terça-feira, 27 de novembro de 2012

Este texto é para a C. que salvou a minha vida duas vezes - Parte II

No início de Janeiro de 2011 fui para Nova Iorque, a cidade que eu escolhera para viver. Foi uma coisa tão planeada, tão desejada, tão preparada e cheia de expectativa. Eu nunca, em nenhum momento, achei que algo pudesse não correr bem. A minha única “pedra no sapato” era o ter que dividir casa com alguém que não conhecia de lado nenhum. E eu confesso, sou muito de primeiras impressões e quando “ o meu santo não se cruza” com o da outra pessoa pouco haverá a fazer, embora existas algumas muito boas excepções. Depois de uma procura desmedida durante várias semanas, e nada encontrar de jeito, uma colega do meu grupo ia regressar de NY quando eu fosse para lá. Algumas pequenas peripécias antes de resolver alugar o apartamento , mas nada de extraordinário. Tenho que admitir, porque mentirosa é coisa que nunca fui nem soube ser, o tal do meu santo não se cruzou com o da fulana. E isto só de ver a foto no Facebook... Passou-se o Natal e a passagem de ano e nos primeiros dias de Janeiro cheguei a NY. Cheguei por volta das 3, um dia lindo, um sol magnífico, a cidade coberta de neve, linda. Mas ao contrário de todas as outras viagens, de todas as chegadas a Houston, eu não estava bem, tinha uma espécie de aperto no peito e não sabia explicar a razão.  Fui de táxi de Newark até ao endereço da minha futura casa (no limite do Upper West Side), na 110 entre a Broadway e Amsterdam.  Chegada à rua começa o primeiro filme. O taxista descarrega-me as malas que eram exactamente duas (daquelas bem enormes)  no meio da estrada. De não esquecer que a estrada estava limpa e o passeio também mas a neve tinha sido atirada em monte para o meio desta divisão. Ou seja, eu tive q literalmente, escalar esta montanha de neve com uma mala de cada vez.  Feito! Segundo desafio: subir os degraus q separavam a entrada do prédio do passeio. Outra aventura... Até que uma alma caridosa deve ter assistido a esta cena e ajudou-me. Ah, claro, esqueci-me de referir que toquei várias vezes no apartamento e a fulana não se dignou a perguntar se precisava de ajuda... para quê? Eu só tinha 2 malas de 25 kgs cada mais uma mochila e tinha que subir 5 andares a pé..



A tal da alma caridosa (dessas pessoas boas que encontramos sempre no mundo e com as quais nunca nos vamos mais encontrar) perguntou-me qual era o andar e levou-me uma das malas. Claro que eu demorei provavelmente o triplo do tempo a subir com uma delas. Eu já não sabia se chorava, se parava e me sentava ali no meio das escadas... Sei que cheguei ao 5º andar e tive logo um ataque de asma.  Depois de tocar várias vezes à porta a tal da pessoa do apartamento onde ficaria nos próximos 6 meses, dignou-se a abri-la. Cumprimentei-a, levei as malas para dentro,  sem qualquer ajuda e disse-lhe apenas que quando a minha colega voltasse que eu tinha ido comprar um cartão para o telemóvel. Fui pela Broadway e na primeira At&T que vi entrei. Os senhores eram tão simpáticos que eu perdi-me com as horas. Soube quando regressei a casa que a minha colega achara q eu andava perdida. Fomos depois jantar ao “The heights” onde param os undergrads de Columbia (aka canalha). Essa minha colega precisou de ficar o mês de Janeiro para terminar o trabalho dela no lab. Então basicamente eu dormia num quarto, a minha colega na sala e a outra no quarto dela. Essa minha colega acabou por me vender tudo o que tinha por 300 euros e lá fiquei eu com um quarto habitável. Cozinhar nunca cozinhei. Desde o primeiro dia percebi que ali nunca cozinharia. Eu cheguei numa quinta e na sexta fui ao lab e tratar de todas as burocracias. Estava um dia cinzento, triste, chuvoso, tal como eu, e que raramente voltei mais a ver em Nova Iorque. A primeira impressão do lab, comparativamente com o meu lab de Houston, não podia ter sido mais oposto. A primeira pessoa com quem falei não foi com a chefe e isso demorou alguns dias a acontecer...Bem, eu senti-me um caos, eu estava triste como a noite, nunca me tinha sentido assim.Acho que foi nessa noite que cheguei a casa e que era suposto ir à festa de anos da N.  e eu estava com uma dor de cabeça tão grande e já tinha tomado tudo o que podia, que a solução foi deitar-me e esperar que fosse outro dia. Eu sempre ouvi dizer que não havia como um dia depois do outro... A verdade é que acordei e estava ainda pior do que no dia anterior, triste, triste, sim, podem rir-se, tipo novela mexicana “tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar”, neste caso era qualquer coisa que me fazia chorar... A C. de manhã ligou-me, ou eu liguei-lhe a ela, n sei. Ela estava em Cambridge e já havíamos combinado que eu iria lá no fim de semana seguinte. Mal ela começou a falar comigo e percebeu imediatamente que eu não estava bem. Disse-me para me vestir e sair. Depois de tomar banho saí. Mal cheguei à rua e liguei-lhe, ainda não tinha chegado ao cruzamento com a Broadway e já estava lavada em lágrimas. E são apenas alguns metros... Ela bem me perguntava o que eu tinha, o que tinha acontecido, o que se passava... mas o que eu apenas conseguia fazer era soluçar  e expulsar muito ranho e lágrimas e mais lágrimas. A verdadeira tragédia.  E eu só imagino o pranto, porque em toda a minha vida, não me lembro de ter chorado tanto!!! E lá fui caminhando Broadway abaixo com dezenas de pessoas que passavam por mim e me viam assim e nada fizeram. Em Nova Iorque consegue estar-se só no meio da multidão. Entrei num Starbucks acho que na 103, com aquela cara que deveria ser difícil de esconder, mas ninguém se importou. Como a conversa entre mim e a C. era um monólogo, ela foi fazendo as perguntas e dando as respostas e lá me fez aquelas avaliações que ela sempre faz quando estamos mal... e tomou mais uma vez conta da situação: “ vais a casa, fazes uma mala para um fds prolongado, enquanto eu compro a viagem para Boston. Já te ligo a dizer a hora que vens!. E assim fiz, fui a casa, preparei uma mochila, avisei que ia passar o fds a Boston e a C. acabara de me dar as indicações para ir para Boston.



Por volta das 7 cheguei a Boston, a South Station e a C. deu-me as indicações direitinhas que tinha de apanhar o metro e sair em Central station  e com aquele  sorriso lindo dela. Mal a vi desmanchei-me outra vez. E ela só gritava, berrava, saltava, abraçava-me e eu já não sabia se chorava de alegria ou de tristeza. Mas ainda acabei a rir-me quando reparei nas pessoas que estavam dentro do starbucks a olhar para nós. E fomos afogar as mágoas. Começamos na Green Street e por aí foi...  zou zou e afins...Falamos, choramos, comemos, dançamos e sei que acordei numa casa que não era a dela. Não me lembro como fui lá parar... Vim a saber depois que era de uma amiga que tinha sido operada a um joelho e a C. estava a ajudá-la. Continuei deprimida nesse e no outro dia. Mas hoje sei, com a devida distância o efeito que estes dias e este conforto de família tiveram em mim. Nestes dias a C. cuidou de mim. 






Soube muito tempo depois o que lhe custou ver-me ir para Nova Iorque ainda combalida. E eu lembro-me que acordava diariamente e dizia-lhe “C, não estou melhor” e ela respondia-me sempre “Não estás mas vais ficar”. E um dia, assim como nascem todos os dias da mesma forma que estava deprimida deixei de estar.. Não sei explicar como aconteceu mas foi um click. A partir deste dia nada mais foi justo para a C. O que sempre haviamos combinado de passar fds alternados em Boston e NY passou a ser apenas um plano... Ela coitadinha, saía de Boston  não me lembro a que horas e eu ia buscá-la a Penn Station (não me lembro se às 9 ou às 10). Os fins de semana eram do mais louco que se poe imaginar. Começavam quase sempre no Zigolinis ou Pao. Mas também fomos ao Mercato e Becco em Hells Kitchen , onde pagavamos $80/garrafa de Chianti. 







A noite começava na “Trash Party “do Wesbter Hall e depois ainda iamos para umas festas maradas para Brooklyn, uns lugares muito manhosos mas que a C. dizia “Então não valeu a pena, até atravessamos a ponte de Brooklyn de táxi à noite! Olha que linda vista!”. Ao sábado, quando a ressaca não era muita iamos para o Soho e para o Fanelli. À noite iamos para o Beauty bar e para o Lit...







Às vezes a C. ficava à segunda e percorriamos Greenwhich Village, West Village, Nolita, East Village, Soho  e Tribeca a pé. Acabavamos sempre no Fanelli ou no Zigolinis. Nós somos pessoas de hábitos. Boston, apesar de ter lá estado algumas vezes, conheço muitoooo mal, Cambridge um pouco melhor. Mas vejam bem que eu sou fanática pelo Alexander Calder e não fui ver a escultura dele do MIT... A minha estadia em NY nos primeiros meses não teria sido tão boa se não tivesse tão perto a C. e sim, se não fosse ela, naqueles primeiros dias eu teria conhecido o que era a loucura.

"Is true love a long walk through Bryant park"









sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A importância da eleição de Obama

Em 2008, quando estava em Houston, acompanhei muito de perto a escolha dos democratas entre Barack Obama e Hillary Clinton. Naquela altura eu fui uma defensora acérrima da Hillary. Nunca gostei muito de rótulos, nem de classificações, nem de definições, nada que pudesse ser redutor. Afinal, há coisas na vida que são inclassificáveis e indefiníveis por palavras. Por tudo isto, o que eu gostava na Hillary não era o facto de ela ser mulher, ou de ser uma minoria, ou ter chegado onde muitos homens queriam ter chegado. Eu gostava da determinação dela, dos discursos que não eram tão cativantes como os do Obama mas que falavam de coisas mais profundas, parecia  que não se importava em dizer apenas o que as pessoas queriam ouvir. Por ex, Obama só apoiou o casamento entre pessoas do mesmo sexo este ano, Hillary já o apoiava em 2008. A Hillary parecia não se importar com o que a maioria queria que ela dissesse, ela tinha ideias e causas próprias e defendeu-as. Mas acima de tudo, o que de mais impressionante há nesta mulher, é que sendo uma mulher de um ex-presidente como foi Clinton, que passou pela humilhação pública do caso Lewinsky, pela chacota mundial, e que mesmo assim não se escondeu e não se deixou humilhar. Muitos apostavam na morte política anunciada dela. A história veio mostrar-se outra. Este é o exemplo de que por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher. E eu tenho tanta pena que a Hillary não tenha sido a candidata dos democratas nas eleições de 2008. Continuo a achar que a Hillary é muito melhor que Obama.   E Obama veio a adoptar algumas das coisas que Hillary defendia. Acho que a governação dele ficou muito aquém do que prometeu. Aliás, eu lembro-me que na altura os americanos achavam que ele iria ser o salvador da pátria, um milagreiro. Os anos mostraram que Obama é apenas um humano, apesar de ser uma das pessoas mais poderosas do mundo. Acho que é um tipo bem intencionado, arrasta multidões, inteligente, andou nas melhores universidades do país e é um exemplo de uma criança que foi educado pela mãe e pelos avós maternos, que chegou onde as elites chegam. Esse é o sonho americano. Mas prometer a reforma do sistema de saúde, "nacionalizando" o que é privado...foi muito... Alguém que conhecesse bem o sistema de saúde americano acreditava que ele era capaz de combater o lobby das seguradoras e dar assistência médica para todos? Isto era quase a utopia do sistema comunista leninista. Mas nunca ninguém poderá dizer que Obama não teve uma excelente prestação internacional. Basta ouvir as críticas de Romney sobre a relação actual EUA-Rússia. Ou por ex. a retirada do Iraque, a forma como tem lidado com o Irão, não ter intervido na Síria (não se achando o maior do mundo à Bush). A paz no mundo ficou melhor na era Obama. Mas depois de Bush, qualquer um faria melhor. No entanto, com esta ameaça Romney para presidente dos EUA ia ser a desgraçada. Aquele discurso pró-americano de que a América é a melhor e soberana de todos os países, pró-guerra a lembrar a malograda era Bush, anti-Russia a fazer avivar a nostálgica guerra-fria... e muitos outros exemplos. À boa maneira americana, o povo é de extremos. Felizmente, para o mundo, os americanos decidiram-se pelo seguro. E eu quero acreditar que o mundo com Obama é um mundo mais seguro.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Tenho ficado surpreendida com a quantidade de pessoas que têm lido este blog e o elogiam. Não esperava. E agora debato-me com a questão que durante anos evitei colocar-me: O facto de ter quem me leia muda alguma coisa?

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O furacão Ike


Hoje que “a Sandy” está a provocar estragos na costa leste dos EUA revivo uma das mais assustadoras experiências da minha vida. Ao contrário do que os meus amigos em NYC fizeram hoje, e bem, ao cumprir as instruções dadas pelas autoridades, naquela altura, eu menosprezei  a grandeza “da coisa”. 

Em Setembro de 2008, depois de ter estado em Portugal a tratar-me de um problema de estômago, voltei para Houston para terminar as minhas experiências. Passados alguns dias o Ike surgiria. Lembro-me que na altura as autoridades foram bastante convincentes a antecipar os estragos que o Ike faria. Eu nunca acreditei, achei sempre que era o exagero americano.  Em Rice University seria um dos locais de Houston que não faltaria água nem luz. Foram preparados nos diferentes edifícios autênticos abrigos para milhares de estudantes. Quem quisesse poderia levar o seu colchão e/ou saco-cama e mantimentos seriam fornecidos. Lembro-me perfeitamente de ver supermercados com prateleiras vazias e filas intermináveis de pessoas a comprar mantimentos. O meu orientador na altura mandou os filhos e a mulher para um local seguro fora do Texas. E eu continuei a achar que o exagero cinematográfico americano continuava. Os meus amigos e colegas convidaram-me para ir para suas casas. E eu recusei sempre, amavelmente. 

No dia da chegada do Ike com o aproximar da hora, avistavam-se cada vez menos pessoas. O dia amanheceu lindo, como quase sempre em Houston. Calor abafado, como quase sempre. Mas com o passar das horas começou a ficar nublado e a escurecer. As autoridades avisavam que as pessoas deviam recolher-se em lugares seguros à tarde. Essa foi a única instrução que cumpri. Fui de manhã para a universidade e no final de almoço regressei a casa munida, podem não acredita, de um autêntico laboratório ambulante. Tinha um procedimento de desidratação histológico que não podia abandonar... Montei o meu arsenal na casa de banho, coloquei  uma mesa com o tampo a fazer de parede na minha secretária (seria debaixo dela que passaria a noite)... De repente, não mais do que de repente, do dia fez-se noite. Quando a noite chegou parecia que não passaria de vento e alguma chuva e eu continuava no meu quarto de tv ligada e internet. Tinha falado com os meus pais, com os meus amigos que tudo não passava de um exagero mas estava muito optimista e comportar-me demasiado como uma pessoa inconsequente para o gosto deles. Às 10 da noite o terror começou. Quando o vento começou a piorar a luz foi-se imediatamente, e o barulho começou a tornar-se medonho. A chuva era tanta que eu já não conseguia distinguir a chuva do vento. A coragem foi-se imediatamente à vida. Coloquei o meu capacete de andar de bicicleta e fui imediatamente para debaixo da secretária. Achei que aquilo demorasse tipo uma hora, no máximo duas.... Mas o terror não passava. E eu só pensava: “Que tristeza morrer em posição fetal debaixo de uma secretária, ridícula com um capacete, e sozinha”. Ainda tive coragem de me levantar e espreitar à janela e ver, que apesar de não haver luz, e o céu estar escuro como breu, o vento tinha cor. Nunca consegui explicar isto e nunca vi nada assim na vida. Bem á mariquinhas, regressei a correr ao meu bunker.



Lembro-me que estive acordada madrugada dentro mas que depois das 4 adormeci de exaustão. Quando acordei de manhã, o barulho tinha cessado e percebi que não tinha morrido e que nada no meu apartamento estava destruído. A luz continuava sem existir e a água também.  Um calor infernal (afinal não havia AC...). Abro a porta e tudo à minha frente é destruição. A piscina parecia uma sopa de ramos e de tudo o que era lixo. Dou um passo e “puf” fiquei com água acima do joelho. Dou uma volta ao meu condomínio e percebo que não há ninguém. E só pensava: “Como vou sair daqui, com as ruas inundadas, fios de electricidade rebentados, árvores caídas, casas sem telhado...?”. Vi um dos meus vizinhos que conhecia de vista (era um americano que era casado com uma espanhola e tinha um filho bebé; ele tinha ficado em Houston e a mulher e o filho tinham ido  para Espanha). Nestas alturas, a vergonha desaparece, e eu com a maior das latas, ou talvez instinto de sobrevivência, perguntei-lhe se tinha carro e se me podia levar ao Hilton doMedical Center (era o hotel que costumava ficar no dia anterior das viagens para Portugal. Ele com a maior das boas vontades e devia ter tido pena de mim, lá me levou ao hotel. Quando cheguei ao hotel havia muita gente no hall de entrada e junto à recepção, onde tinham colocado uma tv que ia dando a conhecer a real situação. Pedi um quarto e disseram-me que teria que ficar em lista de espera porque não havia luz e não podiam aceitar reservas. No entanto, disseram-me que poderia aguardar e estaria em lista de espera. Como as horas que ali passamos foram muitas, havia as horas das refeições, que foram todas servidas e eu fui sempre aconselhada a ir. Lembro-me de ter ligado aos meus pais e alguns amigos e da preocupação deles com as notícias que viam na tv. Entretanto, a noite chegou, e a luz não. E no piso da entrada a luz era assegurada apenas pelo gerador. Como eu não tinha para onde ir, e como todos os hotéis estavam lotados, a gerente disse-me que a única possibilidade seria ficar num quarto no hotel mas que não teria água nem luz. Um dos motoristas levou-me de carro ao andar do quarto (pois tinha acesso exterior) e disse-me para me trancar no quarto e não abrir a porta a ninguém. Ele acompanhou-me com uma lanterna até ao quarto e deu-ma. Entrei, fechei a porta e tranquei-a com as duas fechaduras. Não era um quarto, era uma suite presidencial. Era enorme. Mas de nada me valia aquele luxo se não havia água nem luz e o calor era mais do que infernal. Mas pelo menos tinha uma cama. Durante a noite ouvi uns barulhos mas achei que estava a sonhar. Ouvi bater na porta e a tentarem entrar mas não liguei porque achava que era sonho... Quando acordei de manhã e fui confirmar a porta... apenas estava fechada com uma das fechaduras... alguém durante a noite tentara entrar...Não penso muito nisso, mas acho que tive muita sorte. Quando desci, disseram-me que continuavam sem luz e que não havia previsões para que fosse restaurada e que teriam que fechar o hotel. No entanto, disseram-me que poderia tomar o pequeno almoço e me levariam onde quisesse. Não me lembro de caras nem de nomes de todos (as) aqueles (as) que me ajudaram e fizeram tudo por mim nestas horas, sem me conhecerem de lado algum, mas são a quem devo a vida. No final do pequeno-almoço dirigi-me à recepção para acertar contas do quarto e de todas as refeições que tinha feito e a gerente do hotel disse que não era nada e que era tudo por conta do hotel e que só pedia desculpa por não ser o melhor serviço. A sério que nesse momento só me apetecia agarrar-me a ela a chorar e dizer-lhe que achava que não existiam  pessoas assim no mundo. Deu-me o cartão dela e que estava disponível para o que precisasse e que um motorista do hotel ia levar-me onde quisesse. Apesar de Rice University ser a 10 minutos a pé, decidi aceitar. Nem pensei em mais nada, só que tinha que continuar a experiência com os bioreactores...

















Havia luz no laboratório e em toda a universidade. Tudo estava fechado. Tinha dinheiro no bolso mas não servia para comprar nada. A universidade durante esses dias dava água e comida a todos os alunos. Durante vários dias estava em filas para almoçar/jantar e receber garrafas de água. O espírito de solidariedade que senti nestes dias são inesquecíveis. Durante dias dormi no meu gabinete porque não havia recolher obrigatório às 8 da noite, depois passou a ser às 10. A verdade, é que o bairro onde eu morava (a 5 mns da universidade) e onde o meu orientador também morava, ficou sem luz durante 3 semanas. A minha rotina diária era dormir no chão ou na cadeira no meu gabinete,  levantar-me às 6 da manhã, ia a casa dormia uma ou duas horas na minha cama, tomava um banho de água fria e regressava à universidade. Após alguns dias, ligaram-me do Hilton onde tinha uma reserva e colocaram-me num hotel a uns 20 mins de táxi. Nesse dia fui para o hotel às 5 da tarde, tomei um banho de água quente, dormi numa cama, acordei e pedi o jantar no quarto, dormi, acordei e tomei o pequeno-almoço. A brincadeira ficou por 400 dólares... mas nunca achei que tanto dinheiro fosse tão bem empregue!!! 

Alguns dias mais a dormir no lab estavam a deixar-me saturada e aceitei ir para casa de uma colega e amiga que já tinha luz. Passei uma semana na casa dela e nunca lhe consegui agradecer o quão importante isso foi. Como é que eu posso não ter gostado de Houston, da universidade, das pessoas e dos texanos? O que não nos mata, enriquece-nos.

Truman Capote's former Cottage in Sagaponack

"In 1961, author Truman Capote commissioned a saltbox home in the Hamptons where he is said to have written In Cold Blood, and that he owned until his death in 1984. You see, the Hamptons were, for quite some time, an artist colony before the Wall Street crowd plowed through the seaside towns planting mega mansions along the shore. Capote’s home is in Sagaponack (between East Hampton and Southampton) and sits on four acres near the beach. After the death of Capote and his surviving partner Jack Dunphy, the house was bequeathed to the Nature Conservancy, which then sold it to artist Ross Bleckner in 1993 for $800,000". 


sábado, 27 de outubro de 2012

"What I love about NYC is that´s always something new to discover"

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

"Um eléctrico chamado desejo" - Tennessee Williams


Em 2010 vi "Um eléctrico chamado desejo" no Teatro Nacional Dona Maria II encenado pelo Diogo Infante com Alexandra Lencastre, Albano Jerónimo, Lúcia Moniz, Pedro Laginha e Paula Mora nos papéis principais. Depois de um dia de trabalho no já nem lembrado "Portugal Tecnológico", um dos exemplos do despesismo do governo Sócrates, rumei de um hotel no Parque das Nações ao Rossio de táxi. Esta peça marcava o regresso da Alexandra Lencastre ao teatro, quando era "mais " conhecida pelos seus papéis na tv. Foi a primeira vez que a vi no teatro. Foi uma noite mágica. Na altura não tive a certeza se isso se deveu à qualidade dos actores, à qualidade da encenação ou à qualidade da tradução. Hoje, 2 anos depois, e depois de ter assistido à mesma peça em NYC, posso afirmar e ter a certeza que as representações da  Alexandra Lencastre no papel de Blanche Dubois e do Albano Jerónimo no papel de Stanley Kowalski foram memoráveis.

Esta obra prima da dramaturgia do séc XX consagrou Tennessee Williams como um dos maiores escritores americanos. Aqui retrata-se o confronto entre os valores tradicionais do sul da América e o materialismo agressivo da América moderna. 

Blanche Dubois, uma frágil e solitária sulista, decide visitar a sua irmã Stella que vive nos bairro pobre de New Orleans. A célebre frase de Dubois "Eu não quero realismo, eu quero magia"reflecte a história de uma mulher literalmente atormentada pelo passado e a viver num mundo de fantasia que só existe na cabeça dela. Fisicamente, apesar de nunca admitir, é visível o passar do tempo "Apaga essa luz demasiado forte! Apaga isso! Não quero ser vista debaixo desse clarão impiedoso!". Quando questiona  a irmã sobre o seu aspecto e tendo ela respondido que estava óptima: " Uma mentira piedosa! Nunca a luz do dia mostrou uma ruína tão completa"(...) "Detesto lâmpadas sem quebra-luz". É uma mulher extremamente frágil, com um medo terrível da solidão: " As pessoas frágeis têm de brilhar. Têm de usar cores suaves, cores de asas de borboletas, abafar a luz com uma lanterna de papel... Não chega ser suave. tem que ser suave e atraente. E eu já estou a murchar! Não sei por quanto tempo consigo manter a ilusão!" (...) e que tem o álcool como grande companheiro: "Vá, não te preocupes, a tua irmã não se tornou numa alcoólica, está apenas abalada, cheia de calor, abalada e suja". E está sempre a ouvir piadas do cunhado Stanley: "O whisky desaparece com o calor. Há pessoas que quase não tocam no whisky, mas o whisky toca-as a elas." 

Com o desenrolar da história percebe-se que teve um grande desgosto de amor e que o amava insuportavelmente quando descobriu que o seu marido estava na cama com um homem mais velho. Depois disso fingiram que nada se tinha passado. Um dia, muito bêbados e a dançar a Varsoviana, ela disse-lhe saber de tudo e que tinha visto. O marido parou de dançar e saiu e após isso ouviu-se um tiro... Após essa tragédia: "a luz do mundo apagou-se outra vez e nunca, desde então, por um só momento, houve luz mais intensa do que esta... vela de cozinha...". O Stanley  (marido de Stella) é nas palavra se Blanche :" Um animal, comporta-se como um animal, tem comportamentos de animal, come como um animal, mexe-se como um animal, fala como um animal... é um sobrevivente da idade da Pedra... e talvez te bata e grunha... Stanley é o arauto da tragédia, é ele que vai desmascarar Blanche: "Devias saber o que ela tem contado ao Mitch...ele pensava que ela nunca tinha ido além dos beijos com nenhum homem...é tão famosa como o Presidente dos Estados Unidos, com a diferença de não ser respeitada por ninguém!”. A decadência, solidão e loucura de Blanche vai-se percebendo até se tornar catártica. E termina com a frase: “Eu sempre dependi da bondade de estranhos”.


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Andy Warhol


O nome de Andy Warhol está muito ligado a NYC. É talvez o maior nome da arte pop. Quem não conhece as latas de sopa da Campbell? Um nome muito ligado à publicidade e à realização de fimes. Foi também o mentor da banda The Velvet Underground. Muitos dizem que “era feio como a morte”. É famoso pelos retratos coloridos e de cores berrantes que incluem Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor, Mick Jagger....

Em Union Square abriu o seu próprio estúdio pintado de prata conhecido como “The Factory”.  Rapidamente tornou-se o lugar da moda, onde toda a gente queria ver e ser visto, frequentado pelos ricos, famosos e celebridades. Estas festas juntavam tribos tão diferentes como intelectuais, actores, drag queens, celebridades de Hollywood, modelos, boémios...

O seu nome é também indissociável do mítico Studio 54 e é o autor da célebre frase:  “In the future, everyone will be world-famous for 15 minutes”. O Studio 54 era famoso pelo bom aspecto das pessoas que o frequentavam, pela libertinagem sexual e pelo uso democrático da cocaína. Muitos dos frequentadores destas raves morreram anos depois de SIDA. Os frequentadores assíduos incluiam Diana Ross, Truman Capote, Calvin Klein, Dali, Mick e Bianca Jagger, Yves Saint Laurent, Gia Carangi, Liza Minelli, Madonna... Era um lugar sem regrasl e onde tudo era possível, onde os comuns dos mortais (desde que escolhidos entre a multidão  por Steve Rubell) podiam conviver com celebridades.
O Studio 54 ficará na história. Depois do Studio 54 nada ficou do jeito que já foi um dia.


"Keep the faith"

terça-feira, 9 de outubro de 2012

sábado, 29 de setembro de 2012

Pittsburgh e Andy Warhol


Pittsburgh não é daquelas cidades que nos marca. Tem um rio que divide a cidade. Lembro-me que ficamos num excelente hotel (Hilton) em frente ao rio por um preço imbatível e tínhamos um motorista que nos ia levar e buscar onde queríamos. Agora mudou de nome mas dá para ver o quão magnífico era, aqui. Isso foi até motivo de muita polémica na altura porque o nosso hotel era melhor que o do nosso orientador!! E aluno de doutoramento, segundo as instruções dele nunca ficavam num hotel com mais de 3 estrelas... Ainda por cima, nada habitual nos hotéis nos Estados Unidos, o pequeno almoço era incluído. Este era um hotel de 5 estrelas ao preço de um de 3. Lembro-me que depois da conferência passávamos horas no bar do hotel a beber vinho e a fumar. No tempo em que ainda era permitido fumar em alguns hotéis nos EUA. E a maior recordação que tenho de Pittsburgh é o museu do Andy Warhol, cidade onde ele nasceu. Antes de ter ido a Pittsburgh (em 2006) achava que Warhol era nova-iorquino.






















sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A minha avó


A minha avó apagou-se há um mês. Foi-se da forma que sempre pedi para ela. Rápido e quase sem sofrimento. Viveu os últimos tempos como queria. Cuidada pela filha que escolheu, pelo genro que foi o primeiro a sugerir a ida dela para a casa deles e por uma senhora que não era da família mas que cuidou dela e a mimou como se uma filha fosse.

A minha avó era pequenina mas uma grande mulher. Tinha um olhos muito pequeninos e muito azuis, aquele azul céu. Já a conheci com o cabelo muito branquinho, incrivelmente liso. Usava uns óculos muito graduados que faziam parecer que tinha uns olhos enormes. Quando os tirava, somente quando ia para a cama, percebia-se o quão pequeninos eram. Dormia silenciosamente, quase nunca se virava na cama. Era uma verdadeira matriarca. Enquanto teve saúde, cozinhou sempre e tratou da casa. Cozinhava muito bem. Fazia a melhor sopa de couves com feijão que algum dia comi. Detestava quando era pequena , mas aprendi a adorá-la. A minha avó cortava as couves para o caldo-verde com a perfeição de uma máquina. Era esquerdina. Fazia tudo com a mão esquerda mas escrevia com a direita, tal como o meu avô. Fazia o melhor arroz de toda a gente. E fazia um prato que eu sempre detestei quando feito pelos outros mas que eu adorava quando feito por ela. A esse prato chamávamos “batatas guizadas” uma espécie de jardineira sem ervilhas.

Era uma pessoa tímida e de poucas palavras com quem não conhecia mas era uma excelente conversadora com os que com ela privavam. Queria sempre saber notícias e novidades. Adorava jogar às cartas, à sueca. Sempre foi a minha companheira de equipa e jogava muito bem, sem truques nem batotices. Fazíamos uma dupla fabulosa. Passávamos as tardes de verão a jogar quando as férias duravam quase 4 meses. Há já muitos anos que deixei de jogar cartas com ela. Os anos foram passando e ela continuou a jogar cartas quando tinha companhia, quase sempre aos fins de semana, no Natal e na Páscoa.

Adorava que eu lhe cortasse as unhas e que lhe medisse a tensão. Fazia a melhor cevada com café do mundo. Comprava os componentes na “Negrita” e ela misturava-os conforme a sua receita.

Tinha um medo enorme de trovoada e tempestades. Recolhia-se sempre a rezar a Santa Bárbara e acendia sempre uma velinha. Era devota de muitos santos e rezou diariamente o terço em conjunto com o meu avô e com quem se lhes decidia juntar.Depois da morte do meu avô passou a fazê-lo em silêncio.

Com o passar dos anos, tal como aconteceu a todas as irmãs, começou a ouvir muito mal. Há muitos anos que usava um aparelho auditivo. E por esse motivo era difícil perceber-nos ao telefone. No último ano começou a perder capacidades. Andava muito devagarinho e quase não saia de casa. Passava os dias no seu sofá.

Nas férias passei um dia inteiro com ela. Já não me conhecia. Fui talvez a primeira pessoa de quem se esqueceu. Cortei-lhe as unhas, embora não precisasse, mas sabia que gostava. Passou a manhã na cama e não queria que eu saísse da beira dela. Almoçamos a salada russa da minha mãe que ela tanto gostava. À tarde ainda dormiu a sesta e depois quis ir para o sofá. Nesse dia um dos meus tios foi visitá-la e ela ainda o reconheceu. Mais ao fim do dia começou a perguntar pela minha tia que ficava com ela. Eu repeti-lhe muitas vezes que ela estava a chegar porque tinham ido almoçar fora. Estava confusa e agitada porque não me reconhecia. Por mais que eu lhe dissesse quem era. “Vó, sou a tua neta” ao que ela respondia repetidamente: “Netas há muitas”. Quando os meus pais e os meus tios chegaram a minha avó até chorou de alegria porque os reconheceu. Embora não me reconhecesse, achou que eu a tratei bem, e quando eu me despedi dela para me ir embora perguntou-me: “Amanhã vem para cá?”. Dois dias depois deixou de andar e fomos com ela para o hospital. Estive todo o dia com ela, de mão dada porque ela não queria ficar sozinha. Não me reconhecia como neta dela mas apertou-me sempre a mão com a força que tinha. No dia seguinte ainda voltou para casa mas teve que regressar ao hospital porque já não conseguia comer. A última vez que a vi com vida estava a aguardar internamento, estava a dormir serenamente e com um riso nos lábios. Ainda lhe segurei as mãos e sentia-as quentes. Ainda lhe dei um beijo. Embora soubesse que o fim estava próximo, nunca pensei que estivesse tão perto. Quando de manhã recebi a notícia foi um choque tão grande que nem reagi. Depois do meu avô foi-se a minha avó. Só ficaram boas memórias.

O desejo do meu sobrinho mais velho

Diz-me ele ontem ao jantar: "Titi, quando for grande quero poder beber coca-cola".
"Um mundo sem livros não me interessa"

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