sexta-feira, 19 de abril de 2013

Olhos de onda @ Culturgest


No livrinho que nos deram à entrada tinha um texto da Adriana:
Adoro o palco da Culturgest. Nunca vou esquecer do meu primeiro concerto em Lisboa, sozinha com minha guitarra e uma audiência mágica, em Outubro de 2000. Na primeira noite caí de amores pela cidade, e por Portugal, dentro dela. Naquela noite fiz amigos queridos e é tudo nítido e intocado na minha memória, em geral bem turva. Naquela noite entrei em Portugal, ou Portugal entrou em mim, vá lá, para sempre, a porta de entrada sendo o convite da Culturgest, por António Pinto Ribeiro. Lembro que no camarim, em um carrinho, haviam garrafas de guaraná do Brasil sem que ninguém houvesse pedido e aquilo me comoveu logo antes de entrar em cena. Lembro também de sentir mais frio do que imaginava. Lembro sobretudo do frio na barriga antes de entrar no palco, que de algum jeito dura até hoje.

De modo que quando recebi o convite para me apresentar no mesmo formato solo, nas comemorações de vinte anos da casa, disse sim na mesma hora. Não tinha um concerto preparado, não tocava há muito, não saberia se conseguiria e até aqui, sinceramente, não sei, mas por isso mesmo. Andava doida para retomar a guitarra, portanto para inventar um roteiro pensado para Portugal, para pegar a estrada, pela janela do quarto, pela janela do carro, trancafiada em quartos de hotel enquanto Portugal está lá fora, tocando compulsivamente para que o concerto seja lindo e inesquecível como só em Portugal pode ser, enfim, o novo convite da Culturgest era tudo o que mais eu podia querer no momento em que ele chegou. Depois pegar a estrada seca, com Diogo ao volante, comer doces de ovos em Aveiro, partir atrás de baleias açoreanas, ir ao Fado e acordar inchada na manhã seguinte para dar entrevistas sem parar, me emocionar cantando meus poetas amados para as pessoas, pensando bem, o que mais alguém poderia querer?(...) Fiz turnês solo, pela Europa, toquei na África, no jardim das esculturas do MoMA, no complexo do Alemão no Rio, em salas antigas, em salas míticas, em ginásios, em espeluncas. Foi sempre assim, tomando e retomando, que convivemos, o instrumento fora de moda no Brasil, e eu.

A retomada desta vez deve-se ao fato de que precisei parar de tocar, o abandono desta vez foi obrigatório, por conta de uma lesão chatinha na mão direita. Exatos um ano e seis meses sem poder tocar sendo que no justo momento em que deveria sair em turnê com O micróbio do samba, punhado de canções que compus e gravei, adivinhem, na guitarra. O óbvio, que seria então não fazer os concertos do álbum, acabei não conseguindo, já que não tive coragem de cancelar os três concertos portugueses agendados e eles acabaram gerando o Micróbio vivo e o resto é lenda.

No mais, como sempre digo, no meu ofício quem comanda são as canções, e não me debato com isso. Gosto, aliás, de ser levada por elas. Então nunca tenho a menor pretensão de ser coerente com um alinhamento adiantado, adiantando que ando tocando aquelas das quais estava com muitas saudades, algumas das quais havia até esquecido, algumas do micróbio do samba, algumas das quais tenho inveja porque gostava de as ter escrito, algumas que escrevi mas foram gravadas por outros artistas, poemas que musiquei, e alguma coisa nova que ninguém é de ferro. Olhos de onda, por exemplo, que batiza o alinhamento, qualquer que ele seja, fiz enquanto ensaiava. Além de inaugurar nova safra, o que sempre é motivo de alegria, a canção ajudou a dar o norte do recital. Constatei quando essa canção nasceu que as outras já estavam também falando do que ela fala e da língua portuguesa e do mar da língua e por aí vai.

De tudo um pouquinho, como a receita da felicidade, deixando sempre aberto o espaço para poetas que me apareçam e para novas canções que podem sempre me arrebatar mais perto da hora ou que podem ser escritas no camarim, sacrificando para isso certezas absolutas no repertório, tudo é possível, graças aos deuses.
Aqui estamos, eu, a guitarra e algumas canções que adoro, nos reencontrando, como se fosse a primeira vez, nos encontrando pela primeira vez quando é o caso, desejando viver mais uma noite "daquelas", no palco querido da Culturgest, antes de por o pé na estrada, enfim. Importante é que aquele frio na barriga antes de entrar no palco sozinha com minha guitarra, permanece, se não aumentou e foi para isso que vim”.

Quem escreve assim, como não esperar o melhor?

Dizem que não há concerto como o primeiro. Começo a acreditar que é verdade.  A primeira vez que vi a Adriana foi há muitos anos, em 2000 ou 2001 no dia 1 de Portugal (24 de Junho), em Guimarães. Estava um dia de calor que tudo parecia derreter. Eu não conhecia o trabalho dela e fiquei a gostar nessa tarde e nessa noite.  Tocou com o António Chaínho e mais um violoncelista e um percurssionista. O concerto foi na Praça de Santiago e enche para vê-la.
Hoje passados mais de 10 anos, a receita voltou a ser quase a mesma. Entra elegantemente vestida de vestido azul petróleo a cobrir-lhe os pés e cabelo preso. Achei o concerto melancólico ou eu é que estou “tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar”.  Apeteceu-me chorar várias vezes. Mas tinha um gajo a ressonar ao meu lado, com a cabeça tombada quase a tocar-me no ombro. Eu, a um metro de distância do palco, passei o tempo envergonhada porque achei que a Adriana ouvisse e visse aquelas figuras.
O alinhamento do concerto, segundo a própria, foi escolhido propositadamente para a estreia em Lisboa. Os dois poemas de Sá-Carneiro “O outro” e “Vislumbre”, não podiam ser esquecidos. Cantou a novíssima “Olhos de onda” que dá o nome ao espectáculo. Canta outra quase desconhecida “Maldito rádio” com um “ajudante” a mudar de estação enquanto ela toca. Não se esqueceu das mais conhecidas "Inverno", “Esquadros”, “Mais feliz”, “Vambora”. O encore terminou triunfalmente ao som de “Fico assim sem você “ e “Maresia” (na qual ela solta o cabelo e um ventilador simula o vento vindo do mar). A Adriana, com quase 48 anos mostra que é como o vinho do Porto.  Eu cortaria o cabelo....mas ela é quem sabe!


Copyright: Hiromi Konishi
Copyright: Hiromi Konishi

domingo, 14 de abril de 2013

Os sobrinhos


Desde que sou tia que tento explicar às pessoas que não o são, a transformação que elas nos fazem.  Eu sou uma tia babada, não o escondo.  E os meus sobrinhos verdadeiros são dois rapazes. Muito diferentes um do outro mas que têm a meiguice como uma das suas qualidades. Agora o mais novo anda com um mealheiro “ambulante” (daqueles frascos de laboratório que nos dão quando fazemos análises à urina). Segundo ele,  anda a ajudar-me a juntar dinheiro para comprar um carro novo de rodas grandes!!! Depois, é sempre o mais entusiasta no que se refere a música. Anda sempre com o tambor atrás e eu sou a cantora oficial. Quando quer dormir vem munido de chupeta e de fralda e diz: “Titi, canta o cuco para toda a gente”.  A canção do cuco era uma canção que a minha mãe nos cantava antes de dormirmos : “Vai-te cuco/ vai-te cuco/ para cima daquele telhado/deixa dormir o (a) menino (a)/ um soninho descansado. Quando o meu sobrinho mais novo pede para cantar o cuco para toda a gente é para substituir “o menino” por todos os nomes que ele conhece. Obviamente que quando acabo de cantar as dezenas de nomes já ele vai no 5º sono...
O mais velho é viciado em ver “Mcqueen” de legos no youtube. Se o deixassem não fazia mais nada. Mas sabe que só pode ver x minutos.  Depois tem um peixe que ele escolheu que é feio que dói. Escolheu-o para o avô e chamou-lhe F. O peixinho coitadinho é mesmo feio. Tem uns olhos que parecem sair-lhe das órbitas. O meu sobrinho mais velho tem 5 anos e já começou a ficar desdentado. Para já foi apenas um. Mas não tardará, será o outro do lado.
Duas das minhas melhores amigas são mães ou serão este ano. Fiquei felicíssima. Filhos (as) tão desejados (as) é uma maravilha! E a transformação delas só pode ser para melhor. Porque as crianças fazem-nos milagres! Venham elas!

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Filadélfia


Já aqui falei de várias pessoas que me salvaram a vida. A melhor homenagem que lhes podemos prestar é nunca esquece-las em qualquer circunstância. Hoje chegou a vez de falar de mais uma. No meu último regresso a Houston, onde voltei para terminar experiências, passados uns dias foi “varrido” pelo Ike. Mas antes disso, eu já tinha planeado há muito a minha ida a Filadélfia e conhecer a cidade que eu sempre quis conhecer e que iria finalmente concretizar o desejo. Em Outubro de 2008, a minha estadia nos Estados Unidos terminou entre Filadélfia e NYC. Estes últimos dias salvaram-me a vida. Eu que tinha passado 6  semanas em Houston sem luz, a dormir alternadamente entre o lab, casa de amigos e hotéis, cheguei a Filadélfia outra pessoa. Eu queria tanto regressar a casa que cheguei até a equacionar não ficar em Filadélfia e regressar directa. Mas esta minha amiga convenceu-me que eu ia cometer o erro da minha vida se não aproveitasse para conhecer Filadélfia e NY. Eu como raramente desisto de alguma coisa, “paguei para ver”.  Estes dias foram tudo e muito mais. Mudaram a minha vida e fizeram-me olhar para o futuro  com optimismo. Gostei muito da cidade. Totalmente diferente do que eu conhecia até aí. Nunca mais comi um “black cod” tão bom como lá e nunca fui a um coreano com tanta qualidade! Para não falar da ausência de impostos e dos outlets! Ah, e dos zipcars que a G. alugava! Para mim Philly não é a música do Springsteen mas a do Neil Young:

"Sometimes I think that I know
What love's all about

And when I see the light

I know I'll be all right.

….
City of brotherly love
Place I call home

Don't turn your back on me

I don't want to be alone

Love lasts forever"


E quando conheci Filadélfia, achei que foi melhor ter apenas conhecido depois de ter estado em Houston. Até aí só tinha estado em Atlanta, Memphis, Austin, Houston e Pittsburgh.














Foi também a primeira vez que conheci NY. Não sei explicar. Não foi aquela coisa de desmaiar porque a cidade é linda... Mas teve a ver com energia, não sei explicar... mas de facto, impactou-me à primeira. E eu soube ali que regressaria para ficar. Em poucos dias conheci tudo. Central Park, 5ª Avenida, Times Square, Rockfeller Center, Soho, Chinatown, Little Italy, Grand central, Nações Unidas, Ferry para Staten Island... Impressionou-me o conhecimento profundo da G. pela cidade. O trocar de metro, sabia os sítios de cor. Eu limitava-me a segui-la. O Joe’s Shanghai ficou como lugar mítico. 

Nunca me vou esquecer da minha primeira visita a NY. Logo no primeiro dia caí de amores pela cidade. É tudo nítido na minha memória, em geral bem esquecida. Naquele dia eu entrei em NYC ou NYC entrou em mim, vá lá, para sempre.




















terça-feira, 9 de abril de 2013

Público vs privado


Os meus amigos e os meus familiares mais chegados que trabalham na função pública não vão gostar de ler isto. Mas a verdade é a verdade e factos são factos. Comecemos:
1. Quantos dias de férias existe no público? 25 a 30 dias. E no privado? 22.
2. Quantas horas semanais se trabalha no público? 35 hrs. E no privado? 40.
3. As pessoas podem ser despedidas no público? Não.  E no privado? Sim.
4. A ADSE é outro dos escândalos na diferença de tratamento e de acesso à saúde entre público e privado. Se os serviços são prestados nos mesmos locais porque é que os funcionários públicos têm um sub-sistema específico.
Já pensaram nas diferenças entre os subsídios de reforma dos funcionários públicos e do privado?
Sabem com que idade pode um juíz do TC pode reformar-se após apenas 10 anos de trabalho? 40 anos.
Não percebo como o TC considerou constitucional a taxa de solidariedade aplicada a reformas superiores a 1350 euros...
É curioso como quase ninguém fala disto... Reflictam! [e já agora, se vos apetecer, comentem].

domingo, 7 de abril de 2013

Relvas vs Sócrates


Numa altura em que a turbulência abunda no nosso país, o caso Relvas acaba por ser o mal menor, mas aquilo que toda a gente esperava há muito tempo. Para mal e vergonha dele, não saiu por vontade própria, mas quando já não mais se podia aguentar. Para quem tem telhados de vidro, a atitude mais sensata, e que lhe ficaria muito bem, teria sido demitir-se quando o escândalo rebentou. Imaginemos que eu até acreditava que ele não tinha tido qualquer culpa na obtenção da forma vergonhosa a sua licenciatura. O problema é que o passado académico deste senhor não indicava nada de bom. Foi sempre um aluno que passou à rasca e que as suas médias nunca ultrapassaram os 10 e os 11 valores... Pois bem, ele poder-se-ia ter matriculado normalmente numa universidade privada e ter obtido de forma normal o diploma. Acontece que existe, o que para mim veio assassinar a qualidade e o prestígio das antigas licenciaturas, que passaram para mestrados sem se ter acrescentado matéria ou carga horária. Mas isso são outra conversas. Bolonha permite que um medíocre aluno, sem passado académico brilhante requisite a obtenção de equivalências baseado no seu pseudo CV. Imaginemos que eu até acredito que o coitadinho do Relvas, na sua boa fé, requisitou as equivalências, sem pedir qualquer favorecimento nem atenção particular. Surgem as questões: Não seria mais prudente Relvas ter-se dirigido a uma universidade pública para pedir equivalências? Qual a razão de serem sempre as universidades privadas postas em causa e de estes casos passarem-se exclusivamente nelas? Isto leva-nos para outra questão. As universidades privadas em Portugal, salvo raras excepções, serviram apenas para “acolher” alunos que pelos mais diversos motivos não entraram nas candidaturas normais nas universidades públicas. Para além disso, podemos ver a lista vastíssima de políticos e ex-políticos, deputados e ex-deputados que engrossam a lista de alunos e ex-alunos e docentes e ex-docentes destas universidades. Muitas destas universidades serviram para atribuir graus a estas pessoas. No governo anterior o caso da licenciatura do Sócrates foi muito semelhante a este caso do Relvas. A única diferença é que de facto o Sócrates, antes de se matricular na Independente, já tinha um bacharelato em Engenharia Civil pelo ISEC. Embora, já se achasse engenheiro à época. Adiante, outros tostões. O Sócrates, já com um passado académico, apresentou as disciplinas efectuadas, e pediu as respectivas equivalências. Nada de mal. O problema começa nas disciplinas às quais não lhe deram equivalência e a forma como ele as terminou com sucesso. Ok, partindo do princípio que eu acredito na boa fé de todas as pessoas e o Sócrates fez apenas aquilo que lhe foi pedido. Não é estranho para o comum dos alunos que frequentou uma universidade e terminou uma licenciatura com mais ou menos dificuldades, se questione como é possível efectuar uma prova escrita fora das instalações da universidade e enviá-la por fax? Seria menos questionável se lhe tivesse sido pedido por exemplo uma monografia. Mas não, foi um exame escrito que depois foi enviado porque fax para o regente da disciplina. Isto é espectacular. Andamos nós, qual patetas, a acabar licenciaturas com um júri de pelo menos 3 pessoas doutoradas, mestrados com painéis de no mínimo 3 pessoas doutoradas e júris de doutoramento com pelo menos 5 pessoas doutoradas, para estas pessoas acabarem os cursos com exames escritos feitos fora das universidades. Ok, continuando a achar que não tem mal nenhum, que é apenas um pormenor, vem o diploma. O diploma de Sócrates, como é público, está datado de um domingo... As coisas quando começam mal nunca acabam bem. Quem começa com uma mentira nunca a consegue manter sempre ou para sempre. A licenciatura do Sócrates foi passada a “pente fino” pelo Ministério Público que não encontrou matéria duvidosa. Pois bem, aqui começa a minha admiração pelo Prof. Crato. O Prof. Gago, ministro da tutela à época, lavou as mãos qual Pilates e não considerou questionável este assunto. O Prof. Crato, independentemente de fazer parte do governo e de Relvas ser seu colega ministro, não o tratou de forma diferente. Avisou como deveria o Primeiro-Ministro do resultado da investigação e enviou-a para o Ministério Público. A ver vamos se o Ministério Público, ao contrário de Sócrates, vai encontrar alguma coisa nesta licenciatura. Como estava escrito no “Expresso” Relvas entrou Doutor (devia ter sido escrito Dr. porque Doutor é o grau dos doutorados) e sai Senhor. Que estes episódios ensinem às pessoas que, como dizia a nossa Amália “quem tem telhados de vidro não deve andar à pedrada”. Grande Crato, obrigada!

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Clarice Lispector - A hora da Estrela

Hoje abre a exposição "A hora da Estrela" na Fundação Calouste Gulbenkian sobre a obra e vida de Clarice Lispector, no ano que passam 35 anos desde a sua morte. Deixo aqui um vídeo de «uma canção que Caetano Veloso escreveu baseado num livro de Clarice Lispector "A hora da Estrela. Essa canção fala da chegada da Macabé que é a personagem central do livro. O impacto que ela sofre chegando npo Rio de Janeiro e olhando os contrastes e enfim...Quando eu cheguei no Rio de Janeiro tive mais ou menos a mesma sensação da Macabé, achei isso interessante, engraçado porque a Macabé é alguém que chega no Rio de Janeiro vinda do norte. E eu cheguei do sul e era muito parecida à chegada. A canção se chama "Nome da cidade"...».

quinta-feira, 4 de abril de 2013

A demissão do Relvas


Um dia depois da nomeação do embaixador do impulso jovem, o ministro da tutela demite-se. Fica a questão: este também vai demitir-se? 

terça-feira, 2 de abril de 2013

O "embaixador" nomeado pelo Relvas


Leio no “Dinheiro vivo” que o Relvas acaba de nomear para embaixador do programa “Impulso jovem” o “vendedor de banha da cobra” Miguel Gonçalves "que conheceu no you tube". Para quem ainda não chegou lá é aquele que fala como quer para quem quer em programas de tv e toda a gente bate palmas às suas palhaçadas. Esta é a versão universitária do Tino de Rans, que na sua humildade e simplicidade protagonizou um inflamado discurso num congresso do PS e cumpriu o seu sonho ao “tascar” um abraço ao seu camarada Guterres. Estes exemplos são comuns em todas as aldeias, vilas, cidades pequenas e afins. O problema é estes casos serem usados como casos de sucesso, quando na verdade, são o motivo da risota popular de que o nosso caro Eça falava no seu tempo, mas que se mostra mais actual do que nunca. Podem acusar-me de inveja deste Miguel Gonçalves (não confundir com o Miguel Gonçalves Mendes realizador do "José e Pilar"). Mas um bocadinho de aprumo no seu discurso não lhe ficaria mal: “eu queria falar cumbosco”; “a berdadeira rebuluçon”; “eu andei sempre de mangas arregaçadas” e com sound bites baratos e de qualidade duvidosa (“uns choram outros vendem lenços”, “pimenta no cú dos outros é refresco”). Para acrescentar, claro que nem tudo o que este senhor diz é verdade... Neste video (11:27 até 11:58) este senhor diz assim: “Um dos melhores exemplos que conheço é a minha cara-metade, Tânia. Tinha um sonho maior que era ser professora universitária. Trabalhou a licenciatura inteira para acabar o curso com uma média galáctica. Aos 22 foi professora de Economia na Universidade do Minho. Esteve lá 6 meses. Detestou. Não era a paixão dela, afinal de contas. Mas ela começou tudo de novo. E foi aquela experiência que lhe permitiu perceber que ela gostava muito daquele ambiente da academia. E foi uma das primeiras pessoas na Europa a criar um instituto europeu de excelência...”.  Este senhor que faz discursos públicos, e não entre quatro paredes para alguns amigos, tem que ter mais atenção com o que diz. Mesmo que queira vender irrealidades. Claro que sabemos que a realidade não é tão bonita como a ficção. Há uma figura de estilo que se chama hipérbole. E eu prefiro usar esta palavra para definir esta parte do discurso. De facto, a cara-metade dele, não criou nenhuma rede de excelência nem a ajudou a criar. Mas foi, de facto contratada para trabalhar nesta rede de excelência europeia, tal como eu e outras dezenas de pessoas. Os louros devem ser atribuídos, de facto, a quem idealizou e concebeu esta rede de excelência que foi antes de eu entrar para o grupo. Eu lembro-me do dia em que se soube. Eu era um “bebé de fraldas”, uma estagiária naquele tempo. Lembro-me das comemorações no lab, mas de facto, a cara-metade deste senhor ainda não estava no grupo e como tal, não criou nenhuma rede de excelência. Miguel Gonçalves,  na conferência de imprensa quando questionado sobre as políticas do governo e sobre austeridade, responde: “Estais a tentar apanhar-me de um lado e do outro. Eu não sei. Faz perguntas importantes.... “Faz uma pergunta que consiga responder...”.Este senhor que cita Platão e Pessoa não sabe opinar sobre o governo que o contrata? 


quinta-feira, 28 de março de 2013

Flores raras e banalíssimas


Quem chega ao Rio de Janeiro e vê o fabuloso Parque do Flamengo não saberá, na sua maioria, que foi uma mulher que o idealizou. Lota de Macedo Soares foi a responsável pela construção do Parque do Flamengo. Uma mulher discreta, tímida, avançada para a época, cultíssima e vanguardista. Estudou muita coisa mas não recebeu qualquer diploma. Por esse motivo foi muito criticada, na época, por não ter uma formação académica formal e por ter sido amiga do então governador Carlos Lacerda. Em Samambaia, perto de Petrópolis, idealizou também uma casa com 4 elementos chave: cimento, vidro, metal e pedra. A rigidez do metal, a fragilidade do vidro, o brilho e a rugosidade das pedras do rio coexistiam numa harmonia perfeita. Esta casa simboliza a paixão de Lota pela arquitectura moderna.
O seu nome está essencialmente ligado à escritora americana Elizabeth Bishop com quem viveu mais de uma década. Bishop é uma das maiores poetisas americanas, vencedora de alguns dos mais importantes prémios literários, incluíndo o prémio Pulitzer.  Bishop aparece descrita no livro como “ uma senhora de cabelos brancos e olhos tristes”.  Teve uma infância infeliz. O pai morreu quando ainda era criança e a mãe morreu internada num hospital psiquiátrico. Era asmática e alcoólica, “...quando começava a beber não conseguia parar. Bebia até ficar inconsciente”.
Ocorreu-me agora falar do filme “Flores Raras”, cujo argumento se baseia no livro “Flores Raras e banalíssimas” de Carmen L. Oliveira que li há muitos anos, e por causa do filme, reli há pouco.
As críticas dizem que este filme de Bruno Barreto ficou entre os preferidos do público no Festival de Berlim. Foi também seleccionado para o Festival de Tribeca a realizar-se em NY entre 17 e 28 de Abril. A não perder!
Um dos livros de Elizabeth Bishop começa com a dedicatória a Lota de Macedo Soares:
“...O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que quanto mais vos pago, mais vos devo”

                                                           Camões

quarta-feira, 27 de março de 2013

A hipocrisia dos alemães


Quando as tropas norte-americanas libertaram os campos de extermínio nas áreas conquistadas às tropas nazis, o general Eisenhower ordenou que as populações civis alemãs das povoações vizinhas fossem obrigadas a visitá-los. Tudo ficou documentado. Vemos civis a vomitarem. Caras chocadas e aturdidas, perante os cadáveres esqueléticos dos judeus que estavam na fila para uma incineração interrompida. A capacidade dos seres humanos se enganarem a si próprios, no plano moral, é quase tão infinita como a capacidade dos ignorantes viverem alegremente nas suas cavernas povoadas de ilusões e preconceitos. O povo alemão assistiu ao desaparecimento dos seus 600 mil judeus sem dar por isso. Viu desaparecerem os médicos, os advogados, os professores, os músicos, os cineastas, os banqueiros, os comerciantes, os cientistas, viu a hemorragia da autêntica aristocracia intelectual da Alemanha. Mas em 1945, perante as cinzas e os esqueletos dos antigos vizinhos, ficaram chocados e surpreendidos...”

Viriato Soromenho Marques in DN

terça-feira, 26 de março de 2013

Os 60 anos da minha mãe


No dia 2 a minha mãe fez 60 anos! Coincidentemente foi a um sábado. Não podia passae com ligeireza. Há sempre festa mas este ano tinha que ser especial. A ideia foi do meu pai. Várias ideias, várias sugestões, que chegou ao lapidar da solução final. Faríamos uma festa surpresa na casa dos meus pais. E assim foi. O meu pai tirou a minha mãe de casa e levaram o meu sobrinho mais novo. Mal sairam eu e o meu irmão contamos ao meu sobrinho mais velho que iríamos fazer uma surpresa para a avó! Delirou! Ajudou a organizar a mesa, os lugares, quis fazer um desenho para dar à avó, colocou uma vela/carro do Mcqueen num dos bolos, a cada toque do telefone e da campaínha começava a saltitar... Fizemos umas saladas, cortamos presunto, vários tipos de pães e broas, quiche, e fizemos arroz. O meu pai comprou um leitão inteiro. Quando a minha mãe chegou já estava uma das minhas tias e o meu tio (afilhado da minha mãe) com as respectivas famílias. Depois chegou outra das minhas tias e a minha mãe, ainda sem perceber a surpresa disse-lhe: “Agora também ficas cá para jantar”. E passados uns minutos chega a outra irmã da minha mãe (emprestada, como elas dizem). A minha mãe, tal como os meus sobrinhos, delirou! Nem estava nela! Não desconfiou de nada! E depois ainda apareceram o M&M&M&F! Mas essa foi surpresa para todos!


P.S. Quando pedi ao meu sobrinho mais velho que fotografasse o bolo foi isto que consegui!

sexta-feira, 22 de março de 2013

Regresso da Grande Maçã


Chego ao aeroporto e percebo logo que estou quase em Portugal. Os portugueses conhecem-se ao longe. Sou a primeira a chegar á fila do check in. Chegam outros depois de mim e colocam-se à minha frente. Paguei para ver o que faziam quando abrissem o check in. Falta total de vergonha na cara à qual respondi: "Os portugueses e espanhois conhecem-se ao longe sem abrir a boca. Têm sempre a mania que são mais espertos! Não sabem o que é uma fila?”.  E ainda tiveram a lata de se ir! Realmente, a educação deve ser para os parvos! Já no Porto, va eu sou explendorosamente bem recebida por uma senhora no balcão de informação, cuja função era dar informações, esperava eu com bons modos. A crise, infelizmente não fez as pessoas repensarem a sua atitude e agradecerem diariamente serem priviligiados por terem um emprego! Sou mandada parar na alfândega, como sempre. Mas o senhor, este sim, foi super simpático. Bons modos, educado, foi a ele que perguntei onde existiam multibancos e foi ele que com toda a simpatia me mostrou. Fiquei a saber em poucos minutos que nenhuma das caixas multibanco tinham dinheiro. Chegada à civilização!

terça-feira, 19 de março de 2013

Óscares 2013


Melhor Filme
·         Argo
·         Lincoln
·         Zero Dark Thirty
·         Les Misérables
·         Silver Linings Playbook
·         Life of Pi
·         Django Unchained
·         Amour
·         Beasts of the Southern Wild
Melhor Realizador
·         Steven Spielberg por Lincoln
·         Ang Lee por Life of Pi
·         David O. Russell por Silver Linings Playbook
·         Michael Haneke por Amour
·         Benh Zeitlin por Beasts of the Southern Wild
Melhor Ator
·         Daniel Day-Lewis em Lincoln
·         Joaquin Phoenix em The Master
·         Bradley Cooper em Silver Linings Playbook
·         Hugh Jackman em Les Misérables
·         Denzel Washington em Flight
Melhor Actriz
·         Jessica Chastain em Zero Dark Thirty
·         Jennifer Lawrence em Silver Linings Playbook
·         Emmanuelle Riva em Amour
·         Naomi Watts em The Impossible
·         Quvenzhané Wallis em Beasts of the Southern Wild
Melhor Actor Secundário
·         Philip Seymour Hoffman em The Master
·         Tommy Lee Jones em Lincoln
·         Alan Arkin em Argo
·         Robert De Niro em Silver Linings Playbook
·         Christoph Waltz em Django Unchained
Melhor Actriz Secundária
·         Anne Hathaway em Les Misérables
·         Sally Field em Lincoln
·         Amy Adams em The Master
·         Helen Hunt em The Sessions
·         Jacki Weaver em Silver Linings Playbook
Melhor Argumento Original
·         Zero Dark Thirty
·         Flight
·         Django Unchained
·         Moonrise Kingdom
·         Amour
Melhor Argumento Adaptado
·         Lincoln
·         Argo
·         Silver Linings Playbook
·         Beasts of the Southern Wild
·         Life of Pi
Melhor Canção Original
·         "Skyfall", de Skyfall
·         "Suddenly", de Les Misérables
·         "Before My Time", de Chasing Ice
·         "Everybody Needs a Best Friend", de Ted
·         "Pi's Lullaby", de Life of Pi

Dia 10 na Grande Maçã

Brunch na Brasserie 8 ½ na 57 entre a 5ª e a 6ª Av. Sugestão minha. Numa pesquisa para um pequeno-almoço buffet ou chá no Plaza encontrei as reviews para este restaurante. Este é um dos poucos que faz um brunch buffet em NY. Senti-me como num dos barcos de cruzeiro americanos que visitei há anos. Era “all you can eat” com bebidas excluídas. O preço fixo era $42/ pessoa excluindo as gorjetas e as taxas. Buffet farto e cuidado. Numa primeira estação tinha bagels, todo o tipo de folhados, croissants, muffins...Faltava o tão europeu pão!!! Não havia uma qualidade sequer. O americano não sabe o prazer do pão com manteiga!! A chef Luisinha dizia-nos ao jantar que se não comesse pão com manteiga era mais magra do que eu! Sabe do que fala! Os queijos e fiambres eram quase inexistentes, no entanto, abundava a mozzarella, salmão fumado e camarões cozidos. A outra estação eram os pratos quentes: eggs benedict, batatas, salsichas, bacon, panquecas, waffles,paelha... A outra estação preparava no momento todo o tipo de omoletes, ovos estrelados, ovos mexidos com os acompanhamentos que quisessemos. Ao lado estavam as saladas de tudo e mais alguma coisa, de todo o tipo e variadas e massas frias. A última estação, que nem visitei, eram as sobremesas. Pedimos café e pela ausência da tão famosa pergunta se queríamos mais, começamos a achar que não havia refill. Até que a pessoa que nos estava a servir começa a perguntar se queríamos mais e eu nem o deixei terminar...
Sabem como se distingue um americano de um europeu à mesa:? O americano não usa a faca e o garfo. Só usa a faca para cortar qualquer coisa e o resto do tempo usa o garfo na mão direita e a mão esquerda pousada nas pernas como se tivesse sofrido um AVC.
O resto da tarde fomos a pé daqui até à 34 e no fim do dia fomos para a casa da família D. Ver a noite dos óscares que terminou com a sessão a ser projectada numa das paredes. 

sexta-feira, 15 de março de 2013

Dia 9 na Grande Maçã

Sábado de chuva. Ainda não tinha comido patinho e porque chovia não fui ao Columbia Cottage mas ao Ollie’s. 
Roast duck @ Ollie's
Apanhei um táxi e fui para o Whitney. Foi a primeira vez que visitei este museu e vale muito a pena. Brevemente mudará as instalações para West Village bem perto do rio, as obras avançam velozmente.O museu não me decepcionou. Comecei pelo 5º andar e fui descendo. “American legends: from Calder to O’Keeffe” era uma das melhores exposições. Conheci coisas do Calder que não fazia ideias, como por exemplo, as suas obras com arame, para além dos tão afamados mobiles. É talvez o museu que vi com mais obras dele. Fiquei a conhecer a obra da Georgia O’Keeffe, que conhecia vagamente. Mas o que adorei foi a exposição do Edward Hopper, a maior de todas que vi deste artista. Vi um Roy Lichtenstein “Bathroom” e o projecto do novo Whitney que será em West Village, mais precisamente na West Village street , junto ao rio Hudson. Depois de mais de 30 minutos à chuva, consegui apanhar um táxi, depois de ter estado na Madison e depois na Park Avenue.


Whitney Museum of American Art
"Summer Days" - Georgia O'Keeffe (Copyright: Whitney Museum of American Artt
"Bathroom" - Roy Lichtenstein (Copyright: Whitney Museum of American Art)
"Electric chair"-Andy Warhol(Copyright: Whitney Museum of American Art)
"Early sunday morning" - Edward Hopper (Copyright Whitney Museum of American Art)
"A woman in the sun" - Edward Hopper (Copyright Whitney Museum of American Art)

Marquei às 7 no Johnny’s Bar em West Village com o A. e a C. antes de irmos jantar às 10 no LOURO. Bar cheio. Muitas histórias temos neste bar mítico. Perto das 10 lá seguimos para o LOURO. Restaurante novo com influência portuguesa. Com os cumprimentos do chef fomos presenteados com uma espécie de pastéis de bacalhau e camarões com piri-piri. De destacar que o pão quente com uma manteiga de banha era de chorar por mais. O dono e chef é um luso descendente com pais de perto de Leiria que já não visita Portugal há 10 anos. Escolhemos apenas os pratos principais e o vinho. Como estávamos com a chef Luisinha, tivemos a honra de falar com o Chef David Santos que nos disse que a pessoa que anotou os nossos pedidos estava curioso porque é que quase todos tínhamos escolhido tamboril!! O último miminho foi um porto da Quinta do Noval! Vale a pena a visita pelo espaço e pela qualidade da comida! Amena cavaqueira até às tantas da noite.




Piri piri shrimp
American red snapper
Monkfish
Spanish Mackrel






Dia 8 na Grande Maçã (Parte II)


Fui jantar ao City Sandwich. Escolhi “Henrique” (alheira, mozzarella, couve, tomate e cebola). Jantei cedo porque às 8 tinha bilhetes para a peça “Cat on a hot tin roof” do Tennessee Williams com a Scarlett  Johansson. Gostei mas não posso dizer que foi extraordinário. Falarei com mais detalhe noutro post. Acabei na JM num deli perto do teatro a falar da vida.







terça-feira, 12 de março de 2013

Dia 8 na Grande Maçã

Compras em Chelsea e depois segui para Union Square onde era o “Factory” do Andy Warhol. Uma mistura de estúdio com local onde tudo podia acontecer. Nas festas que aconteciam lá todos queriam entrar mas poucos eram os que conseguiam. Hoje, desses tempos, sobra apenas o parque e a estátua intemporal prateada do Warhol. Não sei se é porque tenho mais tempo e mais disponibilidade para prestar atenção mas acho que NY está com mais sem-abrigo. Já não reconheço os mendigos que habitam a paragem do 1 na 168... nem os da 116...No entanto, não pude deixar de reparar que os novos habitantes dos bancos, são muito jovens. Hoje duas das pessoas que esperavam pelo metro junto a mim eram dois viciados ou doentes mentais. Não consegui distinguir. Um imitava vozes de desenhos animados e inventava diálogos e diferentes vozes entre elas. O outro, era mais velho, e tinha apenas um dente no maxilar superior. Ria-se muito. Estava num monólogo mas que para ele deveria ser um diálogo. Numa altura em que discute tanto o estado social em Portugal, faz-nos bem sair da nossa realidade e perceber como o mundo é bastante mais injusto que o nosso país. Em NY as pessoas são invisíveis. Aqui nada é de graça! Um destes dias uma pessoa gritava no metro enquanto apelava à caridade das outras: “Do not lose your apartment”. Um desempregado aqui cai de repente na miséria. Não existe estado social que lhe valha. Não tem qualquer tipo de subsídio.  Estou sentada no Whole Foods de Union Square a olhar para azáfama de pessoas e carros que se confundem. Vou à Barnes &Noble, um edifício de vários andares, lindo. Procuro uma cadeira para me sentar mas nada. Há 6 meses atrás era possível sentar no chão. Agora por razões de segurança, já não. Passo em frente à New York Film Academy em direcção à Strand. Impossível não me perder... mas como nõ imagino como vou levar o que já acumulo... limito-me a 3 livros...





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