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quarta-feira, 31 de julho de 2019

Rodes


Rodes, que não conheci muito bem porque estive 5 dias fechada numa conferência, é a ilha grega mais oriental. A primeira impressão é de uma ilha que parou no tempo. Parece o Algarve nos anos 80. Os táxis não têm taxímetro. Todos os locais falam várias línguas. As infraestruturas não são muitas. O turismo é a principal fonte de rendimento. A parte da ilha onde fiquei era extremamente ventosa. A praia não tem areia mas pedras grandes, redondas e lisas. A temperatura do mar Egeu ronda os 20 graus no fim de Maio. E o sol é potentíssimo. Os turistas variam entre holandeses, franceses e uma mescla de nacionalidades de leste que não se chega a perceber exactamente o país. A cor do mar é a do Mediterrâneo e das águas quentes. Uma mistura entre um verde esmeralda e um azul transparente.

Fui à Acrópole de Rodes. Eu que nunca vi ruínas gregas, pessoalmente, o único desejo que tinha era esse: visitar as ruínas gregas. E talvez, como em Roma, nunca em lugar nenhum do mundo senti o peso da civilização. Deixaram-nos no que parecia ser um descampado abandonado. Era fim de Maio mas a cor da vegetação parecia do pico do verão. Parecia um deserto. Um descampado deixado à sua sorte. As ruínas gregas eram as únicas coisas que queria ver em Rodes. Não a cidade velha. Nem a cidade Medieval. Nem o lugar onde supostamente um dia existira o Colosso de Rodes, a gigantesca estátua de Apolo, nas portas da cidade, junto ao mar. Mas o que restou da Grécia Antiga. Chega-se perto das ruínas, ao que parece ser semelhante ao que se vê na internet: duas enormes colunas. No entanto, aquilo que avisto são duas colunas tapadas por andaimes. Isto é o que resta do suposto Templo de Apolo. O resto é pó, pedras, abandono, plantas forasteiras e tempo, muito tempo. Descobre-se o caminho seguindo os turistas acompanhados por um guia. Descemos caminhos selvagens apenas marcados pela passagem de poucos turistas. Algumas coisas estão bem conservadas. Sento-me no cimo e olho o mar. A imagem que se tem do mar numa ilha é sempre diferente. O mar Egeu, visto daqui, azul cobalto. Como os olhos, este mar muda de cor. Entre o verde esmeralda, o azul céu e o mais escuro do azuis a parecer o Atlântico. Debaixo de um sol da tarde que parece queimar tudo. Nenhuma sombra. Tudo agreste. Selvagem. Nú. Subo e desço escadas. Sinto as pedras. Sento-me no meio delas, no que resta das ruínas. No desleixo que permite que eu, turista, esteja ali sem pagar pelo tempo que me apetecer. 

Depois, chega-se a um muito bem cuidado teatro ao ar livre. Odeon. Um teatro de mármore para uns 800 espectadores. Os turistas contam-se pelos dedos mas de cima lembro-me da passagem de Sophia pela Grécia, que no seu diário escreveu sobre a visita ao Teatro de Epidauro e quis ouvir o eco da própria voz. E onde ela recitou os primeiros versos da Ilíada de Homero: “Forma perfeita e funcional: a acústica é inacreditável. Dos degraus de cima oiço nitidamente as vozes de baixo. É uma acústica que não só “transporta” as palavras mas que as recorta, as distingue, sílaba por sílaba, som por som. Despois desço (...) Fico por um instante quasi sozinha no centro da orquestra e digo: “Menin aeide, Thea, Peleiadeo Aquileos”. Então oiço duas vezes a minha voz, uma voz ao pé de mim e outra no ar subindo todos os degraus de ar, nítida, livre, clara, recortada.” Eu abraçada ao livro de Sophia “O nu na antiguidade clássica/ Antologia de poemas sobre a Grécia e Roma”.  Quando o meu pensamento é interrompido por uma voz que pede em inglês a alguém que está no centro do teatro que diga qualquer coisa. E eu ali na Grécia, em Rodes, numa tarde do último dia de Maio, ouço em unísseno a voz de quem está no centro do teatro e a voz de quem está no cimo a dizerem uma passagem do coro de Henrique V de Shakespeare:

“O for a Muse of fire, that would ascend
The brightest heaven of invention,
A kingdom for a stage, princes to act
And monarchs to behold the swelling scene!

E depois ainda se vê o estádio, onde os locais correm ao fim da tarde. E eu caminho por entre as bancadas, e sento-me de novo, apenas a olhar. Estas pedras onde estou sentada, estas pedras da antiguidade, misturadas com os turistas e com os locais que correm. Aquelas ruínas ficam impregnadas com aquilo que aconteceu, acontece e acontecerá ali. E, contrariamente ao que devia, ainda trouxe umas pedrinhas. Ou não tão “inhas" assim. Desta vez, o excesso de peso não foram os livros mas pedras. Passaram despercebidas na segurança em Rodes. Mas, por falta de cuidado meu, em vez de colocar as pedras na mala de porão, coloquei-as na mala de mão, tal o valor simbólico delas. Afinal foram apanhadas nas ruínas em Rodes. Em Roma, ao passar novamente na segurança, a minha mala foi inspeccionada. Abrem o saco com as pedras e perguntam-me para que servem. E eu respondo que não servem para nada que são apenas uma recordação de Rodes. Não houve argumento possível. As pedras do tamanho da palma de uma mão, talvez com milhares de anos antes de Cristo, que a tudo sobreviveram, acabaram entre risos de troça e um barulho ensurdecedor, num caixote do lixo (de plástico) no aeroporto Leonardo Da Vinci em Roma. A ironia. As pedras da Grécia Antiga, acabaram na Roma Antiga. Mas talvez com pena da minha cara que era só desânimo deixaram-me trazer o resto das pedrinhas inofensivas para se juntarem a tantas outras numa das mesas lá de casa.

Templo de Apolo (copyright:Wikipedia)

Teatro Odeon (copyright:Wikipedia)

Estádio (copyright:Wikipedia)

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Prémio Bottari Lattes


No sábado, 20 de Outubro, no Castelo Grinzane Cavour, numa cerimónia que começou às 4:30 da tarde foi entregue o prémio Bottari Lattes a António Lobo Antunes numa cerimónia pública. Vindos dos liceus de toda a Itália, a plateia estava repleta de jovens leitores.

No discurso de agradecimento do Prémio Bottari Lattes no valor de dez mil euros disse: “Quero agradecer este prémio que me deu muito prazer de o vir receber aqui e encontrar pessoas que foram, para mim, de uma delicadeza e de uma elegância que não vou esquecer. Se há coisa que eu admiro nas pessoas é a elegância da alma. E isso encontro aqui, até na beleza da vossa língua, que me faz imensa inveja, porque se eu escrevesse em italiano poderia, certamente, chegar mais longe. Quero, sobretudo, agradecer a forma como receberam, atrevo-me a dizer que com ternura e amizade. Como estava sempre a dizer um grande amigo, que tinha idade para ser me avô: “Olha miúdo, só há duas coisas no mundo que valem a pena: o amor e a amizade. O resto é uma merda”.

Ainda houve tempo para uma pergunta i: “A sua prosa tem uma força poética excepcional. Qual é a sua relação com a poesia? ”.“A mim parece-me que a distinção entre poesia e prosa está em vias de acabar. Não faz muito sentido. Lembre-se que às Almas mortas de Gogol se chamou de poema e Nabokov chamou ao seu poema romance. Toda a arte tende para a poesia. A poesia pode muito mais do que a prosa. Eu muitas vezes não sei o que estou a escrever nem a ler. Se pensar em Bashô, poeta japonês, tem um poema que é assim: “ Os quimonos secam ao sol/ Ai as mangas pequenas/ Da criança morta”.  Uma vida inteira está aqui em meia dúzia de palavras.

Quando Antonio Lobo Antunes recebe das mãos da mulher de Mario Lattes agradece-lhe, muito educadamente, e como um cavalheiro como poucos, faz-lhe uma pequena vénia com a cabeça e beija-lhe a mão.









copyright: Fondazione Bottari Lattes






copyright: Fondazione Bottari Lattes





terça-feira, 23 de outubro de 2018

Lectio Magistralis

Entro no Teatro Sociale  Giorgio Busca a poucos minutos da hora marcada. Sala bonita, parecida com o Teatro Nacional S. João. A plateia está cheia e como só restam lugares longe do palco opto por um dos camarotes. Muitos intelectuais, muitos jovens, muitos adolescentes. A mulher está sentada na segunda fila.

No palco está apenas uma cadeira e uma pequena mesa. António Lobo Antunes (ALA) entrará daí a poucos minutos para iniciar a Lectio Magistralis do prémio Bottari Lattes do qual foi o vencedor de 2018. A cerimónia de entrega será no dia seguinte no Castelo Grinzane Cavour, Património Mundial da Unesco.

Quem apresenta António Lobo Antunes descreve-o como "muito conhecido em Itália, na Europa e no mundo". O teatro repleto numa cidade pequena como Alba é o exemplo disso. Continua com a introdução da biografia de ALA, destacando a sua formação como médico psiquiatra, principalmente a sua experiência como médico na guerra em Angola "o Vietname português". Seguiu-se a bibliografia, com o apresentador a mostrar-se um conhecedor da obra, sem necessitar de ler para destacar cada um dos livros traduzidos. Elogia a ligação de ALA à literatura e ao cinema italiano e a narrativa inovadora. Destaca a imaginação de ALA, e os cenários dos seus livros, Lisboa e África ficcionadas, realidades que não existem. Há também uma pequena leitura do livro "Não é meia-noite quem quer", o último livro traduzido em Itália. 

António Lobo Antunes entra no palco debaixo de estrondosas palmas. Andar arrastado. Os anos têm visivelmente passado por ele e deixado marcas, fisicamente. Começa a falar com uma voz inaudível em português. Tem tradução simultânea. 

Começa por dizer que não fará nenhuma Lectio Magistralis. E o monólogo inicia-se pela sua relação com os livros aos 3/4 anos. Aprendeu a ler muito cedo. Divaga entre a morte, tratada como desconhecida, e os livros que começou a ler, desde Oscar Wilde a livros franceses. Fala dos irmãos, de como eram todos bons alunos, o contrário dele. Não estudava. Só lhe interessava escrever e ler e o hóquei. Passa para a relação com o pai que quando leu as primeiras coisas que escreveu foi muito encorajador: "Isto não presta para nada". Mas ele próprio tinha a certeza que ia escrever coisas extraordinárias. Aos 14/ 15 anos era hiperdotado e começou a enviar os textos, sob pseudónimo, para o jornal. Escrevia de tudo poesia, conto, novela. Estava convencido que era um génio. E como queria ser escritor, quando o pai perguntou qual o curso para o qual queria entrar, pensou em Letras. E o pai, como era muito democrata, disse: "Estás matriculado em Medicina". Então, mais precoce que a maioria, aos 16 anos entrou em Medicina. Nunca tinha visto um cadáver. Mas tudo nos primeiros anos envolvia cadáveres. Tinha medo. Essas aulas imensas de 4 horas provocavam-lhe terror. Mas continuou sempre a escrever e enviava coisas para a Casa dos Estudantes do Império (que defendia a libertação das colónias). E foi chamado à Polícia política. Como era um Lobo Antunes disseram-lhe: "O menino vá para casa e veja se não reincide de andar com comunistas". 

Fala da divisão social que existia na ditadura entre ricos e pobres. Das quatro ou cinco empregadas que tinham em casa. Das diferenças sociais que existiam. A missa das empregadas às 7 da manhã separada da missa dos patrões ao meio-dia, com direito a homilias mais longas é um dos exemplos dados. A igreja católica não é poupada, destacando os grandes almoços que havia em casa com padres e bispos que comiam e comiam: "essas santas criaturas".A ditadura também não é poupada. A existência da polícia política agressiva e temível, muito mais para os amigos do que para ele, que era um privilegiado.

Fala da sua viagem a Pádua de carro, ainda criança, e o pai a querer parar em todos os museus dos países por onde passavam. O pai queria ver todos os Tintoretto e ele achava uma chatice e que "gostava dos escarradores". Conta o episódio do escritor que perante As meninas de Velasquez no Prado ficou a olhá-lo muito tempo, calado e quando lhe perguntaram o que achava respondeu: "Onde está o quadro?", a mais bela crítica de arte q ouviu.

Fez o curso com várias reprovações mas no fim apaixonou-se pela Medicina. Escolheu Psiquiatria porque achava que dava menos trabalho. Foi para Londres fazer um estágio e quando volta é chamado para a guerra. Pensou em fugir. "A esquerda ia fazer a revolução para os cafés de Paris e voltava a votar na direita". Mas como podia fugir se escrevia em português? Tinha que estar em Portugal. E achava que a ditadura, que tinha começado em 1926, nunca iria acabar.

Exalta os militares, os seus soldados. Alguns deles nunca tinham visto o mar: "Que rio é este tão largo e com tanta espuma?". A maior parte dos soldados era muito pobre. Contou outro episódio que se passou há uns anos, no Porto, num sítio muito chique e os "seus" soldados apareceram para a apresentação do livro e o professor responsável pela apresentação disse: "O António gosta muito de pessoas humildes". Ao que ele respondeu, indignado: "Os meus soldados não são gente humilde. São príncipes. Está a ouvir? São príncipes!". E a partir daí começaram a aparecer com cartazes "Os príncipes de António Lobo Antunes. Quanto à guerra. propriamente, só falará de um dos intervenientes da revolução, Ernesto Melo Antunes, que no meio de um tiroteio à noite andava desprotegido e com uma lanterna: "Sabes, é que às vezes apetece-me morrer". Recordará a única vez que chorou na vida quando recebeu um telegrama a dizer que tinha uma filha. Foi chorar imenso tempo e outro oficial colocou-lhe a mão no ombro, sem dizer nada. E essa mão silenciosa e a sua importância, nunca mais esqueceu.

Recordou a dificuldade de voltar à vida real depois da guerra. E também a dificuldade de publicar o primeiro livro. Deu o manuscrito a ler a dois amigos: "um disse-me que devia tirar a primeira parte e o outro disse-me que devia tirar a segunda...". O livro foi recusado por todas as editoras em Portugal. Depois foi publicado por uma pequena editora e na sessão de lançamento "estava eu, o editor e a empregada da editora". E foi um acontecimento. Vendeu muito. O irmão Miguel até lhe disse: "Tens que tirar a fotografia da conta-capa porque ouvi dizer "deve ser uma porcaria mas ele é tão bonito". 

Falou do imenso orgulho que foi conseguir um agente em NY e ter sido publicado pela Random House e de ter boas críticas no The New York Times e todos os mais importantes jornais americanos. De como largou a Medicina para se dedicar em exclusivo à escrita. Continua a fazer o mesmo horário. Escreve das 8:30 até à uma e depois das 2:30 às 8 e depois mais um bocado à noite. Porque escrever, segundo ALA, é sobretudo trabalho.

Tem andado a reler Dickens. Cita de memória sobre um filho que vai ver a mãe que está muito doente:
"- Tens dores, mãezinha?
-  Tenho a impressão que há uma dor aqui no quarto mas não sei se sou eu que a tenho".
Deu este exemplo para explicar o quanto é preciso de trabalho e sofrimento para chegar a uma frase destas. 

Não se esqueceu de destacar o quanto estava orgulhoso por ver publicada toda a sua obra na colecção Pléiade, o único português, a par com Fernando Pessoa, a integrar esta lista. E junta-se aos 3 escritores vivos a integrá-la. 

Um monólogo, com argumento conhecido, sem qualquer novidade para os que acompanham de perto os poucos eventos públicos que aceita, usado como guião da sua Lectio Magistralis. Despediu-se com: "Só entre os homens e por  eles vale a pena viver".

O público não teve direito a perguntas mas os seus admiradores tiveram a oportunidade de ver os livros autografados. Teve direito a uma pausa para fazer desaparecer dois cigarros. Filas desorganizadas de mais novos e mais velhos, com a predominância dos mais novos. Auxiliado pela tradutora nos recados que os seus admiradores faziam questão que entendesse, parava de escrever, olhava-os nos olhos, com o sorriso lindo, apesar de contido e tímido. Quase não se lhe vêem os dentes,e aquele segundo de atenção com um sorriso inocente de quem não está a entender o que se lhe está a dizer, mais por causa da surdez do que outra coisa. E responde, delicadamente, com a mão estendida: "Grazie".









quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Até que as pedras se tornem mais leves do que a água

Mais uma vez, António Lobo Antunes (ALA), não escolheu o livro que escreveu. O livro é que o escolheu. Não esperava voltar a África, mas não conseguiu. Estava mais interessado na relação pai-filho. No entanto, (mais) um regresso a Angola, à guerra colonial, que nunca poderá ser esquecido. Tudo o que está no livro é verdade, nada foi inventado.Limitou-se a contar o que tinha vivido na guerra. Como o próprio assume, foi um livro muito difícil e complicado de escrever. Passou noites horríveis, ele que normalmente dorme bem, não tem pecados. Com sonhos maus e uma angústia enorme. Tudo isso voltou. O sofrimento continua presente.O sofrimento nunca mais acaba. “Ninguém desce vivo de uma cruz”. A guerra “deu cabo da juventude, da nossa idade madura e da nossa velhice”. Uma crueldade imensa. Ninguém ganhou esta guerra.

 “Ajuda-me a esquecer”.
Neste livro, tudo parece repetir-se. Mas tudo parece novo, ao mesmo tempo. Como se estivessemos a ler estas histórias do mal que a guerra fez a tantos, pela primeira vez. Parece um louvor à memória dos que morreram e dos que sobreviveram mas que parecem continuar lá. O que a guerra lhes roubou, senhores. Não saíram da guerra. Quem voltou de lá não voltou igual. Diferentes dos que cá ficaram. “Fugidios, bruscos, quase todos estranhos...”. As marcas permanentes que a guerra lhes deixou. A miséria da guerra. Sonhos permanentes com África que se repetem. Os medos e os pavores. Os insultos velados e explícitos. As imagens horríveis. A loucura. Os suicidas que se mataram sem explicação. A vergonha de expressar sentimentos. Violência atroz. Pessoas sem cabeça e sem orelhas. A ocultação da verdade inconveniente. Nunca contam o que se passou na guerra. A mentira piedosa. Sonhos de guerra onde acordam suados e exaustos.O medo, a vergonha e a ignorância de mostrar afecto, consolo e carinho. Sempre a viverem no passado e da memória que lhes ficou. Culpa e mágoa. A pena. A cabeça que não pára. Racismo. Machismo. Homofobia. Homossexualidade. Sexo. Violações. Infidelidade. A consciência ou a falta dela. Desânimo. Destruição.

Conta a história de um alferes que trouxe uma criança da guerra de Angola. Tudo gira à volta da matança do porco. Como em todos os livros de ALA, não é o argumento que importa, este sempre simples, mas a narrativa e a forma. Este é o segredo. Vários narradores, Prolepses e analepses. Espirais. Polifonias. Narradores vários. Descrições cinematográficas.

Os personagens raramente são bonitos. Os personagens quase todos sem nome: a filha, o filho preto, o alferes, Sua Excelência, a viúva, a prima, Fernandinho. Na sua maioria tristes, infelizes, melancólicos, mas todos com uma sensibilidade acima da média.

O filho preto que trouxe de Angola depois de lhe matar a mãe e o pai. Todos o avisam que quando crescer se vingará. Foi trazido por solidão ou remorso? Por amor ou como um troféu? Casou-se, num casamento infeliz, com Sua Excelência, uma branca que o despreza e o troça. Humilde. Subsidiário. Obediente.Desde o início há um presságio que o filho matará o pai no dia da matança do porco: “Lembro-me da minha mãe sem orelhas...Lembro-me do meu pai de bruços no chão... Lembro-me que você os matou... matou a minha mãe, matou o meu pai, destruiu tudo o que pôde e no entanto passou-lhe uma coisa qualquer por dentro que o obrigou a impedir que me matassem... juro que não me apetecia matá-lo, gostava dele...”.

A filha “sempre zangada, amarga, fala-se-lhe e não responde, sorrimos-lhe e permanece séria”. Sempre sozinha. Indiferente. Mais esquiva do que os gatos. Largou os estudos. Ninguém nunca a questionou, obrigou, aborreceu. Quis largar os estudos, largou. Aceitaram sempre. Nunca lhe ralharam. “acho que não gosto seja de quem for, de que criaturas podia gostar e de que serve gostar, o que se faz com gostar, o que se ganha em gostar...”. Drogada. Ressacada. Descuidada.

A mulher sempre discreta em tudo desde o primeiro dia. Tímida. Educada. Sem aborrecer ou incomodar ninguém. Começou a sofrer de guinadas no rim. Descreve tão bem a dor com imagens. Descrições cinematográficas. “pedras no rim a comerem-na sem descanso com aqueles dentinhos horríveis, a alcançarem-lhe o fígado...é o sangue a apodrecer, é o corpo que desiste... As pedras no rim que se tornavam a pouco e pouco mais leves do que a água.  Um cancro no rim que lhe invadiu o corpo inteiro..A degradação com a doença. O sofrimento. O declínio. A agonia. A morte a chegar.

Todos os personagens partilham desta falta de amor, uns porque têm medo de o mostrar, outros porque não o sabem fazer, outros porque não foram ensinados, outros porque acham que não foram (de todo) amados. Quem sabe um livro sobre este medo?





quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O ano em que morri em NY

Milly Lacombe começa por falar de NY. Uma descrição cinematográfica de quem viveu perto de Union Square, entre a 1st Avenue e a 14th Street, entre o East Village e o Soho. Do pequeno almoço no Jack’s Wife Freda, uma instituição. Das idas a St Mark’s Bookstore. Da sua vida de procrastinação e de proper wife “cuidava dela, da casa e escrevia, e ela completava a nossa renda”. De como era movida pela “felicidade dos ignorantes”. Da rotina de uma new yorker que era freelancer. A vida perfeita que teve um fim. Este é o mote.

O livro divide-se em duas partes: morte e renascimento. A morte chegou “em NY numa manhã ensolarada de sábado”. A pergunta das perguntas, “a mãe de todos os questionamentos: “por que existe alguma coisa em vez de nada?”,  que Caetano adaptou a: “Existirmos: a que será que se destina?”. E o livro é o desenrolar do novelo do nada em que a autora se encontra até à sua reconstrução.

Ficamos a saber que o grande problema da autora era a arrogância e que era a pessoa que deixava e que nunca a que era deixada. Nasceu para ser conquistada e amada: “eu era a mais amada, a mais desejada, a mais cortejada, a mais segura, a que não sentia ciúmes”. Que emendava relacionamentos. E percebe-se  (tão bem) como é que as relações dela duravam tanto. A pessoa que traía e que nunca a que foi traída e provou a dor que isso provoca.

“Evite ter certeza daquilo que você desconfia”. A ficção e os delírios surgem com a ida da mulher para Berlim. Sozinha em casa. Começou a questionar tudo. Perturbada. Maníaca. Chorava muito durante o dia. Angustiada. Começou a ser questionada pela inércia, pela falta de socialização. Estranha. Distante. Sentia alguma coisa diferente.Estava a ficar maluca. Não conseguia (mais) trabalhar.  A desconfiança de estar sempre a olhar para o telefone, o grande inimigo dos tempos modernos, o aparelho que mais lares estraga “deixava o aparelho com a tela sempre para baixo”. A suspeita. Sempre a dúvida. Até ao fim. Passou de uma mulher segura ao oposto. “Você me olha como se eu tivesse morrido”. De pessoa segura, madura e confiante passou a obsessiva. Carente. Sombria. Em simultâneo a ex e melhor amiga foi diagnosticada com cancro.

“Não há amor que sobreviva ao sufocamento... assim como o fogo, o amor precisa de oxigénio para arder”. Transformou-se numa pessoa “sem graça, chata e pobre”. A companheira não a reconhece, não sabe o que quer, não está feliz, está sufocada: “você mudou demais, se trancou nesse apartamento e em sua dor, em seus medos. Sinto saudade de você, da versão de antes, que era alegre, não tinha medos..”.  O que parecia ser uma suspeita, parece transformar-se num facto consumado. Aliado ao problema prático de ter 44 anos, ser incapaz de se sustentar sozinha, sem nenhum dinheiro guardado e “um salário de merda” que se podia resumir em “uma pessoa financeiramente fracassada, moralmente falida e irremediavelmente sozinha”. É assim a primeira parte do livro:“Meus dias se resumiam em esperá-la voltar para casa e imaginar a traição”. Angustiante. Doloroso. Deprimente. Fim.

“Morrer dói, mas renascer é lindo”
A segunda parte do livro é o renascimento. A aventura do descobrimento.  Um retiro, longe da civilização, no meio da Amazónia, na margem do Tapajós, um rio que parece um mar, com um grupo de pessoas (desconhecidas) da esquerda caviar, a comerem  grãos, acaí e tapioca. Agora uma pessoa que não era mais amada, desejada nem cortejada.”Uma pessoa vazia de sentimento”. Havia-se transformado numa pedra. A pessoa que não conseguia ficar longe do telemóvel 10 minutos.  A pessoa que nasceu “para brilhar, ser protagonista, feliz e amada” a dormir numa rede. Todas as pessoas do grupo a incomodavam, principalmente, as que se riam muito sem motivo. Inicia-se no ritual do rapé (planta medicinal dos índios), ela que nunca tinha usado nenhum tipo de droga ilegal. “somente quando experimentamos o nada é que estamos prontos para tudo". Não há nada como bater no fundo para subir às alturas. Ou a frase: “Não há mal que dure sempre nem bem que nunca acabe”. Munida dos dois volumes de Os irmãos Karamazov de Dostoiévski e de uma atitude fechada, arrogante, preconceituosa e julgadora foi baixando a guarda ao longo dos dias. E nesta semana descobre-se e renasce. A pessoa que estava num relacionamento que repetia a dinâmica dos pais. No retiro falam muito de sexo, de relações que não resultaram, de medos, de novos amores, de (in)felicidade, de fraquezas, de inseguranças. Com o passar dos dias foram despindo-se de máscaras e muros, começaram a expor-se em público e a assumir fraquezas. Começaram a permitir-se admitir que sentirem-se amedrontrados, indefesos e desprotegidos não é um defeito. Todos precisamos de afecto, carinho e um colo. Não somos autosuficientes o tempo todo. Afinal, somos algum dia, “apenas crianças que tentam sobreviver e ser felizes neste mundo tão cruel e cheio de expectativas”. E sai do retiro não com mágoa nem raiva da ex (que não abandonou e não foi culpada sozinha) mas com a visão positiva de uma história linda que construíram. Aquilo que se chama reciprocidade e simbiose: amar alguém que a amou de volta.

Só a autora poderá dizer o que é de facto verdade ou não. Aqui tudo parece verdade com um pouco de ficção que não irá além da troca de nomes, número e nome de irmãos e sobrinhos e a morte da mãe. O resto, só ela e as (os) intervenientes directas (os) poderão atestar. Sozinha, pegou em algumas garrafas de vinho, alguns livros e o computador e isolou-se na montanha para escrever. O livro é o resultado da fórmula que a autora encontrou para superar a dor. O melhor do livro é talvez o sentido de humor no meio de tanta dor. Partes do livro são crónicas já publicadas. Textos conhecidos. Não faz diferença para não os conhece.

Como leitora inclui alguns dos grandes que vão de David Foster Wallace, Virginia Woolf, Dostoiévski, Eça de Queirós, Machado de Assis, Proust, Camus, Chomsky, Guimarães Rosa e cita até alguns deles. Para além dos autores que cita e lê, fala de Hopper e do Nighthawks (que é a capa do livro Cenas da vida americana da Clara Ferreira Alves). Hopper que pinta a solidão como ninguém.

Tempos antes de publicar o livro, Milly disse tratar-se de “um romance auto-biográfico, género chamado auto-ficção”.  O começo é difícil, amargo, angustiante, sentimos pena da protagonista (eu incluo ainda a solidariedade com a pessoa que supostamente trai) mas depois tudo acaba em bem, como se de um exorcismo se tratasse. Sem dizer nada de novo, a história não ser original e o argumento ser (apenas) o quotidiano que é a vida, leva-se (sempre) alguma coisa e não causa dano algum.



sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Festa do Livro no Palácio de Belém

23 de Setembro de 2017

A Festa do livro de Belém, organizada pela Presidência da República, regressou pela segunda vez aos jardins do Palácio de Belém. Programa diversificado que incluiu debates, muitas editoras representadas em pequenos stands, música, concertos, sessões de autógrafos e comidas.

No dia em que fui, a meio da tarde, estava indecisa entre os petiscos portugueses que iam do camarão da costa aos percebes, de tostas com sapateira aos pregos no pão. Havia opções vegan e piadinas, gelados e sumos naturais. De tudo um pouco. Fiquei-me pelo prego no pão, da espessura de uma fatia grossa de fiambre, acho que nem de vaca era e até sal faltava. Pouco depois, um burburinho à volta, e vejo o PR rodeado de marceletes a treinar selfies. Parece uma romaria. Abraça-se. Abraçam-no. Pega em bebés ao colo.  Baixa-se à altura dos carrinhos de bebés. Baixa-se à altura das crianças. Distribui beijos e sorrisos. Ouve-se: “É o presidente do povo”. Segue para ver as bancas dos livros, compra alguns.

Copyright: PR

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Ás 5 da tarde começou a conversa sobre o futuro do jornalismo, na cascata. Moderado pelo Carlos Vaz Marques, a discussão teve a participação da Clara Ferreira Alves, Isabel Lucas e Paulo Moura.  A Clara Ferreira Alves (sempre) no seu tom irónico/sarcástico começou por dizer que a resposta a essa pergunta seria: “Não tem futuro e vamos todos embora para casa”. Falou dos tempos de redacção, de como era importante o contacto humano. Mas que as coisas mudaram e está tudo à mão de um e-mail ou de um smartphone. É do tempo do telelex e do satélite. Falou de como os actuais jornalistas das redacções são mal pagos e trabalhadores indiferenciados. Falou do mês que passou nas últimas férias na Birmânia para escrever o próximo livro que será sobre o sudoeste asiático. Falou da culpa da Fox News de termos um Presidente americano anedótico como Donald Trump. E falou que o futuro da literatura e dos livros não está em causa. Caso contrário, não teriam sobrevivido a esta era tecnológica, e já teriam acabado.

A Isabel Lucas falou especialmente da sua experiência pessoal na América da campanha eleitoral. Das terras no meio do nada. E da tecnologia que via nos seus colegas de grandes orgão de comunicação social americanos. E que dependia de wifi grátis do Starbucks para enviar os seus textos.

O Paulo Moura falou da sua experiência como repórter de guerra e freelance. Da quase impossibilidade de se ser reporter de guerra por conta própria sem suporte de uma grande cadeia. Dos custos diários que nunca saõ menos do que 500 euros.

Todos falaram, com um certo toque de nostalgia, do tempo que não regressará.

No meio de nós estava o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, tendo preferido o meio por oposição à primeira fila.

Ainda tive tempo de ouvir os ensaios da Lisbon Poetry Orchestra – Poetas Portugueses de Agora – e Orquestra Académica da Universidade de Lisboa 


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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

De Ana Hatherly a Tarkovski

Com Anastasia Lukovnikova, Mariano Marovatto, Matilde Campilho e Tomás Cunha Ferreira na Feira do Livro do Porto, mais precisamente, na Biblioteca Almeida Garrett. Uma sessão, como foi apresentado, com “palavras, imagens e um fio de música”. Foi (bem mais) do que isso.  Palavra dita, imagem, diversidade de idiomas e sotaque, som, música, real e passagem tempo.

Para os apresentar, Anabela Mota Ribeiro, leu o seguinte texto: “Um grande ecrã ao fundo, instrumentos, livros e quatro amigos no palco. Uma conversa de esquina a quatro vozes, um cordel que será desenrolado a oito mãos. Anastasia, Matilde, Mariano e Tomás são poetas, mesmo quando não são. Falarão da revolução e da memória, dos monumentos e do futuro, do silêncio, sem o ferir, e das estórias das ruínas. Com eles: Chris Marker e Chantal Akerman, Leonard Cohen e Susan Sontag, um canto tupi e as câmaras da NASA em direto do cosmos. Copacabana Mon Amour, Meredith Monk, as cores de Pancetti sobre o Tejo, o golo que Maradona marcou com a mão e outras impossibilidades. Maiakovski, James Bond e John Cage. Bashō, Darwin e os habitantes de todas as ilhas. São todos poetas, mesmo os que não são. Estão entre Ana Hatherly e Tarkovski, porque tudo sempre está”.

A primeira imagem (não sei bem se a primeira mas a que me lembro), na grande tela por trás dos quatro foi a de Philippe Petit (que atravessou as torres gémeas do Word Trade Center em 1974) a equilibrar-se num cabo, com a Harbor Bridge como cenário. Petit, o homem que desafiou as vertigens e que disse que nada é impossível. "O fio não tem medo".

De Helio Oiticica, o parangolé, que  Adriana Calcanhotto eternizou numa música como: “um rectângulo de pano de uma cor só/ E é só dançar/ E é só deixar a cor tomar conta do ar/ Verde Rosa/ Branco no branco no preto nu”. Haroldo de Campos referiu-se ao parangolé como uma “asa delta para o êxtase”.

Uma foto de Leonard Cohen, ao fundo. O dono daquela voz grave e sussurrada e cujo timbre nos cuidou tantas vezes. Aquele que viveu em Hydra, em Londres e no Chelsea Hotel em NY. Aquele que cantou Marianne e Suzanne. Aquele que disse que a resposta era sempre sim. Aquele que nos ensinou tanto sobre tanta coisa. Que escreveu para os introspectivos, para os amantes platónicos, para os amantes de todos os graus de sofrimento, para os que se autoflagelam, para os traídos, para os que querem chorar e para muitos mais. E eternizou-se, para todo o sempre, enquanto houver som.

Falaram também de Bashô, o famoso poeta japonês, (re)conhecido pelos haicai (poemas de três versos e dezassete sílabas) .

Exibiram a imagem de John Cage a apanhar cogumelos no seu livro Silence. Sobre os cogumelos, de se saber ou não distinguir entre os cogumelos venenosos ou não, “como a vida seria chata sem uma certa incerteza”. 

Foram exibidas imagens em tempo real do espaço, de onde estamos a ser permanentemente observados, à la Orwell.

Leram Tarkovski em russo e em português.

Falaram de nitrogénio (em inglês é nitrogen), que não sei se quiseram dizer em português do Brasil, mas que em português de Portugal é azoto.

Marovatto e Tomás cantaram uma música inédita e outra de Caetano Veloso “Enquanto seu lobo não vem” que cita a Mangueira e a Avenida Presidente Vargas.

A imagem final foi de cruzamento com passadeiras em forma de pentágono, em Tóquio. Tempo real, lá amanhecia.  O tempo no espaço e o instante que passa.

Li algures que a Matilde nunca foi a NY nem aos EUA. “Quem diria por aquilo que escreve? É aqui que ficção se confunde com o real e a imaginação para formar geografias privadas e imaginárias? Quem sabe?

O auditório da Biblioteca Almeida Garrett estava composto, mas não cheio nem a abarrotar, como parece ter sido tendência em todos os eventos da Feira do Livro do Porto. No entanto, parece que o concerto dos Mão Morta & Remix Ensemble roubou parte do público. Eles nunca saberão mas foi o que perderam. O momento que não se repete.

Copyright: Anabela Mota Ribeiro




quarta-feira, 5 de abril de 2017

Para aquela que está sentada no escuro à minha espera

Este romance é sobre uma mulher de 78 anos que perde a memória e as suas faculdades progressivamente: "sou uma mulher sozinha a perder a memória e o tino". É uma actriz aposentada que tinha pouco talento e andou por teatros manhosos a declamar patetices que ninguém ia ver". Nasceu em Faro e mudou-se para Lisboa. Teve dois maridos. Não fala. Quando fala, diz frases sem nexo. E vive de recordações do passado. Não se lembra, sobretudo, de acontecimentos recentes. Só a memória antiga permanece, e mais importante, a relação que ela tem com o pai. É isto que é dissecado ao pormenor.

O romance divide-se em três partes: primeiro, segundo e terceiro andamentos. A polifonia, tão característica, mistura-se, neste caso com uma sinfonia não muito desafinada composta de memórias antigas, que se confrontam com a realidade e com a imaginação, e algum desvarios.   “A noite é esquisita (...) as sombras tornam-se coisas verdadeiras e as vossas verdadeiras sombra (...) é noite o astro saudoso rompe a custo o plúmbeo céu (...) há noites em que adormecemos de mão dada e acordamos sempre sozinhos, por muito que não fujamos morreremos sozinhos".

Os personagens principais são a mulher sem memória, a senhora de idade (que cuidava dela e que tem um filho que morre), o sobrinho do marido (que é interesseiro, recebe a pensão e herdará o que é dela., a mãe (mais uma vez autobiográfica, e que tal como a sua, não tem grande instinto maternal e, neste caso, tem ciúmes da cumplicidade e da relação do marido com a filha), o médico e o pai (que é a sua grande ligação afectiva. Uma reunião de mundos que envolve o passado e o presente e pessoas vivas e que já morreram numa convivência paralela. Os personagens, maioritariamente, não têm nome, uma característica livros de ALA. Esta senhora sem memória foi uma actriz com pouco talento que se casou com... e era filha única. Tinha uma relação tocante e muito próxima com o pai. Com a mãe era o oposto. Personagens sempre tristes e deprimidos: "o meu avô no género calado, sem sorrisos, desatento de nós, ao reformar-se ficava de pijama o dia inteiro examinando a barriga" – uma frase tão”António Lobo Antunes (ALA).

Por oposição ao romance anterior, volta ao naperon e à classe média baixa, à falta de dinheiro. Mas os temas como solidão, falta de amor e traição, permanece. Os assuntos sempre abordados por ALA repetem-se: a falta de amor entre casais, a falta de interesse da mulher em relação ao marido, a atracção do médico pela assistente, o director do teatro que usa o seu pequeno poder para se aproveitar de uma actriz sem talento, a mãe que rejeita a filha, a falta de ambição, o marido maltratado pela mulher. O passado,o quotidiano e as suas personagens tão características misturam-se. Neste livro, mais marcante, a abordagem da velhice, da solidão e da angústia que isso causa. Mas sobretudo, a perda de memória: "As palavras não me vinham”. A perda da dignidade es questões existencias: “perder as capacidades em casa ou num lar, o que será melhor?”. Pobreza. Doença. Vergonha. Pudor. A indignidade da velhice: o nosso mal é durarmos demais (...) É assim que se acaba (...) Há alturas em que o desespero sobressalta a meio da noite (...) Afinal estar vivo é isto? Não sei se cosia com as mãos ou com os óculos...”. O tempo e a cruel passagem dele : “Ajudem-me a voltar a ser eu (...)  o tempo anula tudo (...) afasta-se do amor, abandona-o, esquece-o (...) A idade é uma gaita (...) tudo se gasta, é a vida (...) Não tinhas o direito de te tornar horrível (...) Que forma de acabar (...) Nada dura para sempre (...). Sexo, um dos grandes assuntos da humanidade, neste caso abordado do ponto de vista de obrigação e da infelicidade num casal "isto não é fole de ferreiro não te chegou uma dose? (...) diz amor diz (...) o crucifixo a bater contra a cabeceira da cama, primeiro muito ao de leve, depois menos leve, depois com força, depois cada vez com mais força e depois, finalmente, em estrondos tão intensos (...).

E as frases tão bem escritas por ALA: “São iguais às baleias os homens, ainda que morem longe morrem na mesma praia (...) Um dos pés nu e essa solidão do pé comoveu-o (...) A velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado (...) os homens gostam de acabar nos nossos braços murmurando-nos o nome normalmente errado, um nome de mulher, não importa qual, torna a eternidade habitável, encara-se em paz o túnel e a lâmpada ao fundo (...) com o peso da solidão do domingo inteiro em cima (...) segurando os músculos da cara para que não lhe víssemos a dor e via-se a dor nas sobrancelhas, via-se a dor nos caninos à mostra (...)o motor do gato já não roçava por mim porque os bichos dão conta, vão-se afastando da gente, acham que deixámos de ser nós, evitam-nos (...) a tragédia, como dizia o outro, não é ser velho, é envelhecer (...).

Um livro perturbador sobre a perda e a falta de memória. E como o nosso fim será igual: só.


quinta-feira, 23 de março de 2017

O discurso sublime de António Lobo Antunes

Há umas semanas deu uma grande entrevista ao Expresso muito diferente daquilo que o apelidam. Sincero, demorado, descritivo.

Não vi a gala da SPA na RTP. Cheguei ao vídeo do discurso pela Fernanda Mira Barros. No agradecimento do prémio da SPA Vida e Obra não parece o grande escritor. Parece pequenino. e (ainda) mais velho. O tempo não o tem poupado. Apesar disso, parece um menino grande. Tímido. Tom de voz muito baixo. Agradeceu emocionado ao Presidente da República que lhe lhe enviou um bilhete sobre um livro que tinha saído. Congratulou-se por termos um Ministro da Cultura que é um grande poeta. Disse que escrever foi o que sempre lhe deu sentido à vida. E falou do Senhor Barata que tem um cancro e ao qual prometeu dizer “adeus”. “Livre-se de não vencer essa puta!”.

Este é a pessoa que tive a honra de conhecer. O maior escritor vivo. A maior parte das vezes quando conhecemos os génios ou os nossos ídolos temos  a tendência para nos sentirmos defraudados. O António é o contrário: perde tempo com os seus leitores, é um grande ouvinte (apesar de ser “surdo como uma porta”, como ele diz), terno, meigo, tem uma voz linda, pausada, sorri muito, agradece na mesma proporção e adora NY.


Gosta de Jorge Amado, mais do homem do que do escritor, e pergunta quem é que o lê hoje. Eu! Eu adoro Jorge Amado. Parece sempre um menino grande que teve falta de amor e afecto. O menino prodígio que tem uma memória de elefante, que aprendeu a ler com 4 anos mas que se recusou durante três anos a decorar 5400 g de Anatomia, embora tendo uma memória prodigiosa. Nunca deixou de ser um menino tímido “que se virava para a parede” para não enfrentar as pessoas. Costuma dizer que era muito bonito e que agora é um monstro. Detesta levantar-se cedo. Tem uma vida monástica. Preparou-se a vida inteira para o talento que sempre teve: escrever. Ainda hoje escreve com um livro grande aberto (dos tempos em que fingia que estava a estudar enquanto escrevia).

Copyright: Sociedade Portuguesa de Autores (SPA)

terça-feira, 21 de março de 2017

When breath becomes air by Paul Kalanithi

Nos últimos tempos, várias pessoas têm-me questionado sobre o meu (suposto) conhecimento literário. Essas pessoas, muito mais das letras, ficam sempre muito surpreendidas com a minha cultura literária e com a quantidade de coisas que já li e leio. Cada vez (mais) acho que os estudos e os graus das pessoas dizem cada vez (menos) sobre elas. As pessoas mais interessantes que conheci e conheço não se distinguem pelos graus académicos. E muito menos lhes dão a importância que os outros (acham que) têm. O que me desperta nelas é o interesse por qualquer coisa específica e, às vezes na generalidade, a vida. Afinal o que é ser interessante? O que é ser inteligente? E a importância que isso tem para a vida de cada um de nós? Mas essas são questões que não vou falar neste texto. 

Hoje vou escrever sobre duas pessoas da minha área de conhecimento. Pessoas  que dedicaram a sua vida à medicina e ciência. E com os quais eu aprendi tanto. Um deles é Siddhartha Mukerjee cientista, médico oncologista, professor, escritor sem ordem alfabética e/ou importância. Ganhou um prémio Pulitzer com o livro que é uma biografia magnífica sobre cancro The emperor of all maladies. E o último livro é, o não menos interessante, Gene. É casado com a grande artista plástica Sarah Sze e considerados o casal (mais) brilhante de NY pela Vogue. Para além disso, é giro e inteligente. Como quase todas as grandes figuras, é tímido. Quando eu estava em NY fui a todos os eventos, conferências, conversas só para o ouvir falar. E vi-o (algumas vezes) à espera do metro na 168 e a sair do metro na W4. Só olhar, discretamente para ele, sem que ele se apercebesse era uma maravilha. Um dia num cocktail, com a coragem dada pelo álcool pedi-lhe entre um copo de vinho, que me assinasse a versão inglesa do livro. Um meses mais tarde, numa conferência sobre cancro, na qual só chegou em cima da hora e saiu mal acabou a sua apresentação, corri para que me assinasse a versão portuguesa. Estas coisas são como os novelos, pega-se na ponta e vamos desenrolando até conhecer (mais, muito mais) mundo. Através dele conheci Primo Levi, do qual comprei e li toda a sua obra. E por causa dele conheci a Emily Dickinson, essa grande poeta que nasceu numa vila recôndita de Nova Inglaterra, da qual nunca saiu, não tinha mundo e daquele cérebro saíram aqueles poemas dos quais os olhos tinham visto tão pouco. Se é verdade que muitos dizem que escrever é autobiográfico, a obra de Dickinson mostra exactamente o contrário. Mukerjee deu-me a conhecer outro grande médico, escritor: Abraham Verghese, autor do livro My own country. Nascido na Etiópia, filho de pais indianos, formou-se em Medicina na India e fez a especialidade numa das cidades da America profunda no estado do Tennessee. Trabalhou dois anos em Boston onde o vírus HIV começava a ser conhecido e a vitimar muita gente, no início dos anos 80. E depois, quando foi regressou a Johnson City viu uma outra realidade de pessoas pouco instruídas e rurais infectadas com HIV. É desta experiência que ele fala no livro que lhe deu popularidade.

A segunda pessoa que quero falar é de Paul Kalanithi. Este, não conheci pessoalmente. Li uma das suas crónicas How long have I got left?, no The New York Times, na qual assumia a sua condição de doente terminal. Tal como Siddhartha, era médico (a terminar a sua especialidade em Neurocirurgia em Stanford). Tinha um Mestrado em  Literatura Inglesa, era culto, competente, genial, tinha um profundo amor à escrita e era um ávido leitor, tinha um futuro promissor, e falou sobre tudo isso e muito mais, na sua autobiografia de fim de vida que não chegou a terminar. O prefácio foi escrito por Abraham Verghese.

O primeiro capítulo começa com versos de T.S. Eliot e com a descrição da sua confrontação com a imagem da tomografia que mostrava “inúmeros tumores, a coluna vertebral deformada, o fígado completamente obliterado. Cancro amplamente disseminado”. Neste livro descreve a sensação de se ter  tornado doente e a sua vulnerabilidade. Das diferenças abissais entre ser um médico cheio de confiança e um paciente resignado.Os sinais premonitórios do cancro. O cansaço que o derrotava . As dores intoleráveis. O futuro brilhante com que sempre sonhou, que teria como neurocirurgião, evaporou-se num sopro. O marido e o pai presente em que prometeu tornar-se, e cumpriu, mesmo que por tão pouco tempo e em condições tão adversas. Do sonho que sempre teve de ser escritor. Da infância no Arizona. Das ausências do pai médico. De ter lido 1984 de George Orwell. O seu amor pela linguagem. Antes de entrar na universidade já tinha lido Edgar Allan Poe, Gogol, Dickens, Twain, Austen, Sartre, Shakespeare, entre outros. Para um americano criado no interior da América e médico, convenhamos que é invulgar. Durante a adolescência considerou os livros como confidentes, que lhe deram a mais vasta visão do mundo e que lhe abriram horizontes. Anos mais tarde tirou Literatura Inglesa e  Biologia Humana. Queria encontrar a resposta para a pergunta:  O que dá significado à vida? Por esta altura refere T.S. Eliot, Nobokov e Conrad como grandes referências. Quando fez o Mestrado em Literatura Inglesa em Standford, referiu a sorte que teve em estudar com Richard Rorty, o mais importante filósofo à época. A tese de Mestrado foi sobre Walt Whitman. Passou uma temporada em Cambridge, UK estudar História da Medicina, antes de entrar em Medicina em Yale. Foi aluno de Shep Nuland, um reconhecido e reputadíssimo cirurgião-filósofo, autor do livro sobre mortalidade How we die.  

Descreveu em pormenor o primeiro nascimento que foi também primeira morte a que presenciou. Ensinou-me o que é uma cirurgia Whipple (duodenopancreatectomia) uma operação complexa que consiste na remoção da cabeça do pâncreas, uma vez que o pâncreas se encontra na parte anterior e “coberto” por varias estruturas, envolvendo rearranjo da maioria dos orgãos presentes na cavidade abdominal.

Aprendemos tanto com este livro. Sobretudo sobre vulnerabilidade e humanidade, como andam de mãos juntas. Os médicos vêem as pessoas na sua forma mais vulnerável, assustados e o que há de mais privado neles. Depois, o seu talento para a escrita e as suas referências literárias fazem lembrar-me da grande obra de Tolstoi, Ivan Ilitch, com as devidas diferenças. Tal como em Portugal, nos Estados Unidos, os médicos tendem a escolher as especialidades menos exigentes (Ex. radiologia e dermatologia). No fim do curso de Medicina tendem a focar-se em especialidades que proporcionem uma melhor qualidade de vida, aquelas com menos horas de dedicação, melhores salários e menor pressão. Como 99% das pessoas escolhem o seu trabalho: quanto ganham, ambiente de trabalho e horas de trabalho. Neurocirurgia, como há uns anos o Prof. João Lobo Antunes discutiu em alguns dos seus ensaios sobre a mão, a perfeição do toque, a leveza da mão cirúrgica. Aqui Paul compara-a quase à perfeição. A exigência desta especialidade da Medicina que exige tanta técnica. A necessidade imperativa do treino da mente, das mãos e dos olhos. Da necessidade não só de serem os melhores cirurgiões mas os melhores médicos do hospital. As capacidades cirúrgicas são avaliadas pela técnica e pela velocidade: “Aprende a ser rápido agora. Mais tarde aprenderás a ser bom”. No bloco operatório todos os olhos estão sempre no relógio. Se o tédio é, como argumentou Heidegger, a consciência do tempo a passar, então a cirurgia é o oposto. Do conselho de comerem com a mão esquerda e de terem que aprender a ser ambidestros. Aprendemos pequenas coisas como as funções básicas que o hipotálamo regula: dormir, fome, sede, sexo. A loucura de trabalhar 100 horas por semana durante a especialidade. Viu muito sofrimento. O almoço típico dele, como vi muitas vezes do Presbyterian em NY ou no Methodist em Houston: Diet coke e um gelado. Escreveu sobre o receio que teve de se tornar o estereótipo médico de Tolstoi: apenas preocupado com a forma de tratamento da doença e desleixando a importância da parte humana. A excelência técnica não é tudo. Como neurocirurgião, o seu ideal não era apenas salvar vidas – porque todos acabamos por morrer – mas guiar os doentes e famílias a perceberem a doença e a morte. Todas as grandes doenças transformam os doentes. Deve tentar-se ser preciso, directo e certeiro mas deixar alguma margem para a esperança. Cita Heidegger “a consciência do tempo a passar”. Ensina-nos que a arte de falhar em neurocirurgia define-se por um ou dois milímetros: a ténue diferença entre triunfo e tragédia. A existência de áreas no cérebro que são quase sagradas ou invioláveis. Cita Montaigne: Se eu fosse um escritor iria compilar descrições de várias mortes de homens: deveria ensinar como morrer ao mesmo tempo que ensinaria a viver”. Descreveu ao pormenor as conversas com a médica oncologista, de como não voltaria ao hospital como médico. De como planeou tanto e esteve tão perto de conseguir. De como a oncologista se recusou a discutir com ele as curvas de sobrevivência de Kaplan-Meier. [A curva de Kaplan-Meier é um método estatístico standard que mede a sobrevivência dos pacientes em função do tempo. É a métrica que permite saber o progresso e que podemos perceber a gravidade da doença. Por exemplo,  no caso do glioblastoma a curva desce vertiginosamente até que apenas aproximadamente 5% dos pacientes estão vivos em dois anos].  De como no início da confirmação de diagnóstico quis saber onde se encontravam os melhores oncologistas de cancro do pulmão, das possibilidades do MD Anderson Cancer Center – Houston e o Memorial Sloan Katering Cancer Center – NYC. Seis dias antes do diagnóstico tinha passado 36 horas no bloco. Como tudo muda num instante. Tornou-se um inválido. Os passos seguintes foram prepará-lo, e tudo à sua volta, para a mudança abrupta de condição: de médico para doente. Com o passar dos dias, com a repetição de exames, com a teraputica, até mesmo os médicos, tão profundamente cientes da gravidade da sua condição, permitem-se ter (alguma) esperança. Discute que a palavra hope  combina ao mesmo tempo confiança e desejo. Somente 0.0012 % de pessoas com 36 anos têm cancro de pulmão. Paul tinha planeado uma vida de 40 anos entre ser médico e escritor. Os primeiros 20 como neurocirurgião e os últimos 20 como escritor. Como tudo se precipitou por causa do cancro terminal ele queria saber quanto tempo mais lhe restava para tomar decisões relativamente à sua carreira: “Se tivesse 2 anos de vida, escreveria. Se tivesse 10, voltaria à cirurgia”. Mas vida e morte não são uma ciência exacta. Cita Darwin e Nietzsche. Houve uma melhora após 6 semanas de tratamento com Tarceva. O cancro estabilizou. Voltou a ler literatura: Tolstoi, Kafka, Montaigne, memórias de doentes com cancro, tudo o que tivesse relacionado com mortalidade: “Foi a literatura que me trouxe de volta à vida durante esse tempo”. Cita Hemingway, Beckett. Ainda voltou ao trabalho. Faria uma cirurgia por dia, não acompanharia os doentes fora do bloco e não estaria on call. Ouvia bossa nova Getz/ Gilberto. O primeiro caso foi uma lobectomia temporal, uma das suas cirurgias predilectas. Passou a noite anterior a rever livros de texto de cirurgia e anatomia e todos os passos dessa cirurgia. Descreve com uma beleza única como decorreu o procedimento. Como Lobo Antunes referia repete a “forma mais elegante” de proceder. Para se aguentar tomava antieméticos, Tylenol e anti-inflamatórios não esteróides. “A morte pode ser um evento mas viver com uma doença terminal é um processo... Se soubesse que me restavam 3 meses passava-os com a família. Se fosse 1 ano escreveria um livro. Se me dessem 10 anos, voltaria e trataria doenças. Mas a verdade é que viver um dia de cada vez não ajuda”. Tinham passado 9 meses e operava até tarde ou até de amanhã. Chegava a casa tão cansado que nem conseguia comer. Decidiram ter um filho. Engravidaram por fertilização in vitro.

Repetiu a tomografia 7 meses depois de voltar a operar. Seria a última antes de terminar a especialidade. Antes de ser pai e de o futuro se tornar real. Apareceu um novo tumor, grande. Foi o seu último de no hospital como médico. Começou a quimioterapia. E com ela vieram os efeitos secundários: fadiga, fastio, vómitos, diarreia. Ler era impossível. Obrigava-se a comer. Foi internado para ser hidratado por via intravenosa. As metástases ósseas causavam-lhe muitas dores. Quase morreu quando a filha tinha 38 semanas. Esteve nos cuidados intensivos uma semana. Perdera 20 kgs desde que fora diagnosticado, 7 deles nessa semana horribilis. Cita Graham Green. A filha nasceu. Tinha o desejo de viver tempo suficiente para que a filha se lembrasse dele. O seu desejo não foi cumprido.

Morreu 22 meses depois de ter sido diagnosticado com um cancro de pulmão metastizado no estadio IV, aos 37 anos. Não terminou o livro. Não teve tempo nem vida para o terminar. Chorei como uma Maria Madalena. Então no epílogo escrito pela mulher Lucy, desfiz-me. Morreu no hospital 8 meses depois do nascimento da filha rodeado da família.


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