sábado, 7 de abril de 2012

The High Line

Este é o lugar que mais gosto de NYC. É um parque suspenso que aproveita uma linha férrea desactivada, com 2.53 Km que vai de Gansevoort Street (um quarteirão abaixo da 12th Street - Meatpacking District até à 30th Street-Chelsea). Abriu em 2009 e tem uma vista maravilhosa sobre o rio Hudson, ruas, edifícios...E depois é mesmo um parque para as pessoas o aproveitarem. Tem espreguiçadeiras, cadeiras, bancos e mesas ao longo de todo o percurso. Não há fotografias nem palavras que descrevam a beleza deste parque. Tem também outra coisa curiosa, uma espécie de anfiteatro em madeira sobre uma das ruas para as pessoas "observarem o ambiente". Depois existe a obra de arte mais fotografada da High Line, a peça da artista plástica Sarah Sze "Still Life with Landscape (Model for a Habitat)".


Anfitiatro suspenso com vista para uma rua

Vista sobre uma das ruas do anfiteatro suspenso 

IAC building (Frank Gehry)

Edifícios em Chelsea

Empire State Building visto do High Line
 


"Still Life with Landscape (Model for a Habitat)"
Sarah Sze

"Still Life with Landscape (Model for a Habitat)"
Sarah Sze

Empire State Building visto stravés da peça "Still Life with Landscape (Model for a Habitat)"
Sarah Sze

Vista do High Line

Vista do High Line


MoMA

Mais do que que a coleccão, que faz do MoMA um dos melhores museus de arte moderna do mundo, gosto do espaço e da arquitectura. É impressionante a colecção de quadros do Mondrian e do Polock, só para dar 2 exemplos. Tem também os mobiles do Alexander Calder. Consta-se que Calder inventou os seus mobiles após uma visita ao estúdio de Mondrian. Repare-se como reduziu os elementos que compõem as suas peças a formas simples, de limites precisos, pintados de negro, branco ou cinzento, que limitam a estimulação visual essencialmente ao movimento, liberto assim de qualquer outro estímulo. Os exemplos de Calder e Mondrian são dos mais estudados em neurociências pelo estímulo visual das cores  e pela simplicidade.





Frida Khalo
Frida Khalo

Lygia Clark


Mondrian

Rothko


Andy Warhol


Metropolitan Museum of Art

O Metropolitan é um museu gigantesco. Já o visitei várias vezes e acho que ainda não o conheço todo. A colecção do museu parece não acabar desde os túmulos egípcios, às porcelanas de todas as partes do mundo com o meu pessoal destaque para a Companhia das Índias, a colecção de jóias, as mobílias, as pinturas impressionistas, as colecções de roupas. Foi lá que vi a magnífica exposição do Alexander McQueen “Savage Beauty” e só aí percebi  a grandeza do seu talento. Na primavera e verão abre o Iris and B. Gerald Cantor Roof Garden que é um dos bares com melhor vista de NYC.

Já experimentei um dos restaurantes do museu The Petrie Court Café and Wine Bar que é caro como tudo. Mas vale pela vista. Eis a bruschetta que comi da última vez:



Vista do "Roof Garden"

Vista do "Roof Garden"

Truman Capote


Do grande Mondrian


Eis o que queria ter visto lá mas ainda não encontrei:

"The Great Wave" do japonês Hokusai

"Sunset in Venice" do Monet

"The son of Man" do Magritte

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Eric Kandel @ 92Y

Tenho estado ausente. Os meus pais estiveram cá e quase não tive tempo para nada. Estou a preparar os posts com os melhores lugares da "Grande Maçã" e tenciono postá-los ASAP.
Ontem fui assistir a uma palestra do Eric Kandel no 92Y moderada pelo Alan Alda.
92nd Street Y (92Y) é uma instituição cultural multifacetada e um centro comunitário localizado no Upper East Side (UES) na esquina da E. 92nd Street e a Lexington Avenue. Foi fundada em 1874 como Young Men´s and Young Women’s Hebrew Association por profissionais e homens de negócios judeus alemães. Esta instituição guia-se pelos principios judeus mas acolhe todas as pessoas de diferentes raças e crenças. Anualmente , mais de 400000 pessoas vão ao 92Y. Diversos programas acontecem incluíndo palestras e discussões, educação e cultura judia, concertos de música clássica e jazz, de dança, filmes, entre outros.

Eric Richard Kandel é psiquiatra, neurocientista e professor de bioquímica e biofísica em Columbia University College of Physicians and Surgeons. Kandel licenciou-se em Medicina e especializou-se em Psiquiatria mas abandonou a prática clínica para se dedicar à investigação em Neurociências. Eric Kandel nasceu em Viena, Austria em 1929 numa família judia de classe média e foi para os Estados Unidos na invasão nazi. Licenciou-se em Medicina na New York University (NYU) e naturalizou-se americano. Foi galardoado com o Prémio Nobel de Fisiologia/Medicina em 2000 pelas descobertas envolvendo a transmissão de sinais entre células nervosas no cérebro humano. É autor de vários livros científicos e dos últimos: “In Search of Memory: The Emergence of a New Science of Mind”, The Age of Insight: The Quest to Understand the Unconscious in Art, Mind, and Brain, from Vienna 1900 to the Present".

Alan Alda é um premiado actor e realizador americano. É conhecido pela série "MASH" e foi nomeado para o Oscar de Melhor Actor Secundário pelo “Aviator”.
Ontem a discussão foi essencialmente  sobre o mais recente livro de Eric Kandel, que explora como em Viena em 1900, cinco das mais explendorosas mentes, das mais diversas áreas, da medicina, à psicologia e pintura, de Sigmund Freud a Gustav Klimt, radicalmente reenquadraram a nossa compreensão de nós próprios e do nosso inconsciente.

Eric Kandel e Alan Alba (Source: 92Y)






sexta-feira, 23 de março de 2012

Found Memories

Ontem tinha de estar às 9 no MoMA para ver o filme "Found Memories - Histórias Que Só Existem Quando Lembradas" da cineasta brasileira Julia Murat que estreava no festival de cinema "New Directors/ New Films".   Fui jantar com o F. ao Meal Plan e ainda tinha que fazer uma leitura de uma placa antes de sair. Claro, conversa mais conversa já eram 8:30.. solução: apanhar um táxi. Pela primeira vez em NYC era uma senhora a conduzir. Comecei a achar que não tinha sido boa ideia... eu disse "MoMa" e toda a gente em NYC reconhece, toda a gente sabe onde é mas ainda tive que dar a morada... Mete-se na West Highway e comecei a achar que ia morrer ali. A senhora não sabia o que era uma recta, estava sempre a mexer com o volante. Quando regressamos ao engarrafamento respirei de alívio. Aí começamos a falar. 

A senhora não entendia quase nada de inglês. Eu pergunta-lhe uma coisa e ela respondia-me outra completamente diferente. Parecia uma conversa de malucos. Ela falava em espanhol e eu respondia em inglês... Mas no meio das conversas sem nexo soube que tinha sido casada com um português do Porto que tinha morrido há 20 anos, aos 44 anos de ataque cardíaco fulminante. E a senhora (que não me lembro o nome, ela disse-me mas tenho este problema grave de não me lembrar dos nomes ou confundi-los) quando eu lhe disse que era de Braga, disse-me que conhecia muito bem, que era tão bonita. E que costumava falar com o marido em português mas que como se tinham passado 20 anos já pouco se lembrava. Dizia ela que era uma língua tão bonita. 

Cheguei às 9 em ponto ao MoMA e a Julia Murat já estava a falar. Coitadinha, nervosa e grávida. E emocionada pelo privilégio do filme ter sido escolhido para o festival. É esta parte que mais gosto aqui. Os realizadores e os actores a falarem sobre os filmes, das histórias que estão por trás deles, de como surgiu a ideia, de como foram seleccionados os actores... Nos primeiros minutos achei o filme um tédio. Um filme quase mudo, pela quase ausência de diálogos, com o silêncio como companhia, escuro, mas com uma fotografia lindíssima. Eu que não percebo nada disso, consegui ser tocada pela qualidade da filmagem. Não demorou muito a ficar completamente rendida. Um filme simples, numa região do interior profundo do Brasil e que me fez ter a certeza que se eu vivesse num lugar assim morreria. Uma dúzia de velhinhos com uma rotina diária quase mecânica, que assiste apenas ao passar do tempo, fazem pão, o café, vão à missa, almoçam juntos. Mas o que mais me tocou, isto tem a ver com as minhas lembranças, foi uma música que eu só conhecia a letra: "quando eu morrer/ não quero choro nem vela/ mas uma fita amarela/ com o nome dela". 

E vou para casa e o que faço? Tento acabar os projectos da FCT... A que horas fui dormir? Quase 8! E a que horas acordei? Às 10 para me mudarem um painel da janela. Penso em ir para o lab e o que acontece? Recebo um email a dizer que o lab está fechado e o acesso aquele corredor, inclusive os elevadores, estão fechados porque alguém entornou 500 ml de mercaptoetanol... eu nem quero imaginar o cheiro. Se os serviços de segurança não permitirem acesso ao lab às 8 da manhã, as minhas células estarão mortas....

Don DeLillo

Ontem de manhã adormeci e acordei atrasada para a reunião de grupo... Não sei porque teimo, quando me atraso, apanhar um táxi de minha casa para o lab. De metro são pouco mais de 10 minutos... mas deve ser psicológico... acho sempre que chego mais rápido de táxi... E para quê? Se as reuniões nunca começam a horas?! Isto sou eu mais a minha consciência... Bem, lá saio eu de casa, atravesso a rua e tento que algum táxi pare. Sempre a mesma aventura. Lá consigo um táxi. Esta semana tem estado bastante quente e o táxi estava com todos os vidros abertos. Eu ia entretida com qualquer coisa (que devia ser um livro) e não estava atenta ao que se passava à minha volta. Sei que o táxi estava parado num dos semáforos e ouço: "É me***, é m****, ca*****!". Levanto a cabeça e olho para a estrada e está um senhor a trabalhar e deveria estar a insultar o colega, que pela cara, não falava a mesma língua. E era do norte, pela pronúncia! Ah, e não tinha dentes! Se não fosse pela idade dele diria que andava metido na heroína...mas neste caso, devia ser mais... copos! 

À noite fui à New School University assistir à entrega do prémio "Story Prize" para pequenas histórias. Os nomeados eram dois escritores que eu não conhecia: Steven Millhauser (que ganhou o prémio), Edith Pearlman, e Don DeLillo. Foi só por causa deste último que fui. E valeu muito a pena.


Winner of The Story Prize Steven Millhauser
[Photo by Beowulf Sheehan]

Finalist Don DeLillo [Photo by Beowulf Sheehan] 

Finalist Edith Pearlman [Photo by Beowulf Sheehan] 

domingo, 18 de março de 2012

Domingo em Astor Place

Quase recuperada da gripe saí de casa em direcção a Astor Place. Acho os edifícios desta zona diferentes dos que são característicos de NYC. Mas o meu objectivo final era uma loja que me tinham aconselhado que se chama Astor Wines & Spirits e eu chamo de "Paraíso dos vinhos". Nunca estive numa loja tão grande de vinhos, com tão bons vinhos e com gente que percebesse tanto de vinhos. Segue o resultado das minhas compras de hoje.






quinta-feira, 15 de março de 2012

Exploring the Creative Process – A Conversation with Siddhartha Mukherjee and Sarah Sze


(Top) Sarah Sze; (Bottom) Siddhartha Mukherjee.

MacArthur Fellow Sarah Sze and Pulitzer-prize-winner Siddhartha Mukherjee are an exceptional couple who have both pursued their professional and creative passions to the top of their respective fields in Art and Science. This evening they are joined by Vishakha N. Desai, President, Asia Society for a wide-ranging and insightful discussion on the creative process.
Sarah Sze was born in Boston, Massachusetts, to Chinese and American parents. She was awarded a bachelor’s degree from Yale University and later a Master of Fine Arts from the School of Visual Arts in New York. Since the late 1990s she has shown her work in numerous international exhibitions in Kanazawa, Lyon, Venice, Melbourne, and Turin. Her notable solo exhibitions and projects include installations at the Whitney Museum of American Art in 2003, Museum of Fine Arts, Boston in 2002, and Museum of Contemporary Art, Chicago in 1999. She is a 2003 MacArthur Fellow.  It was recently announced that Sze has been chosen to represent the USA at the 2013 Venice Biennale. 
Siddhartha Mukherjee is a physician and researcher. His book The Emperor of All Maladies: A Biography of Cancer won the 2011 Pulitzer Prize in general non-fiction. Mukherjee is an assistant professor of medicine at Columbia University and a staff cancer physician at Columbia University Medical Center. A Rhodes Scholar, he graduated from Stanford University, University of Oxford, and Harvard Medical School. He has published articles inNatureThe New England Journal of MedicineThe New York Times, and The New Republic.
Source: Asia Society  New York



terça-feira, 13 de março de 2012

Detachment


É um filme de Tony Kaye, cujo protagonista é  Adrien Brody (“The pianist”). Este filme tem como narrador o próprio Adrien (Henry Barnes) no papel de um professor substituto numa escola pública de NY, com todos os problemas sociais associados. Percebe-se desde o inicio que Henry evita a todo o custo alguma ligação emocional com as pessoas que o rodeiam. No começo, as suas ligações emocionais resumem-se apenas ao avô demente e às memórias que o atormentam. É um filme tocante, comovente, profundo, muito bem filmado e cheio de pormenores. Num determinado momento do filme dá-se a explosão do aparente controlo das diversas pessoas... Henry destrói uma sala de aula quando uma colega insinua comportamentos inapropriados quando está apenas a tentar ajudar uma aluna... a psicóloga que não resiste à apatia, à inércia e à falta de ambição de uma aluna pseudoiludida tem um ataque psicótico... Num tempo em que os males do mundo são sempre destacados, é de uma sensibilidade comovente o personagem de Adrien Brody que parece viver com toda a infelicidade dele e do que os rodeiam às costas. “Todos temos o caos dentro de nós”. No debate após o filme deu para perceber pela reacção dos muitos espectadores que muitos eram professores e que a realidade retratada no filme era semelhante ao que de facto existe nas escolas públicas americanas.

Adrien Broady na discussão após a projecção do filme @ 92Y Tribeca

sábado, 10 de março de 2012

A Midsummer Night's Dream

Ontem à noite fui ver a peça "A Midsummer night's dream" de Shakeaspeare cujo elenco era constituído por alunos de Columbia. Fui pricipalmente porque o F. entrava e queria vê-lo a fazer de leão. Não ia com grandes expectativas porque pensava que ia ser do nível da maioria das peças interpretadas por actores amadores. Enganei-me completamente. Achei as interpretações de grande nível mas vim a saber depois da peça que a maioria deles já tinha feito teatro e alguns deles eram actores profissionais, para além, de serem "grad students" em Columbia. Noite bem passada, muitas gargalhadas e sorriso na cara ao regressar a casa. 




quinta-feira, 8 de março de 2012

Madame Butterfly

Hoje fui ver a ópera "Madame Butterfly" ao The Metropolitan Opera no Lincoln Center. Esta foi a terceira que vi. Já tinha visto "La Traviatta" e "Tosca". Nunca morri de amores por ópera, pelo tempo que demoram, mas gosto da música. E hoje, achei a primeira parte do 2º acto a mais fantástica juntamente com o final que é catártico. Butterfly escolhe morrer com dignidade e honra do que viver envergonhada. O lugar onde fiquei tinha uma vista priveligiadíssima sobre a orquestra cujo maestro era o Placido Domingo. Adorei ver o entusiasmo com que ele dirigiu a orquestra. Foram três horas nada penosas e com lotação esgotada. Depois de um dia corrido e extremamente ocupado, em que quase já não acreditava que iria chegar a tempo, terminou da melhor forma! Ah, e a Primavera parece ter chegado a NY! Não experimentei a temperatura exterior no pico da temperatura (20ºC), mas pela noite agradável, imagino como teria sido bom o dia!

Columbus Circle

Columbus Circle

The Metropolitan Opera

The Metropolitan Opera

The Metropolitan Opera

 Placido Domingo

 Butterfly e Placido Domingo

 The Metropolitan Opera

quarta-feira, 7 de março de 2012

As meias brancas

Antes de viver em NY achava que a moda das meias brancas limitava-se aos estados menos preocupados com as tendências. Verifico agora que as meias brancas devem ser uma espécie de símbolo americano. Nunca tive coragem de perguntar a ninguém como é possível calçar meias brancas... Até podia ser um problema de não haver nas lojas meias de outra cor....mas eu nunca tive problemas em encontrar meias que não fossem brancas. Pior, as pessoas aqui usam daquelas meias que quando eu era miúda chamava "meias de ginástica". 

Olhando para os pés no metro distingo imediatamente quem não é americano(a). A outra moda espectacular é andar diariamente com ténis de correr. Quanto mais feios melhor! Eu sei que os ténis da Mizuno são feios como a morte, e por essa razão ainda não me senti convencida a comprar uns, mas desde que seja o mais confortável para correr serei facilmente convencida. Agora andar com ténis de correr e ainda por cima feios?! Quando vejo alguém com ténis sem ser de correr deduzo imediatamente que não é americano (a) ou tem um sentido de moda muito sofisticado. 

Outra coisa muito comum nos americanos é o número de camisas/ fatos e t-shirts ser muito acima do tamanho... talvez coubesse além da pessoa o pai ou o avô. Não sei se as pessoas compram a roupa sem experimentarem ou não têm noção do ridículo. O outro atentado aos olhos são as gravatas!!!! Nunca vi tanta gravata horrorosa por metro quadrado. Tanta gravata bonita que vejo nas lojas e estas pessoas usam gravatas a parecer o Jardim de Sta Bárbara ou os quadros do Polock. 

A última característica dos americanos no que diz respeito à roupa é não saberem o que é um ferro de engomar. É verdade que no meu prédio vejo muitas entregas de camisas da lavandaria ao lado... mas em Columbia Medical Center e no Main Campus é um susto. As pessoas parece que dormiram assim vestidas! É como se a roupa tivesse sido empacotada em sacos até não caber mais nada. É esse o aspecto. Diferenças culturais não se discutem. Vou deixar para um próximo post a falta de maneiras à mesa... de comerem apenas com uma mão como se tivessem sofrido um AVC e a outra não funcionasse.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Os significados


Tenho há muitos anos o hábito de usar dicionários. Há muitos anos, andava eu no 5º ano (nem sei se se diz assim), tive uma professora de português que me marcou para sempre. Nessa altura ela criou o "Clube de leitura" que era uma espécie de biblioteca. Cada pessoa levava alguns livros e depois eram trocados. O objectivo era ler, sumarizar a história e apontar as palavras que não sabíamos os significados. Para isso, tínhamos um caderninho especial (nem sei onde anda nem onde se comprava) mas consigo imaginá-lo claramente. Havia um prémio para quem apontasse mais palavras e o respectivo significado. Nesse "Clube de leitura" fomos incentivados também a criar a nossa própria história em grupo. 

Hoje, com a devida distância, consigo perceber o quão revolucionárias foram estas horas extra-curriculares. Na pré-adolescência já tinha lido quase todos os livros do Eça de Queiroz e um livrinho de significados acompanhou-me sempre.  Desde essa altura que leio sempre com um lápis na mão e sublinho os livros (li que a Susan Sontag fazia o mesmo). E nunca este “Clube de leitura” esteve tão actual para mim agora que vivo em NYC. As diferentes livrarias, universidades, associações estão repletas de “Book clubs”. Pessoas que gostam de ler, que querem ler, e que gostam de perder tempo a discutir o que leram. 

Aqui em NYC fico sempre muito comovida com a quantidade de pessoas que  lê no metro.  Ok, há dois tipos de pessoas: os que passam o tempo a ler e os adeptos da electrónica (inclui BBs, Iphones, ipods, leitores de música em geral). Nunca reparei se em Lisboa as pessoas têm este hábito de leitura. E outra coisa que reparo é que as pessoas lêem boa literatura. E como agora quase só leio em inglês para além de ter os livros todos rabiscados, contorno as palavras que não sei o significado. Eu, ao contrário de muita gente, tenho uma ligação sentimental com os meus livros, conheço-os pelas capas, sei as anotações que faço, quando os li, o lugar onde estão, colecciono marcadores de livros dentro deles...é por esta razão que ler os meus livros pode não ser agradável à vista. 

Que me desculpem os defensores das novas tecnologias mas o toque e o cheiro dos livros ninguém os substitui. Com tantas discordâncias culturais e a vários níveis com os nativos, é uma felicidade viver no país que viu nascer os melhores escritores do mundo (para mim): Ernest Hemingway, F. Scott Fitgerald, Irving Wallace, Dylan Thomas, Don Delillo, Tennessee Williams,  Gertrude Stein, Elizabeth Bishop, Susan Sontag, Michael Cunningham.

O "4"

Há uns anos, tinha idade para já ter juízo, foi a primeira vez que a minha mãe me flagrou "ligeiramente alta" (como dizem os brasileiros). E só reparou porque eu falava sem parar e cheguei a casa dos meus pais às 10 da manhã do dia 1 de Janeiro. Era suposto ter ido para minha casa mas tinha fechado a porta com a chave dentro...

E tudo isto para dizer que a minha mãe desconfiou que eu tinha bebido demais porque para além de falar sem parar teimava em fazer o 4. Por razões óbvias, não conseguia fazer e esta história é demasiadas vezes ressuscitada para o meu gosto. Pois bem, no sábado estava com a C. e o F. a jantar no Zigolinis entre cocktails, vinho, pizzas, tiramisu e muitas gargalhadas e falo da minha incapacidade para fazer o 4 de olhos fechados nas aulas de yoga. Com os olhos abertos faço bem, o problema é quando os fecho. Posso a partir de agora demonstrar à minha mãe a minha incapacidade para me equilibrar numa perna só de olhos fechados. Diagnóstico feito, problema resolvido... ou quase...

quinta-feira, 1 de março de 2012

Depois da reunião de ontem...

"In God we trust. All others [must] have data" - In "The emperor of all maladies- A biography of cancer", Siddhartha Mukherjee.

Dianinha Ross

Há um personagem em Washington Heigths que estava sempre na esquina da 168 com a Broadway. Sempre que me encontrava com o L. em frente às urgências do Presbyterian era tentar segurar ao máximo que podia o riso. Mas nunca aguentava... e eu e ele criamos uma empatia. Ele seguia-me sempre até à entrada do hospital com as suas "macacadas". 

Pois bem, a "Dianinha Ross" (foi assim que o L. o batizou) anda sempre com uns phones que devem transmitir a música que ele canta (muito mal), depois tem sempre uma coreografia (sempre muito desajeitada) e anda na maioria das vezes com um microfone. Sabemos que é fã da Diana Ross e da Madonna e do Webster Hall (não sei se é frequentador habitual mas está sempre a gritar "Webster Hall, Webster Hall"... ou deve ganhar pela publicidade. No princípio, quando mal o conhecia, achei que fazia isto para ganhar dinheiro... mas não, é por pura recreação. A C. e o F. dizem que ele é exibicionista e já o viram a comportar-se normalmente. Eu tenho uma simpatia enorme por ele. E hoje vou a atravessar a rua na 168 em direcção ao P&S e quem encontro??!! A "Dianinha Ross" e reconheceu-me!!! Lá me acompanhou até à entrada, sempre a cantar e com as suas coreografias e eu chorava a rir!!! Sempre quisemos gravar a sua performance... Não sei porquê nunca se proporcionou. Hoje encontrei estes vídeos no youtube mas que estão muito aquém do espectáculo real. Vejam aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=1vkTfqC41po&feature=fvsr

http://www.youtube.com/watch?v=vyuFlEoxDgU&feature=related.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Mais uma semana

Desculpem a minha ausência por aqui. Vou ter uma apresentação para o grupo amanhã. Mais os projectos da FCT... não sobra muito tempo. O fim de semana que passou foi o primeiro que fiquei em casa desde que cheguei. 

Depois do "bichinho" da NETFLIX transmitido pelo F., eis que subscrevi o serviço. Até comprei um leitor de DVD. Agora é esperar que me chegue o primeiro filme pelo correio. Para quem não sabe, a NETFLIX é um serviço pago, que permite, de acordo com o plano subscrito, ver filmes, séries na internet ou receber via correio o(s) DVD(s). Os meus amigos pegaram-me este micróbio... e vamos ver, se agora, para além da pilha de livros que acumulo para ler, começo a acumular uma lista de filmes para ver. 

Esta é também a "Semana dos Orfãos do Meal Plan". O Meal Plan é um serviço de refeições (apenas jantares) que os grad ou MD/PhD students de Columbia podem subscrever. As opções vão de 1 a 3 jantares/semana e cada jantar fica em média por 6 dólares. Um óptimo negócio para os preços de NYC. O meal plan inclui saladas à escolha, prato principal com a opção de vegetariano, sopa, duas peças de fruta, sobremesa e duas bebidas (lata/garrafa). É um tipo de serviço de cantina mas de melhor qualidade e maior variedade do que a maioria das universidades em Portugal. Obviamente que eu estaria à partida excluída do meal plan porque não sou estudante... Mas como nos últimos tempos tenho sido bafejada pela sorte (da mesma forma que consegui um estúdio nos apartamentos de Columbia) consegui inscrever-me. Tudo isto para dizer que esta semana não há meal plan porque é o "Spring Break"... logo faço parte dos "orfãos do meal plan". Esta semana o Tamaya, Coogans, entre outros, é que vão ficar a ganhar.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Michael Cunningham



Na vida há alguns momentos de sorte. Este foi um deles. Na semana passada depois de não conseguir bilhetes para ver uma conversa com o Woody Allen, acabei por saber que o Michael Cunningham ia fazer uma leitura no The Center for Fiction. Eu nem sabia onde era nem quanto se pagava. Na sexta enviei um email para saber mais informações e, como ontem foi feriado, recebi hoje de manhã um email: "We look forward to seeing you tonight at 7pm for our event with Hilma Wolitzer and Michael Cunningham". Tive que ir a casa na hora do almoço para ir buscar os livros e tive que preparar o meu dia para sair do lab às 6. 

Preparei a minha viagem de metro e teria apenas que mudar na 59 para o B ou D. Saio na 59 e entro no primeiro metro que vejo.... onde fui parar? À 42!!! Já atrasadíssima apanho um táxi. Cheguei ao evento a tempo, ainda não tinham começado. Eu estava de pé e uma senhora muito simpática disse-me que havia lugares vagos (que eu já tinha visto mas que não fui porque ia ficar esmagada no meio de pessoas obesas). Não tive como dizer que não à senhora e lá fui eu ser esmagada. O evento começou. Nunca pensei que o Michael Cunningham fosse uma pessoa tão divertida e simpática. Fez uma leitura de uma parte do livro novo que está a escrever. A leitura dele foi magnífica, muito teatral. Depois seguiu-se a parte de perguntas que foi a melhor. Se eu tivesse que escolher uma palavra para descrever o Michael Cunningham era: simpático. Assinou-me os 4 livros em inglês que tenho cá e despediu-se porque ainda tinha que ir jantar e amanhã dava aulas...

Domingo: Lower East Side e East Village

Quando saio do meu "território" aka West Side tenho que planear sempre a coisa bem. A C. no ano passado até me comprou um mapa do metro com letras grandes para eu não precisar de óculos! O Lower East Side e East Village conheçia muito mal. Embora a noite conhecesse bem: Beauty Bar, Lit Lounge, Webster Hall...Já tinha estado de dia duas vezes em St Marks Place de dia. É umra rua espectacular para se gastar dinheiro em t-shirts vintage.

Saí de casa em direcção ao metro, com tudo apontado onde deveria mudar e essas coisas. Juro que fiz tudo direitinho... mas sabem onde fui parar? A Fulton St que para quem sabe é mesmo perto do Ground Zero. Muito bom... Para quem queria ir para a Allen St com a East Houston... Ainda pensei em regressar ao metro... mas se não consegui com instruções imaginem sem elas... Apanhei um taxi. Lá passamos do lado oeste para o lado este e subimos a Allen Street desde Chinatown. O que via da janela não me convenceu. Depois alternei entre a 1st Avenue e a Avenue A até à 12th Street. Restaurantes, bares, pubs, lojas vintage, lojas de tatoos, mercados de rua, lojas de design, lojas de viagens num ambiente degradado/ mas a querer parecer com estilo. Não troco a West Village pela East Village. Entrei em três livrarias (Bluestocking, East Village Books and Records e St. Mark's Bookstore). Só gostei da última e o prejuízo não foi muito, só comprei um livro do Don DeLillo (que também vou ver daqui a umas semanas a receber um prémio). O regresso, não sei como, foi atinado. Consegui chegar a casa. Claro que não fui ao yoga...

The girl with the dragon tatoo


No sábado à noite fui ao cinema ver "The girl with the dragon tatoo", já passava das 10, numa sala de cinema perto de Times Square a abarrotar, onde sobravam apenas as cadeiras junto ao ecrã. Duas horas e quarenta minutos de filme e desta vez não pude queixar-me que não conseguia ver bem as caras. Este filme foi adaptado pela segunda vez pelo David Fincher (Seven e Fight Club) sobre a primeira parte da trilogia do escritor sueco Stieg Larsson.  

Mikael (Daniel Craig) é jornalista, casado e pai de uma filha. Um dia é procurado por um intermediário de Henrik Vanger (Christopher Plummer- o Capitão von Trapp da "Música no Coração) empresário que tem como objectivo principal saber o que aconteceu há 40 anos com a sobrinha: fuga, suicídio ou homicídio? Vanger acredita que alguém da família poderá estar relacionado com o desaparecimento da sobrinha, cujo corpo nunca foi encontrado. O empresário faz uma proposta irrecusável ao jornalista: dá-lhe acesso total à sua vida, documentação pessoal, empresa, dados familiares e excelente remuneração em troca de uma solução para o caso. A actriz principal, a tal das tatuagens e dos piercings, que dá o nome ao filme é Lisbeth Salander, assistente do jornalista. Completamente inadaptada socialmente, nunca olha as pessoas nos olhos e evita o contacto físico.  Sem saber conviver com pessoas,  viciada em solidão, computador, cigarros e coca-cola, ah, claro, tatuagens e piercings.  Com uma inabilidade visível para manter conversa (apenas monocórdica). Percebe-se que tem um passado misterioso. Tem qualidades informáticas de fazer inveja ao Bill Gates e ao Steve Jobs e com uma memória prodigiosa. Conhecia a Rooney Mara apenas do papel do “Social Network”. Neste filme ela está irreconhecível. De uma palidez de meter medo à morte, anorética, cabelo pretíssimo, sobrancelhas descoloradas, carregada de piercings. Li algures que o escritor, Larsson, ter-se-á baseado  no síndroma de Asperger para compor a personagem. 

O filme é assustador, repleto de segredos ("as pessoas têm sempre segredos, é uma questão de os descobrir"), abusos de menores, violações, crimes macabros. O filme tem cenas pesadíssimas mas para isso eu já ia preparada. A verdade revelada é cruel .  Este filme, baseado no livro de  Larsson, passa-se na Suécia onde a educação é exemplar e gratuita, E que instituiu o prémio Nobel,  é recordista em qualidade de vida, tem o Ikea, os Abba...mas onde as estatísticas revelam 4000 violações/ano  num universo de 9 milhões de habitantes. Com 10 milhões, Portugal não ultrapassa as 500 por ano. Dá que pensar...



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Wit-2nd Round


Na sexta fui ver novamente a peça “Wit”. Não resisti. Uma excelente interpretação da Cinthya Nixon. E nada mais a propósito porque ando completamente mergulhada no livro do Siddhartha Mukherjee “The Emperor of all maladies – A Biography of Cancer” e nos livros de/ e sobre Susana Sontag (também muitas vezes citada no livro por ter sido uma sobrevivente de dois cancros mas que sucumbiu no terceiro). 

A Cynthia Nixon na peça está com uma bata de hospital, um boné e descalça. A palidez, os olhos azuis e a iluminação fazem um jogo perfeito que ela parece mesmo doente. A parte final é a mais dramática, tem um final catártico tão desesperante de apetecer encolher na cadeira. Na azáfama de tentarem “ressuscitá-la” quando ela tinha escolhido “No code” e naquele desespero da enfermeira tentar explicar isso aos médicos, o final é lindo: “Vivian steps out out of the bed. She walks away from the scene, toward a little light. She is now attentive and eager, moving slowly toward the light. She takes off her cap and lets it drop. She slips off her bracelet. She loosens the ties and the top gown slides to the floor. She lets the second gown fall. The instant she is naked, and beautiful, reaching for the light – Lights out”.

Depois, podia ter entrado no metro logo ali na 50. Mas preferi andar a pé com a N. até à 34 e aí entrar no 1. Passamos pelo meio de Times Square sempre a abarrotar de gente mesmo depois das 10 da noite. Quem vive em Manhattan, Times Square não é o seu lugar de eleição. Demasiado barulhento e confuso, repleto de turistas, filas, vendedores de rua, performers... Mas de vez em quando, sabe bem voltar lá e relembrar que quando se vai pela primeira vez a NYC, o impacto que aquele lugar causa. E nos primeiros dias que cheguei a NYC, uma cidade solitária, independente, amarga e estranha para quem chega para viver cá pela primeira vez, ia a Times Square para me sentir rodeada de gente.



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