segunda-feira, 5 de março de 2012

Os significados


Tenho há muitos anos o hábito de usar dicionários. Há muitos anos, andava eu no 5º ano (nem sei se se diz assim), tive uma professora de português que me marcou para sempre. Nessa altura ela criou o "Clube de leitura" que era uma espécie de biblioteca. Cada pessoa levava alguns livros e depois eram trocados. O objectivo era ler, sumarizar a história e apontar as palavras que não sabíamos os significados. Para isso, tínhamos um caderninho especial (nem sei onde anda nem onde se comprava) mas consigo imaginá-lo claramente. Havia um prémio para quem apontasse mais palavras e o respectivo significado. Nesse "Clube de leitura" fomos incentivados também a criar a nossa própria história em grupo. 

Hoje, com a devida distância, consigo perceber o quão revolucionárias foram estas horas extra-curriculares. Na pré-adolescência já tinha lido quase todos os livros do Eça de Queiroz e um livrinho de significados acompanhou-me sempre.  Desde essa altura que leio sempre com um lápis na mão e sublinho os livros (li que a Susan Sontag fazia o mesmo). E nunca este “Clube de leitura” esteve tão actual para mim agora que vivo em NYC. As diferentes livrarias, universidades, associações estão repletas de “Book clubs”. Pessoas que gostam de ler, que querem ler, e que gostam de perder tempo a discutir o que leram. 

Aqui em NYC fico sempre muito comovida com a quantidade de pessoas que  lê no metro.  Ok, há dois tipos de pessoas: os que passam o tempo a ler e os adeptos da electrónica (inclui BBs, Iphones, ipods, leitores de música em geral). Nunca reparei se em Lisboa as pessoas têm este hábito de leitura. E outra coisa que reparo é que as pessoas lêem boa literatura. E como agora quase só leio em inglês para além de ter os livros todos rabiscados, contorno as palavras que não sei o significado. Eu, ao contrário de muita gente, tenho uma ligação sentimental com os meus livros, conheço-os pelas capas, sei as anotações que faço, quando os li, o lugar onde estão, colecciono marcadores de livros dentro deles...é por esta razão que ler os meus livros pode não ser agradável à vista. 

Que me desculpem os defensores das novas tecnologias mas o toque e o cheiro dos livros ninguém os substitui. Com tantas discordâncias culturais e a vários níveis com os nativos, é uma felicidade viver no país que viu nascer os melhores escritores do mundo (para mim): Ernest Hemingway, F. Scott Fitgerald, Irving Wallace, Dylan Thomas, Don Delillo, Tennessee Williams,  Gertrude Stein, Elizabeth Bishop, Susan Sontag, Michael Cunningham.

O "4"

Há uns anos, tinha idade para já ter juízo, foi a primeira vez que a minha mãe me flagrou "ligeiramente alta" (como dizem os brasileiros). E só reparou porque eu falava sem parar e cheguei a casa dos meus pais às 10 da manhã do dia 1 de Janeiro. Era suposto ter ido para minha casa mas tinha fechado a porta com a chave dentro...

E tudo isto para dizer que a minha mãe desconfiou que eu tinha bebido demais porque para além de falar sem parar teimava em fazer o 4. Por razões óbvias, não conseguia fazer e esta história é demasiadas vezes ressuscitada para o meu gosto. Pois bem, no sábado estava com a C. e o F. a jantar no Zigolinis entre cocktails, vinho, pizzas, tiramisu e muitas gargalhadas e falo da minha incapacidade para fazer o 4 de olhos fechados nas aulas de yoga. Com os olhos abertos faço bem, o problema é quando os fecho. Posso a partir de agora demonstrar à minha mãe a minha incapacidade para me equilibrar numa perna só de olhos fechados. Diagnóstico feito, problema resolvido... ou quase...

quinta-feira, 1 de março de 2012

Depois da reunião de ontem...

"In God we trust. All others [must] have data" - In "The emperor of all maladies- A biography of cancer", Siddhartha Mukherjee.

Dianinha Ross

Há um personagem em Washington Heigths que estava sempre na esquina da 168 com a Broadway. Sempre que me encontrava com o L. em frente às urgências do Presbyterian era tentar segurar ao máximo que podia o riso. Mas nunca aguentava... e eu e ele criamos uma empatia. Ele seguia-me sempre até à entrada do hospital com as suas "macacadas". 

Pois bem, a "Dianinha Ross" (foi assim que o L. o batizou) anda sempre com uns phones que devem transmitir a música que ele canta (muito mal), depois tem sempre uma coreografia (sempre muito desajeitada) e anda na maioria das vezes com um microfone. Sabemos que é fã da Diana Ross e da Madonna e do Webster Hall (não sei se é frequentador habitual mas está sempre a gritar "Webster Hall, Webster Hall"... ou deve ganhar pela publicidade. No princípio, quando mal o conhecia, achei que fazia isto para ganhar dinheiro... mas não, é por pura recreação. A C. e o F. dizem que ele é exibicionista e já o viram a comportar-se normalmente. Eu tenho uma simpatia enorme por ele. E hoje vou a atravessar a rua na 168 em direcção ao P&S e quem encontro??!! A "Dianinha Ross" e reconheceu-me!!! Lá me acompanhou até à entrada, sempre a cantar e com as suas coreografias e eu chorava a rir!!! Sempre quisemos gravar a sua performance... Não sei porquê nunca se proporcionou. Hoje encontrei estes vídeos no youtube mas que estão muito aquém do espectáculo real. Vejam aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=1vkTfqC41po&feature=fvsr

http://www.youtube.com/watch?v=vyuFlEoxDgU&feature=related.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Mais uma semana

Desculpem a minha ausência por aqui. Vou ter uma apresentação para o grupo amanhã. Mais os projectos da FCT... não sobra muito tempo. O fim de semana que passou foi o primeiro que fiquei em casa desde que cheguei. 

Depois do "bichinho" da NETFLIX transmitido pelo F., eis que subscrevi o serviço. Até comprei um leitor de DVD. Agora é esperar que me chegue o primeiro filme pelo correio. Para quem não sabe, a NETFLIX é um serviço pago, que permite, de acordo com o plano subscrito, ver filmes, séries na internet ou receber via correio o(s) DVD(s). Os meus amigos pegaram-me este micróbio... e vamos ver, se agora, para além da pilha de livros que acumulo para ler, começo a acumular uma lista de filmes para ver. 

Esta é também a "Semana dos Orfãos do Meal Plan". O Meal Plan é um serviço de refeições (apenas jantares) que os grad ou MD/PhD students de Columbia podem subscrever. As opções vão de 1 a 3 jantares/semana e cada jantar fica em média por 6 dólares. Um óptimo negócio para os preços de NYC. O meal plan inclui saladas à escolha, prato principal com a opção de vegetariano, sopa, duas peças de fruta, sobremesa e duas bebidas (lata/garrafa). É um tipo de serviço de cantina mas de melhor qualidade e maior variedade do que a maioria das universidades em Portugal. Obviamente que eu estaria à partida excluída do meal plan porque não sou estudante... Mas como nos últimos tempos tenho sido bafejada pela sorte (da mesma forma que consegui um estúdio nos apartamentos de Columbia) consegui inscrever-me. Tudo isto para dizer que esta semana não há meal plan porque é o "Spring Break"... logo faço parte dos "orfãos do meal plan". Esta semana o Tamaya, Coogans, entre outros, é que vão ficar a ganhar.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Michael Cunningham



Na vida há alguns momentos de sorte. Este foi um deles. Na semana passada depois de não conseguir bilhetes para ver uma conversa com o Woody Allen, acabei por saber que o Michael Cunningham ia fazer uma leitura no The Center for Fiction. Eu nem sabia onde era nem quanto se pagava. Na sexta enviei um email para saber mais informações e, como ontem foi feriado, recebi hoje de manhã um email: "We look forward to seeing you tonight at 7pm for our event with Hilma Wolitzer and Michael Cunningham". Tive que ir a casa na hora do almoço para ir buscar os livros e tive que preparar o meu dia para sair do lab às 6. 

Preparei a minha viagem de metro e teria apenas que mudar na 59 para o B ou D. Saio na 59 e entro no primeiro metro que vejo.... onde fui parar? À 42!!! Já atrasadíssima apanho um táxi. Cheguei ao evento a tempo, ainda não tinham começado. Eu estava de pé e uma senhora muito simpática disse-me que havia lugares vagos (que eu já tinha visto mas que não fui porque ia ficar esmagada no meio de pessoas obesas). Não tive como dizer que não à senhora e lá fui eu ser esmagada. O evento começou. Nunca pensei que o Michael Cunningham fosse uma pessoa tão divertida e simpática. Fez uma leitura de uma parte do livro novo que está a escrever. A leitura dele foi magnífica, muito teatral. Depois seguiu-se a parte de perguntas que foi a melhor. Se eu tivesse que escolher uma palavra para descrever o Michael Cunningham era: simpático. Assinou-me os 4 livros em inglês que tenho cá e despediu-se porque ainda tinha que ir jantar e amanhã dava aulas...

Domingo: Lower East Side e East Village

Quando saio do meu "território" aka West Side tenho que planear sempre a coisa bem. A C. no ano passado até me comprou um mapa do metro com letras grandes para eu não precisar de óculos! O Lower East Side e East Village conheçia muito mal. Embora a noite conhecesse bem: Beauty Bar, Lit Lounge, Webster Hall...Já tinha estado de dia duas vezes em St Marks Place de dia. É umra rua espectacular para se gastar dinheiro em t-shirts vintage.

Saí de casa em direcção ao metro, com tudo apontado onde deveria mudar e essas coisas. Juro que fiz tudo direitinho... mas sabem onde fui parar? A Fulton St que para quem sabe é mesmo perto do Ground Zero. Muito bom... Para quem queria ir para a Allen St com a East Houston... Ainda pensei em regressar ao metro... mas se não consegui com instruções imaginem sem elas... Apanhei um taxi. Lá passamos do lado oeste para o lado este e subimos a Allen Street desde Chinatown. O que via da janela não me convenceu. Depois alternei entre a 1st Avenue e a Avenue A até à 12th Street. Restaurantes, bares, pubs, lojas vintage, lojas de tatoos, mercados de rua, lojas de design, lojas de viagens num ambiente degradado/ mas a querer parecer com estilo. Não troco a West Village pela East Village. Entrei em três livrarias (Bluestocking, East Village Books and Records e St. Mark's Bookstore). Só gostei da última e o prejuízo não foi muito, só comprei um livro do Don DeLillo (que também vou ver daqui a umas semanas a receber um prémio). O regresso, não sei como, foi atinado. Consegui chegar a casa. Claro que não fui ao yoga...

The girl with the dragon tatoo


No sábado à noite fui ao cinema ver "The girl with the dragon tatoo", já passava das 10, numa sala de cinema perto de Times Square a abarrotar, onde sobravam apenas as cadeiras junto ao ecrã. Duas horas e quarenta minutos de filme e desta vez não pude queixar-me que não conseguia ver bem as caras. Este filme foi adaptado pela segunda vez pelo David Fincher (Seven e Fight Club) sobre a primeira parte da trilogia do escritor sueco Stieg Larsson.  

Mikael (Daniel Craig) é jornalista, casado e pai de uma filha. Um dia é procurado por um intermediário de Henrik Vanger (Christopher Plummer- o Capitão von Trapp da "Música no Coração) empresário que tem como objectivo principal saber o que aconteceu há 40 anos com a sobrinha: fuga, suicídio ou homicídio? Vanger acredita que alguém da família poderá estar relacionado com o desaparecimento da sobrinha, cujo corpo nunca foi encontrado. O empresário faz uma proposta irrecusável ao jornalista: dá-lhe acesso total à sua vida, documentação pessoal, empresa, dados familiares e excelente remuneração em troca de uma solução para o caso. A actriz principal, a tal das tatuagens e dos piercings, que dá o nome ao filme é Lisbeth Salander, assistente do jornalista. Completamente inadaptada socialmente, nunca olha as pessoas nos olhos e evita o contacto físico.  Sem saber conviver com pessoas,  viciada em solidão, computador, cigarros e coca-cola, ah, claro, tatuagens e piercings.  Com uma inabilidade visível para manter conversa (apenas monocórdica). Percebe-se que tem um passado misterioso. Tem qualidades informáticas de fazer inveja ao Bill Gates e ao Steve Jobs e com uma memória prodigiosa. Conhecia a Rooney Mara apenas do papel do “Social Network”. Neste filme ela está irreconhecível. De uma palidez de meter medo à morte, anorética, cabelo pretíssimo, sobrancelhas descoloradas, carregada de piercings. Li algures que o escritor, Larsson, ter-se-á baseado  no síndroma de Asperger para compor a personagem. 

O filme é assustador, repleto de segredos ("as pessoas têm sempre segredos, é uma questão de os descobrir"), abusos de menores, violações, crimes macabros. O filme tem cenas pesadíssimas mas para isso eu já ia preparada. A verdade revelada é cruel .  Este filme, baseado no livro de  Larsson, passa-se na Suécia onde a educação é exemplar e gratuita, E que instituiu o prémio Nobel,  é recordista em qualidade de vida, tem o Ikea, os Abba...mas onde as estatísticas revelam 4000 violações/ano  num universo de 9 milhões de habitantes. Com 10 milhões, Portugal não ultrapassa as 500 por ano. Dá que pensar...



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Wit-2nd Round


Na sexta fui ver novamente a peça “Wit”. Não resisti. Uma excelente interpretação da Cinthya Nixon. E nada mais a propósito porque ando completamente mergulhada no livro do Siddhartha Mukherjee “The Emperor of all maladies – A Biography of Cancer” e nos livros de/ e sobre Susana Sontag (também muitas vezes citada no livro por ter sido uma sobrevivente de dois cancros mas que sucumbiu no terceiro). 

A Cynthia Nixon na peça está com uma bata de hospital, um boné e descalça. A palidez, os olhos azuis e a iluminação fazem um jogo perfeito que ela parece mesmo doente. A parte final é a mais dramática, tem um final catártico tão desesperante de apetecer encolher na cadeira. Na azáfama de tentarem “ressuscitá-la” quando ela tinha escolhido “No code” e naquele desespero da enfermeira tentar explicar isso aos médicos, o final é lindo: “Vivian steps out out of the bed. She walks away from the scene, toward a little light. She is now attentive and eager, moving slowly toward the light. She takes off her cap and lets it drop. She slips off her bracelet. She loosens the ties and the top gown slides to the floor. She lets the second gown fall. The instant she is naked, and beautiful, reaching for the light – Lights out”.

Depois, podia ter entrado no metro logo ali na 50. Mas preferi andar a pé com a N. até à 34 e aí entrar no 1. Passamos pelo meio de Times Square sempre a abarrotar de gente mesmo depois das 10 da noite. Quem vive em Manhattan, Times Square não é o seu lugar de eleição. Demasiado barulhento e confuso, repleto de turistas, filas, vendedores de rua, performers... Mas de vez em quando, sabe bem voltar lá e relembrar que quando se vai pela primeira vez a NYC, o impacto que aquele lugar causa. E nos primeiros dias que cheguei a NYC, uma cidade solitária, independente, amarga e estranha para quem chega para viver cá pela primeira vez, ia a Times Square para me sentir rodeada de gente.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

E assim acontece... na América


No lab ao fim da tarde começo a ver umas movimentações... Lab é o que eu chamo ao piso onde trabalho. Um lado do corredor é só gabinetes e o outro é onde fica o laboratório propriamente dito. Depois das 5 as pessoas começam a sair e às 6 vê-se... umas 6 pessoas... e às 8, bem, isso é uma loucura ver mais do que 3!!! Mas hoje por volta das 6 era a azáfama habitual das 3 da tarde e não do fim do dia... Descobri depois que estavam a preparar uma festa surpresa para a “lab manager”. Ah? Faz anos? Não... hoje faz um ano que chegou ao grupo!!! Isto é mesmo muito fora! Mas assim mesmo à grande com direito a bolo e muito champanhe. Eu sei que a miúda é fixe mas não é preciso tanto! Parecia uma homenagem que se faz a quem volta da guerra! Dica número um para os americanos: é péssimo beber a essas horas porque vocês não lancham! E a última coisa que o vosso estômago devia ter visto foi um bagel ou talvez um pacote (dos pequenos) de batatas fritas há umas seis horas atrás... Um dia destes um americano com quem jantava dizia para um dos meus amigos portugueses: “Não pareces um europeu. Não gostas de vinho, não fumas...”. A festa lá se fez. Mas o champanhe era mais do que muito. Eu, apesar de ter lanchado, não abusei porque ia jantar a seguir e ainda precisava de voltar para o lab. Pelas movimentações e pela animação percebi que aquela quantidade de álcool não ia dar muito bom resultado. E assim foi! Quando volto de jantar e entro no laboratório até gente de garrafa na mão vi (mas no laboratório mesmo)!! Se a L. estivesse aqui, ui, nem depois de todas as certificações em Harvard!!!! Este pessoal nunca mais voltava a entrar num lab que muitos de nós conhecemos! Passadas algumas horas, o ambiente acalmou, o número de pessoas que não são "habituees" da noite reduziu-se drasticamente... Mas ainda me cruzei com uma colega que já não conseguia  andar em linha recta e que me disse: “I’m so tired”. Claro que compreendo que ela está cansada mas amanhã é que vou ter mesmo pena dela. Quando acordar vai ter uma imagem distante e nublada do que hoje se passou, a cabeça vai parecer um galinheiro e o estômago vai parecer que está num mar revolto! O fim de semana para alguns deles vai começar mais cedo.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

yoga

Ontem fui "brunchar" ao Café Fiorello em frente ao Lincoln Center. Não tirei fotos do que comi: NY Scrambled eggs and scotish smoked salmon and caramelized onions. O brunch incluía um cesto de muffins, croissants e pão e uma bebida (Bellini, Bloody Mary, Mimosa ou Prosecco). Como nenhuma delas me agradava, optei pelo Prosecco que sempre é uma imitação de champanhe. O restaurante tem uma decoração muito bonita. Fez-me lembrar os cafés de Paris. O que comemos não era nada de especial. Os preços, esses sim, eram comparáveis à elegância do restaurante). Antes disso tinha ido ver o filme "A marine story" no Athena Film Festival baseado numa história verídica da política militar dos EUA até há pouco do "Don´t Ask Don´t Tell". Ainda fui mudar o meio às células ao fim do dia e acho que não vai ser preciso bater-lhes...
The Metropolitan Opera @Lincoln Center

Hoje, depois de alguns adiamentos, muito usuais em mim, fui pela primeira vez à yoga. A última vez que estive numa aula de yoga ainda nem tinha entrado na universidade. Durante 2 anos fui às aulas de yoga com o meu irmão e mais uns amigos. Eram divertidíssimos esses tempos. Lembro-me até hoje que o nosso professoar naquela altura dizia que o Homem era o único animal que bebia leite em adulto e que isso estava errado porque todos os outros animais deixavam de o beber nos primeiros meses de vida. Uma viciada em leite como eu, não poderia ter ficado muito contente... Achei as aulas muito diferentes. Estas foram muito mais exigentes, posturas difíceis, principalmente de equilíbrio. Não sei se sofro de algum problema de labirinto... mas quem me estivesse a observar, acharia que teria bebido antes de ir para a aula. tudo o que implicasse estar apoiada num dos pés e os braços esticados... pronto... lá estava em a fazer umas bonitas figuras... então quando em simultâneo tinha que ter os olhos fechados... sem comentários. Mas o melhor de tudo foi quando começaram a fazer aqueles sons tipo "OMMMMM". Só me apetecia rir. Acho que não tenho muita vocação para este tipo de relaxamentos. Mas agora que paguei vou fazer por ir. Na próxima quarta: Pilates. Se a yoga foi o que foi vou sair toda partida da aula de Pitates!!!


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Quando as coisas começam mal acabam melhor

Depois de me ter levantado às horas que costumo adormecer, ou seja, quase de directa, e de ter chegado ao lab e a pessoa com quem combinei não ter cumprido horas, e não ter preparado o que devia com antecedência.... Acabei por saber às 3 da tarde o que deveria ter sabido às 8 da manhã. Não vou dizer o número de células que foram isoladas de n corações que tenho até vergonha. Quando não se pode atribuir a culpa à péssima preparação das pessoas e à autonomia que deveriam ter como alunos de doutoramento. Uma vez que que não se pode bater em ninguém, a melhor atitude a tomar é fechar o computador e apanhar ar. Mas quando ia fazer isso recebo um email com o que parecia um sinal. Alguém a milhares de kms lembrou-se de me fazer rir perdidamente e esquecer o dia....



Já vi o vídeo dezenas de vezes e não paro de rir! "Não compres um ipad!!" Muito bom! E quando se tem amigos (as) tem-se quase tudo! Para quem não perceber o teor da conversa aqui vai:
-Martinez, como é que é?
-Olha, o R. teve esta ideia maluca de querer mandar isto.
-Deixa o ipad para trás, não compre nada disso!
-Compra formalina!
-Beijinhos Martinez.
-Beijinhos miúda

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

One if by Land, Two if by Sea


Na terça fui ao que é considerado o restaurante mais romântico de NYC: One if by Land, Two if by the Sea. O jantar estava marcado para as 8:30 e ainda tinha que ir a casa deixar o computador. Sem tempo para mais nada, saí a voar de casa e não tinha nada que enganar. Era somente entrar na 116 e sair na Cristopher St. Como a minha carteira era pequena, não levei sequer um livro para ler no metro mas levei o ipod. Pelos cálculos do google maps demorava apenas 26 mns a chegar. Saí 30 mns antes de casa. Mas nem assim! Quando reparo, era para sair... mas já não fui a tempo... continuei até à próxima paragem: Houston st. Saí e voltei a entrar para regressar à paragem onde deveria ter saído. Chego à rua do restaurante e reconheci a entrada. Lá vou eu toda contente, já uns minutos atrasada (teria tudo corrido bem se saísse onde devia), e espreito através da janela, vejo uma porta e entro.. era a errada.. mas fiquei logo junto aos sofás onde eles estavam à minha espera. Copo de vinho no restaurante: 14 dólares!! Copo não, aquilo parecia mais um shot. 

O ambiente era intimista, um piano ao fundo, lareiras, pouca luz (aquela que a Blanche do “Eléctrico chamado desejo” havia de gostar). Tenho a dizer que havia toalha de pano na mesa. A coisa prometia! Em NYC toalha de pano já é um bom indício. Flores naturais. As nossas acho que eram rosas mas podiam também ser camélias... provavelmente estou a dizer uma grande asneira.  A minha mãe fica sempre muito triste por causa desta minha falta de conhecimento em relação às flores e às plantas em geral. Eu tento, juro que tento, mas a minha indiferença não muda. Cada um é para o que nasce! Continuando, prato para o pão e faca de manteiga, outro sinónimo de luxo cá! Trouxeram o pão que nos foi servido com talheres directamente de um grande tabuleiro: um parecia um pão de leite e o outro parecia um pão saloio mas bastante salgado, eu gostei. Quando cheguei já sabia o que escolher: Chestnut Tagliatelle (entrada), Risotto Beech Mushroom (prato principal) e Meyer Lemon Tart (sobremesa). A massa estava muito boa, al dente, mas não consegui perceber o sabor das castanhas. O rissotto estava no ponto, cremoso e achei até demais. Partilhei com a N. Braised Short Rib que foi do melhor que já comi no que respeita à qualidade do produto e confecção. 

A bomba da noite foi a tarte de limão, que apesar de parecer pequena na foto, era mais que suficiente. Bastante doce a contrastar com o amargo do limão e depois suavizado com o gelado. Excelente escolha. Foram umas horas muito bem passadas porque o nosso tempo foi dividido entre longas conversas (é verdade que os portugueses falam muito e têm sempre assunto), e em adivinhar o que as diferentes mesas estariam a fazer. A mesa a que dedicamos mais atenção estava com um casal com umas flores diferentes de toda a sala, a combinar com o pullover do suposto noivo e com o vestido da suposta noiva. As nossas apostas eram para que ele ia oferecer-lhe o anel... Ele bebeu sempre chá, depois veio champanhe... e depois veio a conta... Quando ele olhou para a conta (enquanto ela foi à casa de banho) até se engasgou. O que reparamos é que todo o molho de notas que tinha na carteira foi para o jantar. Se houve anel ou não, não o vimos....


Photo by Neide Vieira

Photo by Neide Vieira

O que veio depois do pão 
Photo by Neide Vieira

Chestnut Tagliatelle
venison ragout, pecorino ginepro
Photo by Neide Vieira


Beech Mushroom Risotto
castelmagno, superfino carnarolli
Photo by Neide Vieira


Braised Short Rib
kombu dashi, korean glaze, local radishes, sticky rice
Photo by Neide Vieira

Meyer Lemon Tart
meringue, hibiscus sorbet, pâte sucrée
Photo by Neide Vieira





sábado, 4 de fevereiro de 2012

Sábado em NY


Hoje a temperatura convidava a aproveitar a cidade. Temperatura amena para esta altura do ano, a rondar os 8ºC, sem chuva e sem neve. O meu plano era ir a Washington Square e depois ir a pé até Union Square. Acho que nunca vou atinar com o metro. Não sei o que me dá quando chego à plataforma, o primeiro metro que vejo, entro. E claro, dá sempre mau resultado. Mudança de planos, fui directamente para Union Square, o que implicou uma mudança de linha e depois fui a pé para Washington Square. Em Union Square tinha (fiquei hoje a saber que fechou) uma loja enorme que tinha uma vista espectacular sobre a praça. Dei meia volta e fui andar pela praça. Hoje havia o GreenMarket (todas as segundas, quartas e sábados) em que se vende produtos orgânicos de todo o tipo. Mas o que achei mesmo mais interessante foram os desenhos e as pinturas que por lá vi. Bem baratas, em constraste com a turística Times Square, e com qualidade. As compras tiveram que ser adiadas porque ainda ia passar por uma livraria e ainda tinha que ir ao laboratório antes de voltar para casa. 

Depois fui à Strand, que é uma livraria, como eles dizem, independente e com 18 milhas de livros. É uma verdadeira perdição, principalmente a secção de livros usados e as t-shirts. Acabei por sair uns Kgs mais pesada. Em seguida fui pela 5ª Avenida até Washington Square, onde nunca tinha estado. É talvez a zona mais emblemática da NYU (New York University) e tem o famoso arco, de onde se pode ver o Empire State Building. Tarde passada, a noite a chegar, fui ao laboratório (o que tenho agora que fazer diariamente). Estes dias são apenas por precaução, quem sabe o que é um liofilizador... é só para me certificar que não explode!! A partir de terça será para alimentar as células e rezar para que elas consigam simular o batimento cardíaco. Amanhã, para exercitar o corpo e a mente (ahahah, a precisar muito, principalmente desde que deixei de fumar) começo as aulas de yoga e pilates. Os fins do dia de domingo serão dedicados à yoga e os de quarta a pilates.

Washington Square ao fim da tarde

Pianista em Washington Square

As compras de hoje na Strand

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Lab meeting


Semanalmente temos a reunião de grupo do lab. Vai toda a gente, desde alunos de doutoramento, estagiários, postdocs, internos e a chefe, claro. Quando estive cá na primeira vez, as reuniões eram à sexta, às 9 da manhã. A chefe trazia o pequeno-almoço para toda a gente. Era vê-la no metro carregada de sacos cheios de fruta, baguetes (daquelas mesmo boas da loja gourmet), presunto, queijos, fiambre e sumos... Eu detestava que fosse à sexta e principalmente às 9... A quinta à noite em NYC é a melhor! Quantas vezes fiquei em casa porque não aguentaria uma directa (a idade começa a pesar...eu sei). [A respeito da idade que tenho e da idade que aparento ter. Estávamos um dia destes a jantar no Bard (Meal Plan) quando uma miúda se sentou e começou a falar que era aluna do programa MD/PhD e tal, a C. lá lhe diz que também é e quando chega a minha vez lá lhe digo que sou Postdoc, ela fica admirada e a C. (com o seu bom feitio) diz-lhe: "Ela não aparenta mas já é velha!!! E a miúda, simpática, lá respondeu que não parecia...]. 

Voltando às reuniões de grupo, agora são à hora de almoço à quinta. Já não temos direito a pequeno-almoço mas a muita fruta. Eu sou a única que não toco em nada. Sou daquelas pessoas que não come feijoada, nem ovos ao pequeno-almoço mas também não come fruta a substituir o almoço. Tal como não como com colher o que é para comer com garfo, nem como só com um talher... E acho que não tem jeito nenhum comer fruta antes do almoço.

Mas o que eu queria realmente falar era do comportamento demasiado “cool” desta gente. Se fosse no meu lab em Portugal "caía o Carmo e a Trindade". Há uma meia dúzia de pessoas que vai para as reuniões e comportam-se como se estivessem na praia. Deitam-se nas cadeiras, alguns dormem, quando se servem de comida é como se não houvesse mais ninguém, não têm maneiras e raramente dizem obrigado. Não me parece que seja uma coisa cultural porque já estive noutro laboratório, noutra cidade, nos Estados Unidos. Mas aqui há demasiado à-vontade. A chefe marca uma reunião para determinada hora e nunca chegam a tempo, coisas assim. Eu sempre fui terrível com as horas mas no que respeita a trabalho, posso não dormir, mas à hora marcada estou lá. Quanto aos restantes eventos, sou como a Susan Sontag, chego sempre tarde "menos à ópera e para apanhar um avião" e como ela dizia as pessoas deviam andar sempre com um livro para ler enquanto esperavam.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

WIT


Na sexta-feira fui ver  a peça “Wit” no Samuel J. Friedman Theatre. Eu não conhecia a peça mas a C. disse-me que os alunos de Medicina viam o filme nas aulas de Bioética e disse-me também que no filme entrava a Emma Thompson e que os médicos eram representados como “os maus”. Decidi comprar os bilhetes porque a actriz principal era a Cynthia Nixon, que ganhara o Tony Award pelo “Rabbit Hole” (que foi posteriormente adaptado para cinema e com o qual a Nicole Kidman foi nomeada para o Óscar de melhor actriz). 

Ainda antes de ver a peça, comprei o livro da Margaret Edson pelo qual ganhou o prémio Pulitzer. Bem, a peça é sobre Vivian Bearing, Ph.D., uma excelente professora de inglês, a melhor na sua área, que passou anos a estudar e a ensinar os brilhantes e difíceis sonetos de John Donne. A peça começa com o diagnóstico de cancro terminal. Vivian uma mulher de 50 anos, determinada, sem medo e forte que sempre se dedicou ao estudo e à profissão. “After twenty years, I can say with confidence, no one is quite good as I”. Há algumas partes hilariantes quando vai fazer um Raio-X e lhe perguntam o nome e a seguir: "Doctor” e ela responde: “Yes, I have a Ph.D.” e o técnico diz-lhe: “Your Doctor!”. Mais à frente percebemos que um dos médicos foi aluno dela: “Professor Bearing was very highly regarded on campus. It looked very good on my transcript that I had taker her course. They even asked me about it in my interview for med school. I survived Bearing’s course. Yeah, John Donne, those metaphysical poets, that metaphysical wit. Hardest poetry in the English department. A pergunta mais repetida é: “Professor Bearing, how are you feeling today?”. No decorrer dos 8 meses de tratamento experimental Vivian diz aprender a sofrer. Fala do quanto é difícil a proctosigmoidoscopia mas que ver-se sem cabelo e descalça é o pior. Sim, e acha também degradante os exames pélvicos efectuados pelo antigo aluno. A forma como são representadas as “Grand Rounds” é notável. As descrições exaustivas dos tratamentos e da manifestação da doença: “Grand Rounds is not Grand Opera. But compared to lying here, it is positively dramatic. Full of subservience, hierarchy, gratuitous displays, sublimated rivalries - I feel right at home. It is just like a graduate seminar. In Grand Rounds, they read me like a book. Once I did the teaching; now I am taught”. Vivian sobrevive a 8 sessões de tratamento experimental com dose máxima, superou o record. Como os médicos dizem durante a peça: “She´s tough. She can take it”. Depois, vê-se  o confronto entre humanidade vs profissionalismo, humanidade vs investigação. O que é mais importante? O que lhes é ensinado na Universidade? E ela própria percebe como foi insensível numa das cenas com um dos alunos dela em que este lhe pede um adiamento para a entrega de um paper, numa analepse: “Don´t tell me. Your grondmother died.”, ao que o aluno responde: “You knew” (coitadinho, que crente..). E ela responde: “It was a guess. Do what you will, but the paper is due when it is due”. 

Com o evoluir da doença e do sofrimento, Vivian consegue perceber a humanidade que tanto lhe faltou durante a vida e que ela agora, sozinha, tanto ambiciona: “The young doctor, like the senior scholar, prefers research to humanity. At the same time the senior scholar, in her pathetic state as simpering victim, wishes the young doctor would take more interest in personal contact…the senior scholar ruthlessly denied her simpering students the touch of human kindness she now seeks”. O momento catártico da peça é quando ela está em sofrimento agoniante. A cena está tão bem interpretada que ela até chora: "I want to explain it, to use my words…I’m like a student and this is the final exam and I don´t know what to put down because I don´t understand the question and I´m running out of time. I am in terrible pain… Oh God, it is so painful. So painful. So much pain. So much pain.”. Sabem que mesmo as pessoas que não são crentes na hora do desespero chamam sempre por Deus?. Mas sabem o mais irónico, o médico chega ao quarto e vê esta agonia e sabem o que pergunta: “Dr. Bearing are you in pain?”. Ao que Vivian responde: “Am I in pain? I don´t believe this. Yes, I´m in goddamn pain. I have fever of 101 spiking to 104. And I have bone metastases in my pelvis and both femurs. (Screaming). There is cancer eating away at my goddamn bones, and I did not know there could be such pain in this earth”. Numa das últimas cenas, Vivian já não responde devido à morfina, quando o médico lhe pergunta:”How are you feeling today?”. Na parte final, enquanto o médico (antigo aluno de Vivian) muda o cateter com a enfermeira fala: “She was a great scholar. Wrote tons of books, articles, was the head of everything...I had a lot of respect for her. She gave a hell of a lecture. No notes, not a word out of place. It was pretty impressive. A lot of students hated her, though. She wasn’t exactly a cupcake. It felt more like boot camp than English class...”. E a peça acaba de forma surpreendente, pensavamos nós que teria sido uma diferença em relação ao livro, afinal não. O final é exactamente o mesmo.

Depois da peça vi o filme e acho que algumas das partes dramáticas estão melhor representadas na peça (Cynthia Nixon) relativamente ao filme (Emma Thompson). Concordo, contudo, com a C. que a ironia é muito mais bem interpretada pela Emma Thompson. Comparações à parte, não posso deixar de me queixar do público. Ó pá, nunca vi gente tão mal comportada no teatro. Esta gente vai a uma peça dramática, sim, repleta de cenas de ironia, mas não é para rir feitos tolinhos... Eu até estava a sentir-me incomodada. Apetecia-me pregar dois murros ao gajo sentado ao meu lado. As pessoas, não distinguem uma comédia hilariante de um drama com alguma ironia. Claro que há partes que dá para rir muito... mas não é sempre. Aqui está outro dos exemplos do excesso de barulho desta cidade. Mas depois proíbem as pipocas nas salas de cinema....

Photo By Boneau/Bryan-Brown

Photo By Boneau/Bryan-Brown






sábado, 28 de janeiro de 2012

Antony and the Jonhsons: SWANLIGHTS Performance


Eu sou o que se chama “ignorante” quando o assunto é música. Quase não oiço música. E a pouca música que oiço é quase sempre a mesma há muitos anos. De vez em quando, muito raramente, lá oiço qualquer coisa nova que me mostram e adiciono à minha lista. Não consigo fazer nada, que exija concentração, com música. Nunca fiz parte dessa percentagem de pessoas que conseguia estudar com música, ou escrever, ou adormecer... A única altura em que oiço música é quando conduzo (e muito pouca, porque normalmente prefiro ouvir notícias), ou quando corro (também, infelizmente, muito raramente), e deixei de o fazer enquanto andava de metro (já não o faço mais porque aprendi a não ficar enjoada enquanto leio). 

Tudo isto para dizer que fui ver o Antony Hegarty (mais conhecido como Antony and The Johnsons) ao Radio Music City Hall. Gostei desde sempre da voz dele. Quando soube que ia fazer uma performance única em NYC com o patrocínio do MoMa quis desde logo ir. O espectáculo chamou-se “Swanlights”. O Antony tocou com uma orquestra a que ele chamou “The Jonhsons New York Orquestra”  e apareceu vestido com uma espécie de túnica branca, uma mistura de vestido de diva e a túnica de Jesus, quase sempre sozinho no centro do enorme palco. O cenário estava lindíssimo. Tinha um mobile gigante que mudava de cor durante o espectáculo, havia vários jogos de luzes e lazers. Durante a maior parte da performance não se viu a orquestra e mais para o fim  uma das cortinas subiu e mostrou a orquestra que estava no fundo do palco. Ele escolheu as canções mais contemplativas. Ao contrário do que é habitual, o público manteve-se extremamente calado, como o espectáculo exigia, aplaudindo apenas entusiasticamente no fim de cada música. Foi um concerto coeso, concentrado, pequeno...curto, como a vida. E ainda mostrou que o pop, para além de ser uma corrente muito forte na arte, pode transformar-se em poesia, quando o assunto é música. Antony fez da música da Beyoncé “Crazy in love” parecer um poema: “Got me hoping you’ll save me right now”.

Após a última música, ele abandonou o palco e as cortinas fecharam-se. O público bem insistiu durante uns cinco minutos para que voltasse... Como anti-pop que é, não usou o vulgar truque do encore, e não voltou.  
Foi mágico! Visualmente inesquecível! Estou comovida com o Antony, com o som, com a orquestra, e as instalações. Isto só podia ter acontecido em NYC, a cidade onde tudo acontece! Tantas tribos, tão diferentes. Nunca me senti tanto em NYC como nesse dia..

Photo By Neide Vieira

Photo By Neide Vieira

Photo By Neide Vieira
Photo By Neide Vieira

Photo By Neide Vieira

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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

1 Train (I)

No metro de NYC é onde (quase) tudo acontece. O metro aqui chama-se "train". O que uso todos os dias para ir de casa para o laboratório (e do laboratório para casa) é o "1" que me leva de "Columbia University -116th" até a "Columbia Medical Center - 168th. São apenas 10 minutos e 4 estações (125th, 137th, 145th, 157th).  Tenho muitas histórias para contar, mas há pouco, quando regressava a casa vi, mais uma vez (já perdi a conta), uma mãe com um saco de qualquer coisa tipo "Cheetos"  a partilhá-lo com os filhos. Não posso deixar de mencionar que já era uma hora tardia para os parâmetros americanos (passava das 9 da noite). A esta hora, as crianças já deveriam ter jantado e deveriam estar a dormir. Um dos miúdos não tinha mais de 2 anos e o outro ainda não andava. A mãe, essa, não devia ter mais de 18 anos... E como se não bastasse, o miúdo mais velho ainda estava agarrado a uma garrafa de coca-cola... compreendo, depois daquela gordura e daquele sal todo... 

E este episódio de hoje faz lembrar-me outros dois. No ano passado assisti a uma cena semelhante, só que dessa vez, de manhã. Uma mãe com um bebé que não deveria ter mais de 7 meses (ainda nem dentes tinha, nem um!!) dava-lhe batatas fritas de pacote!!!  Era ver o menino (sem dentes, não esquecer) a amolecer as batatas fritas para as conseguir engolir, e com um ar muito satisfeito. Até que, o pior aconteceu, o menino engasgou-se!!!! Pudera!!! E o que fez a mãe?! Virou-o de pernas para o ar e era vê-la a sacudir o menino!! A batata entalada lá saiu e o menino continuou na sua degustação. Alguns dias depois lembro-me de ter contado esta história à C. Ela não ficou muito surpreendida e disse-me: "Quando estava no Texas vi uma mãe com um bebé de colo a dar-lhe coca-cola! 

E depois de tudo isto, se os meus sobrinhos imaginassem que os meninos da idade deles podem beber coca-cola e comer batatas fritas, nunca mais me falariam! Eles sabem que o mundo da coca-cola está a anos luz...mas sabem o que estão a perder, porque apesar de nunca ninguém lhes ter permitido provar tão secreta bebida (que eles sabem que o pai e a tia são viciados) foram já apanhados no saco da reciclagem a tentar que o resto de uma gota dentro de uma garrafa lhes caísse na boca!!!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O barulho


Os americanos têm regras para tudo menos para uma coisa: o barulho. Em NYC a coisa ainda piora. Mesmo com o cair da noite não há regras: os carros continuam a buzinar, as ambulâncias, polícias e os bombeiros continuam com as sirenes ligadas. Ainda não consegui distinguir quando as pessoas estão a gritar porque lhes aconteceu alguma coisa ou porque deve ser moda....E eu, que nunca tive problemas em adormecer, no pouco tempo que durmo, vejo-me agora a "contar estrelas depois que o dia nasce". 
No entanto, é a cidade que proíbe que se fume até em sítios ao ar livre (Exs: Central Park e muitos outros parques, Times Square, esplanadas de cafés e restaurantes, zona à volta dos hospitais, junto a edifícios públicos...). Não esquecendo, claro, as próprias casas. Podemos ser os detentores do aluguer mas continuamos a não poder fumar. Em Houston costumava fumar na cozinha por baixo do exaustor que era a única maneira do fumo não ser detectado. Agora, eu que já não fumo, vejo imensos vizinhos ou à janela ou nas escadas de incêndio (que basta abrir a janela e saltar para lá). Estou contente pela democracia existente neste prédio. Nunca vi tantos fumadores por metro quadrado, apesar de não ter visto mais de 4!!! Mas acreditem, para a amostragem, é um valor significativo! Ah, claro, não podia esquecer a regra ridícula de não se poder transportar garrafas de álcool (visíveis) ou bebê-lo na rua. Todas as garrafas têm que ser transportadas tapadas, de preferência, dentro de sacos de papel e mais um saco de plástico (contribua-se para a poluição do mundo). 

Restaurant Week - Spice Market



Entre 16 de janeiro e 10 de fevereiro decorre  a edição de inverno do Restaurant Week New York.  Ontem fomos pela  primeira vez a ementa do Restaurant Week deste ano. A escolha do almoço foi: Spice Market no Meatpacking District. O restaurante é muito bonito, dividido em 2 pisos enormes e com uma iluminação que a Blanche do “Um eléctrico chamado desejo” adoraria: “lâmpadas com quebra-luz" (Ela detestava luz demasiado forte, ao que ela dizia: “Não quero ser vista debaixo desse clarão impiedoso"). A entrada que escolhi foi "Spiced Chicken Samosas Cilantro Yogurt" Aqui ficam as fotos do prato principal e da sobremesa:

Grilled Beef with Rice Noodles 
Pho Broth, Asian Vegetable

Pineapple Upside Down Cake 
Basil Ice Cream, Pineapple Sorbet 


sábado, 21 de janeiro de 2012

"Botar o preto no branco"

Hoje lembrei-me desta história enquanto andava debaixo de neve ali para os lados do Lincoln Center. Há uns anos atrás a Adriana Calcanhotto contou que a maior cantada da vida dela tinha sido quando era adolescente em Porto Alegre: «Eu vinha da escola com os livros na mão, e naquela época eu era tão branca como sou hoje, e eu vi um menino muito preto encostado na parede que  me diz: "E aí, se a gente botasse o preto no branco?"».

A casa de banho de Bryant Park


Ontem fui jantar com a C. a um restaurante indiano Chola.  Há muito que me apetecia comer comida indiana de boa qualidade (toda a gente sabe o resultado da ingestão deste tipo de comidas impróprias para consumo...). Comemos muito bem: naan (pão indiano), CHICKEN CHUTNEYWALA, SAAG PANEER (espinafres com queijo), regado com Sam Addams. Depois deste repasto a única alternativa era andar a pé. Era uma das noites mais frias do ano, e que estava anunciado que a partir da meia-noite iria nevar. Como o restaurante era na 58 com a 3ª Av resolvemos andar até à 42 pela Park Av. Vamos a meio do percurso e comunico à C. que a minha bexiga  está a dar horas. Tentamos a Grand Central mas pelo tardar da hora, as casa de banho já estavam fechadas. Os Starbucks por essa hora já estavam todos fechados. Tentamos a 2ª hipótese: Bryant Park onde nesta altura do ano tem a pista de gelo. Num dos recantos escondidos do jardim encontramos um edifício antigo, discreto, e qual não é o nosso espanto quando entramos e vemos aquele aparato. Foi talvez a melhor e mais limpa casa de banho que entrei em NY. Jarro enorme de flores verdadeiras, música clássica e tudo impecavelmente limpo. Aqui fica a sugestão para os turistas. E lá caminhamos até Times Square para o metro que nos levaria a casa. 


Crysler building ao fundo



Times Square ontem à noite

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

E esta sou eu...

Tenho uma amiga aqui na Grande Maçã que para além de ser muito mais nova do que eu, diz-se que vai ser médica e tem um humor apuradíssimo. Eis como me apresenta às outras pessoas: "AM, mais de 30 anos (não se diz a idade de uma senhora). Bracarense de gema. Conhecedora de bons sítios para comer e beber. Trabalha em Caldas das Taipas, local que adora do fundo do seu coração. Vem de vez em quando para Columbia com a desculpa que faz experiências... pois.  Mas o que ela quer realmente é andar por NYC a fazer um guia dos tascos (Moleskine preto)".  

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Obama vs Vinícius


Vinícius de Moraes, muito resumidamente, inventou a bossa nova, e depois largou a bossa nova e inventou os afro sambas, e depois largou os afro sambas e foi diplomata, e largou a gravata, e aí foi expulso. Esta história é contada pelo próprio Obama nas memórias dele. A mãe do Obama com 16 anos de idade viu o filme do Marcel Camus “Black off”, o filme baseado na peça de Vinícius de Moraes “Orfeu da Conceição” que é um orfeu negro. A mãe do Barack Obama, uma mulher branca nos Estados Unidos, numa época em que os negros tinham que dar lugar aos brancos no autocarro. Ela apaixonou-se por esse filme, por aquela possibilidade que o filme promete. Então, a mãe do Barack Obama teve um filho com um homem negro do Quénia. Tudo isto para dizer que se não fosse o Vinícius de Moraes não haveria o primeiro presidente negro nos EUA.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Por que você faz cinema?


Em Maio de 1987 o jornal francês “Liberation” fez a pergunta “Porquois filmez-vous?” ao cineasta brasileiro Joaquim Pedro de Andrade, ao que ele respondeu:

«Para chatear os imbecis, para não ser aplaudido depois de sequências dó de peito. Para viver à beira do abismo. Para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público, para que conhecidos e desconhecidos se deliciem. Para que os justos e os bons ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo. Porque, de outro jeito a vida não vale a pena. Para ver e mostrar o nunca visto, o bem e o mal, o feio e o bonito. Porque vi “Simão no deserto”. Para insultar os arrogantes e poderosos quando ficam como “cachorros dentro d'água” no escuro do cinema. Para ser lesado em meus direitos autorais».

Embora eu esteja sempre muito mais interessada nas perguntas do que nas respostas, esta foi das melhores respostas que li na vida.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O Starbucks (I)


O Starbucks, antes de viver cá, era para mim um lugar de peregrinação. Era viciada, ao chegar aos Estados Unidos, em pedir “medium decaf latte”. Percebi com a experiência e com os anos vividos cá, deste lado do oceano, que não é o melhor da sua área, na minha opinião. Mas desde sempre a minha opinião foi imutável no que respeita ao conceito democrático deste café. É um sítio onde as pessoas podem ficar o dia todo, protegerem-se do frio/calor, permanecer sem consumir e até usar a casa de banho sem ser cliente. Desde o ano passado, em que me mudei para NY no inverno, passei a respeitar ainda mais o Starbucks. Passei inúmeras horas no Starbucks da 110 com a Broadway. Este ano, por razões bem diferentes volta a ser o meu local de eleição, depois do trabalho e aos fins de semana, enquanto não tenho internet em casa. Hoje está uma noite amena para os parâmetros do inverno de NY, e por isso, o Starbucks da 110 está com muitos lugares vagos. Se estivesse muito frio estaria a abarrotar, sobretudo com pessoas que não têm casa. Fiquei comovida no ano passado quando num dos dias de muito frio vi os sofás e as cadeiras ocupados por pessoas que viviam na rua. E ninguém os mandava embora. É isto que gosto no Starbucks: tribos tão diferentes. E depois é observar a solidão tão entranhada de NY. Pessoas que estão aqui para não estar sozinhas em casa. Depois há os estudantes e os intelectuais que podem passar aqui o dia inteiro. Vê-se também pessoas a jogar cartas. E eu gosto particularmente deste porque é maior, tem muito menos gente do que o Starbucks da 116 (que é mesmo ao lado de minha casa) e porque posso andar a pé.

Buraka Som Sistema


Mais uma vez no Bowery Ballroom a noite prometia. O programa começou com um DJ daqueles de fio de fora, com uma música muito má, na minha opinião. Sobretudo música suburbana (em Portugal mais conhecida por música “carrinhos de choque”). Mas lá tive que o ouvir durante mais de uma hora. O que eu estava mesmo curiosa era ver os Buraka pela primeira vez. E valeu muito a pena a espera.  A vocalista parecia que tinha tomado qualquer coisa ilegal. Estava eléctrica e chegou até a dançar o "créu". Para quem não conhece aconselha-se a elucidação via youtube. Queria postar uns vídeos mas não estou a conseguir. Existem alguns no youtube para quem for mais curioso(a).



segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Faça você mesmo

Repito a mesma experiência de há uns anos atrás. Parece que foi ontem mas já foi em 2006! Quando vivi em Houston mobilei a casa duas vezes. Tudo comprado do zero. Hoje, passados quase 6 anos, volto a fazer o mesmo. Mudou apenas a cidade. Só que desta vez foi bem mais fácil porque não envolveu a minha ida a lojas. Tudo foi comprado pela internet. Foi nessa altura que entrei pela primeira vez no IKEA. Saí à mesma velocidade que entrei. Limitei-me à lista que levava na mão e não olhei para mais nada. Dessa vez não foi uma experiência má. Passados uns anos, no último verão, voltei a entrar no IKEA, numa cidade diferente. Muitas das pessoas que me conhecem começam agora a dizer que o defeito não é da loja mas da cidade.... Adiante, jurei que nunca mais. A experiência foi tão má que saí de lá com uma dor de cabeça que não me passou com nada!!! E acabei por não trazer quase nada do que me propunha porque não encontrei metade... Perdoem-me os defensores do IKEA mas para mim não dá. Para mim resultaria muito bem se as vendas fossem online e se não tivesse que entrar lá e suportar aquela música, que tal como quase todas as lojas em Portugal, só serve para poluir. Nunca percebi este excesso de música no mundo, música no elevador, música nas lojas, música nos hotéis, nos cafés... para quê? Termino com 3 fotos de fases diferentes e que prova que até eu sou capaz de o fazer!







domingo, 15 de janeiro de 2012

A saudade


Numa das minhas viagens Lisboa – NY fiquei naqueles lugares que toda a gente ambiciona, que ficam imediatamente a seguir à business class. Consegui pela primeira vez, desde que ando de avião, um desses lugares. São espaçosos e pode estender-se as pernas. Disseram-me, depois, que tive sorte de não apanhar uma família com os seus filhos chorões... mas de facto, isso não aconteceu. Ao meu lado ficou uma menina (julgava eu não ser maior de idade) com aquele aspecto de quem vai fazer o último ano do secundário na escola americana e viver em casa de uma família. Saberia eu depois, que isso também não correspondia à verdade.
Eu sou daquelas pessoas que joga no campeonato dos que quase morrem de medo de andar de avião. Acho desconfortável, temível, incontrolável... acho sempre que é um desafio à natureza.... Mas tento sempre abstrair-me e ocupar-me com o maior número de coisas porque nunca durmo. Tentei uma vez dormir (por indução do sono) há alguns anos atrás. Numa viagem Frankfurt- Xangai viajava com mais 3 amigas e também colegas mas tive o azar de ficar separada delas. Como a viagem demorava 12 horas resolvi tomar 1 victan. Não fez efeito... Na viagem de regresso em vez de 1 tomei 2. Não sei o que aquilo provocou em mim....fiquei num estado tal que achavam que eu tinha morrido, inclusivé, acharam que eu tinha aberto a testa tal foi a força com que bati com a mesma naquelas mesas que abrem no avião... Tudo isto para dizer que a partir desse dia passei a não determinar as acções do meu corpo. Como quase sempre, também nunca durmo na noite anterior a viajar (que novidade... muita gente acha que não durmo, de todo, e que estou acordada em quase todos os fusos horários).  Como, quase sem excepções, não falo com a(s) pessoa(s) que viajam ao meu lado (corroborando a minha fama de anti-social). Desta vez foi diferente. A menina que viaja ao meu lado, chamada R, e que já não era tão menina assim, demonstrava um aparente entusiamo de quem sai de casa dos pais pela primeira vez.  Passados uns minutos do avião ter levantado começo a reparar que a R. está a chorar incontrolavelmente. Não aquele choro histérico, mas um choro silencioso, de quem tem vergonha de estar a sentir o que ela estava a sentir naquele momento. As lágrimas eram tantas que lhe molharam os joelhos. E ela chorava silenciosamente ao ler o que me parecia ser uma carta que ela retirara de um envelope. Disse-me mais tarde que tinha sido a mãe a escrever. Tentei ignorar porque achei que aquilo passaria com o terminar da carta. Não só não terminou, como piorou quando abriu um caderno. Não tive como não ver. O caderno estava cheio de orações e com santinhos colados. Pensei para mim “Afinal esta miúda não vai terminar o secundário numa escola americana... é mormon e vai dedicar um ano da vida dela a fazer o que os mormons fazem na idade dela”. Não podia estar mais enganada. Duas tentativas de adivinhar falhadas. Não a podia ignorar. Perguntei-lhe se precisava de ajuda, se havia alguma coisa que eu pudesse fazer. Contou-me que não era a primeira vez que viajava para os Estados Unidos, que já tinha passado uma temporada de 6 meses no final do mestrado. Regressava, agora, para um curso de 4 meses numa prestigiada universidade. Contou-me que chorava de saudade, que tinha passado 6 meses em Portugal depois dos 6 meses nos Estados Unidos. Compreendi-a tão bem. Por melhor e por maior que seja o desafio destas etapas na nossa vida profissional, por mais excitantes que sejam as cidades para onde nos mudamos, por muito que essas experiências enriqueçam o nosso CV, por mais amigos que tenhamos, não há nada igual à nossa casa. E eu, que tenho sempre o coração apertado quando saio de Portugal, arranjei forças onde não as tinha, e tentei convence-la que tudo ia correr bem e que é assim mesmo: a saudade. Essa palavra tão portuguesa e que não se consegue traduzir noutra língua. 


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