sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Nicholas Peppas

Na semana passada esteve na Universidade do Minho um dos melhores cientistas área, Nicholas Peppas. Foi o orientador de doutoramento de um dos meus orientadores de doutoramento. Começou por dizer que não faz ciência para publicar artigos. No entanto, tem 1300 artigos publicados e tem 63 anos.

Fez uma palestra que começou a falar de pessoas e acabou a falar de pessoas. Este é o objectivo da ciência e da investigação: descobrir qualquer coisa que melhore a vida das pessoas. Falou de coisas tão banais como gostar há anos atrás de passar fins de tarde na biblioteca, no tempo em que não havia acesso digital aos jornais científicos. Como devemos falar de negócios com investidores. Como um cientista pode fazer figura de parvo quando explica a sua descoberta a um investidor.

Nicholas Peppas é um grego com nacionalidade americana, tem o dom da palavra como só os americanos têm. E ele, grego de nascimento, aprendeu o melhor dos americanos: o dom da palavra.Saiu da Grécia para se doutorar. O objectivo era voltar à Grécia e ser o melhor professor na sua área. Nunca mais voltou definitivamente. Conta histórias, mesmo que muitas vezes pareçam ser tiradas do argumento de um filme. E ainda por cima é culto. Conhece muito bem opera e até já escreveu livros com essa temática. Tive um professor no secundário que dizia que ser bom escritor na área das letras era muito fácil, excelente era ser bom escritor quando a formação era em ciências. Exemplos dessa grandeza são os nossos Miguel Torga, António Gedeão (Rómulo de Carvalho), António Lobo Antunes.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Toward fixing damaged hearts through tissue engineering

É sempre muito bom quando vemos o nosso trabalho reconhecido. Este é o resultado de um ano de investigação em NY, Columbia University. Muitas horas de discussão, muita reformulação de ideias, algumas hipóteses, muito trabalho, muitas horas, muitas leituras. Este trabalho foi também muito inspirado pelos doentes que por mim passavam no Presbyterian Hospital. Pensar diariamente nos milhares de doentes que sofrem de doença cardíaca e em todos os que poderemos ajudar, isso é o que me faz não desistir e lutar diariamente conta as adversidades. Como me dizia um colega hoje "Afinal o dinheiro que foi investido na tua investigação parece que não foi mal gasto". Não há nada melhor do que termos o reconhecimento dos melhores. Para ler mais, aqui fica o press release da American Chemical Society:

Biomacromolecules
In the U.S., someone suffers a heart attack every 34 seconds — their heart is starved of oxygen and suffers irreparable damage. Engineering new heart tissue in the laboratory that could eventually be implanted into patients could help, and scientists are reporting a promising approach tested with rat cells. They published their results on growing cardiac muscle using a scaffold containing carbon nanofibers in the ACS journal Biomacromolecules.
Gordana Vunjak-Novakovic, Rui L. Reis, Ana Martins and colleagues point out that when damaged, adult heart tissue can’t heal itself very well. The only way to fix an injured heart is with a transplant. But within the past decade, interest in regenerating just the lost tissue has surged. The trick is to find materials that, among other things, are nontoxic, won’t get attacked by the body’s immune system and allow for muscle cells to pass the electrical signals necessary for the heart to beat. Previous research has found that chitosan, which is obtained from shrimp and other crustacean shells, nearly fits the bill. In lab tests, scientists have used it as a scaffold for growing heart cells. But it doesn’t transmit electrical signals well. Vunjak-Novakovic’s team decided to build on the chitosan development and coax it to function more like a real heart.
To the chitosan, they added carbon nanofibers, which can conduct electricity, and grew neonatal rat heart cells on the resulting scaffold. After two weeks, cells had filled all the pores and showed far better metabolic and electrical activity than with a chitosan scaffold alone. The cells on the chitosan/carbon scaffold also expressed cardiac genes at higher levels.
The authors acknowledge funding from Fundação para a Ciência e TecnologiaPOPH-QREN—Advanced Formation, the European Social Fund, the National Fund and theNational Institutes of Health. The work was a collaboration between Columbia University and 3B´s - University of Minho, Portugal.

"A maioria das minhas colegas de escola cumpriu o seu destino profissional, com êxito ou normal; sobretudo cumpriu o seu destino de esposa burguesa, bem instalada, com filhos loiros. Desde cedo soube que isso não me interessava. Porque me parecia que o mundo era muitíssimo maior."

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A vergonha

Eu, tal como muita gente, mas principalmente tal como o João Miguel Tavares (com quem partilho muitas das opiniões), na passada sexta-feira, tive vergonha da democracia portuguesa. Não tenho vergonha de ter contribuído com o meu voto para eleger os deputados do PSD (mas podia ter tido, caso tivesse tido oportunidade de votar). Mas, principalmente, vergonha de quem “inventou” um referendo  à última da hora por puro oportunismo político, já depois do projecto de lei ter sido aprovado na Assembleia da República.  Hugo Soares “lançou-se” como o arauto do referendo mas desconfio que não passa de um fantoche que só cumpre ordens e abana com a cabeça. É que a pouca preparação que demonstra ter, mesmo com formação em Direito, envergonha qualquer pessoa. Nem a defender o “seu” referendo mostra-se à vontade. Vazio de ideias é o que me parece. O debate em que participou na TVI24 com a Isabel Moreira foi um KO sucessivo do princípio ao fim. Como se diz na minha terra de nascença (ou nossa, para minha vergonha) o Hugo Soares levou uma coça da Isabel Moreira.

Hugo Soares é mais um jotinha que foi subindo na hierarquia do seu partido, muito provavelmente, por lamber botas. Acresce que não é um grande orador ou um grande argumentador. Não se lhe conhecessem desempenhos profissionais, fora da política, relevantes. A minha grande questão, que continua sem resposta, é: qual é o objectivo de propor um referendo “em cima do joelho” a mando do boss ao boy Hugo Soares?
Tenho vergonha de quem aceitou a disciplina de voto numa matéria de consciência individual. O projecto de lei tinha sido aprovado com os votos a favor de mais de uma dúzia de deputados do PSD. Onde estão eles? O que lhes aconteceu para mudarem de opinião? Não me lembro em matérias tão delicadas de não haver liberdade individual. Estamos numa ditadura? O pastor ordena e o rebanho vai atrás? Palmas para a Teresa Leal Coelho que esteve à altura da sua consciência e dos eleitores. E palmas para os militantes do PSD que não tiveram receios de criticar o referendo, entre eles, Marques Mendes, Pacheco Pereira e José Eduardo Martins. Se ouvir mais alguma vez algum deputado ou governante do PSD invocar a crise para poupar em qualquer coisa, a minha arma de arremesso será sempre o referendo.

As famílias de duas mães e dois pais existem. Ninguém as poderá apagar ou fazer desaparecer. A única injustiça é que não estão protegidas pela lei. E é nisto que os deputados que votaram a favor do referendo deveriam envergonhar-se: esta situação existe, não vai mudar. O que esta lei da co-adopção pretende mudar é o direito de uma criança ter no papel o que existe na realidade.Agora, para quem ainda não percebeu o que está em causa: Um casal criou junto um filho e apenas um dos cônjuges é mãe/pai biologico (a). Separam-se. Todos sabemos como muitas pessoas se transformam nas separações/divórcios. Que direito tem o conjuge que apesar de ter sido pai/mãe, que passou noites a fio em claro quando o filho estava doente, que acompanhou ao médico, que o protegeu? Neste momento, o direito sobre a criança que criou é zero. Agora imaginem outra situação: imaginemos a morte de um dos membros do casal que é pai/mãe biológico da criança. Que direito tem o membro que sobrevive?


Estas famílias já existem. Só temos que lhe dar um direito que lhes pertence. Não custa nada. Não prejudica ninguém. Não faz mal a ninguém. Quem for a favor continuará a ser e quem for contra poderá continuar a sê-lo, democraticamente.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A vida de Adele

A história deste filme que conquistou a Palma de Ouro em Cannes é desconcertantemente simples. “A vida de Adele” antes de estrear já era polémico Fizeram um grande alarido à volta de uma interminável cena de sexo. Muitos acharam-na exagerada, ou longa demais, ou explícita demais. Mas não é só esta. Não as contei nem me lembro exactamente, mas há pelo menos, mais três. Mas o que tem de demais é o fato delas nos perturbar  Mas se me perguntarem do que mais me lembro do filme, não é de certeza, das cenas de sexo. Para aprumar ainda mais a polémica, as protagonistas do filme acusam o realizador de as maltratar, juntamente com a equipa,  durante a produção. Polémicas à parte, este filme é excepcional. E na minha opinião “a star was born”, Adele.

O filme retrata um amor à primeia vista, com o êxtase das paixões, a catarse, a exploração, a descoberta, até ao tédio da estagnação.  Este filme não relata o preconceito  mas a relação entre as duas personagens. Quase nunca abordando o preconceito social da homossexualidade, aborda vincadamente  a  dinâmica da relação, o que resulta e não resulta, as compatibilidades e as diferenças, os mundos e as visões das personagens. Chorei como uma Maria Madalena neste filme. Não sabia como era o fim mas a actriz que interpreta Adele (e que também se chama Adele na vida real) tem um papel tão marcante que a sua expressão é um pronúncio do fim do filme.

Adele tem horizontes limitados e apesar de viver com uma visionária, contenta-se com o que tem. Para ela um amor e uma cabana bastam-lhe. E quando o amor dela deixa de lhe dar a atenção que precisa, ela vai encontrar o que lhe falta noutro colo. Só que isso precipita o fdim de tudo. A personagem de Adele é quase desde o princípio do filme, aquela que se pretende abraçar. Está sempre em desvantagem, parece correr atrás da vida, a uma velocidade menor do que a acção.


Depois de três horas, continuei a chorar baba e ranho. E o final não é à Hollywood, é cru como toda a realidade.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Mara Gabrilli – Depois daquele dia

Milly Lacombe é uma contadora de boas histórias. Sobretudo conhecida pelas suas crónicas mensais na Revista TPM, pelas críticas literárias na Folha de S. Paulo e pelas reportagens/ opiniões como free lancer para os mais diversos jornais brasileiros.  Milly, descreve-se assim, brevemente: “Eu vivo de escrever porque não sei fazer mais nada na vida. Se soubesse, pararia de escrever e ia ganhar algum dinheiro”. Precisa de mais palavras? Viveu 7 anos em LA, voltou para o Brasil, onde se solidificou como escritora e voltou a sair, desta vez, rumo a NY, onde vive. A sua escrita está recheada de detalhes e pormenores, de emoções, de quotidiano, de ironia, de muitas figuras de estilo e muito humor.

Não me lembro exactamente como conheci a escrita da Milly Lacombe mas acho que me fizeram chegar uma das suas (muito bem escritas) crónicas da revista Trip. Quem me conhece bem sabe que eu sou apaixonada por biografias e crónicas!

A biografia de “Mara Gabrilli – Depois daquele dia” foi escrita entre encontros e jantares com a escritora e biografada: “Durante quase cinco anos, que foi o tempo que demorei para escrever o livro, eu fui para casa agradecendo ao universo pela chance de poder contar a história dela, e pedindo força e inspiração para fazer isso da melhor forma possível. É uma história sublime, edificante, espetacular e linda. Eu não podia errar (...) Foi uma tremenda responsabilidade (...) eu quero que a história dela seja conhecida por multidões. É uma história que precisa ser contada, uma história que pode mudar vidas, que pode inspirar e fazer a gente entender o mundo, e aprender a aceitar o ritmo das coisas. A Mara, e a chance de contar sua vida num livro, foi um presente que me deram e pelo qual eu agradeço todos os dias”.

Mas o que tem esta biografia de tão especial: “a história é a de um resgate espetacular, a verdadeira jornada do herói (...) acho que pode interessar a portugueses, irlandeses, americanos, chineses: trata-se de experiência humana universal (...) Uma menina rica e mimada que quebra o pescoço voltando da praia aos 26 anos e imediatamente aceita a nova condição. Depois de anos de reabilitação ela decide se candidatar para tentar ajudar outros que tenham a mesma deficiência mas não o mesmo saldo bancário. Se fosse ficção seria inverossímil, mas o bom é que a realidade não precisa fazer sentido”.

A Milly, que para além de uma excelente escritora, é uma excelente pessoa, enviou-me este livro para ler. Aqui fica a minha opinião, muito aquém do verdadeiro entusiasmo de o ter lido. E esperemos que daqui a pouco alguma editora portuguesa se interesse pela publicação deste livro em Portugal.

O livro começa com a descrição do acidente e tudo se desenrola com a vida de Mara, antes e depois, porque era muito mais do que o acidente. Começa de forma  dramática e  a partir dali o livro vai recuando e adiantando, conjugando passado, presente e futuro, como só a Milly sabe fazer. Quem conhece a escrita de Milly Lacombe reconhece o seu estilo neste livro e principalmente as pitadas de humor.

Com essa história que tinha tudo para ser triste e trágica,  Milly Lacombe mostra-nos o intenso processo de superação e adaptação de Mara. O livro conta o acidente no qual Mara fica tetraplégica. Usa uma forma muito dinâmica repleto de analepses e prolepses. Mistura passado, presente e futuro. Muita verdade, muita coragem, muito exposto e muito despido de preconceitos é como pode ser descrito, de uma forma simplista. Com o decorrer da leitura, Mara parece ser uma super-mulher, que supera obstáculos como se não fosse tetraplégica, com uma vontade de lutar que não parece humana, com um optimismo que não parece real. Mas depois disto, aparecem os defeitos, as discussões, as manias, que chega até a dar raiva. Mas o livro é muito mais do que isto. Mostra que Mara continuou com a sua vida profissional agitada, que manteve os seus relacionamentos, vida sexual e passou a ajudar os outros que não têm as mesmas condições financeiras que ela.

No filme Mar Adentro (baseado em factos reais, realizado pelo espanhol Alejandro Amenábar, em 2004), o personagem de Ramón Sampedro, vivido por Javier Bardem, luta pelo direito à eutanásia depois de uma fractura semelhante à de Mara a ao mergulhar no mar. Mexer apenas a cabeça não é para ele viver. Dois casos semelhantes com atitudes perante a vida tão diferentes.  Mara, não só não desistiu de viver como acha que a vida vale a pena (mesmo só mexendo a cabeça). Desde o acidente não pára mais de se mexer: criou a ONG que ajuda pessoas com dificuldade de mobilidade, candidatou-se a vereadora, foi nomeada secretária municipal e depois deputada federal.


A nossa vida pode mudar de repente, sem aviso prévio, e  radicalmente para pior. Nem todos estamos preparados e nem todos sabemos lidar com isso. Sobretudo, quando esta mudança limita o desempenho físico e actividades quotidianas. Tudo o que aprendemos desde que nascemos deixa de existir. De uma forma minimalista, é disto que se trata esta biografia: reaprender a viver, aceitar e não se revoltar. Ler este livro, não fará mal a ninguém, muito pelo contrário. É um murro no estômago. Depois de lermos este livro não ficamos indiferentes. Fazendo minhas as palavras da Milly, muitos dos relatos deste livro parecem inverosímeis, mas a verdade  “é que a realidade não precisa fazer sentido”.


domingo, 12 de janeiro de 2014

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O meu pai

Uma semana antes do Natal fui ao batizado da M. A M. é filha da M. e neta da F. são a minha família de coração e não de sangue. A F. é uma quase irmã da minha mãe. O coro na igreja era constituído apenas por crianças e primos da M. O padre que batizou a M. é um grande amigo desta família S. que foi em tempos padre da freguesia de S. João do Souto em Braga. No fim do batizado o Padre V. disse que tinha batizado uma pessoa que estava naquela igreja e que tinha 60 anos, o JL. Já no restaurante, a minha mãe disse ao Padre V. que ele nos tinha batizado, a mim e ao meu irmão. E quando soube que eramos filhos do meu pai disse: "Conheço o V. desde rapaz. Sempre foi muito bom moço. É uma jóia de pessoa. Vocês tratem bem o vosso pai que é uma grande pessoa". Eu já sabia disso! Mas quem não fica feliz quando se ouve um elogio assim sobre o nosso pai?

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A minha memória de Eusébio (1942-2014)

Ao contrário do Sócrates, que inventa memórias, eu conheci pessoalmente o Eusébio na campanha eleitoral de 1995 em Braga. Na altura, tinha eu 16 anos, acabava o cavaquismo e eu aderia à juventude de um partido. Nos tempos livres que nos sobravam fazíamos de tudo: arruadas, agitávamos bandeiras, oferecíamos de tudo, íamos a jantares... E numa das tardes, o Eusébio esteve em Braga a distribuir bolas e t-shirts autografadas. Nesse dia, fizemos um cordão humano para proteger o Eusébio da multidão. E nesse dia deu para perceber a simplicidade dele. Suava em bica mas queria agradar a todos. Que me lembre, não mais tornei a estar pessoalmente com ele.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A vida não pára

Passei o ano pela primeira vez na cama. Acho que nem em bebé o fiz porque, como nasci e Maio, já tinha 7 meses... Não perguntei aos meus pais, mas a passagem de ano de 1979/1980 devia ter sido feita no colo de alguém. Tosse e falta de ar atiraram-me para a cama como já não me lembrava. Asmelhoras têm sido lentas. A respiração melhorou mas a tosse piorou. A Bu vinga-se de ser ignorada fazendo várias vezes xixi no chão. Passou, por rebeldia, a ignorar o jornal. A Bu passou o ano comigo porque os meus tios têm um cão que é ciumento e é melhor não provocar confrontos. De qualquer das formas, os meus sobrinhos, passando pouco da meia-noite, passaram por aqui para levá-la. O espectáculo auditivo começa quando ela regressa e os meus sobrinhos vão para a casa da mãe. Nesses dias, a Bu, entra num pranto que dura horas.

No ano passado duas das minhas melhores amigas tiveram filhos. Na semana antes do Natal soube que um dos meus melhores amigos vai ser pai de gémeos!! Outro casal de amigos vão ter a C. em Abril. Estas notícias fazem-me sempre transbordar de alegria. A crianças são o símbolo da renovação, da esperança e do futuro. Há melhor alegria do que esta?

No dia 24 fui visitar uma amiga com cancro em estado terminal ao hospital. Antes de entrar no quarto disse à minha mãe que não chorasse em frente a ela e que estivesse preparada para o aspecto físico. Já não a via há mais de um ano. A pessoa que eu fisicamente conhecia, desaparecera. Apesar de uns 30 kgs mais magra, muito frágil, com problemas em respirar, a pessoa que eu conheci estava ali. A alegria de nos ver foi tão notória. Que alegria! Apesar da fragilidade e do estado, estava com um ânimo que me fez colocar em perspectiva a minha vida. Ainda tinha planos, ainda falava das consultas a que iria e ainda pensava voltar para casa. Elogiou tanto o serviço de Oncologia do Hospital de Braga, e todas as pessoas que a tratavam. Estava a ser tratada como uma raínha, nas palavras dela. Tinha sido encontrada pelo filho na cama desmaiada. Sobreviveu a essa crise. Eu, de mãos dadas com ela, contava-me que a hora dela ainda não tinha chegado. Ainda assisti à neta receber os quadros que mandou fazer com os desenhos de quando era criança. Obviamente que sabia que este seria o último Natal. Os meus pais ainda a visitaram no domingo e estava ainda mais animada. Falava até em voltar para casa e assar cabrito. Hoje de manhã a minha mãe ligou-me a dizer que a C. morreu. Apesar de todas as adversidades da vida, tinha sempre uma palavra de força e optimismo. Tinha uns olhos e um riso lindos. Depois de uma conversa com ela, tudo ficava melhor. As pedras no caminho eram sempre ultrapassáveis. Pessoas como a C. deixam muita saudade e fazem muita falta ao mundo.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O sistema nacional de saúde (SNS)

Juro que a próxima vez que ouvir falar mal do SNS português: vou insultar ou segurar-me para não bater na pessoa que o estiver a fazer. Há umas semanas, a Clara Ferreira Alves falou na sua crónica no Expresso, a propósito de um artigo do "The New York Times”  que falava da exorbitância do que se paga no sistema americano por um simples corte na cabeça que nem de sutura de linhas precisou.

Em 2006, quando estive a primeira vez em Houston, a fazer parte do meu doutoramento, fui parar ao hospital com um enxaqueca dilacerante. Depois de ter acordado às 5 da manhã, num domingo, para começar uma experiência às 6 porque tinha almoço marcado com amigos em “Indian Town”. Almocei comida indiana quase nativa, que para o comum dos mortais, deve ser prejudicial, imaginem para mim que (dizem que)sofro da vesícula. E à noite, como se não bastasse, comi pasta italiana caseira. Cheguei a casa com uma dor de cabeça latejante... Não sei se foi de ter madrugado e ter dormido pouco, se foi da comida indiana, se foi do vinho italiano. Até hoje não sei a razão do “se”. O que sei dizer é que como a dor só aumentou, não tive como n telefonar a umas amigas, sendo uma delas na altura estudante de medicina. Levou-me para o E.R. de um hospital que me lembro que se chamava de St Luke’s. Tenho que realçar que Houston é mundialmente conhecida pelo MD Anderson Center, um dos mais prestigiados hospitais de tratamento de cancro e também pelo seu Medical Center. Eu estava com uma enxaqueca tão grande que antes dessa, só uma fora tão má, que me obrigou a estar uma noite inteira no hospital porque suspeitavam de um problema neurológico. Quando cheguei ao hospital, não o achei nada como aqueles que se via nos filmes, nem em número de médicos, nem na assistência, nem na azáfama e nem no tamanho.  A sala de espera parecia de um pequeno centro de saúde. A única coisa que estranhei foi não ver doentes nem médicos. E por isso,  estranhei a demora a atenderem-me. Fui chamada para a triagem, que foi feita por um enfermeiro, na qual me fez um interrogatório sem fim e me mandou preencher papéis, que eu naquele estado, não sabia preencher. Pedi uma cama. Colocaram-me às escuras num quarto, como pedi. Num hospital, que parecia vazio, a médica demorou uma eternidade a assistir-me. Não tenho noção de quanto tempo esperei, mas não foi pouco. A médica, que até era simpática, antes do exame neurológico, fez-me um interrogatório. Começou pelas óbvias questões das drogas ilegais e foi por aí adiante. Eu repeti-lhe várias vezes que estava a morrer de dores de cabeça. E ela, quando finalmente terminou, disse que me iria prescrever codeína + tramadol. E aí eu comecei a ver outra luz! E prescreveu-me vicodin (sim, essa droga na qual o Dr. House é viciado) para SOS. Quase que me abracei a ela de tanta alegria! Deram-me a injecção intramuscular e obederam ao protocolo da vigilância. Quando saí do hospital já não articulava bem as palavras. Dormi quase 48 hrs seguidas, e quando finalmente acordei, tinha os lábios rebentados. Nunca cheguei a perceber se por causa das drogas legais ou por causa da vesícula/ fígado... Os meus amigos médicos que me perdoem, mas não sou expert... A parte pior chegou umas semanas depois, quando me apareceu a conta do hospital... Pelo que percebi, o seguro pagou uma parte, e a parte que eu teria de liquidar ultrapassava os 400 dólares (isto em 2006)... Podem imaginar o meu desespero, de um “tombo” destes no meu parco orçamento de aluna de doutoramento!!

Anos depois, já em NY, tinha uma amiga em minha casa. Fomos jantar a um restaurante grego, e entre sangrias, peixe e pão, terminamos a noite a beber vinho do Porto num bar em Hell’s Kitchen. Posso garantir, que apesar de parecer que enfrascamos muito, isso não aconteceu. No dia seguinte a minha amiga teve uma dor de barriga. Uma dor localizada que depois se começou a espalhar. De tarde, por conselho de outro amigo, estudante de medicina fomos ao Presbyterian Hospital/ Columbia Medical Center. Podia ser uma apendicite. As urgências deste hospital, por onde eu passava quase sempre, quando saía a horas tardias do lab pareciam verdadeiramente os E.R.s que vemos na tv. Desde baleados, drogados, grávidas, quedas de crianças... de tudo vi ali. E sim, este serviço parecia sempre activo. A minha amiga foi colucada numa maca a soro. Começaram por lhe dar qualquer coisa para beber para fazer um CT.  Não tinham certeza de nada. Podia ser apendicite, mas também podia ser uma pancreatite, ou nenhuma das duas. E as horas foram passando. Eu e o meu amigo quase médico, enquanto ela esperava deitada pelo diagnóstico, fomos as nossos labs, e ainda tivemos tempo de jantar. Quando voltamos tinha mudado de sítio. Estava agora próximo das secretárias dos médicos. A médica que a estava a assistir ia acabar o turno. Era interna de anestesiologia e morava no prédio do meu amigo quase médico. Desde esse dia passou a perguntar-me como estava a minha amiga e a dizer-me “olá” nos corredores. Até hoje, não me esqueço que se chama Emily. Durante a madrugada, entre TACs, injecções para as dores... fomos passando o tempo. Ainda nos ofereceram de comer, sandes e sumos, e ainda umas cadeiras. Eu e o meu amigo ainda tivemos tempo de ir a um café em frente ao hospital, Jou Jou. E ainda tivemos tempo de ver a chefe de turno a “flirtar” um dos especialistas de serviço no café.  Tive ainda tempo de adormecer com a cabeça pousada em cima da cama da minha amiga. E de ser acordada pela médica para me dizer que como a minha amiga tinha um excelente seguro de saúde, iria ficar internada. Disse-me que iria dar-lhe morfina e que seria transferida de serviço. Quando lhe estravam a administrar a morfina, o médico disse-lhe para avisar quando ela começasse a sentir o efeito. A seguir a isto, mandaram-me para casa passava pouco das 6 da manhã.  Umas horas depois regressei ao hospital e a C. estava internada mas estava quase a ter alta. Os quartos eram individuais, pareciam quartos de hotel, a cama era toda automática, inclusive dava para pesar. Tinha casa de banho privativa. E mais uma vez, sumos e sanduíches não faltavam. A conta, vim a saber depois, foi astronómica. A C. tinha um excelente seguro de saúde pago pela Harvard University. Mas sabem por quanto ficou estas pouco mais de 24 hrs? Mais de 5000 dólares.

Quando ouço alguém a queixar-se do nosso sistema de saúde apetece-me dizer-lhe a sorte é que não têm acesso à factura detalhada... e alguém paga essa conta sem os próprios nunca saberem o valor real das coisas...

domingo, 15 de dezembro de 2013

O fim de semana ideal

Fui buscar os meus sobrinhos a casa da mãe na sexta. Estava com a S. Os meus sobrinhos adoram o meu carro. E toda a conversa a caminho de Braga foi à volta disso. A S. conheceu-os nesse dia. Fartou-se de rir com eles principalmente quando o meu afilhado lhe disse:
-Gosto de tudo de carros, de chaves de carros e de lavar carros!

Quando chegamos a casa dos meus pais, o meu irmão já tinha ido buscar a Bu. Os meus sobrinhos deliram com a Bu. E o mundo para a Bu pára quando vê os meus sobrinhos. Pediram para ficar com ela. E eu não tive como não deixar porque ela é uma vendida e troca-me, sem nenhuma dificuldade, por eles.

Ontem, os meus sobrinhos foram passear com o meu irmão pelo centro e encontraram muitos amigos. Quando chegou a vez de andarem no comboio de Natal, o motorista não queria deixar a Bu entrar. Ao que o meu irmão lhe disse:
-Ou entramos todos ou não entra ninguém.
Perante este cenário, o motorista não teve outro remédio a não ser autorizar a Bu entrar...
Quando chegou a hora do conto na Centésima Página, o meu irmão teve que levar-me a Bu a casa porque, aí sim, não tinha hipótese de entrar. O meu afilhado, perante este cenário, já não queria ir à hora do conto. Queria ficar em casa comigo e com a Bu. Lá tive que entrar no carro e ir com eles. O meu irmão ficou com a Bu a passear nos jardins da Avenida Central e eu fui com os meus sobrinhos à livraria. Chegamos atrasados, como quase sempre, e o conto tinha terminado. Mas ainda chegamos a tempo de uma actividade. As crianças todas sentadas num tapete a construir uma colagem de um anjo de Natal.

O K. é uma simpatia. Mal chegou, entrou no meio da roda de meninos, sem qualquer receio. Sem ninguém lhe perguntar nada disse, em voz alta, o nome dele, que tinha uma cadela que se chamava Bu, e ainda apontou para trás para mostrar a titi e o irmão. O meu afilhado é o oposto. Não se quis sentar junto aos meninos se eu não estivesse com ele. É um anti-social como a madrinha. Para ele uma dezena de meninos é uma multidão. Passamos o resto do tempo a colar o anjo de Natal e o meu afilhado ainda desenhou a cara. Quando os meninos todos sairam fiquei eu, o K., o afilhado e ainda um pai com um filho com uns 9 meses. Os meus sobrinhos adoram bebés. E o introvertido do meu afilhado perdeu a vergonha com o pai do menino que se chamava Vasco.
- o meu avô chama-se Vasco - disse o afilhado
- E tenho uma cadela que se chama Bu e que faz muitas asneiras. Fez cocó no sofá da avó e roeu o tlm da titi, até comeu a tampa!
O pai do Vasco só se ria e o Vasco saltava enquanto o pai o segurava debaixo dos braços. O meu afilhado ainda teve coragem para mais uma coisa:
- Posso pegar no Vasquinho?
E o Vasquinho lá andou, com a ajuda do pai, entre os colos o K. e afilhado.

Depois de jantarmos na casa dos avós fomos para casa. Queriam ver o aviões mas por problemas técnicos acabaram a ver montagem de legos no tablet. Eu no meio, e os dois homens da minha vida, um de cada lado. Eu, que costumo ser uma friorenta, parecia estar nos trópicos, tal era o calor! Quando o afilhado adormeceu, o pai veio buscá-lo para a cama dele. A Bu, ignorando quem é a dona e quem a salvou de um futuro que não parecia muito risonho, trocou-me facilmente para ir dormir no quarto do afilhado. Ainda fui chamar por ela mas ignorou-me completamente. Acabei a dormir com o K. que é um verdadeiro aquecedor mas que, felizmente, não ressona. Adormeci tarde, como sempre, depois de muito ler.

Sei que o toque de alvorada foi pouco depois das 7 porque tenho uma vaga memória de ter ouvido, ao longe, o meu afilhado e o meu irmão a tomarem o pequeno-almoço. Eu continuei a dormir acompanhada pelo mais velho que dormia ocupando quase a cama toda.... e eu sem reclamar. Por volta das 11 acordamos com a Bu a saltar para cima de nós.

Fomos almoçar com os avós e à tarde os meus sobrinhos foram ao cinema com o pai ver "Frozen". Nem preciso descrever a cena da Bu de cada vez que os meninos se vão embora. Dá dó! Chora, soluça, uiva, raspa as patas na porta... nunca vi devoção maior.

copyright: Centésima Página

copyright: Centésima Página

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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A destruição

A Bu, que está quase a tornar-se adulta, faz cada vez mais asneiras. Quem a vê pessoalmente, à primeira vista, é inofensiva e tem um ar muito meigo e doce. O problema da Bu são os vícios. Meias, ténis, chinelos, peluches, pão, rolos de papel, fotografias, bolas de ténis só, para escrever alguns. Todas as meias que encontra leva-as para a cama. Não lhes encontro encontro estragos, ainda não percebi o que faz com elas...Nos ténis interessa-lhe particularmente os atacadores. Os peluches é um misto de os trincar com cheirar, mas a verdade é que não os destrói, só lhes arranja uns defeitos. Fotografias e bolas de ténis é para roer até não sobrar nada. A porta da casa de banho nunca pode ficar aberta porque a Bu adora desenrolar o papel higiénico e fantasiar-se! A Bu não é grande apreciadora da comida seca que lhe sirvo diariamente. Acho que só a come quando não aguenta mais a fome. O que ela delira é com pão.


Mas o inimaginável aconteceu no domingo! Por vezes, deixo o telemóvel a carregar em cima do balcão, na cozinha. Foi o que fiz no domingo de manhã. Só que o problema é que, em vez, de o desligar quando acabei de tomar o pequeno almoço, deixei-o todo o dia. O fio do carregador devia estar a cair ligeiramente. Imagino que a Bu olhasse para o fio e desafiou o seu físico para tentar alcançá-lo. Devia ter sido isso que fez. Quando cheguei a casa à noite não reparei que o telemóvel não estava no sítio que o tinha deixado... Quando me baixei para ver o que estava no chão, no meio de várias coisas destruídas, encontrei o meu BB!! Estava irreconhecível... Respirei fundo e não me descontrolei. Percebi que funcionava... contentei-me com pouco... E a Bu olhava-me com aquele ar tão terno dela...













quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O espírito natalício

Chego a casa de madrugada e tenho na minha cama 3 homens e a Bu. Os dois pequenos, um de cada lado, com o pai no meio. A Bu acordou comigo a abrir a porta e espreguiça-se. A tv está acesa no Disney Channel. O pai muda-se com o mais velho para o quarto deles e deixa-me com o mais novo. A Bu, essa ingrata, segue-os e instala-se confortavelmente no fundo da cama do meu sobrinho mais velho. E eu, qual dona rejeitada, ainda me ponho feita parva a chamar por ela... A Bu, muito bem instalada, o único gesto que faz é levantar a cabeça e ignorar-me... Volto cabisbaixa para a cama e contento-me em dormir com o homem que nunca me abandona. Para este “piqueno” tudo o que eu faço é que está bem feito e tudo o que eu tenho é que é bom! Depois é capaz das questões mais espantosas. Como ele vê uma pilha de dezenas livros na mesa ao lado da minha cama, que mais parece a torre de Pisa, tal o equilíbrio que parece lutar contra a gravidade e não desabarem como um baralho de cartas: “Para que servem estes livros todos quase a cair?”.
- Para eu ler.
-Mas não os lês todos ao mesmo tempo... podiam estar onde estão os outros (quer ele dizer nas estantes.

E eu dou comigo a pensar que ele tem razão mas não sei como lhe explicar que o meu interesse momentâneo por aqueles livros não é directamente proporcional à velocidade que os consigo ler... E daí, aquela pilha que se amontua com o passar dos dias...
De manhã fui dar com ele, mais a sua inseparável chupeta e fralda, a olhar para o pinheiro que o pai e o irmão tinham feito no dia anterior.
-Afilhado, a árvore está bonita.
- Está mas não fui eu que a fiz. Foi o K. e o pai. (Lá sinceridade não lhe falta). Eu gosto é de olhar.

O artista da casa levanta-se e vai contemplar a árvore. Ao contrário do irmão não se limita a olhar. Arranja as bolas, os pais Natal, as fitas, como se alguém lhes tivesse mexido. E depois, com um grande sorriso, continua a contemplação.

São 7:45 da manhã e dois dos homens da casa estão acordados. E eu que não adormeci antes das 4...


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

valter hugo mãe no 14º aniversário da Centésima Página

A apresentação do livro “Desumanização”, o mais recente de valter hugo mãe, começou pela classificação de estranho. Para quem conhece os livros de valter, este é muito diferente e é isso que causa a tal estranheza. A principal diferença centra-se na deslocalização no espaço. O hino  à portugalidade e Portugal que são sempre tão caros a valter, desaparecem neste livro. A escrita fluída dos seus livros também não existe neste. Os personagens são islandeses. Daí a impossibilidade de qualquer comparação. Nada pode separar tanto um povo. Depois, a imagem visual é quase um inédito. As palavras neste livro parecem mais escolhidas. Este livro parece um grande poema . Quase uma oração ou evocação.

Quando o valter começou a falar referiu a intensa relação que tem com a Centésima Página. Uma relação pessoal, segundo ele, muito antiga que “antes de ser conhecido já as pessoas desta livraria acreditavam em mim”. E disse também  que acha que esta livraria é uma das mais bonitas do mundo.

Valter começou por dizer sobre este novo livro que procura escrever livros que não sejam redundantes, que não sejam um livro “parte 2”. Procura escrever livros onde “não haja receitas”. Segundo o próprio, andava há muito tempo a ganhar coragem para escrever um livro que não parecesse um português a escrever sobre a Islândia, mas um islandês. Acrescentou que os livros não vivem do relato puro e simples. A trama deste livro não é a grande questão. O que lhe interessa é a intensidade e que os personagens sejam reais.

Cresceu a pensar que a Islândia era um país de fantasias, crendices estranhas, mitologia e do universo fantástico. Realçou que os islandeses foram capazes de derrubar um governo e fazer os banqueiros pagar a crise. A Islândia tem um inverno agreste e um verão que é uma tristeza. É um país interior, enclausurado. Tem 300000 habitantes, menos que a população do Porto, mas é o país que tem o maior número de orquestras do mundo.Toda a gente fala inglês fluente “com o sotaque da Bjork”. São uma comunidade absolutamente letrada. Foi o único país do mundo que fez um referendo no Facebook. É um país totalmente desburocratizado, com uma “anarquia prática” a “piscar o olho aos EUA”. Os islandeses viajam para a Dinamarca, para o sul de Espanha e para NY. Os islandeses não são nada simpáticos mas são extremamente eficientes no seu local de trabalho. No horário de trabalho, um pedido é sempre atendido. Os códigos de intimidade dos islandeses não são iguais aos nossos. São muito pouco receptivos.

A morte está muito presente neste livro. Muito mais do que em qualquer outro livro anteriormente escrito pelo valter. Quando lhe perguntam sobre a morte: “Tudo na vida tem que ver com a morte”. Literariamente tenta que a morte seja boa. A morte pode ser a nossa grande oportunidade”.


Sobre o amor, diz que ficou de tal maneira sufocado por este que o próximo livro que escrever não terá amor nenhum.Será muito pragmático e seco. (Apesar de eu achar que era a brincar). Disse que se sentia “um triste”. Que inventa todos estes “amores assolapados” e depois vai para casa “chuchar no dedo”.





sexta-feira, 22 de novembro de 2013

J.F.K., TRAGEDY, MYTH

«“My favorite poet was Aeschylus.” So Senator Robert F. Kennedy, speaking to a traumatized crowd in April of 1968. Kennedy had come to a poor black neighborhood in Indianapolis to make a routine campaign speech, but learned en route that Martin Luther King, Jr., had been assassinated; it fell to the New York senator to announce the dreadful news. As he struggled to find appropriate language for the day’s carnage—which, of course, would inevitably have recalled to his mind, and the minds of his audience, the assassination of his brother John five years earlier—it was to Aeschylus’ “Oresteia” that Kennedy turned, the grand trilogy about the search for justice in a world filled with metastasizing violence. In the verse he quoted, the Chorus of city elders ponders the meaning of violence and suffering:
Even in our sleep, pain which cannot forget
falls drop by drop upon the heart,
until, in our own despair,
against our will,
comes wisdom
through the awful grace of God.
Kennedy concluded his remarks with an exhortation to heed the wisdom of the ancient classics: “Let us dedicate ourselves to what the Greeks wrote so many years ago: to tame the savageness of man and make gentle the life of this world.” That the savageness could not be tamed was demonstrated, with a dreadful Greek irony, three months later, when Kennedy himself was murdered. The lines he cited on the night of King’s death were used as the epitaph on his own tombstone.
R.F.K.’s allusion to the Greeks turned out to be prophetic. However Jacqueline Kennedy may have labored to make Camelot the official myth of the Kennedy Administration, when we have tried to make sense of the Kennedys and their story—to try to find the larger, “mythic” structure beneath the details—we have turned to the Greeks; to Greek tragedy, in particular. It’s not hard to see why. Athenian drama returns obsessively—as we do, every November 22nd—to the shocking and yet seemingly inevitable spectacle of the fallen king, of power and beauty and privilege violently laid low. Many tragic plots, moreover, revolve around the ramifications of family curses, of “original sins” committed by a patriarch that come back to haunt later, innocent generations. Both of these narratives, in their different ways, haunt the story of the Kennedy family and of the assassination in particular.
The family-curse theme, especially, is one we like to invoke in thinking about the Kennedys. The motif is nowhere stronger than in the “Oresteia” itself, the text that Robert Kennedy quoted that April evening forty-five years ago. When the Chorus speaks of suffering and pain, it looks as if they’re referring to current events: the queen Clytemnestra’s plot to murder her husband, Agamemnon, in revenge for his decision to sacrifice their virgin daughter Iphigenia to win from the gods favorable winds for his fleet to sail to Troy. But this act, it turns out, is merely a grim continuation of a cycle of carnage that goes back generations, as the Chorus knows only too well: to Agamemnon’s father, Atreus, who murdered his brother’s children; to Atreus’s father, Pelops, who won his bride by violence and betrayal, and was cursed by the man he betrayed; to Pelops’ father, Tantalus, a king so favored by the gods that he used to dine with them, until he murdered his own son and fed his flesh to his divine hosts to test whether they were, in fact, all-knowing.
In many tragedies—certainly in the plays of Aeschylus and Sophocles—the gods are indeed all-knowing, are pulling the strings unbeknownst to the mortals whose lives they control: works like the “Oresteia” or the “Oedipus” (whose hero learns, to his horror, that he cannot escape the “plot” the gods have written for him) seem to confirm an invisible but palpable order in things. We, too, often seek to discern a kind of order—to find a plot—in the hodgepodge of events we call history. When people talk about the harrowing catalogue of sorrow and violent death in the Kennedy family—not only the uncannily twinned assassinations but the wartime mid-air explosion that killed J.F.K.’s older brother, Joseph P. Kennedy, Jr.; the two airplane crashes, his sister Kathleen and his son, J.F.K., Jr.; the lobotomy and institutionalization of a sister; Chappaquiddick; the murder scandal involving a nephew of Ethel Kennedy; the drug addictions and early deaths of some of R.F.K.’s children—they often mention, in the same breath, thealleged crimes of the family patriarch, Joseph P. Kennedy. (The bootlegging, the election-fixing, the Mob connections, Gloria Swanson.) In referring to a “Kennedy Curse,” they are, essentially, thinking “tragically”: thinking the way Aeschylus thought, assuming that there is a dark pattern in the way things happen, a connection between the sins of the fathers and the sufferings of the children and their children afterward.
The tragic conviction that there are long-hidden reasons for the fall of kings finds its most extreme expression, today, in the obsessive desire to find “plots” of another kind in the Kennedy story: here you can’t help thinking of the conspiracy theories. With their Rube Goldberg-esque ingenuity, their elaborateness directly proportional to their preposterousness, these can end up looking suspiciously like madness. (That other favorite tragic subject.) But the impulse to expose, to bring secret crimes to light, to present evidence of deeds done in the past to an audience in the present, is one that itself lies at the heart of Greek drama. You could say that all tragedy is about the process of discovery, of learning that the present has a surprising and often devastating relationship to the past: King Oedipus, faced with a plague on his city, is told by an oracle that he must find the killer of the previous king, only to learn, as the play unfolds, that it was he. Another way of saying this is that all tragedy is about the way that we live: slowly uncovering the deeper meanings of things, often long after we can do anything about them. However extreme its manifestations over the years, the tragic yearning to go back, to get it right this time, to use our present knowledge to understand what we couldn’t understand then, is a vital part of our response to the Kennedy drama—another reason why it remains so insistently alive.
* * *
But if the Kennedy backstory reminds us irresistibly of tragedy and its gloomy theodicies, J.F.K. himself powerfully recalls a key character from epic—from Homer’s Iliad, the grandest of epics and the source for so many tragic plots. But the character he reincarnated isn’t the one so many people think of.
The lynchpin of the poem is the semi-divine Achilles, a marvelously gifted young warrior; an insult to his honor in Book 1 sets in motion a train of events that, two-thirds of the way through, results in the death of his bosom friend, Patroclus, at the hands of the Trojan prince Hector. Achilles subsequently takes revenge, slaying Hector in combat and desecrating his unburied body—knowing all along that his own death is fated to follow Hector’s. Many readers are familiar with the poignant choice that Achilles has made—to die young and gloriously rather than live a long, uneventful life—and to a large extent that choice has, since Homer, defined our understanding of what heroism is. As a result, the temptation to identify J.F.K. as an Achilles figure is great. One reason we return obsessively to his story is, indeed, that it feels like a real-life affirmation of the primitive wisdom we recognize in Achilles’ famous choice: that human life is a zero-sum equation, that glory comes at the high price of a short life.
And, yet, if J.F.K.’s story resonates strongly for us, it’s because he reminds us of a slightly less glamorous—but equally powerful—character: Hector. Achilles is a free agent, a loner—an only child whose aged father is back home in Greece, far from the action, a warrior who thinks first and foremost of, about, and for himself. (Obsessed with his honor and reputation, he shows no great esprit de corps.) Hector, by contrast, is characterized from the start as bound up in a web of political, social, and family relationships: he is the prince of the city, on whose shoulders its defense depends (“Hector” means something like “the one who holds things together”), the dutiful son of the aged king and queen, Priam and Hecuba, the responsible older brother to numerous siblings (not least the playboy Paris) whom he must often whip into shape, and, above all, the husband of a beautiful young wife, Andromache, and the father of an enchanting child, Astyanax.
So while Achilles has the glamor of extremity, it is Hector, more than any other character, who feels real to us, bound by competing obligations, anchored to his world and its claims. Homer poignantly dramatizes this conflict between the warrior’s public and private selves in a famous scene in Book 6. Here, Hector comes off the battlefield to seek out his wife and infant son, but the baby recoils in terror from his father, who, still in armor, is unrecognizable to the child. It’s only when Hector removes his helmet that the family unit can cohere once more.
For this reason, when Hector dies, he dies not only as a warrior and a prince but also as a husband and a father. Whatever we now know about his personal life (and however reckless his foreign policy may now seem), at the time of his death J.F.K. was very much a Hector figure: the battle-tested hero of the PT-109 incident, the defender of his city—and also, as thousands of photographs and television clips seemed to demonstrate, the charming family man with the perfect wife and the enchanting children. The loss of such a person afflicts us both as citizens and as individuals: his death is a trauma both to the nation and to his family. Because it is a trauma, we constantly revisit it, as much to convince ourselves that such a thing could happen as to hope, each time we go back, that it might turn out differently.
* * *
There is another larger and culturally more vital narrative that the events surrounding J.F.K.’s death share with the Iliad. When we talk about November, 1963, we are referring not just to the assassination but to the entire weekend: the brutal red murder, the roses lying abandoned and drenched in gore, the blood-stained stockings, the shocked absorption of the news, the grim business of handling the body, conveying it and preparing it for burial; and then, gradually, amidst the horror and confusion, the reassertion of order and ritual, the lying-in-state, the military guard, the procession of heads of state, the black-clad widow, the children in their Sunday best, the tiny salute, the religious ceremony, the cemetery, the bugle, the shots, the folded flag. (John-John’s iconic salute is poignant for the same reasons that Astyanax’s recoil from his helmeted father is: in both cases, the intrusion of the military and its symbols into what ought to be the cocooned realm of the domestic sphere—of childhood itself—strikes us as unbearable.)
The arc from harrowing carnage to high ceremony structures the final third of the Iliad, too. After Achilles slays Hector, the hero, maddened by grief for his lost comrade, drags the body back and forth before the walls of Troy (where the dead man’s family and countrymen watch in anguished horror, like the audience of a tragedy) and around the tomb of Patroclus. The desecration of the dead body, the refusal to obey religious convention and give it back to the family for burial, is a mark of Achilles’ inability to let go of—to “bury”—his own grief. In the end, the gods themselves insist on what we might call “closure,” pointing out that even a man who loses a brother or a son “grieves, weeps, and then his tears are done.” In the final book of the poem, the aged king of Troy, Priam, ransoms his dead son’s body from Achilles, takes it home to the walled city, and there gives it a proper funeral.
After the trauma of Hector’s death and the ongoing degradation of his body, there is an odd courtliness about the exchange between Priam and the man who killed his son, a sudden, wrenching flowering of civilized behavior. (A truce is called so that the Trojans can leave their walled city and go into the surrounding forests to cut wood for Hector’s funeral pyre.) As if to remind us of that other world far from the mayhem of battle, the funeral itself is dominated by the women in Hector’s life, who are the only eulogists. His mother speaks, his wife speaks, and even Helen, whose actions precipitated the war in which he died, speaks. Then the body is burned, the bones are gathered and buried. The last line of the entire epic, with its mad quarrels and awful carnage and odd moments of privacy and tenderness, its battles and sex and scheming, emphasizes the importance of the ceremonial closure: “This was the funeral of Hector, breaker of horses.”
The end of the Iliad is, in other words, a narrative about grief yielding to mourning, about the way in which civilization responds to violence and horror. This dark solace is one that only culture can provide. Our endless need to replay the events of November, 1963—by which I mean all of the events, from Friday to Monday—is not only about a perverse, almost infantile need to revisit a scene of primal horror (although our own refusal to let go of Kennedy’s body—expressed most strongly in our endless looping of the Zapruder film, which, like a tragedy, turns the death of the king into a kind of entertainment—certainly shows an Achilles-like unwillingness to bury the past). It also bears witness to our desire to hear once again a very old tale that is not only the story of a fallen warrior and how he died but the story of what we did after he fell, of how the bloodied body is washed and anointed and clothed and grandly entombed and eulogized. (All of these activities presided over, in 1963 as in antiquity, by the attentive widow, alert to the symbolic power of ritual details.) It is a story, in the end, that only civilization can tell, one in which, however miraculously, calamity is alchemized into a kind of beauty.
* * *
Epic itself, a poem that we listen to (or, now, that we read), a beautiful work about often ugly things, war and madness and violence, is an example of that alchemy. So is tragedy, which often takes the stories we know from epic and turns them into something we watch—into spectacles of suffering and death that, through the mystery of art, become both ennobled and ennobling. Many commentators over the years have remarked on the special role that television played in our absorption of the news of that weekend, from the first blurry bulletins on Friday afternoon to the meticulously directed images of the funeral. But what’s telling is that, fifty years later, we watch—with a fascination apparently undimmed by the passage of five decades—the same news bulletins, the same footage, the same “news,” although, of course, it is no longer new.
This suggests that the conclusion to be drawn is not about “the role of the media”—about news and how we get it—but about drama: about our need, as ancient as the Greeks, to see certain elemental plots reënacted before our eyes, at once familiar but always fresh. As superficially shocking as their outcomes may be, these plots tell us things about the world that we know (or at least suspect) to be true: that nature can avenge herself brutally on culture (“Bacchae”), that hidden sins of generations past visit suffering on the next generation (“Oresteia”), that rulers and heroes who are remarkably brilliant and gifted are often crippled by secret flaws (“Oedipus”), that innocent young girls will be sacrificed to the ambitions of greedy men (“Iphigenia”).
And, of course—the oldest tragic plot point of all, the plot that some believe to be at the root of tragedy as a genre, the reason why drama exists in the first place—that the king, the beautiful, powerful, élite, and talented figure on whose glittering figure all eyes are happy to rest, in whom we seek a model ruler, warrior, husband, and father, is, by virtue of those very excellences, conspicuous, marked out as a sacrificial victim. Hero and victim: our ambiguous relationship to the great—our need to idolize and idealize them, inextricable from our impulse to degrade and destroy them—is, in the end, the motor of tragedy, which first elevates and then topples its heroes; not coincidentally, it has characterized our half-century-long response to the Kennedy story, oscillating dizzyingly, as it has done almost from the start, between idealization and demystification.
And so the present keeps replaying the past, repeating those old stories, the narratives that lurk behind the plays and myths, tales and characters so hard-wired into our cultural circuitry that we can forget why we knew them in the first place. But when they reappear, we recognize them. This is why, when certain real-life calamities do occur—the sinking of the Titanic, the death of Diana, Princess of Wales, the murder, in broad daylight during a civic spectacle, of John Fitzgerald Kennedy on this day half a century ago—they feel less like aberrations than like fulfillments. Millennia before, they played out in real life, we were writing the scripts, waiting for them to come true. The question isn’t why we keep going back, after so many years, but how we could do anything else».

Daniel Mendelsohn in "The New Yorker"

O Kitty

As palavras da P., dona do Kitty: "E assim passaram mais de uma dezena de anos.. O Kitty que foi gata uns anos, que mais parecia um coelho pelo seu tamanho, que se portava como um cão e que se achava um leão albino na caça ao insecto.. assim passaram os anos com os tratamentos espoliantes faciais matinais e ‘podológicos’ sempre que possíveis dada a sua obsessão compulsiva por pés que trazia a verdadeira euforia na abertura da época das havaianas, com as nossas idas ao WC sempre acompanhados, as esperas religiosas todos os finais de tarde sentado na porta de casa como se de um cão se tratasse, bem como os pedidos para ‘ir à rua’ mesmo sabendo que eram escadas ou jardim, as turras e oitos nas pernas, os momentos de glória de cada vez que alguém se sentava no sofá, a paixão pelas mantas e pela nossa cama, enfim.. a nossa sombra. Desde ontem que mais uma estrela brilha no céu.."


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Maria Rueff sobre António Lobo Antunes

Para toda a gente que não teve oportunidade de assistir pessoalmente a este momento de pura arte. O escritor e o seu livro que salvaram a leitora. O escritor é o António Lobo Antunes, o livro é "A memória de elefante" e a leitora é a Maria Rueff. Aqui.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Os carros e eu

Não nasci para conduzir. Nunca percebi nada de carros nem nunca me interessaram. Há 10 anos, exactamente, tirei a carta de condução quando já não tinha motivos para adiar mais. Nos primeiros meses  depois de tirar a carta ia todos os dias para a universidade antes das 8 para não apanhar trânsito. Depois disso continuei a ser uma péssima condutora. Mas apesar disso nunca tive nenhum acidente.

Agora passados dez anos chegou a hora de trocar de carro. E o que deveria ser uma coisa boa está a tornar-se num pesadelo. Primeiro comprou-se o carro e só depois o experimentei! O mostrador da velocidade é digital, tem GPS, tudo é automático, não tem chave e tem um cartão. Para se ligar e desligar o carro é um botão. E para piorar é enorme... Excesso de tecnologia nunca foi uma boa coisa para mim. Eu que preferi sempre livros e o cheiro deles a livros digitais, escrever à mão em vez de escrever no computador... agora quando entro no carro tudo se liga sem eu querer... é o rádio, quando chove aquilo é automático, o A/C, as luzes... Quando tenho de conduzir é um stress. Eu acho que até emagreci! Mas agora que está feito é andar para a frente e já não posso voltar atrás. O meu sonho de consumo era ter um motorista, sempre disse isso.

Um destes dias estava a dizer ao Poeta (o toxicodependente, sem-abrigo e arrumador de carros que está em frente ao meu prédio) que tinha um carro novo para ele vigiar e ele pede-me uma moeda. A mim ele nunca me pede nada, sou eu sempre que ofereço sempre. Mas naquele dia ele devia estar a precisar da droga e perdeu a vergonha: “Eu nunca lhe peço nada mas hoje queria mesmo era uma moedinha em vez de comer”. Eu levava a Bu pela trela a passear e não tinha moedas mas disse-lhe que ia levantar dinheiro. Ele foi comigo levantar dinheiro e eu para trocar por moedas fui comprar pão. O Poeta, amavelmente, ofereceu-se para ficar com a Bu fora da pastelaria. A Bu que nunca pode estar longe da dona, era ouvi-la a uivar. Até que as senhoras da pastelaria me disseram: “Deixe entrar a bichinha. A menina há-de ter o céu... ficar com uma cadelinha que estava abandonada... deixe entrar a bichinha que ela não faz mal nenhum!”. Com esse problema solucionado, virei-me para o poeta e disse-lhe para escolher qualquer coisa para comer: “Nem pensar! Se me vai dar uma moeda não quero comer. Eu não abuso, nem pensar”. Lá o convenci a levar os bolos, na compra de um deram-me o outro. Ainda tive tempo de lhe perguntar se acreditava em Deus porque tinha um enorme terço ao pescoço: Vai-me desculpar mas eu acredito apenas no Homem e no dinheiro que é isso que faz girar o mundo. Isto tenho ao pescoço porque me deram e acho bonito”.  Dei-lhe as moedas que sobraram do troco do pão e dos bolos e só lhe perguntei: “quanto é que gasta por dia em droga?”.  Ao que ele me respondeu: “Nem queira saber, não lhe vou dizer que até tenho vergonha e você vai achar um absurdo”. Ele seguiu pela noite, a agradecer como sempre a bater com a mão no coração, de gratidão. Provavelmente dei-lhe o que ele precisava para completar o que lhe faltava para pagar mais uma dose.


Pensando bem, eu não deveria dar-lhe o dinheiro. Mas ele é tão delicado, tão educado, passa tão mal a viver na rua, é ostomizado mas eu não lhe posso mudar o mundo. Eu não sou nem posso ser o Deus de toda a gente. Mas não nego nada a quem tem fome. E apesar de acharmos que estas pessoas que se drogam, perdem todos os valores, não é verdade. Ele não rouba e está sempre a gabar-se disso e ainda acrescenta: “Aquela magrinha é malcriada, eu sei, mas tem uma coisa muito boa, não vende o corpo. E isso é uma grande coisa”.

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