É o meu restaurantes
preferido em Braga, onde vou regularmente, e onde levo sempre os meus amigos
que não são daqui. Na decoração
sobressai um toque de requinte, a criar um ambiente algo sofisticado, com mobília do tempo das nossas avós. Dizem que a música é boa, geralmente um jazz soft, já ouvi falar
que passa Billie Holiday, mas nunca dei conta. As paredes têm quadros, fotos, panfletos, postais, flamulas e cartazes, o que torna o
ambiente mais característico.
Excelente serviço assegurado pela Dª Mina e mais uma colaboradora. Eficiente e
sempre simpático. Comida
caseira, muito bem confeccionada, bons vinhos e sempre boas sugestões. Todas as ementas são pequenas, mas o que importa é a qualidade e nunca a quantidade. Nunca levei ninguém ao Félix que não tenha gostado. É sempre uma aposta certa. No sábado fizemos lá um jantar com 10 pessoas, maioritariamente amigos que se conhecem há mais de 25 anos, mais as respectivas mulheres/maridos/namoradas. Um jantar com desfiar de memórias para mostrar que na essência continuamos os mesmos! O que jantamos segue em algumas fotos mas que não fotografei tudo. De entrada comemos pataniscas e setas. Os vinhos foram "Farizoa" tinto e "Dom Diogo" verde branco. Como pratos principais: arroz de pato e pataniscas com arroz e feijão frade. Sobremesas: tarte de limão, tarte de queijo no forno e não me lembro se mais alguém escolheu outra coisa...
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
António Lobo Antunes em Braga
Tenho uma amiga, a C., que adora música e os grandes
compositores da geração beat e afins, e o que alguns escrevem, mas não tem a mínima
curiosidade sobre as pessoas, sobre o que elas são, ou o que elas pensam. Ou seja, deve detestar biografias. Interessa-se apenas pela obra. Isto é o que pensa António Lobo Antunes.
Na sexta-feira, às 7 da tarde, bem atrasado, entrou na Centésima Página, com aquele ar distraído,
desta vez a olhar os livros, com a cara fechada e com aspecto alienado. Começou
por falar de como Braga era uma cidade importante para ele. As origens da
família paterna eram de perto da Póvoa de Lanhoso. Uma família muito humilde e
que o trisavô partiu para o Brasil e fez lá a sua vida mas que no fim veio aqui
morrer. Falou mais uma vez do avô, António Lobo Antunes, a pessoa que mais
gostou, a ele lhe deve a ternura e o carinho que lhe deu, ao contrário dos pais
que nunca lhe deram, por questões de educação.
Depois falou que detesta a arrogância francesa e de
como acham que somos apenas um país de porteiras e de mulheres a dias. No
entanto, referiu que foi lá que recebeu dos mais importantes prémios
literários.
Falou da morte da primeira mulher em 1999 e das
cartas que nunca releu e que lhe escreveu de África. E de como as filhas o
convenceram a publicá-las antes da sua morte: “Para que essas putas com quem o
pai anda saibam de quem o pai gostava era da mãe”.
Não se esqueceu de referir os amigos, principalmente
o Eugénio de Andrade, que era tão bonito, e que a doença modificou tanto. Que
tinha sempre tanta delicadeza com ele, tão terno, e que quando o visitava tinha
sempre uns miminhos como uns biscoitos e vinho fino. António Lobo Antunes disse
estar arrependido até hoje de não o ter visitado nos últimos dias porque soube
tempos depois que ele o esperava. A senhora que cuidava dele disse-lhe:
-Sr. Dr., O Sr Eugénio dizia-me sempre : “Ponha aí o
fatinho que o meu amigo vem ver-me”. Falou também do Miguel Veiga e da colecção
enorme de livros que tem, que não sabe como “parecem estar a reproduzir-se
entre eles”.
Lamentou também que a crise limita os bons leitores
e que quem lê é a burguesia, pequena e média. Os ricos segundo ele leêm
revistas de golfe e revistas de economia e as mulheres deles lêem revista de
moda francesas.
Falou também do quanto adora Caminha.
Como já tinha referido, acho-o muito menos distante, muito mais bem-disposto, como se a sua presença neste tipo de sessões não fosse um frete. Está muito mais confessional e acho que até mais interessado com os seus leitores. Como se necessitasse de lhes dar uma palavra e ser agradável com eles.
Quando me assinou os livros eu era a última pessoa. Perguntou-me o que fazia e essas coisas que nos levaram a NYC e falou de como gostava da cidade, e da editora na 5ª Avenida, que passou uma temporada lá a escrever na casa do irmão João numa cidade em New Jersey (que ele me perguntou se eu conhecia e que eu nem sequer nunca ouvi falar). Falou de Columbia e de quando o irmão João voltou de lá. Eu disse-lhe que o João Lobo Antunes tinha uma cadeira no Instituto de Neurociências, ele desconhecia...Agradeceu-me por ser uma leitora tão interessada e lá seguimos para o jantar. A idade aos homens ou lhes faz muito bem ou muito mal. A Lobo Antunes, a idade, está a torná-lo mais doce, mais grato. Aquele ar tão característico dele de zangado, irónico, desinteressado, enfadado, já não se lhe reconhece.
À Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva chegou mais de
uma hora atrasado. Quem conversou com ele foi o Sérgio Guimarães de Sousa.
Falou que a escrita para ele é um
ofício, que precisava de mais 12 anos para fazer tudo aquilo que precisa
fazer, que tem muitos problemas em falar dos seus livros. “Porque é que os dias
quando somos pequenos são tão lentos e quando somos adultos são tão rápidos?”.
Um dos maiores prazeres da vida foi o encontro
extraordinário com o George Steiner em Cambridge, que considera um homem
inteligente, com os afectos dentro da inteligência, que tem um piano de Bach em
casa e cartas de Freud ao seu pai. “Sabem que ele é judeu, não sabem?”. “E
sabem porque é que os judeus nõ se suicidam?”.
“Porque não podem ler o jornal de amanhã”.
Falou que gosta do livro “Monte dos Vendavais” que
acha um livro histérico e kitch mas que gosta dele. Falou também do casamento, e de como estes são
complicados. As mulheres gostam de variar os restaurantes. Os homen não gostam
de variar. E as pessoas acabam de estar presas umas às outras numa rede de
mentiras:
-Não gosto de ti (mulher)
- Não é que não goste de ti mas preciso de pensar
(homem)
-O problema não está em ti, está em mim (homem)
- Então, rua! (mulher)
Mostra-se muito mais animado, muito mais humorado,
muito mais risonho, mais aberto. E não larga os cigarros, que os fuma em todos
os lugares proibidos.
Há quem refira que os livros do António Lobo Antunes
ou se gostam ou se detestam. Os primeiros livros que editou eram sempre
considerados os piores livros do ano. O editor de NYC, sem ler nada da sua obra
disse: “Você vai conquistar o mundo”. Estátraduzido em mais de sessenta
idiomas.
Depois do livro estar pronto, de tantas revisões, de
tanta correcções, de passar pelo “detector de merda” nunca mais olha para ele.
Nunca leu nenhum dos seus livros porque tem medo.
Confessa-se admirador de Bach e Schubert. Que é
um homem de poucas lágrimas, é como as
grutas, chora para dentro. Chorou quando a mãe das filhas morreu, quando o pai
morreu. Não seria capaz de voltar a ser médico, não por medo, mas pela enorme
sensação de vazio.
Quando esteve doente há 6 anos um dos pintores amigos dele foi o único
que lhe pareceu dizer a verdade: “Aguenta-te”. Recebeu mais de 5000 cartas dos
seus leitores. Mas a que mais o marcou foi a de um rapaz do Minho que dizia “Não
admito que o meu ídolo se vá abaixo das canetas”. “Fiquei muito comovido”.
Falou que as paredes da sua casa são repletas de estantes com livros. E
que a sensação que mais gosta é ter as paredes cheias de livros e deixar
impregnar-se por eles. Diz-se uma pessoa metódica e com horários. As pessoas
pensam que a arte é feita por iluminados, mas não, é muito trabalho.
Contou também que a mãe era um apessoa muito bonita mas que o pai não. E
perguntou-lhe:
-Porque é que a mãe casou com o pai que é tão feio?
-Porque tem uma voz que me transtorna.
Disse também que a mãe não tinha ciúmes e que isso chateava o pai. Uma
das vezes, a mãe estava a fazer café enquanto fumava um cigarro e o pai a fumar
cachimbo:
-A Maluda quer pintar-me o retrato.
-Está bem-disse a mãe.
-Nú.
(Sem resposta da mãe).
-Da parte de baixo
-Da natureza morta? –perguntou a mãe.
Diz ter cada vez mais orgulho de ser português mas que se recusou a
estender a mão ao Primeiro-Ministro na Feira do Livro de Lisboa.
No final, quando começava a preparar-se para assinar os livros das
pessoas ainda me viu sair e disse-me:
-Ana, já nos conhecemos há 3 horas!
domingo, 16 de dezembro de 2012
A dor de cabeça que uma ida ao cinema provoca...
O meu sobrinho mais novo mais conhecido por "Afilhado" está na idade dos três, não dos porquês, mas acha que já tem quereres. Como já não os via há dois fins de semana porque estive fora, planeei um ida ao circo com ele e o irmão. Mas qual crise? O circo está completamente esgotado aos fins de semana. Plano número 2: cinema. A única coisa que andam vidrados nos últimos tempos, se os deixarmos passar o tempo em frente à tv ou ao computador, é no "Cars 2". Pois bem, eu a achar que estava a fazer a boa acção do dia viro-me para o meu afilhado e digo-lhe:
-Sabes onde vamos hoje, afilhado? Ao cinema.
E responde-me ele como se fosse a coisa mais natural do mundo:
-Não vou ao cinema porque me dói a cabeça!
E eu digo-lhe:
-Mas eu, o pai e o K vamos. E tu ficas com quem?
-Com a avó em casa, é que também me dói a perna!
Ainda estivemos numa tentativa de o convencer que se saiu frustrada. O irmão apesar de querer ir, desanimou-se quando percebeu que não era o "Cars 2" que ia ver... e ainda acrescentou:
-Não quero pipocas no cinema que são daquelas que têm umas coisas duras!
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Hélio Oiticica – “Museu é o mundo” @ Museu Colecção Berardo
A exposição do Hélio Oiticica tinha uma projecção do
Magic Square nº 5 permanente do Museu do Açude no Rio de Janeiro.
A exposição
valeu por ter visto de perto os “Parangolé Pamplona” a capa que “a gente mesmo
faz”.
Parangolé
Pamplona
O
parangolé pamplona você mesmo faz
O parangolé pamplona a gente mesmo faz Com um retângulo de pano de uma cor só
E é só dançar
E é só deixar a cor tomar conta do ar
Verde Rosa
Branco no branco
no peito nu
Branco no branco no peito nu
O parangolé pamplona
Faça você mesmo
E quando o couro come
É só pegar carona
Laranja Vermelho
Para o espaço estandarte
"Para o êxtase asa-delta"
Para o delírio porta aberta
Pleno ar
Puro Hélio
Mas, o parangolé pamplona você mesmo faz
Adriana Calcanhotto
Artur Bual
Agora deu-me para isto... Já
não me bastava a minha paranóia por livros e agora interessar-me por arte. Como
não sou rica, nem tão pouco milionária, os meus objectivos são assim por baixo.
Encontrei um site de leilões onde foram leiloadas várias serigrafias e desenhos
originais... Estava muito interessada numa janela/porta com varanda da Maluda
mas ficou para além do meu orçamento... Acabei por conseguir esta serigrafia
sobre papel, assinada e datada de 1993, série H.C. numerada 14/20, motivo
"Terreiro do Paço", com 45x62 cm (moldura com 78x96 cm). Ainda não a
vi pessoalmente. Estou a aguardar o envio. Vamos ver o quão viciada vou
ficar...
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
"Doze homens e uma sentença"
Ontem fomos eu, a A. e a J. ver a peça "Doze homens e uma sentença" ao Theatro Circo.
A peça começa com a reunião de 12 jurados pela
absolvição ou acusação de um jovem de 16 anos que presumivelmente matou o pai
com uma facada no peito. Os 12 jurados reúnem-se em volta de uma mesa e começam
com uma votação de 11 a considerarem o réu culpado e apenas um a considerá-lo
inocente porque não tem certezas. Esta
peça é um surpreendente exercício de argumentação.
O calor escaldante que se faz sentir faz os
jurados limpar o suor frequentemente do rosto dos 12 homens trancados numa
pequena sala com apenas mesa, cadeiras e água. O veredicto tem que ser unânime. Se os
jurados considerarem o réu culpado do assassinato do próprio pai, será
executado na cadeira eléctrica, mas se um deles tiver uma dúvida razoável a
respeito da culpabilidade, o filho não poderá ser condenado e regressará assim
às ruas.
São quase duas horas
de acesas discussões, muitos gritos, muitas demonstrações, muitos argumentos e
que nos deixa com uma dúvida: os jurados, com todas as provas apresentadas em
tribunal têm a certeza absoluta que o jovem é culpado?
António Lobo Antunes no Festival LER
No Domingo ao fim da tarde ainda corri
para conseguir assistir ao encerramento da 1ª edição do Festival Ler no Cinema
São Jorge. Por volta das 5, quando cheguei ainda me cruzei com Gonçalo M.
Tavares e consegui comprar uma 1ª edição
do livro do António Lobo Antunes “Não é meia noite quem quer”. Enquanto esperava
e as pessoas iam aglomerando-se à espera que a sala abrisse, passou por nós um
distante, carrancudo, distraído, antipático, ou quem sabe, somente tímido, Lobo Antunes.
A primeira vez que conheci pessoalmente
António Lobo Antunes foi em Braga na Centésima Página e apesar de adorá-lo como
escritor achei-o irónico, distante, antipático, revoltado, desinteressado,
gozão... e na altura, a conversa foi tediosa, desinteressante, queixosa,
pessimista...Aliás, achei que estava a ouvir um louco saído do Miguel
Bombarda... e se não fosse as dezenas de livros que carregava comigo teria
saído antes de acabar.
Anos depois, no domingo, ia com essa
falta de expectativa mas quando começo a ver o início da conversa com a
simpatia e sorrisos do Carlos Vaz Marques comecei a pensar que o Lobo Antunes
ficasse cativado. E foi o que aconteceu. Eu acho o Carlos Vaz Marques o melhor
entrevistador/ conversador deste país depois da ausência da Margarida Marante (noutro
estilo). [Fazendo um parêntesis, foi depois de uma entrevista do António Lobo
Antunes à Margarida Marante sobre o “Esplendor de Portugal” que comecei a ser
uma fiel leitora dele]. Nesta conversa falou-se de tudo. Elogiou a voz do
Carlos Vaz Marques dizendo “é a voz mais bonita que conheço”. Falou de tudo, de sentimentos,
da família, de escritores, de livros, de escrita, da doença... Um incomum Lobo Antunes
mais descontraído, confessional e que conseguia para além do seu humor
característico, contar piadas e rir-se. Cada vez mais nota-se uma abertura nas
suas conversas, fala cada vez mais da família e do pai. Nota-se que apaziguou
de um período de afecto conturbado. Disse ter sido muito injusto com muita
gente, principalmente com a família. E disse também que pediu desculpa a Vasco
Graça Moura “um grande poeta”. Elogiou Scott Fitzgerald mas disse que achava
grandes escritores chatos como Thomas Mann e Kafka. Mencionou que Garrett e
Herculano eram escritores que escreveram maravilhosamente bem. O filme que mais
viu na vida foi “Joselito, o pequeno cantor”. Adora filmes piegas.Assumiu para
ele o maior defeito é a ingratidão. Afirmou também que viveu sempre
aterrorizado com o tempo desde menino, que sempre sentiu que tinha muito pouco
tempo e viveu e vive com esse medo.“as mentiras que os outros exigem que nós
digamos”. Citou frases mal feitas de vários livros: “Quando acordou estava
morta”; “Era uma praia perto do mar”.
No plano auto-confessional disse aos 14
anos disse aos pais que queria deixar de estudar e ser escritor. “Teria ficado um Prado
Coelho se fosse para letras. Já que não foi para letras foi para medicina.
Escolheu medicina por pertencer a uma família de médicos. Sempre estudou
jogadas de xadrez, estudava tudo menos Medicina. Falou da guerra e de como os
generais sempre foram para com ele muito generosos, leais e honestos. Confessou
que a pessoa que mais gostou foi do avô materno, a pessoa mais tolerante que
conheceu. Fazia-lhe carinhos, ao contrário dos pais que nunca o fizeram. Os
seus amigos eram sempre mais velhos e os melhores foram Cardoso Pires, Eugénio
de Andrade e Ernesto Melo Antunes. “Quando um amigo morre fica um vazio”.
Quando esteve doente há 6 anos, o
cirurgião pegou-lhe na mão e ele, dessa forma, achava que não ia morrer. O quanto
esse gesto foi importante para ele.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
The Big Lettuce
Viajei para Faro com a Ryanair. Sou pouco habitual. Foi a
minha 2ª vez. Quase ia perdendo o avião e ainda por cima implicaram com a minha
mala (acho que é o modelo mais pequeno da Samsonite que eu comprei
propositadamente para ser a minha mala de cabina). Depois de ter ficado doente
quando me disseram que eram 53 euros e que não podia pagar com CC ainda fui levantar
dinheiro... lá segui para o avião debaixo de chuva diluviana. Pouco mais de uma
hora aterramos em Faro, outro dilúvio mas mais quente, com a minha querida G. À
minha espera. A minha apresentação ainda não estava pronta mas já tinha lido a
tese e as perguntas que iria fazer... Ainda passei parte da noite a adiantar a
apresentação. Dormi pouquíssimo. Faro estava lindo de manhã. Seguimos para a
Universidade. Seminário de uma hora acabamos e seguimos para o sushi. Às 3
defesa da tese de Mestrado. O que parecia uma tese não muito brilhante,
verificou-se o contrário pelo brilhantismo da apresentação da candidata e pela
defesa segura e conhecedora do trabalho. Eu que ia com uma opinião, rendi-me
completamente e não tive dúvida nenhuma em dar a nota. Sou justa sempre e sou
generosa quando fico rendida. Saí feliz pelo dever cumprido.
Chegar a Lisboa, vinda do Sul, atravessar a Ponte 25 de
Abril e aparecer aquele mar imenso de claridade, aquele rio gigante e aquela
cidade que se debruça sobre nós, é algo que não se explica por palavras. E a
luz de Lisboa é única!
Como o dia anterior tinha sido longo, com uma lecture e como
arguente principal numa tese de Mestrado, não tinha dormido quase nada. Mas o
dia acabou com um brilhante peixe de mar fresquíssimo. Vinho branco, salada montanhesa e torta de amêndoa. Se é para fazer asneira,
é em grande. Depois seguimos para o “artistas” uma associação cultural tipo
Velha-a-Branca mas centenário. Decorria uma festa electro com dois DJs.
Como não sou mais tão jovem assim, não fiz muitos planos
para Lisboa. Mas tinha uma conversa marcada por volta das 6. Essa que me fez ir
a Lx. Saí do hotel e fui ao El Corte Inglês procurar uns ténis da Tiger Mexico
66. Acreditam que não sabiam o que era nem a marca?? Na secção se desporto!!
Perdi-me nos livros e depois fui jantar ao gourmet. Tinha combinado ir à festa
do “fim do Mundo” do “Alfama-te” mas estava cansadíssima.
No dia seguinte tinha combinado peq. almoço com duas amigas.
Acabei por tomar o meu no hotel e seguimos para o Corte Inglês. Falamos imenso de política e de discordar e muita coisa mas concordar em tantas outras.
Atrás de mim estava uma senhora que quando eu defendia a inutilidade da greve
se insurge e diz-me:...As minhas amigas foram umas queridas e levaram-me ao CCB
porque eu queria ver a exposição do Hélio Oiticica. Até lá chegarmos fizemos um
verdadeiro tour por LX, melhor do que aqueles autocarros do City Sightseeing.
Lá cheguei ao Museu Berardo e já passava da uma. Comecei
pela exposição do Hélio Oiticica que tinha uma projecção do Magic Square nº 5
permanente do Museu do Açude no Rio de Janeiro. A exposição valeu por ter visto
de perto os “Parangolé Pamplona” a capa que “a gente mesmo faz”.
A colecção Berardo estava muito reduzida nem Paula Rego, Nem
Warhol, Licheistein, Mondrian, Klein, Picasso... nadinha. Só 2 Julião Sarmento
e o retrato do Joe Berardo pelo Julião Sarmento. O resto não reconheci nada.
Depois andei nos jardins dos Jerónimos e fui aos pasteis de Belém comprar uns
mimos para os papis e mano.
Regresso à Rua da Prata, vejo as lojas, vou para a
Rua Augusta com lojas engraçadas e artistas de rua, rua cheia. Na rua Augusta
apaixono-me por uma aguarela de um eléctrico com um motivo de azulejo. Vou para
a Rua do Ouro.
Subo pela Rua Do Carmo, a abarrotar de gente. Que bem me senti
ver a minha capital com as lojas foras dos centros comerciais repletas de
gente, castanhas a assar, pessoas a passear, muita gente. Entro na Foot Locker
e pergunto novamente pelos ténis: “Ah? Não conheço essa marca...” OMG, estou na
capital ou na província?! Quem trabalha nas lojas não é suposto ter formação??
Fui à Assírio e Alvim onde no dia anterior tinha sido a apresentação do livro do Al Berto.
Adiante, sigo para o Chiado para a Benard mas estava fechada. Torro dinheiro na
Massimo Dutti e sou ainda ajudada pelo Nuno Santos que via o mesmo pullover que
eu queria para o meu irmão mas que não tinha a certeza do número. Ele questiona
a funcionária sobre a existência da mesma com cotoveleiras e eu aproveito para
pedir o mesmo. Perguntei se sabia se um L corresponde ao 40 ao que ele diz: “Eu
sou um XL”.
Depois fui à rua
Anchieta aos saldos da Bertrand, nada que me agradasse. Sigo para a “Vida Portuguesa”
onde me perdi pelos sabonetes da Ach Brito, um táxi dos antigos vermelho e
verde para o meu sobrinho mais velho e uma moto com condutor e com uma carroça
para o mais novo.
Sigo para o Cinema São Jorge para o Festival da Ler para ver
a conversa entre o Carlos Vaz Marques e ainda me cruzei com o Gonçalo M.
Tavares. Saio, com muita pena minha às 6:40 para ainda passar no hotel e seguir
para o Oriente. O taxista dizia-me que era quase impossível chegar a tempo...
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
O que é mais importante: a pergunta ou a resposta?
Há muitos anos perguntava à Adriana Calcanhotto o seguinte (antes de saber que o Vínícius de Moraes era sogro dela:
- Apesar das sucessivas comparações que tens sido sujeita, principalmente com Elis Regina, eu diria que a tua trajectória como excelente compositora assemelha-se muito mais a Vinícius de Moraes pela erudição do vocabulário, pela forma extraordinária que escreve poesia em língua portuguesa e pelo veículo das palavras ser a música. Será que daqui a alguns anos serás definida como uma grande poetisa que fez canções maravilhosas? Era assim que gostarias de ser definida?
- Ana, eu detesto comparações (como qualquer artista) mas considero um elogio a analogia que fazes com Vinícius, a quem amo muito. Na verdade eu gostaria mesmo era de ser indefinível, inclassificável, hoje ou daqui a alguns anos.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Auto-retrato
Tenho dificuldade em dizer não. Tenho
péssima memória para nomes. Eu quase não gosto de música. Compro discos pela
capa. Guardo tudo. Adoro ajudar os meus amigos se algo estiver ao meu alcance. Tenho
uma natureza franca e directa. Tenho sólidas convicções. Detesto mentiras. Detesto
maldade. Tento ser pontual. Detesto acordar cedo. Adoro viver de noite. Adoro
ler. Gasto pequenas fortunas em livros. "Os livros e os óculos são o meu emblema". Detesto gente sem humor. Tenho
trabalhado muito para exercitar a minha paciência. Dou muitas esmolas. Refilo
muito. Detesto ingratidão. Não sei lidar com injustiças. Gosto muito de ouvir.
Mas aborreço-me rapidamente com discursos vazios. Sei pedir e peço muitas vezes
desculpas. Não guardo mágoas. Sou difícil. Não gosto de dançar. Apesar disso,
adoro ballet e Balanchine. Adoro Mondrian, Warhol e Calder. Adoro passar roupa.
Preciso ficar sozinha. Gosto do Benfica. Sei jogar cartas muito bem. Fui a
Barcelona propositadamente para conhecer a Fundació Tàpies. Adoro leite com
café. Adoro calor e dias de sol. Adoro viajar. Adorei Xangai. Gosto das minha
mãos. Conheço e reconheço as pessoas pelas mãos. Nunca soube o que fazer com as
mãos na presença de pessoas que não conheço. Sou tímida, mas não tão “bicho do
mato” como há anos atrás. Mantenho uma fachada distante como medida de protecção.
Não vivo sem internet. Adoro coca-cola. Detesto conduzir. Detesto surpresas.
Parei de fumar. Tenho superstições. A minha memória mais recôndita é com 2 anos.
A primeira palavra que eu li e escrevi foi "Ana". Difícil, hein? Adoro
a frase “o meu santo não se cruza com o de...”. Adoro rir de mim mesma. Adoro
gente louca. Detesto gente que se leva a sério. Sou bastante disciplinada. Sou
muito desorganizada. Detesto gente que se acha. Sou autêntica. Quero muito
conhecer o Brasil. A minha cidade é Nova Iorque. Detesto gente deslumbrada. Não
vejo bem ao perto. Adio sempre decisões importantes. Adoro vinho. O meu
alter-ego adorava gin tónico. Adoro a minha praia. O meu filme preferido é “O
Paciente Inglês”. Adoro azuis. Eu sempre digo sim. Nunca soube desenhar. Eu não
durmo no avião. Sou muito generosa. Sou uma pessoa em quem se pode confiar. Sei
escrever muito bem. Não sou receptiva a elogios. Adoro Susan
Sontag, Gertrude Stein, Elizabeth Bishop, Tennessee Williams, Truman Capote,
Ernest Hemingway… E Eça
de Queiroz, Fernando Pessoa, Valter Hugo Mãe, Clara Ferreira Alves, Antonio
Lobo Antunes, Sophia, Al Berto, Mário de Sá Carneiro....E ainda João Cabral de
Melo Neto, Caetano Veloso, Manuel Bandeira, Vinícios de Moraes, Eucanaã Ferraz,
Ferreira Gullar, Caio Fernando de Abreu e tantos outros. Adoro relógios. Gosto
muito das boas coisas da vida mas sou muito simples e muito esquisita ao mesmo
tempo. Sou facilmente seduzida pelas coisas boas da vida. Um mundo sem livros
não faz sentido. Ando viciada em biografias. Adoro a luz de Lisboa. Dizem que
eu mudo muito. Raramente me deixo influenciar. Tendo a julgar-me com muita
severidade. Basicamente procuro estabilidade e segurança. Mas não é isso que
todos procuram?
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Este texto é para a C. que salvou a minha vida duas vezes - Parte II
No início de Janeiro de 2011 fui para Nova Iorque, a cidade
que eu escolhera para viver. Foi uma coisa tão planeada, tão desejada, tão
preparada e cheia de expectativa. Eu nunca, em nenhum momento, achei que algo
pudesse não correr bem. A minha única “pedra no sapato” era o ter que dividir
casa com alguém que não conhecia de lado nenhum. E eu confesso, sou muito de
primeiras impressões e quando “ o meu santo não se cruza” com o da outra pessoa
pouco haverá a fazer, embora existas algumas muito boas excepções. Depois de
uma procura desmedida durante várias semanas, e nada encontrar de jeito, uma
colega do meu grupo ia regressar de NY quando eu fosse para lá. Algumas pequenas
peripécias antes de resolver alugar o apartamento , mas nada de extraordinário.
Tenho que admitir, porque mentirosa é coisa que nunca fui nem soube ser, o tal
do meu santo não se cruzou com o da fulana. E isto só de ver a foto no
Facebook... Passou-se o Natal e a passagem de ano e nos primeiros dias de
Janeiro cheguei a NY. Cheguei por volta das 3, um dia lindo, um sol magnífico,
a cidade coberta de neve, linda. Mas ao contrário de todas as outras viagens,
de todas as chegadas a Houston, eu não estava bem, tinha uma espécie de aperto
no peito e não sabia explicar a razão.
Fui de táxi de Newark até ao endereço da minha futura casa (no limite do
Upper West Side), na 110 entre a Broadway e Amsterdam. Chegada à rua começa o primeiro filme. O
taxista descarrega-me as malas que eram exactamente duas (daquelas bem
enormes) no meio da estrada. De não
esquecer que a estrada estava limpa e o passeio também mas a neve tinha sido
atirada em monte para o meio desta divisão. Ou seja, eu tive q literalmente,
escalar esta montanha de neve com uma mala de cada vez. Feito! Segundo desafio: subir os degraus q separavam
a entrada do prédio do passeio. Outra aventura... Até que uma alma caridosa
deve ter assistido a esta cena e ajudou-me. Ah, claro, esqueci-me de referir
que toquei várias vezes no apartamento e a fulana não se dignou a perguntar se
precisava de ajuda... para quê? Eu só tinha 2 malas de 25 kgs cada mais uma
mochila e tinha que subir 5 andares a pé..
A tal da alma caridosa (dessas pessoas boas que encontramos sempre no mundo e com as quais nunca nos vamos mais encontrar) perguntou-me qual era o andar e levou-me uma das malas. Claro que eu demorei provavelmente o triplo do tempo a subir com uma delas. Eu já não sabia se chorava, se parava e me sentava ali no meio das escadas... Sei que cheguei ao 5º andar e tive logo um ataque de asma. Depois de tocar várias vezes à porta a tal da pessoa do apartamento onde ficaria nos próximos 6 meses, dignou-se a abri-la. Cumprimentei-a, levei as malas para dentro, sem qualquer ajuda e disse-lhe apenas que quando a minha colega voltasse que eu tinha ido comprar um cartão para o telemóvel. Fui pela Broadway e na primeira At&T que vi entrei. Os senhores eram tão simpáticos que eu perdi-me com as horas. Soube quando regressei a casa que a minha colega achara q eu andava perdida. Fomos depois jantar ao “The heights” onde param os undergrads de Columbia (aka canalha). Essa minha colega precisou de ficar o mês de Janeiro para terminar o trabalho dela no lab. Então basicamente eu dormia num quarto, a minha colega na sala e a outra no quarto dela. Essa minha colega acabou por me vender tudo o que tinha por 300 euros e lá fiquei eu com um quarto habitável. Cozinhar nunca cozinhei. Desde o primeiro dia percebi que ali nunca cozinharia. Eu cheguei numa quinta e na sexta fui ao lab e tratar de todas as burocracias. Estava um dia cinzento, triste, chuvoso, tal como eu, e que raramente voltei mais a ver em Nova Iorque. A primeira impressão do lab, comparativamente com o meu lab de Houston, não podia ter sido mais oposto. A primeira pessoa com quem falei não foi com a chefe e isso demorou alguns dias a acontecer...Bem, eu senti-me um caos, eu estava triste como a noite, nunca me tinha sentido assim.Acho que foi nessa noite que cheguei a casa e que era suposto ir à festa de anos da N. e eu estava com uma dor de cabeça tão grande e já tinha tomado tudo o que podia, que a solução foi deitar-me e esperar que fosse outro dia. Eu sempre ouvi dizer que não havia como um dia depois do outro... A verdade é que acordei e estava ainda pior do que no dia anterior, triste, triste, sim, podem rir-se, tipo novela mexicana “tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar”, neste caso era qualquer coisa que me fazia chorar... A C. de manhã ligou-me, ou eu liguei-lhe a ela, n sei. Ela estava em Cambridge e já havíamos combinado que eu iria lá no fim de semana seguinte. Mal ela começou a falar comigo e percebeu imediatamente que eu não estava bem. Disse-me para me vestir e sair. Depois de tomar banho saí. Mal cheguei à rua e liguei-lhe, ainda não tinha chegado ao cruzamento com a Broadway e já estava lavada em lágrimas. E são apenas alguns metros... Ela bem me perguntava o que eu tinha, o que tinha acontecido, o que se passava... mas o que eu apenas conseguia fazer era soluçar e expulsar muito ranho e lágrimas e mais lágrimas. A verdadeira tragédia. E eu só imagino o pranto, porque em toda a minha vida, não me lembro de ter chorado tanto!!! E lá fui caminhando Broadway abaixo com dezenas de pessoas que passavam por mim e me viam assim e nada fizeram. Em Nova Iorque consegue estar-se só no meio da multidão. Entrei num Starbucks acho que na 103, com aquela cara que deveria ser difícil de esconder, mas ninguém se importou. Como a conversa entre mim e a C. era um monólogo, ela foi fazendo as perguntas e dando as respostas e lá me fez aquelas avaliações que ela sempre faz quando estamos mal... e tomou mais uma vez conta da situação: “ vais a casa, fazes uma mala para um fds prolongado, enquanto eu compro a viagem para Boston. Já te ligo a dizer a hora que vens!. E assim fiz, fui a casa, preparei uma mochila, avisei que ia passar o fds a Boston e a C. acabara de me dar as indicações para ir para Boston.
Por volta das 7 cheguei a Boston, a South Station e a C. deu-me as indicações direitinhas que tinha de apanhar o metro e sair em Central station e com aquele sorriso lindo dela. Mal a vi desmanchei-me outra vez. E ela só gritava, berrava, saltava, abraçava-me e eu já não sabia se chorava de alegria ou de tristeza. Mas ainda acabei a rir-me quando reparei nas pessoas que estavam dentro do starbucks a olhar para nós. E fomos afogar as mágoas. Começamos na Green Street e por aí foi... zou zou e afins...Falamos, choramos, comemos, dançamos e sei que acordei numa casa que não era a dela. Não me lembro como fui lá parar... Vim a saber depois que era de uma amiga que tinha sido operada a um joelho e a C. estava a ajudá-la. Continuei deprimida nesse e no outro dia. Mas hoje sei, com a devida distância o efeito que estes dias e este conforto de família tiveram em mim. Nestes dias a C. cuidou de mim.
Soube muito tempo
depois o que lhe custou ver-me ir para Nova Iorque ainda combalida. E eu
lembro-me que acordava diariamente e dizia-lhe “C, não estou melhor” e ela
respondia-me sempre “Não estás mas vais ficar”. E um dia, assim como nascem
todos os dias da mesma forma que estava deprimida deixei de estar.. Não sei
explicar como aconteceu mas foi um click. A partir deste dia nada mais foi
justo para a C. O que sempre haviamos combinado de passar fds alternados em
Boston e NY passou a ser apenas um plano... Ela coitadinha, saía de Boston não me lembro a que horas e eu ia buscá-la a
Penn Station (não me lembro se às 9 ou às 10). Os fins de semana eram do mais
louco que se poe imaginar. Começavam quase sempre no Zigolinis ou Pao. Mas
também fomos ao Mercato e Becco em Hells Kitchen , onde pagavamos $80/garrafa
de Chianti.
A noite começava na “Trash Party “do Wesbter Hall e depois ainda iamos para umas festas maradas para Brooklyn, uns lugares muito manhosos mas que a C. dizia “Então não valeu a pena, até atravessamos a ponte de Brooklyn de táxi à noite! Olha que linda vista!”. Ao sábado, quando a ressaca não era muita iamos para o Soho e para o Fanelli. À noite iamos para o Beauty bar e para o Lit...
Às vezes a C. ficava à segunda e percorriamos Greenwhich Village, West
Village, Nolita, East Village, Soho e
Tribeca a pé. Acabavamos sempre no Fanelli ou no Zigolinis. Nós somos pessoas
de hábitos. Boston, apesar de ter lá estado algumas vezes, conheço muitoooo
mal, Cambridge um pouco melhor. Mas vejam bem que eu sou fanática pelo
Alexander Calder e não fui ver a escultura dele do MIT... A minha estadia em NY
nos primeiros meses não teria sido tão boa se não tivesse tão perto a C. e sim,
se não fosse ela, naqueles primeiros dias eu teria conhecido o que era a
loucura.
A tal da alma caridosa (dessas pessoas boas que encontramos sempre no mundo e com as quais nunca nos vamos mais encontrar) perguntou-me qual era o andar e levou-me uma das malas. Claro que eu demorei provavelmente o triplo do tempo a subir com uma delas. Eu já não sabia se chorava, se parava e me sentava ali no meio das escadas... Sei que cheguei ao 5º andar e tive logo um ataque de asma. Depois de tocar várias vezes à porta a tal da pessoa do apartamento onde ficaria nos próximos 6 meses, dignou-se a abri-la. Cumprimentei-a, levei as malas para dentro, sem qualquer ajuda e disse-lhe apenas que quando a minha colega voltasse que eu tinha ido comprar um cartão para o telemóvel. Fui pela Broadway e na primeira At&T que vi entrei. Os senhores eram tão simpáticos que eu perdi-me com as horas. Soube quando regressei a casa que a minha colega achara q eu andava perdida. Fomos depois jantar ao “The heights” onde param os undergrads de Columbia (aka canalha). Essa minha colega precisou de ficar o mês de Janeiro para terminar o trabalho dela no lab. Então basicamente eu dormia num quarto, a minha colega na sala e a outra no quarto dela. Essa minha colega acabou por me vender tudo o que tinha por 300 euros e lá fiquei eu com um quarto habitável. Cozinhar nunca cozinhei. Desde o primeiro dia percebi que ali nunca cozinharia. Eu cheguei numa quinta e na sexta fui ao lab e tratar de todas as burocracias. Estava um dia cinzento, triste, chuvoso, tal como eu, e que raramente voltei mais a ver em Nova Iorque. A primeira impressão do lab, comparativamente com o meu lab de Houston, não podia ter sido mais oposto. A primeira pessoa com quem falei não foi com a chefe e isso demorou alguns dias a acontecer...Bem, eu senti-me um caos, eu estava triste como a noite, nunca me tinha sentido assim.Acho que foi nessa noite que cheguei a casa e que era suposto ir à festa de anos da N. e eu estava com uma dor de cabeça tão grande e já tinha tomado tudo o que podia, que a solução foi deitar-me e esperar que fosse outro dia. Eu sempre ouvi dizer que não havia como um dia depois do outro... A verdade é que acordei e estava ainda pior do que no dia anterior, triste, triste, sim, podem rir-se, tipo novela mexicana “tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar”, neste caso era qualquer coisa que me fazia chorar... A C. de manhã ligou-me, ou eu liguei-lhe a ela, n sei. Ela estava em Cambridge e já havíamos combinado que eu iria lá no fim de semana seguinte. Mal ela começou a falar comigo e percebeu imediatamente que eu não estava bem. Disse-me para me vestir e sair. Depois de tomar banho saí. Mal cheguei à rua e liguei-lhe, ainda não tinha chegado ao cruzamento com a Broadway e já estava lavada em lágrimas. E são apenas alguns metros... Ela bem me perguntava o que eu tinha, o que tinha acontecido, o que se passava... mas o que eu apenas conseguia fazer era soluçar e expulsar muito ranho e lágrimas e mais lágrimas. A verdadeira tragédia. E eu só imagino o pranto, porque em toda a minha vida, não me lembro de ter chorado tanto!!! E lá fui caminhando Broadway abaixo com dezenas de pessoas que passavam por mim e me viam assim e nada fizeram. Em Nova Iorque consegue estar-se só no meio da multidão. Entrei num Starbucks acho que na 103, com aquela cara que deveria ser difícil de esconder, mas ninguém se importou. Como a conversa entre mim e a C. era um monólogo, ela foi fazendo as perguntas e dando as respostas e lá me fez aquelas avaliações que ela sempre faz quando estamos mal... e tomou mais uma vez conta da situação: “ vais a casa, fazes uma mala para um fds prolongado, enquanto eu compro a viagem para Boston. Já te ligo a dizer a hora que vens!. E assim fiz, fui a casa, preparei uma mochila, avisei que ia passar o fds a Boston e a C. acabara de me dar as indicações para ir para Boston.
Por volta das 7 cheguei a Boston, a South Station e a C. deu-me as indicações direitinhas que tinha de apanhar o metro e sair em Central station e com aquele sorriso lindo dela. Mal a vi desmanchei-me outra vez. E ela só gritava, berrava, saltava, abraçava-me e eu já não sabia se chorava de alegria ou de tristeza. Mas ainda acabei a rir-me quando reparei nas pessoas que estavam dentro do starbucks a olhar para nós. E fomos afogar as mágoas. Começamos na Green Street e por aí foi... zou zou e afins...Falamos, choramos, comemos, dançamos e sei que acordei numa casa que não era a dela. Não me lembro como fui lá parar... Vim a saber depois que era de uma amiga que tinha sido operada a um joelho e a C. estava a ajudá-la. Continuei deprimida nesse e no outro dia. Mas hoje sei, com a devida distância o efeito que estes dias e este conforto de família tiveram em mim. Nestes dias a C. cuidou de mim.
A noite começava na “Trash Party “do Wesbter Hall e depois ainda iamos para umas festas maradas para Brooklyn, uns lugares muito manhosos mas que a C. dizia “Então não valeu a pena, até atravessamos a ponte de Brooklyn de táxi à noite! Olha que linda vista!”. Ao sábado, quando a ressaca não era muita iamos para o Soho e para o Fanelli. À noite iamos para o Beauty bar e para o Lit...
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