Mostrar mensagens com a etiqueta quotidiano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta quotidiano. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A vida como ela é

Levanto-me com bastante antecedência, apesar de ter feito as malas ontem. Depois de alguns sustos resolvo não arriscar e cumpro, religiosamente, as duas horas de antecedência necessárias nos voos. Uma constipação forte deixou-me em baixo de forma nos últimos dias. Como o frio é muito e a preguiça muita, em vez de andar 500 m até ao ponto de táxis mais próximo, resolvo chamar um táxi usando uma app. A aplicação diz-me que demorará 3 minutos. Resolvo descer,  com a maior velocidade que consigo 4 andares, carregada com duas malas. Mal chego à rua recebo uma mensagem a informar-me que o táxi está atrasado. Está um dia lindo, cheio de sol, mas gelado de congelar passarinhos nas árvores. Espero, espero e nada. O táxi continua atrasado. Passado algum tempo, mais do que justo para um atraso aceitável, desisto e resolvo ir a pé até ao ponto de táxis. Antes disso, ainda tenho tempo de dar todas as moedas que tenho no bolso a um velhote que me cativou desde o primeiro dia que cheguei a Génova. As duas razões foram: ter um cão ceguinho que passou a reconhecer-me e a ladrar sempre que me chegava perto deles é o dono, sempre que me via, dizer "Ciao Bella". Hoje, lá estava ele, sentado no mesmo lugar de sempre mas sem o cão. Há muito tempo que não o via porque agora vou de boleia para o trabalho e não de metro. Como após 8 meses de Itália, pouco ou nada aprendi de italiano, não consegui perguntar-lhe pelo cão. 

No táxi, a caminho do aeroporto, abro o meu email  para confirmar a hora de chegada a Roma e percebo que o vôo é às 10 e não às 11:25, como havia pensado. São 09:35. Podia ter desmaiado, ou ficar com taquicardia, ou com uma crise de asma, ou ter vontade de vomitar, ou... Não, como adulta quase nos 40, inspiro e penso que entrar em pânico não resolverá nada. Que atitude tão sensata! Não me reconheço! Está uma fila imensa de trânsito. Ao lado vejo o que resta da ponte Morandi e ao fundo os Alpes marítimos cobertos de neve. Convenço-me que há sempre coisas piores.

Chegada ao aeroporto, faço o habitual, vou em direcção aos balcões da Alitalia para despachar uma mala. Neste caso, para dizer que perdi o vôo das 10 porque achei que era às 11:25. Ninguém se interessará com a explicação, que neste caso nem faz sentido algum, que uma adulta quase nos 40 ainda confunde a esquerda com a direita, que nunca diz as horas em número maior que 12 porque se confunde com os significados, confunde os dias da semana em italiano e francês... E poderia dar muitos outros exemplos que me encheriam de vergonha, esse sentimento que não me abandonará nunca. A verdade é que toda a gente fará um sorriso forçado de pena e não se empenhará de forma alguma em ajudar.

As funcionárias da Alitalia fazem aquele sorriso piedoso de quem não tem nada a ver com isso e que a resolução não faz parte das funções delas e mandam-me para o balcão da emissão de bilhetes. Aí, como se fosse um favor que me estavam a fazer, dizem-me que não existe nenhuma reserva, que tenho de telefonar para as reservas da TAP e resolver o meu problema. Aqui começa a saga italiana. Mais de hora e meia num telefonema com operadores da TAP que parecem autómatos em vez de humanos. Este telefonema não resolverá nada que não seja a troco de muito dinheiro. Durante estas quase duas horas andei entre o balcão da Alitalia, balcão de emissão de bilhetes, sentada numa cadeira ou de pé às voltas não sei de quê. Hoje, como pratico todos os dias da minha vida, confirmo que apesar de não sermos pagos para ser boas pessoas, seremos sempre melhores se para além de sermos bons naquilo que fazemos, ou pelo menos tentarmos o melhor que sabemos, ajudarmos os outros como pudermos. 

Primeiro falei com uma pessoa do sexo masculino da TAP, que foi bastante simpático, não decorei nem apontei o nome mas ao qual expliquei, muito breve e sucintamente, o meu problema.  Ele garantiu-me que me iria transferir a chamada pra outro operador e que não não iria, garantíramo-nos, perder o vôo de ligação  das 11:25 de Genova para Roma. Este senhor passou-me a ligação para outra senhora, de nome Bárbara Ferreira, que obviamente não por culpa dela, demorou mais de 30 minutos a atender-me. Em vez de fazer um testamento sobre o que me tinha acontecido fui objectivamente ao assunto é expliquei-lhe o que dela precisava. Perdi a noção do tempo que esta senhora precisou para dizer-me o que vem a seguir, mas sem esquecer de referir-lhe que caso demorasse muito eu perderia a hipótese de embarcar no vôo das 11:25. Pois bem, após um tempo que está registado no meu telemóvel e a ouvir a música cantada pela Carminho e Paulo Gonzo (será?) esta senhora diz-me que para eu conseguir os vôos de Génova-Roma e Roma-Lisboa teria que pagar qualquer coisa muito perto de 600 euros e não seria em executiva. O mundo parou. Na terra de Colombo, no país do homem que descobriu que a Terra é redonda e que a terra anda à volta do Sol, o meu mundo parou. Como?! O meu bilhete é em executiva, no último ano fiz uma média de mais de 30 vôos na TAP e o que têm a propor-me é isto? Já que tenho tempo porque o vôo das 11:25 está perdido, e perder mais do que o que já perdi não é possível, decido fazer o melhor monólogo que tenho memória, sem auxílio de qualquer nota. Esta senhora ouviu-me com a atenção dos fiéis na homilia. Relembrei-lhe o quanto a TAP é criticada por tratar mal os clientes, de toda a gente que conheço, viajante assíduo de aviões, ter preferido outras companhias, da minha defesa patriótica da TAP porque às vezes acontece, de ignorar os atrasos, de ignorar os funcionários que só actuam "by the rules" e nunca encontram a melhor solução para o cliente, das 8 H de trabalho dos funcionários que como ela estão no quentinho de uma sala confortável e que têm um trabalho garantido, quer tenham um bom ou um mau desempenho e a descrição minuciosa da história inesquecível com a Lufthansa (*). A Sra D. Bárbara Ferreira aguentou estoicamente e respondia sempre com um pedido de desculpas ou que não podia fazer mais nada.

(*) Há uns meses eu tinha um vôo Lufthansa para Lisboa para ir à Embaixada de Itália. Quando chego ao aeroporto de Génova o vôo para Frankfurt estava atrasado uma hora, o que iria comprometer a minha ligação para Lisboa. Expliquei a situação a uma funcionária, e sei que foi um exemplo excepcional e sem repetição. Esta senhora, sem me conhecer de lado algum, tentou todas as hipóteses para me fazer chegar a Lisboa sem que eu perdesse o meu compromisso. Eu tinha um bilhete em econômica, nada mais. Esta senhora, que não sei o nome mas de quem me lembrarei toda a vida, disse-me para apanhar um táxi para Bolonha onde tinha um reserva para ir para Lisboa. Foram 550 euros de táxi que a Lufthansa me pagou em 3 semanas, tendo como prova um recibo de táxi manuscrito. Querem dizer-me que as empresas de aviação não têm comportamentos diferentes? Ou que os funcionários estão habilitados a resolver os problemas dos clientes de forma a que haja algum entendimento?

A Sra D. Bárbara Ferreira, durante o meu longo monólogo, deve ter colocado uma melhor banda sonora e na sua voz de enfado, daquelas que não ficam melhores uma oitava abaixo, diz-me: "se quiser assegurar os vôos é X". É aí começo a perceber que um problema maior toma conta de mim: perdi o meu telemóvel italiano! Faço um rápido raciocínio e desloco-me aos sítios onde estive. Em nenhum dos lados o encontraram. Mas não posso ligar para esse meu tlm italiano porque estou ao tlm com a Sra D. Bárbara Ferreira. Aqui comecei a relativizar os meus problemas. Como a minha cadela quando faz asneiras, coloca aquela cara de cadela com os olhos mais tristes do mundo e arrastar-se na minha direcção, em bom português, ponho o rabinho entre as pernas e mudo de drama. Ficar sem vôo e discutir  com uma senhora que haveria sempre de me dar a mesma resposta fosse qual fosse o nível dos meus argumentos ou encontrar o telemóvel? Eis a questão. Mudo de rotação. A minha prioridade passa a ser em busca do tlm perdido.

Para quem me conhece, sabe o meu nível de conhecimentos informáticos. Mas há uns meses instalaram-me uma aplicação, caso perdesse o iPhone, para o encontrar. Foi o que fiz. Em poucos minutos sabia que o tlm estava no aeroporto de Génova. Fui a todos os sítios onde tinha estado, que não foram muitos, e não o encontraram. Tinha quase a certeza que tinha caído do bolso das minhas calças. Um clássico! Fui aos “perdidos e achados” e também não tinham entregue tlm algum na última hora. A seguir, fiz o habitual, liguei e esperei. Nas primeiras vezes o tlm tocava mas houve uma vez que foi para o voice mail. Comecei a ficar preocupada. Perdi a conta do número de vezes que subi e desci a escadas do aeroporto de Génova, que separam o segundo do primeiro andar, com duas malas. Como última tentativa tentei a abordagem da segurança. Falei com o responsável da segurança antes do embarque e expliquei-lhe o que me tinha acontecido. Em poucos minutos contactam-no e disseram-lhe que entregaram um iPhone todo partido nos “perdidos e achados”. Era esse mesmo. 

Já em Roma, caminho em direcção à Lounge da Star Alliance. Passa das 4 da tarde e ainda não almocei. Todas as comidas aparentam óptimo aspecto mas a minha constipação e o meu estado febril não me deixam aproveitar. Como apenas alguma coisa. Ainda durante o tempo que me separa do vôo que me levará a Lisboa, não resisto a um aperol Spritz. Dessas horas resultou este texto. O que começa mal pode acabar bem. E foi este o caso. Como me perguntou um amigo: “como te ris?”.  Não tenho nenhum motivo para não o fazer.




segunda-feira, 9 de julho de 2018

You need to push (more)

Fim de semana em casa. Dias cansativos e de pouco sono. Horas de viagem. Horas entre aeroportos e aviões. Atrasos. Esperas. Barulho. Muita gente. Mas vale sempre a pena. Muitas horas de cansaço em troca de prazeres. Pequenos luxos. Contacto físico. E como sabe bem depois de semanas desgastantes de trabalho. Após fins de semana em clausura sem ver a luz do dia e sem sentir a temperatura real. Lá fora o Mediterrâneo quente e azul. Sonos trocados. Expectativas defraudadas. Críticas injustas. Muito trabalho sem reconhecimento. Palavras desmotivadoras. Pressão. Reuniões semanais. Necessidade de resultados. Updates. Analogias de guerra. Hierarquias militares. General vs soldados. Touros e cornos. Chef vs descascadores de batatas. Ausência de palmadas nas costas. Tarefeiros. Executantes. Falta de espírito crítico. Faz isto, faz aquilo. E, finalmente, chegar a casa. Massagem. Mimo. Festas na cabeça. Vinhos bons. Comidas predilectas. Conforto. Baterias recarregadas. Amigos. Conversas. E o sobrinho mais velho que diz: “a avó tem um coração sensível. Ela perdoa-nos tudo. Não grita com ninguém. Eu peço-lhe para gritar com o pai e ela não tem coragem”. Como não adorar? E uma carteira com toda a vida lá dentro que se perde. Procuras infindáveis. Desespero. Perspectiva. Assunto arrumado. Nova etapa. E tudo começa de novo. Naturalmente. Outra vez. Riso

quarta-feira, 28 de março de 2018

Uma volta de 180 graus


Tenho 38 anos. Um emprego pela primeira vez na vida. Um contrato por 2 anos, com tudo a que um trabalhador tem direito. Mas, para isso, tive que mudar a minha vida toda. Deixei a minha casa com tudo o que de confortável e conhecido tem. Os hábitos. Uma cadela que encontrei quando ela tinha 4 meses e da qual achei que nunca me iria separar. A família, Os amigos.

Não é a primeira vez que mudo na vida. Já vivi em 3 cidades diferentes. Esta é a quarta. Braga, Houston, NY, Genova. Durante anos, com tantas mudanças de casa e 3 cidades, não me sentia em casa em parte nenhuma. Mas depois de alguns anos seguidos em Braga comecei a sentir que pelo menos aquele apartamento fora sido preenchido à minha imagem. Começar de novo com uma mala de 32 kgs, uma mala de mão e uma mochila. Tudo o resto ficou para trás. Desenhei um cenário catastrófico. Pensei que não ia gostar de nada e criticar tudo. Está a ser mais fácil do que pensava. Diria que são duas coisas muito importantes: o tempo e as pessoas. As pessoas são o melhor. Acolhedoras. Simpáticas. Mesmo sem partilharmos a mesma língua conseguimos perceber-nos. Falam muito com as mãos. Falam alto. Riem muito. São parecidas, nas qualidades com os portugueses. Felizmente, como diria o Eça não têm o aspecto desconsolado dos doentes dos intestinos. Vivo pela primeira vez na vida em frente ao mar. Mas não há a angústia do mar. Apesar de haver dias com ou sem chuva, cinzentos, o mar nao adquire aquela cor depressiva cinza chumbo. Não tenho elevador. Vivo num quarto andar. O local de trabalho é bom. Deram-me um computador, 3 batas brancas e duas azuis. Tenho 2 cacifos e uma secretária. A cantina e o bar são óptimos. Bom, bonito e barato. Comida boa a preço de cantina. Estou viciada em cappuccinos. E na simpatia das senhoras do bar. Sinto-me acolhida. Aqui não tenho carro. Felizmente, dizem os meus amigos. Com as ultrapassagens  que fazem pela direita e esquerda, não demoraria muito a causar uma tragédia com as milhares de scooters. Um destes dias deixaram-me em frente a casa, e apesar do aviso  para ter cuidado com a porta e com as scooters, causei estragos. Ando a pé, de metro e de autocarro. Acho os transportes eficientes, embora o metro feche às 9 da noite, ridiculamente. Os táxis são caros mas muitas vezes, por preguiça, não lhes resisto. Ainda tenho uma casa praticamente vazia, só com o indispensável. Mas dizem-me que agradável, parece uma casa de praia. Ainda não tenho internet ilimitada nem telemóvel italiano. Foi este o grande problema encontrado e que mais demorei a resolver. Todos os outros foram rapidamente solucionáveis. Não tenho televisão nem vou ter, eu que não adormecia sem ela. Não tenho fotografias. Trouxe 10 livros. Ainda me custa olhar para os cães e para crianças e não ter saudades. Falo todos os dias com as mesmas pessoas que falava em Portugal, até mais. Saudade é a palavra que mais me ocorre desde que me mudei. Quem, quando está sozinho, não se intimida com o silencio? Planos, ao contrário do que esperava, não faço a longo prazo. Só (ainda) não consigo conjugar os verbos no futuro. No presente, sempre no presente. Sobre o texto da mudança, uma das minhas amigas achou-o triste. Falhei o objectivo porque nada nele é triste.
Tenho dinheiro, mais do que algum dia. Mas quero coisas que ele não compra.




quinta-feira, 22 de março de 2018

Mudança

Munida de uma mala grande, uma mala de mão e uma mochila tenho a sensação de que faltará sempre alguma coisa. Desta vez, como sempre, não será excepção. Combinara com o meu irmão duas horas e quarenta minutos antes, como pessoa prevenida que sou. Uma amiga iria ter comigo ao aeroporto. Na última confirmação do voo percebo que confundi 16 com 5 da tarde. As horas em 24 números em vez de doze (diferenciadas apenas pela terminologia de manhã ou de tarde) sempre foram uma dor de cabeça, como distinguir a esquerda e a direita. Percebo que estou atrasada e nenhum dos elevadores funcionava de manhã. Entro em pânico. Ligo ao meu irmão se há alguma possibilidade de me ir buscar imediatamente. Ligo à minha amiga para desistir de ir ter comigo ao aeroporto. Como detesto despedidas até o universo ajudou. A viagem até ao aeroporto parece um voo. Sem tempo nem para olhar para trás, o meu foco é entregar a bagagem. Descubro que a mala tem 12 kgs a mais. Finjo não reparar e a pessoa da companhia aérea decide ajudar e finge comigo. Não tenho tempo de pensar em nada. Tudo em mim é calor. Voo para Munique, sem sobressaltos, respirando fundo. Descubro, mais rápido do que esperava, que me esqueci do caderno onde tomo notas. Nada de muito dramático. Mas como gosto sempre de encontrar qualquer coisa, agarro-me ao que há. A espera em Munique é rápida. Sigo para Génova num avião assustadoramente pequeno. Finjo ignorar. Passados uns minutos, sentada no lugar que me foi atribuído (junto à janela e sem ninguém ao lado), começo a transpirar (coisa nada comum). Estou gelada, tremo, os dentes batem, as gotas de água escorrem-me pela testa e pescoço, a minha palidez denuncia-me porque tenho olhares a seguir-me. Tenho falta de ar. Estou em pânico mas tento não perder a pose. Demorada e disfarçadamente tiro as bombas de asma e finjo que tudo está controlado. Minutos depois estou bem, só o cabelo molhado mostra o que se passara. Tenho o R. à minha espera no aeroporto de sorriso aberto. Sinto-me em casa com ele. Saímos do aeroporto e o que mais me choca são as ruas cheias de prostitutas. Contrariamente ao que seria de esperar, são caucasianas, não têm aspecto de cadente, são jovens e são muitas. O R. deixou-me no hotel que eu escolhi pela proximidade do meu apartamento. Nunca mais voltarei a este hotel e desaconselho-o a toda a gente. Supostamente era um hotel quatro estrelas. Mas disso nem a decadência lhe restava. O recepcionista era antipático, ainda existia chave, as alcatifas estavam sem cor e em mau estado, o quarto era pequeno e desconfortável, a tv era do tamanho de um ecrã 15’’ e a limpeza deixava a desejar. Lembro-me de ter comentado com uma amiga o quão mau era o hotel e respondeu-me que era um bom sinal porque sentir-me-ia muito mais confortável no novo apartamento. Não vou alongar-me nos comentários sobre o pequeno-almoço porque nem nos motéis dos Estados Unidos é tão fraco. A segunda pessoa antipática que me apareceu foi o taxista que mostrou o seu desagrado quando lhe disse que o meu apartamento era a menos de 1 Km. Cheguei à hora marcada para assinar contrato e o apartamento pareceu-me bem melhor do que nas fotos. Na opinião dos locais, a localização não é das melhores mas eu acho conveniente. Fica a 2 minutos da entrada do metro, em frente ao porto de Génova, tem mercearia e quiosque e outras lojas de conveniência. As ofertas de cafés e restaurantes são poucas. E o bairro é multicultural e multi-étnico. Tal como no primeiro apartamento que vivi em NY, o prédio não tem elevador e vivo num quarto andar.

Passada a fase de tudo parecer fácil, como receber o ordenado numa conta portuguesa e o pagamento do depósito e renda através de transferência bancária de uma conta portuguesa para uma conta italiana, começou a aventura: ter internet e telemóvel. Fui a um centro comercial para encontrar várias  empresas possíveis. Logo na primeira, praticamente desisti. Não poderiam ter sido mais simpáticos comigo e falavam inglês.  Depois mais de uma hora, de várias explicações, tentativas de pagamento com cartão de crédito português chegaram a um veredicto: só poderia fazer contrato de internet com um cartão de crédito italiano ou um cartão especial que se adquire nos correios chamado POSTPAID EVOLUTION. Os simpáticos disseram-me para ir aos correios italianos (Poste Italiane). Depois de andar 15 minutos a pé, disseram-me que para ter este cartão só com o código fiscal original (eu só tinha uma cópia) e o “attestato di soggiorno”. Regresso à loja e informo os simpáticos que não é possível. Como estou num centro comercial, aproveito e compro um microondas e improvisei o transporte com um carrinho de ir às compras. Chegada a casa subo quatro andares com o microondas. Volto ao hotel, onde deixei a mala com 35 kgs e regresso a casa de táxi. Demorou exactamente 25 minutos entre paragens entre degraus, vãos de escada e vontade de deixar (simplesmente) cair a mala no sentido da gravidade... O resultado foi bolhas nas mãos idênticas a quem levanta ferro nos ginásios, obras e afins.





domingo, 31 de dezembro de 2017

"Tudo o que ganhei e tudo o que perdi"

Perdi o meu Blackberry com tudo o que tinha lá guardado. Tantas coisas insubstituíveis. Só me resta a memória. Perdi uma caneta de prata com a qual escrevia diariamente. Perdi quase uma dezena de livros que tanto lutei por eles mas alguém julgou tratar-se de lixo.Uma camisa que adorava.  As chaves do carro, duas vezes. Reencontrei-as.Como perder pode ser difícil. Resta aceitar. Há alguma coisa que não se perca ou que não se possa perder?

Felizmente, não perdi ninguém. É o melhor de tudo.

Um ano bom. Grande. Intenso. Longo. Mudanças. Um ciclo que termina. Ensinamentos, tantos. Aprendizagem. Novos caminhos. Novos primas. Buscas.

Passado. Presente. Futuro. Medo. Esperança. Conseguir perceber, finalmente. Aceitar. Não sem dor. Mas espera-se, sem mágoa. Crescer é isto. Ultrapassar.

Do que temos medo, afinal?  O que receamos que aconteça?
Será que o melhor (ainda) vem?
O que será, será.
“Existirmos, a que será que se destina?”





sábado, 23 de dezembro de 2017

Sete anos sem ele

Estou sentada à espera de ser chamada. Falta de ar. Dia de crise. Bronquite. Bronquite asmática. Asma brônquica. Asma alérgica. Mas, de facto, não sou alérgica a muita coisa. Tenho (apenas) as imunoglobulinas aumentadas 1000 vezes. Corticoides. Cortisona. Optam pelos anti-inflamatórios que não sejam não-esteróides. Brometo de ipratrópio. Salbutamol. Budesonida. Flixotaide. Cansaço. Pieira. Gatinhos. Panela de pressão. Borbulhar. Esponja. Hiperventilação. Peixe fora de água. Insónia. Mal-estar. Cetirizina. Bilaxten. Descanso.

Hoje ela disse-me que a imagem mais remota que tem de mim é de num dia de verão muito quente, dia de tudo a arder em volta, eu a caminhar calmamente, parar e dizer: “não entres em pânico, está a começar uma crise de asma. Eu não tenho a bomba e preciso de oxigénio. Liga por favor para o INEM”. Nesse dia, o INEM chegou rapidamente mas não tinham oxigénio. Lembro-me da médica me dar a mão e pedir-me calma, apesar de eu estar deitada mais do que calma. Nesse dia uma amiga que eu não sabia grávida foi comigo na ambulância a alta velocidade para o hospital. Ela não teve medo. Eu não sabia. 

O meu avô morreu há 7 anos. Passava pouco das 8 e recebemos um telefonema. Nesse dia, eu dormi em casa dos meus pais. A minha mãe foi acordar-me porque uma das minhas tias queria falar comigo. Disse-me ao telefone a chorar: “O avô morreu”. O mundo parou. Não consegui dizer nada. Petrifiquei. Como é que podia ter morrido se estava, apesar de internado, tão bem na noite anterior? Ele que sobrevivera a dois enfartes num mês. Ele que nunca estivera gravemente doente na vida. Ele que nunca estivera internado. Um enfarte atirou-o para a cama de um hospital e nunca mais de lá saiu. Perdeu o apetite. Perdeu peso. Perdeu a função renal. Perdeu quase tudo. Mas nunca perdeu a consciência. Que saudades que tenho do humor dele. Do riso dele. E conversava tanto. Que saudades do “minha neta”.

Há um ano, exactamente neste dia, entrei com a maior das confianças numa sala. E saí de lá cega de desânimo. Acho que nunca me recuperei. Ainda hoje não consigo lembrar-me do que foi dito. Vou aprendendo devagarinho a não acreditar.

Ontem mandaram dizer-me que a minha pressa não era urgente. A minha esperança morre, a cada dia, um pouco mais. Tudo é espera e incógnita. A resposta chegará algum dia. É uma questão de tempo e paciência.

E depois penso naquele senhor de 91 anos, a idade que o meu avô tinha quando morreu, que está desesperado, nota-se no tom de voz. Quer uma receita e não pode esperar porque tem muito que fazer. Tem a filha no hospital. A filha tem 59 anos e tem um cancro no rim. Já foi operada quatro vezes. E naquela casa onde eram dois, agora resta um. Está sozinho, nesta época do ano. Há sempre pior.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A B.

Adio este texto desde Agosto. Desde o dia que soube. Visivelmente impassível. Mas as forças pareceram faltar-me nas pernas. Um leve desiquilíbrio. Uma momentânea tontura. Um dia quentíssimo. Lindo. Longo. Imenso. O meu sinal externo de desespero é sempre a nausea. Um dia sentiu uma dor no peito.  Era um cancro na mama. Uma história tantas vezes ouvida e lida. A não ser que a morte nos chegue fulminante, e sem aviso, acontecer-nos-á a todos, um dia.

A B., como se diz tecnicamente, tem um bom prognóstico. Foi operada em tempo record e tem a sorte de ter um pai e um irmão médicos. E uma prima oncologista no hospital onde é tratada. Tem, felizmente, o que falta a muitos: uma roda de gente a ajudá-la neste momento difícil. Nada lhe falta. Tem amigos de fazer inveja.Nas horas piores, o irmão tratou-lhe dos efeitos secundários dos tratamentos.  Primeiro cortou o cabelo, pelos ombros, depois curto e depois rapou-o.

A B. tem mais 4 anos do que eu. Convivemos muito em crianças. Foi sempre grande. Ou eu que sempre a vi assim. Bebemos muita groselha. Jantamos tantas vezes naquela mesa redonda na sala da avó C. com um braseiro no meio. A mesa das crianças. Na semana passada fez 30 anos que a avó C. morreu. Como na morte dos meus avós foi ela que recebeu o aviso da morte pelo telefone. Lembro-me desse dia. Apesar de terem passado 30 anos.

A B. foi quem andou comigo ao colo quando entrei no curso que não queria. No tempo em que a internet era rudimentar. Foi ela que me apareceu à frente na universidade e me salvou o dia e a vida. Foi ela que me mostrou tudo. Um dia inteiro comigo. A B. não sabe o significado que teve na minha vida por causa deste dia. Foi ela que me fez ver o futuro com optimismo.  (Como a mãe dela me diz, até hoje, foi quem levou a minha mãe para o hospital naquele dia quente, 21 de maio de 1979).

Quando nos dias piores, de desânimo, sem razão, sem explicação, que não devíamos dar o significado exacerbado que não têm, é disto que nos devemos lembrar. Há sempre melhor e pior. E vivo, por opção, sempre como se o mundo fosse acabar amanhã. Quem gostamos pode faltar-nos a qualquer momento, sem aviso, de surpresa. E eu não quero deixar nada por dizer nem por fazer. Não vivo no futuro nem no passado. Vivo no presente. A aproveitá-lo e sem grandes questionamentos ou arrependimentos. Sem certezas, com muitas dúvidas. Mas sem nunca evitar nada. A aproveitar tudo. Na corda bamba. No precipício. 

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Em que se traduz o medo?

Cidade gelada. Os primeiros flocos de neve ameaçam cair. Tudo visto da janela. Não se experimenta a temperatura real. Tudo é espera. O tempo que não passa. Pessoas apressadas. Filas. Bebés que choram. Olhos vermelhos de quem não dormiu e atravessou vários fusos horários. Roupas amassadas de quem viaja. Sítio de pouca permanência. Tudo é volátil. A escolha, para enganar o tempo, não é difícil entre escadas rolantes, elevadores ou escadas. O tempo não importa. A noite começa a aparecer. A tristeza de um fim de tarde de domingo. Tudo é impessoal. Ninguém se conhece. Sala enorme. Suposto conforto. Cadeiras de vários formatos. Sofás que parecem camas. Mesas de trabalho. Televisões várias e imensas. Música ambiente que não se percebe o objectivo. Comida à descrição. Nada apetece. Olho para tudo e nada me entusiama. Só suspiros. Inspirações e expirações longas. Leve dor de cabeça. Saberei (mais tarde) que no meio daquelas pessoas está uma que conheço (bem). Mas a coincidência hoje não funciona. Probabilidade. Acaso. Não nos cruzamos apesar de partilharmos, a mesma hora, os mesmos metros quadrados. Olhar sem ver. Tenho um nó no estômago. Não é pânico nem desespero. Tento desculpas para sentimentos piores. Tento convencer-me que é assim que deve ser. O medo de falhar, sempre ele. Há pior sentimento? A expectativa. Experimento a pior das solidões embora rodeada de pessoas. Poucas vezes na vida me senti tão apoiada. E mesmo assim, só. Conto os minutos que passam. Só quero que a hora chegue.Podia aproveitar o privilégio. A sensação de ser um momento único e talvez irrepetível.Não consigo. Sou apenas uma criança com medo.Todos tentam convencer-me que estou preparada. Só eu não consigo acreditar. Não me deixam só. Tento comer. Nada me apetece. Apetece-me coisas que não consigo comer. Horas assim.Tenho momentos. Só penso nas palavras “depois” e “sobrevivi”. Não tenho vida depois. Só antes. O meu olhar deve denunciar-me. Imagens que passam pelos meus olhos que sei de cor. Perguntas que posso não saber responder. Conversas. Telefonemas. Vozes que sossegam. Depois de cinco horas de pensamentos e hipóteses, levanto-me. Exausta. Arrasto-me. Destino seguinte. Náusea. Atraso. Neve que cai. Experimento a temperatura real. Não me protejo. Podia ter sido a primeira a subir para o avião. Troco o privilégio por sentir a neve a cair. Deixo-me estar. Sinto-me gelar. Vejo o casaco e sinto o cabelo cobrirem-se de neve.Quando não posso adiar mais, subo lentamente. Sou a última a entrar.Não podia ser mais adequada a imagem: o avião cheio e eu sozinha na executiva. Já nem medo tenho de andar de avião.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Insone

Acordo. Ainda é noite. Sinal que adormeci. Não consigo adivinhar as horas. Abro os olhos. Não acendo a luz. Sempre às escuras. Tudo me parece um sonho. Olho para o relógio e vejo que é agora. Percebo que esta é a realidade. E tudo volta. Uma elipse. A noite que que não acaba. O dia que tarda. A contagem decrescente. A espera. A dúvida. A incerteza. A angústia que parece não ter fim. Morro todos os dias um bocadinho mais. Na ironia do dia claro, o horóscopo na mesa do café: "Excelente momento para ter conversas esclarecedoras e chegar a pontos consensuais com pessoas que lhe interessem. Fase interessante para ajustar questões de relacionamentos, ter conversas importantes com pessoas que lhe são caras. O momento é de associação, favorecendo também contratos e uniões, ainda que temporárias, em prol de um objectivo em comum".
Será tarde?

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

“Ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar”

Morrem crianças de fome em África. Refugiados de todo o Médio Oriente fogem para onde não tem saída. Vivem miseravelmente em campos ( dizem que temporários). Portugueses que ficaram sem nada nos incêndios. O mundo anda ao contrário.  A chuva teima em não cair. A luz é de outono mas o calor é de verão. Nada combina. A noite chega mais cedo. Os dias são mais tristes e menores. As castanhas são o pronúncio outonal em “magoados fins de dia”.

É imune a (quase) tudo. Empedernece, cada dia, um pouco mais. Será a distância da imagem? Tudo longe via televisão.

O que a devia incomodar, desvaloriza. O que devia desvalorizar, derrota-a. Coisas insignificantes (ainda) a surpreendem.  As noites são mais demoradas. Tem mais horas que o comum dos mortais. Mas, infelizmente, “quem não dorme não sonha”.  

À frente, no aeroporto,  vai um menino de óculos, chupeta e fralda, guiado pela mão da mãe. Estão felizes, nota-se. Mas ela,  desfaz-se.  Vai embora. Chegou o inverno.

Pensou que estava curada, depois de ter vivido o inferno. Mas o esgar da realidade (re)lembra-lhe como o castelo de cartas pode desabar num segundo. Esta é a fronteira ténue do que parece estar bem. A tão escondida fragilidade. Apesar de parecer impassível. O que é que fez com o pouco que passou a nada? Dizem que tudo passa. Um princípio e um fim.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

O momento que (se) foi

Partiram, juntos, rumo a coisas diferentes. Eram amigos há muitos anos. Ele ia atrás de um (possível) amor. Ela ia fazer-lhe companhia. Dias antes da partida envolvera-se com uma pessoa. Não tinha sido nada (relevante). (Talvez) uma promessa de (algum) futuro. Na penúltima noite, antes do regresso, saíram. Na hora de irem embora do bar, alguém (re)conheceu-lhes o idioma. Ele era alto, loiro, o fenótipo nórdico. O típico homem bibelot. Mas entendia e falava (mal) português. Estivera um ano no Brasil. O tal do português com açucar. Um encontro casual. Apenas isso. Um desconhecido. Falaram muito e trocaram números de telefone e a promessa de um encontro no que seria o último dia.

Abriu-se com um desconhecido. Contou-lhe tudo. Sem medo de ser julgada e de se expor. Dos medos às paixões. Das fobias aos deslumbramentos. Da vida à ficção. Do que era e do que gostaria que fosse.

Passaram a noite juntos. Na maior intimidade. Mas não houve sexo. Como se aproveita o tempo que resta? Como se eterniza o momento?

Há pessoas que escolhem culparem-se por não ter acontecido, por não terem tido coragem de deixar acontecer, outras escolhem deitar fora o mau, outras fazem por esquecer, outras reprimem-se, outras não se permitem que aconteça, outras em dias menos maus preferem acreditar que guardaram o bom. Nunca perder o momento é tudo. O que é o fado e o destino? Como se os finta?

O que poderia ter sido? A resposta que nunca será respondida. A (in)certeza do nada que (não) existe. O nada não existe na natureza.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O que amar tem de errado?

Há 20 anos fiquei muito chocada quando um grande amigo não teve coragem de me dizer que era gay e optou por me dizer por carta. Eu sabia, sempre soube mas fiquei tristíssima por ele não ter tido coragem de me dizer olhos nos olhos e por ter demorado tanto tempo.  Eu tinha 18 anos e ele também. Essa verdade que eu sempre soubera, era e sempre foi, clara para mim. E nada mudou. A importância que dei ao tempo que demorou e a forma de me dizer relativizou-se. Tudo é tão relativo, veio o tempo a mostrar-me, depois.

Hoje, passados 20 anos, a história repete-se. Soube ontem, abertamente, por mensagem o que sempre achei que se sabia mas que nunca me disse. Mas teria que dizer? Conheço-o desde sempre. É mais velho do que eu. É a pessoa mais delicada, educada, física, amorosa, que conheço. Um doce de pessoa. Sempre com coisas bonitas para dizer. Um esteta. Tem uma biblioteca que me faz ter inveja. E uma casa linda de morrer. Tem sempre flores frescas. Estamos pouco mas quando estamos é uma alegria. Acabo de saber que tinha uma relação há 18 anos. Vividos em silêncio. Viveu aprisionado tempo demais. Viveu com as verdades que ninguém quis ver. Em segredo. Pergunta-nos se sabemos o que é calar. Esconder. Passar uma vida assim. Como se a outra pessoa não existisse. Como ninguém. Estou tão feliz por ele. Por amar abertamente. Tantas pessoas que passam pelo mundo e não sabem o que isso é. E ele permitir-se, dar-se a essa oportunidade que pode não ser repetível, é o que me faz sorrir e festejar por ele. Assumiu o seu segredo.

Decidiu chegar de novo. Começar de novo. Permitiu-se assumir o que sente. Abriu o coração. Sem pensar. Sem medo. Sentir o amor. (Apenas) para ser feliz. A vida é curta. Muito curta. Porque sonhar (só) não adianta nada.  Mas (ainda) está a tempo. Sempre a tempo. Porque o tempo não volta atrás. 

terça-feira, 20 de junho de 2017

O sofrimento das mães

Todos os aniversários lembra-se que nasceu às 31 semanas, com um gémeo e com pouco mais de 1000 gramas. Todos os anos lembra-se, particularmente nesse dia, que a mãe ficou sem tocá-la durante quase um mês em que esteve na incubadora. A mãe recusara-se a vê-la (só) do vidro. A única vez que o fez sentiu-se a morrer por dentro porque, ao contrário das outras mães, não podia amamentar os filhos, encostá-los, cuidá-los, mimá-los, mudar-lhes as fraldas. Nada a não ser olhá-los pelo vidro. O pai ia todos os dias entregar o leite que a mãe tirava. Não durou muito porque até isso o desgosto lhe levou. Depois disso levou-lhe a fome, a alegria, o sono, tudo. Quando os filhos voltaram para casa pesava menos do que antes de engravidar. Até hoje a mãe fala dessa dor inqualificável de não ter podido tocar nos filhos durante um mês. Não houve nunca dor maior. E a filha imagina como é para um bebé ser retirado do conforto de um útero, de ter o irmão como vizinho durante sete meses, de ouvir a voz (conhecida) da mãe. E de ter sido alimentada e cuidada, sozinha, durante um mês numa fria incubadora. Sobreviveu, apesar de tudo. A mãe, apesar de ter sido sempre feliz, diz que nunca recuperou desse acontecimento.

As mães nunca se preparam para o pior. São sempre as mais felizes, as mais optimistas, as mais alegres. Tudo o que uma mãe quer ouvir, e se possível ver, é que está tudo bem com o seu bebé. Como se reage quando se faz tudo certo e a natureza mfalhou? Quando se planeia e a probabilidade de erro acontece? Quando se dá a notícia de o bebé não ser saudável, ou como os médicos dizem, não é viável? Como se enfrenta? Como se age? Como decidir? Não é um feto, é um filho - disse a mãe. Os médicos só lhe queriam menorizar a dor e poupar-lhe (algum) sofrimento. Poupá-la do julgamento moral porque o ético e o judicial estava previsto na lei. Mas como as mães orientam-se pelo princípio de Arquimedes (“Dá-me um ponto de apoio e eu moverei o mundo”) arranjam forças onde nem elas sabem de onde surgem. E assim, seguiu em frente, sem vacilar, sem um minuto de arrependimento com uma gravidez que todos apostavam para o bem de todos, que terminasse. E foi feliz, como todas as mães, durante os 9 meses. Esteve mesmo muito feliz. Nunca seria ela a terminar o que a natureza começou. Deixaria a natureza seguir o seu caminho. Depois, reencontrou-se nas palavras e no apoio dos amigos. A vida deste filho não foi a que imaginou nem teve o privilégio de  o ver crescer.  Mas a sua vida é tão mais que as primeiras impressões, nas suas palavras. A vida é insondável. E sente-se grata e em paz por todas estas vivências. No sofrimento e na alegria todas as mães parecem ser iguais. As mães, como as árvores, morrem de pé.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A Lisboa que entardece

Lisboa, 20 de maio de 2017

Passa das 5 da tarde. Calor de verão. Surdo, como dizia a minha avó. Esplanada em frente ao Tejo. Esse rio que parece mar. Esse Tejo que parece ter a dimensão do oceano. Cheira a maresia (embora, me garantam, que cheira a rio). Almoço tardio. Habituei-me a observar o rio com a ponte à direita. Desta vez, a ponte está ao longe, à esquerda. No meio da vista, o Padrão dos Descobrimento, de perfil. Na mesa ao lado, um casal de franceses. Atrás italianos. Quem nos atende, brasileiros. O passeio junto ao rio parece o calçadão do Rio de Janeiro, tal o congestionamento de pessoas. Uma amálgama de cores, géneros, nacionalidades, línguas. Estudantes finalistas trajados que tiram fotos. A família dos subúrbios que se veste no seu melhor traje para vir à cidade. Turistas de chinelos. Turistas de sandálias e meias.Turistas muito brancos que estão queimados pela falta de hábito de fotossíntese. Casais de mão dada. Casais que tiram fotos a beijarem-se. Muita gente de chapéu. E de calções. Pais sozinhos a passear os filhos. Homens giros e bem vestidos. Um marido que passeia com a mulher que tem o lado direito paralisado. A mulher que sai da esplanada a ajudar o marido com mobilidade reduzida. Mulheres que tapam a cabeça com um lenço (provavelmente por causa da quimioterapia). Turistas bêbedos. Turistas muito ressacados. Mas o turista preferido é: " trajado a rigor, e pronto para enfrentar os 30º da selva lisboeta, o turista-attenborough, ostenta um chapéu de abas, calças e botas de caminhada e uma camisa que lhe cobre todo o torso superior deixando apenas expostos os ruborizados rosto e pescoço. Quando visto sem camelback ou mochila, é dado a algum cambalear e passível de desfalecimento”.

A bebida mais comum nas mesas é vinho branco gelado. Não dá vontade nem tempo para ler. O livro fica pousado na mesa à espera de horas melhores. Ou de cenários menos apelativos. Este filme em movimento é imperdível. O instante irrepetível que passa. 

Mas esta vista tem um preço. Um café, por exemplo, custa 2 euros e a garrafa de vinho mais barata tem o preço de um qualquer Chardonnay (rasca) em NY?

A Madonna esteve a visitar o Liceu Francês. Foi o acontecimento para os alunos. Os vídeos abundam e partilham-se nas redes sociais. A qualquer lado que se vá, fala-se dela. Alguém a viu, ou conhece alguém que viu, ou diz que viu, ou mente e jura que viu.

Como perguntava a Anabela Mota Ribeiro há dias a duas convidadas do programa: "o que é a felicidade?". Uma delas respondeu, citando Guimarães Rosa, que é (in)felicidade sem prefixo. A importância do prefixo é (quase) tudo nas palavras.A outra, que é a libertação química de serotonina.

Pela primeira vez em 3 dias não tenho dor de cabeça. A felicidade acontece quando menos se espera. A felicidade é isto.

Copyright: S. A.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Os cagões

Eu sei que vou correr o risco de ser mal interpretada. Mas não resisto a escrever sobre este episódio. 

Gosto sempre de saber mais e mais sobre as coisas que me interessam e sobre as que não me interessam, também. No entanto, chamem-lhe falta de paciência ou qualifiquem como quiserem. Mas há coisas para as quais nunca tive paciência, e com a idade, está a tornar-se pior. Há, de facto, tanta gente desinteressante no mundo.

As pessoas que me conhecem sabem a dificuldade que tenho para interagir com pessoas que não conheço. Tenho vindo a melhorar, é verdade. Sou daquelas pessoas que acham que se aprende sempre com alguém mais culto, mais instruído, mais intelectual. Mas adoro o contrário. Pessoas carregadas de afecto, genuínas, honestas, verdadeiras, independentemente da sua instrução. Acho, na maior parte das vezes, que existe sempre algo a aprender com o ser humano. Morro de amores por histórias de pessoas que eram analfabetas mas ensinaram tanto a tanta gente. Pessoas que eram analfabetas e aprenderam a escrever e a ler para rezar. E outras que eram analfabetas que aprenderam a escrever para poder escrever cartas de amor.

O que eu não suporto e não consigo entender são os (vou chamar-lhes assim): cagões. É sobre eles este texto.
Nas conferências, pelo menos as que eu vou frequentemente, as refeições são sempre volantes. De pé ou sentado mas sem lugar marcado nem mesa posta. Pois bem, ao engano, hoje fui parar a uma mesa de "cagões", ainda por cima, que não conhecia. Num outro texto explicarei porque fui lá parar. Fiz uma pequena descrição destas pessoas a alguns amigos e sugeriram-me este nome, que seria perceptível.  Pois bem, em 10 pessoas não se aproveitava nenhuma. A do meu lado direito devia estar nos 40, que parecia passar dos 50, mas achava que tinha 20. Cheguei à conclusão que não podia ter mais de 50 porque tinha filhos pequenos. Maquilhagem má e roupa que não era coincidente, nem com a idade, nem com tecido adiposo a mais que insiste em aparecer, nos locais menos próprios, com o passar dos anos. Mas esta era a melhor de todos. Desinteressante sim, mas também não era a pior. Um casal na casa dos 20. Tão desinteressante e vazio mas que se achavam os maiores da rua deles. Bronzeados de solário ou de jet bronze. Sei que não passavam dos 20 porque ela ainda tinha acne,muito disfarçada com camadas de maquilhagem, como se fosse aparecer na televisão. A roupa dela, nem consigo descrever para o que é que ela ia vestida aquela hora... Ele tinha um casaco que parecia o Goucha e um penteado que, juntamente, com a cor de cenoura da cara e das mãos e os ténis brancos, fazia lembrar um homem com profissão pouco recomendável. Tinha um anel gigante no indicador e uma aliança dourada na mão direita. O almoço era buffet mas sentado. Então, o “casalinho maravilha”, que se tratava por “mor” (com pronúncia do norte), depois de se ter levantado para ir buscar a comida, achou que as bebidas não seguiam o mesmo trâmite. Era vê-los de mão no ar e gestos muito afectados a chamar pelos funcionários porque queriam beber. Os funcionários, muito educadamente, informaram que as bebidas seguiam as mesmas regras da comida. Self service, sirvam- se do que quiserem, espumante, alvarinho, vinhos do Dão branco e tinto. Águas com gás e sem, por favor. A menina do casal, com tão boas maneiras, não gostou das ervilhas e não tem mais nada melhor a fazer, e nem por um momento se questionou se haveria alguma regra de etiqueta que lhe tivessem ensinado quando criança, e despeja (como se estivesse a limpar o prato para colocar na máquina de lavar louça) o conteúdo do prato no prato do namorado/companheiro/marido (não consegui perceber). Daí a poucos minutos, como queriam comer muito e rápido, não se sentiram constrangidos, e limpam um dos pratos para o outro e empurram-nos, empilhados, para a frente. Palmilhas meninos. Os vosso gestos afectados não adiantaram de nada quando se tem estas maneiras à mesa. [coitadinha de mim que sempre implicavam comigo em criança porque colocava os cotovelos na mesa]. Fiquei sem saber a que classe profissional pertenciam. Estavam muito orgulhosos porque tinham à sua frente um livro autografado, que ainda não tinham lido porque tinham acabado de comprar, de um best seller autor do nosso país (do qual falarei noutro texto). Os do meu lado esquerdo eram os fornecedores do vinho do almoço. Ela quase sempre calada e ele só perguntava “E o vinho, que tal?”. Só me apetecia responder: “Ó pá, eu sei lá, só sei que os meus preferidos são os do Alentejo, alguns do Douro e outros da região de Setúbal e pouquíssimos do Dão”. Mas tu aqui só tens alvarinho, Dão e Bairrada. Pá, demasiadamente ásperos e brutos para o meu palato, mas nada pessoal, pá”. E ele continuava: “Sabem mesmo a uva, não sabem?”. E ele queria que soubessem a quê? Para quê pleonasmos de baixo valor literário? Mas a melhor surpresa estava guardada para o fim. Le grand finale. O casal de criaturas era o que se apelidam de “os verdadeiros”. Cagões em estado puro. A nata da nata do pseudo snobismo. Então vamos lá. Quem  é que a um sábado de manhã, num evento informal ao fim de semana, aparece de blazer azul marinho, camisa branca de punho duplo (daquelas um número abaixo quando o tórax e a proeminente barriga pediam um numero acima), gravata e lencinho na lapela. As calças eram de ganga, na moda, pois claro, ao estilo que encolheram na máquina – acima dos tornozelos (quando se levantava, de tão curtas era de dar dó da figurinha ridícula). Os sapatos, de fivela dupla, eram de cor bege... O cabelo era incrivelmente bem penteado com a ajuda de gel e tinha uma barba que parecia desenhada a régua e esquadro. Eu só imaginava quantas horas aquele homem teria demorado a ficar assim. Acompanhado, claro da sua partner, que era apenas uma figurante ao seu lado e não fez mais nada a não ser sorrir. Limitava-se a afagar  enorme ego dele. Este tinha sido o fulano que colocora minutos antes a brilhante e profunda questão “Não deveríamos escrever cartas de amor a nós próprios?”. Nem vou perder tempo a explicar o grave problema de ego que este homem deve ter, ao estilo de Trump. Ninguém ensinou a este senhor que excesso de ego pode ser uma doença, vá, um distúrbio. Eu mal o vi, mais as suas perguntas e o seu estilo e deduzi logo o que ele seria. O que eu imaginei é que ele não era mais do que estes empreendedorzitos, que agora estão muito na moda, que se ocupam a fazer negócio e aproveitarem-se daquilo que ninguém se lembraria. Coisas sem jeito nenhum para crianças, ensinar velhotes a fazer qualquer coisa, ensinar gente com poucas apetências sociais a serem os palhaços lá da rua... Para melhor se visualizar, um gajo semelhante aquele fulano que um dia o Relvas escolheu através do youtube. O gajo que em plena crise disse que enquanto uns choravam ele fazia os lenços para se assoarem...

Educadamente, pedi licença, despedi-me, saí da mesa e pensei para mim que nunca mais me sentaria numa mesa assim. Melhor ficar sem comer do que passar a tarde a pensar em quão rarefeitos e vestigiais eram aqueles cérebros feitos de nada ou apenas daquilo que queriam mostrar aos outros.  Gente tão cheia de si.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

E para isto fomos feitos

Em jeito de balanço, como todos os finais e/ou inícios de ano. Para mim, pessoalmente, 2016 foi um ano (muito) bom. Com muita saúde, alegrias, conquistas, descobrimentos e a maior das alegrias na minha vida que custou muitas lágrimas e muitas tristezas nos últimos 4 anos. Mas felizmente, a razão ganhou e a justiça fez-se. Ninguém vai conseguir tirar-me esta alegria, este sentimento de plenitude e sorriso na cara. Duas mortes de pessoas muito próximas tocaram-me muito. E embora a morte seja para mim (ainda) incompreensível, é a única inevitabilidade na vida. No entanto, a forma como viveram e a sua dignidade perante a morte e a forma como a família se lhes dedicou foram uma lição de vida para mim.

Quanto a mortes mediáticas foi o annus horribilis actores: Alan Rickman,  Carrie Fischer, David Bowie, Prince, Leonard Cohen, George Michael, Ivo Pitanguy, Umberto Eco, Ferreira Gullar, Muhammad Ali, Fidel Castro, só para citar alguns.

Costa conseguiu o que ninguém acreditou. Nem os mais optimistas ousaram acreditar. E por mim, tem o meu aplauso. Esta capacidade de diálogo e conseguir consensos entre partidos fora do arco da governação é um feito. Costa, se não conseguir mais nada, ficará na história por isto. Quanto a números, economias e finanças, não percebo nada. Mas tenho muitas dúvidas que o país se tivesse tornado, de repente, num caso de sucesso, dando tudo a todos.

No entanto, acho que o tempo de Passos Coelho terminou. Passos Coelho foi a pessoa errada na hora errada. Ganhou as eleições mas não foi Primeiro-Ministro por muito tempo. Esta nova táctica de jogar está a ser pela primeira vez testada na nossa democracia. Como ganhou mas o parlamento nomeou outro Primeiro-Ministro, mesmo sem culpa alguma, Passos deveria ter feito o que Portas fez: dar o lugar a outro. Teria uma saída pelo seu pé e (pelo menos) aplaudido pelos seus. Mas não, à boa maneira dos teimosos, preferiu acreditar que os ventos soprariam a seu favor e que a história não demoraria muito a dar-lhe razão. Puro engano. Os ventos não sopraram a seu favor, o Presidente Rebelo de Sousa tornou-se (se não) um aliado não se tornou um obstáculo para o governo, o défice parece ter-se cumprido, os feriados voltaram, as pensões aumentaram, os ordenados descongelaram. Tudo para todos. E a hora de Passos sair pela Porta pequena e empurrado não tardará a chegar. Esta é uma lição para quem acha que existe justiça na política. A política, tal como a vida, não é feita de justiça mas de jogadores mais aptos.

Frederico Lourenço ganhou o Prémio Pessoa. Admiro-o principalmente pela suas crónicas. Os homens em maioria , sempre. Mas esta premiação tem um valor especial. É um homem especial, bonito, professor (na mais Clássica e antiga das nossas Universidades, Coimbra), homossexual assumido e casado. Numa altura em que ainda existe gente a ser morta pela sua orientação sexual, exemplos destes contam. E fazem a diferença. O casamento entre todas as pessoas é legal. A co-adopção é legal. As crianças já podem ter dois pais, ou duas mães, ou um pai e uma mãe. A adopção é legal para toda a gente, independentemente do género e estado civil. Há, pois, que mostrá-los, falá-los, generalizá-los. Existe, é comum, é normal.

2017. Olhar em frente. De cabeça erguida. Sem arrependimentos. Sem olhar para trás. Sem palavras que ficam por dizer. Optimismo. Sempre um copo meio cheio. Tudo é um recomeço e não um fim. Sem mágoas e sem rancores. Alegria agora. Agora e amanhã. E depois e depois de amanhã. À espera do melhor que ainda está por vir! (Re)inventar(-me)! Paz no mundo!


“Para isso fomos feitos
Para lembrar e sermos lembrados
Para chorar e fazer chorar (...)”

Vinícius de Moraes

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Não me deixes só, Jesus

Foi esta a sua primeira prece. Dois dias antes do Natal. Já havia passado a maior das provações há 13 anos. Pensou que morreria. Mas sobreviveu. E agradeceu sempre, por isso. Treze anos depois, a tragédia volta a bater à porta. Este número santo. Só que desta vez, pior. Como as espadas do coração de Nossa Senhora das Dores. Sem nenhum analgésico químico que o pudesse acalmar. Vivia a maior das alegrias. O maior dos descobrimentos. Voltara a acreditar no (verdadeiro) amor. Encontrou o amor. Soube o seu verdadeiro significado. O que era realmente. Soube que existia. Sentiu-se abençoado.

Tinha uns olhos cheios de vida. Reflectiam a alegria e sede de viver no alto dos seus tão jovens e tão poucos anos. A juventude no seu esplendor. Curta, muito curta, como a vida. Subtil. Delicado. O maior encontro de bons adjectivos reunidos numa pessoa só. Tão raro. Quase impossível. Mas o improvável aconteceu.

Há um mês dançara, como se não houvesse amanhã entre o seu amor e amigos, na festa "Dança com ela". A dançar junto. Muito. Solto. Lindo. Muito contente. Com toda a gente. Alegria. Muita alegria. Para dar e vender. Alegria agora e amanhã e depois e depois de amanhã. Como uma espécie de celebração. É disso que muitos se lembram e lembrarão. Aquele rapazinho de 20 anos com uma vida cheia de sonhos pela frente. Como se espera  de uma vida com uma idade que não se espera ter um fim.

Um episódio agudo de asma. Tudo parou. Abruptamente. A vida por um fio. Na corda bamba. Primeiro o sufoco, como um peixe fora de água. A agonia. O desespero. Os braços a debaterem-se. A tentar agarrar qualquer coisa (palpável). Ar. A dor. A perda. O silêncio. A falta de movimento. E por fim, o grito aterrorizador de quem assistia sem nada poder fazer. A inércia. A  impossibilidade. As lágrimas. Quem habilitado estava, tudo fez. Rápido. Certeiro. Sem erros. Mas a natureza é assim. A vida é assim. (Im)perfeita. E as dúvidas são sempre maiores que as certezas.E a maioria das perguntas  (nunca) tem resposta. Mesmo quando tudo é feito, pode não ser o suficiente. E foi o que aconteceu. Paragem respiratória. Seguida de paragem cardiorespiratória. Reanimação. Demasiado tempo de manobras. O corpo (demasiado) jovem foi velado horas a fio como se as preces, o tempo, a energia positiva pudessem modificar o tempo e a natureza. O desfecho definitivo. O ponto final. Uma morte trágica à (boa) maneira grega. Num palco cercado de expectadores e luzes, perante a inércia da medicina, da ciência e da humanidade. Nada foi suficiente. Afinal, não somos nós que decidimos (nada). Nada mandamos. Assistimos inertes a um acontecimento inesperado com uma solução irreversível. O que falhou? O que se poderia (mais) ter feito? Para onde vão as palavras que não são ditas? O maior dos mistérios.

Acabara de descobriu o amor. Soube que essa verdade que apregoam, existe. Levou-lhe o coração. Não deixou (quase) nada. A não ser memórias. Tantas. Tão boas. Duvidaram deste amor sem idade. Uma diferença de mais de 20 anos. Adeus. Esta palavra tão definitiva.Tem o coração despedaçado. Sem conforto. Tem a dor como companhia. Encontra-se prostrado. Sente-se sem forças. Ouvem-no chorar. Mas sente-se abençoado, apesar de tudo. Tocado por um anjo. A juventude é (quase) incompatível com a morte. Todas as mortes são injustas quando amamos. Mas, tem o consolo ténue que a vida do seu amor fará "renascer" muitas outras. Por isso, a sua morte nunca será em vão.

Mas, o que aprenderá com esta dor dilacerante? O que se aprende com a tragédia?

Tentará (re)inventar-se. Com o tempo. Só o tempo.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Os meus amigos dizem que acredito muito

Acredito cegamente. Confio sem provas. Acredito sem ver. Confio nas pessoas. Nas suas bondades e nas suas verdades. Acredito em promessas. Acredito na justiça mesmo que ela teime em tardar. Foi um dia difícil. Não mudo uma palavra em relação a ontem. Não questiono quando acredito. Acredito e isso basta-me. Acredito na humanidade. Acredito na palavra. Acredito, pronto. Acredito, ponto. Até que se é apanhada de surpresa e o castelo desmorona como um castelo de cartas de baralho. Ou de dominó. Peça por peça. Até à última. Apanho-as uma a uma e recontruo. Uma a uma.  Até ficar de pé, outra vez. Não mata mas magoa. Sobrevive-se. Não se fica igual. Mas aprende-se. Tempo. E volta-se a acreditar como um (re)começo. Nada é um fim. Tudo é uma oportunidade. Ganha-se coragem. Arrisca-se. Um tiro no escuro. Dúvidas. Lágrimas. Incertezas. Futuros. Cenários. Conjunções. Riscos. Opiniões. Impulsos. Forças. Confrontos. Conforto. Mudanças. Talentos. Justiças. Sinais. Dons. (Re)começar. De novo, de novo, de novo, de novo. Até ao fim. Apenas final. Quando a morte chegar. Nunca é tarde para mudar. Nunca é tarde para (re)começar.

Sou uma crente por definição. Sem razão.

No dia que deixar de acreditar prefiro morrer.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O ego(centrismo)

Ego em demasia deve ser dos piores defeitos que se pode ter. Tal como, paciência, é uma das melhores virtudes que se deve ter. Os egocêntricos não sabem que o são, na sua maioria. E tendem a achar que até são modestos. Mas, o auto-elogio fica mal. É feio. É saloio. Há coisa (muito) melhor do que ser elogiado pelos outros? Os egocêntricos são muito vaidosos, superiormente vaidosos. No fundo, são uns deslumbrados. Nunca pedem desculpa porque nunca erram. Ou se erram, não admitem. São incapazes de admitir erros, a coisa mais humana de todas. Pessoas que se acham. Homens que até são bonitos mas na sua crença acham-se a última coca-cola do deserto. Pessoas que são banais mas acham-se Deus. Pessoas medianas mas que acham que são o Einstein. Pessoas que até lêem mas... Pedro Chagas Freitas e Margarida Rebelo Pinto. Pessoas que acham que a literatura brasileira é Paulo Coelho. Pessoas que não conhecem Clarice Lispector, nem Annie Leibovitz. Pessoas que se acham mas não sabem quem foi João XXI nem que António Gedeão era um pseudónimo. Que não sabem que Torga era médico nem que José Afonso morreu de esclerose lateral amiotrófica. Cientistas que não sabem as razões pelas quais Marie Curie recebeu os prémios Nobel de Química e Física. Nem que a angiografia não foi o motivo de Egas Moniz ser galardoado com o Nobel de Medicina. Como dizia Abel Salazar: “um médico que só sabe de Medicina nem de Medicina sabe”. Cientistas que nunca leram a biografia de Henrietta Lacks, nem a origem do nome HeLa, com as quais trabalham todos os dias. Psiquiatras que não sabem que quem descobriu o lítio foi um português. Doutorados que não sabem escrever, sem dar erros, na sua língua nativa. Com o passar dos anos fico boquiaberta com a quantidade de exponencial de pessoas desinteressantes que conheço. Nunca conheci tanta gente limitada cultural e intelectualmente. O Cruzeiro Seixas, um grande artista plástico surrealista, de 95 anos, vivo, dizia estes dias que tinha ido a um jantar “em que estavam pessoas muito simpáticas, imensa gente, a comida era muito boa, tudo muito bom, e não havia ninguém que falasse de um livro, de um quadro, do futuro a um nível superior. As pessoas contam as suas histórias pequeninas, do dia-a-dia, e nisso se completam, não tem mais ânsia do que essa”. Gente com quem não é possível conversar sobre nada. Gente que não se sabe rir de si própria. Gente sem humor. E quando não é possível rir, o que resta? Respirar? 

Claro que existe o outro lado.  Tendemos, nesta sociedade de parecer mais do que ser, a sobrevalorizar em demasia a inteligência (desculpem-me o pleonasmo). Existem tantas pessoas (superiormente) inteligentes mas profundamente estúpidas e incapazes de compreender coisas tão (insignificantemente) elementares, com uma falta de talento inato para as emoções, para a vida, para a bondade, entre outras.

Como acredito no humor (quase acima) de todas as coisas e tento a cada dia, mais e mais não levar-me a sério, fica a reflexão. Cada um de nós, mais ou menos importantes, com mais ou menos pessoas dependentes no mundo, somos uma peça da engrenagem, não a máquina. Não somos autosuficientes nem podemos viver isolados. Se não houver os outros, nós não existimos.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A despedida profissional de uma grande pessoa

Fomos colegas de curso. Não privamos muito. Via-a mais na noite do que nas aulas porque eu vivia de noite e ela de dia e de noite. Tínhamos amigos comuns. Ela foi sempre boa aluna, eu não. Ela era beta e eu também. 

No dia que entrou no lab, lembro-me muito bem, os poucos homens que havia no grupo pararam como se de um filme em slow motion se tratasse. Não me lembro como nos aproximamos. Mas lembro-me do jantar de doutoramento do T. em que ficamos juntas. E do jantar de doutoramento da X. E do jantar de doutoramento da M. Jantares que bebíamos muito e que não nos lembramos de metade. Era o tempo em que não passávamos dos 20. Nesse tempo, não tínhamos hora certa de chegar ao lab nem hora de sair. Vivíamos uma vida errante de almoços e jantares na cantina da universidade e voltávamos para o lab sem hora de sair. Um tempo em que se fumava em todo o lado. Perdemos a conta e a noção das vezes que choramos de desespero antes de conferências. Mas havia sempre alguma alma caridosa que nos desse a mão. Tempos em que não havia diferenças hierárquicas entre estagiários, alunos de doutoramento e Postdocs. Tempos em que éramos todos iguais. Tempos em que me lembro que havia momentos muito maus mas os bons compensavam tudo. Tempos em que íamos buscar amostras de medula e cordão ao hospital. Com ela comecei a aprender a ser organizada e a ter uma inveja boa de quem tinha uma letra legível e que toda a gente entendia. A nossa amizade foi sempre improvável. E com ela aprendi que a característica essencial de todos os meus amigos é terem um coração grande. Nunca tive uma amiga tão diferente de mim.

Quem a vê parece uma pessoa fútil mas nunca foi. Ela é o exemplo que beleza e inteligência são compatíveis. Ela ensinou-me sobre tendências e sempre me ajudou a escolher o outfit para ir a casamentos. Eu sempre lhe mostrei o que ela poderia gostar de ler, apesar de ser cegueta, como eu carinhosamente lhe digo até hoje. Partilhamos o gosto por Madonna.

Passamos tanta coisa juntas. Fomos para Shanghai, talvez a viagem mais revolucionária da minha vida. Partilhamos sempre o quarto, em todas as viagens juntas. Tal como eu, nunca teve muito amor ao dinheiro. Gostamos de bons jantares demorados. Foi ela que me ensinou a gostar de vinho branco. E quem mais me ensinou sobre vinhos. Fomos para Pittsburgh juntas, outra das minhas grandes viagens. Para ela, menos boa. Foi com ela ela que fui pela primeira e única vez ao Pinheiro. E foi nessa noite que soubemos pela primeira vez, e para sempre, o verdadeiro significado de sorte. As horas incontáveis que passamos na noite. Bebedeiras, jantares, descobertas de restaurantes, Lisboa, Bairro Alto. Sempre próximas, sempre íntimas.

Foi com ela que vivi a história mais surreal de sempre, que hoje é um menino e tem quase 10 anos. Entretanto, descobriu a diabetes. Durante o meu doutoramento estivemos sempre próximas, mesmo com um oceano a separar-nos. Não estive no dia em que se doutorou mas lembro-me do que lhe escrevi sentada num café em Cambridge, de frente para Harvard. Já nos afastamos muito tempo por motivos nunca esclarecidos. Mas, como todas as verdadeiras amizades, voltamos ao sítio onde fomos felizes. E recomeçamos, não do zero, mas do ponto onde terminamos.


Já nos carregamos para a cama. Já fomos o anjo da guarda uma da outra. É talvez uma das pessoas que melhor me conhece. É das pessoas com quem menos uso filtros. Das pessoas que melhor me conhece só de olhar. É um vulcão em erupção. Mas o que mais vou sentir falta e de vê-la todos os dias, da intempestividade dela que tanto nos faz rir e de ser a maior alegria naquela sala. Boa sorte, gaja boa! Sempre em frente, sem olhar para trás!

facebook