terça-feira, 2 de julho de 2013

Paulo de Morais: o arauto

Este post devia ter sido escrito há dois dias. Não o foi porque coincidiu com a recta final da escrita de um projecto da FCT, cujo prazo de submissão, termina hoje. Passei o fim de semana a terminá-lo e submeti-o ontem, 24 horas antes do fim do prazo.

Adiante, no sábado fui à apresentação do livro de Paulo de Morais na Centésima Página. Já li o livro “Da corrupção à crise – Que fazer?” no sábado.  Não vou resumir o livro mas aconselho-o entusiasticamente a toda a gente para perceberem coisas, que como eu não imaginava, e para compreender melhor o estado a que chegamos. Temos vários problemas: 1) dívida pública deve-se principalmente ao desperdício, economia desestruturada, predomínio da banca sobre a política e corrupção; 2) dívida privada que se deve principalmente ao imobiliário. Paulo de Morais referiu que o urbanismo é uma máfia semelhante ao tráfico de droga, com a diferença que no tráfico de droga apreende-se a droga, mas no urbanismo não há nenhuma apreensão de prédios. Alguns, segundo Paulo de Morais, até recebem medalhas no 10 de Junho. O imobiliário é a verdadeira bola de neve que não tem fim. A venda de apartamentos foi sobrevalorizada. Hoje as casas valem menos 40%. Existem 2 milhões de casas vazias em Portugal: 500000 de ocupação sazonal (Algarve) e as restantes pertencem a fundos de investimento, imobiliário fechado, têm isenção de IMI e IMT e não são colocadas no mercado porque se assim fosse as rendas no mercado baixariam. 

Agora prestem atenção a este escândalo para perceberem como chegamos até aqui. Durante anos, o que se passou com o imobiliário e as relações promiscuas entre banqueiros, câmaras e promotores imobiliários foi o seguinte: um promotor imobiliário comprava um terreno agrícola por 100, ia a uma câmara e transformava esse terreno agrícola em terreno com grande capacidade de construção. Depois ia a um gabinete de engenheiros e arquitectos e mandava fazer um projecto. Saía de lá com um power point, ia ao BPN e um terreno que tinha custado 100, por via da valorização da câmara, passava a valer 1000. O projecto passa a valer 4000 e pedem um empréstimo sobre o projecto. E o que deixavam lá de garantia? O terreno que valia 100!!!! É destas vigarices que o BPN está cheio. Projectos financiados que nunca passaram do power point!

Um dos exemplos que Paulo de Morais deu, recuando aos tempos dos Descobrimento, foi o de D. João II. Como conseguimos fazer os Descobrimentos?  D. João II, o Príncipe Perfeito, que introduziu o primeiro livro em Portugal e fez o Tratado de Tordesilhas, derruba a conspiração de Viseu e mata o Duque de Viseu, Duque de Bragança e Duque de Beja. Esta “guerra” contra os fidalgos, com o confisco de bens, permitiu resolver o problema da fazenda pública (vejam como vem de longe e parece crónico ou genético) e lançar os Descobrimentos.

Portugal parece estar como o Brasil, em que há meia dúzia de pessoas, a aproveitar-se do Estado e a perpetuar a riqueza à custa dos portugueses. E estes parecem ser intocáveis. 70% da nossa dívida privada deve-se a estes senhores, 15% crédito ao consumo e apenas 15% para toda a actividade do país. Estes números fazem sentido? Temos de acabar de uma vez por todas com estes promiscuidade entre a política e a banca! Este meu texto parece muito desanimador mas não é. A verdade é que as coisas podem ser mudadas e existem soluções. Fica aqui a minha sugestão para comprarem e lerem o livro de Paulo de Morais.

A outra analogia pode ser também ser feita, com o Sermão de Santo António aos Peixes (tema do post anterior): «...Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande..».

Para terminar, soubemos ontem que o Prof. Vitor Gaspar se demitiu do governo. Toda a gente bate palmas. O tempo, que ensina tudo e que é sábio, dirá se foi bom ou mau ministro. Apesar de há algum tempo o nome deste ministro estar nos remodeláveis, esta demissão surpresa, faz-me perguntar o que se passou para um homem que parecia aguentar tudo ter atirado a toalha ao chão. Para os entusiastas, que tanto acreditavam que a saída de Gaspar seria a solução de todos os nossos problemas, fica a questão se não estaremos a caminho de uma nova Grécia...



sábado, 29 de junho de 2013

Sermão de Santo António aos peixes por Diogo Infante

Ontem, depois de um dia repleto de ciência e de ideias novas, rumei ao Porto para a Biblioteca Pública, ao Jardim de São Lázaro. Jantei num daqueles restaurantes turísticos com esplanada. Nem precisei de ementa, vi no quadro riscado a giz que tinham sardinhas e foi exactamente o que pedi. Entretida com as azeitonas, que são a minha perdição, enquanto esperava pela comida, lia "A descoberta do Mundo", um livro com todas as crónicas publicadas de Clarice Lispector. Quando as sardinhas chegaram, só pelo aspecto percebi que estava perante uma avaliação semelhante ao "Ramsay's Kitchen Nightmares". Sardinhas não têm segredo, basta serem assadas em carvão e serem frescas! Aquelas não. Tudo estava errado. Vamos lá. Vinham 3 sardinhas assadas no forno (!!!), mergulhadas em azeite fervilhante, com batatas a murro mergulhadas no mesmo, pimentos e cebola crua em rodelas que pareciam imitar as dimensões de rodas de camião. Abro a primeira, a medo, e percebo o que temia. As sardinhas estavam cruas no interior e (espantem-se) congeladas!!! Como tinha 15 minutos para jantar, decidi não fazer uma cena. Porque feliz como estava, não havia sardinhas que pudessem estragar isso. Mas para continuar a avaliação, prossegui a avaliação... As batatas eram apenas cozidas com casca e o pimento era daquele de conserva!!!! Nem fixei o nome do restaurante, mas sardinhas desta qualidade envergonham uma cidade com mar!!! Adiante. Segui para a biblioteca a pensar que já estaria atrasada e percebo a longa fila, à distância. Sabem quanto tempo esperamos para entrar: 30 minutos!!! 

Mas nada, até mesmo a espera, ia fazer-me acabar mal o dia! Sentei-me, numa das poucas cadeiras livres, e a leitura começou já passava das 10 da noite, quando estava prevista para as 10:30. Diogo, surge no andar superior de fato cinzento escuro e camisa preta, com aquela voz espantosa. Sou sensível a vozes. Acho que o Diogo tem a melhor voz masculina de Portugal. Linda, linda, linda. Pelo contrário, acho a voz da Fernanda Câncio insuportável. Coitada, ela não tem culpa, mas aqueles agudos são intoleráveis. Não consigo ouvir a senhora. Pouco depois, Diogo desceu, com o seu ipad, despiu o casaco, e continuou a leitora. Que sorriso lindo o dele! Está ligeiramente mais gordo, grisalho, mas acho que ainda melhor! A idade só lhe faz bem!

Este "Sermão de Santo António aos Peixes", de 1654, escrito pelo Padre António Vieira não podia ser mais actual. Critica a prepotência dos grandes que, como peixes, vivem do sacrifício de muitos pequenos, os quais "engolem" e "devoram". É um texto que foi dito em São Luís do Maranhão, repleto de ironia, e agudo senso de observação sobre os vícios e vaidades do Homem, comparando-o através de alegorias, aos peixes. Vos estis sal terrae (Vós sois o sal da terra). Diogo a exaltar-se em latim fica ainda melhor. O efeito do sal é impedir a corrupção: «...Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites(...) Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam(...) Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os Brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer. Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os oficiais dos órfãos e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-a a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra. Já se os homens se comeram somente depois de mortos, parece que era menos horror e menos matéria de sentimento. Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós(...) Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido(...) Antes, porém, que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande..».


Um texto de 1654 que não perdeu a actualidade. O Brasil, país onde foi pregada pela primeira vez, luta nas ruas contra a corrupção. Nós, por aqui, lutamos por uma sociedade mais justa e esperamos, pelo menos, que a lei do enriquecimento ilícito, contra a vontade dos que nos representam, seja aprovada!



quarta-feira, 26 de junho de 2013

Oliver Smithies: a curiosidade que não acaba

Oliver Smithies é um dos galardoados com o prémio Nobel em Medicina, 2007 e que veio dar uma palestra à Universidade do Minho na passada sexta-feira e ontem participou numa conferência com outros laureados na Culturgest. Assistir a uma palestra de um prémio Nobel nunca pode ser decepcionante. Todas as que vi não foram e esta também não. Este cientista de 88 anos só o aparenta porque as pernas são o seu elo mais fraco. Fala com o entusiasmo de um jovem. Prende a atenção dos que o assistem. Conta histórias da infância, da terra onde nasceu, cativa a audiência. Mostra fotos dos originais dos seus 150 cadernos, onde até hoje, continua a escrever. Considera-se um cientista de bancada e não um administrador. Os olhos ainda brilham a falar de ciência. Diz que é muito importante tirar bons apontamentos e escrever o mais possível de pormenores. Confessa que não almoça. Mas diz que dormir é muito importante. Muitos dos dias que passa no laboratório são aos fins de semana. Achei impressionante uma pessoa que tem a juventude mental de um jovem cientista aos 88 anos. Questiona-se com as mesmas coisas e continua a achar que devemos fazer o que gostamos. Terminou a dizer que a curiosidade dele nunca acaba.



segunda-feira, 24 de junho de 2013

125 anos de Fernando Pessoa

Sempre que posso tento conhecer lugares, casas, cafés que foram frequentados por génios. Fico ali quieta a olhar. Perco-me no tempo. Não dou por ele passar. Fico a imaginar que ali, há alguma coisa especial, uma luz, uma paisagem, uma inspiração divina para o resultado que nunca morre. Ser eterno é isto. É permanecer para além da morte. Influenciada pelo 125º aniversário de Fernando Pessoa, fui conhecer a casa dele em Campo de Ourique. Sábado, uma tarde maravilhosa, com aquela luz que só Lisboa tem, acreditam que a biblioteca estava fechada? Resposta de uma funcionária: “Hoje é sábado, está fechada”. Com um ar que queria ter dito: “com este tempo vem esta gente para aqui chatear quando deviam estar na praia!”. Não seria suposto uma casa destas ter a biblioteca aberta ao fim de semana, quando o comum dos mortais só a pode visitar nestes dias, porque nos restantes trabalha? A coisa começou imediatamente mal. Mas bastou-me subir ao primeiro andar e ver (mesmo só da porta de vidro fechada) o famoso quadro de Fernando Pessoa pintado pelo Almada Negreiros, que esqueci imediatamente tudo. Deixei-me impregnar pelo ambiente. Entrei no quarto completamente escuro do Pessoa. Ali estava a cama se solteiro, a cómoda e alguns manuscritos. Sentei-me na cama, não sei se era suposto. E fiquei ali a olhar, não sei quanto tempo, sozinha. Via apenas símbolos do Zodíaco e que dali, daquele pequeno quarto tinham saído alguns dos melhores poemas. Saio, vejo a máquina de escrever, vejo o diploma da escola onde nasceu e estudou, em Durban. Subo ao 3º andar, o Sonhatório. Quase tudo ali é interactivo. Podem ouvir-se poemas ditos por artistas portugueses e brasileiros. Pode ver-se pormenores da vida de Fernando Pessoa. Numa das salas estão expostos alguns dos objectos pessoais de Pessoa:  os tão famosos óculos, um caderno de apontamentos, um isqueiro de prata. Mas o barulho de uns espanhóis estridentes tiraram-me a concentração. Nem o meu olhar reprovador os fez desistir. Parecia que estávamos no circo. Detesto este tipo de pessoas que não tem qualquer tipo de sensibilidade e só visitam os sítios para poderem dizer aos amigos que estiveram lá.








 Continuei pelas ruas de Campo de Ourique, fui até aos Prazeres e sentei-me no regresso na esplanada da Canas.Vi passar várias vezes o eléctrico 28, do qual tenho um desenho original numa das paredes de casa e um no frigorífico. Muitas pessoas escaldadas do sol, provavelmente vindas da praia, duas senhoras velhotas a comer amendoins e a beber imperiais. Há melhor? Levanto-me em direcção à Estrela e não resisto a entrar no eléctrico. Não há melhor! O percurso é lindo.  O eléctrico vai até ao Martim Moniz mas eu fico pelo Chiado. Olho para o nosso poeta maior. Sigo para a Bertrand. Depois para a Fnac, onde comprei quatro livros do “Nandinho”, como lhe chama a Maria Bethânia.  Regresso ao largo Camões, onde num dos quiosques peço uma ginginha. Mas é tão bem servida que se continuo a bebê-la sem comer nada fico logo ali. Entro num café que faz esquina com a Rua da Misericórdia e peço um pastel de bacalhau. Todos me perguntam o que tenho no copo! E eu respondo, simpaticamente, provavelmente já tocada pela ginginha, a todos. O pastel de bacalhau é medonho mas serve o objectivo. Acabo a ginginha, agradeço amavelmente a todos os que me fizeram companhia no balcão e a quem me serviu. Saio e é tempo de meter-me num táxi que me levará a Entrecampos onde jantei tão bem no Sakura.





terça-feira, 18 de junho de 2013

Os professores

Fiz todos os meus estudos até à universidade num colégio privado. Hoje não vou debruçar-me sobre as vantagens e desvantagens. Tive sempre a mesma professora na primária, desde a 1ª até à 4ª classe. Os métodos dela, para a época (anos 80) e para a idade que ela tinha (entre os 20 e muitos e os 30 e poucos), eram muito severos. Usava o castigo físico em demasia, ora as orelhas, ora as reguadas com uma régua de madeira, até à moderna (lançamento inovador na altura)  régua de plástico flexível que nunca partia. A violência física era transversal, nem os bons alunos escapavam. Ninguém estava a salvo. Gostava de encontrá-la para lhe perguntar se ainda continua com estes métodos pouco ortodoxos. Tirando este pormenor (o adjectivo fica ao critério de cada um) era uma excelente professora no que respeita ao método de ensino. Nessa altura decoramos o poema, que sei de cor até hoje:

“Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.

Será chuva? Será gente?

Gente não é, certamente

e a chuva não bate assim”(...)


Adiante, depois no ciclo tive outros professores que me marcaram positivamente. Uma professora de Português que nos incentivava a ler fora das aulas e a anotar as palavras num caderno. Os significados eram adicionados com recurso a um dicionário. Até hoje uso um dicionário. Desde a primária que nunca dei muitos erros, mas sem dúvida, este método ajudou imenso. Foi também com esta professora que eu descobri o gosto da leitura. Tivemos outra, que os meus amigos que andaram no colégio se recordam, que nos obrigava a fazer cópias em cadernos de duas linhas para termos a letra bonita!
A Matemática, acho que no 8º ano, tivemos um professor que era Capitão do Exército. Era super engraçado. Corria toda a gente com negativas mas era muito boa pessoa. E tinha por hábito destruir os livros de ponto e sujar a roupa toda com giz. Quando fazíamos barulho pegava no livro de ponto, batia com ele em cima da secretária e gritava: “Calou, porra!”.
Mais tarde, tivemos um professor, também de português que era padre e Professor na Católica. Adorava latim e Gil Vicente. Até hoje detesto essa língua morta e Gil Vicente. Contudo, adorava o “Principezinho” que analisamos até à exaustão. Nessa altura achei o livro muito desinteressante. Anos depois, reli-o várias vezes e sei trechos de cor. Este professor proibia-nos de ler os cantos dos Lusíadas referentes à Ilha dos Amores. Contudo, digo até hoje o primeiro canto: “As armas e os barões assinados/ que da ocidental praia lusitana/ por mares nunca dantes navegados...”. E o “Mar Português” de Fernado Pessoa é outro dos exemplos que decorei nessas aulas e que sei até hoje.

O Padre Fernandes foi quem mais nos incentivou à leitura em voz alta nas aulas. Quase que só fazíamos isso. Lembro-me do dia que morreu Miguel Torga, foi como se lhe tivesse morrido uma uma pessoa da família. Adora Eugénio de Andrade. E tinha a maior biblioteca que alguma vez conheci. Andava sempre com livros e todos eles dobrados e com pequenos papelinhos a fazer marcações.

Ontem, no dia em que os professores fizeram greve, que é um direito que lhes assiste, lembrei-me destes meus mestres. Eu lembro-me nitidamente que os meus amigos que andavam nas escolas públicas, os professores faltavam muitas vezes. Naquele tempo invejávamos estas baldas...nós nunca as tínhamos. A verdade é que nos colégios privados não há greves. O que eu tenho a dizer é que os professores das escolas públicas foram sempre uns privilegiados ao longo dos anos, e agora, como estão a deixar de ser intocáveis usam da pior arma, não a greve, mas os alunos. Quantas horas trabalhava um professor? Como é que era avaliado? Os salários sempre subiram, não por mérito, mas por anos de serviço. Quanto tempo de férias tinham? Era férias no Natal, na Páscoa, 2 a 3 meses no verão... Claro que estão descontente s porque quem não se sente não é filho de boa gente. Mas o que queriam? Se toda a sociedade portuguesa está a ser afectada transversalmente, achavam que se mantinham intocáveis? Esse Mário Nogueira, que só fala e não diz nada, se eu fosse professora tinha vergonha de o ter como porta-voz. Que experiência de docência tem este senhor? Viveu a vida toda a receber um ordenado de professor sem sê-lo. E eu termino com o meu agradecimento profundo aos meus mestres que tanto me marcaram, tendo a certeza que a profissão de professor é tão nobre.


domingo, 16 de junho de 2013

Grande Alface

O dia começa de manhã para mim, nada habitual ao domingo. Ontem caí na cama e doía-me todos os músculos das pernas, até os que eu não sabia que tinha! Isto é o que acontece a quem não anda a pé. Acordei diversas vezes durante a noite, nada fora do habitual. E às 9 já estava acordada, antes do despertador dar o toque de alvorada às 9:30. Fui ao Museu Gulbenkian, não para ver a exposição permanente, mas para ver  a exposição da Clarice Lispector – A hora da estrela. Está nos últimos dias, e a última vez que estive cá, não coincidiram os horários. Museu cheio de famílias, turistas, crianças, novos, velhos. E hoje era de graça, coisa que eu não sabia, mas agradeci! A exposição, tal como Clarice Lispector é invulgar e sombria, escura. A primeira sala está coberta de frases da autoria dela, e fotos,  a principal delas a destacar um dos seus olhos, invulgares. A seguinte é parecida mas iluminada. A seguinte tem a transmissão de uma entrevista, dada pouco antes de morrer, e da publicação do seu último livro “A hora da Estrela”. Ali são perceptíveis as marcas deixadas na sua mão direita, provocadas pelo acidente em casa por conta de ter adormecido com um cigarro aceso. A sala dos espelhos mostra a trajectória das cidades por onde Clarice Lispector passou, desde a cidade que nasceu, na Ucrânia até ao Rio de Janeiro, onde morreu. A última sala é constituída de cima a baixo por gavetas, as quais só algumas abrem. São muitos documentos, cartas, cartões, e correspondências entre amigos, dos quais se destaca o poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto. É possível ver também  carta a pedir ao Presidente Getúlio Vargas a nacionalidade brasileira, porque apesar de o único país que conheceu como seu ter sido o Brasil, ela saíra da Ucrânia bebé de colo. As outras espectacularidades do museu são os jardins e a esplanada da cafetaria. E o clima e a luz de Lisboa são exemplares para isso.









Segui para o Cais das colunas. Se me perguntarem a minha imagem preferida de Lisboa, é sentar-me nas escadas que dão para o rio e estar ali a olhá-lo sem dar pela passagem do tempo. Quando eu conheci o Mississipi pela primeira vez em Memphis, foi uma desilusão. Eu que achava que o rio era grandioso ao estilo do Amazonas, das histórias do Tom Sawyer, quando cheguei lá apareceu-me um rio normalíssimo. Olhar o Tejo do Cais das Colunas [outra das vistas magníficas é a vista da Fundação Champalimaud] é majestoso. Na semana passada festejaram-se os 125 anos de Fernando Pessoa. Não existe poema que descreva tão bem o Tejo como este:

" O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
(...)
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá nã está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
(...)

Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América 
E a fortuna daqueles que a encontram.
(...)

Ricardo Reis



Depois, como estava próxima, fui à Fundação José Saramago. Para minha surpresa estava fechada. Pelos vistos fecha aos domingos. Para a “Presidenta” Pilar que está sempre a reclamar de tudo, era óptimo que explicasse a lógica de fechar a fundação ao domingo, quando os que trabalham durante a semana não o podem fazer... Sem querer estragar o meu dia que estava a ser perfeito, encontrei a felicidade mesmo ao lado. Almoço:caracóis, sardinhas, uma salada, uma imperial e uma coca-cola na esplanada do “Solar dos bicos”. E ainda estive a avançar a leitura da biografia da Clarice Lispector. 




A meio da tarde, para desgastar, segui pela Praça do Comércio em direcção à Rua do Alecrim, não tão íngreme como a Bica... Depois segui pela Rua da Misericórdia até ao Miradouro São Pedro de Alcântara, que juntamente com o Miradouro de Santa Catarina e a Graça,  é de tirar a respiração.  É quase de desmaiar de tão lindo! Segui até ao Príncipe Real onde me estiquei na relva. Em Braga, os jardins são para olhar e não para usar. Este não, toda a gente deitada nos jardins! E eu que só podia fazer isso em casa dos meus avós, tirei a barriga de misérias e estive ali a olhar para o céu, a ver as nuvens passar devagarinho, a ouvir as crianças a jogar à bola, os gritos das correrias, casais de namorados (as) a ler e a aproveitar o sol, esplanadas cheias, velhinhos nos bancos do jardim, a olhar as palmeiras e outras árvores que não sei o nome. Aproveitei para mais leitura e até ao último minuto porque queria que este dia demorasse mais a acabar.





sexta-feira, 14 de junho de 2013

O Porto

O Porto não é uma cidade que escolha ir porque gosto. Vou , como vou a tantas outras, por necessidade, ou porque tenho lá amigos queridos, porque é a cidade mais perto onde acontece determinado espectáculo. Ao contrário do que muitos dizem, que não se passa nada no Porto, a bem da verdade, passa-se muita coisa. A Casa da Música é das coisas mais activas na cidade. O ciclo de conferências sobre a América organizadas pela Anabela Mota Ribeiro e pela FLAD foram das coisas mais fantásticas que vi nos últimos tempos.  As quintas de leitura no Teatro do Campo Alegre, as apresentações na belíssima Biblioteca Almenida Garrett, perdida nos jardim do Palácio de Cristal. Não me posso esquecer de um dos que considero dos mais bem localizados museus do mundo, Serralves.
Hoje, para que os meus amigos queridos não me critiquem tanto por não considerar o Porto, nem de longe nem de perto, uma das minhas cidades, só vou dizer bem!
Na mesma semana fui duas vezes ao Porto. Coisa rara. E para quem diz que no norte, e principalmente no Porto as pessoas são todas simpáticas, enganem-se. Um dos restaurantes classificado como TOP 10 em Francesinhas, mesmo em frente ao Coliseu, chamado Santiago, por favor!!! Fica aqui o aviso. As francesinhas são boas, mas o atendimento!!! Não de todos, mas unicamente uma senhora que parecia saída da cadeia de Custóias: cabelo oxigenado, os braços cobertos de tatuagens, t-shirt 2 números abaixo do que devia, gestos rudes, voz alta e a parecer que estava a fazer-nos um favor.
Continuo a achar que a degradação de muitas ruas do Porto, que noutras cidades até parecem pitorescas, nesta cidade, parecem decadentes.
Mas onde eu queria chegar. O melhor restaurante do mundo (onde comi), depois de um em Philly e do Nobu em NY, foi o Gòshó.

A outra sugestão foi-me dada por pessoas diferentes. Uma disse-me que era em frente à Padaria Ribeiro, outra que era em frente a uma leitaria. Como eu não reconheço nada, achava que eram restaurantes diferentes. Era o mesmo, o magnífico Kyoto na baixa. As reservas todas completas a uma sexta à noite, mas um ambiente cool, despretensioso. Adorei!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

Dia cinzento e frio, a fazer lembrar um dia de inverno, apesar de estarmos a dias do verão... Depois das obras de instalação do gás canalizado na semana passada, hoje foi o dia de terminar as arrumações e limpezas. Eis os despojos das obras!

Passei o dia em casa, vi esporadicamente as comemorações do dia de Portugal. Hoje e sempre, neste dia, tenho orgulho em ser portuguesa. Apesar da crise, do desânimo, do desemprego, do mau momento, Portugal tem como o seu dia, o dia de um poeta. O dia em que morreu Camões é o dia de Camões, dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas no dia todo. Isso não é fantástico? Ao contrário de muitos países, o dia de Portugal, não é o dia de um rei, de um descobridor, de um presidente, de um ditador, ou de um cantor... É o dia de um poeta! Dez de Junho. É fascinante.



domingo, 9 de junho de 2013

Maria Bethânia e as palavras

Entrou no palco ao som de um batuque, com um sorriso aberto e fez logo uma vénia ao público. Maria Betânia, vestida com um casaco branco comprido e umas calças pretas que lhe cobriam parcialmente os pés nus. O mesmo colar de todas as apresentações e pulseiras múltiplas no punho esquerdo compunham o elegante figurino. Um palco minimalista sem adereços composto apenas por Bethânia, Paulo Dafilin na(s) viola(s) e Carlos César na percurssão. 
Uma sala tão bonita, pequena e aconchegante como é o Teatro S. João foi a sala perfeita para um espectáculo como este. Um público que me fez cada vez mais ter orgulho de ser portuguesa. Um espectáculo que foi sobretudo delicadeza, emoção, silêncios e a voz de Maria Bethânia a encher o teatro. Fiquei na terceira fila, tão perto do palco que dava para ver os cabelos cairem quando mexia no cabelo. Maria Bethânia a cantar é de arrepiar. Mas só a voz, sem o auxílio de nenhum instrumento é o dom dela. A voz poderosa e grave que parece não precisar de microfone. Mas Bethânia a ler é impossível de explicar. Ninguém diz poesia como Bethânia. O ritmo, a cadência, o tom, a encenação. Uma expressão dramática espectacular e gestos fortes. Uma cantora que escreve todos os dias e adora caderninhos. Tão delicada, tão educada, tão cerimoniosa, que não se cansou de repetir “Obrigada senhores”. Leu poemas de Carlos Drummond de Andrade, Sophia, Fernando Pessoa e heterónimos, Mário de Andrade, Vinícius de Moraes,Guimarães Rosa, António Ramos Rosa e muitos poetas populares brasileiros. Cantou Caetano, Amália, entre outros.
Maria Bethânia disse: “Criei esta leitura e escolhi textos que ao longo da minha vida tenho dito nos meus espectáculos de cantora. Alguns dos senhores que estão aqui hoje já me viram em cena onde ouso e gosto, também, de me expressar através da palavra falada. Eu gosto de falar, gosto de emprestar a minha voz à minha vida, às histórias, personagens, aos sentimentos que os autores nos revelam. Eu sei que ler, ouvir, dizer poesia, hoje, nesse tempo, nessa correria, nesse desapego, é um desafio. Mas essa ideia me comove e me atrai(...). Eu fiz essa leitura em vários lugares, sempre recebendo escolas com seus professores e alunos ou indo até eles, o que para mim, é uma grande honra. Eu fiz recentemente essa leitura na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa. Eu li poesia na casado meu poeta. Poeta da minha vida, fonte para a minha sede, poeta que sustenta a minha respiração, o ritmo desassossegado do meu coração.
Cantou trechos do poema “Ciclos”, um poema de Nestor de Oliveira, que foi professor de português dela e de Caetano Veloso numa escola pública do Recôncavo baiano. “Eu me emociono muito, porque, além da didáctica, aprendia-se a ler, a ouvir, a dizer poesia. Caetano Veloso, também seu aluno, foi quem musicou esses versos lindos. E eu falo disso só para lembrar que é possível, sim, ter uma educação boa e plena nas escolas públicas do Brasil”, falou.
Noutra das suas confidências declarou: “Felizmente, podemos ver o extraordinário trabalho de professores que vencem todas as dificuldades, ultrapassam seus limites e dedicam suas vidas, e com grande prazer conseguem cumprir tarefa tão nobre: educar. Eu fui aluna de escola pública. Eu, Maricotinha, recebi a comenda Ordem do desassossego (conferida pela Casa Fernando Pessoa) em reconhecimento aos maiores divulgadores da obra de Fernando Pessoa.
Depois de longas palmas e com o público de pé, Maria Bethânia regressou ao palco: “Leitura não tem bis mas eu estou tão feliz que vou improvisar”.



segunda-feira, 3 de junho de 2013

The great Gatsby

Como dizia a Clara Ferreira Alves há uns tempos quando foram seleccionados os 100 mais importantes livros de todos os tempos, um dos que ela escolheu foi The great Gastby: “Não é possível passar pela vida sem ler este livro. A obra-prima se Scott Fitzgerald é uma apresentação original ao Sonho Americano. Jay Gatsby veio dos nada e fez-se multimilionário escondendo as origens judias e os negócios sombrios. Veio do nada para reconquistar uma mulher que tinha classe, dinheiro, pedigree. E um marido das universidade Ivy League, de Wall Street e do egoísmo sem barreiras. Daisy e Tom Buchanan ostentam o narcisismo patológico dos que nunca tiveram de lutar. Na mansão do lado social errado, Gatsby avista a luzinha verda da casa de Daisy. Essa luz é o que o faz viver. Nick Carraway, o observador do drama, narra o very unhappy end. Scott Fitzgerald escreve como um diabo, ou seja, imoralmente bem”.


Em Cannes, este filme foi escolhido para abrir o festival mas a recepção da imprensa foi de um silêncio sepucral -nem aplausos nem vaias, apenas desprezo. Cannes, talvez como o Festival de Veneza, é a grande montra dos bons filmes e dos grandes realizadores, geralmente que não são sucessos de bilheteira. Tinha que ir ver The great Gastby, o filme. Sabia antes de entrar que iria ser uma desilusão. Posso estar a ser preconceituosa, mas um realizador que escolhe para a banda sonora de um filme, adaptado de um grande livro, o rapper Jay-Z, não combina. Mas queria perceber como aquele público que não deveria saber, na sua maioria, que se tratava de uma das obras primas da literatura americana, estava ali a esgotar a sala. Queria perceber qual o segredo de transformar o livro do F. Scott Fitgerald, que não é um best-seller, mas que foi já várias vezes transformado em filme, ser desta vez um blockbuster. Saí da sala a dizer que se as pessoas não lêem, pelo menos a maioria dos portugueses, mesmo os (as) mais letrados (as), que assistam à forma mais fácil, neste caso, um filme. E se esta é a fórmula de dar a conhecer uma das mais magníficas obras da literatura americana do séc XX, nada há de errado nisso. Provavelmente, estas pessoas que não leram o livro iriam achá-lo uma seca, mas à boa moda de Hollyood, as descrições e os diálogos primorosos, conseguem transformar-se em fogo de artifício visual. 

A comparação do livro com este filme faz lembrar-me de uma história que se passou comigo no Metropolitan Museum. Estava eu a sair do museu, a uma sexta ao fim da tarde onde ia muitas vezes. Nesse dia levava vestida uma t-shirt com a capa do livro The great Gastby que também tinha escrito o nome do autor, F. Scott Fitzgerald. Um segurança para-me e diz-me: “Great t-shirt”. E eu fiquei logo toda emocionada a achar q era um grande elogio, um ameicano a elogiar uma t-shirt de um dos mais espectaculares livros do seu país. Quando ele acrescenta “I´m Scott too”. E pronto! Toda a minha emoção acabou ali. Ele nem sabia quem era o Scott Fitzgerald, quanto mais o que era o The great Gatsby. Para o bem e para o mal, acho que agora já saberá...


quarta-feira, 29 de maio de 2013

Co-adopção

Há uns tempos lia que muita gente achava a Isabel Moreira uma histérica, principalmente por causa do célebre debate sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, onde acharam que o tom e voz foram excessivos. Na minha opinião, com uma bancada do contra, como aquela, quem não perderia a pose? Mas de facto, não detesto a voz da Isabel Moreira. A voz que eu detesto é a da Fernanda Câncio. A senhora até pode falar muito bem, escrever muito bem, ter muitos conhecimentos e achar que sabe, mas aquela voz e aquela pose que só lhe falta a mão na cintura, fazem-me apetecer mudar de canal. Eu não aguento ouvi-la muito tempo, principalmente quando o tom aumenta.

O discurso do Marinho Pinto foi ridículo e inacreditável. Se eu não tivesse visto com  os meus próprios olhos, provavelmente acharia que estariam a exagerar. A única coisa que durante todo o programa concordei inteiramente foram os elogios que fez aos pais da Isabel Moreira [Adriano Moreira e Mónica Mayer]. Este homem não parece deste tempo! Este senhor não se pode esquecer que ali não era apenas o Dr. Marinho Pinto mas o mais alto representante dos advogados. E convenhamos que ficou muito mal na fotografia. O auge do ridículo foi quando perguntou a um dos casais de mulheres presentes na plateia: “Tem o direito a esconder um pai às suas filhas?. O Dr. Marinho Pinho sabe que os casais inférteis podem recorrer à fertilização in vitro com um espermatozóide de dador desconhecido?
Claro que todos sabemos e concordamos que uma criança é fruto da fecundação de um óvulo com um espermatozóide  Mas não é isso que está em causa, mas o de garantir direitos a quem não os tem. Esta coisa de podermos opinar em causas alheias é muito bonito e prático. Mas de facto, nós desconhecemos [ou eu pelo menos, falo por mim] o que é criar um(a) filho(a) como tal e ter a remota possibilidade de no futuro não ter qualquer direito sobre ele(a). E encheu-me de orgulho, os partidos mais à direita terem dado liberdade de voto aos deputados que puderam votar em consciência.

Para não falar do discurso pouco científico do  Luís Villas Boas, do Refúgio Aboim Ascensão, e que segundo li é psicólogo. O senhor, com as suas opiniões infundadas, parecia estar preocupado que as instituições como a que dirige ficassem sem crianças e que isso não lhe garantisse emprego no futuro. As crianças precisam de um pai e de uma mãe?! Então as que são criadas parte da vida em instituições como as que dirige? E os filhos de pais que morrem e são criados por apenas um deles ou por família? E aqueles por qualquer outro motivo nunca viveram com os pais? E já agora, se a homossexualidade “se pega”, provavelmente por osmose ou por convívio, de onde “aparecem” tantos homossexuais, na sua maioria criados por um pai e uma mãe heterossexuais?   

A Isabel Moreira, que eu não conheço pessoalmente, mas conheço o que escreve e o que defende, teve uma paciência acima da média a tentar explicar o quão discutível é opinião de quem é contra a lei da co-adopção. Foi clara, aliás, claríssima e deu os exemplos mais concretos de quem esta lei vai conseguir proteger. O Paulo Corte-Real, com a voz linda que tem, é sempre um gosto ouvir.
Aquele pai todo beto que ao defender a sua família com 3 filhos biológicos e 1 adoptado que dizia que este último classificou como uma “estupidez” esta lei. Coitadinho do menino, formatado por estes pais, como poderia ele ter outra opinião? Já está no bom caminho...

Então a queque da advogada que falou contra a lei...pelo amor de Deus!!! Aquela miúda, que não deveria ter mais idade do que eu, se eu fechasse os olhos, teria pensado que era alguém da geração dos meus avós de uma terra algures perdida no interior do nosso país!!!

Para quem não tenha ninguém na família ou amigos que estão confrontados com o problema que esta lei pode salvaguardar, aconselho a leitura do “Expresso” desta semana. Vejam lá exemplos concretos de pais e mães que dois a dois ou duas a duas vão ser tão bons pais ou melhores que muitos casais heterossexuais. Questionem-se sobre a possibilidade de uma criança programada por um casal do mesmo sexo mas que apenas um dos progenitores é pai ou mãe, o que acontecerá caso a essa pessoa morra? Quem teve a infeliz experiência de saber a demora do funcionamento dos Tribunais de família e menores deste país sabe o tempo que que leva a ser tomada qualquer decisão. Todos os pareceres, avaliações e decisões são demorados e ninguém se preocupa o quanto isso poderá afectar negativamente uma criança. Querem convencer-me de como e com quem ficaria essa criança enquanto esperava os resultados de todos os pareceres e avaliações até à decisão final? Esta lei defenderá que pais e mães tenham os deveres jurídicos que devem exercer em relação a crianças que já são os seus filhos , mas que estão terrivelmente desprotegidos, só isso. Há algum mal? Prejudica alguém?

terça-feira, 28 de maio de 2013

Fim de semana

O fim de semana começa com todos a comermos dieta por causa do meu sobrinho mais velho que estava com uma gastroentrite. Quando a comida é igual para todos torna-se mais difícil dizer que não se quer comer. Já medicado não manifestou qualquer dos sintomas durante o dia o que parecia indicar que estava a melhorar. À tarde fui às compras com o meu afilhado (sobrinho mais novo). Passados 5 minutos de chegarmos ao supermercado já estava a dizer que estava cansado... tempo de despachar e sair. Mal sai fora do supermercado faz logo a observação que estão estacionados 2 carros iguais aos do avô V. Aliás, teve a esperança que um deles lhe pertencesse. Sabia que só veria os avós V. e A. Porque tinham ido a um casamento. À hora de jantar estava sempre a perguntar quantas pessoas eram, e se levavam carros (ele adora pedir as chaves do carro a toda a gente). Chegado o padrinho do K., “cravou-o logo, para jogar a umas cartas improvisadas enquanto o K. dava uma lição de “Cars 2” à G. Esteve a ensinar-lhe os nomes de todos os carros!!!! Quando chegou o L., para além dos chocolates que lhes dá sempre, mas que desta vez não puderam comer, ainda foi “cravado” para uma observação médica aos dois pimpolhos. Aparentemente estavam os dois bem. Felizmente, quando foram para a cama, por volta das 10, o jantar ainda não tinha chegado à sobremesa e por isso não viram os bolos. Noite muito bem passada, com muita conversa, muitas histórias, muitos risos, muitos ditados e muitas gargalhadas. No dia seguinte às às 8 da manhã ouvi ao longe a criançada a tomar o pequeno-almoço com o pai. Mais tarde, pouco passava das 10, ouço o telefone a tocar e o mestre dos atendimentos do telefone, o meu afilhado foi desempenhar a sua função. Era o avô V. a perguntar-lhe se queria ir a VV e ele disse que sim mas que antes queria falar com a avó A. Depois do almoço foi dormir a sesta e quis que fosse com ele para lhe cantar a canção do “Cuco” “para toda a gente”. À noite soube que os dois tinham escarlatina, típico das crianças, e que eu só conhecia a palavra da “Ciranda de bailarina” do Chico Buarque. Pouco depois opiniões médicas asseguravam-me que não era nada de grave.

Ciranda de bailarina
Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Verruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem

Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem

Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
Ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem (...)

Chico Buarque


No domingo à noite comecei a sentir-me esquisita. De noite tive febre, acordei com febre. Não podia ser escarlatina porque infecta principalmente crianças e não tinha nenhum dos sintomas. Fui ao médico e diagnosticou-me infecção vírica... que é um nome para quase tudo. Assegurou-me que hoje estaria melhor com a medicação que me deu... Mas não... as dores de garganta com que hoje acordei eram muito piores e a febre não tinha desaparecido... como se não bastasse, caiu-me um dente... felizmente não é nenhum da frente! E só consegui consulta para quinta. 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Jolie’s Disclosure of Preventive Mastectomy Highlights Dilemma

«One of the defining moments in the history of breast cancer occurred in 1974 when the first lady, Betty Ford, spoke openly about her mastectomy, lifting a veil of secrecy from the disease and ushering in a new era of breast cancer awareness.
Now four decades later, another leading lady — the actress Angelina Jolie — has focused public attention on breast cancer again, but this time with an even bolder message: A woman at genetic risk should feel empowered to remove both breasts as a way to prevent the disease. Ms. Jolie revealed on Tuesday that because she carries a cancer-causing mutation, she has had a double mastectomy.
“She’s the biggest name of all, and I think given her prominence and her visibility not only as a famous person but also a beautiful actress, it’s going to carry a lot of weight for women,” said Barron H. Lerner, a medical historian and the author of “The Breast Cancer Wars.”
Breast cancer experts and advocates applauded the manner in which Ms. Jolie explored her options and made informed decisions, saying it might influence some women with strong family histories of breast cancer to get genetic tests.
But some doctors also expressed worry that her disclosure could be misinterpreted by other women, fueling the trend toward mastectomies that are not medically necessary for many early-stage breast cancers. In recent years, doctors have reported a virtual epidemic of preventive mastectomies among women who have cancer in one breast and decide to remove the healthy one as well, even though they do not have genetic mutations that increase their risk and their odds of a second breast cancer are very low.
Ms. Jolie wrote on the Op-Ed page of The New York Times that she had tested positive for a genetic mutation known as BRCA1, which left her with an exceedingly high risk for developing breast and ovarian cancer. Her mother died at 56 after nearly a decade with cancer, though Ms. Jolie did not specify which type. After genetic counseling, Ms. Jolie opted to have both breasts removed and to undergo reconstructive surgery.
Ms. Jolie, 37, who declined to be interviewed for this article, was treated at the Pink Lotus Breast Center in Beverly Hills, Calif., a clinic opened in 2009 by Dr. Kristi Funk, identified on its Web site as a former director of patient education at the breast center at Cedars-Sinai Medical Center in Los Angeles.
Her condition is rare. Mutations in BRCA1 and another gene called BRCA2 are estimated to cause only 5 percent to 10 percent of breast cancers and 10 percent to 15 percent of ovarian cancers among white women in the United States. The mutations are found in other racial and ethnic groups as well, but it is not known how common they are.
About 30 percent of women who are found to have BRCA mutations choose preventive mastectomies, said Dr. Kenneth Offit, chief of clinical genetics at Memorial Sloan-Kettering Cancer Center in New York. Those who have seen family members die young from the disease are most likely to opt for the surgery.
“It’s important to make it clear that a BRCA mutation is a special, high-risk situation,” said Dr. Monica Morrow, chief of the breast service at Sloan-Kettering. For women at very high risk, preventive mastectomy makes sense, but few women fall into that category, she said.
For women’s health advocates, the trend toward double mastectomies in women who do not have mutations is frustrating. Studies in the 1970s and 1980s proved that for many patients, lumpectomy was as safe as mastectomy, and the findings were seen as a victory for women.
Even so, there is increasing demand for mastectomy. Dr. Morrow says that she has often tried to talk patients out of it without success. Some imagine their risk of new or recurring cancer to be far higher than it really is. Others think that their breasts will match up better if both are removed and reconstructed.
Ms. Jolie’s decision highlights the painful dilemma facing women with BRCA mutations.
“She is a special case, and you can completely understand why she did it,” said Dr. Susan Love, the author of a best-seller, “Dr. Susan Love’s Breast Book,” and a breast surgeon. “But what I hope that people realize is that we really don’t have good prevention for breast cancer. When you have to cut off normal body parts to prevent a disease, that’s really pretty barbaric when you think about it.”
Women who carry BRCA mutations have, on average, about a 65 percent risk of eventually developing breast cancer, as opposed to a risk of about 12 percent for most women. For some mutation carriers, the risk may be higher; Ms. Jolie wrote that the estimate for her was 87 percent.
Because the BRCA mutations are rare and the test expensive — about $3,000 — it is not recommended for most women.
But for women with breast cancer who do have mutations, knowing their status can help them make further treatment decisions, like whether to have an unaffected breast or their ovaries removed.
Women who should consider testing are those who have breast cancer before age 50, a family history of both breast and ovarian cancer, or many close relatives with breast cancer, especially if it developed before age 50. Any woman with ovarian cancer should consider being tested, as should Ashkenazi Jewish women with breast or ovarian cancer. Men with breast cancer and their families should also ask about the possibility of a genetic predisposition to the disease.
Because the cancer risks for carriers are so high, women with the mutations are often advised to have their breasts and ovaries removed as a preventive measure. It is generally considered safe to wait long enough to have children before having the ovaries removed, but the operation should be done by age 40, said Dr. Susan M. Domchek, an expert on cancer genetics at the University of Pennsylvania and the executive director of its Basser Research Center, which specializes in BRCA mutations. There is no reliable way to screen for ovarian cancer, and most cases are detected at a relatively late stage, when the disease is harder to treat and more likely to be fatal.
Ms. Jolie said that she herself had a 50 percent risk of ovarian cancer. “I started with the breasts, as my risk of breast cancer is higher than my risk of ovarian cancer, and the surgery is more complex,” she wrote.
Removing the breasts is not the only option, Dr. Domchek said. Some women with BRCA mutations choose close monitoring with mammograms and M.R.I. scans once a year, staggered so that they have one scan or the other every six months. Those tests offer a chance to find cancer early.
For some women, certain drugs can lower the risk of breast cancer, but not as much aspreventive mastectomy.
It is also possible for women who are mutation carriers to avoid passing the gene to their children, by undergoing in vitro fertilization and having embryos screened for BRCA genes. Then, only embryos free of mutations can be implanted.
Ms. Jolie’s celebrity and her roles as a mother of six and a movie star who plays strong women, including the swashbuckling archaeologist Lara Croft, may give her decision far-reaching impact.
Dr. Isabelle Bedrosian, a surgical oncologist at M. D. Anderson Cancer Center in Houston, has been a vocal critic of the trend toward double mastectomy among women who are not at high genetic risk. However, she hopes the decision by Ms. Jolie will focus women on the value of genetic counseling and making informed decisions.
“I think there is an important upside to the story, and that is that women will hopefully be more curious about their family history,” Dr. Bedrosian said. “We need to be careful that one message does not apply to all. Angelina’s situation is very unique. People should not be quick to say ‘I should do like she did,’ because you may not be like her.”».

In "The New York Times", May 14, 2013 

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