quinta-feira, 17 de julho de 2014

Vange Leonel

Na segunda fui apanhada de surpresa pelo anúncio da morte da Vange Leonel. Desconhecidíssima em Portugal, era uma escritora e activista brasileira que seguia há muito. Não a conhecia para além do que escrevia. Sabia que tinha algo próximo dos 50 anos, embora não parecesse. Acompanhava-a também no twitter, apesar de há alguns dias não postar nada. Quando li que tinha morrido pensei em duas coisas: acidente ou suicídio. Simplesmente porque ainda há poucos dias a lera. Surpresa: morreu de cancro aos 51 anos. Há 20 dias descobrira um cancro nos ovários. Uma semana depois estava internada. Descobrira metastases. Segunda, apenas 20 dias depois de saber que estava muito doente, morreu. Há muitos anos que me pergunto qual a razão de quando as pessoas descobrem um cancro parece que encontram o rastilho de pólvora. Curta, como a vida. É o que dizem. A uma hora destas é nisto que penso: como a vida é fugaz. Como diz a música: “Sooner or later, they [we] all will be gone”.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Brooklyn

Brooklyn para mim era apenas a ponte de Brooklyn que já fiz duas vezes a pé. Chegada ao lado de lá apanhava o metro e regressava a Manhattan. Para além de uma ida a Brooklyn para uma hipotética mega party com a C., já a madrugada ia muito avançada, num táxi, serviu para ver apenas uma cidade com menos luz do que Manhattan e a ponte de Brooklyn iluminada à noite. Estas eram apenas a minha abordagem mais próxima à cidade da moda. Paul Auster e muitos dos artistas é lá que moram. Desta vez convidaram-me para ir "brunchar" a Brooklyn. Disseram-me que demoraria uma hora. Comecei logo a torcer o nariz. Felizmente, não demorou nada parecido. Chegados ao outro lado saímos no que parecia algo semelhante a um bairro chique de Londres. Andamos uns metros e chegamos ao museu de Brooklyn a fazer lembrar algo entre o Metropolitan e a New York Public Library. De facto, as pessoas em Brooklyn parecem mais dadas às modas. Muitos hipsters, como não podia deixar de ser. Muitos bigodes. Muitas meias pelo joelho. Muitos laços, muitos cabelos com gel e risco ao lado. Muitas sacolas ao ombro. Muitos magros. Muitas magras. Muitos óculos retro. Muitas barbas. Muitos vestidos às bolinhas. Muitos jardins. Muitas crianças. Muitas casas baixinhas. Qualidade de vida. Fomos ao Tom’s Restaurant (não o do Seinfeld na Broadway com a 113). É um típico diner americano que não tem marcações. Muito kitch. Enquanto estamos na fila vão servindo várias amostras da ementa. Eu e a C. escolhemos panqueca com morangos e Eggs benedict. Muito barato é o que podemos dizer. À tarde, enquanto todos preferiram o jardim botânico de Brooklyn, eu preferi o museu. De todos os museus de NY deve ser o que tem o acervo pior mas tinha pelo menos um quadro do Hopper e da O’keeffe e um do Diego Rivera. Tinha também uma cervo de arte egípcia. Fico sempre intrigada como é que estas peças vêm parar ao outro lado do mundo. Roubadas. Só pode. É para isto que servem as guerras?















domingo, 6 de julho de 2014

Os meus dias no lab

Nunca estive tão motivada cientificamente como estou agora. Estou a aprender tudo de novo, como se fosse uma criança a aprender a ler. Vim um mês para NYC para aprender especificamente a diferenciar cardiomiócitos, um tipo específico de células do coração. Estas células são responsáveis pelo batimento cardíaco e pela contracção. Quando vistas ao microscópio, contraem. É das coisas mais fascinantes de se ver. O verdadeiro milagre da vida. O mistério persiste de como é possível células ex vivo, isto é, fora de um corpo serem capazes de se sincronizar e contraírem como uma orquestra. Tudo é sincronizado entre elas. Quem me está a ensinar tudo o que devo saber sobre estas células e como as diferenciar a partir um tipo de células específicas, induced pluripotent stem cells, capazes de se diferenciar em qualquer célula do corpo , é um italiano de Nápoles. Giro de fazer bem aos olhos. Domina diferenciação cardíaca e biologia celular e molecular. Um quase quarentão. Com os olhos muito azuis. Recentemente pai de uma menina. Músico nos tempos livres. Usa meias pelo meio da perna, às vezes uma de cada cor. Ténis All star. Ouvimos opera, Beatles e Zucchero no lab. É totalmente despistado. Vamos todos os dias para o lab, incluíndo aos fins de semana. Mas não trabalhamos muitas horas. A nossa função é preparar meios de cultura. Observar o comportamento de células ao microscópio. Mudar meios. Proliferar células. E diferenciá-las em cardiomiócitos. Temos uma câmara de fluxo para cada um. E duas incubadoras por nossa conta. Cada garrafa de 500 mL de meio de cultura custa 400 dólares. Para não falar nos suplementos. Ontem marcamos no lab às 6:30 da tarde. Como o metro que ele apanha é o C que está em obras, teve que ir a pé da 145 ao 168, o que o fez chegar quase às 7. Eu, que ia distraída a ler, e que tinha apanhado o A desde Penn Station, mal vi um 6 no número da paragem e achei que era 168. Não, era 163... Saí na Amsterdam. Chegamos os 2 atrasados. Saímos  do lab para ir buscar gelo e ele esqueceu-se do cartão para abrir a porta do lab. Fomos aos seguranças. Descobriu que tinha uma chave que dava para abrir a porta. Fui avisar os seguranças que tínhamos aberto a porta. Fiquei eu do lado de fora, apesar de quase a partir de tanto bater... Quando se apercebeu já eu tinha os nós negros de tanto bater à porta... São estes momentos fascinantes de trabalhar com ele. 








Fim de semana de 4 de Julho

7 de julho. Starbucks da Broadway com a 103. Coração do Upper West Side. Starbucks cheio. Sentei-me numa cadeira, ainda sem mesa, a ler. Quando vagou uma meda, apoderei-me. Dezenas do que parecem ser estudantes intelectuais com o seu Mac. Acabou de chegar um senhor. Barba por fazer. Óculos retro, na moda. Calções todos sujos. Unhas grandes. MacAir todo sujo. Parece-me escritor. É muito míope. Sentou-se na minha mesa, nem me pediu.  

Ontem almoço num restaurante japonês, Sushi Yasaka, na 72. Andamos a pé até ao Lincoln Center. Enfiei-me na confusão dos saldos do 4 de julho na Macy’s. Já não podia ouvir crianças a chorar nem ver filas para pagar. Ao fim da tarde fui para o lab. Estive lá umas duas horas e meia. Tínhamos combinado ir jantar a um indiano em Bryant Park. Não consegui acabar a horas. Resolvemos outra coisa. Jantamos no que eu adoro, no Jin. Ramen. Fomos depois ao Empire Hotel no Lincoln Center. Diziam que era ver as vistas. Fosse isso que valesse a pena. Uma fila enorme para entrar que pelo tipo de pessoas que tinha já era um pronúncio do que nos esperava. A entrada foi $20 para cada homem, sem direito a bebidas. No rooftop, nada de especial. Pessoa desinteressantes. Música péssima. Vista fraca. Bebidas caras. DJ inqualificável. Bebi uma margarita que custou $16 fora a gorjeta. As do Cubby Hole a $2 são muito melhores. Como estava cheia de sede, bebi uma Stella. A música era um pavor. A passagem de umas músicas para as outras nunca ouvi pior. Se algum dia vos falarem no Empire Hotel, por favor, risquem do mapa.  Nada vale a pena, mesmo. E eu até nem sou muito exigente.







Hoje, brunch em casa. A C. fez waffles maravilhosos. Ovos mexidos. Presunto de Parma fatiado como fiambre. Fiambre. Salmão fumado. Queijo da ilha. Morangos. Melancia. Smoothies. Sumo de laranja. Café. Leite. Cerejas. Focaccia. Bagels. Cheese cream. Maravilhoso! Sexta a meio da tarde. Queria ter ido à Strand, acabei a andar a pé da 116 à 103. Passagem rápida na Book Culture para investir em mais 3 livros. Desta vez, não do Philip Roth, mas em cartas da Elizabeth Bishop para The New Yorker, um do Paul Auster e outro sobre NYC.


quinta-feira, 3 de julho de 2014

Tempestade em NYC

Dois de julho. Ontem não tive coragem de escrever tal o medo com que estava! Fiquei em casa porque no dia antes abusei nas margaritas no Cubby Hole. E já tinha bebido duas quando esperava por mesa no Fish. Levei a CJ e o D. A provarem pela primeira vez ostras. A aversão do D. às ostras era tanta que ele queria desafiar-me a trocar 2 ostras por uma snades de peanut butter e gelly... Isto sim, só de pensar, dá-se-me uma volta nas entranhas.  Como escrevia,  malezinha, fiquei em casa, e aproveitei para lavar roupa. A trovoada começara no início da tarde. Ainda não eram 5 da tarde e a cor já parecia semelhante a 9 da noite... Começou a festa. A luz dos trovões era sincronizada com o barulho. Ainda perguntei ao porteiro do prédio: “Is it safe to use the elevators?”. Ele olhou-me com uma cara de “Dah, this is NYC”. Como o respeitinho pelo que não dominamos e não conhecemos deve ser muito, lá estava eu, sentadinha no meu sofá à espera que a tempestade passasse. Só não passou, como piorou. Parecia um jogo de luzes laser. O som era aterrorizador. Já não me lembrava de uma trovoada assim desde os tempos de Houston. Como quando as coisas estão mal, ainda podem piorar mais, depois de ter colocado o cartão recarregável na máquina de lavar, quando passei para o secador, o cartão não funcionava. Que bom! Roupa lavada mas molhada...cartão a não funcionar. Como boa portuguesa que sou, lá usei a técnica do desenrasque! Encontro um senhor velhote e pergunto-lhe se não tem um cartão de lavandaria. Disse-me que não mas que ia subir ao apartamento. Até me meteu dó. O senhor era bastante velhote. Aliás, nem acho que fosse muito velhote. As pernas é que não acompanhavam a idade. A coisa demorou. Mas lá apareceu prestável senhor que não queria aceitar os meus 2 dólares. Insisti, claro. Grande favor já me tinha feito. E assim descobri que tinha sido da força-aérea americana e tinha sido destacado para Itália, onde também deu aulas de inglês. “You haven’t spanish accent”! “Portuguese, I’m portuguese! Não sei se foi lapso, porque quero acreditar que um piloto da força aérea americana saiba que Portugal é um país diferente de Espanha. E que em Portugal se fala português. Terminamos a noite a comer francesinhas feitas pela CJ. Aprovadíssimas. 






P.S- nenhuma das fotos é minha

sábado, 28 de junho de 2014

S. Miguel - Açores

Meados de Junho. Palestra nos Açores. Descanso e trabalho para o projecto Investigador FCT nos restantes dias. Há muito queria conhecer o arquipélago. Sempre me senti fascinada, nem sei bem qual a razão. Sempre achei que estava muito preservada da mão humana. Não me enganei. Primeiro de tudo, o mar está sempre presente. A maresia, também. O clima é do melhor que há. Nem quente nem frio, ameno. Chove e no momento a seguir está sol. A imagem que tinha dos Açores com vaquinhas e um verde imenso correspondeu. Depois, tem óptimas estradas. Eu que não sou muito de natureza fiquei rendida. Até trilhos fiz. Andei minutos seguidos para ver imagens de cortar a respiração. Comi a melhor carne do mundo. E o melhor peixe, também. Queijos, perdi a conta. Ilha, S. Jorge, S. Miguel. Todos, muitos. Os micaelenses são simpáticos. O tempo deles e a velocidade é diferente. Tudo devagarinho. Mas a simpatia e a disponibilidade superam tudo. Conheci muita coisa. Tenho fraca memória. Mas nunca vou esquecer as escarpas e o mar sem fim. A cor escura do Atlântico. As praias rochosas, vulcânicas e escuras. A areia escura. O clima ameno. O cozido das Furnas com sabor à morcela com canela e pimenta da terra. A kima maracujá. A Especial da Melo Abreu. O queijo fresco com pimenta da terra. A carne de vaca dos Açores. O chá verda da Gorreana. Os tremoços com alho e pimenta da terra. Os chicharrinhos fritos a saber a mar. As plantações de chá a perderem de vista. A flora. Os fetos gigantes. As baleisas. Os golfinhos. As gaivotas. A marina. As praias. As termas. A lagoa das Sete Cidades. Os jacarandás. A lagoa do Fogo. A Ferraria. As praias tão desconhecidas e tão inesperadas. As cores. Os ossos de baleia. O Parque Terra Nostra e o seu magnífico jardim botânico. E como o melhor guarda-se para o fim, nunca esquecerei da sensação de entrar na piscina natural de água termal a 40ºC naquele fim de tarde. A temperatura de fim de tarde a contrastar com a temperatura da água, superior à do corpo. Não há palavras para descrever a sensação. A lagoa das Furnas. As fumarolas. O bolo lêvedo. O atum fresco. As bolachas moçor. Tudo ficou para sempre na minha memória e quero lá voltar. A ilha de S. Miguel ficou empreguenada em mim sem que eu contasse. Sabia que ia ser bom, não imaginava que seria tanto. 











quarta-feira, 25 de junho de 2014

Viagem Porto-NY

23 de Junho. Desta vez não me atrasei. Apesar das poucas horas dormidas e do stress do jogo Portugal-Estados Unidos. Acabamos empatados. Mais sorte do que juízo, poderá ser dito. Acordei antes das 7 e estive no aeroporto a fazer horas. Consegui, pela segunda vez em toda a vida , um daqueles lugares a seguir à primeira classe com o maior espaço para as pernas. A única desvantagem é que fui entalada entre duas mulheres bastante acima do peso. É nestas situações, mesmo apesar de não estar em forma, que me sinto menos culpada. No meu lado esquerdo uma americana. Do lado direito uma portuguesa que se intitulava americana. Adoro! Deu-me todas as instruções e explicava-me tudo, como se eu nunca tivesse andado de avião. Deixei-a brilhar. Se posso fazer as pessoas felizes por que não? Disse-me saber aquilo tudo porque trabalhara no aeroporto. Como se não fosse possível saber aquilo tudo com as muitas horas passadas no ar. Nos 2 lugares junto à janela iam um pai e um filho. Não deveriam saber o que era um banho há semanas. O cheiro era tão nauseabundo que mesmo com o nariz habituado, passados algumas horas, ainda conseguia sentir o cheiro. Os dois eram um desleixo só. Nem a barba tinham feita. Com tempo de verão usavam duas parkas do pico de inverno. Esses dois senhores teimavam usar o WC da classe executiva. A minha “vizinha”, sempre oportuna, dizia-lhes que não podiam usar aquela que era o WC dos ricos. Adiante, quando a pessoa da direita dormia e roncava e a da esquerda também, aproveitei para dar um grande avanço na biografia de Einstein que começara a ler. Chego a Newark e pela primeira vez não encontro fila. Ajudo uns portugueses que vinham visitar um filho por um mês a serem entendidos. Percebo quando saio que o Starbucks não existe mais e que foi substituído por outro que desconheço o nome. A fila para marcar o super shuttle é grande. Mas a espera pelo motorista foi a mais rápida de sempre. Desta vez foi ele que procurou por mim e não eu por ele. A viagem até casa também foi rápida. Não havia trânsito a entrar em Manhattan pelo Lincoln Tunnel. As primeiras pessoas foram deixadas ali para os lados de Hells Kitchen. Outras ficaram num hotel na 96 com a Broadway e eu fui a seguinte. Deixei as malas com o porteiro do prédio e segui rumo ao Starbucks. Como a fila era enorme, resolvi apenas sentar-me. O prédio à frente daquele que foi o meu prédio por 6 meses já está pronto. As lojas e a Broadway continuam na mesma. Apenas alguns táxis mudaram de cor para um verde vómito. O porteiro mudou. A carrinha em frente ao prédio de halal food é a mesma. A fila no Pinkberry continua enorme. Há mais pessoas a passear os cães. Os sem-abrigo a pedir em frente em frente ao supermercado são outros. Sinto-me em casa.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Seguro vs Costa

A política, como espectadora, é uma das coisas que gosto. Debates, discussões políticas, programas políticos. Programas de governos. Tudo à distância de uma televisão, de um rádio, de um livro ou de um computador. Biografias políticas. Histórias políticas. Política activa nunca mais. A não ser que um grande amigo se meta nisso. Fora isso, a minha participação activa é um zero absoluto.

Não me lembro em 35 anos de tamanha revolução num partido político. Nem quando Santana Lopes esteve à frente do governo, quando foi nomeado e não eleito, quando a ala cavaquista aproveitou para quase o aniquilar politicamente. Ele disse que ia andar por aí e por aí continua. Nem quando a Joana Amaral Dias apoiou e foi mandatária de Mário Soares quando estava vinculada ao Bloco de Esquerda. Nem quando Paulo Pedroso foi preso e depois libertado e saiu como um herói na então liderança de Ferro Rodrigues. Catástrofe idêntica ao momento actual que se vive no PS, só a morte de Sá Carneiro, da qual não me lembro mas sobre a qual estou bem informada. Foi talvez sobre a pessoa que mais biografias li. Acho que li tudo o que existe sobre ele.

António José Seguro teve a pior votação do PS nas Europeias desde que me lembro de ser gente (31.5%). Sobre isto podemos fazer uma tese. Mas como tenho poucas linhas, vou abreviar. Um líder do maior partido da oposição, numa situação de pós-crise e incrível austeridade, consegue somente mais 3% do que a coligação de governo. Seguro argumentou dizendo que não. A coligação é constituída por dois partidos. É verdade. Mas também é verdade que este é o governo mais odiado que há memória em Portugal. E mesmo assim, o PS conseguiu apenas, mais 3%. E na minha opinião o PS tinha obrigação de ter conseguido mais. Claro que sim. Se não uma maioria absoluta, qualquer coisa próximo disso. Os portugueses mostraram com isso duas coisas: que nem toda a gente odeia o governo e que existe muita gente que não acredita no actual PS, ou pelo menos neste líder, para liderar uma mudança em Portugal. Eu, no lugar do governo e do PSD estaria radiante: 27,7% depois de tudo....

Nunca acreditei politicamente no António José Seguro. Não sei dizer qual a razão. Nunca foi um político carismático. Vem das jotinhas. Não se lhe conhece outra profissão que não tenha sido a política. Foi um boy do Guterres.  Foi e é um líder de oposição péssimo. Tirando isto, não tenho muito a criticar. É-me indiferente. Como propostas políticas para o futuro do país, afirma que não vai aumentar impostos e que vai repor os salários. Vai revogar a decisão de alterar o mapa judiciário. Reduzir o número de deputados.  Exclusividade dos deputados. Concordo com todas as propostas. Mas são estas propostas de governo? “Apenas” isto vai mudar alguma coisa?

No entanto, não acho Seguro arrogante como Sócrates. Acho que é melhor pessoa. E tenho-o como uma pessoa séria. Mas carisma, não é de facto, o seu forte. Está rodeado de algumas pessoas que parecem muito bem preparadas, como por exemplo o Eurico Brilhante Dias, que não tenho dúvidas que dará cartas no futuro.

Concordo com Seguro quando ao timing de António Costa se candidatar à liderança do PS. Façamos o exercício de concordarmos. António Costa teve duas oportunidades para ter assumido a liderança e das duas vezes solidarizou-se com o líder. Seguro fez o caminho das trevas, assegurou a liderança do maior partido de oposição pós-Sócrates. Desgastou-se. Fez o trabalho mau. E agora vem o António Costa, qual D. Sebastião, apontar para lá do nevoeiro. Concordo que Seguro possa estar magoado, triste e inseguro.

Seguro, na minha opinião, perdeu toda a credibilidade quando se recusou a convocar um congresso. [Eu adoro congressos. Discursos noite dentro. As televisões generalistas começam as televendas mais tarde, o que é óptimo para insones como eu. E depois da tempestade regressa a bonança. E ficam todos amigos, novamente]. Agora, tenho muitas dúvidas sem resposta. Primárias? Com militantes e simpatizantes do PS? Que critério define um simpatizante do PS? Não realizar-se um Congresso? A possibilidade de ter um Secretário Geral diferente do candidato a Primeiro-Ministro? Seguro acredita mesmo que conseguirá ser Primeiro-Ministro?

António Costa. Ministro dos Assuntos Parlamentares e da Justiça dos governos de Guterres. Ministro de Estado e da Administração Interna do governo de Sócrates. No CV diz que a sua actividade profissional é advogado. É presidente da Câmara de Lisboa desde 2007. Juntou Helena Roseta e Sá Fernandes na sua lista. Conseguiu acordos até com o PSD na Câmara. Acho que fez um trabalho muito visível na Câmara de Lisboa e isso vê-se pelos 51% conseguidos.  É muito simpático. Tem carisma. Participa no “Quadratura do Círculo”, programa que adoro. Dizem que é um homem de consensos. Diz que quer mobilizar Portugal. Não se envolve em ataques pessoais. É politicamente correcto.  O que posso eu dizer? Li as 4 páginas de apresentação da candidatura. Diz que o país precisa de uma mudança. Concordo. Diz que se tem de reverter a situação económica e social do país. Concordo. Não diz como o vai fazer. Atribui a situação do país ao alargamento a leste, da entrada da China no mercado Europeu e da falta de resposta da Europa em relação à crise. Concordo. Orgulha-se da visão do Governo liderado por Guterres e do impulso reformista de Sócrates. Não poderia renegar o seu passado. Fala em voltar a investir na Ciência e na Cultura. Não podia concordar mais. Um país sem ciência e sem cultura é um país pior. Refere a necessidade da modernização do Estado e do Tecido Empresarial. Não explica como fará estas mudanças. Faz política sem atacar. Não faz críticas ferozes, nem ao Governo nem à actual liderança do PS. Gostei do que li, mas não chega. Espero um programa mais completo para poder pronunciar-me. Está rodeado de pessoas muito capazes e isso é visível por algumas das pessoas da sua equipa na Câmara de Lisboa. Não sou do PS. Nunca votei no PS. Gosto do António Costa. Fico à espera que me convença.

Como é que todos os apoiantes da candidatura de António Costa, que também são membros da direcção da actual liderança, não se demitem? Tenho para mim que não podemos ser do Benfica e do Porto ao mesmo tempo!

António Costa está a fazer o melhor dos favores a Seguro. Mais vale perder com um camarada do partido do que perder as eleições legislativas com Passos Coelho. Pelo menos, a saída não é degradante. A minha questão é se António Costa passa no escrutínio do PS, das bases, dos militantes e dos simpatizantes (seja isso o que for). E o país assiste ao longe a este circo. Até Setembro neste limbo. Quem lucrará com isso?

sexta-feira, 13 de junho de 2014

As baleias

Nove de Junho. Acordamos às quinze para as oito. Tomamos o meu pequeno-almoço preferido desde que estou em Ponta Delgada: bolo lêvedo torrado com queijo e meia de leite clara. Às oito e meia saímos de casa rumo à marina, ansiosa, receosa, medrosa e todos os adjectivos possíveis de quem tem medo e respeito pelo mar. A promessa era de ver vários tipos de baleias, aves e golfinhos. A garantia é que se não avistássemos nem baleias nem golfinhos faríamos outra viagem for free. Eu que nunca fui de natureza, nem de animais, nem de plantas, nem de flores ia com a ténue esperança de ver pelo menos uma ponta de rabo de cachalote. Não sei qual o motivo mas esta viagem mar adentro fazia-me lembrar em tudo Moby Dick e a Ode Marítima. O Juan Pe, no dia anterior com as suas fotos maravilhosas, havia-me maravilhado com as imagens impressionantes daquela cauda vertical da baleia a mergulhar. Uma parte de mim estava cheia de curiosidade, de ver essa imagem, outra parte de mim era só temor. Desde que li há anos a descrição da Adriana Calcanhotto no seu Saga Lusa que ao mesmo tempo que a invejava, outra repelia-a. Eis a descrição dela, quando o capitão do bote saía para o mar: “Não, não temos a certeza se estaremos de volta às três, nem se há baleias e nem mesmo se voltaremos, se é que algum viajante retorna, isto aqui é o mar, ó pá, não temos a certeza de nada.” Perante esta descrição, como poderia ir eu qualquer coisa que se assemelhasse a terror. Ainda para mais enjoo com tudo. Umas simples meia dúzia de curvas fazem-me vomita. Eu enjoo a conduzir, coisa rara entre os humanos... Equipámo-nos a rigor. Parka e calças impermeáveis e colete. O barco era um semi-rígido com doze pessoas, o capitão e o guia que era biólogo. Com a atrapalhação do momento nem me lembrei se o Juan Pe havia dito que o melhor para mim era ir na parte da frente ou na parte de trás do barco. Como fomos as últimas a entrar, sobrou-nos dois lugares no meio. Quando o barco arrancou oceano dentro, a toda a velocidade, pensei para mim: “vai ser agora que vou morrer”. Fechei os olhos e a brisa marítima a bater-me na cara, entreguei-me. Convenci-me que se morresse morria como as árvores, de pé e com estilo. Nada de os outros notarem que estava aterrorizada. O barco seguiu no imenso oceano, para mim, sem fim, e aquele azul escuro tão bonito, de tirar a respiração. Um azul escuro tão incrível, tão imenso, tão brilhante que nunca irei esquecer. E nunca estive tanto em alto mar. Estamos atrás de baleias que são previamente avistadas por um vigia estrategicamente colocado em terra. Depois de meia hora a ir oceano dentro, avistamos duas baleias: baleia comum (fin whale). Grandes, enormes, a segunda maior espécie do mundo! Que emoção. Eu que nunca me comovi com estas coisas. Não sabia se fotografava, se olhava, se filmava...A maresia na cara, o vento, aquela imagem clara na água, submersa e muito azul. Ou o cinzento. Estiveram muito tempo a menos de um metro de nós. Avistamos estas primeiras duas baleias. Nada é certo, tivemos sorte. O mar, tal como a vida, não se tem certeza nenhuma. Depois de mais de uma hora, partimos à procura do cachalote. A água bate-nos na cara e já não distingo se é água, baba ou ranho porque ardem-se os olhos do sal. Depois de outros tantos minutos em direcção ao tão esperado cachalote, eis que são dois. São os mais difíceis de avistar porque só os conseguimos ver quando mergulham e isso só fazem uma vez durante o tempo da viagem. A esperança é que pelo menos um deles não tivesse mergulhado. E, ó sorte das sortes, passados alguns minutos, essa imagem acontece, avistamos a cauda do cachalote magnificamente vertical. Terão que acreditar na minha descrição porque não existem provas. Aqui estou eu, mais treze pessoas, rodeadas de mar sem fim e eu não sei se chore ou ria de alegria. Regressamos a terra, o mar repicado, nas palavras do capitão, continua a bater-me na cara, sem dar tréguas. A temperatura do mar, segundo o capitão não ultrapassa os dezoito graus. Eu teimo que tem de certeza mais de vinte e dois, mais quente que todas as águas do mar que conheço. Pode ser da emoção, confesso. Mas esta água para mim é quente e de um azul magnífico. Voltamos, sem antes avistar, seis golfinhos que saltam felizes à nossa volta. Para uma reticente como eu como não ter amado esta experiência? Em alto mar relativizamos tudo. A viagem acaba, segura, inteira e para sempre ser recordada.






P.S. As fotos são do meu mais novo amigo Juan Pe, que para além de ser biólogo e perceber de todo o tipo de animais e plantas, é um excelente fotógrafo. É também guia dos semi-rígidos que fazem estas visitas ao largo de Ponta Delgada.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

Escrevo com um dia de atraso. Sempre o mar. Ontem foi o dia de Portugal. O dia da morte de Camões. Não o dia de um estadista, de um general, de um rei nem de um ditador. Em que outro país é assim? Que orgulho. Especialmente comemorado nos Açores. Aqui fica um dos poemas que mais gosto dele que foi para sempre imortalizado na voz da nossa Amália.

Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou.
Que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado.

Mas chorar não estima neste estado
aonde suspirar nunca aproveitou.
Triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.

Assim a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé que a sofre e sente.

De tanto mal, a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dele aventuro.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Porto - Ponta Delgada

5 de Junho. Mais uma vez acordo atrasada e mais uma vez consigo não perder o avião. Vamos ver até quando... Viajo pela primeira vez, em muitos anos, à janela.Disseram-me que a aterragem em S. Miguel era uma vista maravilhosa e imperdível. Arrisquei! De facto, quem me disse isso, não mentiu. Sair das nuvens brancas com o céu azul e o oceano Atlântico imenso, e ver aproximar a ilhade um verde incrível no meio do oceano... A formação da ilha é lindíssima, diferente de tudo o que vi até hoje. Ver  o mar agitado, uma luz incrível no meio do Atlântico é indescritível. Ou aproveitava o momento ou tirava fotos. Optei pelo primeiro. Por um segundo mais feliz. Do lado de cá o oceano, do lado de lá Portugal. Apenas S. Miguel no meio do mar. Que vista incrível: Na estrada do aeroporto para o centro de Ponta Delgada avista-se sempre o mar. O verde e o mar são sempre a paisagem. Tudo ainda muito selvagem. O sotaque das pessoas é lindo. Tudo ao seu ritmo, lento e demorado. Não há trânsito. Estou rendida. Aqui não há pressa, só o momento.





Serra da Estrela

No primeiro fim de semana de Maio levamos os meus sobrinhos à Serra da Estrela para ver a neve. Já a tinham visto via skype da janela a cair cadentemente em NY. Os floquinhos, como eles diziam. A subida longa da serra é lindíssima. Faz-se devagar. A natureza intocável no seu explendor. O tempo é de praia e nós procuramos neve! Avista-se o pico da Serra. Neve nem vê-la. Mas chegados ao topo, a neve está lá! Branca e brilhante à nossa espera. A neve resiste à temperatura alta, estamos vestidos de verão, mas os meus sobrinhos estão equipados como se fosse o pico do inverno. A Serra da Estrela continua selvagem, deserta e imutável, como há anos atrás. Nada mudou, para o bem e para o mal. As crianças transbordam de felicidade e reagem à surpresa de tocar na neve pela primeira vez. Apresentações feitas, brincadeiras de trenó, bonecos de neve, o dia acaba.Tempo de ir para o hotel onde um buffet nos espera. Os meus sobrinhos deliram por poder escolher in vivo o que comer.Hoje não há discussões, nem negociações, nem cedências para comer. O meu sobrinho mais novo, sempre com a paranoia das chaves, delicia-se com a chave do quarto. Hoje o seu objecto de adoração, deixa por um fim de semana de ser a chave do carro, para ser a chave do quarto. Segundo ele, agora quer ser “fechadeiro” quando for grande. Explico-lhe que esssa palavra não existe, que no máximo poderá ser porteiro. Poderia começar com divagações que não existe quem passe somente o dia a fechar e abrir portas de quartos... deixo vivê-lo a sua ilusão de criança, aquilo que os anos nos encarregará de fazer perder... outras conversas. Entre o abrir e fechar da porta mecânicamente, alterna-se entre o nosso quarto e o dos avós. Segundo o meu sobrinho mais velhos, “está muito feliz” e os “fins de semana do pai são sempre novos”. Um dia explicarei o que tanto ele quer dizer com tão pucas e sentidas palavras. Dia da mãe passado em Manteigas. Dia em família. Dia de 3 gerações juntas e felizes. A Natureza cativa-nos. Jogos de futebol e passeios ocupam-nos o dia. Tempo para regressar à realidade. A vida é feita de pequenos momentos de felicidade. Sorte para quem tem oportunidade de os viver.





sexta-feira, 23 de maio de 2014

A melhor loja do mundo

Já conhecia há anos A vida Portuguesa da Rua Anchieta, no Chiado. A primeira vez que lá entrei adorei o conceito e a forma como o a loja foi renovada. Tudo nela era bom gosto. Nos mais pequenos detalhes. Os embrulhos eram de não os querer rasgar. Tudo ao pormenor. Adorei os aventais das pessoas que lá trabalhavam. Emocionei-me por, pela primeira vez ver após a destruição da belíssima fábrica em Braga, os sabonetes Confiança. As lágrimas quase me vieram aos olhos quando vi um motoqueiro com a sua mota de plástico e alumínio e o táxi verde e preto. Comprei ambos para os sobrinhos. Os dois preferiram a mota... eu, até hoje, como conseguiram não destrui-lo, prefiro o táxi.

Alguns anos depois, abriu A vida Portuguesa no Intendente. Voltar aquela zona depois de muitos anos foi uma surpresa. Falo disso com mais detalhe aqui. Nesta loja tudo é mais! Mais coisas, mais cor, mais escolha, “mais grande” (como dizem as crianças quando estão a aprender a falar), mais bonita... e por aí fora. Logo à entrada queria comprar tudo. Não fosse eu ter apenas 2 braços, estar sozinha e a mais 300 kms de casa... Apaixonei-me logo pelas cadeiras de jardim. Imaginei-me imediatamente na varanda a ler.  À entrada, um móvel até ao tecto com tudo o que se possa imaginar do Bordalo Pinheiro. Passa-se à parte dos sabonetes de várias marcas, cheiros, cores da Confiança à Ach Brito. O que se segue é todos os utensílios de cozinha em madeira e alumínio (?). E os azulejos e louças Viúva de Lamego. As louças, copos, bebidas de marcas tradicionais, os chocolates Arcádia e Regina, não podiam faltar. O recanto dos brinquedos foi o que mais memórias me trouxe. O pião, a corda, as cartas, as sebentas, tambores, os fogões em miniatura, tanta coisa. A loja continua no andar de cima. Tapetes, carpetes, atoalhados, cobertores de lã. Botas. Mochilas, malas e pastas da Ideal &Co.

Não conheço loja mais bonita e surpreendente. Assim como, não lhe consigo encontrar comparações. Nada se compara a esta loja. Poderia dizer que a Antropologie tem qualquer coisa de A vida portuguesa. Mas não. Esta loja é única. Tradição, portugalidade, detalhe, bom gosto e memórias são o que fazem, em partes diferentes, esta loja. Mais do que para turistas, esta loja é para portugueses. Só os portugueses a conseguirão compreender. E como se não bastasse, as pessoas que nos atendem são para lá de simpáticas. Lojas assim (já) não se fazem!

E pensar que esta loja nasceu de uma single mind. A Catarina (Portas) nasceu com vários dons. Tanto talento numa pessoa só. Ousou arriscar em plena crise. Venceu o cinzentismo e o pessimismo geral e remou contra a maré. Bom gosto, empreendedorismo, tradição e memória. Quatro palavras que parecem ser o segredo. Ainda por cima partilhamos uma querida amiga: chef Luísa Fernandes (Robert –NYC).

E como se não bastasse, a Catarina escreve bem que dói! Eu ainda andava no secundário e os artigos dela já me prendiam. Há uns anos tinha o projecto do António Variações em mãos... Não sei o que lhe aconteceu. Mas para nosso mal, nós é que perdemos. A única coisa que lamento do sucesso d’A vida portuguesa e dos quiosques de refresco é ter-se “perdido” uma brilhante escritora e jornalista. De resto, desejo-lhe muito futuro! Go, Catarina go! 










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