no piso da entrada a luz era assegurada apenas pelo gerador. Como eu não tinha para onde ir, e como todos os hotéis estavam lotados, a gerente disse-me que a única possibilidade seria ficar num quarto no hotel mas que não teria água nem luz. Um dos motoristas levou-me de carro ao andar do quarto (pois tinha acesso exterior) e disse-me para me trancar no quarto e não abrir a porta a ninguém. Ele acompanhou-me com uma lanterna até ao quarto e deu-ma. Entrei, fechei a porta e tranquei-a com as duas fechaduras. Não era um quarto, era uma suite presidencial. Era enorme. Mas de nada me valia aquele luxo se não havia água nem luz e o calor era mais do que infernal. Mas pelo menos tinha uma cama. Durante a noite ouvi uns barulhos mas achei que estava a sonhar. Ouvi bater na porta e a tentarem entrar mas não liguei porque achava que era sonho... Quando acordei de manhã e fui confirmar a porta... apenas estava fechada com uma das fechaduras... alguém durante a noite tentara entrar...Não penso muito nisso, mas acho que tive muita sorte. Quando desci, disseram-me que continuavam sem luz e que não havia previsões para que fosse restaurada e que teriam que fechar o hotel. No entanto, disseram-me que poderia tomar o pequeno almoço e me levariam onde quisesse. Não me lembro de caras nem de nomes de todos (as) aqueles (as) que me ajudaram e fizeram tudo por mim nestas horas, sem me conhecerem de lado algum, mas são a quem devo a vida. No final do pequeno-almoço dirigi-me à recepção para acertar contas do quarto e de todas as refeições que tinha feito e a gerente do hotel disse que não era nada e que era tudo por conta do hotel e que só pedia desculpa por não ser o melhor serviço. A sério que nesse momento só me apetecia agarrar-me a ela a chorar e dizer-lhe que achava que não existiam  pessoas assim no mundo. Deu-me o cartão dela e que estava disponível para o que precisasse e que um motorista do hotel ia levar-me onde quisesse. Apesar de Rice University ser a 10 minutos a pé, decidi aceitar. Nem pensei em mais nada, só que tinha que continuar a experiência com os bioreactores...

















Havia luz no laboratório e em toda a universidade. Tudo estava fechado. Tinha dinheiro no bolso mas não servia para comprar nada. A universidade durante esses dias dava água e comida a todos os alunos. Durante vários dias estava em filas para almoçar/jantar e receber garrafas de água. O espírito de solidariedade que senti nestes dias são inesquecíveis. Durante dias dormi no meu gabinete porque não havia recolher obrigatório às 8 da noite, depois passou a ser às 10. A verdade, é que o bairro onde eu morava (a 5 mns da universidade) e onde o meu orientador também morava, ficou sem luz durante 3 semanas. A minha rotina diária era dormir no chão ou na cadeira no meu gabinete,  levantar-me às 6 da manhã, ia a casa dormia uma ou duas horas na minha cama, tomava um banho de água fria e regressava à universidade. Após alguns dias, ligaram-me do Hilton onde tinha uma reserva e colocaram-me num hotel a uns 20 mins de táxi. Nesse dia fui para o hotel às 5 da tarde, tomei um banho de água quente, dormi numa cama, acordei e pedi o jantar no quarto, dormi, acordei e tomei o pequeno-almoço. A brincadeira ficou por 400 dólares... mas nunca achei que tanto dinheiro fosse tão bem empregue!!! 

Alguns dias mais a dormir no lab estavam a deixar-me saturada e aceitei ir para casa de uma colega e amiga que já tinha luz. Passei uma semana na casa dela e nunca lhe consegui agradecer o quão importante isso foi. Como é que eu posso não ter gostado de Houston, da universidade, das pessoas e dos texanos? O que não nos mata, enriquece-nos.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Este texto é para a C. que salvou a minha vida duas vezes-Parte I


Como a Adriana Calcanhotto, acho que escrever ajuda. Coincidentemente,  estive doente na mesma altura que ela escreveu “Saga Lusa”. Ela com um surto psicótico induzido por interacções de drogas legais e eu a “enlouquecer” com um problema de estômago.Ela achava que estava a ficar louca e que não voltaria à realidade e eu achava que ia morrer... ainda para mais... sozinha! Regredindo no tempo, ao verão de 2008, estava eu no "arrozal" na Rice University em Houston, Texas. Estava nas últimas experiências do meu Doutoramento e nos últimos meses em Houston. Adorava a vida que tinha lá. Vivia num complexo com piscina a 3 mns (a alta velocidade) de bicicleta da Universidade. Aquela bicicleta de criança comprada no segundo dia que cheguei a Houston, arrisco dizer, que fez milhares de Kms. Nunca em toda a minha vida estive tão em forma. Ao fim de semana fazia em média 30 kms. O meu orientador de lá dizia sempre que me reconhecia ao longe pela bicicleta e o capacete e que quando encontrava um Malboro caído no chão era meu. Era a melhor e mais fiel consumidora de latte na universidade. Até me ofereceram uma t-shirt “Rice Coffe House” que tenho até hoje.Tinha o meu gabinete espectacular partilhado com mais duas das melhores pessoas que conheci no mundo. Até me ofereceram uma máquina de café, que depois servia para todos. Como (quase) toda a gente sabe nunca precisei de dormir muito. Estava (quase) sempre acordada em todos os fusos horários. Nesse verão, aceitei, talvez fruto de não querer reconhecer que todos os humanos têm um limite, escrever um capítulo de livro a convite do meu orientador. O desafio era irrecusável, pelo menos para mim. Quase que disse que sim de imediato. De dia fazia as experiências no laboratório e de noite escrevia. E foi um ano de muito trabalho porque para além de todas as experiências, tinha os bioreactores que eram 8, todos para mim. Cada um demorava, em condições de esterilidade, uma hora a montar. Para além disso, tinha os estudos in vivo com ratos. Acho que nunca trabalhei tanto. Mas também nunca me senti tão entusiasmada. Adorava aquele clima de Houston, absurdamente quente e húmido. Sempre sol.







Uma noite, como “não há mal que dure sempre nem bem que nunca acabe”, adormeci de cansaço no sofá depois de jantar, enquanto a roupa lavava. Acordei passado pouco tempo muito indisposta, suores frios, muito pálida, uma sensação de fraqueza...Passei a noite a vomitar. Achava que no dia seguinte estaria melhor. Quando acordei na manhã seguinte não consegui comer nada e a sensação de náusea persistia. E isto continuou uns dias, tudo o que comia vomitava e as únicas coisas (em muito pouca quantidade) que o meu estômago aguentava eram bolachas de água e sal e água. Omiti a quase toda a gente o quão mal me estava a sentir. Falei com uma amiga, acho que mais de uma vez, que não estava a sentir-me bem e ela sempre me disse que o mais importante era a saúde, que nada mais importava quando isso estava em causa. E aconselhou-me, se estivesse mal, a voltar para Portugal. Eu aguentei heroicamente até me faltarem as forças todas e até o sinal de alarme soar. Um isolamento de células que demorava uma manhã, nesse dia demorou, quase um dia inteiro. Nesse dia, sentia-me a morrer. Passei o dia a vomitar, não aguentava nada no estômago. Ao fim da tarde percebi que vomitava sangue. O que se pensa numa altura destas? Sozinha, no outro lado do mundo? Eu não tive muitas alternativas. Se lá era fim da tarde, em Portugal era início da madrugada. Primeiro liguei à AR que estava na Turquia (não me atendeu porque já a madrugada ia avançada), liguei para o meu irmão que não me atendeu e depois liguei para a última pessoa que queria ligar aquela hora... Não sei se foi a primeira, mas foi uma das primeiras vezes que não consegui disfarçar ao telefone. Pela primeira vez nessa semana, não omiti o quão mal estava e queria apenas que alguém me dissesse o que eu estava à espera de ouvir, que voltar seria a melhor solução. E ela com uma calma (que mais tarde vim a saber era só disfarce) organizou-me tudo por telefone, deu-me todas as indicações, fez-me todos os planos, preparou-me tudo. Disse-me para ir a casa preparar uma mala com algumas roupas, que logo que amanhecesse em Portugal iria pessoalmente comprar-me um bilhete de avião (disse-me que poderia demorar algum tempo), telefonou aos meus pais, descansou-os. E passadas algumas horas ligou-me (na minha madrugada) a dizer que tinha que estar no aeroporto ao meio-dia e que me tinha arranjado um vôo. Quase ninguém soube deste plano detalhado ao milímetro. Se eu sobrevivi e arranjei forças para uma viagem conseguida tão rápido mas tão longa deve-se a esta pessoa que me garantiu que tudo ia correr bem e que eu ia estar bem para regressar daí a um mês. Como disse Arquimedes: “Dá-me um ponto de apoio e eu moverei o mundo”. Foi essa força que eu senti.

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