Pittsburgh
não é daquelas cidades que nos marca. Tem um rio que divide a cidade. Lembro-me
que ficamos num excelente hotel (Hilton) em frente ao rio por um preço
imbatível e tínhamos um motorista que nos ia levar e buscar onde queríamos. Agora mudou de nome mas dá para ver o quão magnífico era, aqui. Isso
foi até motivo de muita polémica na altura porque o nosso hotel era melhor que
o do nosso orientador!! E aluno de doutoramento, segundo as instruções dele
nunca ficavam num hotel com mais de 3 estrelas... Ainda por cima, nada habitual
nos hotéis nos Estados Unidos, o pequeno almoço era incluído. Este era um
hotel de 5 estrelas ao preço de um de 3. Lembro-me que depois da conferência passávamos horas no bar do hotel a beber vinho e a fumar. No tempo em que ainda
era permitido fumar em alguns hotéis nos EUA. E a maior recordação que tenho de
Pittsburgh é o museu do Andy Warhol, cidade onde ele nasceu. Antes de ter ido
a Pittsburgh (em 2006) achava que Warhol era nova-iorquino.
sábado, 29 de setembro de 2012
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
A minha avó
A minha avó apagou-se há um mês. Foi-se da forma que sempre
pedi para ela. Rápido e quase sem sofrimento. Viveu os últimos tempos como
queria. Cuidada pela filha que escolheu, pelo genro que foi o primeiro a
sugerir a ida dela para a casa deles e por uma senhora que não era da família
mas que cuidou dela e a mimou como se uma filha fosse.
A minha avó era pequenina mas uma grande mulher. Tinha um
olhos muito pequeninos e muito azuis, aquele azul céu. Já a conheci com o cabelo
muito branquinho, incrivelmente liso. Usava uns óculos muito graduados que
faziam parecer que tinha uns olhos enormes. Quando os tirava, somente quando ia
para a cama, percebia-se o quão pequeninos eram. Dormia silenciosamente, quase
nunca se virava na cama. Era uma verdadeira matriarca. Enquanto teve saúde,
cozinhou sempre e tratou da casa. Cozinhava muito bem. Fazia a melhor sopa de
couves com feijão que algum dia comi. Detestava quando era pequena , mas
aprendi a adorá-la. A minha avó cortava as couves para o caldo-verde com a
perfeição de uma máquina. Era esquerdina. Fazia tudo com a mão esquerda mas
escrevia com a direita, tal como o meu avô. Fazia o melhor arroz de toda a
gente. E fazia um prato que eu sempre detestei quando feito pelos outros mas
que eu adorava quando feito por ela. A esse prato chamávamos “batatas guizadas”
uma espécie de jardineira sem ervilhas.
Era uma pessoa tímida e de poucas palavras com quem não conhecia
mas era uma excelente conversadora com os que com ela privavam. Queria sempre
saber notícias e novidades. Adorava jogar às cartas, à sueca. Sempre foi a
minha companheira de equipa e jogava muito bem, sem truques nem batotices. Fazíamos uma dupla fabulosa. Passávamos as tardes de verão a jogar quando as
férias duravam quase 4 meses. Há já muitos anos que deixei de jogar cartas com
ela. Os anos foram passando e ela continuou a jogar cartas quando tinha
companhia, quase sempre aos fins de semana, no Natal e na Páscoa.
Adorava que eu lhe cortasse as unhas e que lhe medisse a
tensão. Fazia a melhor cevada com café do mundo. Comprava os componentes na
“Negrita” e ela misturava-os conforme a sua receita.
Tinha um medo enorme de trovoada e tempestades. Recolhia-se
sempre a rezar a Santa Bárbara e acendia sempre uma velinha. Era devota de
muitos santos e rezou diariamente o terço em conjunto com o meu avô e com quem
se lhes decidia juntar.Depois da morte do meu avô passou a fazê-lo em silêncio.
Com o passar dos anos, tal como aconteceu a todas as irmãs,
começou a ouvir muito mal. Há muitos anos que usava um aparelho auditivo. E por
esse motivo era difícil perceber-nos ao telefone. No último ano começou a
perder capacidades. Andava muito devagarinho e quase não saia de casa. Passava
os dias no seu sofá.
Nas férias passei um dia inteiro com ela. Já não me
conhecia. Fui talvez a primeira pessoa de quem se esqueceu. Cortei-lhe as
unhas, embora não precisasse, mas sabia que gostava. Passou a manhã na cama e
não queria que eu saísse da beira dela. Almoçamos a salada russa da minha mãe
que ela tanto gostava. À tarde ainda dormiu a sesta e depois quis ir para o
sofá. Nesse dia um dos meus tios foi visitá-la e ela ainda o reconheceu. Mais
ao fim do dia começou a perguntar pela minha tia que ficava com ela. Eu
repeti-lhe muitas vezes que ela estava a chegar porque tinham ido almoçar fora.
Estava confusa e agitada porque não me reconhecia. Por mais que eu lhe dissesse
quem era. “Vó, sou a tua neta” ao que ela respondia repetidamente: “Netas há
muitas”. Quando os meus pais e os meus tios chegaram a minha avó até chorou de
alegria porque os reconheceu. Embora não me reconhecesse, achou que eu a tratei
bem, e quando eu me despedi dela para me ir embora perguntou-me: “Amanhã vem
para cá?”. Dois dias depois deixou de andar e fomos com ela para o hospital.
Estive todo o dia com ela, de mão dada porque ela não queria ficar sozinha. Não
me reconhecia como neta dela mas apertou-me sempre a mão com a força que tinha.
No dia seguinte ainda voltou para casa mas teve que regressar ao hospital
porque já não conseguia comer. A última vez que a vi com vida estava a aguardar
internamento, estava a dormir serenamente e com um riso nos lábios. Ainda lhe
segurei as mãos e sentia-as quentes. Ainda lhe dei um beijo. Embora soubesse
que o fim estava próximo, nunca pensei que estivesse tão perto. Quando de manhã
recebi a notícia foi um choque tão grande que nem reagi. Depois do meu avô
foi-se a minha avó. Só ficaram boas memórias.
O desejo do meu sobrinho mais velho
Diz-me ele ontem ao jantar: "Titi, quando for grande quero poder beber coca-cola".
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Robert NYC @ Museum of Arts and Design
A primeira vez que fui ao Robert tínhamos ido jantar a um
restaurante afegão em Hells Kitchen. Por insistência minha, queria ir para
Columbus Circle e passar no local onde tinha sido o mítico Studio 54. Agora é
(apenas) um teatro que tinha uma peça com bastante êxito em cena, com um dos actores do "Big Bang theory". Há umas
semanas atrás eu tinha estado no bar lounge Stone Rose em Columbus Circle. A
vista sobre o Central Park e sobre a estátua do Colombo era magnífica. A ideia
era voltar lá para beber um cocktail.
Quando passávamos no MAD, a C. perguntou porque não experimentar o Robert. Subimos e nessa noite (sábado) havia música ao vivo (piano e contrabaixo). Sentaram-nos numa mesa afastada das janelas. Eu não sou muito de cocktails, normalmente faço escolhas erradas, só bebo coisas básicas e repetitivas como vinho, gin tónico, ou whisky com água com gás. Nesse dia joguei pelo seguro e pedi um cosmopolitan. Pouco depois a C. avisa-me que atrás de mim estava a chef Luisinha. Eu apenas a conhecia de me cruzar com ela em eventos do Portuguese Circle, tais como no City Sandwich ou no Portugal Day. A chef Luisinha é uma senhora com uma história de vida interessantíssima. Foi enfermeira muitos anos e há 10 anos reformou-se e foi para NY aventurar-se pela sua outra paixão: a cozinha. A chef Luisinha reconheceu-me e veio ter connosco à mesa e pouco depois colocou-nos numa mesa junto à janela. Que vista fabulosa! É mesmo uma experiência imperdível. Mas para além do ambiente fantástico, a simpatia e amabilidade de todas as pessoas que lá trabalham, o que provámos nessa noite foi de chorar por mais. A chef Luisinha foi de uma amabilidade e simpatia e presenteou-nos com uma panna cotta e bambolinis. Que noite tão bem passada, com muitas histórias, muitos risos, uma excelente vista, uma sobremesas fabulosas e com a companhia da chef Luisinha.
Quando passávamos no MAD, a C. perguntou porque não experimentar o Robert. Subimos e nessa noite (sábado) havia música ao vivo (piano e contrabaixo). Sentaram-nos numa mesa afastada das janelas. Eu não sou muito de cocktails, normalmente faço escolhas erradas, só bebo coisas básicas e repetitivas como vinho, gin tónico, ou whisky com água com gás. Nesse dia joguei pelo seguro e pedi um cosmopolitan. Pouco depois a C. avisa-me que atrás de mim estava a chef Luisinha. Eu apenas a conhecia de me cruzar com ela em eventos do Portuguese Circle, tais como no City Sandwich ou no Portugal Day. A chef Luisinha é uma senhora com uma história de vida interessantíssima. Foi enfermeira muitos anos e há 10 anos reformou-se e foi para NY aventurar-se pela sua outra paixão: a cozinha. A chef Luisinha reconheceu-me e veio ter connosco à mesa e pouco depois colocou-nos numa mesa junto à janela. Que vista fabulosa! É mesmo uma experiência imperdível. Mas para além do ambiente fantástico, a simpatia e amabilidade de todas as pessoas que lá trabalham, o que provámos nessa noite foi de chorar por mais. A chef Luisinha foi de uma amabilidade e simpatia e presenteou-nos com uma panna cotta e bambolinis. Que noite tão bem passada, com muitas histórias, muitos risos, uma excelente vista, uma sobremesas fabulosas e com a companhia da chef Luisinha.
A experiência foi tão boa que prometemos regressar ao Robert. Combinamos que o meu jantar de despedida de NY seria lá.
No meu último dia em NY fomos jantar ao Robert,
previamente combinado com a chef Luisinha. Tinhamos uma mesa à nossa espera
junto à janela. Fomos tão bem recebidos.
Começamos por escolher os vinhos e cocktails. Vários tipos de pães foram
colocados na mesa e manteiga (da verdadeira, coisa rara em NY). A chef Luisinha disse-nos que nesse dia o
prato especial era bacalhau e que só havia 3. Eu preferi o prato que a chef
Luisinha aconselha a todas as vedetas: robalo grelhado (aka branzino). Queria
perceber o que o prato tinha de tão especial. O F escolheu pato, o T. e a N. Escolheram
bacalhau. Pouco depois chegavam à mesa
uns miminhos da chef Luisinha que nem tenho palavras para descrever.
| Mexilhões com chouriço |
| Salada mista com rabanetes |
| Risotto de vinho com polvo cozido |
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Este texto é para a C. que salvou a minha vida duas vezes-Parte I
Como a Adriana Calcanhotto, acho que escrever ajuda.
Coincidentemente, estive doente na mesma
altura que ela escreveu “Saga Lusa”. Ela com um surto psicótico induzido por
interacções de drogas legais e eu a “enlouquecer” com um problema de estômago.Ela
achava que estava a ficar louca e que não voltaria à realidade e eu achava que
ia morrer... ainda para mais... sozinha! Regredindo no tempo, ao verão de 2008, estava eu no "arrozal" na Rice University em Houston, Texas. Estava nas últimas experiências
do meu Doutoramento e nos últimos meses em Houston. Adorava a vida que tinha
lá. Vivia num complexo com piscina a 3 mns (a alta velocidade) de bicicleta da
Universidade. Aquela bicicleta de criança comprada no segundo dia que cheguei a
Houston, arrisco dizer, que fez milhares de Kms. Nunca em toda a minha vida
estive tão em forma. Ao fim de semana fazia em média 30 kms. O meu orientador
de lá dizia sempre que me reconhecia ao longe pela bicicleta e o capacete e que
quando encontrava um Malboro caído no chão era meu. Era a melhor e mais fiel
consumidora de latte na universidade. Até me ofereceram uma t-shirt “Rice Coffe
House” que tenho até hoje.Tinha o meu gabinete espectacular partilhado com mais
duas das melhores pessoas que conheci no mundo. Até me ofereceram uma máquina
de café, que depois servia para todos. Como (quase) toda a gente sabe nunca precisei de
dormir muito. Estava (quase) sempre acordada em todos os fusos horários. Nesse
verão, aceitei, talvez fruto de não querer reconhecer que todos os humanos têm
um limite, escrever um capítulo de livro a convite do meu orientador. O desafio
era irrecusável, pelo menos para mim. Quase que disse que sim de imediato. De
dia fazia as experiências no laboratório e de noite escrevia. E foi um ano de
muito trabalho porque para além de todas as experiências, tinha os bioreactores
que eram 8, todos para mim. Cada um demorava, em condições de esterilidade, uma
hora a montar. Para além disso, tinha os estudos in vivo com ratos. Acho que
nunca trabalhei tanto. Mas também nunca me senti tão entusiasmada. Adorava
aquele clima de Houston, absurdamente quente e húmido. Sempre sol.
Uma noite, como “não há mal que dure sempre nem bem
que nunca acabe”, adormeci de cansaço no sofá depois de jantar, enquanto a roupa
lavava. Acordei passado pouco tempo muito indisposta, suores frios, muito pálida,
uma sensação de fraqueza...Passei a noite a vomitar. Achava que no dia seguinte
estaria melhor. Quando acordei na manhã seguinte não consegui comer nada e a
sensação de náusea persistia. E isto continuou uns dias, tudo o que comia
vomitava e as únicas coisas (em muito pouca quantidade) que o meu estômago aguentava
eram bolachas de água e sal e água. Omiti a quase toda a gente o quão mal me
estava a sentir. Falei com uma amiga, acho que mais de uma vez, que não estava
a sentir-me bem e ela sempre me disse que o mais importante era a saúde, que
nada mais importava quando isso estava em causa. E aconselhou-me, se estivesse
mal, a voltar para Portugal. Eu aguentei heroicamente até me faltarem as forças
todas e até o sinal de alarme soar. Um isolamento de células que demorava uma
manhã, nesse dia demorou, quase um dia inteiro. Nesse dia, sentia-me a morrer.
Passei o dia a vomitar, não aguentava nada no estômago. Ao fim da tarde percebi
que vomitava sangue. O que se pensa numa altura destas? Sozinha, no outro lado
do mundo? Eu não tive muitas alternativas. Se lá era fim da tarde, em Portugal
era início da madrugada. Primeiro liguei à AR que estava na Turquia (não me
atendeu porque já a madrugada ia avançada), liguei para o meu irmão que não me
atendeu e depois liguei para a última pessoa que queria ligar aquela hora...
Não sei se foi a primeira, mas foi uma das primeiras vezes que não consegui
disfarçar ao telefone. Pela primeira vez nessa semana, não omiti o quão mal
estava e queria apenas que alguém me dissesse o que eu estava à espera de
ouvir, que voltar seria a melhor solução. E ela com uma calma (que mais tarde
vim a saber era só disfarce) organizou-me tudo por telefone, deu-me todas as
indicações, fez-me todos os planos, preparou-me tudo. Disse-me para ir a casa
preparar uma mala com algumas roupas, que logo que amanhecesse em Portugal iria
pessoalmente comprar-me um bilhete de avião (disse-me que poderia demorar algum
tempo), telefonou aos meus pais, descansou-os. E passadas algumas horas ligou-me
(na minha madrugada) a dizer que tinha que estar no aeroporto ao meio-dia e que
me tinha arranjado um vôo. Quase ninguém soube deste plano detalhado ao
milímetro. Se eu sobrevivi e arranjei forças para uma viagem conseguida tão
rápido mas tão longa deve-se a esta pessoa que me garantiu que tudo ia correr
bem e que eu ia estar bem para regressar daí a um mês. Como disse Arquimedes: “Dá-me
um ponto de apoio e eu moverei o mundo”. Foi essa força que eu senti.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Esquadros
"Eu ando pelo mundo
prestando atenção em cores que eu não sei o nome
cores de Almodovar
cores de Frida Khalo
cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que o meu irmão ouve
e como uma segunda pele, um calo, uma casca, uma cápsula protetora..."
Adriana Calcanhotto
prestando atenção em cores que eu não sei o nome
cores de Almodovar
cores de Frida Khalo
cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que o meu irmão ouve
e como uma segunda pele, um calo, uma casca, uma cápsula protetora..."
Adriana Calcanhotto
quinta-feira, 26 de julho de 2012
The letting go by Siddhartha Mukherjee
"It had rained
heavily the night before. The steep stone steps of the ghat are slick and
slippery, and when my father pulls me onto the boat, the water feels more
stable than the ground. The boatman rows out toward the open river, and the
city of Varanasi swings into full view.
On the bank,
wrestlers are performing calisthenics; a vendor is selling marigolds; a man is
throwing birdseed at pigeons. The river moves sluggishly at first — but then a
current forces the boat around the bend, and we are floating silently by the
Manikarnika ghat, where the dead are burned.
I am 8 or 9 years old. Save a distant uncle who has
died of renal failure, I have had no personal experience of death. I imagine it
as little more than a corporeal exit from the world.It is an unforgettable
sight: row upon row of burning bodies on wooden pyres by the river’s edge.
There are dozens of pyres lighted at the ghat, like lanterns along the river.Around them, a circus of death unfolds(...)
Decades later, having trained
as an oncologist in Boston, I attend the funeral service of a woman who has
died after a long battle with cancer. I remember approaching the coffin, and
then registering something odd: the woman has been coiffed and dressed up, and
there is the faintest blush of lipstick — lipstick? — on her mouth(…)
At medical rounds a few days
later, I ask some residents and interns about death: how many have carried the
body of a parent? What does the weight feel like? And what about the ritual of
bathing and cleansing?"(...)
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Nova Iorque como escolha
Ao contrário do Lobo Antunes, que escreveu um dia
sobre a sua ida para NY foi convidado pelo seu mestre Melvin D. Yahr que lhe
disse: “Come with me to New York” e João Lobo Antunes, “tal como os apóstolos,
quando ouviram o chamamento, deixou tudo e segui-o”. Eu não fui para NY com um
convite. Eu sempre quis viver em NY, ter essa experiência de viver noutro
mundo. Na cidade em que tudo é possível. Ao contrário da maioria das pessoas,
que escolhem a cidade para onde vão trabalhar baseado na qualidade do
laboratório/orientador, eu escolhi a cidade. Obviamente, que conhecia a tão
afamada Columbia University mas não foi isso que me moveu. Esse foi apenas o
caminho mais fácil para viver em NY. Sempre quis provar para mim mesma a tal da
lenda da música: “ If I can make it there, I'll make it anywhere”.
Eu sabia que queria viver em NY. Não sabia como isso
aconteceria. Queria, não sabia se um dia isso iria concretizar-se. Era como uma
imagem distante e nublada, quase inatíngível que povoava o meu consciente. Achava que não
passaria de um sonho ou desejo irrealizável. Aquele tipo de pensamento que só
acontece nos filmes. Tal como desde sempre achei que não me formaria, quanto
mais acabar um doutoramento... Ainda hoje, quase toda a gente sabe, acordo a
pensar que ainda não consegui acabar o curso.
A minha primeira impressão da cidade não foi aquela
coisa turística de desmaiar porque a cidade era linda. É isso para mim, agora,
e muito mais. Quando fui pela primeira vez a NY, como turista, quando pisei
pela primeira vez Times Square foi qualquer coisa transcendente. E só não foi
mais porque já havia estado em Shanghai e o impacto desvanesceu-se.
Joan Didion
escreveu que NY é uma cidade “for only the very rich and the very poor”. Concordo.
E NY é uma cidade para quando se é jovem, livre e sem falta de dinheiro. Se não
houver a conjugação destas 3 permissas, NY perderá a graça, com toda a certeza.
NY antes de Giuliani era uma cidade com uma elevada taxa
de homicídios, o que obrigava a saber gerir o risco e o medo, sobretudo quando
se viajava no metro. Bem diferente dos dias de hoje. Nunca me senti insegura em
NY, nem mesmo quando saía do lab de madrugada. O barulho que nunca pára, é
agravado muitas vezes, demasiadas vezes,
pelo alarme estridente de ambulâncias e carros de polícia da cidade que
nunca dorme.
Outra coisa que
se aprende em NY é: “If you live in New York, even if you’re catholic you’re
Jewish”.
Nunca vi cidade no mundo com gente tão bizarra que
grita e fala alto para si própria e que muita gente nos adverte para evitar o
contacto visual.
Sabem aquelas cidades, vilas, aldeias, com aquelas
pracinhas? Eu sou o contrário disso. Aquilo que a maioria das pessoas bucólicas
acha uma paz, uma calma, um sonho. Eu
até posso achar bonito, mas se tivesse nascido num lugar assim, teria ido
embora no máximo com 3 anos de idade...
Joan Didion escreveu também que em NY “Nobody watches,
everyone performs”. NY fica-nos para sempre. Como tantos outros, eu viverei
para sempre em NY.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Ernest Hemingway in "A moveable Feast"
“As
I ate the oysters with their strong taste of the sea and their faint metallic
taste that the cold white wine washed away, leaving only the sea taste and the
succulent texture, and as I drank their cold liquid from each shell and washed
it down with the crisp taste of the wine, I lost the empty feeling and began to
be happy and to make plans.”
| @Fish (Bleecker St.) |
quarta-feira, 18 de julho de 2012
As 3 fases da vida de um cientista segundo João Lobo Antunes
"Na primeira fase trabalha, na segunda fala do que fez, na terceira diz apenas: «Deixe que lhe mostre o meu laboratório»".
Dylan Thomas
Se em meu ofício, ou arte severa,
Vou labutando, na quietude
Da noite, enquanto, à luz cantante
De encapelada lua jazem
Tantos amantes que entre os braços
As próprias dores vão estreitando
Não é por pão, nem por ambição,
Nem para em palcos de marfim
Pavonear-me, trocando encantos,
Mas pelo simples salário pago
Pelo secreto coração deles.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Saga da mudança
Há um conselho que dou sempre para quem se muda/viaja mas
que nunca o aplico a mim: organizar as coisas com tempo. Depois de ter vivido
em várias casas, depois de as colocar habitáveis, e depois de as desmontar...
ninguém consegue imaginar o que se consegue acumular em 6 meses e que terão que
se reduzir a 2 malas (em que obviamente entrará o pagamento do excesso de peso
e uma mala extra) e uma mala de mão que não ultrapasse os 8Kgs. Agora
expliquem-me como se consegue levar alguma coisa de jeito numa mala de mão que
per se pesa 5 kgs? Truque número 1: uma mochila ajuda. A mochila (que nunca
ninguém se preocupa em pesar) serve para levar os livros mais pesados e que
servirá também para ser estrategicamente
colocada de lado para que ninguém repare no peso (que normalmente ultrapassa os
15kgs).
Quando me mudei da minha casa para a casa do F. deixei tudo
para a última. E como não podia deixar nem um alfinete no apartamento acabamos
por ter que fazer 2 carregamentos. A brincadeira ficou por $130. Sabem aquela
cena do filme “Up in the air” em que o personagem do George Clooney diz que a
vida dele cabe toda numa mochila/mala? Eu sou o oposto. Quero sempre tudo,
nunca faço escolhas, adio. Ah, e aquela característica tão minha de ser
apanhada de surpresa! Que nos últimos dias me tem dado umas valentes dores de
cabeça. Mas isso ficará para um próximo post...
Não sei o que tanto tenho nas malas... porque mais de metade
dos livros tiveram que ficar num caixote na casa do F. que ficam a aguardar o
meu regresso ou vão depender da boa vontade e capacidade física dos próximos
voluntários...A tv que queria trazer, dá para rir... onde pensava eu que ia
trazer uma tv??? A almofada e os lençóis que eu tanto gostava ficaram para a C.
O poster do MoMA teve que ficar e será enviado pelo correio... à quantidade de
tralha que trazia à minha volta poderia ser interpretado como uma arma! E ainda
deixei a minha “bíblia”, que me acompanhou no doutoramento e que tem a grossura
de 5 moleskine A5, em casa do F. Sem falar na lista de tudo que o F. tem para
vender...
sexta-feira, 29 de junho de 2012
As horas
Ao contrário do que acontece muitas vezes, vi primeiro o filme, e só depois li o livro. Depois de ter lido o livro acho que o filme está muito parecido. Nesse ano, a Nicole Kidman ganhou o Oscar de melhor actriz no papel de Virgínia Woolf. Não é que discorde, mas as interpretações da Meryl Streep, e principalmente, da Julianne Moore são uma lição de interpretação. É fácil gostar-se da personagem da Meryl Streep (Clarice) que sempre fez tudo direitinho na vida, que nunca ousou, que nunca pisou o risco. E é fácil odiar-se a personagem da Julianne Moore (Laura Brown). Não sei se pela interpretação da personagem já velhinha a tentar explicar o inexplicável, não consigo condenar o que ela fez: “Laura Brown, a mulher que tentou morrer e falhou, a mulher
que fugiu da família, está viva quando os outros, todos os que lutaram para
sobreviver na sua esteira, morreram. Ela está viva agora, depois de um cancro
do fígado ter levado o seu ex-marido, depois de a sua filha ter sido morta por
um condutor bêbado. Está viva depois de Richard ter saltado da janela para um
leito de vidro partido”.
192 Books
Tempo é mesmo o que me falta. Mesmo dormindo
poucas horas não consigo fazer tudo o que quero. NY lá fora e eu enfiada no
lab. Pelo menos as coisas começaram a correr melhor. Consegui uns minutos para
me sentar a uma sexta à noite e quero escrever sobre a apresentação do livro do Daniel Mendelsohn onde se falou da compilação dos poemas do
grego C.P. Cavafy na 192 Books em Chelsea.
O que me levou a esta
apresentação não foi o autor do livro, nem o poeta sobre o qual escreveu, não
conhecia nenhum dos dois. Fui porque na apresentação estaria também o Michael
Cunningham. Sou mesmo admiradora dele. Primeiro dos livros, e mais tarde, da
leitura teatral e enfática dele. Quando cheguei à 192 Books, atrasada como
sempre, quase nem tinha espaço para estar espremida no meio de tanta gente. É
este tipo de coisas que admiro em NY. As apresentações de livros, as livrarias
independentes, as leituras, as palestras, qualquer coisa que tenha livros, está
sempre lotada. Nesta apresentação em particular falou-se de C.P. Cavafy
e as três pessoas que apresentaram o livro: Jonathan Galassi, Michael Cunningham
e Daniel Mendelsohn (autor) leram cada um 5 poemas escolhidos por eles.
Comprei o livro, que para além de pesadíssimo, foi bastante mais caro do que se
comprasse na Amazon... Aqui ficam uns recuerdos:
![]() |
| Da esquerda para a direira (bem lá no fundo): Jonathan Galassi, Daniel Mendelsohn e Michael Cunningham (Copyright: 192 Books) |
quarta-feira, 27 de junho de 2012
A importância dos resultados
Estive “desaparecida” alguns dias, mergulhada em
preocupações de trabalho e em procurar respostas
para uma experiência não estar a resultar. Depois de vários dias e várias
noites, em que dormi poucas horas, e que o meu foco foi (quase só
este), tinha decidido que hoje era o dia da decisão final. Hoje ou seria o
começo da luta contra o tempo ou seria o dia que desistia do trabalho e
aproveitaria (apenas) a cidade e iria para Miami. Por volta das 6 a C. perguntou-me se queria ir
jantar. Eu disse logo que sim, fosse para comemorar ou para chorar. Passava
pouco das 7 quando a resposta para o meu imbróglio apareceu! Dias assim são
raros em ciência. E é sempre uma catarse de emoções, em que entendo as razões
de alguns sacrifícios valerem a pena. Cheguei 10 minutos atrasada ao encontro
com a C. em frente ao hospital. E gritei-lhe de longe (com a folha de
resultados na mão) que tinha sido por uma boa causa.
domingo, 24 de junho de 2012
Pride em NY
Enquanto escrevo estou sentada num café pequenino em West
Wilage chamado 11th street Cafe. Queria ter encontrado um café que descobri com
o L. no ano passado no dia do pride. Mas como sempre, quando não tomo noto, a
minha memória (extremamente) selectiva aka “de peixe” descarta tudo.
Hoje no dia do Pride, tudo lá fora é multidão. Multidão de pessoas, de lixo, de cores. Este ano celebra-se o primeiro Pride depois da legalização do casamento em NY. Como a maioria das pessoas que me conhece sabe, não sou grande adepta de multidões, nem de manifestações, sejam elas referentes ao que for. Provavelmente, este é um traço da minha personalidade. Acho o significado de todas as manifestações importantes, eu é que não participo nelas. Mas estar em NY e não assistir ao Pride é daquelas coisas, que quem tiver oportunidade, não deve perder a experiência. Tanta gente, tão diferente, diferentes tribos e credos. Mas há uma parte muito exibicionista e folclórica. Homens quase nus, travestidos, demasiado maquilhados, drag queens, algumas mulheres a mostrar as mamas, mas a indumentária dominante parece ser a moda dos minúsculos calções, quer se tenha corpo ou não. Faz parte do show, como diz a música. Invejo, muito honestamente, a auto-estima destas pessoas.
Este ano vim ao Pride, lamento, não para ver a marcha mas para encontrar as massagens de 10 mins a 10 dólares de asiáticos no Pride Street Fair que acontece na Hudson Street desde a W 14 até (quase) à 11. Já estava desanimada quando, finalmente, encontrei a barraca das massagens. Estava mesmo a precisar. O senhor (que não falava inglês) mas que no fim soube dizer “dear, tip!”, insistiu no meu ombro esquerdo e aquilo doeu mesmo e depois demorou-se no trapézio...será este o nome?....No final dos 10 minutos não sei se saí de lá melhor ou pior.... sei q saí a ver mal do olho esquerdo por estar com a cara enfiada naquelas cadeiras... No percurso ainda me colaram um autocolante “Obama Pride”!
Ontem fui jantar a um restaurante português, Pão, que (quase) todos os portugueses que moram em NY conhecem. Portugueses mesmo, só este, o Alfama e o de inspiração portuguesa, nouvelle cuisine, com uma estrela Michelin, o Aldea. Fiquei na esplanada. Estava uma noite quente, abafada, como a maioria das noites de verão de NY, quase não corria brisa, mas talvez por estar perto do rio, torna-se uma das zonas mais suportáveis de se estar.
Hoje no dia do Pride, tudo lá fora é multidão. Multidão de pessoas, de lixo, de cores. Este ano celebra-se o primeiro Pride depois da legalização do casamento em NY. Como a maioria das pessoas que me conhece sabe, não sou grande adepta de multidões, nem de manifestações, sejam elas referentes ao que for. Provavelmente, este é um traço da minha personalidade. Acho o significado de todas as manifestações importantes, eu é que não participo nelas. Mas estar em NY e não assistir ao Pride é daquelas coisas, que quem tiver oportunidade, não deve perder a experiência. Tanta gente, tão diferente, diferentes tribos e credos. Mas há uma parte muito exibicionista e folclórica. Homens quase nus, travestidos, demasiado maquilhados, drag queens, algumas mulheres a mostrar as mamas, mas a indumentária dominante parece ser a moda dos minúsculos calções, quer se tenha corpo ou não. Faz parte do show, como diz a música. Invejo, muito honestamente, a auto-estima destas pessoas.
Este ano vim ao Pride, lamento, não para ver a marcha mas para encontrar as massagens de 10 mins a 10 dólares de asiáticos no Pride Street Fair que acontece na Hudson Street desde a W 14 até (quase) à 11. Já estava desanimada quando, finalmente, encontrei a barraca das massagens. Estava mesmo a precisar. O senhor (que não falava inglês) mas que no fim soube dizer “dear, tip!”, insistiu no meu ombro esquerdo e aquilo doeu mesmo e depois demorou-se no trapézio...será este o nome?....No final dos 10 minutos não sei se saí de lá melhor ou pior.... sei q saí a ver mal do olho esquerdo por estar com a cara enfiada naquelas cadeiras... No percurso ainda me colaram um autocolante “Obama Pride”!
Ontem fui jantar a um restaurante português, Pão, que (quase) todos os portugueses que moram em NY conhecem. Portugueses mesmo, só este, o Alfama e o de inspiração portuguesa, nouvelle cuisine, com uma estrela Michelin, o Aldea. Fiquei na esplanada. Estava uma noite quente, abafada, como a maioria das noites de verão de NY, quase não corria brisa, mas talvez por estar perto do rio, torna-se uma das zonas mais suportáveis de se estar.
Comi um caldo verde, pastéis de bacalhau e ameijoas à Bulhão
Pato, acompanhado por um branco Quinta de Cabriz. Para sentir-me ainda (bem) mais
culpada comi uma mousse de chocolate. Para desgastar, e porque estava mesmo
cheia, resolvi andar, que é uma coisa que aprendi a gostar em NY. Sempre ruas
diferentes, percursos alternativos, nunca nada é igual. Da Spring Street segui até à 34 (Penn
Station). O melhor destes percursos são sempre as pessoas. E ontem,
particularmente por ser sábado, como deve acontecer em todas as cidades do
mundo, os subúrbios “visitam” a cidade. Por muitos lugares que frequente, ao
sábado à noite, parece que há uma hegemonia na vestimenta. Aqueles vestidos
colados ao corpo que deixam (quase) tudo à vista. Podia até ter um toque de
classe, mas não, este traje não favorece a maioria das pessoas, digo eu. Mesmo
as mulheres com o corpo melhor do mundo ficam com um aspecto vulgar. E então, ontem no meu percurso era vê-las a
passar por mim todas iguais, só as cores mudavam, e os tamanhos. A maioria, não
sei bem qual a razão usa números que lhes deixaram há muito de servir. E a
maioria também, tenta equilibrar-se, o melhor que pode (e sabe), nos seus
saltos altos. Nunca vi tanta gente a não saber andar de saltos altos! É quase
um esterótipo.
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