domingo, 10 de novembro de 2013

Os Caras por Caetano Veloso

Só entrei em contato com a música do Velvet Underground em Londres. Talvez já em 1970. Embora seja possível que Artur e Maria Helena Guimarães já me tivessem mostrado o disco com Nico, de 1967, que depois Ezequiel Neves vivia pondo pra tocar em nossas vitrolas. Eu gostei imediatamente do tom sombrio e violentamente urbano das canções e dos sons, a voz e a figura de Nico, que eu já conhecia de “La dolce vita”, somando-lhes mistério e encanto. A cara dessa loura de Fellini em meio aos filmes underground de Andy Warhol compunha um ambiente estético fascinante, o que tingia a música da banda de uma qualidade diferente de tudo o que a gente já gostava no mundo do rock de língua inglesa. Lou Reed apareceu para mim ali, no centro dessa aventura criativa tão estranha ao mundo meio rural, meio onírico do rock pós-Beatles.

Lou Reed morreu. Quando penso em quão longe eu estava de poder captar a beleza de sua arte em 1970 (capacidade que se desenvolveu lentamente e exigiu que eu entrasse em contato físico com a cidade de Nova York, o que só veio a acontecer nos anos 1980), fico assombrado com o fato de eu ter vindo a conhecê-lo pessoalmente e de ter havido uma troca de percepções artísticas entre nós. É perdoável que ele viesse a conhecer tão tardiamente um cantor latino-americano, mas é muito menos perdoável que esse mesmo cantor tenha tomado contato com a arte dele com atraso, ainda que muitíssimo menor. Que os dois tenham se encontrado tem algo de maravilhoso. Laurie Anderson veio ao Brasil com um filme, “Home of the brave”, e fui apresentado a ela. Laurie foi assistir ao primeiro show que fiz em Nova York depois disso. Era o “Totalmente demais”, eu só com o violão e falando muito entre as músicas, tão stand-up comedy quanto os antigos shows de Juca Chaves ou Ary Toledo. Muitas pessoas adoravam as canções suaves às cordas de náilon — e, tanto lá quanto aqui, não falta quem diga preferir aquilo a qualquer formação cello-e-percussão ou qualquer banda indie. Laurie me disse que gostou das falas, não deu muita bola para a aparente bossa nova. Quando fui com Jaques Morelenbaum mais Márcio Vítor e cia., ela levou seu marido para assistir. Ao final, Lou e ela chegaram ao apê em que jantaríamos e ele veio me falar do show. Lou é uma figura tão importante na história das pessoas do mundo contemporâneo, tem tal estatura histórica que não ouso contar o que ele me disse. Felizmente Laurie estava ali para rir um pouco e para dizer com gestos que a maluquice era dele, que ela era minha camarada mas que nada além de ter achado graça em minhas falas do show visto anos antes. Mas quando voltamos com formação semelhante, eles estavam lá. E quando fui com a banda Cê, idem. Sendo que neste último caso, já que fazíamos, em “Não me arrependo”, uma menção à linha de baixo de “Walk on the wild side”, a reação feliz dele saiu até no “New York Times”. Uma tarde, o interfone do meu apê em Nova York tocou. Eram Laurie e Lou, que estavam passeando o cachorrinho e passaram para bater papo. Lou contou uma piada, da qual eu não ri muito porque entendo mal inglês falado (minhas falas no “Totalmente demais” davam a impressão de que entendo tudo o que se diga em inglês, mas não): Laurie riu dele e disse que ele estava sempre contando piadas sem graça. Um casal sereno, muito americano, com um cãozinho. Em todas essas ocasiões, conheci o sorriso de Lou, algo que muita gente pensa que nem existe. E num show dele em Valência — em que ele tinha uma cellista e declamava Poe — fui cumprimentá-lo no backstage, e ele estava com um riso escancarado, feliz com a recepção do público. O sorriso de Lou Reed é um tesouro que guardo comigo. Quando Laurie veio com uma grande exposição no CCBB, mandou me chamar e conversamos. Lou não estava muito bem de saúde, ela me disse. Ou foi Arto Lindsay, amigo de ambos, quem interpretou, completando alguma frase vaga dita por ela em tom levemente triste.

No tempo em que eu nada sabia de Lou, Roberto Carlos tinha virado minha cabeça. Antes dos Beatles, aconselhado por Bethânia, dei atenção ao cara. Dali para a frente tudo foi diferente. Mesmo que ele nunca mais queira me ver, continuarei amando quem fez “Fera ferida” e “Esse cara sou eu”. Minhas trombadas nascem de querer quebrar algum esquema cristalizado que me impacienta. Não tenho o direito, acho. Não sou terapeuta dele nem palmatória do mundo. Zuenir estava certo quanto às diferenças de temperamento. Paulinha não gostou do que escrevi sobre o Rei. Mas acho que não tomo jeito, não vou mudar, esse caso não tem solução. Eu tinha feito muito esforço para defender a parte que acho defensável de uma causa que me estranha. Peço perdão.



Caetano Veloso in "O globo"

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Violência doméstica

Tenho uma amiga advogada que me diz que a violência doméstica é um tema que está na moda. Para o bem e para o mal. Como qualquer pessoa de bem, abomino qualquer tipo de violência, seja contra quem for.

Tenho o maior dos respeitos por quem é vítima desta violência. Que me perdoem as vítimas, mas pior do que ser sujeita a esta violência, é ser acusada da mesma sem o ter feito. Aliás, todas as difamações, boatos, injustiças e calúnias são imperdoáveis. Há anos, também dizia a outra amiga que um boato, difamação ou calúnia, só o tempo é que o desmonta. Não há atalho para nos livrarmos disso. Reparem nas manchetes dos jornais. Uma notícia que seja falsa pode ser publicada com toda a grandiosidade, o seu desmentido vem escondidinho em letras muito pequeninas. Ao possível agressor(a) toda a gente aponta o dedo. Toda a gente acredita na versão da hipotética vítima. Como se pode defender a pessoa que é falsamente acusada?

Ao longo dos anos já conheci várias descrições. Pessoas que foram vítimas de violência doméstica sem que eu sonhasse que era possível. A famosa tese de que o mais apto é quem agride é uma treta. Aqui a teoria de Darwin não funciona. Por vezes o mais apto é que é o agredido, porque caso contrário, aquilo que seria um episódio de violência doméstica, acabaria numa tragédia estampada nas primeiras páginas dos jornais. Depois há a questão da classe social. Antes de conhecer casos concretos, achei que estes casos só aconteciam em lares problemáticos, com dificuldades financeiras e com abusos alcoólicos. Nada mais errado. A violência doméstica acontece, sim, no seio de famílias estruturadas e intelectualmente preparadas. Os estereótipos, também aqui, não funcionam.

Depois há as vítimas de difamação. As pessoas que nunca fizeram nada que se apelide de violência, e na falta de melhor argumento, são acusados. E sim, todos estamos sujeitos a isto. Basta uma pessoa com um pouco de má-fé chegar à polícia e inventar uma história sem pés nem cabeça e somos imediatamente constituídos arguidos com termo de identidade e residência. Em Portugal, a partir deste ponto, o processo vai para o Ministério Público, a quem cabe averiguar se a queixa tem fundamento. E após algumas diligências, uma história inventada, mal contada, e mal fundamentada, não tem futuro e o processo é arquivado. Mais que não seja por causa daquela frase que eu gosto tanto e que se usa em Direito: in dubio pro reo. Mas imaginemos que estávamos nos Estados Unidos. É talvez um dos países piores para se ser apanhado com uma história mentirosa mas que é muito bem contada e muito bem fundamentada. A pessoa errada no local errado. Nos Estados Unidos estamos fritos!

Tudo isto para dizer que “no melhor pano cai a nódoa”.  O caso mais falado dos últimos dias do Manuel Maria Carrilho e da Bárbara Guimarães com acusações de parte a parte e cada uma mais inacreditável que a outra. Devemos reflectir. Como é possível, pessoas com este mediatismo, baixarem tanto o nível? Não me atrevo a fazer qualquer juízo de valor sobre quem tem ou não culpa. Quem é a vítima ou agressor. Nos dois casos que falei, as duas hipóteses são possíveis, porque foram duas situações que aconteceram com pessoas muito próximas de mim. Se não soubesse destes acontecimentos, provavelmente ainda acreditaria que todas as calúnias são verdade e que os mais aptos são sempre os agressores.  Nada mais falso. Nem tudo o que parece é. In dubio pro reo.


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Lou Reed by Patti Smith

On Sunday morning, I rose early. I had decided the night before to go to the ocean, so I slipped a book and a bottle of water into a sack and caught a ride to Rockaway Beach. It felt like a significant date, but I failed to conjure anything specific. The beach was empty, and, with the anniversary of Hurricane Sandy looming, the quiet sea seemed to embody the contradictory truth of nature. I stood there for a while, tracing the path of a low-flying plane, when I received a text message from my daughter, Jesse. Lou Reed was dead. I flinched and took a deep breath. I had seen him with his wife, Laurie, in the city recently, and I’d sensed that he was ill. A weariness shadowed her customary brightness. When Lou said goodbye, his dark eyes seemed to contain an infinite and benevolent sadness.
I met Lou at Max’s Kansas City in 1970. The Velvet Underground played two sets a night for several weeks that summer. The critic and scholar Donald Lyons was shocked that I had never seen them, and he escorted me upstairs for the second set of their first night. I loved to dance, and you could dance for hours to the music of the Velvet Underground. A dissonant surf doo-wop drone allowing you to move very fast or very slow. It was my late and revelatory introduction to “Sister Ray.”
Within a few years, in that same room upstairs at Max’s, Lenny Kaye, Richard Sohl, and I presented our own land of a thousand dances. Lou would often stop by to see what we were up to. A complicated man, he encouraged our efforts, then turned and provoked me like a Machiavellian schoolboy. I would try to steer clear of him, but, catlike, he would suddenly reappear, and disarm me with some Delmore Schwartz line about love or courage. I didn’t understand his erratic behavior or the intensity of his moods, which shifted, like his speech patterns, from speedy to laconic. But I understood his devotion to poetry and the transporting quality of his performances. He had black eyes, black T-shirt, pale skin. He was curious, sometimes suspicious, a voracious reader, and a sonic explorer. An obscure guitar pedal was for him another kind of poem. He was our connection to the infamous air of the Factory. He had made Edie Sedgwick dance. Andy Warhol whispered in his ear. Lou brought the sensibilities of art and literature into his music. He was our generation’s New York poet, championing its misfits as Whitman had championed its workingman and Lorca its persecuted.
"As my band evolved and covered his songs, Lou bestowed his blessings. Toward the end of the seventies, I was preparing to leave the city for Detroit when I bumped into him by the elevator in the old Gramercy Park Hotel. I was carrying a book of poems by Rupert Brooke. He took the book out of my hand and we looked at the poet’s photograph together. So beautiful, he said, so sad. It was a moment of complete peace.
As news of Lou’s death spread, a rippling sensation mounted, then burst, filling the atmosphere with hyperkinetic energy. Scores of messages found their way to me. A call from Sam Shepard, driving a truck through Kentucky. A modest Japanese photographer sending a text from Tokyo—“I am crying.”
As I mourned by the sea, two images came to mind, watermarking the paper- colored sky. The first was the face of his wife, Laurie. She was his mirror; in her eyes you can see his kindness, sincerity, and empathy. The second was the “great big clipper ship” that he longed to board, from the lyrics of his masterpiece, “Heroin.” I envisioned it waiting for him beneath the constellation formed by the souls of the poets he so wished to join. Before I slept, I searched for the significance of the date—October 27th—and found it to be the birthday of both Dylan Thomas and Sylvia Plath. Lou had chosen the perfect day to set sail—the day of poets, on Sunday morning, the world behind him. 

In The New Yorker

domingo, 3 de novembro de 2013

O discurso polémico do escritor brasileiro Luiz Ruffato na abertura da Feira do Livro de Frankfurt

"O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.
O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro --é a alteridade que nos confere o sentido de existir--, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.
Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas - ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.
Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, artistas plásticos, cineastas, jornalistas, escritores.
Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania --moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade--, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...
Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios --o semelhante torna-se o inimigo. 
A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.
Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados. 
Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade. 
E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.
O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais --ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples. 
A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.
Mas, temos avançado.
A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia - são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.
Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, e sim privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.
Nós somos um país paradoxal.
Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo --amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.
Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos...
Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?
Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro --seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual-- como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora."

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

True love does exist

"I left my true love in the Dominican Republic when I was very young. My family was leaving for Puerto Rico. I ended up marrying a man who did not treat me well, and moving to America. My true love is married now as well. I still talk to him, but we cannot be together. It is impossible. Maybe when we die, it will be possible. I hope that we die at the same time."
"What was the greatest day you ever spent together?"
She laughed, looked down, and said: "A week before I left the Dominican Republic, he said to me: 'If you don't come to the hotel with me, I will kill myself."


In "Humans of New York"

domingo, 27 de outubro de 2013

LOU REED 1942 - 2013

    Perfect Day

Just a perfect day
Drink sangria in the park
And then later, when it gets dark
We go home

Just a perfect day
Feed animals in the zoo
Then later a movie, too
And then home

Oh, it's such a perfect day
I'm glad I spent it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on
You just keep me hanging on

Just a perfect day
Problems all left alone
Weekenders on our own
It's such fun

Just a perfect day
You made me forget myself
I thought I was someone else
Someone good

Oh, it's such a perfect day
I'm glad I spent it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on
You just keep me hanging on

You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow
You're going to reap just what you sow

A carta emocionada de Susana de Moraes para Vínicius de Moraes

Uma carta de Susana de Moraes (primogénita de Vinícius de Moraes) para o pai:

copyright: Ana Souza Dantas

domingo, 20 de outubro de 2013

Centenário do nascimento de Vinícius de Moraes

De passagem pelo Estoril, enquanto aguardava o navio partir, Vinicius de Moraes escreveu aquele que talvez seja o mais famoso poema de sua obra: “Soneto de Fidelidade”, dedicado a Tati (Beatriz Azevedo de Melo Moraes, sua primeira mulher e mãe dos seus filhos Susana e Pedro). Este poema celebrizou-se pelo terceto final, que guarda uma das mais belas definições do amor já produzidas em língua portuguesa: “Eu possa me dizer do amor (que tive)/ Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure”.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Os bichos

Nunca tive animais de estimação. O meu pai sempre teve peixes e tartarugas. E tivemos um canário que se chamava Francisco. De resto, tirando os cães dos meus avós na infância, a minha experiência era quase nula. Quanto a gatos, durante anos detestei-os porque quando tinha 3 anos, para largar a chupeta, que eu fazia questão de a perder por todos os cantos, os meus pais decidiram culpar o gato da minha avó. Levaram-me a acreditar, tal era o vício da chupeta, que o gato tinha feito cocó nela. E do que é eles se lembraram? De colocar café em pó molhado em cima da chupeta... Durante dias o gato não pode aproximar-se de mim. E durante anos tive essa injusta aversão a gatos. O pobre do gato não teve culpa nenhuma...

Anos mais tarde conheci gatos adoráveis que até pareciam cães. E ainda tinha a esperança de poder ter um. Mas com a desculpa de durante o doutoramento não ter horas para nada, as viagens serem muitas e o meu poiso mudar a cada 6 meses, desisti da ideia.

Racionalmente, eu sou a pior pessoa para ter animais domésticos. Vivo num apartamento pequeno, passo pouco tempo em casa, gosto de liberdade, gosto pouco de ter amarras, gosto de fazer o que me apetece e muitas das vezes sem planos... Agora, vejo-me com a Bu, uma cadela bebé que não deve ter mais de 4 meses e não chega aos 5 kgs. Acho que ela deve passar o dia a dormir. Se não passa, deve sofre de insónias, como eu. Passa as noites a abanar com o rabo sentada à porta do meu quarto. Quando me apanha a dormir tenta subir para a cama. Quando estou acordada, nem se atreve a entrar no quarto. Quando tomo o pequeno-almoço partilho o pão com manteiga. No início comia tudo. Agora lambe a manteiga e deixa ficar o pão. Um dia deste deixei cair leite com café no chão. Nos segundos que demorei a limpar o chão descobri que também é uma grande adepta! Quando não faço o que ela quer, gane. Quando quer ir à rua gane também. Acabei por descobrir a diferença baseada nas horas. 





terça-feira, 15 de outubro de 2013

Os ossos do ofício

Há exactamente 9 dias, ainda a Bu não sabia andar direito na rua, nem eu a sabia guiar, aconteceu-me isto. Fomos levar uma garrafas de vinho para a reciclagem e o barulho foi tanto que ela devia ter pensado que o mundo estaria a acabar e desatou a fugir. Eu, com o susto, e por ter sido apanhada de surpresa, segurei a trela como pude... antes de a segurar, a parte de plástico bate-me na mão e fez-me este golpe. Pela localização do corte que se situa numa parte delicada por ser muito perto do osso, não pude ser suturada. O que deveria ser uma ferida pequena, foi piorando com os dias, até que me imobilizaram os dedos. Hoje, finalmente vou ver-me livre da ligadura e deixar de andar "presa".







quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Prece

Talvez que eu morra na praia
Cercada em pérfido banho 
Por toda a espuma da praia 
Como um pastor que desmaia 
No meio do seu rebanho. 

Talvez que eu morra na rua 
E dê por mim de repente 
Em noite fria e sem luar 
E mando as pedras da rua 
Pisadas por toda a gente. 

Talvez que eu morra entre grades 
No meio de uma prisão 
Porque o mundo além das grades 
Venha esquecer as saudades 
Que roem meu coração. 

Talvez que eu morra de noite 
Onde a morte é natural 
As mãos em cruz sobre o peito 
Das mãos de Deus tudo aceito 
Mas que eu morra em Portugal.

Pedro Homem de Melo

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A Bu Riscas

Faz hoje exactamente uma semana que encontrei a Bu na estrada. Um dia de sol, como tantos outros, com a S. ao lado, descíamos calmamente a Falperra até às Taipas e reparamos no que inicialmente parecia ser um cão pequenino, desorientado no meio da estrada. Não saía da estrada. Parei o carro e  fomos buscá-lo, antes que passasse à história, ou que não fizesse história de todo. Reparei imediatamente que era uma cadela. Ela encantou-se connosco e nós com ela. Não tive dúvidas. Não sei o que se me passou pela cabeça mas quis que entrasse imediatamente no carro. Foi na parte de trás com a S. a fazer-lhe festinhas o resto do caminho. Chegadas ao lab toda a gente que a viu adorou-a. Tratamos de improvisar-lhe um recipiente de água.  E nesse dia a minha vida, tal como a conhecia, mudou. Animais para mim eram seres desconhecidos. Nesse dia, comprei-lhe comida, trelas, brinquedos, desparasitei-a (interna e externamente) e dei-lhe banho. Deram-me uma bata branca velha para a levar no carro, tal era o festival de pulgas! Elas eram tantas que eu até fiquei com uma epidemia psicológica. A coceira só passou no dia seguinte.  Depois começaram as outras sagas: aprender a fazer xixi e cocó no jornal; aprender a andar na rua; regular o ritmo biológico de acordo com as idas à rua (de manhã e à noite); ensiná-la a não ganir... Até ao dia de hoje faz tudo mais ou menos com a excepção audível do ganir. Ganir é sagrado. Seja quando vou para a cama ou quando saio de casa. No primeiro e segundo dia, fez cocó e xixi por todos os cantos da casa com excepção dos quartos. Nunca a castiguei ou lhe ralhei. Foi sempre o reforço positivo: fazer a festa quando acertava! Nos dias seguintes acertou sempre e desde ontem que faz exclusivamente na rua! Grandes evoluções! Isto não seria possível, claro, sem todas as dicas preciosas de amigas experientes. Eu que nunca ia para a cama antes das duas da manhã, obrigo-me a ir a horas decentes para que a Bu faça o seu festival de voz, sem que os vizinhos percam a paciência. Às 7:30, seja sábado ou domingo, tenha ido dormir há uma hora ou a noite toda, ela dá a voz da alvorada! E eu, qual independente convicta, deixo-me dominar pelos caprichos dela. Eu que nunca saía de casa sem banho tomado, a única coisa que tenho tempo de fazer é vestir qualquer coisa, tomar a minha vacina em jejum, colocar a trela na Bu e rezar para que ela aguente até ao exterior do prédio. Das duas vezes que tentei tomar banho antes, a Bu não aguentou mais a vontade. Agora o segredo é correr bastante. Faz-me bem a mim porque retomei a actividade física e à Bu que se cansa e pode dormir bem. Depois é voltar a casa, tomar o pequeno almoço enquanto lhe atiro os ratos que ela faz questão de trazer de volta, tomar banho e rezar para que não seja um dia entusiasmado para ganir quando fechar a porta.





terça-feira, 8 de outubro de 2013

Boris Yeltsin

Saímos já tarde de Braga e ainda foi o caos para entrar no Porto. Tínhamos mesa marcada no Kyoto na Baixa para as 8 e conseguimos chegar às 8:45!!! A peça, começava às 9:30. O desespero era tanto que implorávamos que tínhamos que sair às 9:25... A verdade é que conseguimos... levar a comida num "taparueco". Conseguímos, evidentemente, chegar atrasadas...

Encontro entre o encenador Nuno M. Cardoso e o dramaturgo Mickael de Oliveira, "Boris Yeltsin" é uma incursão teatral feita de humor negro e mordaz ironia pelo lado b da vida doméstica, mas também pelo espectáculo da discricionariedade política e suas devastadoras consequências num mundo em que se festeja a falência moral e económica.

“É um relato de uma família disfuncional, com um pai, Argaménon (António Durães), vindo do ultramar, de um Portugal já longínquo, com uma visão um pouco extremada, ainda com linhas fascistas e conservadoras; uma mãe (Luísa Cruz) que ficou em Portugal, com uma visão socialista da realidade e consegue lidar melhor com a mudança e que gosta de casos extraconjugais; e um filho, Orestes, na casa dos trinta, interpretado pelo actor Albano Jerónimo, que é médico mas que vive não se sabe de quê. A família vive num conflito geracional, económico, social, político, eco do Portugal contemporâneo, entre pai e filho, onde a mãe tenta, sem sucesso, desempenhar um papel conciliador, que culmina no momento trágico da morte do primeiro às mãos do filho. Este momento trágico simboliza o gatilho de mudança para outro registo completamente diferente, que de outra forma nunca seria possível. Tal como a personagem que dá nome à peça, Argaménon está preso e é vítima de um processo que escapa ao seu controlo: o facto de o poder político não conseguir alterar realmente as coisas. 


O que está descrito acima é o que li depois da peça. Há coisas que durante a peça não percebi. Se quiserem ver o Albano Jerónimo nu durante muitos minutos aproveitem. Faz bem aos olhos! Habitualmente, dizem que as pessoas costumam ser melhores vestidas do que nuas. A Mafalda Lencastre é o contrário. Vestida fica aquém do que sem roupa. Até parece mais gorda, quando na realidade tem a magreza da juventude. Quando a peça acabou fiquei a pensar “que peça marada!”. Há por ali muito complexo de Édipo pelo meio. São claras as ligações às tragédias gregas.

E no final, como era a estreia, ainda fomos à festa no bar do Teatro Nacional São João. A S. apresentou-me o António Durães, que por sua vez, nos apresentou o Albano Jerónimo: "Olá, muito prazer, eu sou o Albano".... Dah!!! Claro que sei!!! 






terça-feira, 1 de outubro de 2013

Ser espiritual – da evidência à ciência de Luís Portela

Há duas semanas fui à apresentação do livro “Ser espiritual – da evidência à ciência” do Luís Portela apresentado pelo Nuno Sousa. O Nuno Sousa, médico, e investigador na área das neurociências, a apresentar um livro assim parecia uma antítese. Afirmou que este livro não é anti-ciência e refugiou-se no senso-comum da questão: “o que é uma boa obra?”. E no caso pessoal, citou um seu professor: “Como sabes que desta uma boa aula?”. Referiu que uma boa aula é aquela que desperta a curiosidade, que nos leva a procurar. E terminou a dizer que depois de ter lido este livro sentiu-se curioso.

O Luís Portela começou por elogiar o Nuno Sousa, a quem chamou “força da natureza”. Disse que este era “o seu livro”. Dedicou-se à Bial. Foi escrevinhando uns textos para a Visão e para o JN que foram posteriormente compilados em livro. Sentiu que aos 60 anos tinha o direito de fazer na vida aquilo que lhe desse mais prazer. Intensificou a busca  que lhe interessou nos últimos 50 anos. Referiu que gosta desde os tempos da juventude de religião, ciências nestas áreas, yoga, budismo e leitura comparada da Bíblia. Mistérios e milagres que não tinham resposta lógica aos olhos da ciência convencional. Foi para Medicina para explicar muitas das dúvidas espirituais e que a ciência pudesse dar resposta. Foi professor de psicofisiologia e ia fazer o doutoramento em Oxford. Devido à morte prematura do pai, aos 27 anos foi para a presidência da Bial. Prometeu a si próprio que iria apoiar a investigação nesta área. Após 5 anos, a Bial criou o Prémio Bial. Após 10 anos, criaram a Fundação Bial para apoiar projectos de investigação científica, principalmente na área da Psicofisiologia. O conselho científico da fundação é constituído por 30 personalidades do mundo científico e são eles que seleccionam os projectos.

A primeira razão da escrita deste livro, para Luís Portela, foi a partilha da sua forma de pensar, o prazer dessa partilha. Este livro pretende ser um sinal de alerta. O que andamos aqui a fazer. Um esforço para se entender de onde se vem e para onde se vai. Levanta o tema que cabe à ciência descortinar, levantar o véu da verdade, cabe à ciência dar um esclarecimento. Defende que estamos neste mundo para aprendermos e que cada pessoa vai evoluindo mais ou menos consoante se esforça mais ou menos. Não acredita no acaso. Acredita no passado. Afirmou que desde a antiguidade existem descrições de pessoas que vêem imagens, que ouvem e sentem coisas que a maioria não vê, não ouve e não sente. Descrições de contactos com um mundo para além do mundo físico. Existem inúmeras descrições de pessoas que passaram por condições perto da morte. Pessoas que viram o seu corpo físico mas não se reconheceram e observavam-se fora dele. Relatam os túneis. E depois consciencializam-se que a sua missão ainda não acabou e regressam ao mundo físico. Falou de cientistas que estudaram apenas crianças em vários locais do mundo que referiam vidas passadas. Defendeu que a ciência pode até ser relutante em aceitar estes casos mas que não percebe a razão de não os estudar. Falou ainda de psiquiatras que usam a regressão para explicar situações traumatizantes e descreveu duas situações impressionantes que ele próprio assistiu. Para além disso, referiu a transcomunicação instrumental, que nunca tinha ouvido falar. Teve a humildade de dizer que este livro não tem nenhuma verdade científica final mas factos que precisam de ser mais estudados. Falou-se ainda da parapsicologia que não é ainda uma ciência mas uma disciplina da ciência. Citou-se ainda Abel Salazar: “Nada do que é estranho ao Homem pode ser estranho à Medicina”.


E eu termino a fazer a pergunta que queria ter feito mas não houve tempo para a colocar: o que distingue afinal um esquizofrénico de uma pessoa que vê, ouve e sente coisas que a maioria não consegue?




segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O rescaldo das autárquicas

Sem surpresas, o partido do governo foi o maior derrotado da noite. Apesar de não ser o governo que estava em avaliação, os votos de protesto e desagrado vão sempre contra o partido que governa. Foi assim desde sempre. Quem não se lembra da célebre demissão de António Guterres com a afirmação: “o país cairia num pântano se eu não me demitisse”.
A vitória  de Rui Moreira foi a vitória de uma forma de fazer política. Não vender sonhos, despesismo e prometer o que não se pode. Muitos notáveis do PSD apoiaram-no (Miguel Veiga, Valente de Oliveira e Rui Rio). Luís Filipe Menezes foi uma péssima escolha como candidato do PSD pelo Porto. As dívidas que deixou em Gaia vão falar por ele nos próximos tempos. Acho que agora era tempo de regressar ao anonimato e à  profissão que não exerce há muito tempo. Talvez aí seja útil ao país.

A maioria absolutíssima de António Costa também não foi surpresa para mim. O Fernando Seara era um candidato fraco para Lisboa. E volto aqui a referir que esta história da lei da limitação dos mandatos tinha que ser completamente esclarecedora. Se a lei os permitiu candidatar, a soberania do povo, encarregou-se de os penalizar!

Ricardo Rio, apesar de não ter tido tempo de antenas nos canais que vi, teve uma vitória histórica em Braga. Só espero que a partir de agora Mesquita Machado seja bem investigado e se consiga apurar como é que ele e a sua família conseguem justificar a posse de bens muito superiores aos ordenados que auferem...

Escandaloso foi o resultado em Oeiras. Como é possível, o concelho com mais licenciados do país, logo seria esperado que fosse mais instruído, reagir à vitória do “seguidor” de Isaltino Morais (que está preso por corrupção) com gritos “Isaltino, Isaltino”. Li inclusive que dezenas de viaturas estiveram junto ao Estabelecimento Prisional da Carregueira, em Sintra, a celebrar a vitória de Paulo Vistas à Câmara de Oeiras. Está tudo doido?

O PSD na Madeira perdeu estrondosamente, também. Sinal mais do que óbvio para a renovação de outro dos “dinossauros”. Finalmente o povo da Madeira disse basta a um monopólio do Alberto João Jardim. Seria tão mais bonito ter saído pelo próprio pé e na hora certa... do que a partir de agora, empurrado.


Excelentes notícias ontem foram as vitórias de Rui Costa (campeão do mundo de ciclimo na estrada) e João Sousa (1º português a vencer um torneio ATP). Um orgulhos para todos os portugueses!

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Eleições autárquicas

Se eu votasse em Lisboa, o meu voto iria para António Costa. Nas eleições municipais há mais claramente a percepção do que foi feito. E não podemos dizer que Lisboa está pior. Lisboa, está de facto melhor. Para além disso, a equipa deste candidato parece-me muito boa, na sua maioria. Só não simpatizo com o José Sá Fernandes. Quanto a Fernando Seara, não vou alongar-me em críticas nem explicá-las. Só refiro que este candidato, tais como tantos outros, beneficiaram de uma lei propositadamente ambígua para que suscitasse a dúvida na sua interpretação. Esta lei poderia ter sido clarificada pelos deputados. Eles assim não quiseram e deixaram para os juízes  o poder da dúbia interpretação. Desconheço na totalidade a  obra de Fernando Seara na Câmara de Sintra e o seu desempenho como presidente. Mas as declarações dos parafusos e o “tu, pour moi, viens de charrette”... sem comentários...

O Luís Filipe Menezes é outro dos que não teria o meu voto, pela mesma razão, e não só. Como presidente da Câmara de Gaia foi um despesista. Quem ganhar as eleições que assuma as dívidas. Como Presidente do PSD foi uma nulidade. Já para não falar do lamentável discurso que teve há uns anos num célebre congresso do PSD que queria apelar ao pequenismo e bairrismo do norte acusando os companheiros de partido de “sulistas, elitistas e liberais”... Saiu do palco debaixo de apupos e assobios. Espero muito sinceramente que o Rui Moreira seja o vencedor. Para mim tem o melhor programa, tem uma carreira que fala por ele, tem apoiantes de peso e um Vereador da cultura que de certeza absoluta vai deixar marcas no Porto, como o fez, na Capital Europeia da Cultura em 2001.

Por último, a cidade onde vou votar, Braga. Há décadas governada em regime feudal por Mesquita Machado e companhia. A cidade rainha dos elefantes brancos, dos parques de estacionamento subterrâneos, e agora quase toda a superfície paga. Dizem que é a cidade dos arcebispos mas para mim é a cidade dos empreiteiros. Agora, coitados, por conta da crise declararam todos insolvência e foram procurar ares melhores, como os africanos. Uma cidade em que o crescimento habitacional cresceu em sentido contrário ao da qualidade arquitectónica. Há uma zona de Braga que parece o Cacém. Serviu para enriquecer empreiteiros, agentes imobiliários, empresários... Uma cidade em que as relações promiscuas entre política,  futebol e religião nunca se distinguiram. Conheço mal o Ricardo Rio. Mas acho impossível alguém fazer pior do que o seu antecessor. Cultura em Braga é zero. Com uma das mais belas e equipadas salas do país (Theatro Circo) é uma vergonha ser ultrapassada por cidades vizinhas populacionalmente menores como Guimarães e V.N. Famalicão. Braga tem uma das maiores e mais bem classificadas universidades portuguesas mas há um fosso gigantesco entre o campus e a cidade. Para não falar da recolha de lixo que parece da época mediaval. Não existem contentores nas ruas para lixo orgânico. Os sacos de lixo são colocados nas calçadas das ruas, à espera que os recolham, e que os animais (que também são uns dos mais afectados pela crise)  não os desfaçam à procura de comida.


Quanto à possível gigantesca abstenção só digo uma coisa: imitemos o Brasil. Já que as pessoas não sabem valorizar o quanto é importante votar e ter esse direito que pode mudar o seu mundo, as pessoas deviam ser punidas se não o fizessem. Provavelmente muito pouca gente se lembra que as mulheres antes do 25 de Abril não tinham direito de voto. Hoje, democraticamente, podem decidir não votar. Se não se identificam com nenhuma candidatura, existe sempre o voto de protesto, branco ou nulo.Agora, não votar, é um atentado à democracia. Se fosse eu que mandasse era como no Brasil: multa e passaporte suspenso enquanto não a pagarem. E aí veríamos quem não votaria. A desculpa esfarrapada do bom tempo e da praia serem o maior amigo da abstenção cai por terra este ano... o mau tempo impera!

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O olhar vazio

[Este texto foi escrito no dia 15 de Setembro]


Estou sentada numa das mesas do café do Centro de Arte Moderna (CAM) na Gulbenkian. São 4 da tarde. Tenho à minha frente uma salada com quatro escolhas, uma mousse de chocolate, e para piorar, uma coca-cola. O café do CAM está a abarrotar. Almoços tardios em família, casais de turistas, nenhuma mesa individual, excluíndo a minha.Ao meu lado tenho uma mesa grande, com uma família, com o que parecem ser os pais, duas filhas com os respectivos maridos e os netos. Um dos homens (que só poderá ser genro ou filho) está numa das pontas da mesa e é o único que não participa na conversa. Não sei do que falam, nem acho isso importante. Mantém-se à parte do mundo. O olhar dele é para o vazio. Não está ali. Está distraído no seu mundo. Ele continua à margem. Impecavelmente vestido, cabelo cortado, grisalho, barba de 3 dias, parece-me estar depressivo. Não fala, não partilha, não ri, não demonstra emoção. Só o olhar o distingue dos outros. Imperturbável. O que sente? O que o incomoda? Os mais pequenos foram pegar-lhe na chávena de café e ele não se manifesta. Tem umas mãos lindas, uns dedos compridos, unhas impecavelmente cuidadas. Mexe nas mãos, olha para elas. Provavelmente para se manter à parte, suponho que escolheu estrategicamente, o lugar na mesa. Reparo que não usa aliança. Mas isso não significa nada. Será ele também um dos filhos? Será solteiro? Ou casado com alguém da mesa? Ou divorciado? Levanta-se, caminha cabisbaixo e os pés parecem arrastar-se. Despede-se de algumas das outras pessoas sem entusiasmo. Sai sem eu conseguir perceber a história dele. Sai e eu fico com estas dúvidas que nunca vou desfazer.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O Poeta

Estaciono o carro em frente ao meu prédio. Passam das 7 da tarde e já não preciso de colocar moedas. Saio do carro e vejo o “Poeta”(arrumador, mendigo, vive na rua, boa pessoa, toxicodependente) correr em minha direcção. Lembro-me que a única moeda que tenho é de 2 euros. Nem hesito, lanço a mão ao bolso e estendo-lhe a moeda, ao mesmo tempo que chega ao pé de mim e cumprimenta-me:
- Então? Está boazinha? Esta semana ainda não teve nenhuma multa! [Obrigada poeta por me relembrares das dezenas de multas de 10 euros que apanhei nos últimos tempos!].
Ao mesmo tempo que diz isso, olha para a moeda que lhe dei e atira:
- Olhe, vou ser sincero, de todas as pessoas da sua família você é a mais generosa! Olhe que eu também sou generoso, eu também dou esmolas. Quando fiz anos dei 5 euros aquele magrinho que está em frente ao Pingo Doce. E ainda dei mais dinheiro ao Adriano, aquele borrachão, que tinha saído nessa semana do hospital”.
O “Poeta” lá me agradeceu mais uma vez e saiu a correr em direcção a uma senhora para a ajudar com as compras.

Na semana passada ia ao Pingo Doce e encontrei o meu pai. Seguimos juntos e aparece o “Poeta”, que adora o meu pai desde que o viu na bomba de gasolina a enganar-se e trocar o gasóleo pela gasolina. Desde esse dia o “Poeta” nunca mais esqueceu o meu pai e sempre q o vê fala nisso
- Olá! Olha quem está aqui! O seu paizinho e a troca da gasolina.... – e dá-nos um aperto de mão a cada um com as mãos que pareciam da cor do chão.
- Sabem que eu hoje faço anos?
Eu, como sempre, dei-lhe uma moedas. Neste dia, especialmente, fui mais generosa. O meu pai pergunta-lhe quantos anos faz. Eu dou-lhe uns 50 anos, talvez mais, mas imagino que não ande nem lá perto. Fazia 41! E vira-se para mim e diz-me que devo ter uns 26. Eu não falo mas penso: «Ó “Poeta”, se eu já simpatizava contigo, a partir de hoje, estás cá dentro! Dás-me quase menos 10 anos! Obrigadinha, pá!». Vou começar a ficar insuportável! Estou cheia de cabelos brancos, e mesmo assim, não me dão nunca a idade que tenho! E lá seguimos, felizes, cada um pelo seu motivo.


terça-feira, 24 de setembro de 2013

Domingo de afectos e arte

Acordei relativamente cedo para um domingo. Desci para o pequeno-almoço. Por mais coisas, apetitosas ou não, o meu pequeno-almoço é sempre o mesmo: leite com café e pão com manteiga. Nunca escolho, é sempre mecânico.Felizmente, este hotel, não aderiu à revoltante “moda” daquelas máquina de café e leite instantâneo que fazem tudo e em que tudo sabe ao mesmo. Enquanto as pessoas nos sites dos hotéis preocupam-se em avaliar o número de coisas por metro quadrado que encontram para comer, a minha avaliação incide unicamente na qualidade do leite, se é instantâneo ou não, e na qualidade do pão. Tudo o resto para mim são artefactos.


 Pequeno-almoço tomado e foi só atravessar a Av. da República para ir ao Centro Comercial do Campo Pequeno comprar um presente para o mais novo bebé que conheço. Tenho péssimo jeito para estas coisas. Fui cheia de entusiasmo e boa-vontade à loja, que tinha previamente pesquisado, na internet. Levava inclusive no tablet o que queria comprar. O que eu havia gostado não tinham. Requisitos: qualquer coisa que se comparasse a um boneco e que tivesse música. Depois de ver alguns, apaixonei-me pelo rato (tinha bigode e tudo!!!). [“Rato” era como os meus pais me chamavam até à minha adolescência. Provavelmente o nome deve-se ao tamanho e peso insignificantes, semelhante a um rato, com as minhas 1600 g quando nasci. Mas como a adolescência é acompanhada sempre por dose máxima de estupidez, dei o meu grito de Ipiranga, e proibi os meus pais de me chamarem “Rato”. Passadas a estupidez e a adolescência, quis voltar o tempo atrás e que voltassem a chamar-me “Rato”... não mais consegui... acho que só o consigo quando estou doente...]. Adiante, posso também dizer que os ratos são a imagem de marca da minha investigação durante o meu doutoramento. Daí estas duas ligações afectivas profundas que me fizeram cair de amores por aquele rato da loja. Não estive mais do que 10 minutos na loja mas a senhora que me estava a atender parecia estão num dia mau ou não gostar do que estava a fazer. Sempre que eu pedia opinião ou questionava se o dito animal tinha música, se era indicado para menino ou menina, de que animal se tratava...Tudo questões simples, era o que fazia. Fiquei muito decepcionada porque a senhora era brasileira e geralmente os(as) brasileiros(as) são sempre simpáticos(as). Como a minha paciência estava a esgotar-se pela falta de paciência dela, e o rato não tinha música, decidi-me, à pressa, por uma abelha (que não parecia uma abelha mas que tinha música). E afinal, uma das mães adora abelhas, pelo menos nisso, não estava a errar!

Segui para a Gulbenkian com o objectivo de conhecer o La. Uma perfeição! Em duas horas não o ouvi mas consegui ver-lhe os olhos! Lindo de morrer! Dizem que os bebés são todos iguais. Não acho, acho é que há uns que nos arrebatam mais do que outros. Percorremos os lindos jardins da Gulbenkian  e aquilo que parece uma vegetação tropical cheia de sombras, recantos, riachos, jardins, arbustos, esconderijos, anfiteatros, caminhos...




De tarde fui ao Museu da Cidade. Voltei, depois, à Gulbenkian, ao Centro de Arte Moderna (CAM) para a exposição do Amadeo de Souza Cardoso. Uma colectânea de imensos quadros deste pintor, nas suas mais diversas fases. Alguns deles já os tinha visto na exposição conjunta Amadeo + Mondrian. Para quem ainda não foi, aqui fica o desafio, a não perder!









segunda-feira, 23 de setembro de 2013

António Ramos Rosa (1924-2013)

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só

com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só


Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço


Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida num quarto só


António Ramos Rosa, O Grito Claro, 1958

Segundo dia do encontro “Portugal europeu. E agora?

Cheguei atrasada para a conversa com o Prof. Adriano Moreira. Como a sala era muito pequena já não pude entrar...Contentei-me no fim de trocar umas breves palavras com tão ilustre pessoa, que apesar de atrasado para outro evento, ainda aceitou simpaticamente assinar o livro autobiográfico. Directamente para o coffee break ainda me cruzei com o Prof. João Lobo Antunes, bastante mais magro e com o look da moda entre os homens, de barba.

Fiquei-me pelos sofás a ler o DN até à hora de almoço.  Entrei no imenso pavilhão e encontrei o Ruben Alves a falar com a Fernanda Freitas. Sentei-me ao lado dele. E almoçamos com conversas de Braga a NY, de Paris à Costa da Caparica, da noite lisboeta, do inverno húmido de Portugal... A sintonia decorreu “regada” do tão americanizado hábito de coca-cola com gelo, partilhado por ambos!

Seguimos para a conversa entre o maestro Rui Massena e José Alberto de Carvalho. Este encontro foi para mim o mais imprevisível e o mais adorado! Uma conversa com muita música, onde se falar de arte, de compositores, de silêncio, de vozes. Ver o Rui Massena tocar piano como se de uma guitarra portuguesa se tratasse foi emocionante.  Assistir José Alberto de Carvalho tocar “Let it be” foi surpreendente. E depois vê-los tocar juntos um compositor francês, do qual não me lembro do nome, foi para mim que sou de lágrima fácil, a cereja no topo do bolo. Os momentos imprevistos são sempre os melhores!








A última palestra que assisti foi “Café das artes” com Ruben Alves, Bárbara Coutinho, Rui Massena e moderado por Fernanda Freitas. Quando se lhes pediu para definirem o “seu café” Rui Massena disse que era o café de casa, onde gostava de receber e estar com os amigos. Fartei-me de rir quando disse que como é que as crianças podem gostar de música quando lhes espetam com a flauta no ciclo? “A flauta tira logo a vontade para a música”.
Bárbara Coutinho disse que o “seu” café era o oposto ao turismo cultural por onde passaram grandes nomes. Gostava de um café da Caparica – Costa Nova e do Luso no Porto. Gosta do Martinho d’Arcada e de cafés onde é conhecida.
Ruben Alves destacou o café de bairro de Lisboa, onde diariamente, quando está cá toma o pequeno-almoço.  Não o faz em Paris. Em Lisboa ainda há a conversa e a partilha, coisa que não acontece nos cafés de Paris.
Discutiu-se a cultura. Se quando as massas aderem à cultura diminui a qualidade.  Que não nascemos apenas para sobreviver. E que isso passa muito pela cultura, pela arte e pela educação. Estamos apenas a dar pão e circo? É preferível ler má literatura a não ler de todo? Ou ouvir má música do que não ouvir nenhuma?




À noite tinha que optar pelo concerto do Rodrigo Leão no Jardim da Estrela exclusivo para 400 pessoas ou pela peça de teatro “Preço” de Artur Miller no Teatro Aberto...Difícil escolha. Nunca escolho, quero sempre tudo!







sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Lisboa que anoitece

(...)
«A noite é cega, as sombras de Lisboa 
São da cidade branca a escura face 
Lisboa é mãe solteira 
Amou como se fosse a mais indefesa 
Princesa 
Que as trevas algum dia coroaram


Não sei se dura sempre esse teu beijo 
Ou apenas o que resta desta noite 
O vento, enfim, parou 
Já mal o vejo 
Por sobre o Tejo 
E já tudo pode ser 
Tudo aquilo que parece 
Na Lisboa que “anoitece”»
(...)



 

Fotos tiradas do terraço do Bairro Alto Hotel


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