Mostrar mensagens com a etiqueta quotidiano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta quotidiano. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Retalhos da vida de uma tia babada

Fim de dia. Cansaço. Leve dor de cabeça. Paciência quase nenhuma. Sono, muito. Há muitos dias que durmo mal. Tenho sono quando não devo. E quando devia dormir, leio. Só imagino uma cama, ao longe. Dia de jantar com os sobrinhos. Toco a campainha e ouço a voz que quero ouvir: “Quem é?- a pergunta de sempre. Com a resposta previsível e sem engano: “Sou eu”. Quando querem brincar ainda acrescentam: “ Eu, quem?”. Subo de elevador e antes da porta se abrir já ouço o ladrar da Bu. Quem me abre a porta é o meu afilhado. E dá-me um abraço com toda a força que tem. Segue-se o abraço e os beijos do sobrinho mais velho. Este, como sempre, nas suas actividades criativas que envolvem pintura, desenhos e criações. Agora, sobretudo, bandeiras de Portugal, dinossauros, baleias e tubarões. O afilhado está fechado num quarto cuja porta está forrada de recados, desde horários de atendimento, conselhos e profissões. Hoje a ordem é para que ninguém entre. O sinal proibido. Depois seguem-se as instruções. Ao mesmo tempo que as leio a minha mãe diz-me ao longe que só se pode entrar com autorização dele seguindo as instruções. São elas: bater 3 vezes e tocar o sino. Estou demasiado cansada para desempenhar um papel. Mas o que eu não faço por eles?. Procuro o sino. Está ao lado da porta [é um sino pequenino, comprado pelos meus pais em Washington no tempo em que os pequenos tinham paranóia por sinos. Quando me lembro não consigo não rir. O mais pequeno ainda não falava nem andava e por influência do mais velho dizia: “Tão, Tão, Tão, Ti, Tão”. Existem vídeos de morrer a rir]. Faço o que os meus olhos lêem. Bato à porta, toco o sino e espero. O mais velho vem a correr e diz que aquele é o sino dele. E eu, já preocupada com o tempo que a demonstração teatral vai demorar, peço-lhe que me empreste o sino, que é só para entrar. Depois de alguma negociação, consigo que seja ele próprio a tocar o sino (enquanto o leva) mas a tempo do mais novo ouvir. O afilhado abre a porta e pergunta “O que deseja?” e eu “Entregar-lhe o presente que trouxe de Lisboa, espero que goste”. Saio e fecho a porta. Vou à sala e entrego ao mais velho o que ele me tinha pedido: uma miniatura da Torre de Belém. Abriu e felizmente disse: “Titi, era mesmo isto que eu que queria, acertaste”, entre beijos e abraços. Ao longe ouço o afilhado dizer à avó que não gostou nada do que eu lhe dei. Vou em direcção à conversa e diz-me: “Não gostei nada! Não era nada disto que eu queria (uma caneca de Lisboa com eléctricos, Torre de Belém, guitarras,...). Ao que respondo: “Desculpa afilhado mas é o que acontece quando não se diz o que se quer. E vais dar-lhe uso para beberes o leite.” Não convencido com a explicação argumenta: “O que eu queria mesmo era o equipamento do Benfica!”. Todos os que nos rodeiam sabem que isso será o presente do Natal... Este episódio faz-me lembrar outro, protagonizado pelo pai deles que quando era pequeno respondeu à madrinha dele: “Não gostei nada! Livros não são prendas!”. Quem sai aos seus não degenera  (é de Genebra)...

domingo, 28 de agosto de 2016

A pessoa que escolheu apenas (sobre)viver

Passaram-se 21 meses e 15 dias desde que ele se foi embora. Sem uma explicação. Sem um pronúncio. Sem uma sugestão. Sem nada que indicasse um fim.  Tudo é “eterno enquanto dura”. Ela escolheu ser infeliz. Uma eremita. Uma anti-social. Uma Greta Garbo (que não vive em NY). Fechou-se para a vida. Só se pergunta o que fez de errado, como se houvesse (alguma) ciência nos finais. Podia ter optado por sair todas as noites até de manhã e dormir de dia. Sendo livre, podia abraçar toda a gente. Tinha a liberdade de escolher com quem sair. Bebia todas. Pedia uma bebida e traziam-lhe uma bandeja. Saía como se não houvesse amanhã. Beijava bem. Não era de ninguém. Tinha sempre o copo cheio, pela madrugada dentro, até ser dia. Até que sentia-se mais sozinha com o passar do tempo. Era mais uma no meio da multidão. Agora, não perde tempo a conhecer ninguém. Como se tempo não fosse o que mais tem.

Tem vivido o inferno de Dante. Não vive no presente, só no passado. Não tem futuro. Deixou de saber conversar. Só frases curtas e soltas. Toda a gente desistiu dela. Ninguém aguentava (mais) aquela depressão. Aquelas frase feitas. O pessimismo. A crítica ao ser humano. Cansaram-se de que lhes pedisse espaço. Não deixa que tomem conta dela. Nem que se aproximem. Os amigos desapareceram. Depois os colegas. Depois os conhecidos. Depois os que acabava de conhecer. E no fim, ficaram apenas os cães, que não cobram nada.

Não consegue distinguir a pessoa que foi nem na que se tornou. A irracionalidade tolheu-lhe o juízo. Não consegue mais ver o lado mais bonito de si. De como é bonita por dentro e por fora. O que ela sente é uma tristeza sem fim. Tem estado muito doente. Os médicos dizem-lhe para fazer o que lhe apetecer. Mas nada lhe apetece. Passa os dias a olhar o céu e o mar. Olha para o infinito. Vive de memórias. Ele não lhe sai da cabeça. Acha que amar sozinha também vale. Melhor um monólogo que nada. Vive de migalhas. O coração, esse orgão tão físico e tão complexo só lhe dá (falsas) esperanças e (falsos) sinais. O coração é o mais irracional dos orgãos. A razão mostra uma coisa e o sentimento indica a direcção contrária. A esperança que não cessa. Apesar do tempo que passou, não consegue entender a palavra fim. E que essa palavra, segundo as estatísticas, não tem continuação nem (re)começo. Não conseguiu mudar a página.Talvez um dia consiga reparar, dentro dos seus olhos cor de amêndoa, no instante que passa. A vida é uma viagem curta. Sente-se a morrer por dentro. As lágrimas não param de lhe cair. E todos os dias as seca. Os diamantes duram para sempre mas as pessoas não. Mas agora, ela (apenas) conta as horas e os minutos para que a morte chegue.

Coração bordado em tela by Daniela Ktenas.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Um banho de humildade

Tudo na minha vida profissional sempre me indicou que não podia ser (demasiado) optimista. Quando achei (alguma vez) que tinha alguma coisa para o ser, o universo encarregou-se de mostrar-me o meu devido lugar. Fiz um doutoramento sem nunca ter tido uma bolsa da FCT. Perdi as vezes que concorri e não tive. Acho que bati o recorde: no número de vezes que alguém concorreu e que não conseguiu. Podia entrar para o Guiness. Talvez tenha sido esse facto que treinou a minha paciência e a minha “não desistência”. Nunca desisto de nada antes de achar que acabou. A célebre frase: “se o fim não foi bom é porque não acabou”. Depois, quando acabei o doutoramento, uma ideia revolucionária dada por um grande amigo e a leitura obsessiva sobre o assunto durante um mês, resultou numa das maiores alegrias da minha vida profissional: uma bolsa de pós-doutoramento da FCT. Essa bolsa permitiu-me arriscar numa nova área, viver na cidade que sempre quis, trabalhar com quem quis e evoluir. Comecei de novo. Do zero. E com isso, com todo o banho de humildade de aos 31 anos começar a (re)aprender tudo de novo. Sem vergonha de questionar, de não saber, de pedir. Ao contrário da maioria dos pós-docs do meu laboratório, fui para fora e apostei numa nova área. Com todos os contras que isso implicava, teve as suas vantagens: ensinou-me muito e permitiu-me independência. Perder a vergonha foi o maior ensinamento. E o outro foi acreditar nas minha capacidades. A minha auto-estima profissional cresceu muito. Quando o elogio vem de pessoas que defendem e acreditam na meritocracia, esse é o desfecho.


No ano passado concorri pela primeira vez a Investigador FCT. A saga das rejeições regressou. Não tive. Este ano concorri novamente. Passei à segunda fase. Um dia antes das férias recebo o veredicto. Foi a maior pancada profissional deste ano. Foi um KO imediato. Não o resultado mas o comentário. Para mim, não existe nada pior do que a crítica injusta. Aceito (quase) tudo mas não lido bem com a injustiça e a ingratidão. Nesse dia fui para casa e fechei-me. Uma amiga disse-me “Podes gritar. Eu deixo-te”. Não consegui. Nem  gritar nem chorar. Mas uma dor imensa tomou conta de mim. É nestas alturas, em que o nosso ego é posto em causa, que vacilamos e descemos à nossa humilde condição de humanos. Olhamos em frente, relativizamos e descobrimos que a melhor maneira de continuar é não nos levarmos muito a sério. Por cada vitória e conquista teremos sempre uma proporção imensa do outro lado da moeda. A vida é assim. E a melhor recuperação é pensar sempre que não há nada como dormir porque amanhã será outro dia.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

A surpresa do inesperado

Os sinos das igrejas do centro dão as 6 horas. Chovem cães e gatos. Eu sem um guarda- chuva. Sou só água. Entro na Favorita e lancho rápidamente ao balcão. Subo a rua de S. Marcos. Tenho consulta marcada no oftalmologista. Há muito que adio. Como vejo pior a cada dia, hoje teve que ser. Subo as escadas. Pouso a mochila e tiro o casaco encharcado. À hora marcada entro. A última vez que lá tinha estado foi há 12 anos. As perguntas habituais: "estás cá, agora?", "então, o que tens?". Respondo que não vejo bem, cada vez pior, ao perto e ao longe". E o médico: "estás a ficar velhota". Começamos os exames. Pergunta-me há quanto tempo reparei que comecei a ver mal. Respondo que foi em NY que não conseguia ler os ecrãs de informação do metro. Letras. A aumentarem de tamanho. Não as reconheço. Aumentam. Continuam a aumentar. Tapo um olho. Tapo outro. O tamanho das letras a aumentar. Percebo isso. Mas não as distingo. Cada vez maiores. Percebo a cara de espanto do meu pai. Penso que deva estar intrigado por não conseguir dizer que letras são. Ufa. Distingo-as. Continuo sem distinguir o O, D, C. Também não distingo o F e o P. Passamos para outro aparelho. Tenho de focar uma casa. Pergunto se é normal só ver cores porque não mais consigo ver a casa. Não me responde. Vamos repetir os exames iniciais. "Agora com calma". Diz o médico. Muda-me as lentes, coloca-me uns binóculos. Continuo a fazer muito sacrifício para adivinhar. E continuo com muitas reticências sobre as letras que vejo. Ao fim de muito tempo, pede-me para me sentar em frente da secretária. A cara está séria e preocupada. Percebo a preocupação. E sai-lhe "Não te quero assustar mas o quadro está negro. Não vês nem ao perto nem ao longe. Estás com uma perda de visão brutal". Diz-me que nem deveria conduzir assim. Que devo (ainda) não ter tido um acidente porque sou muito cuidadosa. Que vejo muito muito pouco. Eu, que ainda estava a limpar os olhos das gotas, devo ter paralisado. O médico estava a dizer-me aquilo tudo e de repente comecei a achar que ele estava a falar de outra pessoa. Fala-me da urgência de fazer análises. Que se tem de perceber de onde vem isto. Garante-me que não é dos olhos mas a incerteza não me faz bem. Pergunta-me há quanto tempo fiz análises gerais. Há quanto tempo me doía a cabeça.. Porque não fui lá quando comecei a ver muito mal?...Continuo a não achar que a pessoa de quem ele está a falar não sou eu. Até que me diz: "Sabes Ana, há coisas mais importantes que o trabalho". E, nesse momento, que ainda não tinha começado a digerir a informação, a ficha começou a cair. Começo a ver a minha vida a andar para trás. Deixo de o ouvir. Em vez de me preocupar com a informação que ele debita, só me preocupo com as duas deadlines dos 2 projectos que estão aí. O médico a sugerir e a insinuar possibilidades bastante graves quanto à origem da falta de visão e eu preocupada com a falta de óculos. Afinal, foi para isso que eu lá fui. Diz-me que enquanto não percebermos a origem não há óculos para mim. Com o regresso à realidade de me lembrar (estupidamente) dos projectos, e não da primeira preocupação que deveria ter: comigo! Quando tento digerir o que me acaba de dizer, olho para o meu pai, ao meu lado. Estou mais preocupada com o meu pai por estar a saber da verdade, como eu, e tento perceber-lhe a expressão. Não consigo perceber se está muito preocupado ou se está em choque, como eu. Já não assimilo muito. Já só oiço pedaços de frases."Hoje é sexta mas segunda sem falta...", "se não conseguires liga-me", "falo com (não sei quem) na Clínica de Santa Tecla". Marca-me outra consulta para fazer outros exames. Estou muda. Não reajo. Não questiono. Concordo com tudo. Devo ter mudado de cor. Tenho o estômago embrulhado. Acompanha-nos à porta. A assistente marca a próxima consulta. Percebo (agora) que fica marcada para uma hora em que deveria trabalhar. Lembro-me de o meu pai me perguntar se não é muito cedo, se não pode ser mais tarde... Eu quero encontrar a minha agenda na mochila mas não sei o que procuro. Mudo, para a procura de uma esferográfica num dos bolsos do casaco. A assistente, que deve ter percebido que eu não sabia o que procurava, disse-me que escrevia num cartão. Não me lembro onde pus o cartão. Desci as escadas, com velocidade, sem olhar para trás e sem esperar pelo meu pai. Chego à rua e agradeço estar a chover torrencialmente. Desço a rua apressada com a chuva a cair-me como um chuveiro. O meu pai tenta acompanhar-me. Tenta abrigar-me. Tenta abraçar-me. E eu não quero nada. Sou uma lágrima só. Paro, finalmente, em frente à Igreja de Santa Cruz. Não sei porque choro. O meu pai diz-me para ter calma. Eu que (quase) nunca vacilo. Eu que sou uma muralha. Trocam-se os papéis. Sinto o frio da dúvida. Sinto a impotência perante o inesperado. Não sinto revolta. Mas sinto culpa. Eu que achava que (ainda) era muito nova. O meu cérebro é um turbilhão. Pergunto ao meu pai, repetidamente, se não percebeu a gravidade da situação. E ele só me pergunta porque choro. "Não tenhas medo"e "não vai ser nada" são as frases que me lembro. E hoje percebo porque chorei. Não tenho medo.  Seja o que for. Seja qual for o resultado e o prognóstico. Mas chorei pela surpresa do inesperado. O instante que não controlamos (nunca).

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Sexta-feira

Sexta-feira. Acordo à hora do costume mas deixo-me estar na cama. Tenho por companhia, em cima das minhas pernas, um gato preto que mais parece um leão. Enorme e pesado. Ronrona. A luz de Lisboa entra pela janela. Mesmo com nuvens, Lisboa é sempre clara. Acho que não há luz como esta. Pequeno almoço tardio. Desço a pé a Estados Unidos da América até Entrecampos. Pouso a mala. Almoço tardio no Entre Copos. Escolhemos ovas de peixe grelhadas. Não me lembro da última vez que as comi. Como são 3 da tarde dizem-nos que as brasas estão fracas e que é melhor escolher outra coisa. Dourada escalada. Não me lembro de comer um peixe tão bem grelhado na brasa. No ponto. Nem no Algarve. Para acompanhar dispenso as batatas cozidas. Só brócolos cozidos e tomate com sal. Nada de álcool nem sobremesas. Os excessos restringiram-se ao dia anterior. Vamos buscar o ZM à creche. Pequenina. Familiar. Desenhos nas paredes. Alegria. Simpatia. Beijos e abraços. Despedidas. Vamos até ao parque. Crianças de um colégio são fotografadas. Reparo no número de crianças com óculos. Temperatura amena em Lisboa. Sol radiante. O ZM já consegue pronunciar o meu nome com um tom anasalado no final. Hora do lanche. O meu, o de sempre. Galão claro morno e pão com manteiga. O ZM reparte-se entre o pau com manteiga e uma língua de gato. Quer dar de comer aos piu-pius. Sobe para casa. Descubro que o Frozen não é só paranóia das meninas. Toda a gente está viciada. Brincamos com uma bola e com umas peças de madeira. O tempo não pára. Seguimos de carro para o aeroporto onde a S. me deixa no Terminal 2. Continuo sempre a aprender. Afinal podemos ir directamente para o terminal 2 sem passar pelo 1. O check in parece uma feira e as salas de embarque também. Mais gente que bancos. Como ainda falta algum tempo decido-me pelo único bar que lá tem. Guiness parece-me uma boa escolha. Leio. Os estrangeiros são os principais clientes. Sandes de tudo e mais alguma coisa e litros de imperiais Sagres. Chamada para o avião. O dia acaba. Fim de dia ameno. Chegada o Porto 45 minutos de pois. Noite escura. Chuva torrencial. Dilúvio. Arca de Noé.Como é possível um mudança tão drástica de cenário com tão poucos kms que separam estas duas cidades. Toda a gente corre. Malas arrastam-se. Outras voam, tal é a velocidade. Fatos molhados. Ninguém preparado para esta chuva. Ninguém é elegante a correr debaixo deste temporal. Eu deixo-me ir, lentamente. Parece que saí do chuveiro mas isso não me faz acelerar o passo. Quando apanho a mala, tiro o casaco de malha, desaperto a camisa, fico em t-shirt, seco o cabelo com a camisa, visto uma camisa divinamente embrulhada na mala, visto outro casaco. Como é hora de jantar, espero uns 30 minutos pelo meu irmão naquele café que é uma imitação barata do Starbucks mas com preços igualmente pornográficos para um país pobre como o nosso. O meu irmão chega sozinho sem os meus sobrinhos. Aguardam-me em casa dos avós porque não quiseram enfrentar a chuva. Chegada a casa dos pais é a festa da miudagem, como se não me vissem há muitos. Colos, beijos e abraços e elogios aos penteados novos.  

sábado, 18 de abril de 2015

Quinta em Lisboa

Quinta-feira. Acordo em Lisboa. Dia claro e luminoso, como quase sempre em Lisboa. Lá fora as vivendas de Alvalade e a Av. Estados Unidos da América. Vamos em direcção ao Areeiro. Pequeno almoço com leite e café expresso, manteiga dos Açores e pão saloio. No alto de cadeiras de bistro. Bela vista. Descemos a Almirante Reis. Viramos à direita até ao campo de Santana. Passamos em frente à Embaixada Itália e depois em frente à Embaixada de Itália. Entramos no estacionamento subterrâneo do CEDOC. Subida de elevador até aos laboratórios e gabinetes. O dia de trabalho começa com café. Eu que não tomo café não tenho coragem de dizer que não e tomo-o como se fosse remédio. Tenho apenas tempo de olhar brevemente para a apresentação e confirmar que os vídeos funcionam. Vamos almoçar ao Goethe Institute. Vacilo entre uma salada Goethe é uma salsicha alemã. Mas penso na cerveja e decido-me pelo que me dará maior sustento. Cerveja alemã. Não termino as salsichas. Seguimos quase directas para a aula. Sala quase cheia. Uns 80 alunos. Novinhos. Maioritariamente alunas. Os alunos contam-se pelos dedos. Pouco antes de entrar para a aula reparo que caiu-me molho de tomate na camisa. Não tenho muito que fazer a não ser esperar que ninguém repare. Começo a aula a reparar na coincidência que descobri quando preparava a apresentação. O Dr. Sousa Martins que tem uma estátua em frente à faculdade de Medicina da NOVA fez uma tese de licenciatura sobre o Pneumogastrico e o coração. E morreu aos 54 anos, tuberculoso e vim uma lesão cardíaca, que caso não se tivesse suicidado com uma dose letal de morfina, teria morrido do coração. E eu venho falar sobre o coração e regeneração cardíaca. Coincidências. Que sinais podem ser estes. Conto mais umas piadas. Provavelmente resultado do quase meio litro de cerveja que bebi. A aula pareceu- me correr bem. O perfil dos alunos parece-me mudar anualmente. Quase não há cadernos, nem livros, nem sebentas, nem esferográficas. O que nos salta à vista são os ipads, tablets e notebooks. Os alunos são do terceiro ano mas a maioria não parece ter mais de 18 anos.

Aula terminada. Depois de muitas gargalhadas e risos nos últimos minutos da aula em q a G. falou das dicas para se fazer uma apresentação.   Voltamos para casa e foi um tour gastronómico até à hora de dormir. Começamos com Gin tónico, em copos normais, não daquele que parecem uma malha de sopa, que de tão grandes que são até se perde o jeito de beber. Pistácios. Azeitonas com alho, azeite e oregãos. Vinho tinto do Douro. Bacalhau assado no forno. Mousse de chocolate. Morangos. Framboesas. Há melhor tratamento do que este?



quinta-feira, 16 de abril de 2015

Quarta-feira

Quarta-feira, dia de jantar com os sobrinhos. Como o meu irmão ficou de me levar ao aeroporto, fomos jantar ao McDonals. Isto só acontece muito raramente. Então, para eles, é a alegria. O meu afilhado, que faz 6 anos no próximo sábado, anda sempre com um caderno é uma esferográfica. Diz ele que é para escrever. Como o irmão já anda na primária deve querer imitá-lo. Então é ver páginas e folhas completas de letras que só ele entende e outras que entendemos todos. No carro contam entusiasticamente a semana na escola. O que aprenderam. O que comeram. A peça de teatro que viram hoje. As histórias com os amigos. Quando saímos do carro a necessidade de serem abraçados e visível. Passamos o tempo abraçados e a trocar de par. O pai abraça um e eu abraço outro e depois trocamos. E passamos o jantar a encostar cabeças e ombros. E a tocar nas mãos. E a fazer festinhas na cabeça uns dos outros. Gargalhamos e rimos muito. Brincamos mesmo que o tempo seja curto. Falamos dos desenhos que os meus sobrinhos me prometem, mais uns, para escorar a minha secretária. Falamos das cartolinas que os esperam para fazerem o alfabeto dos animais e das profissões. Falamos do jantar de sábado que terão com os amiguinhos de Braga, R. e J. Vamos a caminho to aeroporto. O dilúvio da Arca de Noé abrandou. O céu cinzento escuro tornou-se mais claro. O dia está a terminar. O sol está a começar a pôr-se. Vê-se o arco-íris ao longe. O sol laranja, lindo, ao fundo da estrada. Falamos de ir a Serralves quando estiver bom tempo. O afilhado adormece. O K. bebe o resto da minha Coca-Cola. Aproveita porque quase nunca o pode fazer. É a bebida quase proibida. Estamos quase a chegar só aeroporto. O K. quer ir à torre de controle. Rimos da inocência dele. Prometo-lhe, que por hoje não haver tempo, na sexta entrará no aeroporto. Ele fiz- me que já conhece, claro. Mas quer ver outra vez.

Hora de embarcar. Fila enorme. Muitas pessoas. Muitas malas. Ninguém é parado. Só eu. Nestas horas percebo porque não gosto de low costs. A pessoa que controla os bilhetes diz-me que se a mala não cabe nas medidas deles é porque a mala não tem aquelas medidas. Não falo. Não discuto. Não argumento. Não digo nada. Só abano com a cabeça e lembro-me da razão pela qual só viajei duas vezes com a Ryanair. A minha cara deve dizer tudo. Poupo num lado mas gasto no mais elementar, a mala. Depois penso naquele vídeo dos apanhados da TVI: "Eles poupam 5, elas fo*** 10? De quem é a culpa, cara***? E sorrio. Afinal o que é isto comparado com tanta desgraça no mundo. Relativizo. Não dou importância. Não fico chateada por mais de10 segundos. Até que a senhora me pede licença para retirar a etiqueta da minha querida TAP e colocar a da Ryanair. E como se não bastasse diz-me que tenho que levar a mala para a pista e entregá-la para ir no porão. Como? Não basta ter que pagar por uma mala que deve ter 2 cm a mais, porque a régua que tenho em casa deve estar em polegadas em vez de estar em centímetros, e ainda tenho que ser eu a levá-la? Arrasto-me com a minha impotência para discutir e reparo que o selo que tenho no bilhete e a etiqueta que tenho na mala diz "free bag". Os meus passos ganham mais ritmo e a minha cabeça baixa levanta-se. E percebo, mais uma vez, porque é " melhor ser alegre do que ser triste". Não aproveito a vista da janela e não vi sequer a minha amada Lisboa do ar porque estava a escrever este texto. 



terça-feira, 14 de abril de 2015

O terror das apresentações

Estou com uma dor de costas que não me dá descanso há vários dias. Dor de costas para mim é sinónimo de stress e de preocupação. Para além disso, estou com uma afta, como há muito não me lembrava. Mal como. Essa é a melhor parte. O poder de emagrecer sem querer e sem fazer nada para que tal aconteça. Vou dar uma aula. Uma coisa que detesto. É tipo Joana D’Arc à espera da morte na fogueira. Contagem decrescente. Tudo em função daquele momento. E como os grandes profissionais, que se preparam, eu prefiro viver por antecipação. Em vez de me preparar, antecipo cenários de terror. Nunca digo não e nunca. Muito menos a esta grande amiga.  Este ano, acrescenta-se uma variável pior: uma audiência de 80 alunos de Medicina. Todos inteligentes. Ou pelo menos, com notas altas. Ou com autoconfiança. Numa emblemática Universidade de Lisboa: a NOVA. No célebre edifício do Mártires da Pátria. O berço da Escola-Médico Cirúrgica de Lisboa. Primeira Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. As escadas, os quadros, os bustos, os anfiteatros, a altura do edifício, tudo é grande. E eu, que já sou pequena, pareço uma formiga. Pior do que isto, só se fosse em Coimbra.  Vá, pelo menos tenho a benção do Dr. Sousa Martins, beatificado pelos lisboetas, e praticante da caridade que me olha lá do alto da sua estátua envergando a toga de Doutor. Vejam a coincidência, ele terminou a tese de licenciatura com o trabalho “O Pneumogástrico Preside à Tonicidade da Fibra Muscular do Coração”. E é sobre isso que vou falar: do coração e da regeneração cardíaca.

Em vez de preparar a apresentação, o discurso e a aula, evito. Como se isso resolvesse alguma coisa. Como se ajudasse, adio. Atitude inteligente, não é? Pior do que isto seria desaparecer ou não aparecer. Timidez tenho que baste, mas vergonha de fazer um disparate desses é o balanço que me obriga a erguer a cabeça. A morrer sim, de medo, mas de pé como as árvores. E como se não bastasse, ainda mais o medo de andar de avião. Enjoo no comboio (ou em quase todos os meios de transporte). Devo ser a única pessoa no mundo que enjoa a conduzir. Como não consigo fazer nada nas três horas de viagem, decidi-me pelo avião. Nada mais sensato, pois claro. Entre o enjoo e o medo vá o diabo e escolha. Pelo menos só são 40 minutos de puro pavor. Como são só 40 minutos, nada de beber. Então toca a encarar esta de frente, sóbria, limpa, aterrorizada. Mas depois lembro-me de Lisboa. A cidade que eu mais gosto no mundo. Só isso anima-me. E isso é quase tudo.

Como se escrever exorcizasse os medos. Em vez de preparar a apresentação, escrevo este texto. Adio sempre decisões importantes. E mais uma vez não toco nos slides. Faço tudo o que não me apetece, como no tempo em que estudava (pouco). Nunca tive a casa tão arrumada. Nunca tive as gavetas tão arrumadas. Nunca tive a secretária tão arrumada. Como diz uma amiga: “secretária arrumada, cabeça desarrumada”. Vá, riam-se. Porque eu rio para não chorar. E como me disseram ainda hoje, eu vivo (quase sempre) a sorrir. Mesmo que nem sempre tenha motivos para o fazer. E acredito cada vez mais na frase “é melhor ser alegre que ser triste”.


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O Poeta

Estaciono o carro em frente ao meu prédio. Passam das 7 da tarde e já não preciso de colocar moedas. Saio do carro e vejo o “Poeta”(arrumador, mendigo, vive na rua, boa pessoa, toxicodependente) correr em minha direcção. Lembro-me que a única moeda que tenho é de 2 euros. Nem hesito, lanço a mão ao bolso e estendo-lhe a moeda, ao mesmo tempo que chega ao pé de mim e cumprimenta-me:
- Então? Está boazinha? Esta semana ainda não teve nenhuma multa! [Obrigada poeta por me relembrares das dezenas de multas de 10 euros que apanhei nos últimos tempos!].
Ao mesmo tempo que diz isso, olha para a moeda que lhe dei e atira:
- Olhe, vou ser sincero, de todas as pessoas da sua família você é a mais generosa! Olhe que eu também sou generoso, eu também dou esmolas. Quando fiz anos dei 5 euros aquele magrinho que está em frente ao Pingo Doce. E ainda dei mais dinheiro ao Adriano, aquele borrachão, que tinha saído nessa semana do hospital”.
O “Poeta” lá me agradeceu mais uma vez e saiu a correr em direcção a uma senhora para a ajudar com as compras.

Na semana passada ia ao Pingo Doce e encontrei o meu pai. Seguimos juntos e aparece o “Poeta”, que adora o meu pai desde que o viu na bomba de gasolina a enganar-se e trocar o gasóleo pela gasolina. Desde esse dia o “Poeta” nunca mais esqueceu o meu pai e sempre q o vê fala nisso
- Olá! Olha quem está aqui! O seu paizinho e a troca da gasolina.... – e dá-nos um aperto de mão a cada um com as mãos que pareciam da cor do chão.
- Sabem que eu hoje faço anos?
Eu, como sempre, dei-lhe uma moedas. Neste dia, especialmente, fui mais generosa. O meu pai pergunta-lhe quantos anos faz. Eu dou-lhe uns 50 anos, talvez mais, mas imagino que não ande nem lá perto. Fazia 41! E vira-se para mim e diz-me que devo ter uns 26. Eu não falo mas penso: «Ó “Poeta”, se eu já simpatizava contigo, a partir de hoje, estás cá dentro! Dás-me quase menos 10 anos! Obrigadinha, pá!». Vou começar a ficar insuportável! Estou cheia de cabelos brancos, e mesmo assim, não me dão nunca a idade que tenho! E lá seguimos, felizes, cada um pelo seu motivo.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Há duas coisas que me irritam profundamente e que tenho de fazer um esforço monstruoso para não me tirarem do sério (o que nem sempre consigo): estar a falar com alguém e essa pessoa olhar para todo o lado menos para mim e fazerem aqueles barulhos inúteis que só poluem (bater com o pé no chão, bater com a mão na mesa...). Hoje, como quase sempre ao almoço, a uma hora que eu escolho para não encontrar muita gente, senta-se numa mesa ao lado uma pessoa sozinha. Eu estava sossegadamente a ler o meu livro enquanto esperava pela comida e a única coisa que ouvia (que ultrapassava o som da televisão e das restantes mesas) era bufar e bater com o tacão no chão. Não sei como consegui segurar-me para não perguntar: " A senhora está com algum problema?". 

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A minha casa

Estou sem tempo para escrever e para fazer as coisas que gosto. Mas mesmo assim, no fim de semana consegui arranjar tempo para andar pelas ruas e ir às livrarias. A poucos dias de ir a Portugal, começa a saudade de deixar a minha casa e a minha cidade. Foi sempre assim, quando gosto adopto a cidade como minha. Dizem que NYC fica-nos para sempre. Como tantos outros, eu viverei para sempre em NYC. Quero muito escrever sobre tudo o que vivencio aqui e sobre os livros que leio e li aqui. Só estou a ler livros relacionados de alguma forma com NY e/ou Estados Unidos de alguma forma. Como tantas outras vezes, comecei a encher um apartamento do zero e muitas vezes os esvaziei. As únicas coisas que levo no regresso são os livros que vou comprando sempre.


Começou assim..




 E agora está assim..




segunda-feira, 5 de março de 2012

O "4"

Há uns anos, tinha idade para já ter juízo, foi a primeira vez que a minha mãe me flagrou "ligeiramente alta" (como dizem os brasileiros). E só reparou porque eu falava sem parar e cheguei a casa dos meus pais às 10 da manhã do dia 1 de Janeiro. Era suposto ter ido para minha casa mas tinha fechado a porta com a chave dentro...

E tudo isto para dizer que a minha mãe desconfiou que eu tinha bebido demais porque para além de falar sem parar teimava em fazer o 4. Por razões óbvias, não conseguia fazer e esta história é demasiadas vezes ressuscitada para o meu gosto. Pois bem, no sábado estava com a C. e o F. a jantar no Zigolinis entre cocktails, vinho, pizzas, tiramisu e muitas gargalhadas e falo da minha incapacidade para fazer o 4 de olhos fechados nas aulas de yoga. Com os olhos abertos faço bem, o problema é quando os fecho. Posso a partir de agora demonstrar à minha mãe a minha incapacidade para me equilibrar numa perna só de olhos fechados. Diagnóstico feito, problema resolvido... ou quase...

facebook