segunda-feira, 29 de julho de 2013

José e Pilar

Há muitos anos, antes de Saramago receber o Nobel, fui assistir a uma conversa dele. Já era um escritor consagrado mas eu não conhecia muito bem a obra dele. Lembro-me que nesse dia a minha opinião sobre ele mudou totalmente. Eu que achava Saramago austero, antipático, parco em palavras e até um pouco bruto, naquele dia, surpreendeu-me. Um homem delicado, atencioso, apesar das imensas filas. Nesse dia, se tinha muitas dúvidas sobre o comunismo, terminaram todas ali. Saramago, comunista convicto, usava uma gravata Pierre Cardin. Afinal, até os comunistas são capitalistas!

Muitos anos depois fui ao cinema ver “José e Pilar”. E se há retrato tão fiel de Saramago é esse. Eu que privei com Saramago meia dúzia de minutos e que ele atendera a todos os pedidos que eu lhe fizera, reconheci-o totalmente no documentário do Miguel Gonçalves Mendes. Um homem que surpreende quem não o conhece: bem-humorado, meigo, de sorriso fácil. Quem não viu o filme, é melhor não ler este texto, porque todos os “segredos” serão desvendados. Mas eu, não me canso de o ver!

Este texto esperou 3 anos para acabar de ser escrito. Nunca o achei suficientemente bom, e hoje, não é excepção. Mas acho que chegou a hora, não pode esperar mais.
O documentário começa com José e Pilar abraçados, tendo como cenário, as montanhas escuras de Lanzarote... “Se tivesse morrido aos 63 anos, antes de te conhecer... morreria muito mais velho do que quando chegar a minha hora...”. Esta declaração de amor não é linda?  Este documentário centra-se sobretudo na história de amor de José e Pilar. O dia-a-dia comum entre dois egos e personalidades extremamente fortes. O cânone e a pessoa que organiza toda a sua vida. As dedicatórias de todos os livros após ter conhecido Pilar mostram que Saramago não seria o mesmo se ela não tivesse aparecido na sua vida: “A Pilar, que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar”; “A Pilar, que não deixou que eu morresse”; “A Pilar, até ao último instante”; “A Pilar, minha casa”; “A Pilar, os dias todos”; “A Pilar, o meu Pilar” e somente “A Pilar”. Vê-se, repetidamente, cenas de carinho entre os dois, mãos dadas, abraços, ou simplesmente, a verem televisão juntos. Saramago diz também que se não tivesse conhecido Pilar tinha morrido muito mais velho.

A narrativa deste documentário segue a escrita do livro “A viagem do elefante”. Este livro, que eu comprei pouco depois de ter visto o filme no cinema, e que li em NY. Deixei-o algures numa mesa em NY. Isto sou eu: esquecer-me de tudo em todo o lado! “A viagem do elefante” (que eu chamava “A viagem do Salomãozinho”) conta a jornada verdadeira do elefante Salomão (oferecido pelo Rei D. João III ao arquiduque Maximiliano da Áustria) desde Lisboa até Viena. Este livro é uma metáfora da inutilidade da vida. Que triste fim, o de Salomão. Aquelas patas que tinham andado tanto e acabam a servir de bengaleiro. A epígrafe deste livro é linda: “Sempre chegamos ao sítio onde nos esperam”.

Vê-se a casa de Saramago em Lanzarote que tem escrito “A casa” em azulejos. Como é que Saramago escrevia? Num escritório com muita luz, com grandes janelas, mesa grande, rodeado de livros, sentado à frente de um computador, a ouvir música clássica.... Num dos momentos mais bem humorados, há uma cena em que Saramago parece estar a escrever e o que se vê depois? Saramago a jogar “Paciência”, segundo ele, para evitar o Alzheimer!!!
Mais à frente vê-se 3 jovens italianos, nervosíssimos à espera de entrevistar o seu ídolo na biblioteca em Lanzarote. Estas imagens fazem lembrar-me da descrição de Susan Sontag quando, finalmente, conheceu o seu ídolo Thomas Mann. Os jovens treinam para impressionar Saramago mas a simplicidade e simpatia deste, desarma-os.

As viagens de Saramago assemelham-se a de uma digressão de uma estrela pop. Saramago, apesar da avançada idade, não o aparenta. Fusos horários, viagens, aviões, táxis, carros, esperas de aeroportos, autocarros, ruas do mundo, hotéis, filas intermináveis de pessoas para autógrafos, conferências, leituras, apresentações, horas e horas. Tanta coisa que só de escrever cansa! Mas que Pilar insiste que para cansaço já chega os jovens que estão cansados, que andam o dia todo cansados e que já nascem cansados. Que “para descansar existe a eternidade, que é um tempo que nem nos passa pela cabeça”. E pergunta: se queriam que Saramago se sente com um cobertor a tapar as pernas e ela que fique em casa a limpar as pratas? Adoro quando Pilar diz que recusa-se a estar deprimida, ou triste, ou sem esperança: “tomamos comprimidos e vamos trabalhar, ponto! Sou a favor dos fármacos!Uma vida inteira a sofre com dores, quando agora temos fármacos?! O que faz mal é passarmos mal!”. Quando lhe perguntam numa das sessões de autógrafos se quer parar para descansar, responde: “O que ganho se parar?” Outra das cenas engraçadas é assistir ao “cochilo” de Saramago e Garcia Marquez numa apresentação no México.

No decorrer do documentário vê-se um Saramago muito doente, extremamente debilitado e magro. E o apoio incansável de Pilar e da âncora da sua família. Na homenagem de Saramago na Azinhaga, terra onde nasceu, é uma das situações em que se vê um Saramago comovido: “Se vocês não fossem tantos eu já estava a chorar. Mas vocês são tantos que eu nem chorar posso!”. A outra situação em que Saramago chora mesmo é na projecção privada de “Blindness”, onde agradece a Fernando Meirelles: “Ganhamos o dia!”.

Mas o momento em que me lembro de chorar de rir, da primeira vez no cinema, foi quando um brasileiro que estava numa fila para falar com Saramago, de tanto preparar-se, fala assim: “Saramago, me desenha um hipopótamo!” ahahahahahahah


Quando se perguntava a Saramago o que queria mais: “Tempo. Vida!”. O que pretendia Saramago com a fundação? Continuar-se!


terça-feira, 23 de julho de 2013

Ser cientista

Nunca na minha vida quis ser cientista. A coisa mais perto que quis ser, e esse sim, um sonho de criança que não foi realizado: ser médica.  Acho que nesta vida não nasci para o ser, apesar de tantas e tantas tentativas e de tanto querer. Muita gente acha que os (as) cientistas são aquele estereótipo do Professor Pardal da banda desenhada do tio Patinhas: com óculos, despenteado, mal vestido, engenhocas, sempre no mundo da lua...  Como todos os estereótipos, nada mais redutor. A verdade é que os cientistas trabalham muitas horas e, na maioria das vezes, quando estão a fazer os seus doutoramentos, não têm horas. Dizem, também, que gostam muito de beber e de drogas legais (como diz a Isabel Moreira). Há o lado magnífico e que me foi proporcionado: as viagens. Quando os nossos trabalhos eram seleccionados para apresentação oral nas conferências íamos. E isso era a recompensa do que nós achávamos a “eterna juventude”: conhecer o mundo. Até que um dia percebi que não havia cidade no mundo que valesse os anos de vida e os kgs que perdia antes das apresentações orais.

Nos últimos anos vivi entre Houston, Braga e Nova Iorque. Entre laboratórios, bancadas, batas brancas, electroforeses, PCRs, bioreactores, ratos, biotérios, salas de cirurgia, reagentes, pipetas, microscópios, células, meios, assim foi feito o meu mundo durante anos. E para quem nunca esteve num laboratório e nunca planeou uma experiência, nada mais difícil que explicar o sabor de uma descoberta!

Sou uma leitora compulsiva desde criança. Aos 3 anos queria aprender a ler e ser grande para saber ler!! Aos 3 anos já riscava paredes e caixas e portas com o meu nome e com os das pessoas que conhecia. Nunca fui uma aluna brilhante porque tinha muitos outros interesses para além do que se aprendia na escola (que no meu caso foi sempre um colégio de padres desde os 6 até entrar na Universidade!!). Desde que me lembro como gente, queria ser médica, mas aos 16 anos percebi que nunca teria as notas necessárias porque não conseguia dedicar-me em exclusivo aos estudos e muito menos deixar de ler outras coisas. Sempre achei que o pior dia da minha vida seria o da defesa do meu Doutoramento. Se não foi o pior, andou lá perto. Nunca pensei que sobrevivesse. Na primeira aula que dei, depois de doutorada, na Universidade do Algarve, eu estava muito pior do que quem me assistia. Nesse dia, para disfarçar a minha timidez, usei o meu humor judeu e expliquei (para quebrar o gelo) que eu sou um exemplo de uma pessoa que nunca foi brilhante mas que chegou onde todos podem chegar quando são brilhantes. Queria Medicina, acabei em Biologia e depois tirei o Doutoramento entre Braga (Universidade do Minho)e Houston (Rice University). Fiz um Doutoramento em Engenharia Biomédica sobre materiais para serem usados em Engenharia de Tecidos ósseos. E quando achei que esta área não podia ajudar tantas pessoas como gostaria (também dei este exemplo numa palestra que dei na Universidade do Algarve) mudei para a área cardíaca. E como sempre sonhei  viver em NY, nada melhor que juntar o excepcional dos 2 mundos: ciência no centro do mundo! No tempo que me sobra leio, vou muito a museus, gosto de andar a pé, viajo, adorava fumar mas deixei (ou estou a tentar deixar porque dizem que os viciados são para sempre)...  Escrevo muito, todos os dias, mas não ganho pelo que escrevo. Nada é ficcional, nem inspirado. Apenas resultados! “In God we trust, all the others must bring data”.


Os bolseiros da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) recebem como alunos de doutoramento 980€ (1710€ quando no estrangeiro) e como Post-docs 1495€ (2245€ quando no estrangeiro) multiplicado por 12 meses. Não recebemos qualquer subsídio, nem de férias nem de Natal. E o valor das bolsas não é actualizado há mais de 10 anos. Num país que atravessa a crise que sabemos nem me atrevo a questionar se sou uma privilegiada .. E ter uma bolsa da FCT é o que mais me enche de orgulho porque significa que a nossa candidatura foi escolhida entre centenas de outras. Escrevo principalmente artigos científicos, apresentações, projectos científicos e capítulos de livro em inglês. O português, apesar de ser a minha língua materna, é o que menos uso diariamente, só para falar.
Nunca é tarde para se aprender a gostar de um ofício!


sexta-feira, 19 de julho de 2013

Encontros imediatos

Ontem, depois de ter ido ao médico, ter ido à farmácia comprar a penicilina e ter voltado para a primeira das 3 injecções, parei na BP à ida para casa. Ultimamente tenho tido estes encontros imediatos. Parece que atraio estas pessoas. Uma pessoa que me parecia um sem-abrigo vem ter comigo a pedir-me moedas. Como sempre, quando as tenho, nunca me recuso a dar. E em vez e ir à sua vida, começa a perguntar-me: “Quem é o melhor jogador de futebol do mundo: Maradona ou Pelé?”...e eu respondi-lhe que dependia dos ponto de vista... Lá respondeu que era o Maradona e explicou-me a razão, mas não entendi metade. Depois continuou a dizer que pedia dinheiro para uns cafés e cigarros que eram os seus vícios... mas depois acrescentou que às vezes lá ia uma cervejinha. Mas droga nada! O aspecto dele era de mais de 70 mas confessou-me depois que tinha 54 anos. Parecia um velhinho, tão magrinho, nenhum dente... Eu a querer ir para casa e lá continua as perguntas: “Sabe quem é o dono de Sagres?”... “É o Sousa Cintra. Ele manda naquilo tudo”.Depois ainda me contou uma história do Bocage e do Café Nicola. Eu já tinha ligado o carro e ele já me tinha desejado muitas felicidades mas ainda me bateu no vidro. Não tive como não abrir: “Qual é o seu nome?”. Lá lhe respondi, e ele como se tivesse visto a luz: “É o nome da mãe de Nossa Senhora! Sabe quual é o meu: Manuel Joaquim. Joaquim é o pai de Nossa Senhora! Não tem um cigarrinho que me dê?”.  Respondi-lhe que não tinha, que não fumava(ou pelo menos que tentava, porque dizem que somos viciados a vida inteira).  Lá continuou com mais histórias mas deixou-me seguir o meu caminho. 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Egas Moniz

À luz dos olhos de hoje, Egas Moniz, o primeiro Nobel português, é controverso  Existem várias correntes que apoiam a retirada do Prémio Nobel. Quando lhe perguntaram se foi o que pretendia ser na vida, respondeu: «Certamente». Quanto às qualidades que mais apreciava nos médicos: »Honestidade acima de tudo. Saber. Delicadeza com os doente. Grande dose de bom humor».

Quem foi afinal Egas Moniz?
Nasceu em Avanca, Estarreja em 1874. Com pouco mais de 5 anos foi para Pardilhó para casa de um tio padre. Aos 10 anos, depois do exame da escola primária vai para o Colégio de S. Fiel, dos Jesuítas, em Castelo Branco. Passou depois para Viseu, onde esteve numa casa particular. Aos 16 anos fica sem pai. Os exames do liceu foram, mais uma vez, excelentes. Matriculou-se nos estudos preparatórios em Coimbra, que serviam ao mesmo tempo, para a carreira militar e Medicina.  Em 1894 ingressou no curso de Medicina. Nos primeiros anos do curso fica órfão de mãe. Em 1900 foi aprovado com Muito Bom, 16 valores. É aí convidado para seguir a carreira académica. Casou-se em 1901 com Elvira de Macedo Dias. O casal nunca teve filhos, o que terá sido um grande desgosto para ambos. Também neste mesmo ano, para a obtenção do grau de Doutor («a última e a maior honra a que nas Universidades pretendiam chegar os que nela estudam») escolheu como tema «A Vida Sexual I – Fisiologia.  Há apenas um século pode ver-se como  a ciência médica ainda estava atrasada: «o óvulo humano é uma célula completa, e pode sozinha gerar um feto». A Isilda Pegado, presidente da Federação Portuguesa da Defesa da Vida, que parece estar atrasada em relação ao seu tempo devia ficar impressionada com esta frase! Para ser admitido a professor escolheu como tese «A vida sexual II – Patologia» que incluem algumas questionáveis ideias de Egas Moniz: «O homem é essencialmente sexual, a mulher é essencialmente mãe. Tudo o que se afasta disto é anormal»; «Sou contra o casamento virgem da parte do homem, acho-o mesmo inexequível»; «A inversão sexual é uma doença tão digna de ser tratada como qualquer outra». O seu interesse a partir daqui foi essencialmente a neurologia, uma vez que estudara em Bordéus com um neurologista e com um psiquiatra. Refere mais tarde que: «O que sou em ciência devo-o à França e aos seus mestres».

A relação com a Universidade de Coimbra nunca foi pacífica. Egas nunca tomou posse dos cargos de lente substituto e catedrático em Coimbra. Egas arranja então consultório em Lisboa na Rua Nova do Carmo e vem a ocupar a cadeira de Clínica Neurológica da Faculdade de Medicina de Lisboa. Da sua vida política não vou aqui falar, pois o que me interessa destacar, é a sua carreira de cientista e médico. Egas considerava Coimbra demasiado pequena para a sua ambição. Além do consultório da Rua Nova do Carmo passa a dar consultas de «doenças nervosas» na Praça Luís de Camões. Alguns anos depois muda-se para a Rua do Alecrim.

Entre os seus doentes conta-se Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Pessoa desistira do Curso Superior de Letras e começara a ser autodidacta na psicopatologia. Como a avó tinha enlouquecido, Pessoa temia que lhe acontecesse o mesmo. Egas passa-o para «fins ginásticos», ao que Pessoa, quando seguiu as suas recomendações afirmou: «para cadáver só me faltava morrer». Egas pronunciou-se a respeito dos autores do Orpheu: «meninos sem talento que querem chamar para si as atenções vomitando asneiras...levem-nos para os manicómios, e metam-nos em pavilhões para dementes...». Mais tarde, Pessoa tece violentas afirmações contra Egas: «O que me indigna não é que esse parvo da ciência tenha essas opiniões...mas tenham prestígio suficiente para que a essas opiniões se dê importância». Egas fazia-se pagar muito bem. Em 1921 é eleito director do Hospital Escolar de Santa Marta.

Egas Moniz foi um cientista improvável e tardio, corroborando a afirmação: «You are never too old to be a scientist». Já tinha 51 anos quando começou a interessar-se por visualizar os vasos cerebrais. Havia a necessidade de uma técnica que permitisse a localização correcta dos tumores cerebrais. A primeira ideia foi administrar por via oral brometo de lítio (40 g deste composto que tinha 92% de bromo!!!) a doentes epilépticos e depois radiografava-se o crânio. Depois começou a testar a opacidade de diferentes sais de bromo(lítio, estrôncio, sódio e potássio) dissolvidos em água e presos numa placa de cartão que encostava ao crânio. Nesta altura começa a colaboração com  Pedro de Almeida Lima, tio dos irmãos Lobo Antunes, foi o fundador da neurocirurgia em Portugal. Esta dupla professor/aluno, com quase 30 anos a separá-los, começa a estudar a toxicidade de várias substâncias opacas aos raios X no coelho e cão, quando injectados por via subcutânea e endovenosa. Chegaram à conclusão que o brometo de estrôncio até 30% era o menos tóxico. Em 1927, com este meio de contraste, conseguiram vizualizar a circulação intracraniana de um rapaz com um tumor da glândula hipofisária. Ao que Egas reage assim: «Ontem ao alcançar o fim desejado, chorei como uma criança. Este trabalho era a minha vida». Em 1933, Egas publica na Lancet um artigo que demonstra a utilidade da angiografia com tototraste, obtida em mais de 300 doentes, os quais, podiam regressar a casa após o exame sem qualquer problema. Egas preferia os colaboradores cultos e dedicados ao estudo. A invenção da angiografia teria sido mais do que suficiente para garantir a Egas Moniz um lugar eterno na história da medicina.
Há um caso clínico, descrito com muito pormenor no livro Erro de Decartes n de António Damásio: Phineas Gage trabalhava nos caminhos-de-ferro em Vermont be sofreu um acidente com uma explosão acidental no qual uma barra de ferro de 109 cm de comprimento e 3 cm de diâmetro atravessou a sua face e saiu pelo osso frontal. Depois de ter desmaiado, Gage recuperou e foi levado para o hospital. Gage, apesar de ter sobrevivido, sofreu severas mudanças comportamentais e emocionais, embora a memória permanecesse perfeita. Gage pareceu recuperado, com a mesma inteligência, capacidade de aprendizagem mas tornou-se numa pessoa socialmente inconveniente após o acidente. Com a leucotomia pré-frontal (corte da substância branca do cérebro) com um leucótomo (cânula metálica de 11 cm de comprimento e 2 mm de diâmetro) os doentes pareciam melhorar. Ao contrário da angiografia cerebral, psicocirurgia rapidamente se expandiu, devido à ausência de terapêuticas eficazes nas doenças mentais. Calcula-se que entre 1942 e 1954 foram operados no Reino Unido cerca de 11 mil doentes e nos EUA 18600.

Em 1949, depois de 4 candidaturas, Egas Moniz é galardoado com o Prémio Nobel de Fisiologia e Medicina pela descoberta e valor terapêutico da leucotomia pré-frontal. Morreu em 1955.

A psicocirurgia continuou a ser praticada pelos nomes mais ilustres da neurocirurgia mundial até à introdução dos psicofármacos como a clorpromazina, em 1954. Claro está, que a psicocirurgia foi mal aplicada, dizia-se para controlar o comportamento de presos e delinquentes ou para mudar orientações sexuais. As críticas continuam até hoje como a história trágica de Rosemary Kennedy ou da irmã de Tennessee Williams à peça  “Voando sobre um ninho de cucos” filmado por Milos Forman. Depois de votada à clandestinidade durante anos, a psicocirurgia está praticamente confinada à doença obsessiva-compulsiva e a estados de ansiedade refractários a qualquer outra terapêutica.

Fonte: Egas Moniz - Uma biografia de João Lobo Antunes


sexta-feira, 12 de julho de 2013

Os meus sobrinhos comem a pasta de dentes

Quem me conhece bem sabe que eu tenho um problema grave de ver alguém a lavar os dentes, incluindo eu própria. Quando vejo alguém a lavar os dentes, dá-me imediatamente vontade de vomitar. E isso acompanha-me desde que me lembro de ser gente. Não mudou- Posso ver alguém a vomitar que fico ali, pacientemente à espera, a segurar-lhes a testa, para que na maioria das vezes se consigam aguentar-se nessa posição. O resultado pode até salpicar-me as calças, que a única coisa que penso é: “será que este vinho tinto vai sair destas calças claras?”. Continuo ali, sem qualquer problema, qual gesto caridoso, a ser a mão amiga que os (as) acompanha naquele momento de agonia. Não tenho qualquer tipo de repulsa. Mas ver alguém lavar os dentes, não! Em quantos quartos de hotel, quando as pessoas que ficavam comigo saiam da casa de banho a escovar os dentes... eu só tinha tempo de ter o instinto de sobrevivência de virar-me de costas, fugir e ainda tapar os olhos com as mãos!!! Quem me conhecia bem percebia imediatamente e fugia para o lugar de onde saiu e não devia...repetindo a palavra “desculpa” vezes sem conta. As que me conheciam menos bem não percebiam e continuavam em direcção a mim a achar que me tinha dado um ataque de asma...

Os meus sobrinhos sabem que me podem pedir tudo menos que vá com eles lavar os dentes! Eles bem me mostram que as escovas são iguais às minhas, que têm uma pasta de dentes muito gira... mas basta falarem-me em lavar os dentes que eu entro logo no sistema de manter o perímetro de segurança. Então, principalmente o mais novo, está sempre a querer lavar os dentes mas não pode fazê-lo sozinho porque o mais provável é que sairia da casa de banho a parecer que tomou um duche. Este é daqueles que lava os dentes e quer imediatamente comer, apesar de saber que lavar os dentes é a última coisa que se faz depois de comer e não antes! Eu, o mais afastada possível da cena, ouço o pai dele, a avó ou o avô (sim, porque ele é quem escolhe) “deita a água fora”, “a água não é para engolir”... e outras preciosidades. Tenho sempre de tentar abstrair-me porque a simples imagem dá cabo de mim.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A despedida da menina da "Medeira"

Conheci a A. há alguns anos, não me lembro bem quantos... sou péssima para datas e para nomes, toda a gente sabe. Chegou ao lab e eu fiquei responsável por mostrá-lo. Eu acredito na A. mas não me lembro deste dia. Tempos depois aparece para fazer o Mestrado e por ali ficou montes de tempo. Esse tempo que é sábio e que ensina tudo, neste caso foi bem agreste. Acredito que nem tudo tenha sido mau para a A. mas sei que foi penoso. A A. tornou-se uma grande amiga, essa pessoa que gosta de pessoas! Fiquei fã dos jantares dela, era a minha companheira para os filmes que mais ninguém queria ver, adorávamos a “nossa” picanha a horas tardias, chegávamos sempre atrasadas ao cinema, passamos muitas peripécias, acompanhou-me a concertos e leituras muitas vezes. Agora, passados estes anos todos, muda do “Contenente” para a ilha das baleias!

Não gosto de despedidas, mas não podia faltar à “Despedida do Contenente”. Estava um dia daqueles de derreter. Já passava das oito da noite mas a temperatura parecia de 4 da tarde... Cheguei à mesa e estavam todas a beber o “cocktail da Su”. Pela cor (rosa) não dava nada por aquilo. Mas como pago sempre para ver, depois de provar, delirei! Eu que estava a tomar antibiótico, não resisti, e mandei o bom senso às urtigas. Não me lembro de tão bom cocktail na minha vida! A C. e o F. (meus queridos companheiros de NY) iam adorar. Depois veio a sangria e o vinho branco... e as tapas que valeram a pena. Os anos da J., apesar de esquecidos no dia, foram festejados com pompa e circunstância com direito a um muito bom bolo.  Os grandes Pumbas, que mostram em todas as ocasiões serem uns amigos dignos do nome, desta vez, não desiludiram e superaram-se. Nem tenho palavras para descrever o filme que fizeram. Foram 17 minutos lindos que deu para tudo. Chorei, ri, gargalhei, arrepiei-me e fiquei sem palavras. Que coisa magnífica. Que surpresa tão boa. E é nestas alturas que acho que os amigos são muito grandes. E que feliz que me senti por comprovar, mais uma vez, que a A. tem estes amigos tão dignos dela. Até já A.! Queremos ver as baleias! Eu estarei aí para o ano para cantar contigo: “Seus netos vão lhe perguntar em poucos anos/ Pelas baleias que cruzaram oceanos”!!! 




terça-feira, 9 de julho de 2013

Alcina Amélia Araújo, a minha avó

Faz hoje um ano que dava os parabéns à minha avó pela última vez. Há exactamente um ano tinha tomado talvez a decisão mais errada e decidido ficar mais uma semana em NY em vez de ter ido passar férias a Miami. Hoje um ano depois, vejo que a troca não valeu a pena. Mas como sempre defendo na vida, só nos devemos arrepender com o que não fazemos. Há um ano atrás, no calor húmido de NY, em frente às urgências do Presbyterian, liguei o skype e falei muito tempo com a minha avó. Nesse dia ela ainda me conheceu e estava muito bem disposta. E esta falta que podia ser de muita tristeza transformou-se numa saudade boa e dou comigo a sorrir das lembranças.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A nossa corda bamba

Quem me conhece bem sabe que eu não defendo com unhas e dentes este governo, aliás nem tiveram o meu voto. Quando foram as eleições,  por imperativos legais, não pude votar no Consulado de Portugal em NY. Nunca fui uma defensora de Passos Coelho. Sempre fui descrente quanto ao percurso político e académico dele. Começou na JSD, saiu aos 30 anos, seguiu a sua vida. Terminou o curso aos 32 anos numa privada... Tinha como “padrinho” o Ângelo Correia e ainda para mais era amigo desse Miguel Relvas. Depois, achei a escolha de Miguel Relvas uma vergonha. Muito antes de saber sequer o CV dele, nunca gostei dele. É aquela coisa “do meu Santo não se cruzar com o dele”. Nunca gostei do homem. E foi este homem o princípio do fim. Como era amigo de Passos Coelho, a sua nomeação nunca se deveu à competência técnica nem política, mas às razões da amizade que a própria razão desconhece. De resto, este governo apesar de sempre muito criticado, na minha opinião, tem pessoas de muito valor: Paulo Macedo, Paula Teixeira da Cruz , e até para mim uma boa surpresa, o Miguel Macedo. Mas o grande defeito de Pedro Passos Coelho é a teimosia. E como a maioria dos defeitos são sempre irracionais, toldam-nos a razão. O grande erro começa quando começam as suspeitas sobre Relvas e nesse imediato momento, já que o próprio não teve a honestidade de se demitir, o primeiro-ministro que o fizesse. A partir daí, o governo pôs-se cada vez mais a jeito.

De que acusam Maria Luís Albuquerque afinal? De ser o bode expiatório de um dossier tão melindroso como as swaps? Ela fez alguma coisa ilegal? Ontem ouvia um dos comentadores políticos a dizer que ela tinha muita competência técnica mas que a sua credibilidade política estava em causa porque a tinham envolvido na “lama” das swaps (mesmo que sem culpa alguma). Vem a saber-se que esta foi a razão invocada por Paulo Portas para se demitir. Não por a terem envolvido no caso das swaps mas admirem-se, por ser a continuação das políticas de Vítor Gaspar! Será mesmo por isto? Com tantos motivos que portas teve já para se demitir, talvez com mais razão até no caso da TSU, abandona o barco como os ratos agora? Eu pergunto-me: não haverá desenvolvimentos no caso dos submarinos? Ou acha Portas que vai coligar-se com o PS quando houver novas eleições e assim poder continuar no poleiro? E depois existe ainda outra hipótese: há a possibilidade de Paulo Portas sair da liderança do CDS-PP? A demissão de Portas, pelo que se consta, surpreendeu até o núcleo duro do CDS-PP. Ontem à noite, ouvi perplexa o José Ribeiro e Castro dizer que foi uma surpresa para ele, que nada fazia esperar. E se Portas discordou assim tanto com a nomeação da nova ministra das Finanças, como permitiu ou sugeriu que alguém dos eu partido fosse nomeado Secretário de Estado? Muitas perguntas sem resposta, eu sei...

Outra coisa que não percebo, partindo do princípio que Portas se demitiu sem ser surpresa dos seus pares, se o Primeiro-Ministro soubesse da solidariedade dos ministos do CDS-PP (Assunção Cristas e Pedro Mota Soares) com Paulo Portas não se teria demitido ontem à noite? Se estes dois ministros estão tão solidários com Portas e se esta fosse um decisão conjunta porque ainda não se demitiram?


Alguém acredita que a oposição liderada por António José Seguro é mesmo alternativa a este governo? Não duvido que o governo já só se aguenta no poder porque não há à vista qualquer alternativa credível. E as eleições serão mesmo uma solução? Como? Que consequências terá esta hipótese para os compromissos que Portugal assumiu? As eleições serão solução para alguma coisa se não se conseguir uma maioria?

terça-feira, 2 de julho de 2013

Paulo de Morais: o arauto

Este post devia ter sido escrito há dois dias. Não o foi porque coincidiu com a recta final da escrita de um projecto da FCT, cujo prazo de submissão, termina hoje. Passei o fim de semana a terminá-lo e submeti-o ontem, 24 horas antes do fim do prazo.

Adiante, no sábado fui à apresentação do livro de Paulo de Morais na Centésima Página. Já li o livro “Da corrupção à crise – Que fazer?” no sábado.  Não vou resumir o livro mas aconselho-o entusiasticamente a toda a gente para perceberem coisas, que como eu não imaginava, e para compreender melhor o estado a que chegamos. Temos vários problemas: 1) dívida pública deve-se principalmente ao desperdício, economia desestruturada, predomínio da banca sobre a política e corrupção; 2) dívida privada que se deve principalmente ao imobiliário. Paulo de Morais referiu que o urbanismo é uma máfia semelhante ao tráfico de droga, com a diferença que no tráfico de droga apreende-se a droga, mas no urbanismo não há nenhuma apreensão de prédios. Alguns, segundo Paulo de Morais, até recebem medalhas no 10 de Junho. O imobiliário é a verdadeira bola de neve que não tem fim. A venda de apartamentos foi sobrevalorizada. Hoje as casas valem menos 40%. Existem 2 milhões de casas vazias em Portugal: 500000 de ocupação sazonal (Algarve) e as restantes pertencem a fundos de investimento, imobiliário fechado, têm isenção de IMI e IMT e não são colocadas no mercado porque se assim fosse as rendas no mercado baixariam. 

Agora prestem atenção a este escândalo para perceberem como chegamos até aqui. Durante anos, o que se passou com o imobiliário e as relações promiscuas entre banqueiros, câmaras e promotores imobiliários foi o seguinte: um promotor imobiliário comprava um terreno agrícola por 100, ia a uma câmara e transformava esse terreno agrícola em terreno com grande capacidade de construção. Depois ia a um gabinete de engenheiros e arquitectos e mandava fazer um projecto. Saía de lá com um power point, ia ao BPN e um terreno que tinha custado 100, por via da valorização da câmara, passava a valer 1000. O projecto passa a valer 4000 e pedem um empréstimo sobre o projecto. E o que deixavam lá de garantia? O terreno que valia 100!!!! É destas vigarices que o BPN está cheio. Projectos financiados que nunca passaram do power point!

Um dos exemplos que Paulo de Morais deu, recuando aos tempos dos Descobrimento, foi o de D. João II. Como conseguimos fazer os Descobrimentos?  D. João II, o Príncipe Perfeito, que introduziu o primeiro livro em Portugal e fez o Tratado de Tordesilhas, derruba a conspiração de Viseu e mata o Duque de Viseu, Duque de Bragança e Duque de Beja. Esta “guerra” contra os fidalgos, com o confisco de bens, permitiu resolver o problema da fazenda pública (vejam como vem de longe e parece crónico ou genético) e lançar os Descobrimentos.

Portugal parece estar como o Brasil, em que há meia dúzia de pessoas, a aproveitar-se do Estado e a perpetuar a riqueza à custa dos portugueses. E estes parecem ser intocáveis. 70% da nossa dívida privada deve-se a estes senhores, 15% crédito ao consumo e apenas 15% para toda a actividade do país. Estes números fazem sentido? Temos de acabar de uma vez por todas com estes promiscuidade entre a política e a banca! Este meu texto parece muito desanimador mas não é. A verdade é que as coisas podem ser mudadas e existem soluções. Fica aqui a minha sugestão para comprarem e lerem o livro de Paulo de Morais.

A outra analogia pode ser também ser feita, com o Sermão de Santo António aos Peixes (tema do post anterior): «...Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande..».

Para terminar, soubemos ontem que o Prof. Vitor Gaspar se demitiu do governo. Toda a gente bate palmas. O tempo, que ensina tudo e que é sábio, dirá se foi bom ou mau ministro. Apesar de há algum tempo o nome deste ministro estar nos remodeláveis, esta demissão surpresa, faz-me perguntar o que se passou para um homem que parecia aguentar tudo ter atirado a toalha ao chão. Para os entusiastas, que tanto acreditavam que a saída de Gaspar seria a solução de todos os nossos problemas, fica a questão se não estaremos a caminho de uma nova Grécia...



sábado, 29 de junho de 2013

Sermão de Santo António aos peixes por Diogo Infante

Ontem, depois de um dia repleto de ciência e de ideias novas, rumei ao Porto para a Biblioteca Pública, ao Jardim de São Lázaro. Jantei num daqueles restaurantes turísticos com esplanada. Nem precisei de ementa, vi no quadro riscado a giz que tinham sardinhas e foi exactamente o que pedi. Entretida com as azeitonas, que são a minha perdição, enquanto esperava pela comida, lia "A descoberta do Mundo", um livro com todas as crónicas publicadas de Clarice Lispector. Quando as sardinhas chegaram, só pelo aspecto percebi que estava perante uma avaliação semelhante ao "Ramsay's Kitchen Nightmares". Sardinhas não têm segredo, basta serem assadas em carvão e serem frescas! Aquelas não. Tudo estava errado. Vamos lá. Vinham 3 sardinhas assadas no forno (!!!), mergulhadas em azeite fervilhante, com batatas a murro mergulhadas no mesmo, pimentos e cebola crua em rodelas que pareciam imitar as dimensões de rodas de camião. Abro a primeira, a medo, e percebo o que temia. As sardinhas estavam cruas no interior e (espantem-se) congeladas!!! Como tinha 15 minutos para jantar, decidi não fazer uma cena. Porque feliz como estava, não havia sardinhas que pudessem estragar isso. Mas para continuar a avaliação, prossegui a avaliação... As batatas eram apenas cozidas com casca e o pimento era daquele de conserva!!!! Nem fixei o nome do restaurante, mas sardinhas desta qualidade envergonham uma cidade com mar!!! Adiante. Segui para a biblioteca a pensar que já estaria atrasada e percebo a longa fila, à distância. Sabem quanto tempo esperamos para entrar: 30 minutos!!! 

Mas nada, até mesmo a espera, ia fazer-me acabar mal o dia! Sentei-me, numa das poucas cadeiras livres, e a leitura começou já passava das 10 da noite, quando estava prevista para as 10:30. Diogo, surge no andar superior de fato cinzento escuro e camisa preta, com aquela voz espantosa. Sou sensível a vozes. Acho que o Diogo tem a melhor voz masculina de Portugal. Linda, linda, linda. Pelo contrário, acho a voz da Fernanda Câncio insuportável. Coitada, ela não tem culpa, mas aqueles agudos são intoleráveis. Não consigo ouvir a senhora. Pouco depois, Diogo desceu, com o seu ipad, despiu o casaco, e continuou a leitora. Que sorriso lindo o dele! Está ligeiramente mais gordo, grisalho, mas acho que ainda melhor! A idade só lhe faz bem!

Este "Sermão de Santo António aos Peixes", de 1654, escrito pelo Padre António Vieira não podia ser mais actual. Critica a prepotência dos grandes que, como peixes, vivem do sacrifício de muitos pequenos, os quais "engolem" e "devoram". É um texto que foi dito em São Luís do Maranhão, repleto de ironia, e agudo senso de observação sobre os vícios e vaidades do Homem, comparando-o através de alegorias, aos peixes. Vos estis sal terrae (Vós sois o sal da terra). Diogo a exaltar-se em latim fica ainda melhor. O efeito do sal é impedir a corrupção: «...Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites(...) Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam(...) Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os Brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer. Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os oficiais dos órfãos e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-a a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra. Já se os homens se comeram somente depois de mortos, parece que era menos horror e menos matéria de sentimento. Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós(...) Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido(...) Antes, porém, que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande..».


Um texto de 1654 que não perdeu a actualidade. O Brasil, país onde foi pregada pela primeira vez, luta nas ruas contra a corrupção. Nós, por aqui, lutamos por uma sociedade mais justa e esperamos, pelo menos, que a lei do enriquecimento ilícito, contra a vontade dos que nos representam, seja aprovada!



quarta-feira, 26 de junho de 2013

Oliver Smithies: a curiosidade que não acaba

Oliver Smithies é um dos galardoados com o prémio Nobel em Medicina, 2007 e que veio dar uma palestra à Universidade do Minho na passada sexta-feira e ontem participou numa conferência com outros laureados na Culturgest. Assistir a uma palestra de um prémio Nobel nunca pode ser decepcionante. Todas as que vi não foram e esta também não. Este cientista de 88 anos só o aparenta porque as pernas são o seu elo mais fraco. Fala com o entusiasmo de um jovem. Prende a atenção dos que o assistem. Conta histórias da infância, da terra onde nasceu, cativa a audiência. Mostra fotos dos originais dos seus 150 cadernos, onde até hoje, continua a escrever. Considera-se um cientista de bancada e não um administrador. Os olhos ainda brilham a falar de ciência. Diz que é muito importante tirar bons apontamentos e escrever o mais possível de pormenores. Confessa que não almoça. Mas diz que dormir é muito importante. Muitos dos dias que passa no laboratório são aos fins de semana. Achei impressionante uma pessoa que tem a juventude mental de um jovem cientista aos 88 anos. Questiona-se com as mesmas coisas e continua a achar que devemos fazer o que gostamos. Terminou a dizer que a curiosidade dele nunca acaba.



segunda-feira, 24 de junho de 2013

125 anos de Fernando Pessoa

Sempre que posso tento conhecer lugares, casas, cafés que foram frequentados por génios. Fico ali quieta a olhar. Perco-me no tempo. Não dou por ele passar. Fico a imaginar que ali, há alguma coisa especial, uma luz, uma paisagem, uma inspiração divina para o resultado que nunca morre. Ser eterno é isto. É permanecer para além da morte. Influenciada pelo 125º aniversário de Fernando Pessoa, fui conhecer a casa dele em Campo de Ourique. Sábado, uma tarde maravilhosa, com aquela luz que só Lisboa tem, acreditam que a biblioteca estava fechada? Resposta de uma funcionária: “Hoje é sábado, está fechada”. Com um ar que queria ter dito: “com este tempo vem esta gente para aqui chatear quando deviam estar na praia!”. Não seria suposto uma casa destas ter a biblioteca aberta ao fim de semana, quando o comum dos mortais só a pode visitar nestes dias, porque nos restantes trabalha? A coisa começou imediatamente mal. Mas bastou-me subir ao primeiro andar e ver (mesmo só da porta de vidro fechada) o famoso quadro de Fernando Pessoa pintado pelo Almada Negreiros, que esqueci imediatamente tudo. Deixei-me impregnar pelo ambiente. Entrei no quarto completamente escuro do Pessoa. Ali estava a cama se solteiro, a cómoda e alguns manuscritos. Sentei-me na cama, não sei se era suposto. E fiquei ali a olhar, não sei quanto tempo, sozinha. Via apenas símbolos do Zodíaco e que dali, daquele pequeno quarto tinham saído alguns dos melhores poemas. Saio, vejo a máquina de escrever, vejo o diploma da escola onde nasceu e estudou, em Durban. Subo ao 3º andar, o Sonhatório. Quase tudo ali é interactivo. Podem ouvir-se poemas ditos por artistas portugueses e brasileiros. Pode ver-se pormenores da vida de Fernando Pessoa. Numa das salas estão expostos alguns dos objectos pessoais de Pessoa:  os tão famosos óculos, um caderno de apontamentos, um isqueiro de prata. Mas o barulho de uns espanhóis estridentes tiraram-me a concentração. Nem o meu olhar reprovador os fez desistir. Parecia que estávamos no circo. Detesto este tipo de pessoas que não tem qualquer tipo de sensibilidade e só visitam os sítios para poderem dizer aos amigos que estiveram lá.








 Continuei pelas ruas de Campo de Ourique, fui até aos Prazeres e sentei-me no regresso na esplanada da Canas.Vi passar várias vezes o eléctrico 28, do qual tenho um desenho original numa das paredes de casa e um no frigorífico. Muitas pessoas escaldadas do sol, provavelmente vindas da praia, duas senhoras velhotas a comer amendoins e a beber imperiais. Há melhor? Levanto-me em direcção à Estrela e não resisto a entrar no eléctrico. Não há melhor! O percurso é lindo.  O eléctrico vai até ao Martim Moniz mas eu fico pelo Chiado. Olho para o nosso poeta maior. Sigo para a Bertrand. Depois para a Fnac, onde comprei quatro livros do “Nandinho”, como lhe chama a Maria Bethânia.  Regresso ao largo Camões, onde num dos quiosques peço uma ginginha. Mas é tão bem servida que se continuo a bebê-la sem comer nada fico logo ali. Entro num café que faz esquina com a Rua da Misericórdia e peço um pastel de bacalhau. Todos me perguntam o que tenho no copo! E eu respondo, simpaticamente, provavelmente já tocada pela ginginha, a todos. O pastel de bacalhau é medonho mas serve o objectivo. Acabo a ginginha, agradeço amavelmente a todos os que me fizeram companhia no balcão e a quem me serviu. Saio e é tempo de meter-me num táxi que me levará a Entrecampos onde jantei tão bem no Sakura.





terça-feira, 18 de junho de 2013

Os professores

Fiz todos os meus estudos até à universidade num colégio privado. Hoje não vou debruçar-me sobre as vantagens e desvantagens. Tive sempre a mesma professora na primária, desde a 1ª até à 4ª classe. Os métodos dela, para a época (anos 80) e para a idade que ela tinha (entre os 20 e muitos e os 30 e poucos), eram muito severos. Usava o castigo físico em demasia, ora as orelhas, ora as reguadas com uma régua de madeira, até à moderna (lançamento inovador na altura)  régua de plástico flexível que nunca partia. A violência física era transversal, nem os bons alunos escapavam. Ninguém estava a salvo. Gostava de encontrá-la para lhe perguntar se ainda continua com estes métodos pouco ortodoxos. Tirando este pormenor (o adjectivo fica ao critério de cada um) era uma excelente professora no que respeita ao método de ensino. Nessa altura decoramos o poema, que sei de cor até hoje:

“Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.

Será chuva? Será gente?

Gente não é, certamente

e a chuva não bate assim”(...)


Adiante, depois no ciclo tive outros professores que me marcaram positivamente. Uma professora de Português que nos incentivava a ler fora das aulas e a anotar as palavras num caderno. Os significados eram adicionados com recurso a um dicionário. Até hoje uso um dicionário. Desde a primária que nunca dei muitos erros, mas sem dúvida, este método ajudou imenso. Foi também com esta professora que eu descobri o gosto da leitura. Tivemos outra, que os meus amigos que andaram no colégio se recordam, que nos obrigava a fazer cópias em cadernos de duas linhas para termos a letra bonita!
A Matemática, acho que no 8º ano, tivemos um professor que era Capitão do Exército. Era super engraçado. Corria toda a gente com negativas mas era muito boa pessoa. E tinha por hábito destruir os livros de ponto e sujar a roupa toda com giz. Quando fazíamos barulho pegava no livro de ponto, batia com ele em cima da secretária e gritava: “Calou, porra!”.
Mais tarde, tivemos um professor, também de português que era padre e Professor na Católica. Adorava latim e Gil Vicente. Até hoje detesto essa língua morta e Gil Vicente. Contudo, adorava o “Principezinho” que analisamos até à exaustão. Nessa altura achei o livro muito desinteressante. Anos depois, reli-o várias vezes e sei trechos de cor. Este professor proibia-nos de ler os cantos dos Lusíadas referentes à Ilha dos Amores. Contudo, digo até hoje o primeiro canto: “As armas e os barões assinados/ que da ocidental praia lusitana/ por mares nunca dantes navegados...”. E o “Mar Português” de Fernado Pessoa é outro dos exemplos que decorei nessas aulas e que sei até hoje.

O Padre Fernandes foi quem mais nos incentivou à leitura em voz alta nas aulas. Quase que só fazíamos isso. Lembro-me do dia que morreu Miguel Torga, foi como se lhe tivesse morrido uma uma pessoa da família. Adora Eugénio de Andrade. E tinha a maior biblioteca que alguma vez conheci. Andava sempre com livros e todos eles dobrados e com pequenos papelinhos a fazer marcações.

Ontem, no dia em que os professores fizeram greve, que é um direito que lhes assiste, lembrei-me destes meus mestres. Eu lembro-me nitidamente que os meus amigos que andavam nas escolas públicas, os professores faltavam muitas vezes. Naquele tempo invejávamos estas baldas...nós nunca as tínhamos. A verdade é que nos colégios privados não há greves. O que eu tenho a dizer é que os professores das escolas públicas foram sempre uns privilegiados ao longo dos anos, e agora, como estão a deixar de ser intocáveis usam da pior arma, não a greve, mas os alunos. Quantas horas trabalhava um professor? Como é que era avaliado? Os salários sempre subiram, não por mérito, mas por anos de serviço. Quanto tempo de férias tinham? Era férias no Natal, na Páscoa, 2 a 3 meses no verão... Claro que estão descontente s porque quem não se sente não é filho de boa gente. Mas o que queriam? Se toda a sociedade portuguesa está a ser afectada transversalmente, achavam que se mantinham intocáveis? Esse Mário Nogueira, que só fala e não diz nada, se eu fosse professora tinha vergonha de o ter como porta-voz. Que experiência de docência tem este senhor? Viveu a vida toda a receber um ordenado de professor sem sê-lo. E eu termino com o meu agradecimento profundo aos meus mestres que tanto me marcaram, tendo a certeza que a profissão de professor é tão nobre.


domingo, 16 de junho de 2013

Grande Alface

O dia começa de manhã para mim, nada habitual ao domingo. Ontem caí na cama e doía-me todos os músculos das pernas, até os que eu não sabia que tinha! Isto é o que acontece a quem não anda a pé. Acordei diversas vezes durante a noite, nada fora do habitual. E às 9 já estava acordada, antes do despertador dar o toque de alvorada às 9:30. Fui ao Museu Gulbenkian, não para ver a exposição permanente, mas para ver  a exposição da Clarice Lispector – A hora da estrela. Está nos últimos dias, e a última vez que estive cá, não coincidiram os horários. Museu cheio de famílias, turistas, crianças, novos, velhos. E hoje era de graça, coisa que eu não sabia, mas agradeci! A exposição, tal como Clarice Lispector é invulgar e sombria, escura. A primeira sala está coberta de frases da autoria dela, e fotos,  a principal delas a destacar um dos seus olhos, invulgares. A seguinte é parecida mas iluminada. A seguinte tem a transmissão de uma entrevista, dada pouco antes de morrer, e da publicação do seu último livro “A hora da Estrela”. Ali são perceptíveis as marcas deixadas na sua mão direita, provocadas pelo acidente em casa por conta de ter adormecido com um cigarro aceso. A sala dos espelhos mostra a trajectória das cidades por onde Clarice Lispector passou, desde a cidade que nasceu, na Ucrânia até ao Rio de Janeiro, onde morreu. A última sala é constituída de cima a baixo por gavetas, as quais só algumas abrem. São muitos documentos, cartas, cartões, e correspondências entre amigos, dos quais se destaca o poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto. É possível ver também  carta a pedir ao Presidente Getúlio Vargas a nacionalidade brasileira, porque apesar de o único país que conheceu como seu ter sido o Brasil, ela saíra da Ucrânia bebé de colo. As outras espectacularidades do museu são os jardins e a esplanada da cafetaria. E o clima e a luz de Lisboa são exemplares para isso.









Segui para o Cais das colunas. Se me perguntarem a minha imagem preferida de Lisboa, é sentar-me nas escadas que dão para o rio e estar ali a olhá-lo sem dar pela passagem do tempo. Quando eu conheci o Mississipi pela primeira vez em Memphis, foi uma desilusão. Eu que achava que o rio era grandioso ao estilo do Amazonas, das histórias do Tom Sawyer, quando cheguei lá apareceu-me um rio normalíssimo. Olhar o Tejo do Cais das Colunas [outra das vistas magníficas é a vista da Fundação Champalimaud] é majestoso. Na semana passada festejaram-se os 125 anos de Fernando Pessoa. Não existe poema que descreva tão bem o Tejo como este:

" O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
(...)
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá nã está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
(...)

Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América 
E a fortuna daqueles que a encontram.
(...)

Ricardo Reis



Depois, como estava próxima, fui à Fundação José Saramago. Para minha surpresa estava fechada. Pelos vistos fecha aos domingos. Para a “Presidenta” Pilar que está sempre a reclamar de tudo, era óptimo que explicasse a lógica de fechar a fundação ao domingo, quando os que trabalham durante a semana não o podem fazer... Sem querer estragar o meu dia que estava a ser perfeito, encontrei a felicidade mesmo ao lado. Almoço:caracóis, sardinhas, uma salada, uma imperial e uma coca-cola na esplanada do “Solar dos bicos”. E ainda estive a avançar a leitura da biografia da Clarice Lispector. 




A meio da tarde, para desgastar, segui pela Praça do Comércio em direcção à Rua do Alecrim, não tão íngreme como a Bica... Depois segui pela Rua da Misericórdia até ao Miradouro São Pedro de Alcântara, que juntamente com o Miradouro de Santa Catarina e a Graça,  é de tirar a respiração.  É quase de desmaiar de tão lindo! Segui até ao Príncipe Real onde me estiquei na relva. Em Braga, os jardins são para olhar e não para usar. Este não, toda a gente deitada nos jardins! E eu que só podia fazer isso em casa dos meus avós, tirei a barriga de misérias e estive ali a olhar para o céu, a ver as nuvens passar devagarinho, a ouvir as crianças a jogar à bola, os gritos das correrias, casais de namorados (as) a ler e a aproveitar o sol, esplanadas cheias, velhinhos nos bancos do jardim, a olhar as palmeiras e outras árvores que não sei o nome. Aproveitei para mais leitura e até ao último minuto porque queria que este dia demorasse mais a acabar.





sexta-feira, 14 de junho de 2013

O Porto

O Porto não é uma cidade que escolha ir porque gosto. Vou , como vou a tantas outras, por necessidade, ou porque tenho lá amigos queridos, porque é a cidade mais perto onde acontece determinado espectáculo. Ao contrário do que muitos dizem, que não se passa nada no Porto, a bem da verdade, passa-se muita coisa. A Casa da Música é das coisas mais activas na cidade. O ciclo de conferências sobre a América organizadas pela Anabela Mota Ribeiro e pela FLAD foram das coisas mais fantásticas que vi nos últimos tempos.  As quintas de leitura no Teatro do Campo Alegre, as apresentações na belíssima Biblioteca Almenida Garrett, perdida nos jardim do Palácio de Cristal. Não me posso esquecer de um dos que considero dos mais bem localizados museus do mundo, Serralves.
Hoje, para que os meus amigos queridos não me critiquem tanto por não considerar o Porto, nem de longe nem de perto, uma das minhas cidades, só vou dizer bem!
Na mesma semana fui duas vezes ao Porto. Coisa rara. E para quem diz que no norte, e principalmente no Porto as pessoas são todas simpáticas, enganem-se. Um dos restaurantes classificado como TOP 10 em Francesinhas, mesmo em frente ao Coliseu, chamado Santiago, por favor!!! Fica aqui o aviso. As francesinhas são boas, mas o atendimento!!! Não de todos, mas unicamente uma senhora que parecia saída da cadeia de Custóias: cabelo oxigenado, os braços cobertos de tatuagens, t-shirt 2 números abaixo do que devia, gestos rudes, voz alta e a parecer que estava a fazer-nos um favor.
Continuo a achar que a degradação de muitas ruas do Porto, que noutras cidades até parecem pitorescas, nesta cidade, parecem decadentes.
Mas onde eu queria chegar. O melhor restaurante do mundo (onde comi), depois de um em Philly e do Nobu em NY, foi o Gòshó.

A outra sugestão foi-me dada por pessoas diferentes. Uma disse-me que era em frente à Padaria Ribeiro, outra que era em frente a uma leitaria. Como eu não reconheço nada, achava que eram restaurantes diferentes. Era o mesmo, o magnífico Kyoto na baixa. As reservas todas completas a uma sexta à noite, mas um ambiente cool, despretensioso. Adorei!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

Dia cinzento e frio, a fazer lembrar um dia de inverno, apesar de estarmos a dias do verão... Depois das obras de instalação do gás canalizado na semana passada, hoje foi o dia de terminar as arrumações e limpezas. Eis os despojos das obras!

Passei o dia em casa, vi esporadicamente as comemorações do dia de Portugal. Hoje e sempre, neste dia, tenho orgulho em ser portuguesa. Apesar da crise, do desânimo, do desemprego, do mau momento, Portugal tem como o seu dia, o dia de um poeta. O dia em que morreu Camões é o dia de Camões, dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas no dia todo. Isso não é fantástico? Ao contrário de muitos países, o dia de Portugal, não é o dia de um rei, de um descobridor, de um presidente, de um ditador, ou de um cantor... É o dia de um poeta! Dez de Junho. É fascinante.



domingo, 9 de junho de 2013

Maria Bethânia e as palavras

Entrou no palco ao som de um batuque, com um sorriso aberto e fez logo uma vénia ao público. Maria Betânia, vestida com um casaco branco comprido e umas calças pretas que lhe cobriam parcialmente os pés nus. O mesmo colar de todas as apresentações e pulseiras múltiplas no punho esquerdo compunham o elegante figurino. Um palco minimalista sem adereços composto apenas por Bethânia, Paulo Dafilin na(s) viola(s) e Carlos César na percurssão. 
Uma sala tão bonita, pequena e aconchegante como é o Teatro S. João foi a sala perfeita para um espectáculo como este. Um público que me fez cada vez mais ter orgulho de ser portuguesa. Um espectáculo que foi sobretudo delicadeza, emoção, silêncios e a voz de Maria Bethânia a encher o teatro. Fiquei na terceira fila, tão perto do palco que dava para ver os cabelos cairem quando mexia no cabelo. Maria Bethânia a cantar é de arrepiar. Mas só a voz, sem o auxílio de nenhum instrumento é o dom dela. A voz poderosa e grave que parece não precisar de microfone. Mas Bethânia a ler é impossível de explicar. Ninguém diz poesia como Bethânia. O ritmo, a cadência, o tom, a encenação. Uma expressão dramática espectacular e gestos fortes. Uma cantora que escreve todos os dias e adora caderninhos. Tão delicada, tão educada, tão cerimoniosa, que não se cansou de repetir “Obrigada senhores”. Leu poemas de Carlos Drummond de Andrade, Sophia, Fernando Pessoa e heterónimos, Mário de Andrade, Vinícius de Moraes,Guimarães Rosa, António Ramos Rosa e muitos poetas populares brasileiros. Cantou Caetano, Amália, entre outros.
Maria Bethânia disse: “Criei esta leitura e escolhi textos que ao longo da minha vida tenho dito nos meus espectáculos de cantora. Alguns dos senhores que estão aqui hoje já me viram em cena onde ouso e gosto, também, de me expressar através da palavra falada. Eu gosto de falar, gosto de emprestar a minha voz à minha vida, às histórias, personagens, aos sentimentos que os autores nos revelam. Eu sei que ler, ouvir, dizer poesia, hoje, nesse tempo, nessa correria, nesse desapego, é um desafio. Mas essa ideia me comove e me atrai(...). Eu fiz essa leitura em vários lugares, sempre recebendo escolas com seus professores e alunos ou indo até eles, o que para mim, é uma grande honra. Eu fiz recentemente essa leitura na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa. Eu li poesia na casado meu poeta. Poeta da minha vida, fonte para a minha sede, poeta que sustenta a minha respiração, o ritmo desassossegado do meu coração.
Cantou trechos do poema “Ciclos”, um poema de Nestor de Oliveira, que foi professor de português dela e de Caetano Veloso numa escola pública do Recôncavo baiano. “Eu me emociono muito, porque, além da didáctica, aprendia-se a ler, a ouvir, a dizer poesia. Caetano Veloso, também seu aluno, foi quem musicou esses versos lindos. E eu falo disso só para lembrar que é possível, sim, ter uma educação boa e plena nas escolas públicas do Brasil”, falou.
Noutra das suas confidências declarou: “Felizmente, podemos ver o extraordinário trabalho de professores que vencem todas as dificuldades, ultrapassam seus limites e dedicam suas vidas, e com grande prazer conseguem cumprir tarefa tão nobre: educar. Eu fui aluna de escola pública. Eu, Maricotinha, recebi a comenda Ordem do desassossego (conferida pela Casa Fernando Pessoa) em reconhecimento aos maiores divulgadores da obra de Fernando Pessoa.
Depois de longas palmas e com o público de pé, Maria Bethânia regressou ao palco: “Leitura não tem bis mas eu estou tão feliz que vou improvisar”.



segunda-feira, 3 de junho de 2013

The great Gatsby

Como dizia a Clara Ferreira Alves há uns tempos quando foram seleccionados os 100 mais importantes livros de todos os tempos, um dos que ela escolheu foi The great Gastby: “Não é possível passar pela vida sem ler este livro. A obra-prima se Scott Fitzgerald é uma apresentação original ao Sonho Americano. Jay Gatsby veio dos nada e fez-se multimilionário escondendo as origens judias e os negócios sombrios. Veio do nada para reconquistar uma mulher que tinha classe, dinheiro, pedigree. E um marido das universidade Ivy League, de Wall Street e do egoísmo sem barreiras. Daisy e Tom Buchanan ostentam o narcisismo patológico dos que nunca tiveram de lutar. Na mansão do lado social errado, Gatsby avista a luzinha verda da casa de Daisy. Essa luz é o que o faz viver. Nick Carraway, o observador do drama, narra o very unhappy end. Scott Fitzgerald escreve como um diabo, ou seja, imoralmente bem”.


Em Cannes, este filme foi escolhido para abrir o festival mas a recepção da imprensa foi de um silêncio sepucral -nem aplausos nem vaias, apenas desprezo. Cannes, talvez como o Festival de Veneza, é a grande montra dos bons filmes e dos grandes realizadores, geralmente que não são sucessos de bilheteira. Tinha que ir ver The great Gastby, o filme. Sabia antes de entrar que iria ser uma desilusão. Posso estar a ser preconceituosa, mas um realizador que escolhe para a banda sonora de um filme, adaptado de um grande livro, o rapper Jay-Z, não combina. Mas queria perceber como aquele público que não deveria saber, na sua maioria, que se tratava de uma das obras primas da literatura americana, estava ali a esgotar a sala. Queria perceber qual o segredo de transformar o livro do F. Scott Fitgerald, que não é um best-seller, mas que foi já várias vezes transformado em filme, ser desta vez um blockbuster. Saí da sala a dizer que se as pessoas não lêem, pelo menos a maioria dos portugueses, mesmo os (as) mais letrados (as), que assistam à forma mais fácil, neste caso, um filme. E se esta é a fórmula de dar a conhecer uma das mais magníficas obras da literatura americana do séc XX, nada há de errado nisso. Provavelmente, estas pessoas que não leram o livro iriam achá-lo uma seca, mas à boa moda de Hollyood, as descrições e os diálogos primorosos, conseguem transformar-se em fogo de artifício visual. 

A comparação do livro com este filme faz lembrar-me de uma história que se passou comigo no Metropolitan Museum. Estava eu a sair do museu, a uma sexta ao fim da tarde onde ia muitas vezes. Nesse dia levava vestida uma t-shirt com a capa do livro The great Gastby que também tinha escrito o nome do autor, F. Scott Fitzgerald. Um segurança para-me e diz-me: “Great t-shirt”. E eu fiquei logo toda emocionada a achar q era um grande elogio, um ameicano a elogiar uma t-shirt de um dos mais espectaculares livros do seu país. Quando ele acrescenta “I´m Scott too”. E pronto! Toda a minha emoção acabou ali. Ele nem sabia quem era o Scott Fitzgerald, quanto mais o que era o The great Gatsby. Para o bem e para o mal, acho que agora já saberá...


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