sexta-feira, 15 de junho de 2012

Dia de Portugal em Newark

Nunca tinha estado em Newark a não ser no aeroporto ou de passagem. Sabia que havia uma enorme comunidade portuguesa. Como o dia de Portugal foi no domingo decidimos passar lá o dia com um objectivo principalmente gastronómico. Newark, pelo menos o que vi, nem parece uma cidade. Nunca vi diferenças tão contrastantes entre uma cidade e outra separadas por poucos kms. Há casos de diferenças visíveis como Lisboa vs Almada/Montijo/Alcochete ou Porto vs Gaia. Mas NYC vs Newark é gritante. Mal saímos da estação de comboios sentimos imediatamente o cheiro a sardinhas! Várias barracas, com diferentes nomes, música pimba aos berros, imensos portugueses de boné e t-shirts da selecção. A maioria usava calções e boné. Deve ser a adaptação aos novos tempos. Após uma rápida ronda pelas barracas decidimos pedir bifanas e sardinhas. Afinal já era hora de almoço e as saudades de comida portuguesa era mais do que muita. O destino final era o "Seabra´s Marisqueira". Até chegarmos lá passamos por uma rua onde quase tudo era português, desde TAP, BES, agências de viagem portuguesas, quiosques, cafés, pastelarias, supermercados e a maioria das pessoas com quem nos cruzávamos era portuguesa. Falavam num diferente dialecto que misturava português com inglês, mas a maioria até falava inglês entre eles. A sensação que tive é que este micro-mundo correspondia algures a um Portugal que só me lembro de ver nas aldeias. Um mundo fechado, parado no tempo, sem evoluções e que não corresponde de todo ao Portugal que somos agora. Contudo, a maioria destes emigrantes não se assemelha em nada ao Portugal moderno e muito menos parecem viver a poucos kms de uma das cidades mais fervilhantes e cosmopolitas do mundo. Quando chegamos ao restaurante, aí sim parecíamos ter chegado a Portugal. Parecia uma das muitas cervejarias/marisqueiras que existe em Portugal. Um grande balcão, aquários, azulejos na parede, garrafas de vinho, cozinha visível.... Eu fiquei fã deste restaurante. Melhor do que muitos restaurantes em Portugal. A mesa tinha toalha de pano, ao contrário da maioria dos restaurantes em NY. O pão nem tenho palavras para descreve-lo. Acho que nunca comi pão tão bom na minha vida. Quem vive nos Estados Unidos sabe da dificuldade que é encontrar pão razoável... Seguia-se a escolha da comida. Tanta variedade, coisas tão boas , que a dificuldade era mesmo escolher. Escusado será dizer que as minhas escolhas são (quase) sempre desastrosas. Quem é que se lembra de escolher leitão numa marisqueira?!. Podem atirar-se para o chão a rir!. Sim, escolhi leitão! E quando chegou à mesa, apenas pelo aspecto, percebi o erro (mais uma vez) acabara de cometer... Percebi imediatamente que o tal do leitão pelo tamanho já era adolescente para não dizer adulto... e não fora assado em brasas... Péssima escolha, nem consegui comer o que trouxe para casa. As outras escolhas foram mais acertadas. Açorda de marisco e carne de porco à alentejana. Como não sou grande fã desta última optei por nem provar. Mas a açorda de marisco estava divinal. Tudo era fresco. E polvilhada com imensos coentros. Ainda consegui comer uma mousse de chocolate caseira que também estava óptima. Depois ainda fomos aos supermercado Seabra. Este senhor deve ser o magnata lá do sítio. Tinha imensa coisa portuguesa e os produtos estavam cheios de neologismos: rosca de coconut, regueifa cinnamon....
Ao deixarmos Newark ainda tive tempo de ir a um quiosque compra a "Visão" que me custou $8!!! E ainda vimos este fenómeno do youtube pessoalmente....














quinta-feira, 7 de junho de 2012

Patti Smith: World Premiere of "Banga" @ Barnes&Noble-Union Square

Desde que estou em NY que queria ver a Patti Smith. Dois dos concertos que deu estavam esgotados nas primeiras horas que os bilhetes foram colocados à venda.  E uma apresentação que ia fazer numa das Barnes&Noble foi cancelada. Já estava a perder a esperança até que soube que o lançamento do novo CD dela "Banga" ia ser hoje.  Um lançamento destes, de uma pessoa com a idade dela, depois de tanto tempo, sendo um ícone em NY e no mundo, era de esperar a confusão que estaria. O lançamento estava marcado para as 7 e, como sabemos, aqui tudo começa a horas. Planeei o trabalho para poder sair às 6... mas como sempre, nada corre como queremos...eram 6:30 ainda não tinha saído do lab e estava quase a não responder por mim (mas isso são outros quinhentos). Quando percebo, pelo barulho na janela, estava a chover torrencialmente... Como?! Mas ainda estava sol há pouco!!! Saio pelo Presbyterian Hospital e tento apanhar um dos táxis (Gypsy)...Começo por perguntar quanto levam até Union Square debaixo daquele dilúvio... uns 40, outros 30, outros 25... Parecia a cantiga da feira! Quem leva menos. E eu disse que só podia dar 20 porque era o que tinha na carteira e eles não aceitam cartões... nada feito... 25 foi o valor final! Como só tinha 20 decidi-me a andar 100 metros e entrar no metro, claro, a achar como às vezes consigo ser muito estúpida a apanhar com um chuveiro daqueles para ir de táxi quando podia ir de metro!!! Sentadinha no metro da 168 até à 14 e aí mudar para outro que me levaria a Union Square. Não demorou mais do que 30 minutos. Quando cheguei a Union Square já não chovia e estava quente e húmido bem à NY. Sabia onde era a Barnes&Noble de Union Square mas nunca tinha lá entrado. Quando vou a Union Square vou sempre à Strand. Não se vai à Fnac quando se tem uma Livraria Lello ao lado. É mais ou menos isso que se passa com a Strand e a Barnes&Noble. Subi as várias escadas rolantes. E percebo que a última que faltava subir estava com um polícia a bloqueá-la. Não se podia subir porque o evento estava cheio! E eu a não acreditar que tinha saído do lab aquela hora, que tinha levado com um banho e agora a 100 metros de ver a Patti Smith a lançar o "Banga" ia ficar ali? Durante uma hora só a ouvi. As perguntas que lhe fizeram, as respostas que deu, os parabéns que cantaram a um membro da banda e as 3 canções que cantou. Para quem achava que a Patti Smith tinha acabado, este show case mostrou que a senhora está aí para as curvas.  Os loucos anos 60 com as drogas psicadélicas, os ácidos lisérgicos e o álcool (legal) só conservaram esta senhora de 66 anos! Quando terminou a apresentação e ela começou a assinar livros, CDs, e afins, tudo o que lhe levavam... abriram as escadas. Nunca vi coisa tão organizada. As pessoas que esperavam pelas assinaturas mantinham-se sentadas e eras chamadas por filas. E foi assim que passei duas horas. Sentadinha. Mas claro, como nunca nada corre completamente bem, sentou-se um maluquinho ao meu lado. E começa a meter conversa por causa do meu cartão de Columbia que estava pendurado na mochila (que estava no chão). Começa-me a perguntar o que faço já que ando naquela universidade "só para pessoas inteligentes) mal ele sabe... E eu lá lhe explico, à espera que o assunto ficasse por ali. Mas não. O homem saca de um jornal e começa a desenhar um coração e a classifica-lo anatomicamente. ventrículos, aurículas, veias, artérias, válvulas.... E eu a achar que estava perdida!! E como se chama esta intersecção? E isto e aquilo...Depois mudou ligeiramente a conversa e começa a perguntar porque é que eu não vou para Medicina, ou para Dentária ou para Farmácia... Eu a tentar explicar-lhe e à espera que o homem se calasse.  Ele fingia que percebia e daí a dois minutos começa outra vez com as mesmas perguntas e porque se mudasse para medicina ia ganhar muito dinheiro... E porque só entra em Medicina quem tem A+, e porque este ano concorreram 4000 alunos para as faculdades de Medicina de NY e cada uma delas só tem 160 vagas... E eu só me apetecia dizer-lhe "Ó homem, cale-se um bocadinho"! Mas não o fiz. O senhor tinha as unhas grandes e sujas, barba mal aparada, boné, cheio de roupa (quando a temperatura é de verão) e estava cheio de sacos. E eu lá tentei mudar o assunto: "Gosta da Patti Smith?" Mas estava mais do que visto que o homem não queria mudar de assunto porque respondeu que a conhecia mal mas que tinha aproveitado para comprar o CD e o livro e já tinha gasto o dinheiro de amanhã com isso... E lá volta outra vez, porque é que eu não ia para Medicina...E que tinha escrito muitos papers e passado muitas horas em bibliotecas e e que a investigação dele era sobre a desintegração da Jugoslávia. Eu acho que muita gente à nossa volta já se ria sem querer. Passei duas horas nesta conversa!!! E quando nos chamaram para a fila dos autógrafos propriamente dita, felizmente o senhor meteu conversa com outra pessoa atrás dele. A Patti Smith é muito muito simpática, notava-se o quão cansada estava depois de 3 horas a assinar tudo o que lhe punham à frente. Tem uns lindos olhos azuis. E um bigode de fazer inveja à JD Samson (Le Tigre/Men). 








Riverside Symphony season finale

Há algum tempo tinha visto no site de Columbia bilhetes para o concerto da Riverside Symphony no Lincoln Center. O que eu queria mesmo ver era a New York Philarmonic, mas os preços para este concerto a metade do preço num bom lugar da sala do Alice Tully Hall, Starr Theater, prometiam valer a pena. Cheguei em cima da hora, como sempre, mas a atravessar uma das ruas do Lincoln Center pareceu-me ouvir uma voz conhecida, um verdadeiro vozeirão de homem, mas quando olho para saber quem era vi um homem vestido de mulher a fumar. Olhei melhor e percebi quem era: o Antony (the  johnsons). Vou à bilheteira a correr levantar o meu billhete, entro na sala e percebo que o meu lugar era um lugar espectacular. Mesmo no centro próximo do palco. Percebo imediatamente que tenho que pedir para metade da fila se levantar...Quando avisto o único lugar vazio vejo que ao meu lado estã não mais do que um gordo, ou melhor, um obeso daqueles mesmo obesos e ocupava a minha cadeira. Sento-me e percebo o quão espremida vou ficar nas próximas horas. Respirei fundo, afinal estava pela primeira vez naquela sala, num bom lugar, tinha que aproveitar. Não se pode ter sorte em tudo. Respiro fundo, ponho os óculos, começo a ver o programa que me tinham dado na entrada. Afinal não estava assim tão atrasada. Levanto os olhos para ver a orquestra e quem está imediatamente à minha frente: Cynthia Nixon com a mulher (sim, porque cheguei a casa e fui ao Google informar-me e vi que se tinha casado no domingo) e mais um miúdo que devia ser o filho. Ela assistiu a todo o espectáculo da Riverside Symphony que tocou HAUSE "The Tree Without End" que também estava na plateia e foi muito aplaudido. Seguiu-se BEETHOVEN "Piano Concerto No 4 in G Major, Op.58) acompanhado pelo pianista Shai Wosner. Depois do intervalo a Cynthia Nixon foi a narradora de"The Story of Babar, the Little Elephant" (POULENC). Adorei o concerto. O que não percebi foi como tanta gente dorme nestes concertos. As duas senhoras ao meu lado até ressonavam e o gordo ao meu lado se esteve acordado 5 minutos foi muito. Até a cabeça lhe pendia para o lado... Provavelmente em muitos outros espectáculos as pessoas também dormem mas como é menos eluminado torna-se menos perceptível. Pronto, confesso que também adormeci na "Tosca" mas era inverno, estava numa sala quentinha, e a ópera demorou perto de quatro horas...




terça-feira, 5 de junho de 2012

The Susan Sontag Prize for Translation 2012

Este ano o prémio de tradução atribuído pela Susan Sontag Foundation, no valor de $5000 for para dois tradutores da escritora brasileira Hilda Hilst: Julia Powers pela tradução de "Contos d'escárnio/Textos grotescos" de Hilda Hilst e para Adam Morris  pela tradução de "A obscena senhora D".

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Pôr-do-sol frustrado em Seaport e Battery Park

O C. deu a ideia e eu senti-me tentada. Nunca tinha estado no Seaport ou no Pier 17. Como é possível? Mesmo estando um dia cinzento e com temperaturas baixas para esta altura do ano arriscamos ir mesmo sem sol. E descobri um novo mundo! Só tinha ficado impressionada assim com Bryant Park e com High Line. É um porto com uma relação magnífica com o rio, cheio de pessoas (mesmo com mau tempo) e preparado para as pessoas. Tem imensas cadeiras e camas de madeira e relva. Depois correr por ali até apetece. Ali até eu corria. E tem um cheiro a algas que já tinha saudades. Para além de tudo tem restaurantes animados e tem uma vista fantástica sobre a ponte de Brooklin e sobre a baixa de Manhattan. Fizemos pé toda a beira rio do Pier 17 até ao Battery Park onde era suposto ver o pôr-do-sol. O dia não deu para isso. 







Acabamos no "Fraunces Tavern and Museum"(frauncestavernmuseum.org) no Financial District (54 Pearl Street). Felizmente pouco conhecida dos turistas, é uma taberna das mais antigas de NYC ainda em funcionamento. A história deste estabelecimento, que é um bar, restaurante e museu, inclui a preparação da revolução que culminou na independência dos EUA. A carta de cervejas é gigantesca. E como estava um dia frio escolhemos uma das stout da lista: "plain porter" que estava descrita como "the best stout in the world". Se é a melhor ou não, não sei, mas era muito boa. Ainda por cima tinha pouco álcool e poucas calorias!!! Para jantar a C. escolheu "Fraunces Tavern Pot Pie"(era o prato preferido do George Washington) e eu escolhi "Colonial Style Sheperd's Pie". Os dois pratos estavam muito bons, pareciam até caseiros (caso raro em NYC). E de sobremesa escolhemos uma tarte de maçã quente.

Credits: Fraunces Tavern Homepage

Credits: Fraunces Tavern Homepage


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Washington DC


Washington DC era outro dos posts que deveria ter há muito publicado. Tinha muita curiosidade em conhecer esta cidade que foi construída propositadamente para ser a capital dos Estados Unidos. Estava particularmente interessada em conhecer a arquitectura e ver como funcionava esta capital planeada para terminar com a disputa entre Filadélfia e Nova Iorque. Conheço outra capital assim: Canberra, que na minha opinião, é bastante menos interessante e despida. Não conheço Brasília que foi planeada pelo Oscar Niemeyer e tem dos mais fabulosos edifícios por metro quadrado. Washington DC vale a visita. São apenas 4 horas de NYC de autocarro e em poucas horas encontra-se uma cidade completamente diferente. É uma cidade relativamente pequena, quase tudo, o que há de mais importante para se visitar fica entre o capitólio e o Lincoln Memorial. Tudo se encontra numa linha recta de quase 3 kms e é um magnífico passeio para se fazer na primavera. O que vi: Capitólio, Jardim Botânico, Washington Monument, White House. Entrei rapidamente no  Air and Space Museum. A entrada em todos os museus é grátis, pena que fechem todos às 5:30... Aquele jardim que se estende do Washington Monument quase até ao Capitólio é um convite imperdível à sesta. Se não fosse a vontade do meu pai ir a Washington, teria perdido esta cidade tão perto de NY e que eu acho que vale a pena o passeio. 
















"A moveable feast"

"...As I ate the oysters with their strong taste of the sea and their faint metallic taste that the cold white wine washed away, leaving only the sea taste and the succulent texture, and as I drank their cold liquid from each shell and washed it down with the crisp taste of the wine, I lost the empty feeling and began to be happy and to make plans.” 
                                                                                         
                                                         Ernest Hemingway in "A moveable feast"

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Verão em NY

Nunca pensei que NY fosse tão quente no Verão. No ano passado estive cá até ao fim de Junho e já deu para perceber o quão insuportável era. Acho que no ano passado no final de Abril já não conseguia dormir sem ar condicionado.
Saí de Portugal há dois dias e estava um tempo ameno, chego aqui e estão 30 e tal graus. O problema não é a temperatura, é a humidade!!!! Eu que já vivi em Houston, não acho que aqui seja muito diferente. Acho que em NY as noites arrefecem em relação às temperaturas de dia, o que não acontecia em Houston, que as temperaturas eram muito semelhantes de dia e de noite. Mas depois aqui em NY o que se torna insuportável são as estações de metro. Aquilo parecem estufas. De resto, todos os edifícios têm A/C e parece que estamos na Sibéria. Eu no inverno uso roupa de verão e no verão uso roupa de inverno! Não posso andar sem meias porque os pés gelam, quando não trago um casaco uso o dia todo bata para não ter frio. Claro está, que depois estas pessoas não aguentam andar na rua e é vê-los andar com bebidas carregadas  de gelo. O que mais me impressiona são os vendedores ambulantes, aqueles que têm pequenas carrinhas que vendem comida. A vida destas pessoas não é fácil. No inverno suportam a neve e no verão este calor insuportável...

terça-feira, 29 de maio de 2012

Crianças vs aviões

Há anos que ando de avião e nunca tive crianças tão mal educadas perto de mim como nestes últimos dois vôos. Toda a gente sabe que enquanto se espera numa sala de embarque o nosso olhar é quase magnético a procurar pelas crianças. Não são os bebés. Esses normalmente, não fazem birras de 7 hrs. Podem, pontualmente, estar com cólicas, mal-dispostos mas nunca horas seguidas. Nunca foram os bebés que me incomodaram nas viagens de avião. O que me incomoda e o que acho intolerável são aquelas crianças de 2-3 anos que para além de choronas, têm birras intermináveis e educações que deixam muito a desejar. A culpa não é delas, é dos pais que acham que viajam sozinhos sem ninguém à volta. Normalmente estas crianças têm determinadas características comuns: não obedecem a regras, fazem o que querem, habitualmente são crianças que deveriam falar quase correctamente mas têm linguagem de bebés de colo de tanto mimo que têm, querem tudo o que as outras crianças têm (mesmo que não seja adequado à idade), não obedecem aos pais, nunca param quietos (são hiperactivos, a nova palavra que está na moda para designar crianças com falta de regras)...No penúltimo vôo mesmo ao meu lado estavam 3 crianças com gradientes crescentes de mau comportamento. O miúdo mais bem comportado não tinha mais de 3 anos e apesar de mal-disposto esteve sempre distraído com os presentes que as hospedeiras lhe trouxeram e nunca se ouviu acima do volume normal. As outras duas crianças eram impossíveis, não tinham mais do que 2 anos mas já mandavam nos pais. As hospedeiras fizeram de tudo para que não perturbassem as outras pessoas e os pais ainda achavam que a culpa era dos outros. Eu imagino o quanto seja difícil ter uma criança bem comportada durante 8 horas. Mas este tipo de crianças são aquelas que se comportam mal mesmo fora dos aviões. Não me venham com a teoria  que lhes dá uma coisinha e que ficam assim de repente. Os pais com crianças assim deviam sentir-se, no mínimo, envergonhados por este festival. Mas não! Ainda acham que os outros é que estão errados por ouvir  berros, gritos, guinchos e afins (que não envolve linguagem e que mais parece típico dos animais). Só para dizer que o menino de 3 anos, mal o avião parou, eu olhei para trás e achei que ele estava muito pálido e a transpirar. E estava a dizer à mãe que não estava bem. Mal acaba de dizer isto e vomita a mãe. O menino, tão bem comportado, não deu um grito, não levantou a voz, não fez cenas. Após vomitar, recupera a cor e diz à mãe que já não se sente mal. Eu só imagino como teria sido o comportamento das outras duas nesta situação...
No vôo de ontem a coisa piorou muito. Duas crianças mesmo ao meu lado... Qual delas a pior... Tinham uns 3 anos e a única coisa que faziam era gritar. Mas gritar de troça. Daqueles berros irritantes de provocação. E acreditam que ninguém lhes fazia nada? Os pais não tinham mãos? Nunca nas 8 hrs vi uma sapatada, um castigo, nada. Os pais ali a ouvir os berros e só diziam para pararem... E claro que eles com o respeito que lhes tinham berravam cada vez mais. Estas crianças no futuro, não só vão berrar, vão falar alto, insultar e quem sabe bater nos pais. E estes pais bem merecem de tão totós que são. Pois, está bem, hoje em dia não se pode dar uma sapatada numa criança porque vai traumatizá-las. Pois é, fica mal dar uma sapatada mas não fica mal ter este comportamento arruaceiro em tão tenra idade e incomodar dezenas de pessoas que não podem fugir para lado nenhum.
Eu falo disto e não falo sem conhecimento de causa. Eu sempre tive mau feitio e sempre fui teimosa. Fui desde muito cedo castigada pelo meu comportamento, por ser refilona, por responder mal, para terminar as refeições.... Tenho o meu sobrinho mais novo que é assim. Desde que tem 1 ano que quando não lhe fazem o que ele quer, ou o obrigam a fazer qualquer coisa que ele não quer que: ou se atira para o chão ou inclina a cabeça a dar 3 horas. Agora que começou a comer à mesa com os adultos quer, na maioria das vezes, sair da mesa sem acabar de comer ou antes de pedir autorização. E é vê-lo ali com a cabeça de lado até toda a gente terminar. Ele não entende isso agora mas quando for mais velho vai agradecer as regras que a sociedade lhe impõe. E já disse ao meu irmão que as crianças e os aviões não combinam.

domingo, 27 de maio de 2012

Grand Central Station, Crysler Building, United Nations

É considerada a maior estação ferroviária do mundo. Mas para além da grandeza física, o que cativa e faz a fama é a arquitectura do edifício. O interior da estação central de comboios é imperdível. É uma fabulosa construção do início do século XX e um símbolo da época áurea da cidade, antes da depressão de1929. Os tectos, candeeiros, escadarias e bilheteiras são lindícimos. O tecto principal é uma gigantesca abobada rectangular pintada de azul-turquesa, com representações a tinta de ouro de todos os elementos do zodíaco e constelações. Relativamente perto fica o Crysler building e as Nações Unidas.
O Crysler building foi construído como sede da marca Crysler e para ser o edifício mais alto do mundo. É apenas um ano mais antigo do que o Empire State Building e perdeu nessa altura o título de edifício mais alto do mundo. Apesar disso ainda é considerado o edifício habitável mais alto do mundo construído em tijolos. O edifício das Nações Unidas fica no Limite do East River (tem o mesmo nome que o Rio que passa em frente à casa dos meus pais mas é um bocadinho mais famoso, lol). É um edifício espelhado em tons de azul e projectado por uma equipa que incluiu o não menos famoso arquitecto brasileiro Oscar Niemeyer (responsável pelo planeamento da cidade de Brasília e de outras obras de reconhecido mérito como o Museu de Arte Contemporânea de Niterói- MAC, que na minha opinião é a obra mais espectacular dele).









sexta-feira, 25 de maio de 2012

Central Park


O Central Park é o maior parque no coração de Manhattan rodeado por arranha-céus. Parece o paraíso dentro da cidade que nunca dorme. Parece outra cidade. Lá dentro encontra-se de tudo: animais, jardins, relva, lagos, pistas de corrida e para se andar de bicicleta, árvores, plantas, barcos, um zoo, restaurantes...
Na zona sul do Parque junto à 5ª Avenida com a 59 alugam-se charrettes para passear dentro do parque. Aqui pode avistar-se dois dos mais famosos e bonitos de hotéis de NY: Waldorf Astoria e o Plaza. Mais acima na 65th com a 5ª Avenida tem um zoo com macacos, pinguins e outros animais. Continuando a subir o parque e encontra-se a Alice do País das Maravilhas sentada num gigantesco cogumelo e rodeada pelos principais personagens da história de Lewis Carroll. 
Dentro do parque, entre as ruas 74 e 75, encontra-se o famoso Loeb Boat House. Este fica junto a um enorme lago, facilmente reconhecível de cenas de diferentes filmes. Aqui alugam-se barcos e bicicletas. Seguindo para norte e encontramos o castelo Belvedere na 79. A vista justifica o esforço. Na zona sul do lago fica o Bethesda Terrace, com a fonte Bethesda que é um dos ícones do parque e uma das fontes mais fotografada do mundo.
Na zona oeste junto à 72 fica o memorial a John Lennon (Strawberry Fields).











quinta-feira, 24 de maio de 2012

Sempre Susan – a memoir of Susan Sontag by Sigrid Nunez


Estou a escrever este texto há meses. Demoro imenso. Começo, recomeço, apago, deixo... Decantar e repousar. O simples tão difícil... Tive contacto com a obra da Susan Sontag através das crónicas da Clara Ferreira Alves no “Expresso”. Aliás, quase todos os escritores americanos que adoro conheci-os por intermédio da Clara. Lembro-me perfeitamente de uma crónica, em particular, publicada na semana da sua morte. Isto em 2003. A partir dessa altura comecei a ler alguns livros dela. Desde que estou em NY passei a ler tudo o que encontro sobre elea, biografias, na sua maioria. Há uns anos que tudo o que leio são biografias. Nada mais actual que publicar este texto sobre Susan Sontag a poucos dias da atribuição do prémio de tradução em Língua portuguesa pela sua Fundação (Susan Sontag Foundation) no dia 1 de Junho.
Li o livro “Sempre  Susan – a memoir of Susan Sontag by Sigrid Nunez”  no ano passado.
Sigrid Nunez é autora de 6 livros com boas críticas que descreve Sontag como mentora, amiga e uma inspiração.  Em 1974, depois de ter estudado no Barnard College, estava a frequentar o MFA em Columbia University na tentativa de escrever ficção enquanto arranjou um emprego a ajudar Sontag com a correspondência. Sontag, nessa altura, vivia no último andar na 106th Street com a Riverside Drive com o filho Davied Rieff de 24 anos que estudava em Princeton mas passava a maior parte do tempo em NY. Sigrid começou a andar com David e em pouco tempo mudou-se para a casa deles. Sigrid explica que o título é italiano e que evoca o facto de toda a gente tratar e referir-se a Susan Sontag pelo primeiro nome. Mas ela não explica porque escolheu o título em italiano.
Muito pouco é explicado e descrito neste livro pequeníssimo mas ficamos a perceber o essencial de Susan Sontag. Muitas das passagens parecem lembranças que ela anotou em pequenos cartões e juntou-os sem nenhuma ordem particular.
Susan Sontag  parece ter carregado um trauma de infância pelo egoísmo da mãe pela pouca atenção que lhe dava. Era uma mãe fria, egoísta, narcisista que nunca mostrou afecto pela filha, que nunca reparou que tinha uma filha especial. É descrito também no livro Fala os ataques de asma que Susan tinha em criança e que por esse motivo mudaram-se de NY para Tucson (Arizona) depois de uma estadia breve em Miami. Fala também que Susan bebia um copo de sangue diariamente que a mãe trazia do talho. Aos 3 já lia, aos 8 lia Shakespeare, aos quinze anos o director do liceu chamou-a e disse-lhe: “a menina só está a perder tempo aqui, vamos já dar-lhe o diploma para poder ir para a universidade”. Sontag ingressou imediatamente na universidade e aos 17 casou-se. Nunca perdeu tempo.
Uma das frases de Susan Sontag mais repetia era: “I want two things: I want to work and I want to have fun”
Ela era tão “new yorker”,era tão a imagem que eu tinha das pessoas que viviam em NY: cosmopolitas, intelectuais, modernas. Na opinião de Sigrid Nunez ela era tão “New York” pela sua energia e ambição, no “poder fazer”, espírito de conseguir tudo o que queria, e na convicção do seu excepcionalismo no poder da sua própria escrita, na sua própria criação, no seu poder de renancer, nas possibilidades infindáveis de novas oportunidades. Ela considerava-se uma “beauty freak”. Ela considerava a arte superior à natureza e as cidades muito mais importantes do que os países. Não havia para ela melhor cidade do que NYC (Manhattan) que ela considerava a a capital do século XX.
Susan Sontag recusava-se a ter carteira/bolsa. Não conseguia perceber a ligação das mulheres a esse acessório. Não usava maquilhagem, pintava o cabelo mas deixava aquela madeixa branca tão característica. Usava água de colónia para homem: Dior Homme. Preocupava-se com o peso que oscilava consoante a fase de escrita em que se encontrava, que influenciava também o quanto fumava, o que significava, se fosse muito, que estava também a tomar anfetaminas. Mas adorava comer. Nunca foi adepta de exercício físico, mas adorava andar, quando o tempo começava a aquecer. Ela usava muito preto, que não era a cor que lhe ficava melhor. Achava que Virgínia Woolf era um génio. Não gostava de fazer nada sozinha. Adorava comprar cadernos, canetas e lápis. Sempre adorou viajar. Viajar, para ela, entre outras coisas, era um antídoto para a depressão.
Susan Nunez diz no livro que por causa de Susan Sontag começou a ler rápido e começou a escrever o nome em cada livro novo e que usava um lápis (nunca uma caneta ou esferográfica) para sublinhar. Susan Sontag costumava dizer que se não tivesse sido escritora teria sido médica. Sempre adorou sair (frequentou muito o Studio 54) mas gostava também de receber pessoas em casa.   Dormia muito pouco, o menos possível. Adorava cinema e opera. Quanto mais velha ficava, preferia a amizade e socializar com pessoas mais novas. E gostava também de ir a sítios e fazer coisas associadas com a juventude. Ela era muito física, gostava de ser tocada e de tocar. Era muito fácil de se conversar com ela e se ser confessional. Adorava conversar, quanto mais intimamente melhor.
Ela dizia que poderíamos saber como eram as pessoas pelos livros que liam.  Susan Nunez diz que nessa altura Susan Sontag tinha aproximadamente 6000 livros em casa. Descreve no livro que por influência de Susan começou a organizar os próprios livros por assunto e cronologicamente em vez de ordem alfabética. Susan Sontag chegava sempre atrasada aos encontros marcados e dizia sempre que por essa razão todas as pessoas deviam ter consigo livros (para passar o tempo). Só era pontual para apanhar um vôo ou para a ópera.
Foi enterrada em Paris no mesmo cemitério que Beckett.


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