sexta-feira, 7 de março de 2014

Merly Streep vs Cate Blanchett

Merly Streep é uma das actrizes que mais admiro. Uma das minhas amigas, a C., detesta-a porque diz que ela tem sempre o mesmo registo. Eu discordo. Foi nomeada 18 vezes e ganhou 3. Em “Kramer vs. Kramer” ganhou o oscar de melhor actriz secundária e neste filme chorei baba e ranho.  Três anos depois ganhou o óscar de melhor actriz em “Sophie's Choice”. Mas quem não se lembra do seus maravilhosos desempenhos em “Out of Africa” e “The bridges of Madison County”, “The devil wears Prada” e “Doubt”? No ano passado ganhou o terceiro óscar pelo seu papel em “The Iron Lady”. A semana passada fui ao cinema ver “August: Osage County”. Merly Streep é uma doente terminal com um cancro na boca cujo marido é alcoólatra, poeta e que tem os livros como companhia. Merly, neste filme, é uma mulher dura, irónica, sarcástica, insensível, fria, completamente desajustada, racista, feia, maltratada que demonstra não ter qualquer demonstração de afecto ou ternura e viciada em drogas legais prescritas pelo médico. O vício é tal que entra frequentemente no absurdo e fica com dificuldade em articular palavras. Depois do desaparecimento do marido, que ela diz ser viciado na bebida e ela em medicamentos, reúne a família que se percebe completamente surreal.  Uma das cenas mais marcantes do filme é uma disputa entre mãe e filha, em que Julia Roberts tenta tirar os medicamentos à mãe e a cena chega a ser violenta. O resultado é um filme recheado de humor negro, com intensa carga dramática e a expressividade marcante de cada uma das personagens. Para além disso, tem uma deslumbrante história humana, repleta de segredos. Outro dos grandes papéis pertence a Julia Roberts, (merecidamente nomeada para o óscar de melhor actriz secundária), a filha mais velha, que parece ser a cópia da mãe, dura como ela. Eu arrisco-me a dizer que esta é a melhor interpretação de sempre de Julia Roberts. E apesar de neste filme desempenhar o papel de uma mulher descuidada, mostra como a idade é como o vinho do Porto! É um filme cheio de surpresas e que ninguém sai da sala indiferente.Merly Streep tem aqui uma interpretação poderosa. Este filme vale a pena, não tivesse o livro que lhe deu origem, galardoado com o Prémio Pulitzer, uma das melhores marcas de qualidade.

Não gosto da maioria dos filmes do Woody Allen, assim como, não gosto dele. Mas alguns filmes até gosto. E “Blue Jasmin” é um desses. Passa-se entre NY (Madison e Park Avenue) e San Francisco. Não sabia a história quando o vi mas no decorrer do filme pareceu-me uma cópia perfeita de “Um eléctrico chamado desejo”. Obviamente com as devidas diferenças. Cate Blanchett tem muitas características da Blanche Dubuois e a irmã dela é uma submissa e o namorado da irmã é um falhado e um arruaceiro.  Jasmine (Cate Blanchett) é uma ex-milionária acabada de cair em desgraça após o marido milionário ser preso. Vende tudo, segundo ela, mas viajou em primeira classe de NY-San Francisco e chega a casa da irmã adoptiva carregada com malas Vuitton. Como Blanche Dubois, tenta a todo o custo omitir o passado. Finge que o marido é um cirurgião, que não tem um filho, inventa uma profissão que não tem... é viciada em álcool e em comprimidos. Uma excelente interpretação de Cate Blanchett.


Alguém escrevia, depois da Cate Blanchett ter ganho o óscar, que alguém se devia ter enganado a escrever o nome no envelope. Não podia concordar mais. Desculpem-me, eu adoro a Cate Blanchett mas a interpretação da Merly Streep foi poderosíssima.

terça-feira, 4 de março de 2014

Pra tudo se acabar na quarta-feira por Adriana Calcanhotto

No dia em que o "Público" comemora o 24º aniversário, a Adriana Calcanhotto foi convidada para ser a directora nesta edição especial. Aqui segue o editorial escrito pela Adriana, desta vez não é curto como a vida, mas é muito bem escrito e a tocar em assuntos que a maioria não se lembraria:

"Porque gosto de viver perigosamente foi a razão para aceitar o convite do PÚBLICO para a edição de hoje, seu aniversário de 24 anos.
Aceitei na hora, imagina, que sonho, falar da língua portuguesa, da palavra lusitana, provocar o PÚBLICO a respeito do acordo ortográfico, vigente no Brasil desde 2009 e não adotado pelo periódico com furor argumentativo. Falar dos dogmas modernos para os poetas antigos; abrir espaço para as especulações atuais do tipo seria Mário de Sá-Carneiro, “o esfinge gorda de delicadas mãos”, transgênero? O grande poeta brasileiro Manuel Bandeira afirmava, quando inquirido sobre os heterônimos pessoanos, que neles via claramente o poeta tentando sair de seu drama. Seria mesmo o fato, reza a lenda, de que ele tinha um pênis exageradamente pequenino e esse era o seu facetador, que o empurrava para ser outro homem qualquer que não ele mesmo? Pois se isso é um drama real para um homem qualquer, imaginemos para ele, que era tantos, ou era ele tantos por isso mesmo? Poderia me estender sobre a correspondência do mesmo Pessoa com Ofélia, onde ela várias vezes o trata como “preto”, “meu preto”, “meu pretinho”, afinal, sou a diretora hoje, tenho carta branca. Começava a separar livros quando recebo um email oficial do PÚBLICO, agradecendo-me por aceitar o convite para a edição especial de 5 de março de 2014, sobre o Brasil. Sobre o Brasil? Como assim sobre o Brasil? Eu não entendo nada de Brasil, aliás, entendo cada dia menos, o Brasil não é para amadores, e agora?
O Brasil não é só diversidade, natural, cultural e racial, mas também temporal. O trabalho infantil escravo, o sistema prisional arcaico, com cadeias hiperlotadas sobre as quais o próprio ministro da Justiça admite serem “o inferno”, convivem com jurisprudências incontornáveis diante da sociedade e dos novos arranjos familiares. Fizemos progressos, tivemos um parlamentar cumprindo pena de reclusão por corrupção mantendo o cargo público, no exercício de seu mandato de deputado com a concordância da câmara, não temos mais. Vimos mudando. O racismo é crime, temos a lei Maria da Penha, que protege as mulheres da machista violência doméstica, temos a lei da Ficha Limpa, que deveria impedir que parlamentares com pendências na Justiça candidatem-se aos pleitos, menos gente passa fome, o beijo gay tem classificação livre na TV. Mas como viajo muito, acho que devo ter perdido algum evento importantíssimo porque, de uns tempos para cá, desde as últimas manifestações de rua, não consigo saber mais quem é a polícia, quem é a milícia, quem é o bandido, o mercenário, o mascarado, a caboclada maoísta, os vândalos que apedrejam à noite o banco onde trabalham de dia, o político cínico, o velho coronel, o coronelzinho de ocasião. Não nego que sou distraída, mas está difícil de acompanhar. A quem será que interessa incitar a violência nas manifestações legítimas municiando garotos miseráveis com máscaras de gás e rojões? De onde viria isso? Quem é o vilão, quem é a imprensa, quem é o sistema? 
O passaporte mais visado no mundo para ser falsificado é o brasileiro; claro, podemos ter qualquer raça, cor, a mistura mais improvável de raças, podemos ter qualquer nome, ter um sobrenome sírio-libanês, por exemplo, podemos ser tudo, temos a vocação para a originalidade como Caetano Veloso sempre diz, e uma vocaçãozinha para a incompetência bastante pronunciada. Podemos ascender na escala social, não somos aprisionados por castas, um menino pobre e analfabeto pode virar uma estrela do futebol internacional, não é obrigado a seguir a profissão do pai ou do avô, pode escolher o que quer, fazer o que gosta, um metalúrgico pode ser presidente, tudo muito diferente da malha social britânica, para dar um exemplo, onde saltos sociais não ocorrem. Isso é das coisas mais fascinantes do novo mundo, especialmente no Brasil. A gente inventa. Enquanto isso, a causa indígena é completamente desprestigiada pelo governo, os assentamentos dos sem-terra diminuíram, seguimos desmatando a mata amazônica e crescimento na economia não há.
No momento, a população vem mostrando descontentamento nas ruas, o que não é mau sinal, já que educação, saúde, transporte e ética andam muito castigados e não é comum irmos às ruas por qualquer coisinha. A revolta com os milhões gastos em estádios para a Copa do Mundo mais o aumento das passagens de ônibus e a carga tributária pesada sem serviços públicos de qualidade levou-nos às ruas, mas um cinegrafista foi morto por um garoto pago não se sabe bem por quem, para “fazer barulho”, e o rojão atingiu a cabeça de um cinegrafista que cobria a manifestação. O ministro dos Esportes do Brasil diz aqui em entrevista chapa branca que “não há por que se preocupar com manifestações” durante a Copa do Mundo, declaração, convenhamos, extremamente preocupante.
Um país inapreensível em qualquer tentativa de explicação, a democracia racial não é bem o que parece, nossa diplomacia visivelmente fascinada por ditaduras de diferentes países do mundo envergonha, assim como os 33.000.000 de analfabetos funcionais, além daqueles que se orgulham de nunca terem lido um livro alegando que não precisam de livros para vencer na vida.
Assim é, queridíssimos patrícios, que a edição de hoje do PÚBLICO está invadida pelo Brasil com seus inacreditáveis contrastes, belezas, contradições e maravilhas, impregnados da profunda e maior herança portuguesa depois da língua, a mestiçagem. Em Cabo Verde dizem-se eles inchados de orgulho “somos mestiços puros”. Herança portuguesa. O poeta brasileiro Antonio Cicero replica com uma gargalhada aberta, “já nós, que somos mestiços in-puros...”. Ainda na seara dos poetas cito aqui um trecho da extraordinária letra de Vinicius de Moraes para a melodia de Tom Jobim:
“A felicidade do pobre parece/ A grande ilusão do carnaval/ A gente trabalha o ano inteiro/ Por um momento de sonho/ Pra fazer a fantasia/ De rei ou de pirata ou jardineira/ Pra tudo se acabar na quarta-feira.”
Terminou o carnaval, hoje é a quarta-feira de cinzas. Costuma-se dizer que é ao meio-dia da quarta-feira de cinzas que começa o ano no país, antes disso a nação não consegue pensar em outra coisa. Então, neste primeiro dia de 2014 no Brasil, país que é essa auto-invenção permanente, neste primeiro dia do Ano Grande do Brasil no PÚBLICO, vamos ao “gigante pela própria natureza”. Muito bem-vindos!"















Todas as fotos pertencem ao "Público"


A cerimónia dos oscares

Vi a cerimónia toda em directo. Dizem que foi a mais vista da década. E eu sou suspeita porque adoro a Ellen DeGeneres. Desde o selfie mais partilhado até ao entregador de pizzas distribui-las com a ajuda do Bradd Pitt... foi hilariante!
Jared Leto ganhou o óscar de melhor actor secundário e dedicou-o à mãe, ao irmão e "a todos os sonhadores por aí, em sítios como a Ucrânia e a Venezuela". Não se esqueceu de todos os que morreram de SIDA e os que amam quem querem. Apesar de ter sido o melhor discurso da noite, tive uma amiga que me lembrou que  "só se esqueceu dos/as trans, mas a esses e essas ninguém os/as quer."
Lupita Nyong'o "roubou" o oscar de melhor actriz secundária à favorita Jennifer Lawrence. Discurso também emocionado: "No matter where you're from, your dreams are valid".
Eu vi o "Gravity". Achei a ideia do filme boa, o facto de ser quase em tempo real e os monólogos da Sandra Bullock são muito bons. E lembro-me que deu para sentir a claustrofobia e o medo. Quando os óscares técnicos estavam a ser atribuídos sem parar a este filme, cheguei a temer que também ganhasse o óscar de melhor actriz. Aí reagi e escrevi: "Se a Sandra Bullock ganhar o oscar atiro-me para o chão!".

copyright: Ellen DeGeneres
copyright: John Shearer/Invision/AP
copyright: Reuters


Vi "Blue Jasmine" e "August Osage County" (aos quais dedicarei um post). Nestes dois, a melhor interpretação foi sem dúvida a da Merly Streep. Como alguém disse "devem ter trocado os envelopes". Desta vez não houve choro no discurso. Fez lindos elogios às outras candidatos. E sim, o universo feminino ainda tem público!
Quanto ao oscar de melhor actor, ainda não vi o filme "Dallas Buyers Club",  mas parece que valeu a pena perder 20 kgs Matthew Mcconaughey! Só lamento o discurso... Esquecer-se de mencionar os doentes com SIDA não tem desculpa...
"12 years a slave" ganhou melhor filme, melhor argumento adaptado e melhor actriz secundária. Vou vê-lo sem falta. "Wolf of Wall Street" (que vi) e "American Hustle" (que não vi mas quero muito ver) foram os grandes derrotados.

Oscars 2014

Best Picture
12 Years a Slave
American Hustle
Captain Phillips
Dallas Buyers Club
Gravity
Her
Nebraska
Philomena
The Wolf of Wall Street
Best Actor
Christian Bale (American Hustle)
Bruce Dern (Nebraska)
Leonardo DiCaprio (Wolf of Wall Street)
Chiwetel Ejiofor (12 Years a Slave)
Matthew McConaughey (Dallas Buyers Club)
Best Actress
Amy Adams (American Hustle)
Cate Blanchett (Blue Jasmine)
Sandra Bullock (Gravity)
Judi Dench (Philomena)
Meryl Streep (August: Osage County)
Best Supporting Actor
Barkhad Abdi (Captain Phillips)
Bradley Cooper (American Hustle)
Michael Fassbender (12 Years a Slave)
Jonah Hill (Wolf of Wall Street)
Jared Leto (Dallas Buyers Club)
Best Supporting Actress
Jennifer Lawrence (American Hustle)
Lupita Nyong'o (12 Years a Slave)
Julia Roberts (August: Osage County)
June Squibb (Nebraska)
Sally Hawkins (Blue Jasmine)
Best Director
Martin Scorsese (The Wolf of Wall Street
David O. Russell (American Hustle)
Alfonso Cuarón (Gravity)
Alexander Payne (Nebraska)
Steve McQueen (12 Years a Slave)
Best Adapted Screenplay
John Ridley (12 Years a Slave)

Julie Delpy, Ethan Hawke & Richard Linklater (Before Midnight)
Terence Winter (The Wolf of Wall Street)
Billy Ray (Captain Phillips)

Steve Coogan and Jeff Pope (Philomena)
Best Original Screenplay
David O. Russell and Eric Singer (American Hustle)
Bob Nelson (Nebraska)
Spike Jonze (Her)
Craig Borten & Melisa Wallack (Dallas Buyers Club)
Woody Allen (Blue Jasmine)
Best Foreign Film
Denmark, The Hunt
Belgium, The Broken Circle Breakdown
Italy, The Great Beauty
Palestine, Omar
Cambodia, The Missing Picture
Best Documentary Feature
20 Feet from Stardom

The Act of Killing
Dirty Wars
The Square
Cutie and the Boxer
Best Animated Feature
The Wind Rises

Frozen
Despicable Me 2
The Croods
Ernest & Celestine
Film Editing
American Hustle
Captain Phillips
Dallas Buyers Club
Gravity
12 Years a Slave
Best Song
"Alone Yet Not Alone" (Alone Yet Not Alone)
"Happy" (Despicable Me 2)
"Let It Go" (Frozen)
"The Moon Song" (Her)
"Ordinary Love" (Mandela: Long Walk to Freedom)
Best Original Score
John Williams (The Book Thief)
Steven Price (Gravity)
Alexandre Desplat (Philomena)
Thomas Newman (Saving Mr. Banks)
William Butler and Owen Pallett (Her)
Best Cinematography
Philippe Le Sourd (The Grandmaster)
Emmanuel Lubezki (Gravity)
Bruno Delbonnel (Inside Llewyn Davis)
Roger Deakins (Prisoners)
Phedon Papamichael (Nebraska)
Costume Design
American Hustle
The Grandmaster
The Great Gatsby
The Invisible Woman
12 Years A Slave
Makeup and Hairstyling
The Lone Ranger
Dallas Buyers Club
Jackass Presents: Bad Grandpa
Production Design
American Hustle
Gravity
The Great Gatsby
Her
12 Years a Slave
Sound Editing
All is Lost
Captain Phillips
Gravity
The Hobbit: The Desolation of Smaug
Lone Survivor
Sound Mixing
Captain Phillips
Gravity
The Hobbit: The Desolation of Smaug
Lone Survivor
Inside Llewyn Davis
Visual Effects
Gravity
The Hobbit: The Desolation of Smaug
Iron Man 3
The Lone Ranger
Star Trek Into Darkness
Short Film, Live Action
Aquel No Era Yo (That Wasn't Me)
Avant Que De Tout Perdre (Just Before Losing Everything)
Helium
Pitääkö Mun Kaikki Hoitaa? (Do I Have to Take Care of Everything?)
The Voorman Problem

Short Film, AnimatedFeral
Get a Horse!
Mr. Hublot
Possessions
Room on the Broom
Documentary Short Subject
CaveDigger
Facing Fear
Karama Has No Walls
The Lady in Number 6: Music Saved My Life
Prison Terminal: The Last Days of Private Jack Hall

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Democracia directa?

Eis como vão ser eleitos os próximos governantes da Ucrânia: “Quem quiser pode lançar nomes, de pessoas que conheça, personalidades prestigiadas e sem ligações à política, como reitores de universidades. A cada nome, o povo vai votar de braço no ar, ou aplaudir e gritar. Os nomes que obtiverem mais gritos serão os eleitos”.

Praxe

Este é um dos assuntos do dia há algumas semanas. Toda a gente em Portugal, mesmo que não tenha frequentado uma universidade sabe o que elas são. Todos os anos, por altura da entrada de caloiros em todas as universidades é vê-los em manada atrás dos ditos “doutores” trajados. Reconhecem-se facilmente porque estão sempre todos pintados, com indumentária ridícula, atados ou com mais alguma coisa como chupetas. Dizem que agora as praxes são melhores, ou seja, mais brandas. Quando entrei na universidade há 15 anos fui uma caloira rebelde. Lembro-me de as inscrições terem sido em final de setembro e as praxes diárias duraram até ao baptismo. Os primeiros dias ainda fui, muito a custo. Depois decidi dar o grito de ipiranga e dizer que bastava. Lembro-me que a praxe foi tudo aquilo que dizem que não é praxe: muito exercício físico, insultos aos calóiros, canções insultuosas, andar de quatro, comer sem talheres... Mas de uma coisa lembro-me perfeitamente, quando quis sair saí e ninguém me ameaçou. E lembro-me que tinham cuidado comigo por causa da minha asma e que perguntavam sempre se tínhamos algum problema de saúde. Ao longo dos anos fui sempre assistindo às praxes dentro da universidade, os gritos grotescos, as corridas, os insultos... Há alguns anos a minha universidade proibiu as praxes dentro dos edifícios. As aulas teóricas começaram a ser obrigatórias. Os alunos passaram a ter que assinar, desconfio eu, também para evitar as faltas em massa.

Corro o risco de ser injusta, mas a maioria das pessoas que praxa, os ditos “doutores” (que muitos deles nunca virão a sê-lo de facto), são os piores alunos, os mais faltosos, os que mais reprovam. E isto porquê? Quando muita gente se queixa do ensino público em Portugal deveriam pesquisar em quantas universidades do mundo: i) a propina anual para uma licenciatura não ultrapassa os 1000 euros anuais, independentemente do número de anos que se reprova; ii) onde as universidades públicas são as melhores comparativamente com as privadas!


Sou contra proibirem-se as praxes. Normalmente este tipo de proibições fazem-se em regimes totalitários e ditatoriais. Mas claro que sou a favor da condenação social do que conhecemos por praxe. As figuras ridículas e atitudes subalternas não são dignas de pessoas adultas que frequentam o ensino universitário. Resta a quem é praxado dar-se ao respeito. E daqui a uns anos falaremos... estas práticas menores passarão de moda e à história!

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Os altos e baixos da ciência

Nas últimas semanas que se lê em todos os jornais e se vê em todas as televisões e se ouve todos os comentadores falar nos cortes de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento, no decréscimo abrupto do investimento em ciência, na pouca transparência dos concursos da FCT, eu desta vez não fui afectada. Mas no tempo das “vacas-gordas”, no tempo em que todos tinham bolsas de doutoramento e pós-doutoramento, eu fui talvez das pessoas que mais concorreu a bolsa de doutoramento da FCT e não conseguiu. Fiz o meu doutoramento paga por um projecto europeu. Agora, assisto a milhares que se sentem injustiçados, como eu várias vezes, durante muitos anos, me senti. Confesso que neste momento não tenho dados suficientes para ter uma opinião a favor ou contra sobre a questão. Sei que as bolsas de doutoramento e pós-doutoramento foram reduzidas em  valores superiores a 40% e que as taxas de aprovação foram em média de 10%. Sei também que a FCT criou os programas doutorais e sei também que no concurso para investigadores aumentaram os contratos de 80 para 220. Paremos para pensar. Reflectir sobre os dados. Um país sem educação e sem cultura é um país menos competitivo e mais pobre. É no investimento em educação e cultura que se formam gerações mais preparadas.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Nicholas Peppas

Na semana passada esteve na Universidade do Minho um dos melhores cientistas área, Nicholas Peppas. Foi o orientador de doutoramento de um dos meus orientadores de doutoramento. Começou por dizer que não faz ciência para publicar artigos. No entanto, tem 1300 artigos publicados e tem 63 anos.

Fez uma palestra que começou a falar de pessoas e acabou a falar de pessoas. Este é o objectivo da ciência e da investigação: descobrir qualquer coisa que melhore a vida das pessoas. Falou de coisas tão banais como gostar há anos atrás de passar fins de tarde na biblioteca, no tempo em que não havia acesso digital aos jornais científicos. Como devemos falar de negócios com investidores. Como um cientista pode fazer figura de parvo quando explica a sua descoberta a um investidor.

Nicholas Peppas é um grego com nacionalidade americana, tem o dom da palavra como só os americanos têm. E ele, grego de nascimento, aprendeu o melhor dos americanos: o dom da palavra.Saiu da Grécia para se doutorar. O objectivo era voltar à Grécia e ser o melhor professor na sua área. Nunca mais voltou definitivamente. Conta histórias, mesmo que muitas vezes pareçam ser tiradas do argumento de um filme. E ainda por cima é culto. Conhece muito bem opera e até já escreveu livros com essa temática. Tive um professor no secundário que dizia que ser bom escritor na área das letras era muito fácil, excelente era ser bom escritor quando a formação era em ciências. Exemplos dessa grandeza são os nossos Miguel Torga, António Gedeão (Rómulo de Carvalho), António Lobo Antunes.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Toward fixing damaged hearts through tissue engineering

É sempre muito bom quando vemos o nosso trabalho reconhecido. Este é o resultado de um ano de investigação em NY, Columbia University. Muitas horas de discussão, muita reformulação de ideias, algumas hipóteses, muito trabalho, muitas horas, muitas leituras. Este trabalho foi também muito inspirado pelos doentes que por mim passavam no Presbyterian Hospital. Pensar diariamente nos milhares de doentes que sofrem de doença cardíaca e em todos os que poderemos ajudar, isso é o que me faz não desistir e lutar diariamente conta as adversidades. Como me dizia um colega hoje "Afinal o dinheiro que foi investido na tua investigação parece que não foi mal gasto". Não há nada melhor do que termos o reconhecimento dos melhores. Para ler mais, aqui fica o press release da American Chemical Society:

Biomacromolecules
In the U.S., someone suffers a heart attack every 34 seconds — their heart is starved of oxygen and suffers irreparable damage. Engineering new heart tissue in the laboratory that could eventually be implanted into patients could help, and scientists are reporting a promising approach tested with rat cells. They published their results on growing cardiac muscle using a scaffold containing carbon nanofibers in the ACS journal Biomacromolecules.
Gordana Vunjak-Novakovic, Rui L. Reis, Ana Martins and colleagues point out that when damaged, adult heart tissue can’t heal itself very well. The only way to fix an injured heart is with a transplant. But within the past decade, interest in regenerating just the lost tissue has surged. The trick is to find materials that, among other things, are nontoxic, won’t get attacked by the body’s immune system and allow for muscle cells to pass the electrical signals necessary for the heart to beat. Previous research has found that chitosan, which is obtained from shrimp and other crustacean shells, nearly fits the bill. In lab tests, scientists have used it as a scaffold for growing heart cells. But it doesn’t transmit electrical signals well. Vunjak-Novakovic’s team decided to build on the chitosan development and coax it to function more like a real heart.
To the chitosan, they added carbon nanofibers, which can conduct electricity, and grew neonatal rat heart cells on the resulting scaffold. After two weeks, cells had filled all the pores and showed far better metabolic and electrical activity than with a chitosan scaffold alone. The cells on the chitosan/carbon scaffold also expressed cardiac genes at higher levels.
The authors acknowledge funding from Fundação para a Ciência e TecnologiaPOPH-QREN—Advanced Formation, the European Social Fund, the National Fund and theNational Institutes of Health. The work was a collaboration between Columbia University and 3B´s - University of Minho, Portugal.

"A maioria das minhas colegas de escola cumpriu o seu destino profissional, com êxito ou normal; sobretudo cumpriu o seu destino de esposa burguesa, bem instalada, com filhos loiros. Desde cedo soube que isso não me interessava. Porque me parecia que o mundo era muitíssimo maior."

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A vergonha

Eu, tal como muita gente, mas principalmente tal como o João Miguel Tavares (com quem partilho muitas das opiniões), na passada sexta-feira, tive vergonha da democracia portuguesa. Não tenho vergonha de ter contribuído com o meu voto para eleger os deputados do PSD (mas podia ter tido, caso tivesse tido oportunidade de votar). Mas, principalmente, vergonha de quem “inventou” um referendo  à última da hora por puro oportunismo político, já depois do projecto de lei ter sido aprovado na Assembleia da República.  Hugo Soares “lançou-se” como o arauto do referendo mas desconfio que não passa de um fantoche que só cumpre ordens e abana com a cabeça. É que a pouca preparação que demonstra ter, mesmo com formação em Direito, envergonha qualquer pessoa. Nem a defender o “seu” referendo mostra-se à vontade. Vazio de ideias é o que me parece. O debate em que participou na TVI24 com a Isabel Moreira foi um KO sucessivo do princípio ao fim. Como se diz na minha terra de nascença (ou nossa, para minha vergonha) o Hugo Soares levou uma coça da Isabel Moreira.

Hugo Soares é mais um jotinha que foi subindo na hierarquia do seu partido, muito provavelmente, por lamber botas. Acresce que não é um grande orador ou um grande argumentador. Não se lhe conhecessem desempenhos profissionais, fora da política, relevantes. A minha grande questão, que continua sem resposta, é: qual é o objectivo de propor um referendo “em cima do joelho” a mando do boss ao boy Hugo Soares?
Tenho vergonha de quem aceitou a disciplina de voto numa matéria de consciência individual. O projecto de lei tinha sido aprovado com os votos a favor de mais de uma dúzia de deputados do PSD. Onde estão eles? O que lhes aconteceu para mudarem de opinião? Não me lembro em matérias tão delicadas de não haver liberdade individual. Estamos numa ditadura? O pastor ordena e o rebanho vai atrás? Palmas para a Teresa Leal Coelho que esteve à altura da sua consciência e dos eleitores. E palmas para os militantes do PSD que não tiveram receios de criticar o referendo, entre eles, Marques Mendes, Pacheco Pereira e José Eduardo Martins. Se ouvir mais alguma vez algum deputado ou governante do PSD invocar a crise para poupar em qualquer coisa, a minha arma de arremesso será sempre o referendo.

As famílias de duas mães e dois pais existem. Ninguém as poderá apagar ou fazer desaparecer. A única injustiça é que não estão protegidas pela lei. E é nisto que os deputados que votaram a favor do referendo deveriam envergonhar-se: esta situação existe, não vai mudar. O que esta lei da co-adopção pretende mudar é o direito de uma criança ter no papel o que existe na realidade.Agora, para quem ainda não percebeu o que está em causa: Um casal criou junto um filho e apenas um dos cônjuges é mãe/pai biologico (a). Separam-se. Todos sabemos como muitas pessoas se transformam nas separações/divórcios. Que direito tem o conjuge que apesar de ter sido pai/mãe, que passou noites a fio em claro quando o filho estava doente, que acompanhou ao médico, que o protegeu? Neste momento, o direito sobre a criança que criou é zero. Agora imaginem outra situação: imaginemos a morte de um dos membros do casal que é pai/mãe biológico da criança. Que direito tem o membro que sobrevive?


Estas famílias já existem. Só temos que lhe dar um direito que lhes pertence. Não custa nada. Não prejudica ninguém. Não faz mal a ninguém. Quem for a favor continuará a ser e quem for contra poderá continuar a sê-lo, democraticamente.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A vida de Adele

A história deste filme que conquistou a Palma de Ouro em Cannes é desconcertantemente simples. “A vida de Adele” antes de estrear já era polémico Fizeram um grande alarido à volta de uma interminável cena de sexo. Muitos acharam-na exagerada, ou longa demais, ou explícita demais. Mas não é só esta. Não as contei nem me lembro exactamente, mas há pelo menos, mais três. Mas o que tem de demais é o fato delas nos perturbar  Mas se me perguntarem do que mais me lembro do filme, não é de certeza, das cenas de sexo. Para aprumar ainda mais a polémica, as protagonistas do filme acusam o realizador de as maltratar, juntamente com a equipa,  durante a produção. Polémicas à parte, este filme é excepcional. E na minha opinião “a star was born”, Adele.

O filme retrata um amor à primeia vista, com o êxtase das paixões, a catarse, a exploração, a descoberta, até ao tédio da estagnação.  Este filme não relata o preconceito  mas a relação entre as duas personagens. Quase nunca abordando o preconceito social da homossexualidade, aborda vincadamente  a  dinâmica da relação, o que resulta e não resulta, as compatibilidades e as diferenças, os mundos e as visões das personagens. Chorei como uma Maria Madalena neste filme. Não sabia como era o fim mas a actriz que interpreta Adele (e que também se chama Adele na vida real) tem um papel tão marcante que a sua expressão é um pronúncio do fim do filme.

Adele tem horizontes limitados e apesar de viver com uma visionária, contenta-se com o que tem. Para ela um amor e uma cabana bastam-lhe. E quando o amor dela deixa de lhe dar a atenção que precisa, ela vai encontrar o que lhe falta noutro colo. Só que isso precipita o fdim de tudo. A personagem de Adele é quase desde o princípio do filme, aquela que se pretende abraçar. Está sempre em desvantagem, parece correr atrás da vida, a uma velocidade menor do que a acção.


Depois de três horas, continuei a chorar baba e ranho. E o final não é à Hollywood, é cru como toda a realidade.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Mara Gabrilli – Depois daquele dia

Milly Lacombe é uma contadora de boas histórias. Sobretudo conhecida pelas suas crónicas mensais na Revista TPM, pelas críticas literárias na Folha de S. Paulo e pelas reportagens/ opiniões como free lancer para os mais diversos jornais brasileiros.  Milly, descreve-se assim, brevemente: “Eu vivo de escrever porque não sei fazer mais nada na vida. Se soubesse, pararia de escrever e ia ganhar algum dinheiro”. Precisa de mais palavras? Viveu 7 anos em LA, voltou para o Brasil, onde se solidificou como escritora e voltou a sair, desta vez, rumo a NY, onde vive. A sua escrita está recheada de detalhes e pormenores, de emoções, de quotidiano, de ironia, de muitas figuras de estilo e muito humor.

Não me lembro exactamente como conheci a escrita da Milly Lacombe mas acho que me fizeram chegar uma das suas (muito bem escritas) crónicas da revista Trip. Quem me conhece bem sabe que eu sou apaixonada por biografias e crónicas!

A biografia de “Mara Gabrilli – Depois daquele dia” foi escrita entre encontros e jantares com a escritora e biografada: “Durante quase cinco anos, que foi o tempo que demorei para escrever o livro, eu fui para casa agradecendo ao universo pela chance de poder contar a história dela, e pedindo força e inspiração para fazer isso da melhor forma possível. É uma história sublime, edificante, espetacular e linda. Eu não podia errar (...) Foi uma tremenda responsabilidade (...) eu quero que a história dela seja conhecida por multidões. É uma história que precisa ser contada, uma história que pode mudar vidas, que pode inspirar e fazer a gente entender o mundo, e aprender a aceitar o ritmo das coisas. A Mara, e a chance de contar sua vida num livro, foi um presente que me deram e pelo qual eu agradeço todos os dias”.

Mas o que tem esta biografia de tão especial: “a história é a de um resgate espetacular, a verdadeira jornada do herói (...) acho que pode interessar a portugueses, irlandeses, americanos, chineses: trata-se de experiência humana universal (...) Uma menina rica e mimada que quebra o pescoço voltando da praia aos 26 anos e imediatamente aceita a nova condição. Depois de anos de reabilitação ela decide se candidatar para tentar ajudar outros que tenham a mesma deficiência mas não o mesmo saldo bancário. Se fosse ficção seria inverossímil, mas o bom é que a realidade não precisa fazer sentido”.

A Milly, que para além de uma excelente escritora, é uma excelente pessoa, enviou-me este livro para ler. Aqui fica a minha opinião, muito aquém do verdadeiro entusiasmo de o ter lido. E esperemos que daqui a pouco alguma editora portuguesa se interesse pela publicação deste livro em Portugal.

O livro começa com a descrição do acidente e tudo se desenrola com a vida de Mara, antes e depois, porque era muito mais do que o acidente. Começa de forma  dramática e  a partir dali o livro vai recuando e adiantando, conjugando passado, presente e futuro, como só a Milly sabe fazer. Quem conhece a escrita de Milly Lacombe reconhece o seu estilo neste livro e principalmente as pitadas de humor.

Com essa história que tinha tudo para ser triste e trágica,  Milly Lacombe mostra-nos o intenso processo de superação e adaptação de Mara. O livro conta o acidente no qual Mara fica tetraplégica. Usa uma forma muito dinâmica repleto de analepses e prolepses. Mistura passado, presente e futuro. Muita verdade, muita coragem, muito exposto e muito despido de preconceitos é como pode ser descrito, de uma forma simplista. Com o decorrer da leitura, Mara parece ser uma super-mulher, que supera obstáculos como se não fosse tetraplégica, com uma vontade de lutar que não parece humana, com um optimismo que não parece real. Mas depois disto, aparecem os defeitos, as discussões, as manias, que chega até a dar raiva. Mas o livro é muito mais do que isto. Mostra que Mara continuou com a sua vida profissional agitada, que manteve os seus relacionamentos, vida sexual e passou a ajudar os outros que não têm as mesmas condições financeiras que ela.

No filme Mar Adentro (baseado em factos reais, realizado pelo espanhol Alejandro Amenábar, em 2004), o personagem de Ramón Sampedro, vivido por Javier Bardem, luta pelo direito à eutanásia depois de uma fractura semelhante à de Mara a ao mergulhar no mar. Mexer apenas a cabeça não é para ele viver. Dois casos semelhantes com atitudes perante a vida tão diferentes.  Mara, não só não desistiu de viver como acha que a vida vale a pena (mesmo só mexendo a cabeça). Desde o acidente não pára mais de se mexer: criou a ONG que ajuda pessoas com dificuldade de mobilidade, candidatou-se a vereadora, foi nomeada secretária municipal e depois deputada federal.


A nossa vida pode mudar de repente, sem aviso prévio, e  radicalmente para pior. Nem todos estamos preparados e nem todos sabemos lidar com isso. Sobretudo, quando esta mudança limita o desempenho físico e actividades quotidianas. Tudo o que aprendemos desde que nascemos deixa de existir. De uma forma minimalista, é disto que se trata esta biografia: reaprender a viver, aceitar e não se revoltar. Ler este livro, não fará mal a ninguém, muito pelo contrário. É um murro no estômago. Depois de lermos este livro não ficamos indiferentes. Fazendo minhas as palavras da Milly, muitos dos relatos deste livro parecem inverosímeis, mas a verdade  “é que a realidade não precisa fazer sentido”.


domingo, 12 de janeiro de 2014

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O meu pai

Uma semana antes do Natal fui ao batizado da M. A M. é filha da M. e neta da F. são a minha família de coração e não de sangue. A F. é uma quase irmã da minha mãe. O coro na igreja era constituído apenas por crianças e primos da M. O padre que batizou a M. é um grande amigo desta família S. que foi em tempos padre da freguesia de S. João do Souto em Braga. No fim do batizado o Padre V. disse que tinha batizado uma pessoa que estava naquela igreja e que tinha 60 anos, o JL. Já no restaurante, a minha mãe disse ao Padre V. que ele nos tinha batizado, a mim e ao meu irmão. E quando soube que eramos filhos do meu pai disse: "Conheço o V. desde rapaz. Sempre foi muito bom moço. É uma jóia de pessoa. Vocês tratem bem o vosso pai que é uma grande pessoa". Eu já sabia disso! Mas quem não fica feliz quando se ouve um elogio assim sobre o nosso pai?

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A minha memória de Eusébio (1942-2014)

Ao contrário do Sócrates, que inventa memórias, eu conheci pessoalmente o Eusébio na campanha eleitoral de 1995 em Braga. Na altura, tinha eu 16 anos, acabava o cavaquismo e eu aderia à juventude de um partido. Nos tempos livres que nos sobravam fazíamos de tudo: arruadas, agitávamos bandeiras, oferecíamos de tudo, íamos a jantares... E numa das tardes, o Eusébio esteve em Braga a distribuir bolas e t-shirts autografadas. Nesse dia, fizemos um cordão humano para proteger o Eusébio da multidão. E nesse dia deu para perceber a simplicidade dele. Suava em bica mas queria agradar a todos. Que me lembre, não mais tornei a estar pessoalmente com ele.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A vida não pára

Passei o ano pela primeira vez na cama. Acho que nem em bebé o fiz porque, como nasci e Maio, já tinha 7 meses... Não perguntei aos meus pais, mas a passagem de ano de 1979/1980 devia ter sido feita no colo de alguém. Tosse e falta de ar atiraram-me para a cama como já não me lembrava. Asmelhoras têm sido lentas. A respiração melhorou mas a tosse piorou. A Bu vinga-se de ser ignorada fazendo várias vezes xixi no chão. Passou, por rebeldia, a ignorar o jornal. A Bu passou o ano comigo porque os meus tios têm um cão que é ciumento e é melhor não provocar confrontos. De qualquer das formas, os meus sobrinhos, passando pouco da meia-noite, passaram por aqui para levá-la. O espectáculo auditivo começa quando ela regressa e os meus sobrinhos vão para a casa da mãe. Nesses dias, a Bu, entra num pranto que dura horas.

No ano passado duas das minhas melhores amigas tiveram filhos. Na semana antes do Natal soube que um dos meus melhores amigos vai ser pai de gémeos!! Outro casal de amigos vão ter a C. em Abril. Estas notícias fazem-me sempre transbordar de alegria. A crianças são o símbolo da renovação, da esperança e do futuro. Há melhor alegria do que esta?

No dia 24 fui visitar uma amiga com cancro em estado terminal ao hospital. Antes de entrar no quarto disse à minha mãe que não chorasse em frente a ela e que estivesse preparada para o aspecto físico. Já não a via há mais de um ano. A pessoa que eu fisicamente conhecia, desaparecera. Apesar de uns 30 kgs mais magra, muito frágil, com problemas em respirar, a pessoa que eu conheci estava ali. A alegria de nos ver foi tão notória. Que alegria! Apesar da fragilidade e do estado, estava com um ânimo que me fez colocar em perspectiva a minha vida. Ainda tinha planos, ainda falava das consultas a que iria e ainda pensava voltar para casa. Elogiou tanto o serviço de Oncologia do Hospital de Braga, e todas as pessoas que a tratavam. Estava a ser tratada como uma raínha, nas palavras dela. Tinha sido encontrada pelo filho na cama desmaiada. Sobreviveu a essa crise. Eu, de mãos dadas com ela, contava-me que a hora dela ainda não tinha chegado. Ainda assisti à neta receber os quadros que mandou fazer com os desenhos de quando era criança. Obviamente que sabia que este seria o último Natal. Os meus pais ainda a visitaram no domingo e estava ainda mais animada. Falava até em voltar para casa e assar cabrito. Hoje de manhã a minha mãe ligou-me a dizer que a C. morreu. Apesar de todas as adversidades da vida, tinha sempre uma palavra de força e optimismo. Tinha uns olhos e um riso lindos. Depois de uma conversa com ela, tudo ficava melhor. As pedras no caminho eram sempre ultrapassáveis. Pessoas como a C. deixam muita saudade e fazem muita falta ao mundo.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O sistema nacional de saúde (SNS)

Juro que a próxima vez que ouvir falar mal do SNS português: vou insultar ou segurar-me para não bater na pessoa que o estiver a fazer. Há umas semanas, a Clara Ferreira Alves falou na sua crónica no Expresso, a propósito de um artigo do "The New York Times”  que falava da exorbitância do que se paga no sistema americano por um simples corte na cabeça que nem de sutura de linhas precisou.

Em 2006, quando estive a primeira vez em Houston, a fazer parte do meu doutoramento, fui parar ao hospital com um enxaqueca dilacerante. Depois de ter acordado às 5 da manhã, num domingo, para começar uma experiência às 6 porque tinha almoço marcado com amigos em “Indian Town”. Almocei comida indiana quase nativa, que para o comum dos mortais, deve ser prejudicial, imaginem para mim que (dizem que)sofro da vesícula. E à noite, como se não bastasse, comi pasta italiana caseira. Cheguei a casa com uma dor de cabeça latejante... Não sei se foi de ter madrugado e ter dormido pouco, se foi da comida indiana, se foi do vinho italiano. Até hoje não sei a razão do “se”. O que sei dizer é que como a dor só aumentou, não tive como n telefonar a umas amigas, sendo uma delas na altura estudante de medicina. Levou-me para o E.R. de um hospital que me lembro que se chamava de St Luke’s. Tenho que realçar que Houston é mundialmente conhecida pelo MD Anderson Center, um dos mais prestigiados hospitais de tratamento de cancro e também pelo seu Medical Center. Eu estava com uma enxaqueca tão grande que antes dessa, só uma fora tão má, que me obrigou a estar uma noite inteira no hospital porque suspeitavam de um problema neurológico. Quando cheguei ao hospital, não o achei nada como aqueles que se via nos filmes, nem em número de médicos, nem na assistência, nem na azáfama e nem no tamanho.  A sala de espera parecia de um pequeno centro de saúde. A única coisa que estranhei foi não ver doentes nem médicos. E por isso,  estranhei a demora a atenderem-me. Fui chamada para a triagem, que foi feita por um enfermeiro, na qual me fez um interrogatório sem fim e me mandou preencher papéis, que eu naquele estado, não sabia preencher. Pedi uma cama. Colocaram-me às escuras num quarto, como pedi. Num hospital, que parecia vazio, a médica demorou uma eternidade a assistir-me. Não tenho noção de quanto tempo esperei, mas não foi pouco. A médica, que até era simpática, antes do exame neurológico, fez-me um interrogatório. Começou pelas óbvias questões das drogas ilegais e foi por aí adiante. Eu repeti-lhe várias vezes que estava a morrer de dores de cabeça. E ela, quando finalmente terminou, disse que me iria prescrever codeína + tramadol. E aí eu comecei a ver outra luz! E prescreveu-me vicodin (sim, essa droga na qual o Dr. House é viciado) para SOS. Quase que me abracei a ela de tanta alegria! Deram-me a injecção intramuscular e obederam ao protocolo da vigilância. Quando saí do hospital já não articulava bem as palavras. Dormi quase 48 hrs seguidas, e quando finalmente acordei, tinha os lábios rebentados. Nunca cheguei a perceber se por causa das drogas legais ou por causa da vesícula/ fígado... Os meus amigos médicos que me perdoem, mas não sou expert... A parte pior chegou umas semanas depois, quando me apareceu a conta do hospital... Pelo que percebi, o seguro pagou uma parte, e a parte que eu teria de liquidar ultrapassava os 400 dólares (isto em 2006)... Podem imaginar o meu desespero, de um “tombo” destes no meu parco orçamento de aluna de doutoramento!!

Anos depois, já em NY, tinha uma amiga em minha casa. Fomos jantar a um restaurante grego, e entre sangrias, peixe e pão, terminamos a noite a beber vinho do Porto num bar em Hell’s Kitchen. Posso garantir, que apesar de parecer que enfrascamos muito, isso não aconteceu. No dia seguinte a minha amiga teve uma dor de barriga. Uma dor localizada que depois se começou a espalhar. De tarde, por conselho de outro amigo, estudante de medicina fomos ao Presbyterian Hospital/ Columbia Medical Center. Podia ser uma apendicite. As urgências deste hospital, por onde eu passava quase sempre, quando saía a horas tardias do lab pareciam verdadeiramente os E.R.s que vemos na tv. Desde baleados, drogados, grávidas, quedas de crianças... de tudo vi ali. E sim, este serviço parecia sempre activo. A minha amiga foi colucada numa maca a soro. Começaram por lhe dar qualquer coisa para beber para fazer um CT.  Não tinham certeza de nada. Podia ser apendicite, mas também podia ser uma pancreatite, ou nenhuma das duas. E as horas foram passando. Eu e o meu amigo quase médico, enquanto ela esperava deitada pelo diagnóstico, fomos as nossos labs, e ainda tivemos tempo de jantar. Quando voltamos tinha mudado de sítio. Estava agora próximo das secretárias dos médicos. A médica que a estava a assistir ia acabar o turno. Era interna de anestesiologia e morava no prédio do meu amigo quase médico. Desde esse dia passou a perguntar-me como estava a minha amiga e a dizer-me “olá” nos corredores. Até hoje, não me esqueço que se chama Emily. Durante a madrugada, entre TACs, injecções para as dores... fomos passando o tempo. Ainda nos ofereceram de comer, sandes e sumos, e ainda umas cadeiras. Eu e o meu amigo ainda tivemos tempo de ir a um café em frente ao hospital, Jou Jou. E ainda tivemos tempo de ver a chefe de turno a “flirtar” um dos especialistas de serviço no café.  Tive ainda tempo de adormecer com a cabeça pousada em cima da cama da minha amiga. E de ser acordada pela médica para me dizer que como a minha amiga tinha um excelente seguro de saúde, iria ficar internada. Disse-me que iria dar-lhe morfina e que seria transferida de serviço. Quando lhe estravam a administrar a morfina, o médico disse-lhe para avisar quando ela começasse a sentir o efeito. A seguir a isto, mandaram-me para casa passava pouco das 6 da manhã.  Umas horas depois regressei ao hospital e a C. estava internada mas estava quase a ter alta. Os quartos eram individuais, pareciam quartos de hotel, a cama era toda automática, inclusive dava para pesar. Tinha casa de banho privativa. E mais uma vez, sumos e sanduíches não faltavam. A conta, vim a saber depois, foi astronómica. A C. tinha um excelente seguro de saúde pago pela Harvard University. Mas sabem por quanto ficou estas pouco mais de 24 hrs? Mais de 5000 dólares.

Quando ouço alguém a queixar-se do nosso sistema de saúde apetece-me dizer-lhe a sorte é que não têm acesso à factura detalhada... e alguém paga essa conta sem os próprios nunca saberem o valor real das coisas...

facebook