segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O furacão Ike


Hoje que “a Sandy” está a provocar estragos na costa leste dos EUA revivo uma das mais assustadoras experiências da minha vida. Ao contrário do que os meus amigos em NYC fizeram hoje, e bem, ao cumprir as instruções dadas pelas autoridades, naquela altura, eu menosprezei  a grandeza “da coisa”. 

Em Setembro de 2008, depois de ter estado em Portugal a tratar-me de um problema de estômago, voltei para Houston para terminar as minhas experiências. Passados alguns dias o Ike surgiria. Lembro-me que na altura as autoridades foram bastante convincentes a antecipar os estragos que o Ike faria. Eu nunca acreditei, achei sempre que era o exagero americano.  Em Rice University seria um dos locais de Houston que não faltaria água nem luz. Foram preparados nos diferentes edifícios autênticos abrigos para milhares de estudantes. Quem quisesse poderia levar o seu colchão e/ou saco-cama e mantimentos seriam fornecidos. Lembro-me perfeitamente de ver supermercados com prateleiras vazias e filas intermináveis de pessoas a comprar mantimentos. O meu orientador na altura mandou os filhos e a mulher para um local seguro fora do Texas. E eu continuei a achar que o exagero cinematográfico americano continuava. Os meus amigos e colegas convidaram-me para ir para suas casas. E eu recusei sempre, amavelmente. 

No dia da chegada do Ike com o aproximar da hora, avistavam-se cada vez menos pessoas. O dia amanheceu lindo, como quase sempre em Houston. Calor abafado, como quase sempre. Mas com o passar das horas começou a ficar nublado e a escurecer. As autoridades avisavam que as pessoas deviam recolher-se em lugares seguros à tarde. Essa foi a única instrução que cumpri. Fui de manhã para a universidade e no final de almoço regressei a casa munida, podem não acredita, de um autêntico laboratório ambulante. Tinha um procedimento de desidratação histológico que não podia abandonar... Montei o meu arsenal na casa de banho, coloquei  uma mesa com o tampo a fazer de parede na minha secretária (seria debaixo dela que passaria a noite)... De repente, não mais do que de repente, do dia fez-se noite. Quando a noite chegou parecia que não passaria de vento e alguma chuva e eu continuava no meu quarto de tv ligada e internet. Tinha falado com os meus pais, com os meus amigos que tudo não passava de um exagero mas estava muito optimista e comportar-me demasiado como uma pessoa inconsequente para o gosto deles. Às 10 da noite o terror começou. Quando o vento começou a piorar a luz foi-se imediatamente, e o barulho começou a tornar-se medonho. A chuva era tanta que eu já não conseguia distinguir a chuva do vento. A coragem foi-se imediatamente à vida. Coloquei o meu capacete de andar de bicicleta e fui imediatamente para debaixo da secretária. Achei que aquilo demorasse tipo uma hora, no máximo duas.... Mas o terror não passava. E eu só pensava: “Que tristeza morrer em posição fetal debaixo de uma secretária, ridícula com um capacete, e sozinha”. Ainda tive coragem de me levantar e espreitar à janela e ver, que apesar de não haver luz, e o céu estar escuro como breu, o vento tinha cor. Nunca consegui explicar isto e nunca vi nada assim na vida. Bem á mariquinhas, regressei a correr ao meu bunker.



Lembro-me que estive acordada madrugada dentro mas que depois das 4 adormeci de exaustão. Quando acordei de manhã, o barulho tinha cessado e percebi que não tinha morrido e que nada no meu apartamento estava destruído. A luz continuava sem existir e a água também.  Um calor infernal (afinal não havia AC...). Abro a porta e tudo à minha frente é destruição. A piscina parecia uma sopa de ramos e de tudo o que era lixo. Dou um passo e “puf” fiquei com água acima do joelho. Dou uma volta ao meu condomínio e percebo que não há ninguém. E só pensava: “Como vou sair daqui, com as ruas inundadas, fios de electricidade rebentados, árvores caídas, casas sem telhado...?”. Vi um dos meus vizinhos que conhecia de vista (era um americano que era casado com uma espanhola e tinha um filho bebé; ele tinha ficado em Houston e a mulher e o filho tinham ido  para Espanha). Nestas alturas, a vergonha desaparece, e eu com a maior das latas, ou talvez instinto de sobrevivência, perguntei-lhe se tinha carro e se me podia levar ao Hilton doMedical Center (era o hotel que costumava ficar no dia anterior das viagens para Portugal. Ele com a maior das boas vontades e devia ter tido pena de mim, lá me levou ao hotel. Quando cheguei ao hotel havia muita gente no hall de entrada e junto à recepção, onde tinham colocado uma tv que ia dando a conhecer a real situação. Pedi um quarto e disseram-me que teria que ficar em lista de espera porque não havia luz e não podiam aceitar reservas. No entanto, disseram-me que poderia aguardar e estaria em lista de espera. Como as horas que ali passamos foram muitas, havia as horas das refeições, que foram todas servidas e eu fui sempre aconselhada a ir. Lembro-me de ter ligado aos meus pais e alguns amigos e da preocupação deles com as notícias que viam na tv. Entretanto, a noite chegou, e a luz não. E no piso da entrada a luz era assegurada apenas pelo gerador. Como eu não tinha para onde ir, e como todos os hotéis estavam lotados, a gerente disse-me que a única possibilidade seria ficar num quarto no hotel mas que não teria água nem luz. Um dos motoristas levou-me de carro ao andar do quarto (pois tinha acesso exterior) e disse-me para me trancar no quarto e não abrir a porta a ninguém. Ele acompanhou-me com uma lanterna até ao quarto e deu-ma. Entrei, fechei a porta e tranquei-a com as duas fechaduras. Não era um quarto, era uma suite presidencial. Era enorme. Mas de nada me valia aquele luxo se não havia água nem luz e o calor era mais do que infernal. Mas pelo menos tinha uma cama. Durante a noite ouvi uns barulhos mas achei que estava a sonhar. Ouvi bater na porta e a tentarem entrar mas não liguei porque achava que era sonho... Quando acordei de manhã e fui confirmar a porta... apenas estava fechada com uma das fechaduras... alguém durante a noite tentara entrar...Não penso muito nisso, mas acho que tive muita sorte. Quando desci, disseram-me que continuavam sem luz e que não havia previsões para que fosse restaurada e que teriam que fechar o hotel. No entanto, disseram-me que poderia tomar o pequeno almoço e me levariam onde quisesse. Não me lembro de caras nem de nomes de todos (as) aqueles (as) que me ajudaram e fizeram tudo por mim nestas horas, sem me conhecerem de lado algum, mas são a quem devo a vida. No final do pequeno-almoço dirigi-me à recepção para acertar contas do quarto e de todas as refeições que tinha feito e a gerente do hotel disse que não era nada e que era tudo por conta do hotel e que só pedia desculpa por não ser o melhor serviço. A sério que nesse momento só me apetecia agarrar-me a ela a chorar e dizer-lhe que achava que não existiam  pessoas assim no mundo. Deu-me o cartão dela e que estava disponível para o que precisasse e que um motorista do hotel ia levar-me onde quisesse. Apesar de Rice University ser a 10 minutos a pé, decidi aceitar. Nem pensei em mais nada, só que tinha que continuar a experiência com os bioreactores...

















Havia luz no laboratório e em toda a universidade. Tudo estava fechado. Tinha dinheiro no bolso mas não servia para comprar nada. A universidade durante esses dias dava água e comida a todos os alunos. Durante vários dias estava em filas para almoçar/jantar e receber garrafas de água. O espírito de solidariedade que senti nestes dias são inesquecíveis. Durante dias dormi no meu gabinete porque não havia recolher obrigatório às 8 da noite, depois passou a ser às 10. A verdade, é que o bairro onde eu morava (a 5 mns da universidade) e onde o meu orientador também morava, ficou sem luz durante 3 semanas. A minha rotina diária era dormir no chão ou na cadeira no meu gabinete,  levantar-me às 6 da manhã, ia a casa dormia uma ou duas horas na minha cama, tomava um banho de água fria e regressava à universidade. Após alguns dias, ligaram-me do Hilton onde tinha uma reserva e colocaram-me num hotel a uns 20 mins de táxi. Nesse dia fui para o hotel às 5 da tarde, tomei um banho de água quente, dormi numa cama, acordei e pedi o jantar no quarto, dormi, acordei e tomei o pequeno-almoço. A brincadeira ficou por 400 dólares... mas nunca achei que tanto dinheiro fosse tão bem empregue!!! 

Alguns dias mais a dormir no lab estavam a deixar-me saturada e aceitei ir para casa de uma colega e amiga que já tinha luz. Passei uma semana na casa dela e nunca lhe consegui agradecer o quão importante isso foi. Como é que eu posso não ter gostado de Houston, da universidade, das pessoas e dos texanos? O que não nos mata, enriquece-nos.

Truman Capote's former Cottage in Sagaponack

"In 1961, author Truman Capote commissioned a saltbox home in the Hamptons where he is said to have written In Cold Blood, and that he owned until his death in 1984. You see, the Hamptons were, for quite some time, an artist colony before the Wall Street crowd plowed through the seaside towns planting mega mansions along the shore. Capote’s home is in Sagaponack (between East Hampton and Southampton) and sits on four acres near the beach. After the death of Capote and his surviving partner Jack Dunphy, the house was bequeathed to the Nature Conservancy, which then sold it to artist Ross Bleckner in 1993 for $800,000". 


sábado, 27 de outubro de 2012

"What I love about NYC is that´s always something new to discover"

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

"Um eléctrico chamado desejo" - Tennessee Williams


Em 2010 vi "Um eléctrico chamado desejo" no Teatro Nacional Dona Maria II encenado pelo Diogo Infante com Alexandra Lencastre, Albano Jerónimo, Lúcia Moniz, Pedro Laginha e Paula Mora nos papéis principais. Depois de um dia de trabalho no já nem lembrado "Portugal Tecnológico", um dos exemplos do despesismo do governo Sócrates, rumei de um hotel no Parque das Nações ao Rossio de táxi. Esta peça marcava o regresso da Alexandra Lencastre ao teatro, quando era "mais " conhecida pelos seus papéis na tv. Foi a primeira vez que a vi no teatro. Foi uma noite mágica. Na altura não tive a certeza se isso se deveu à qualidade dos actores, à qualidade da encenação ou à qualidade da tradução. Hoje, 2 anos depois, e depois de ter assistido à mesma peça em NYC, posso afirmar e ter a certeza que as representações da  Alexandra Lencastre no papel de Blanche Dubois e do Albano Jerónimo no papel de Stanley Kowalski foram memoráveis.

Esta obra prima da dramaturgia do séc XX consagrou Tennessee Williams como um dos maiores escritores americanos. Aqui retrata-se o confronto entre os valores tradicionais do sul da América e o materialismo agressivo da América moderna. 

Blanche Dubois, uma frágil e solitária sulista, decide visitar a sua irmã Stella que vive nos bairro pobre de New Orleans. A célebre frase de Dubois "Eu não quero realismo, eu quero magia"reflecte a história de uma mulher literalmente atormentada pelo passado e a viver num mundo de fantasia que só existe na cabeça dela. Fisicamente, apesar de nunca admitir, é visível o passar do tempo "Apaga essa luz demasiado forte! Apaga isso! Não quero ser vista debaixo desse clarão impiedoso!". Quando questiona  a irmã sobre o seu aspecto e tendo ela respondido que estava óptima: " Uma mentira piedosa! Nunca a luz do dia mostrou uma ruína tão completa"(...) "Detesto lâmpadas sem quebra-luz". É uma mulher extremamente frágil, com um medo terrível da solidão: " As pessoas frágeis têm de brilhar. Têm de usar cores suaves, cores de asas de borboletas, abafar a luz com uma lanterna de papel... Não chega ser suave. tem que ser suave e atraente. E eu já estou a murchar! Não sei por quanto tempo consigo manter a ilusão!" (...) e que tem o álcool como grande companheiro: "Vá, não te preocupes, a tua irmã não se tornou numa alcoólica, está apenas abalada, cheia de calor, abalada e suja". E está sempre a ouvir piadas do cunhado Stanley: "O whisky desaparece com o calor. Há pessoas que quase não tocam no whisky, mas o whisky toca-as a elas." 

Com o desenrolar da história percebe-se que teve um grande desgosto de amor e que o amava insuportavelmente quando descobriu que o seu marido estava na cama com um homem mais velho. Depois disso fingiram que nada se tinha passado. Um dia, muito bêbados e a dançar a Varsoviana, ela disse-lhe saber de tudo e que tinha visto. O marido parou de dançar e saiu e após isso ouviu-se um tiro... Após essa tragédia: "a luz do mundo apagou-se outra vez e nunca, desde então, por um só momento, houve luz mais intensa do que esta... vela de cozinha...". O Stanley  (marido de Stella) é nas palavra se Blanche :" Um animal, comporta-se como um animal, tem comportamentos de animal, come como um animal, mexe-se como um animal, fala como um animal... é um sobrevivente da idade da Pedra... e talvez te bata e grunha... Stanley é o arauto da tragédia, é ele que vai desmascarar Blanche: "Devias saber o que ela tem contado ao Mitch...ele pensava que ela nunca tinha ido além dos beijos com nenhum homem...é tão famosa como o Presidente dos Estados Unidos, com a diferença de não ser respeitada por ninguém!”. A decadência, solidão e loucura de Blanche vai-se percebendo até se tornar catártica. E termina com a frase: “Eu sempre dependi da bondade de estranhos”.


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Andy Warhol


O nome de Andy Warhol está muito ligado a NYC. É talvez o maior nome da arte pop. Quem não conhece as latas de sopa da Campbell? Um nome muito ligado à publicidade e à realização de fimes. Foi também o mentor da banda The Velvet Underground. Muitos dizem que “era feio como a morte”. É famoso pelos retratos coloridos e de cores berrantes que incluem Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor, Mick Jagger....

Em Union Square abriu o seu próprio estúdio pintado de prata conhecido como “The Factory”.  Rapidamente tornou-se o lugar da moda, onde toda a gente queria ver e ser visto, frequentado pelos ricos, famosos e celebridades. Estas festas juntavam tribos tão diferentes como intelectuais, actores, drag queens, celebridades de Hollywood, modelos, boémios...

O seu nome é também indissociável do mítico Studio 54 e é o autor da célebre frase:  “In the future, everyone will be world-famous for 15 minutes”. O Studio 54 era famoso pelo bom aspecto das pessoas que o frequentavam, pela libertinagem sexual e pelo uso democrático da cocaína. Muitos dos frequentadores destas raves morreram anos depois de SIDA. Os frequentadores assíduos incluiam Diana Ross, Truman Capote, Calvin Klein, Dali, Mick e Bianca Jagger, Yves Saint Laurent, Gia Carangi, Liza Minelli, Madonna... Era um lugar sem regrasl e onde tudo era possível, onde os comuns dos mortais (desde que escolhidos entre a multidão  por Steve Rubell) podiam conviver com celebridades.
O Studio 54 ficará na história. Depois do Studio 54 nada ficou do jeito que já foi um dia.


"Keep the faith"

terça-feira, 9 de outubro de 2012

sábado, 29 de setembro de 2012

Pittsburgh e Andy Warhol


Pittsburgh não é daquelas cidades que nos marca. Tem um rio que divide a cidade. Lembro-me que ficamos num excelente hotel (Hilton) em frente ao rio por um preço imbatível e tínhamos um motorista que nos ia levar e buscar onde queríamos. Agora mudou de nome mas dá para ver o quão magnífico era, aqui. Isso foi até motivo de muita polémica na altura porque o nosso hotel era melhor que o do nosso orientador!! E aluno de doutoramento, segundo as instruções dele nunca ficavam num hotel com mais de 3 estrelas... Ainda por cima, nada habitual nos hotéis nos Estados Unidos, o pequeno almoço era incluído. Este era um hotel de 5 estrelas ao preço de um de 3. Lembro-me que depois da conferência passávamos horas no bar do hotel a beber vinho e a fumar. No tempo em que ainda era permitido fumar em alguns hotéis nos EUA. E a maior recordação que tenho de Pittsburgh é o museu do Andy Warhol, cidade onde ele nasceu. Antes de ter ido a Pittsburgh (em 2006) achava que Warhol era nova-iorquino.






















sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A minha avó


A minha avó apagou-se há um mês. Foi-se da forma que sempre pedi para ela. Rápido e quase sem sofrimento. Viveu os últimos tempos como queria. Cuidada pela filha que escolheu, pelo genro que foi o primeiro a sugerir a ida dela para a casa deles e por uma senhora que não era da família mas que cuidou dela e a mimou como se uma filha fosse.

A minha avó era pequenina mas uma grande mulher. Tinha um olhos muito pequeninos e muito azuis, aquele azul céu. Já a conheci com o cabelo muito branquinho, incrivelmente liso. Usava uns óculos muito graduados que faziam parecer que tinha uns olhos enormes. Quando os tirava, somente quando ia para a cama, percebia-se o quão pequeninos eram. Dormia silenciosamente, quase nunca se virava na cama. Era uma verdadeira matriarca. Enquanto teve saúde, cozinhou sempre e tratou da casa. Cozinhava muito bem. Fazia a melhor sopa de couves com feijão que algum dia comi. Detestava quando era pequena , mas aprendi a adorá-la. A minha avó cortava as couves para o caldo-verde com a perfeição de uma máquina. Era esquerdina. Fazia tudo com a mão esquerda mas escrevia com a direita, tal como o meu avô. Fazia o melhor arroz de toda a gente. E fazia um prato que eu sempre detestei quando feito pelos outros mas que eu adorava quando feito por ela. A esse prato chamávamos “batatas guizadas” uma espécie de jardineira sem ervilhas.

Era uma pessoa tímida e de poucas palavras com quem não conhecia mas era uma excelente conversadora com os que com ela privavam. Queria sempre saber notícias e novidades. Adorava jogar às cartas, à sueca. Sempre foi a minha companheira de equipa e jogava muito bem, sem truques nem batotices. Fazíamos uma dupla fabulosa. Passávamos as tardes de verão a jogar quando as férias duravam quase 4 meses. Há já muitos anos que deixei de jogar cartas com ela. Os anos foram passando e ela continuou a jogar cartas quando tinha companhia, quase sempre aos fins de semana, no Natal e na Páscoa.

Adorava que eu lhe cortasse as unhas e que lhe medisse a tensão. Fazia a melhor cevada com café do mundo. Comprava os componentes na “Negrita” e ela misturava-os conforme a sua receita.

Tinha um medo enorme de trovoada e tempestades. Recolhia-se sempre a rezar a Santa Bárbara e acendia sempre uma velinha. Era devota de muitos santos e rezou diariamente o terço em conjunto com o meu avô e com quem se lhes decidia juntar.Depois da morte do meu avô passou a fazê-lo em silêncio.

Com o passar dos anos, tal como aconteceu a todas as irmãs, começou a ouvir muito mal. Há muitos anos que usava um aparelho auditivo. E por esse motivo era difícil perceber-nos ao telefone. No último ano começou a perder capacidades. Andava muito devagarinho e quase não saia de casa. Passava os dias no seu sofá.

Nas férias passei um dia inteiro com ela. Já não me conhecia. Fui talvez a primeira pessoa de quem se esqueceu. Cortei-lhe as unhas, embora não precisasse, mas sabia que gostava. Passou a manhã na cama e não queria que eu saísse da beira dela. Almoçamos a salada russa da minha mãe que ela tanto gostava. À tarde ainda dormiu a sesta e depois quis ir para o sofá. Nesse dia um dos meus tios foi visitá-la e ela ainda o reconheceu. Mais ao fim do dia começou a perguntar pela minha tia que ficava com ela. Eu repeti-lhe muitas vezes que ela estava a chegar porque tinham ido almoçar fora. Estava confusa e agitada porque não me reconhecia. Por mais que eu lhe dissesse quem era. “Vó, sou a tua neta” ao que ela respondia repetidamente: “Netas há muitas”. Quando os meus pais e os meus tios chegaram a minha avó até chorou de alegria porque os reconheceu. Embora não me reconhecesse, achou que eu a tratei bem, e quando eu me despedi dela para me ir embora perguntou-me: “Amanhã vem para cá?”. Dois dias depois deixou de andar e fomos com ela para o hospital. Estive todo o dia com ela, de mão dada porque ela não queria ficar sozinha. Não me reconhecia como neta dela mas apertou-me sempre a mão com a força que tinha. No dia seguinte ainda voltou para casa mas teve que regressar ao hospital porque já não conseguia comer. A última vez que a vi com vida estava a aguardar internamento, estava a dormir serenamente e com um riso nos lábios. Ainda lhe segurei as mãos e sentia-as quentes. Ainda lhe dei um beijo. Embora soubesse que o fim estava próximo, nunca pensei que estivesse tão perto. Quando de manhã recebi a notícia foi um choque tão grande que nem reagi. Depois do meu avô foi-se a minha avó. Só ficaram boas memórias.

O desejo do meu sobrinho mais velho

Diz-me ele ontem ao jantar: "Titi, quando for grande quero poder beber coca-cola".
"Um mundo sem livros não me interessa"

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Robert NYC @ Museum of Arts and Design

A primeira vez que fui ao Robert tínhamos ido jantar a um restaurante afegão em Hells Kitchen. Por insistência minha, queria ir para Columbus Circle e passar no local onde tinha sido o mítico Studio 54. Agora é (apenas) um teatro que tinha uma peça com bastante êxito em cena, com um dos actores do "Big Bang theory". Há umas semanas atrás eu tinha estado no bar lounge Stone Rose em Columbus Circle. A vista sobre o Central Park e sobre a estátua do Colombo era magnífica. A ideia era voltar lá para beber um cocktail. 

Quando passávamos no MAD, a C. perguntou porque não experimentar o Robert. Subimos e nessa noite (sábado) havia música ao vivo (piano e contrabaixo). Sentaram-nos numa mesa afastada das janelas. Eu não sou muito de cocktails, normalmente faço escolhas erradas, só bebo coisas básicas e repetitivas como vinho, gin tónico, ou whisky com água com gás. Nesse dia joguei pelo seguro e pedi um cosmopolitan. Pouco depois a C. avisa-me  que atrás de mim estava a chef Luisinha.  Eu apenas a conhecia de me cruzar com ela em eventos do Portuguese Circle, tais como no City Sandwich ou no Portugal Day. A chef Luisinha é uma senhora com uma história de vida interessantíssima. Foi enfermeira muitos anos e há 10 anos reformou-se e foi para NY aventurar-se pela sua outra paixão:  a cozinha. A chef Luisinha reconheceu-me e veio ter connosco à mesa e pouco depois colocou-nos numa mesa junto à janela. Que vista fabulosa! É mesmo uma experiência imperdível. Mas para além do ambiente fantástico, a simpatia e amabilidade de todas as pessoas que lá trabalham, o que provámos nessa noite foi de chorar por mais. A chef Luisinha foi de uma amabilidade e simpatia e presenteou-nos com uma panna cotta e bambolinis. Que noite tão bem passada, com muitas histórias, muitos risos, uma excelente vista, uma sobremesas fabulosas e com a companhia da chef Luisinha.







A experiência foi tão boa que prometemos regressar ao Robert. Combinamos que o meu jantar de despedida de NY seria lá.
No meu último dia em NY fomos jantar ao Robert, previamente combinado com a chef Luisinha. Tinhamos uma mesa à nossa espera junto à janela.  Fomos tão bem recebidos. Começamos por escolher os vinhos e cocktails. Vários tipos de pães foram colocados na mesa e manteiga (da verdadeira, coisa rara em NY).  A chef Luisinha disse-nos que nesse dia o prato especial era bacalhau e que só havia 3. Eu preferi o prato que a chef Luisinha aconselha a todas as vedetas: robalo grelhado (aka branzino). Queria perceber o que o prato tinha de tão especial. O F escolheu pato, o T. e a N. Escolheram bacalhau.  Pouco depois chegavam à mesa uns miminhos da chef Luisinha que nem tenho palavras para descrever.

Mexilhões com chouriço
Salada mista com rabanetes
Risotto de vinho com polvo cozido
 Os mexilhões estavam com um paladar tão português que eu acho que se deveu ao chouriço. Estavam de chorar por mais. O risotto de vinho tinto com polvo era uma adaptação do nosso arroz de polvo. Para os aficionados estava divinal! Provei todos os pratos e todos estavam óptimos. Mas percebi porque é que o Robert Redford e o Bono gostam tanto do robalo. O simples tão difícil. Um robalo do mar grelhado divinalmente grelhado com um pouco de refogado de tomate (que tanto me faz lembrar o da minha avó).










É um restaurante muito bonito, no 9º andar do edifício do Museum of Arts and Design, com um ambiente muito agradável e muito bom gosto, com lindas peças de design. É daqueles restaurantes que se aconselha e que as pessoas não ficarão defraudadas. É uma aposta ganha com toda a certeza. Recomendo vivamente por tudo mas principalmente porque a comida é divinal e isso não se pode fotografar, descrever ou gabar com o realismo adequado ao momento. Uma experiência gastronómica a repetir e vivamente recomendável a toda a gente que passar por NY.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Este texto é para a C. que salvou a minha vida duas vezes-Parte I


Como a Adriana Calcanhotto, acho que escrever ajuda. Coincidentemente,  estive doente na mesma altura que ela escreveu “Saga Lusa”. Ela com um surto psicótico induzido por interacções de drogas legais e eu a “enlouquecer” com um problema de estômago.Ela achava que estava a ficar louca e que não voltaria à realidade e eu achava que ia morrer... ainda para mais... sozinha! Regredindo no tempo, ao verão de 2008, estava eu no "arrozal" na Rice University em Houston, Texas. Estava nas últimas experiências do meu Doutoramento e nos últimos meses em Houston. Adorava a vida que tinha lá. Vivia num complexo com piscina a 3 mns (a alta velocidade) de bicicleta da Universidade. Aquela bicicleta de criança comprada no segundo dia que cheguei a Houston, arrisco dizer, que fez milhares de Kms. Nunca em toda a minha vida estive tão em forma. Ao fim de semana fazia em média 30 kms. O meu orientador de lá dizia sempre que me reconhecia ao longe pela bicicleta e o capacete e que quando encontrava um Malboro caído no chão era meu. Era a melhor e mais fiel consumidora de latte na universidade. Até me ofereceram uma t-shirt “Rice Coffe House” que tenho até hoje.Tinha o meu gabinete espectacular partilhado com mais duas das melhores pessoas que conheci no mundo. Até me ofereceram uma máquina de café, que depois servia para todos. Como (quase) toda a gente sabe nunca precisei de dormir muito. Estava (quase) sempre acordada em todos os fusos horários. Nesse verão, aceitei, talvez fruto de não querer reconhecer que todos os humanos têm um limite, escrever um capítulo de livro a convite do meu orientador. O desafio era irrecusável, pelo menos para mim. Quase que disse que sim de imediato. De dia fazia as experiências no laboratório e de noite escrevia. E foi um ano de muito trabalho porque para além de todas as experiências, tinha os bioreactores que eram 8, todos para mim. Cada um demorava, em condições de esterilidade, uma hora a montar. Para além disso, tinha os estudos in vivo com ratos. Acho que nunca trabalhei tanto. Mas também nunca me senti tão entusiasmada. Adorava aquele clima de Houston, absurdamente quente e húmido. Sempre sol.







Uma noite, como “não há mal que dure sempre nem bem que nunca acabe”, adormeci de cansaço no sofá depois de jantar, enquanto a roupa lavava. Acordei passado pouco tempo muito indisposta, suores frios, muito pálida, uma sensação de fraqueza...Passei a noite a vomitar. Achava que no dia seguinte estaria melhor. Quando acordei na manhã seguinte não consegui comer nada e a sensação de náusea persistia. E isto continuou uns dias, tudo o que comia vomitava e as únicas coisas (em muito pouca quantidade) que o meu estômago aguentava eram bolachas de água e sal e água. Omiti a quase toda a gente o quão mal me estava a sentir. Falei com uma amiga, acho que mais de uma vez, que não estava a sentir-me bem e ela sempre me disse que o mais importante era a saúde, que nada mais importava quando isso estava em causa. E aconselhou-me, se estivesse mal, a voltar para Portugal. Eu aguentei heroicamente até me faltarem as forças todas e até o sinal de alarme soar. Um isolamento de células que demorava uma manhã, nesse dia demorou, quase um dia inteiro. Nesse dia, sentia-me a morrer. Passei o dia a vomitar, não aguentava nada no estômago. Ao fim da tarde percebi que vomitava sangue. O que se pensa numa altura destas? Sozinha, no outro lado do mundo? Eu não tive muitas alternativas. Se lá era fim da tarde, em Portugal era início da madrugada. Primeiro liguei à AR que estava na Turquia (não me atendeu porque já a madrugada ia avançada), liguei para o meu irmão que não me atendeu e depois liguei para a última pessoa que queria ligar aquela hora... Não sei se foi a primeira, mas foi uma das primeiras vezes que não consegui disfarçar ao telefone. Pela primeira vez nessa semana, não omiti o quão mal estava e queria apenas que alguém me dissesse o que eu estava à espera de ouvir, que voltar seria a melhor solução. E ela com uma calma (que mais tarde vim a saber era só disfarce) organizou-me tudo por telefone, deu-me todas as indicações, fez-me todos os planos, preparou-me tudo. Disse-me para ir a casa preparar uma mala com algumas roupas, que logo que amanhecesse em Portugal iria pessoalmente comprar-me um bilhete de avião (disse-me que poderia demorar algum tempo), telefonou aos meus pais, descansou-os. E passadas algumas horas ligou-me (na minha madrugada) a dizer que tinha que estar no aeroporto ao meio-dia e que me tinha arranjado um vôo. Quase ninguém soube deste plano detalhado ao milímetro. Se eu sobrevivi e arranjei forças para uma viagem conseguida tão rápido mas tão longa deve-se a esta pessoa que me garantiu que tudo ia correr bem e que eu ia estar bem para regressar daí a um mês. Como disse Arquimedes: “Dá-me um ponto de apoio e eu moverei o mundo”. Foi essa força que eu senti.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Esquadros

"Eu ando pelo mundo
prestando atenção em cores que eu não sei o nome
cores de Almodovar
cores de Frida Khalo
cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que o meu irmão ouve
e como uma segunda pele, um calo, uma casca, uma cápsula protetora..."

Adriana Calcanhotto

facebook