quinta-feira, 26 de julho de 2012
The letting go by Siddhartha Mukherjee
"It had rained
heavily the night before. The steep stone steps of the ghat are slick and
slippery, and when my father pulls me onto the boat, the water feels more
stable than the ground. The boatman rows out toward the open river, and the
city of Varanasi swings into full view.
On the bank,
wrestlers are performing calisthenics; a vendor is selling marigolds; a man is
throwing birdseed at pigeons. The river moves sluggishly at first — but then a
current forces the boat around the bend, and we are floating silently by the
Manikarnika ghat, where the dead are burned.
I am 8 or 9 years old. Save a distant uncle who has
died of renal failure, I have had no personal experience of death. I imagine it
as little more than a corporeal exit from the world.It is an unforgettable
sight: row upon row of burning bodies on wooden pyres by the river’s edge.
There are dozens of pyres lighted at the ghat, like lanterns along the river.Around them, a circus of death unfolds(...)
Decades later, having trained
as an oncologist in Boston, I attend the funeral service of a woman who has
died after a long battle with cancer. I remember approaching the coffin, and
then registering something odd: the woman has been coiffed and dressed up, and
there is the faintest blush of lipstick — lipstick? — on her mouth(…)
At medical rounds a few days
later, I ask some residents and interns about death: how many have carried the
body of a parent? What does the weight feel like? And what about the ritual of
bathing and cleansing?"(...)
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Nova Iorque como escolha
Ao contrário do Lobo Antunes, que escreveu um dia
sobre a sua ida para NY foi convidado pelo seu mestre Melvin D. Yahr que lhe
disse: “Come with me to New York” e João Lobo Antunes, “tal como os apóstolos,
quando ouviram o chamamento, deixou tudo e segui-o”. Eu não fui para NY com um
convite. Eu sempre quis viver em NY, ter essa experiência de viver noutro
mundo. Na cidade em que tudo é possível. Ao contrário da maioria das pessoas,
que escolhem a cidade para onde vão trabalhar baseado na qualidade do
laboratório/orientador, eu escolhi a cidade. Obviamente, que conhecia a tão
afamada Columbia University mas não foi isso que me moveu. Esse foi apenas o
caminho mais fácil para viver em NY. Sempre quis provar para mim mesma a tal da
lenda da música: “ If I can make it there, I'll make it anywhere”.
Eu sabia que queria viver em NY. Não sabia como isso
aconteceria. Queria, não sabia se um dia isso iria concretizar-se. Era como uma
imagem distante e nublada, quase inatíngível que povoava o meu consciente. Achava que não
passaria de um sonho ou desejo irrealizável. Aquele tipo de pensamento que só
acontece nos filmes. Tal como desde sempre achei que não me formaria, quanto
mais acabar um doutoramento... Ainda hoje, quase toda a gente sabe, acordo a
pensar que ainda não consegui acabar o curso.
A minha primeira impressão da cidade não foi aquela
coisa turística de desmaiar porque a cidade era linda. É isso para mim, agora,
e muito mais. Quando fui pela primeira vez a NY, como turista, quando pisei
pela primeira vez Times Square foi qualquer coisa transcendente. E só não foi
mais porque já havia estado em Shanghai e o impacto desvanesceu-se.
Joan Didion
escreveu que NY é uma cidade “for only the very rich and the very poor”. Concordo.
E NY é uma cidade para quando se é jovem, livre e sem falta de dinheiro. Se não
houver a conjugação destas 3 permissas, NY perderá a graça, com toda a certeza.
NY antes de Giuliani era uma cidade com uma elevada taxa
de homicídios, o que obrigava a saber gerir o risco e o medo, sobretudo quando
se viajava no metro. Bem diferente dos dias de hoje. Nunca me senti insegura em
NY, nem mesmo quando saía do lab de madrugada. O barulho que nunca pára, é
agravado muitas vezes, demasiadas vezes,
pelo alarme estridente de ambulâncias e carros de polícia da cidade que
nunca dorme.
Outra coisa que
se aprende em NY é: “If you live in New York, even if you’re catholic you’re
Jewish”.
Nunca vi cidade no mundo com gente tão bizarra que
grita e fala alto para si própria e que muita gente nos adverte para evitar o
contacto visual.
Sabem aquelas cidades, vilas, aldeias, com aquelas
pracinhas? Eu sou o contrário disso. Aquilo que a maioria das pessoas bucólicas
acha uma paz, uma calma, um sonho. Eu
até posso achar bonito, mas se tivesse nascido num lugar assim, teria ido
embora no máximo com 3 anos de idade...
Joan Didion escreveu também que em NY “Nobody watches,
everyone performs”. NY fica-nos para sempre. Como tantos outros, eu viverei
para sempre em NY.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Ernest Hemingway in "A moveable Feast"
“As
I ate the oysters with their strong taste of the sea and their faint metallic
taste that the cold white wine washed away, leaving only the sea taste and the
succulent texture, and as I drank their cold liquid from each shell and washed
it down with the crisp taste of the wine, I lost the empty feeling and began to
be happy and to make plans.”
| @Fish (Bleecker St.) |
quarta-feira, 18 de julho de 2012
As 3 fases da vida de um cientista segundo João Lobo Antunes
"Na primeira fase trabalha, na segunda fala do que fez, na terceira diz apenas: «Deixe que lhe mostre o meu laboratório»".
Dylan Thomas
Se em meu ofício, ou arte severa,
Vou labutando, na quietude
Da noite, enquanto, à luz cantante
De encapelada lua jazem
Tantos amantes que entre os braços
As próprias dores vão estreitando
Não é por pão, nem por ambição,
Nem para em palcos de marfim
Pavonear-me, trocando encantos,
Mas pelo simples salário pago
Pelo secreto coração deles.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Saga da mudança
Há um conselho que dou sempre para quem se muda/viaja mas
que nunca o aplico a mim: organizar as coisas com tempo. Depois de ter vivido
em várias casas, depois de as colocar habitáveis, e depois de as desmontar...
ninguém consegue imaginar o que se consegue acumular em 6 meses e que terão que
se reduzir a 2 malas (em que obviamente entrará o pagamento do excesso de peso
e uma mala extra) e uma mala de mão que não ultrapasse os 8Kgs. Agora
expliquem-me como se consegue levar alguma coisa de jeito numa mala de mão que
per se pesa 5 kgs? Truque número 1: uma mochila ajuda. A mochila (que nunca
ninguém se preocupa em pesar) serve para levar os livros mais pesados e que
servirá também para ser estrategicamente
colocada de lado para que ninguém repare no peso (que normalmente ultrapassa os
15kgs).
Quando me mudei da minha casa para a casa do F. deixei tudo
para a última. E como não podia deixar nem um alfinete no apartamento acabamos
por ter que fazer 2 carregamentos. A brincadeira ficou por $130. Sabem aquela
cena do filme “Up in the air” em que o personagem do George Clooney diz que a
vida dele cabe toda numa mochila/mala? Eu sou o oposto. Quero sempre tudo,
nunca faço escolhas, adio. Ah, e aquela característica tão minha de ser
apanhada de surpresa! Que nos últimos dias me tem dado umas valentes dores de
cabeça. Mas isso ficará para um próximo post...
Não sei o que tanto tenho nas malas... porque mais de metade
dos livros tiveram que ficar num caixote na casa do F. que ficam a aguardar o
meu regresso ou vão depender da boa vontade e capacidade física dos próximos
voluntários...A tv que queria trazer, dá para rir... onde pensava eu que ia
trazer uma tv??? A almofada e os lençóis que eu tanto gostava ficaram para a C.
O poster do MoMA teve que ficar e será enviado pelo correio... à quantidade de
tralha que trazia à minha volta poderia ser interpretado como uma arma! E ainda
deixei a minha “bíblia”, que me acompanhou no doutoramento e que tem a grossura
de 5 moleskine A5, em casa do F. Sem falar na lista de tudo que o F. tem para
vender...
sexta-feira, 29 de junho de 2012
As horas
Ao contrário do que acontece muitas vezes, vi primeiro o filme, e só depois li o livro. Depois de ter lido o livro acho que o filme está muito parecido. Nesse ano, a Nicole Kidman ganhou o Oscar de melhor actriz no papel de Virgínia Woolf. Não é que discorde, mas as interpretações da Meryl Streep, e principalmente, da Julianne Moore são uma lição de interpretação. É fácil gostar-se da personagem da Meryl Streep (Clarice) que sempre fez tudo direitinho na vida, que nunca ousou, que nunca pisou o risco. E é fácil odiar-se a personagem da Julianne Moore (Laura Brown). Não sei se pela interpretação da personagem já velhinha a tentar explicar o inexplicável, não consigo condenar o que ela fez: “Laura Brown, a mulher que tentou morrer e falhou, a mulher
que fugiu da família, está viva quando os outros, todos os que lutaram para
sobreviver na sua esteira, morreram. Ela está viva agora, depois de um cancro
do fígado ter levado o seu ex-marido, depois de a sua filha ter sido morta por
um condutor bêbado. Está viva depois de Richard ter saltado da janela para um
leito de vidro partido”.
192 Books
Tempo é mesmo o que me falta. Mesmo dormindo
poucas horas não consigo fazer tudo o que quero. NY lá fora e eu enfiada no
lab. Pelo menos as coisas começaram a correr melhor. Consegui uns minutos para
me sentar a uma sexta à noite e quero escrever sobre a apresentação do livro do Daniel Mendelsohn onde se falou da compilação dos poemas do
grego C.P. Cavafy na 192 Books em Chelsea.
O que me levou a esta
apresentação não foi o autor do livro, nem o poeta sobre o qual escreveu, não
conhecia nenhum dos dois. Fui porque na apresentação estaria também o Michael
Cunningham. Sou mesmo admiradora dele. Primeiro dos livros, e mais tarde, da
leitura teatral e enfática dele. Quando cheguei à 192 Books, atrasada como
sempre, quase nem tinha espaço para estar espremida no meio de tanta gente. É
este tipo de coisas que admiro em NY. As apresentações de livros, as livrarias
independentes, as leituras, as palestras, qualquer coisa que tenha livros, está
sempre lotada. Nesta apresentação em particular falou-se de C.P. Cavafy
e as três pessoas que apresentaram o livro: Jonathan Galassi, Michael Cunningham
e Daniel Mendelsohn (autor) leram cada um 5 poemas escolhidos por eles.
Comprei o livro, que para além de pesadíssimo, foi bastante mais caro do que se
comprasse na Amazon... Aqui ficam uns recuerdos:
![]() |
| Da esquerda para a direira (bem lá no fundo): Jonathan Galassi, Daniel Mendelsohn e Michael Cunningham (Copyright: 192 Books) |
quarta-feira, 27 de junho de 2012
A importância dos resultados
Estive “desaparecida” alguns dias, mergulhada em
preocupações de trabalho e em procurar respostas
para uma experiência não estar a resultar. Depois de vários dias e várias
noites, em que dormi poucas horas, e que o meu foco foi (quase só
este), tinha decidido que hoje era o dia da decisão final. Hoje ou seria o
começo da luta contra o tempo ou seria o dia que desistia do trabalho e
aproveitaria (apenas) a cidade e iria para Miami. Por volta das 6 a C. perguntou-me se queria ir
jantar. Eu disse logo que sim, fosse para comemorar ou para chorar. Passava
pouco das 7 quando a resposta para o meu imbróglio apareceu! Dias assim são
raros em ciência. E é sempre uma catarse de emoções, em que entendo as razões
de alguns sacrifícios valerem a pena. Cheguei 10 minutos atrasada ao encontro
com a C. em frente ao hospital. E gritei-lhe de longe (com a folha de
resultados na mão) que tinha sido por uma boa causa.
domingo, 24 de junho de 2012
Pride em NY
Enquanto escrevo estou sentada num café pequenino em West
Wilage chamado 11th street Cafe. Queria ter encontrado um café que descobri com
o L. no ano passado no dia do pride. Mas como sempre, quando não tomo noto, a
minha memória (extremamente) selectiva aka “de peixe” descarta tudo.
Hoje no dia do Pride, tudo lá fora é multidão. Multidão de pessoas, de lixo, de cores. Este ano celebra-se o primeiro Pride depois da legalização do casamento em NY. Como a maioria das pessoas que me conhece sabe, não sou grande adepta de multidões, nem de manifestações, sejam elas referentes ao que for. Provavelmente, este é um traço da minha personalidade. Acho o significado de todas as manifestações importantes, eu é que não participo nelas. Mas estar em NY e não assistir ao Pride é daquelas coisas, que quem tiver oportunidade, não deve perder a experiência. Tanta gente, tão diferente, diferentes tribos e credos. Mas há uma parte muito exibicionista e folclórica. Homens quase nus, travestidos, demasiado maquilhados, drag queens, algumas mulheres a mostrar as mamas, mas a indumentária dominante parece ser a moda dos minúsculos calções, quer se tenha corpo ou não. Faz parte do show, como diz a música. Invejo, muito honestamente, a auto-estima destas pessoas.
Este ano vim ao Pride, lamento, não para ver a marcha mas para encontrar as massagens de 10 mins a 10 dólares de asiáticos no Pride Street Fair que acontece na Hudson Street desde a W 14 até (quase) à 11. Já estava desanimada quando, finalmente, encontrei a barraca das massagens. Estava mesmo a precisar. O senhor (que não falava inglês) mas que no fim soube dizer “dear, tip!”, insistiu no meu ombro esquerdo e aquilo doeu mesmo e depois demorou-se no trapézio...será este o nome?....No final dos 10 minutos não sei se saí de lá melhor ou pior.... sei q saí a ver mal do olho esquerdo por estar com a cara enfiada naquelas cadeiras... No percurso ainda me colaram um autocolante “Obama Pride”!
Ontem fui jantar a um restaurante português, Pão, que (quase) todos os portugueses que moram em NY conhecem. Portugueses mesmo, só este, o Alfama e o de inspiração portuguesa, nouvelle cuisine, com uma estrela Michelin, o Aldea. Fiquei na esplanada. Estava uma noite quente, abafada, como a maioria das noites de verão de NY, quase não corria brisa, mas talvez por estar perto do rio, torna-se uma das zonas mais suportáveis de se estar.
Hoje no dia do Pride, tudo lá fora é multidão. Multidão de pessoas, de lixo, de cores. Este ano celebra-se o primeiro Pride depois da legalização do casamento em NY. Como a maioria das pessoas que me conhece sabe, não sou grande adepta de multidões, nem de manifestações, sejam elas referentes ao que for. Provavelmente, este é um traço da minha personalidade. Acho o significado de todas as manifestações importantes, eu é que não participo nelas. Mas estar em NY e não assistir ao Pride é daquelas coisas, que quem tiver oportunidade, não deve perder a experiência. Tanta gente, tão diferente, diferentes tribos e credos. Mas há uma parte muito exibicionista e folclórica. Homens quase nus, travestidos, demasiado maquilhados, drag queens, algumas mulheres a mostrar as mamas, mas a indumentária dominante parece ser a moda dos minúsculos calções, quer se tenha corpo ou não. Faz parte do show, como diz a música. Invejo, muito honestamente, a auto-estima destas pessoas.
Este ano vim ao Pride, lamento, não para ver a marcha mas para encontrar as massagens de 10 mins a 10 dólares de asiáticos no Pride Street Fair que acontece na Hudson Street desde a W 14 até (quase) à 11. Já estava desanimada quando, finalmente, encontrei a barraca das massagens. Estava mesmo a precisar. O senhor (que não falava inglês) mas que no fim soube dizer “dear, tip!”, insistiu no meu ombro esquerdo e aquilo doeu mesmo e depois demorou-se no trapézio...será este o nome?....No final dos 10 minutos não sei se saí de lá melhor ou pior.... sei q saí a ver mal do olho esquerdo por estar com a cara enfiada naquelas cadeiras... No percurso ainda me colaram um autocolante “Obama Pride”!
Ontem fui jantar a um restaurante português, Pão, que (quase) todos os portugueses que moram em NY conhecem. Portugueses mesmo, só este, o Alfama e o de inspiração portuguesa, nouvelle cuisine, com uma estrela Michelin, o Aldea. Fiquei na esplanada. Estava uma noite quente, abafada, como a maioria das noites de verão de NY, quase não corria brisa, mas talvez por estar perto do rio, torna-se uma das zonas mais suportáveis de se estar.
Comi um caldo verde, pastéis de bacalhau e ameijoas à Bulhão
Pato, acompanhado por um branco Quinta de Cabriz. Para sentir-me ainda (bem) mais
culpada comi uma mousse de chocolate. Para desgastar, e porque estava mesmo
cheia, resolvi andar, que é uma coisa que aprendi a gostar em NY. Sempre ruas
diferentes, percursos alternativos, nunca nada é igual. Da Spring Street segui até à 34 (Penn
Station). O melhor destes percursos são sempre as pessoas. E ontem,
particularmente por ser sábado, como deve acontecer em todas as cidades do
mundo, os subúrbios “visitam” a cidade. Por muitos lugares que frequente, ao
sábado à noite, parece que há uma hegemonia na vestimenta. Aqueles vestidos
colados ao corpo que deixam (quase) tudo à vista. Podia até ter um toque de
classe, mas não, este traje não favorece a maioria das pessoas, digo eu. Mesmo
as mulheres com o corpo melhor do mundo ficam com um aspecto vulgar. E então, ontem no meu percurso era vê-las a
passar por mim todas iguais, só as cores mudavam, e os tamanhos. A maioria, não
sei bem qual a razão usa números que lhes deixaram há muito de servir. E a
maioria também, tenta equilibrar-se, o melhor que pode (e sabe), nos seus
saltos altos. Nunca vi tanta gente a não saber andar de saltos altos! É quase
um esterótipo.
sábado, 23 de junho de 2012
Fim de semana passado
O melhor de NYC é que raramente se repete alguma coisa.
Descobrimos sempre coisas novas e lugares aos quais talvez não voltaremos.
Desta vez tive a visita da S. Que chegou duas horas atrasada por causa da
trovoada em Miami. Acabamos por ir jantar ao Metro Diner que foi talvez onde mais
jantei no ano passado. Não sei que branca me deu mas quando fomos para pagar,
quando o gerente dá o troco, eu pego em
todas as notas e moedas e saio. Mal saio do restaurante a S. pergunta-me da
gorjeta e aí voltei à realidade. Não sei o que me deu mas por momentos pensei
estar em Portugal e esqueci-me completamente da obrigatória gorjeta. A maioria
dos turistas, principalmente europeus, discorda. Muitos deles escapam-se de dar
a “aconselhada” gorjeta de 15-20% e é por isso que muitos dos restaurantes
quando desconfiam que são turistas incluem na conta a gorjeta. Se me
perguntarem se concordo, discordo completamente. Mas é um sistema enraizado. A
maioria das pessoas que trabalha nos restaurantes ou não tem ordenado ou recebe
pouquíssimo e o seu salário baseia-se na “aconselhada” gorjeta. Agora
imaginem-me a não dar gorjeta e pensar que a pessoa que me serviu fica sem
salário. É que aqui não tem nada a ver com Portugal, a gorjeta não é um
complemento ao ordenado, é mesmo o ordenado.
No dia seguinte fomos ao Boathouse no Central Park a
conselho de um conhecido da S. Antes disso passamos por Strawberry Fields que
eu não conhecia e pela Bethesda Fontain. O Boathouse tem uma vista espectacular
para o lago com barcos no Central Park. É um lago do Bom Jesus gigante, como
disse a S. Esperamos uma hora por uma mesa. O brunch não foi dos melhores mas o
lugar e a vista valem a visita e o preço. Percorremos o Central Park até
Columbus Circle e fomos de Metro até Chelsea onde entramos no High Line até ao
MeatPacking District. Continuamos a descer pelas ruas de West Village e paramos
para um copo no White Horse Tavern onde Dylan Thomas bebeu até morrer. O
objectivo era “ver o ambiente” no Top of the Standard Hotel (o antigo Boom Boom
Room) famoso pela melhor vista de de NY, tudo em vidro, inclusive as casas de
banho. Mas como não atinei com o hotel, decidimos ficar na esplanada do White
Horse Tavern. E grande escolha, segundo a S., que acabou por ver a Julianne
Moore e a filha. Pequenina, magrinha e tão bonita ao vivo como na tv, de preto
e com uns óculos Ray-Ban iguais aos meus! Continuamos a descer em direcção à
Freedom Tower, passamos por Chinatown e por Tribeca e paramos numa trattoria
italiana para um aperitivo. Acabamos a comer uma salada e mais copos de vinho.
O objectivo era ver o pôr-do-sol em Battery Park. Ainda chegamos a tempo e
tivemos a ideia de atravessar o Ferry até Staten Island porque a S. Nunca tinha
andado e eu nunca o tinha feito ao fim da tarde/noite. Vale a pena! Depois,
continuamos à beira rio até ao Pier 17 e seguimos para Chinatown onde levamos a
S. ao mítico Joe’s Shanghai para provar os soup dumplings. A S. não ficou fã.
Eu, por mais que lá vá, gosto cada vez mais... Seguimos para Little Italy para
a sobremesa na Little Ferrara. Depois do dia inteiro a andar ainda faltava mais
uma coisa: Stone Rose Lounge, aconselhado por um expert de Miami. O sítio só
podia valer a pena. Lá regressamos a Columbus Circle e estavamos vestidas com a
roupa que andamos todo o dia, e eu especificamente de ténis All Star. A S.
deu-me a táctica infalível de colocar os óculos de ler. Ahahhaha. Entramos sem
problema. Tinha uma vista espantosa sobre Columbus Circle e Central Park. Tinha
um DJ com música boa, pessoas bonitas mas que não vêm à cidade só ao fim de
semana, o dress code não era o típico “quanto mais mostrar melhor” nem os
tacões (que a maioria não sabe equilibrar-se com classe neles). Os cocktails
eram bons e fortes, pelo menos os que experimentamos. Ao entrar no táxi de
regresso a casa reparamos que duas miúdas com o habitual dress code de fim de
semana não conseguiram entrar... A táctica dos óculos funcionou!
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White Horse Tavern
sexta-feira, 22 de junho de 2012
THREE LIVES & COMPANY
THREE LIVES is an anachronism.
It is the shop around the corner.
A touchstone in a neighborhood.
A place with a human face and a cast of characters.
84 Charing Cross Road colored by the time and place.
A haven for people who read.
"One of the greatest bookstores on the face of the Earth. Every single person who works there is incredibly knowledgeable and well read and full of soul. You can walk in and ask anybody, really, what they've read lately and they'll tell you something - very likely something you've never heard of. [But] it's always going to be something interesting and fabulous. I go there when I'm feeling depressed and discouraged, and I always feel rejuvenated".- Michael Cunningham.
terça-feira, 19 de junho de 2012
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Sidi Hustvedt e Paul Auster
Como tantos outros
escritores, que tive a sorte de ver em NY, Paul Auster era um dos que estava na
lista. Há algum tempo tinha comprado bilhete para ver uma conversa com ele num
dos eventos da Pen. Infelizmente, a presença dele foi cancelada e não foi dessa
vez que o vi. Soube há uns tempos que le iria apresentar o livro de Sidi
Hustvedt na Strand. Não sabia quem era Sidi Hustvedt, nem tão pouco se era homem ou mulher. E por falta
de tempo, nem isso fui pesquisar... Mas achava que era um homem. Quando cheguei
à Strand, atrasada, como sempre por ser muito cedo para mim, já a Sidi estava a
ler partes do livro. Percebi que era uma mulher. E mesmo sem saber nada sobre
ela e sobre os livros dela achei a conversa interessantíssima. Sidi Hustvedt é uma escritora com vários livros
publicados, é doutorada em Literatura Inglesa por Columbia University, tem um
enorme interesse e conhecimento sobre neurociências, conhece Antonio Damasio, é
muito viajada... Tudo isto fiquei a saber lá. Estas foram muitas das respostas
dela às perguntas do Paul Auster. O livro “Living, thinking, looking” é uma
colecção de crónicas. Ainda não o li, mas pouco mais de uma hora em que a
escritora leu passagens do livro e em que repondeu às perguntas de Paul Auster,
deixaram-me muito entusiasmada. Claro está que entrará para a pilha de livros
que me acompanha e que aumenta a cada dia. Acabei de saber hoje que Sidi
Hustvedt é a mulher de Paul
Auster e estão casados desde 1981.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Dia de Portugal em Newark
Nunca tinha estado em Newark a não ser no aeroporto ou de passagem. Sabia que havia uma enorme comunidade portuguesa. Como o dia de Portugal foi no domingo decidimos passar lá o dia com um objectivo principalmente gastronómico. Newark, pelo menos o que vi, nem parece uma cidade. Nunca vi diferenças tão contrastantes entre uma cidade e outra separadas por poucos kms. Há casos de diferenças visíveis como Lisboa vs Almada/Montijo/Alcochete ou Porto vs Gaia. Mas NYC vs Newark é gritante. Mal saímos da estação de comboios sentimos imediatamente o cheiro a sardinhas! Várias barracas, com diferentes nomes, música pimba aos berros, imensos portugueses de boné e t-shirts da selecção. A maioria usava calções e boné. Deve ser a adaptação aos novos tempos. Após uma rápida ronda pelas barracas decidimos pedir bifanas e sardinhas. Afinal já era hora de almoço e as saudades de comida portuguesa era mais do que muita. O destino final era o "Seabra´s Marisqueira". Até chegarmos lá passamos por uma rua onde quase tudo era português, desde TAP, BES, agências de viagem portuguesas, quiosques, cafés, pastelarias, supermercados e a maioria das pessoas com quem nos cruzávamos era portuguesa. Falavam num diferente dialecto que misturava português com inglês, mas a maioria até falava inglês entre eles. A sensação que tive é que este micro-mundo correspondia algures a um Portugal que só me lembro de ver nas aldeias. Um mundo fechado, parado no tempo, sem evoluções e que não corresponde de todo ao Portugal que somos agora. Contudo, a maioria destes emigrantes não se assemelha em nada ao Portugal moderno e muito menos parecem viver a poucos kms de uma das cidades mais fervilhantes e cosmopolitas do mundo. Quando chegamos ao restaurante, aí sim parecíamos ter chegado a Portugal. Parecia uma das muitas cervejarias/marisqueiras que existe em Portugal. Um grande balcão, aquários, azulejos na parede, garrafas de vinho, cozinha visível.... Eu fiquei fã deste restaurante. Melhor do que muitos restaurantes em Portugal. A mesa tinha toalha de pano, ao contrário da maioria dos restaurantes em NY. O pão nem tenho palavras para descreve-lo. Acho que nunca comi pão tão bom na minha vida. Quem vive nos Estados Unidos sabe da dificuldade que é encontrar pão razoável... Seguia-se a escolha da comida. Tanta variedade, coisas tão boas , que a dificuldade era mesmo escolher. Escusado será dizer que as minhas escolhas são (quase) sempre desastrosas. Quem é que se lembra de escolher leitão numa marisqueira?!. Podem atirar-se para o chão a rir!. Sim, escolhi leitão! E quando chegou à mesa, apenas pelo aspecto, percebi o erro (mais uma vez) acabara de cometer... Percebi imediatamente que o tal do leitão pelo tamanho já era adolescente para não dizer adulto... e não fora assado em brasas... Péssima escolha, nem consegui comer o que trouxe para casa. As outras escolhas foram mais acertadas. Açorda de marisco e carne de porco à alentejana. Como não sou grande fã desta última optei por nem provar. Mas a açorda de marisco estava divinal. Tudo era fresco. E polvilhada com imensos coentros. Ainda consegui comer uma mousse de chocolate caseira que também estava óptima. Depois ainda fomos aos supermercado Seabra. Este senhor deve ser o magnata lá do sítio. Tinha imensa coisa portuguesa e os produtos estavam cheios de neologismos: rosca de coconut, regueifa cinnamon....
Ao deixarmos Newark ainda tive tempo de ir a um quiosque compra a "Visão" que me custou $8!!! E ainda vimos este fenómeno do youtube pessoalmente....
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