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segunda-feira, 29 de julho de 2019

Democracia em vertigem


Vi, finalmente, o documentário “Democracia em vertigem” da Petra Costa. Sem saber, vi muitas vezes, repetidamente, aquela menina tímida, tão nova, a perguntar a Caetano Veloso o significado da canção “Cajuína” que conta o episódio do encontro de Caetano Veloso com o pai de Torquato Neto, em Teresina. A letra que começa com aquela questão existencial “Existirmos, a que será que se destina?”.


E agora, descubro que aquela menina da pergunta é a cinesasta Petra Costa. O documentário que estreou no Festival de Sundance e foi tão elogiado pelo The New York Times é de uma sensibilidade e está tão bem feito que é uma roleta russa de emoções. A revolta, a surpresa, vergonha e incompreensão quando se vê as manisfestações violentas contra Dilma e Lula, quando se assiste aquela palhaçada que foi a votação no Senado do impeachment de Dilma Rousseff e que eu vivi para ver em directo na televisão. E a preocupação de quem vê uma país à beira do precipício: “O que vão pensar de nós”? E a profunda emoção despoltada quando Dilma Rousseff chora no discurso no dia do impeachment. E a serenidade de quem nada teme: “Hoje só temo pela morte da democracia”. Esta mulher guerreira, que não chorou quando foi torturada e que assiste, como todos nós, sem nada que a democacia possa fazer, à derrocada de um Brasil que não existe mais. O Brasil de Lula da Silva que eu aprendi a respeitar porque foi um  Brasil pensado, um Brasil sonhado. Um sonho que se cumpriu. Um país da América Latina onde foi possível ver pessoas que foram ajudadas pelo “Bolsa Família e “Minha Casa minha Gente”. Poder ver os seus filhos estudar, entrar nas universidades, estabelecer uma classe média, onde os ricos ficaram incomodados por ver tanta gente andar de avião, viajar, adquirir poder de compra, conseguir direitos trabalhistas. Uma sociedade com mais igualdade que ameaçou a hegemonia dos ricos. Este país menos desigual não interessava aos privilegiados. Mas como Lula disse antes de ser detido: “Ninguém pode prender um ideal”. Esse viverá com toda a gente que acreditou e acredita porque ninguém poderá prender toda a gente. Como disse Obama: “This is the man”. O político trabalhador metalúrgico, que nunca desistiu, que perdeu muito para poder ganhar, filho de uma mãe analfabeta do nordeste que chegou ao cargo mais alto do Brasil. Ficará para a história por bons motivos e será sempre lembrado. Eu que não gostava de Lula da Silva, com toda esta perseguição política de anos, aprendi a respeitá-lo. E convenhamos, alguém como o Lula que ganhava milhares de euros por palestra, que é uma vedeta na política mundial, ser subornado por uma casa no meio do fim do mundo ou um apartamento numa praia suburbana? Sabemos, agora, que tudo não passou de um plano muito bem feito. E sim, mais vale tarde do que nunca, eu digo #lulalivre. No dia da votação do impeachment de Dilma Rouseff, o então deputado Jean Willys, hoje exilado político disse tudo em pouco menos de um minuto: “Eu me sinto constrangido por participar nesta farsa, conduzidapor um ladrão, urdida por um traidor conspirador e apoiada por torturadores, covardes, analfabetos políticos e vendidos. Em nome da população LGBT, do povo negro exterminado nas periferias, dos trabalhadores da cultura, dos sem tectos, dos sem terra, eu digo não ao golpe. Durmam com essa, canalhas”.




sexta-feira, 7 de março de 2014

Merly Streep vs Cate Blanchett

Merly Streep é uma das actrizes que mais admiro. Uma das minhas amigas, a C., detesta-a porque diz que ela tem sempre o mesmo registo. Eu discordo. Foi nomeada 18 vezes e ganhou 3. Em “Kramer vs. Kramer” ganhou o oscar de melhor actriz secundária e neste filme chorei baba e ranho.  Três anos depois ganhou o óscar de melhor actriz em “Sophie's Choice”. Mas quem não se lembra do seus maravilhosos desempenhos em “Out of Africa” e “The bridges of Madison County”, “The devil wears Prada” e “Doubt”? No ano passado ganhou o terceiro óscar pelo seu papel em “The Iron Lady”. A semana passada fui ao cinema ver “August: Osage County”. Merly Streep é uma doente terminal com um cancro na boca cujo marido é alcoólatra, poeta e que tem os livros como companhia. Merly, neste filme, é uma mulher dura, irónica, sarcástica, insensível, fria, completamente desajustada, racista, feia, maltratada que demonstra não ter qualquer demonstração de afecto ou ternura e viciada em drogas legais prescritas pelo médico. O vício é tal que entra frequentemente no absurdo e fica com dificuldade em articular palavras. Depois do desaparecimento do marido, que ela diz ser viciado na bebida e ela em medicamentos, reúne a família que se percebe completamente surreal.  Uma das cenas mais marcantes do filme é uma disputa entre mãe e filha, em que Julia Roberts tenta tirar os medicamentos à mãe e a cena chega a ser violenta. O resultado é um filme recheado de humor negro, com intensa carga dramática e a expressividade marcante de cada uma das personagens. Para além disso, tem uma deslumbrante história humana, repleta de segredos. Outro dos grandes papéis pertence a Julia Roberts, (merecidamente nomeada para o óscar de melhor actriz secundária), a filha mais velha, que parece ser a cópia da mãe, dura como ela. Eu arrisco-me a dizer que esta é a melhor interpretação de sempre de Julia Roberts. E apesar de neste filme desempenhar o papel de uma mulher descuidada, mostra como a idade é como o vinho do Porto! É um filme cheio de surpresas e que ninguém sai da sala indiferente.Merly Streep tem aqui uma interpretação poderosa. Este filme vale a pena, não tivesse o livro que lhe deu origem, galardoado com o Prémio Pulitzer, uma das melhores marcas de qualidade.

Não gosto da maioria dos filmes do Woody Allen, assim como, não gosto dele. Mas alguns filmes até gosto. E “Blue Jasmin” é um desses. Passa-se entre NY (Madison e Park Avenue) e San Francisco. Não sabia a história quando o vi mas no decorrer do filme pareceu-me uma cópia perfeita de “Um eléctrico chamado desejo”. Obviamente com as devidas diferenças. Cate Blanchett tem muitas características da Blanche Dubuois e a irmã dela é uma submissa e o namorado da irmã é um falhado e um arruaceiro.  Jasmine (Cate Blanchett) é uma ex-milionária acabada de cair em desgraça após o marido milionário ser preso. Vende tudo, segundo ela, mas viajou em primeira classe de NY-San Francisco e chega a casa da irmã adoptiva carregada com malas Vuitton. Como Blanche Dubois, tenta a todo o custo omitir o passado. Finge que o marido é um cirurgião, que não tem um filho, inventa uma profissão que não tem... é viciada em álcool e em comprimidos. Uma excelente interpretação de Cate Blanchett.


Alguém escrevia, depois da Cate Blanchett ter ganho o óscar, que alguém se devia ter enganado a escrever o nome no envelope. Não podia concordar mais. Desculpem-me, eu adoro a Cate Blanchett mas a interpretação da Merly Streep foi poderosíssima.

terça-feira, 4 de março de 2014

A cerimónia dos oscares

Vi a cerimónia toda em directo. Dizem que foi a mais vista da década. E eu sou suspeita porque adoro a Ellen DeGeneres. Desde o selfie mais partilhado até ao entregador de pizzas distribui-las com a ajuda do Bradd Pitt... foi hilariante!
Jared Leto ganhou o óscar de melhor actor secundário e dedicou-o à mãe, ao irmão e "a todos os sonhadores por aí, em sítios como a Ucrânia e a Venezuela". Não se esqueceu de todos os que morreram de SIDA e os que amam quem querem. Apesar de ter sido o melhor discurso da noite, tive uma amiga que me lembrou que  "só se esqueceu dos/as trans, mas a esses e essas ninguém os/as quer."
Lupita Nyong'o "roubou" o oscar de melhor actriz secundária à favorita Jennifer Lawrence. Discurso também emocionado: "No matter where you're from, your dreams are valid".
Eu vi o "Gravity". Achei a ideia do filme boa, o facto de ser quase em tempo real e os monólogos da Sandra Bullock são muito bons. E lembro-me que deu para sentir a claustrofobia e o medo. Quando os óscares técnicos estavam a ser atribuídos sem parar a este filme, cheguei a temer que também ganhasse o óscar de melhor actriz. Aí reagi e escrevi: "Se a Sandra Bullock ganhar o oscar atiro-me para o chão!".

copyright: Ellen DeGeneres
copyright: John Shearer/Invision/AP
copyright: Reuters


Vi "Blue Jasmine" e "August Osage County" (aos quais dedicarei um post). Nestes dois, a melhor interpretação foi sem dúvida a da Merly Streep. Como alguém disse "devem ter trocado os envelopes". Desta vez não houve choro no discurso. Fez lindos elogios às outras candidatos. E sim, o universo feminino ainda tem público!
Quanto ao oscar de melhor actor, ainda não vi o filme "Dallas Buyers Club",  mas parece que valeu a pena perder 20 kgs Matthew Mcconaughey! Só lamento o discurso... Esquecer-se de mencionar os doentes com SIDA não tem desculpa...
"12 years a slave" ganhou melhor filme, melhor argumento adaptado e melhor actriz secundária. Vou vê-lo sem falta. "Wolf of Wall Street" (que vi) e "American Hustle" (que não vi mas quero muito ver) foram os grandes derrotados.

Oscars 2014

Best Picture
12 Years a Slave
American Hustle
Captain Phillips
Dallas Buyers Club
Gravity
Her
Nebraska
Philomena
The Wolf of Wall Street
Best Actor
Christian Bale (American Hustle)
Bruce Dern (Nebraska)
Leonardo DiCaprio (Wolf of Wall Street)
Chiwetel Ejiofor (12 Years a Slave)
Matthew McConaughey (Dallas Buyers Club)
Best Actress
Amy Adams (American Hustle)
Cate Blanchett (Blue Jasmine)
Sandra Bullock (Gravity)
Judi Dench (Philomena)
Meryl Streep (August: Osage County)
Best Supporting Actor
Barkhad Abdi (Captain Phillips)
Bradley Cooper (American Hustle)
Michael Fassbender (12 Years a Slave)
Jonah Hill (Wolf of Wall Street)
Jared Leto (Dallas Buyers Club)
Best Supporting Actress
Jennifer Lawrence (American Hustle)
Lupita Nyong'o (12 Years a Slave)
Julia Roberts (August: Osage County)
June Squibb (Nebraska)
Sally Hawkins (Blue Jasmine)
Best Director
Martin Scorsese (The Wolf of Wall Street
David O. Russell (American Hustle)
Alfonso Cuarón (Gravity)
Alexander Payne (Nebraska)
Steve McQueen (12 Years a Slave)
Best Adapted Screenplay
John Ridley (12 Years a Slave)

Julie Delpy, Ethan Hawke & Richard Linklater (Before Midnight)
Terence Winter (The Wolf of Wall Street)
Billy Ray (Captain Phillips)

Steve Coogan and Jeff Pope (Philomena)
Best Original Screenplay
David O. Russell and Eric Singer (American Hustle)
Bob Nelson (Nebraska)
Spike Jonze (Her)
Craig Borten & Melisa Wallack (Dallas Buyers Club)
Woody Allen (Blue Jasmine)
Best Foreign Film
Denmark, The Hunt
Belgium, The Broken Circle Breakdown
Italy, The Great Beauty
Palestine, Omar
Cambodia, The Missing Picture
Best Documentary Feature
20 Feet from Stardom

The Act of Killing
Dirty Wars
The Square
Cutie and the Boxer
Best Animated Feature
The Wind Rises

Frozen
Despicable Me 2
The Croods
Ernest & Celestine
Film Editing
American Hustle
Captain Phillips
Dallas Buyers Club
Gravity
12 Years a Slave
Best Song
"Alone Yet Not Alone" (Alone Yet Not Alone)
"Happy" (Despicable Me 2)
"Let It Go" (Frozen)
"The Moon Song" (Her)
"Ordinary Love" (Mandela: Long Walk to Freedom)
Best Original Score
John Williams (The Book Thief)
Steven Price (Gravity)
Alexandre Desplat (Philomena)
Thomas Newman (Saving Mr. Banks)
William Butler and Owen Pallett (Her)
Best Cinematography
Philippe Le Sourd (The Grandmaster)
Emmanuel Lubezki (Gravity)
Bruno Delbonnel (Inside Llewyn Davis)
Roger Deakins (Prisoners)
Phedon Papamichael (Nebraska)
Costume Design
American Hustle
The Grandmaster
The Great Gatsby
The Invisible Woman
12 Years A Slave
Makeup and Hairstyling
The Lone Ranger
Dallas Buyers Club
Jackass Presents: Bad Grandpa
Production Design
American Hustle
Gravity
The Great Gatsby
Her
12 Years a Slave
Sound Editing
All is Lost
Captain Phillips
Gravity
The Hobbit: The Desolation of Smaug
Lone Survivor
Sound Mixing
Captain Phillips
Gravity
The Hobbit: The Desolation of Smaug
Lone Survivor
Inside Llewyn Davis
Visual Effects
Gravity
The Hobbit: The Desolation of Smaug
Iron Man 3
The Lone Ranger
Star Trek Into Darkness
Short Film, Live Action
Aquel No Era Yo (That Wasn't Me)
Avant Que De Tout Perdre (Just Before Losing Everything)
Helium
Pitääkö Mun Kaikki Hoitaa? (Do I Have to Take Care of Everything?)
The Voorman Problem

Short Film, AnimatedFeral
Get a Horse!
Mr. Hublot
Possessions
Room on the Broom
Documentary Short Subject
CaveDigger
Facing Fear
Karama Has No Walls
The Lady in Number 6: Music Saved My Life
Prison Terminal: The Last Days of Private Jack Hall

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A vida de Adele

A história deste filme que conquistou a Palma de Ouro em Cannes é desconcertantemente simples. “A vida de Adele” antes de estrear já era polémico Fizeram um grande alarido à volta de uma interminável cena de sexo. Muitos acharam-na exagerada, ou longa demais, ou explícita demais. Mas não é só esta. Não as contei nem me lembro exactamente, mas há pelo menos, mais três. Mas o que tem de demais é o fato delas nos perturbar  Mas se me perguntarem do que mais me lembro do filme, não é de certeza, das cenas de sexo. Para aprumar ainda mais a polémica, as protagonistas do filme acusam o realizador de as maltratar, juntamente com a equipa,  durante a produção. Polémicas à parte, este filme é excepcional. E na minha opinião “a star was born”, Adele.

O filme retrata um amor à primeia vista, com o êxtase das paixões, a catarse, a exploração, a descoberta, até ao tédio da estagnação.  Este filme não relata o preconceito  mas a relação entre as duas personagens. Quase nunca abordando o preconceito social da homossexualidade, aborda vincadamente  a  dinâmica da relação, o que resulta e não resulta, as compatibilidades e as diferenças, os mundos e as visões das personagens. Chorei como uma Maria Madalena neste filme. Não sabia como era o fim mas a actriz que interpreta Adele (e que também se chama Adele na vida real) tem um papel tão marcante que a sua expressão é um pronúncio do fim do filme.

Adele tem horizontes limitados e apesar de viver com uma visionária, contenta-se com o que tem. Para ela um amor e uma cabana bastam-lhe. E quando o amor dela deixa de lhe dar a atenção que precisa, ela vai encontrar o que lhe falta noutro colo. Só que isso precipita o fdim de tudo. A personagem de Adele é quase desde o princípio do filme, aquela que se pretende abraçar. Está sempre em desvantagem, parece correr atrás da vida, a uma velocidade menor do que a acção.


Depois de três horas, continuei a chorar baba e ranho. E o final não é à Hollywood, é cru como toda a realidade.


terça-feira, 20 de agosto de 2013

Gaiola dourada

Estreado a 1 de Agosto com uma enorme publicidade, um elenco de luxo, banda sonora do aclamado Rodrigo Leão, só restava visioná-lo. As expectativas eram grandes. Com actores como Joaquim de Almeida e a grande Rita Blanco seria difícil errar. Parte do filme é passado a rir. Exageros, hipérboles, caricaturas, pastorinhos de Fátima, imagens de santos, Amália, camisolas da selecção, garrafas de cerveja, sardinhas, batas, penteados, camisas abertas, futebol, palavrões.. isto é parte do filme. Mas a grande surpresa para mim foi a sensibilidade do filme. A grande catarse do filme acontece quando os personagens assumem a submissão das primeiras gerações de emigrantes e a vergonha da 2ª geração, quando mais culta, frequentadora de outros ambientes, mais bem preparados, mais abertos, mais estudados, se envergonham da sua ascendência.  Esta parte é a mais emocionante do filme. Quando as personagens se confrontam com os seus complexos e vergonha. Este filme faz-nos rir de nós mesmos, e lembra-nos que a seriedade e o trabalho faz-nos sempre ser respeitados. Estes emigrantes que representam uma geração que emigrou para fugir à miséria de um país, soube ganhar o respeito fora. Sem dominar a língua, sem estudos, com a saudade tão portuguesa, família deixada para trás, estas pessoas assumiram os postos de trabalho que os franceses não queriam. Mas apesar disso, subiram a pulso e foram sempre conhecidos como humildes e bons trabalhadores. Já há muito não via uma sala de cinema repleta. E a audiência era constituída maioritariamente por emigrantes. A maioria pareceu-me adorar e reconhecer-se. Este filme é principalmente genuíno. Tudo nele se percebe idealizado por um conhecedor profundo desta realidade. Ruben Alves, o realizador, também ele filho de emigrantes que para além dos seus dotes de realizador é giro!  E pelos vistos tem bom gosto, com uma casa no Chiado!

segunda-feira, 3 de junho de 2013

The great Gatsby

Como dizia a Clara Ferreira Alves há uns tempos quando foram seleccionados os 100 mais importantes livros de todos os tempos, um dos que ela escolheu foi The great Gastby: “Não é possível passar pela vida sem ler este livro. A obra-prima se Scott Fitzgerald é uma apresentação original ao Sonho Americano. Jay Gatsby veio dos nada e fez-se multimilionário escondendo as origens judias e os negócios sombrios. Veio do nada para reconquistar uma mulher que tinha classe, dinheiro, pedigree. E um marido das universidade Ivy League, de Wall Street e do egoísmo sem barreiras. Daisy e Tom Buchanan ostentam o narcisismo patológico dos que nunca tiveram de lutar. Na mansão do lado social errado, Gatsby avista a luzinha verda da casa de Daisy. Essa luz é o que o faz viver. Nick Carraway, o observador do drama, narra o very unhappy end. Scott Fitzgerald escreve como um diabo, ou seja, imoralmente bem”.


Em Cannes, este filme foi escolhido para abrir o festival mas a recepção da imprensa foi de um silêncio sepucral -nem aplausos nem vaias, apenas desprezo. Cannes, talvez como o Festival de Veneza, é a grande montra dos bons filmes e dos grandes realizadores, geralmente que não são sucessos de bilheteira. Tinha que ir ver The great Gastby, o filme. Sabia antes de entrar que iria ser uma desilusão. Posso estar a ser preconceituosa, mas um realizador que escolhe para a banda sonora de um filme, adaptado de um grande livro, o rapper Jay-Z, não combina. Mas queria perceber como aquele público que não deveria saber, na sua maioria, que se tratava de uma das obras primas da literatura americana, estava ali a esgotar a sala. Queria perceber qual o segredo de transformar o livro do F. Scott Fitgerald, que não é um best-seller, mas que foi já várias vezes transformado em filme, ser desta vez um blockbuster. Saí da sala a dizer que se as pessoas não lêem, pelo menos a maioria dos portugueses, mesmo os (as) mais letrados (as), que assistam à forma mais fácil, neste caso, um filme. E se esta é a fórmula de dar a conhecer uma das mais magníficas obras da literatura americana do séc XX, nada há de errado nisso. Provavelmente, estas pessoas que não leram o livro iriam achá-lo uma seca, mas à boa moda de Hollyood, as descrições e os diálogos primorosos, conseguem transformar-se em fogo de artifício visual. 

A comparação do livro com este filme faz lembrar-me de uma história que se passou comigo no Metropolitan Museum. Estava eu a sair do museu, a uma sexta ao fim da tarde onde ia muitas vezes. Nesse dia levava vestida uma t-shirt com a capa do livro The great Gastby que também tinha escrito o nome do autor, F. Scott Fitzgerald. Um segurança para-me e diz-me: “Great t-shirt”. E eu fiquei logo toda emocionada a achar q era um grande elogio, um ameicano a elogiar uma t-shirt de um dos mais espectaculares livros do seu país. Quando ele acrescenta “I´m Scott too”. E pronto! Toda a minha emoção acabou ali. Ele nem sabia quem era o Scott Fitzgerald, quanto mais o que era o The great Gatsby. Para o bem e para o mal, acho que agora já saberá...


quinta-feira, 28 de março de 2013

Flores raras e banalíssimas


Quem chega ao Rio de Janeiro e vê o fabuloso Parque do Flamengo não saberá, na sua maioria, que foi uma mulher que o idealizou. Lota de Macedo Soares foi a responsável pela construção do Parque do Flamengo. Uma mulher discreta, tímida, avançada para a época, cultíssima e vanguardista. Estudou muita coisa mas não recebeu qualquer diploma. Por esse motivo foi muito criticada, na época, por não ter uma formação académica formal e por ter sido amiga do então governador Carlos Lacerda. Em Samambaia, perto de Petrópolis, idealizou também uma casa com 4 elementos chave: cimento, vidro, metal e pedra. A rigidez do metal, a fragilidade do vidro, o brilho e a rugosidade das pedras do rio coexistiam numa harmonia perfeita. Esta casa simboliza a paixão de Lota pela arquitectura moderna.
O seu nome está essencialmente ligado à escritora americana Elizabeth Bishop com quem viveu mais de uma década. Bishop é uma das maiores poetisas americanas, vencedora de alguns dos mais importantes prémios literários, incluíndo o prémio Pulitzer.  Bishop aparece descrita no livro como “ uma senhora de cabelos brancos e olhos tristes”.  Teve uma infância infeliz. O pai morreu quando ainda era criança e a mãe morreu internada num hospital psiquiátrico. Era asmática e alcoólica, “...quando começava a beber não conseguia parar. Bebia até ficar inconsciente”.
Ocorreu-me agora falar do filme “Flores Raras”, cujo argumento se baseia no livro “Flores Raras e banalíssimas” de Carmen L. Oliveira que li há muitos anos, e por causa do filme, reli há pouco.
As críticas dizem que este filme de Bruno Barreto ficou entre os preferidos do público no Festival de Berlim. Foi também seleccionado para o Festival de Tribeca a realizar-se em NY entre 17 e 28 de Abril. A não perder!
Um dos livros de Elizabeth Bishop começa com a dedicatória a Lota de Macedo Soares:
“...O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que quanto mais vos pago, mais vos devo”

                                                           Camões

terça-feira, 19 de março de 2013

Óscares 2013


Melhor Filme
·         Argo
·         Lincoln
·         Zero Dark Thirty
·         Les Misérables
·         Silver Linings Playbook
·         Life of Pi
·         Django Unchained
·         Amour
·         Beasts of the Southern Wild
Melhor Realizador
·         Steven Spielberg por Lincoln
·         Ang Lee por Life of Pi
·         David O. Russell por Silver Linings Playbook
·         Michael Haneke por Amour
·         Benh Zeitlin por Beasts of the Southern Wild
Melhor Ator
·         Daniel Day-Lewis em Lincoln
·         Joaquin Phoenix em The Master
·         Bradley Cooper em Silver Linings Playbook
·         Hugh Jackman em Les Misérables
·         Denzel Washington em Flight
Melhor Actriz
·         Jessica Chastain em Zero Dark Thirty
·         Jennifer Lawrence em Silver Linings Playbook
·         Emmanuelle Riva em Amour
·         Naomi Watts em The Impossible
·         Quvenzhané Wallis em Beasts of the Southern Wild
Melhor Actor Secundário
·         Philip Seymour Hoffman em The Master
·         Tommy Lee Jones em Lincoln
·         Alan Arkin em Argo
·         Robert De Niro em Silver Linings Playbook
·         Christoph Waltz em Django Unchained
Melhor Actriz Secundária
·         Anne Hathaway em Les Misérables
·         Sally Field em Lincoln
·         Amy Adams em The Master
·         Helen Hunt em The Sessions
·         Jacki Weaver em Silver Linings Playbook
Melhor Argumento Original
·         Zero Dark Thirty
·         Flight
·         Django Unchained
·         Moonrise Kingdom
·         Amour
Melhor Argumento Adaptado
·         Lincoln
·         Argo
·         Silver Linings Playbook
·         Beasts of the Southern Wild
·         Life of Pi
Melhor Canção Original
·         "Skyfall", de Skyfall
·         "Suddenly", de Les Misérables
·         "Before My Time", de Chasing Ice
·         "Everybody Needs a Best Friend", de Ted
·         "Pi's Lullaby", de Life of Pi

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Django


Não vou fazer a crítica do filme. Primeiro porque as críticas ficam sempre aquém dos filmes e segundo, como diz António Lobo Antunes: "os maus escritores é que acabam a escrever críticas". No entanto,  quero deixar aqui a recomendação. Adoro Tarantino. “Pulp Fiction” é um dos meus filmes favoritos. O humor negro dele, os excessos, tudo é exagerado e kitch. Este filme dá para rir alto. Aquelas cenas da cara tapada são hilariantes e fazem doer a barriga de tanto rir. A banda sonora é excelente, como em todos os filmes do Tarantino. Christoph Waltz tem uma merecida nomeação para o oscar, tão bem interpretado, que me apetece rever. Este ano compete com o também fabuloso Robert De Niro em “Silver Linings Playbook”. Não conheço os papéis dos outros nomeados mas se Christoph Waltz ganhar é mais do que merecido. Este filme vale a pena ser visto no cinema. Samuel L. Jackson aparece quase irreconhecível, este que é um dos actores fetiche de Tarantino. Neste filme tem um papel muito polémico, sendo mais papista que o Papa. E como todas as histórias de amor, tem um final feliz.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Guia para um final feliz (Silver Linings Playbook)

Na sexta, já passava bastante das 10 da noite, acabada de sair do lab, sento-me no shopping a comer qualquer coisa rápida, enquanto esperava pela A. para ir à última sessão de cinema. A essa hora já quase ninguém jantava. No entanto, um olhar mais atento faz-me reparar numa jovem família. Os pais não tinham mais de 18 anos e a bebé não teria mais de 3 meses. Chegaram à mesa com os seus tabuleiros do McDonalds, o carrinho da bebé e a bebé no colo. A mãe apesar de ter sido mãe há tão pouco tempo, exibia a boa forma que só a tenra idade é capaz de manter...e o pai mostrava a parca experiência no simples colo da bebé. É isto que se percebe neste país. A natalidade está a baixar drasticamente, os pais responsáveis adiam os filhos ao limite, e a irresponsabilidade dos muitos jovens manifesta-se na sua contribuição para a natalidade. Tenho algumas amigas que estão a tentar engravidar há anos e não estão bafejadas pela sorte... e tão preparadas que elas estão. A irresponsabilidade dos mais novos levam-nos aos shoppings a horas tardias com crianças de colo que deveriam há muito estar a dormir...Nunca ninguém disse que a vida era justa...

Depois fomos à última sessão ver "Guia para um final feliz". Adorei o filme. Sempre adorei gente louca e desequilibrada . O personagem principal (Bradley Cooper) perdeu tudo: a casa, o trabalho e a mulher. Depois de  apanar a mulher com outro no chuveiro, enquanto passava a música do casamento, descontrolou-se. Este episódio leva-o a ser internado numa instituição durante 8 meses e volta a viver de novo em casa dos pais. . Tem uns pais peculiares pais com uma obsessão pelos Eagles.  O personagem do Robert de Niro é de rir. O argumento deste filme é brilhante. Estas são pessoas com problemas psicológicos e psiquiátricos profundos e muito a sério, não como na maior parte dos filmes em que tornam doenças mentais numa palhaçada ou que aligeiram este tipo de distúrbios.  Estas personagens são palpáveis, reais, emocionalmente complexas e no fundo iguais a nós, que acabamos por ter uma afeição enorme por elas, uns bipolares, outros com DOC, outros com distúrbios sexuais. E o argumento compreende-os de um modo surpreendente e comovente, a dança da vida deles é a catarse do filme à la Tarantino. O filme tem uma velocidade alucinante. Passamos de rir desalmadamente ao choro. Três dos actores estão nomeados para os oscares. Bradley Cooper mostra neste filme o caminho crescente para a carreira que tem feito. Jennifer Lawrence, representa uma jovem viúva com uma história arrasadora e quase tão maluca como a do personagem principal. De todos os filmes nomeados que vi, o oscar de melhor actriz vai para Emmanuelle Riva ou para Jennifer Lawrence.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Jodie Foster’s speech, accepting the Cecil B. DeMille Lifetime Achievement Award at the Golden Globes

In the most beautiful and real way, Jodie Foster just stole the Golden Globes: "There's no way I could ever stand here without acknowledging one of the deepest loves of my life. My heroic co-parent, my ex-partner in love but righteous soul sister in life, my confessor, ski buddy, consiglieri, most beloved BFF of 20 years, Cydney Bernard."




domingo, 23 de dezembro de 2012

Amour, de Michael Haneke


Sabemos previamente que Anne morreu, a primeira sequência do filme mostra o arrombamento do apartamento, onde  encontram o corpo de uma mulher morta na cama rodeada de pétalas.“Amor” é um filme surpreendente. As expectativas eram grandes pelas críticas que tinha lido e pela sinopse. Os octagenários actores franceses interpretam em  um casal de músicos cheio de amor e cumplicidades, que quase não precisa de palavras para se entender. Percebe-se a vida cosmopolita deles numa ida a um concerto de um antigo aluno. Mas um dia, como o livro da Joan Didion, toda essa vida desaba, quando ela adoece. O dramático efeito de um acidente vascular cerebral tem numa pessoa que apesar da idade, tinha uma vida normalíssima e que dividiam tudo entre os dois. O corpo entra em declínio e o casal, isolado num apartamento, vive o inferno da própria dor.

O filme, passa-se quase inteiramente num apartamento parisiense,retrata a deterioração lenta, gradual e penosa da velhice, mostrando com compaixão a dor de assistir à doença de um ente querido, de observar sua lenta passagem em direcção à morte, ao fim, sem que nada o consiga evitar.

Este filme mostra acima de tudo o que o amor é capaz de suportar mesmo quando as pessoas nos deixam de reconhecer. A humanidade, compaixão e amor com que aquele marido tratou a mulher até quase ao fim.  O percurso do casal é mostrado em detalhes, na vida quotidiana de um doente, desde o dar de comer, o banho, mudar fraldas... . No limite, ele agride-a, quando tenta que ela beba água e não morra à sede, e ela já sem consciência do que é e do que faz, a cospe. Uma cena particularmente bem filmada.

A minha avó, felizmente, apenas na sua última semana de vida é que se recusou a beber e a comer. E eu revi tanto a minha avó nestas cenas. E este filme mostra e vem dar razão ao que sempre defendi, que as pessoas, apesar das diminuições graduais das suas capacidades, não devem morrer fora de casa e devem ser cuidadas pelos seus familiares próximos. É aquela frase “there is no place like home”.



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