terça-feira, 4 de março de 2014

A cerimónia dos oscares

Vi a cerimónia toda em directo. Dizem que foi a mais vista da década. E eu sou suspeita porque adoro a Ellen DeGeneres. Desde o selfie mais partilhado até ao entregador de pizzas distribui-las com a ajuda do Bradd Pitt... foi hilariante!
Jared Leto ganhou o óscar de melhor actor secundário e dedicou-o à mãe, ao irmão e "a todos os sonhadores por aí, em sítios como a Ucrânia e a Venezuela". Não se esqueceu de todos os que morreram de SIDA e os que amam quem querem. Apesar de ter sido o melhor discurso da noite, tive uma amiga que me lembrou que  "só se esqueceu dos/as trans, mas a esses e essas ninguém os/as quer."
Lupita Nyong'o "roubou" o oscar de melhor actriz secundária à favorita Jennifer Lawrence. Discurso também emocionado: "No matter where you're from, your dreams are valid".
Eu vi o "Gravity". Achei a ideia do filme boa, o facto de ser quase em tempo real e os monólogos da Sandra Bullock são muito bons. E lembro-me que deu para sentir a claustrofobia e o medo. Quando os óscares técnicos estavam a ser atribuídos sem parar a este filme, cheguei a temer que também ganhasse o óscar de melhor actriz. Aí reagi e escrevi: "Se a Sandra Bullock ganhar o oscar atiro-me para o chão!".

copyright: Ellen DeGeneres
copyright: John Shearer/Invision/AP
copyright: Reuters


Vi "Blue Jasmine" e "August Osage County" (aos quais dedicarei um post). Nestes dois, a melhor interpretação foi sem dúvida a da Merly Streep. Como alguém disse "devem ter trocado os envelopes". Desta vez não houve choro no discurso. Fez lindos elogios às outras candidatos. E sim, o universo feminino ainda tem público!
Quanto ao oscar de melhor actor, ainda não vi o filme "Dallas Buyers Club",  mas parece que valeu a pena perder 20 kgs Matthew Mcconaughey! Só lamento o discurso... Esquecer-se de mencionar os doentes com SIDA não tem desculpa...
"12 years a slave" ganhou melhor filme, melhor argumento adaptado e melhor actriz secundária. Vou vê-lo sem falta. "Wolf of Wall Street" (que vi) e "American Hustle" (que não vi mas quero muito ver) foram os grandes derrotados.

Oscars 2014

Best Picture
12 Years a Slave
American Hustle
Captain Phillips
Dallas Buyers Club
Gravity
Her
Nebraska
Philomena
The Wolf of Wall Street
Best Actor
Christian Bale (American Hustle)
Bruce Dern (Nebraska)
Leonardo DiCaprio (Wolf of Wall Street)
Chiwetel Ejiofor (12 Years a Slave)
Matthew McConaughey (Dallas Buyers Club)
Best Actress
Amy Adams (American Hustle)
Cate Blanchett (Blue Jasmine)
Sandra Bullock (Gravity)
Judi Dench (Philomena)
Meryl Streep (August: Osage County)
Best Supporting Actor
Barkhad Abdi (Captain Phillips)
Bradley Cooper (American Hustle)
Michael Fassbender (12 Years a Slave)
Jonah Hill (Wolf of Wall Street)
Jared Leto (Dallas Buyers Club)
Best Supporting Actress
Jennifer Lawrence (American Hustle)
Lupita Nyong'o (12 Years a Slave)
Julia Roberts (August: Osage County)
June Squibb (Nebraska)
Sally Hawkins (Blue Jasmine)
Best Director
Martin Scorsese (The Wolf of Wall Street
David O. Russell (American Hustle)
Alfonso Cuarón (Gravity)
Alexander Payne (Nebraska)
Steve McQueen (12 Years a Slave)
Best Adapted Screenplay
John Ridley (12 Years a Slave)

Julie Delpy, Ethan Hawke & Richard Linklater (Before Midnight)
Terence Winter (The Wolf of Wall Street)
Billy Ray (Captain Phillips)

Steve Coogan and Jeff Pope (Philomena)
Best Original Screenplay
David O. Russell and Eric Singer (American Hustle)
Bob Nelson (Nebraska)
Spike Jonze (Her)
Craig Borten & Melisa Wallack (Dallas Buyers Club)
Woody Allen (Blue Jasmine)
Best Foreign Film
Denmark, The Hunt
Belgium, The Broken Circle Breakdown
Italy, The Great Beauty
Palestine, Omar
Cambodia, The Missing Picture
Best Documentary Feature
20 Feet from Stardom

The Act of Killing
Dirty Wars
The Square
Cutie and the Boxer
Best Animated Feature
The Wind Rises

Frozen
Despicable Me 2
The Croods
Ernest & Celestine
Film Editing
American Hustle
Captain Phillips
Dallas Buyers Club
Gravity
12 Years a Slave
Best Song
"Alone Yet Not Alone" (Alone Yet Not Alone)
"Happy" (Despicable Me 2)
"Let It Go" (Frozen)
"The Moon Song" (Her)
"Ordinary Love" (Mandela: Long Walk to Freedom)
Best Original Score
John Williams (The Book Thief)
Steven Price (Gravity)
Alexandre Desplat (Philomena)
Thomas Newman (Saving Mr. Banks)
William Butler and Owen Pallett (Her)
Best Cinematography
Philippe Le Sourd (The Grandmaster)
Emmanuel Lubezki (Gravity)
Bruno Delbonnel (Inside Llewyn Davis)
Roger Deakins (Prisoners)
Phedon Papamichael (Nebraska)
Costume Design
American Hustle
The Grandmaster
The Great Gatsby
The Invisible Woman
12 Years A Slave
Makeup and Hairstyling
The Lone Ranger
Dallas Buyers Club
Jackass Presents: Bad Grandpa
Production Design
American Hustle
Gravity
The Great Gatsby
Her
12 Years a Slave
Sound Editing
All is Lost
Captain Phillips
Gravity
The Hobbit: The Desolation of Smaug
Lone Survivor
Sound Mixing
Captain Phillips
Gravity
The Hobbit: The Desolation of Smaug
Lone Survivor
Inside Llewyn Davis
Visual Effects
Gravity
The Hobbit: The Desolation of Smaug
Iron Man 3
The Lone Ranger
Star Trek Into Darkness
Short Film, Live Action
Aquel No Era Yo (That Wasn't Me)
Avant Que De Tout Perdre (Just Before Losing Everything)
Helium
Pitääkö Mun Kaikki Hoitaa? (Do I Have to Take Care of Everything?)
The Voorman Problem

Short Film, AnimatedFeral
Get a Horse!
Mr. Hublot
Possessions
Room on the Broom
Documentary Short Subject
CaveDigger
Facing Fear
Karama Has No Walls
The Lady in Number 6: Music Saved My Life
Prison Terminal: The Last Days of Private Jack Hall

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Democracia directa?

Eis como vão ser eleitos os próximos governantes da Ucrânia: “Quem quiser pode lançar nomes, de pessoas que conheça, personalidades prestigiadas e sem ligações à política, como reitores de universidades. A cada nome, o povo vai votar de braço no ar, ou aplaudir e gritar. Os nomes que obtiverem mais gritos serão os eleitos”.

Praxe

Este é um dos assuntos do dia há algumas semanas. Toda a gente em Portugal, mesmo que não tenha frequentado uma universidade sabe o que elas são. Todos os anos, por altura da entrada de caloiros em todas as universidades é vê-los em manada atrás dos ditos “doutores” trajados. Reconhecem-se facilmente porque estão sempre todos pintados, com indumentária ridícula, atados ou com mais alguma coisa como chupetas. Dizem que agora as praxes são melhores, ou seja, mais brandas. Quando entrei na universidade há 15 anos fui uma caloira rebelde. Lembro-me de as inscrições terem sido em final de setembro e as praxes diárias duraram até ao baptismo. Os primeiros dias ainda fui, muito a custo. Depois decidi dar o grito de ipiranga e dizer que bastava. Lembro-me que a praxe foi tudo aquilo que dizem que não é praxe: muito exercício físico, insultos aos calóiros, canções insultuosas, andar de quatro, comer sem talheres... Mas de uma coisa lembro-me perfeitamente, quando quis sair saí e ninguém me ameaçou. E lembro-me que tinham cuidado comigo por causa da minha asma e que perguntavam sempre se tínhamos algum problema de saúde. Ao longo dos anos fui sempre assistindo às praxes dentro da universidade, os gritos grotescos, as corridas, os insultos... Há alguns anos a minha universidade proibiu as praxes dentro dos edifícios. As aulas teóricas começaram a ser obrigatórias. Os alunos passaram a ter que assinar, desconfio eu, também para evitar as faltas em massa.

Corro o risco de ser injusta, mas a maioria das pessoas que praxa, os ditos “doutores” (que muitos deles nunca virão a sê-lo de facto), são os piores alunos, os mais faltosos, os que mais reprovam. E isto porquê? Quando muita gente se queixa do ensino público em Portugal deveriam pesquisar em quantas universidades do mundo: i) a propina anual para uma licenciatura não ultrapassa os 1000 euros anuais, independentemente do número de anos que se reprova; ii) onde as universidades públicas são as melhores comparativamente com as privadas!


Sou contra proibirem-se as praxes. Normalmente este tipo de proibições fazem-se em regimes totalitários e ditatoriais. Mas claro que sou a favor da condenação social do que conhecemos por praxe. As figuras ridículas e atitudes subalternas não são dignas de pessoas adultas que frequentam o ensino universitário. Resta a quem é praxado dar-se ao respeito. E daqui a uns anos falaremos... estas práticas menores passarão de moda e à história!

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Os altos e baixos da ciência

Nas últimas semanas que se lê em todos os jornais e se vê em todas as televisões e se ouve todos os comentadores falar nos cortes de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento, no decréscimo abrupto do investimento em ciência, na pouca transparência dos concursos da FCT, eu desta vez não fui afectada. Mas no tempo das “vacas-gordas”, no tempo em que todos tinham bolsas de doutoramento e pós-doutoramento, eu fui talvez das pessoas que mais concorreu a bolsa de doutoramento da FCT e não conseguiu. Fiz o meu doutoramento paga por um projecto europeu. Agora, assisto a milhares que se sentem injustiçados, como eu várias vezes, durante muitos anos, me senti. Confesso que neste momento não tenho dados suficientes para ter uma opinião a favor ou contra sobre a questão. Sei que as bolsas de doutoramento e pós-doutoramento foram reduzidas em  valores superiores a 40% e que as taxas de aprovação foram em média de 10%. Sei também que a FCT criou os programas doutorais e sei também que no concurso para investigadores aumentaram os contratos de 80 para 220. Paremos para pensar. Reflectir sobre os dados. Um país sem educação e sem cultura é um país menos competitivo e mais pobre. É no investimento em educação e cultura que se formam gerações mais preparadas.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Nicholas Peppas

Na semana passada esteve na Universidade do Minho um dos melhores cientistas área, Nicholas Peppas. Foi o orientador de doutoramento de um dos meus orientadores de doutoramento. Começou por dizer que não faz ciência para publicar artigos. No entanto, tem 1300 artigos publicados e tem 63 anos.

Fez uma palestra que começou a falar de pessoas e acabou a falar de pessoas. Este é o objectivo da ciência e da investigação: descobrir qualquer coisa que melhore a vida das pessoas. Falou de coisas tão banais como gostar há anos atrás de passar fins de tarde na biblioteca, no tempo em que não havia acesso digital aos jornais científicos. Como devemos falar de negócios com investidores. Como um cientista pode fazer figura de parvo quando explica a sua descoberta a um investidor.

Nicholas Peppas é um grego com nacionalidade americana, tem o dom da palavra como só os americanos têm. E ele, grego de nascimento, aprendeu o melhor dos americanos: o dom da palavra.Saiu da Grécia para se doutorar. O objectivo era voltar à Grécia e ser o melhor professor na sua área. Nunca mais voltou definitivamente. Conta histórias, mesmo que muitas vezes pareçam ser tiradas do argumento de um filme. E ainda por cima é culto. Conhece muito bem opera e até já escreveu livros com essa temática. Tive um professor no secundário que dizia que ser bom escritor na área das letras era muito fácil, excelente era ser bom escritor quando a formação era em ciências. Exemplos dessa grandeza são os nossos Miguel Torga, António Gedeão (Rómulo de Carvalho), António Lobo Antunes.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Toward fixing damaged hearts through tissue engineering

É sempre muito bom quando vemos o nosso trabalho reconhecido. Este é o resultado de um ano de investigação em NY, Columbia University. Muitas horas de discussão, muita reformulação de ideias, algumas hipóteses, muito trabalho, muitas horas, muitas leituras. Este trabalho foi também muito inspirado pelos doentes que por mim passavam no Presbyterian Hospital. Pensar diariamente nos milhares de doentes que sofrem de doença cardíaca e em todos os que poderemos ajudar, isso é o que me faz não desistir e lutar diariamente conta as adversidades. Como me dizia um colega hoje "Afinal o dinheiro que foi investido na tua investigação parece que não foi mal gasto". Não há nada melhor do que termos o reconhecimento dos melhores. Para ler mais, aqui fica o press release da American Chemical Society:

Biomacromolecules
In the U.S., someone suffers a heart attack every 34 seconds — their heart is starved of oxygen and suffers irreparable damage. Engineering new heart tissue in the laboratory that could eventually be implanted into patients could help, and scientists are reporting a promising approach tested with rat cells. They published their results on growing cardiac muscle using a scaffold containing carbon nanofibers in the ACS journal Biomacromolecules.
Gordana Vunjak-Novakovic, Rui L. Reis, Ana Martins and colleagues point out that when damaged, adult heart tissue can’t heal itself very well. The only way to fix an injured heart is with a transplant. But within the past decade, interest in regenerating just the lost tissue has surged. The trick is to find materials that, among other things, are nontoxic, won’t get attacked by the body’s immune system and allow for muscle cells to pass the electrical signals necessary for the heart to beat. Previous research has found that chitosan, which is obtained from shrimp and other crustacean shells, nearly fits the bill. In lab tests, scientists have used it as a scaffold for growing heart cells. But it doesn’t transmit electrical signals well. Vunjak-Novakovic’s team decided to build on the chitosan development and coax it to function more like a real heart.
To the chitosan, they added carbon nanofibers, which can conduct electricity, and grew neonatal rat heart cells on the resulting scaffold. After two weeks, cells had filled all the pores and showed far better metabolic and electrical activity than with a chitosan scaffold alone. The cells on the chitosan/carbon scaffold also expressed cardiac genes at higher levels.
The authors acknowledge funding from Fundação para a Ciência e TecnologiaPOPH-QREN—Advanced Formation, the European Social Fund, the National Fund and theNational Institutes of Health. The work was a collaboration between Columbia University and 3B´s - University of Minho, Portugal.

"A maioria das minhas colegas de escola cumpriu o seu destino profissional, com êxito ou normal; sobretudo cumpriu o seu destino de esposa burguesa, bem instalada, com filhos loiros. Desde cedo soube que isso não me interessava. Porque me parecia que o mundo era muitíssimo maior."

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A vergonha

Eu, tal como muita gente, mas principalmente tal como o João Miguel Tavares (com quem partilho muitas das opiniões), na passada sexta-feira, tive vergonha da democracia portuguesa. Não tenho vergonha de ter contribuído com o meu voto para eleger os deputados do PSD (mas podia ter tido, caso tivesse tido oportunidade de votar). Mas, principalmente, vergonha de quem “inventou” um referendo  à última da hora por puro oportunismo político, já depois do projecto de lei ter sido aprovado na Assembleia da República.  Hugo Soares “lançou-se” como o arauto do referendo mas desconfio que não passa de um fantoche que só cumpre ordens e abana com a cabeça. É que a pouca preparação que demonstra ter, mesmo com formação em Direito, envergonha qualquer pessoa. Nem a defender o “seu” referendo mostra-se à vontade. Vazio de ideias é o que me parece. O debate em que participou na TVI24 com a Isabel Moreira foi um KO sucessivo do princípio ao fim. Como se diz na minha terra de nascença (ou nossa, para minha vergonha) o Hugo Soares levou uma coça da Isabel Moreira.

Hugo Soares é mais um jotinha que foi subindo na hierarquia do seu partido, muito provavelmente, por lamber botas. Acresce que não é um grande orador ou um grande argumentador. Não se lhe conhecessem desempenhos profissionais, fora da política, relevantes. A minha grande questão, que continua sem resposta, é: qual é o objectivo de propor um referendo “em cima do joelho” a mando do boss ao boy Hugo Soares?
Tenho vergonha de quem aceitou a disciplina de voto numa matéria de consciência individual. O projecto de lei tinha sido aprovado com os votos a favor de mais de uma dúzia de deputados do PSD. Onde estão eles? O que lhes aconteceu para mudarem de opinião? Não me lembro em matérias tão delicadas de não haver liberdade individual. Estamos numa ditadura? O pastor ordena e o rebanho vai atrás? Palmas para a Teresa Leal Coelho que esteve à altura da sua consciência e dos eleitores. E palmas para os militantes do PSD que não tiveram receios de criticar o referendo, entre eles, Marques Mendes, Pacheco Pereira e José Eduardo Martins. Se ouvir mais alguma vez algum deputado ou governante do PSD invocar a crise para poupar em qualquer coisa, a minha arma de arremesso será sempre o referendo.

As famílias de duas mães e dois pais existem. Ninguém as poderá apagar ou fazer desaparecer. A única injustiça é que não estão protegidas pela lei. E é nisto que os deputados que votaram a favor do referendo deveriam envergonhar-se: esta situação existe, não vai mudar. O que esta lei da co-adopção pretende mudar é o direito de uma criança ter no papel o que existe na realidade.Agora, para quem ainda não percebeu o que está em causa: Um casal criou junto um filho e apenas um dos cônjuges é mãe/pai biologico (a). Separam-se. Todos sabemos como muitas pessoas se transformam nas separações/divórcios. Que direito tem o conjuge que apesar de ter sido pai/mãe, que passou noites a fio em claro quando o filho estava doente, que acompanhou ao médico, que o protegeu? Neste momento, o direito sobre a criança que criou é zero. Agora imaginem outra situação: imaginemos a morte de um dos membros do casal que é pai/mãe biológico da criança. Que direito tem o membro que sobrevive?


Estas famílias já existem. Só temos que lhe dar um direito que lhes pertence. Não custa nada. Não prejudica ninguém. Não faz mal a ninguém. Quem for a favor continuará a ser e quem for contra poderá continuar a sê-lo, democraticamente.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A vida de Adele

A história deste filme que conquistou a Palma de Ouro em Cannes é desconcertantemente simples. “A vida de Adele” antes de estrear já era polémico Fizeram um grande alarido à volta de uma interminável cena de sexo. Muitos acharam-na exagerada, ou longa demais, ou explícita demais. Mas não é só esta. Não as contei nem me lembro exactamente, mas há pelo menos, mais três. Mas o que tem de demais é o fato delas nos perturbar  Mas se me perguntarem do que mais me lembro do filme, não é de certeza, das cenas de sexo. Para aprumar ainda mais a polémica, as protagonistas do filme acusam o realizador de as maltratar, juntamente com a equipa,  durante a produção. Polémicas à parte, este filme é excepcional. E na minha opinião “a star was born”, Adele.

O filme retrata um amor à primeia vista, com o êxtase das paixões, a catarse, a exploração, a descoberta, até ao tédio da estagnação.  Este filme não relata o preconceito  mas a relação entre as duas personagens. Quase nunca abordando o preconceito social da homossexualidade, aborda vincadamente  a  dinâmica da relação, o que resulta e não resulta, as compatibilidades e as diferenças, os mundos e as visões das personagens. Chorei como uma Maria Madalena neste filme. Não sabia como era o fim mas a actriz que interpreta Adele (e que também se chama Adele na vida real) tem um papel tão marcante que a sua expressão é um pronúncio do fim do filme.

Adele tem horizontes limitados e apesar de viver com uma visionária, contenta-se com o que tem. Para ela um amor e uma cabana bastam-lhe. E quando o amor dela deixa de lhe dar a atenção que precisa, ela vai encontrar o que lhe falta noutro colo. Só que isso precipita o fdim de tudo. A personagem de Adele é quase desde o princípio do filme, aquela que se pretende abraçar. Está sempre em desvantagem, parece correr atrás da vida, a uma velocidade menor do que a acção.


Depois de três horas, continuei a chorar baba e ranho. E o final não é à Hollywood, é cru como toda a realidade.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Mara Gabrilli – Depois daquele dia

Milly Lacombe é uma contadora de boas histórias. Sobretudo conhecida pelas suas crónicas mensais na Revista TPM, pelas críticas literárias na Folha de S. Paulo e pelas reportagens/ opiniões como free lancer para os mais diversos jornais brasileiros.  Milly, descreve-se assim, brevemente: “Eu vivo de escrever porque não sei fazer mais nada na vida. Se soubesse, pararia de escrever e ia ganhar algum dinheiro”. Precisa de mais palavras? Viveu 7 anos em LA, voltou para o Brasil, onde se solidificou como escritora e voltou a sair, desta vez, rumo a NY, onde vive. A sua escrita está recheada de detalhes e pormenores, de emoções, de quotidiano, de ironia, de muitas figuras de estilo e muito humor.

Não me lembro exactamente como conheci a escrita da Milly Lacombe mas acho que me fizeram chegar uma das suas (muito bem escritas) crónicas da revista Trip. Quem me conhece bem sabe que eu sou apaixonada por biografias e crónicas!

A biografia de “Mara Gabrilli – Depois daquele dia” foi escrita entre encontros e jantares com a escritora e biografada: “Durante quase cinco anos, que foi o tempo que demorei para escrever o livro, eu fui para casa agradecendo ao universo pela chance de poder contar a história dela, e pedindo força e inspiração para fazer isso da melhor forma possível. É uma história sublime, edificante, espetacular e linda. Eu não podia errar (...) Foi uma tremenda responsabilidade (...) eu quero que a história dela seja conhecida por multidões. É uma história que precisa ser contada, uma história que pode mudar vidas, que pode inspirar e fazer a gente entender o mundo, e aprender a aceitar o ritmo das coisas. A Mara, e a chance de contar sua vida num livro, foi um presente que me deram e pelo qual eu agradeço todos os dias”.

Mas o que tem esta biografia de tão especial: “a história é a de um resgate espetacular, a verdadeira jornada do herói (...) acho que pode interessar a portugueses, irlandeses, americanos, chineses: trata-se de experiência humana universal (...) Uma menina rica e mimada que quebra o pescoço voltando da praia aos 26 anos e imediatamente aceita a nova condição. Depois de anos de reabilitação ela decide se candidatar para tentar ajudar outros que tenham a mesma deficiência mas não o mesmo saldo bancário. Se fosse ficção seria inverossímil, mas o bom é que a realidade não precisa fazer sentido”.

A Milly, que para além de uma excelente escritora, é uma excelente pessoa, enviou-me este livro para ler. Aqui fica a minha opinião, muito aquém do verdadeiro entusiasmo de o ter lido. E esperemos que daqui a pouco alguma editora portuguesa se interesse pela publicação deste livro em Portugal.

O livro começa com a descrição do acidente e tudo se desenrola com a vida de Mara, antes e depois, porque era muito mais do que o acidente. Começa de forma  dramática e  a partir dali o livro vai recuando e adiantando, conjugando passado, presente e futuro, como só a Milly sabe fazer. Quem conhece a escrita de Milly Lacombe reconhece o seu estilo neste livro e principalmente as pitadas de humor.

Com essa história que tinha tudo para ser triste e trágica,  Milly Lacombe mostra-nos o intenso processo de superação e adaptação de Mara. O livro conta o acidente no qual Mara fica tetraplégica. Usa uma forma muito dinâmica repleto de analepses e prolepses. Mistura passado, presente e futuro. Muita verdade, muita coragem, muito exposto e muito despido de preconceitos é como pode ser descrito, de uma forma simplista. Com o decorrer da leitura, Mara parece ser uma super-mulher, que supera obstáculos como se não fosse tetraplégica, com uma vontade de lutar que não parece humana, com um optimismo que não parece real. Mas depois disto, aparecem os defeitos, as discussões, as manias, que chega até a dar raiva. Mas o livro é muito mais do que isto. Mostra que Mara continuou com a sua vida profissional agitada, que manteve os seus relacionamentos, vida sexual e passou a ajudar os outros que não têm as mesmas condições financeiras que ela.

No filme Mar Adentro (baseado em factos reais, realizado pelo espanhol Alejandro Amenábar, em 2004), o personagem de Ramón Sampedro, vivido por Javier Bardem, luta pelo direito à eutanásia depois de uma fractura semelhante à de Mara a ao mergulhar no mar. Mexer apenas a cabeça não é para ele viver. Dois casos semelhantes com atitudes perante a vida tão diferentes.  Mara, não só não desistiu de viver como acha que a vida vale a pena (mesmo só mexendo a cabeça). Desde o acidente não pára mais de se mexer: criou a ONG que ajuda pessoas com dificuldade de mobilidade, candidatou-se a vereadora, foi nomeada secretária municipal e depois deputada federal.


A nossa vida pode mudar de repente, sem aviso prévio, e  radicalmente para pior. Nem todos estamos preparados e nem todos sabemos lidar com isso. Sobretudo, quando esta mudança limita o desempenho físico e actividades quotidianas. Tudo o que aprendemos desde que nascemos deixa de existir. De uma forma minimalista, é disto que se trata esta biografia: reaprender a viver, aceitar e não se revoltar. Ler este livro, não fará mal a ninguém, muito pelo contrário. É um murro no estômago. Depois de lermos este livro não ficamos indiferentes. Fazendo minhas as palavras da Milly, muitos dos relatos deste livro parecem inverosímeis, mas a verdade  “é que a realidade não precisa fazer sentido”.


domingo, 12 de janeiro de 2014

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O meu pai

Uma semana antes do Natal fui ao batizado da M. A M. é filha da M. e neta da F. são a minha família de coração e não de sangue. A F. é uma quase irmã da minha mãe. O coro na igreja era constituído apenas por crianças e primos da M. O padre que batizou a M. é um grande amigo desta família S. que foi em tempos padre da freguesia de S. João do Souto em Braga. No fim do batizado o Padre V. disse que tinha batizado uma pessoa que estava naquela igreja e que tinha 60 anos, o JL. Já no restaurante, a minha mãe disse ao Padre V. que ele nos tinha batizado, a mim e ao meu irmão. E quando soube que eramos filhos do meu pai disse: "Conheço o V. desde rapaz. Sempre foi muito bom moço. É uma jóia de pessoa. Vocês tratem bem o vosso pai que é uma grande pessoa". Eu já sabia disso! Mas quem não fica feliz quando se ouve um elogio assim sobre o nosso pai?

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A minha memória de Eusébio (1942-2014)

Ao contrário do Sócrates, que inventa memórias, eu conheci pessoalmente o Eusébio na campanha eleitoral de 1995 em Braga. Na altura, tinha eu 16 anos, acabava o cavaquismo e eu aderia à juventude de um partido. Nos tempos livres que nos sobravam fazíamos de tudo: arruadas, agitávamos bandeiras, oferecíamos de tudo, íamos a jantares... E numa das tardes, o Eusébio esteve em Braga a distribuir bolas e t-shirts autografadas. Nesse dia, fizemos um cordão humano para proteger o Eusébio da multidão. E nesse dia deu para perceber a simplicidade dele. Suava em bica mas queria agradar a todos. Que me lembre, não mais tornei a estar pessoalmente com ele.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A vida não pára

Passei o ano pela primeira vez na cama. Acho que nem em bebé o fiz porque, como nasci e Maio, já tinha 7 meses... Não perguntei aos meus pais, mas a passagem de ano de 1979/1980 devia ter sido feita no colo de alguém. Tosse e falta de ar atiraram-me para a cama como já não me lembrava. Asmelhoras têm sido lentas. A respiração melhorou mas a tosse piorou. A Bu vinga-se de ser ignorada fazendo várias vezes xixi no chão. Passou, por rebeldia, a ignorar o jornal. A Bu passou o ano comigo porque os meus tios têm um cão que é ciumento e é melhor não provocar confrontos. De qualquer das formas, os meus sobrinhos, passando pouco da meia-noite, passaram por aqui para levá-la. O espectáculo auditivo começa quando ela regressa e os meus sobrinhos vão para a casa da mãe. Nesses dias, a Bu, entra num pranto que dura horas.

No ano passado duas das minhas melhores amigas tiveram filhos. Na semana antes do Natal soube que um dos meus melhores amigos vai ser pai de gémeos!! Outro casal de amigos vão ter a C. em Abril. Estas notícias fazem-me sempre transbordar de alegria. A crianças são o símbolo da renovação, da esperança e do futuro. Há melhor alegria do que esta?

No dia 24 fui visitar uma amiga com cancro em estado terminal ao hospital. Antes de entrar no quarto disse à minha mãe que não chorasse em frente a ela e que estivesse preparada para o aspecto físico. Já não a via há mais de um ano. A pessoa que eu fisicamente conhecia, desaparecera. Apesar de uns 30 kgs mais magra, muito frágil, com problemas em respirar, a pessoa que eu conheci estava ali. A alegria de nos ver foi tão notória. Que alegria! Apesar da fragilidade e do estado, estava com um ânimo que me fez colocar em perspectiva a minha vida. Ainda tinha planos, ainda falava das consultas a que iria e ainda pensava voltar para casa. Elogiou tanto o serviço de Oncologia do Hospital de Braga, e todas as pessoas que a tratavam. Estava a ser tratada como uma raínha, nas palavras dela. Tinha sido encontrada pelo filho na cama desmaiada. Sobreviveu a essa crise. Eu, de mãos dadas com ela, contava-me que a hora dela ainda não tinha chegado. Ainda assisti à neta receber os quadros que mandou fazer com os desenhos de quando era criança. Obviamente que sabia que este seria o último Natal. Os meus pais ainda a visitaram no domingo e estava ainda mais animada. Falava até em voltar para casa e assar cabrito. Hoje de manhã a minha mãe ligou-me a dizer que a C. morreu. Apesar de todas as adversidades da vida, tinha sempre uma palavra de força e optimismo. Tinha uns olhos e um riso lindos. Depois de uma conversa com ela, tudo ficava melhor. As pedras no caminho eram sempre ultrapassáveis. Pessoas como a C. deixam muita saudade e fazem muita falta ao mundo.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O sistema nacional de saúde (SNS)

Juro que a próxima vez que ouvir falar mal do SNS português: vou insultar ou segurar-me para não bater na pessoa que o estiver a fazer. Há umas semanas, a Clara Ferreira Alves falou na sua crónica no Expresso, a propósito de um artigo do "The New York Times”  que falava da exorbitância do que se paga no sistema americano por um simples corte na cabeça que nem de sutura de linhas precisou.

Em 2006, quando estive a primeira vez em Houston, a fazer parte do meu doutoramento, fui parar ao hospital com um enxaqueca dilacerante. Depois de ter acordado às 5 da manhã, num domingo, para começar uma experiência às 6 porque tinha almoço marcado com amigos em “Indian Town”. Almocei comida indiana quase nativa, que para o comum dos mortais, deve ser prejudicial, imaginem para mim que (dizem que)sofro da vesícula. E à noite, como se não bastasse, comi pasta italiana caseira. Cheguei a casa com uma dor de cabeça latejante... Não sei se foi de ter madrugado e ter dormido pouco, se foi da comida indiana, se foi do vinho italiano. Até hoje não sei a razão do “se”. O que sei dizer é que como a dor só aumentou, não tive como n telefonar a umas amigas, sendo uma delas na altura estudante de medicina. Levou-me para o E.R. de um hospital que me lembro que se chamava de St Luke’s. Tenho que realçar que Houston é mundialmente conhecida pelo MD Anderson Center, um dos mais prestigiados hospitais de tratamento de cancro e também pelo seu Medical Center. Eu estava com uma enxaqueca tão grande que antes dessa, só uma fora tão má, que me obrigou a estar uma noite inteira no hospital porque suspeitavam de um problema neurológico. Quando cheguei ao hospital, não o achei nada como aqueles que se via nos filmes, nem em número de médicos, nem na assistência, nem na azáfama e nem no tamanho.  A sala de espera parecia de um pequeno centro de saúde. A única coisa que estranhei foi não ver doentes nem médicos. E por isso,  estranhei a demora a atenderem-me. Fui chamada para a triagem, que foi feita por um enfermeiro, na qual me fez um interrogatório sem fim e me mandou preencher papéis, que eu naquele estado, não sabia preencher. Pedi uma cama. Colocaram-me às escuras num quarto, como pedi. Num hospital, que parecia vazio, a médica demorou uma eternidade a assistir-me. Não tenho noção de quanto tempo esperei, mas não foi pouco. A médica, que até era simpática, antes do exame neurológico, fez-me um interrogatório. Começou pelas óbvias questões das drogas ilegais e foi por aí adiante. Eu repeti-lhe várias vezes que estava a morrer de dores de cabeça. E ela, quando finalmente terminou, disse que me iria prescrever codeína + tramadol. E aí eu comecei a ver outra luz! E prescreveu-me vicodin (sim, essa droga na qual o Dr. House é viciado) para SOS. Quase que me abracei a ela de tanta alegria! Deram-me a injecção intramuscular e obederam ao protocolo da vigilância. Quando saí do hospital já não articulava bem as palavras. Dormi quase 48 hrs seguidas, e quando finalmente acordei, tinha os lábios rebentados. Nunca cheguei a perceber se por causa das drogas legais ou por causa da vesícula/ fígado... Os meus amigos médicos que me perdoem, mas não sou expert... A parte pior chegou umas semanas depois, quando me apareceu a conta do hospital... Pelo que percebi, o seguro pagou uma parte, e a parte que eu teria de liquidar ultrapassava os 400 dólares (isto em 2006)... Podem imaginar o meu desespero, de um “tombo” destes no meu parco orçamento de aluna de doutoramento!!

Anos depois, já em NY, tinha uma amiga em minha casa. Fomos jantar a um restaurante grego, e entre sangrias, peixe e pão, terminamos a noite a beber vinho do Porto num bar em Hell’s Kitchen. Posso garantir, que apesar de parecer que enfrascamos muito, isso não aconteceu. No dia seguinte a minha amiga teve uma dor de barriga. Uma dor localizada que depois se começou a espalhar. De tarde, por conselho de outro amigo, estudante de medicina fomos ao Presbyterian Hospital/ Columbia Medical Center. Podia ser uma apendicite. As urgências deste hospital, por onde eu passava quase sempre, quando saía a horas tardias do lab pareciam verdadeiramente os E.R.s que vemos na tv. Desde baleados, drogados, grávidas, quedas de crianças... de tudo vi ali. E sim, este serviço parecia sempre activo. A minha amiga foi colucada numa maca a soro. Começaram por lhe dar qualquer coisa para beber para fazer um CT.  Não tinham certeza de nada. Podia ser apendicite, mas também podia ser uma pancreatite, ou nenhuma das duas. E as horas foram passando. Eu e o meu amigo quase médico, enquanto ela esperava deitada pelo diagnóstico, fomos as nossos labs, e ainda tivemos tempo de jantar. Quando voltamos tinha mudado de sítio. Estava agora próximo das secretárias dos médicos. A médica que a estava a assistir ia acabar o turno. Era interna de anestesiologia e morava no prédio do meu amigo quase médico. Desde esse dia passou a perguntar-me como estava a minha amiga e a dizer-me “olá” nos corredores. Até hoje, não me esqueço que se chama Emily. Durante a madrugada, entre TACs, injecções para as dores... fomos passando o tempo. Ainda nos ofereceram de comer, sandes e sumos, e ainda umas cadeiras. Eu e o meu amigo ainda tivemos tempo de ir a um café em frente ao hospital, Jou Jou. E ainda tivemos tempo de ver a chefe de turno a “flirtar” um dos especialistas de serviço no café.  Tive ainda tempo de adormecer com a cabeça pousada em cima da cama da minha amiga. E de ser acordada pela médica para me dizer que como a minha amiga tinha um excelente seguro de saúde, iria ficar internada. Disse-me que iria dar-lhe morfina e que seria transferida de serviço. Quando lhe estravam a administrar a morfina, o médico disse-lhe para avisar quando ela começasse a sentir o efeito. A seguir a isto, mandaram-me para casa passava pouco das 6 da manhã.  Umas horas depois regressei ao hospital e a C. estava internada mas estava quase a ter alta. Os quartos eram individuais, pareciam quartos de hotel, a cama era toda automática, inclusive dava para pesar. Tinha casa de banho privativa. E mais uma vez, sumos e sanduíches não faltavam. A conta, vim a saber depois, foi astronómica. A C. tinha um excelente seguro de saúde pago pela Harvard University. Mas sabem por quanto ficou estas pouco mais de 24 hrs? Mais de 5000 dólares.

Quando ouço alguém a queixar-se do nosso sistema de saúde apetece-me dizer-lhe a sorte é que não têm acesso à factura detalhada... e alguém paga essa conta sem os próprios nunca saberem o valor real das coisas...

domingo, 15 de dezembro de 2013

O fim de semana ideal

Fui buscar os meus sobrinhos a casa da mãe na sexta. Estava com a S. Os meus sobrinhos adoram o meu carro. E toda a conversa a caminho de Braga foi à volta disso. A S. conheceu-os nesse dia. Fartou-se de rir com eles principalmente quando o meu afilhado lhe disse:
-Gosto de tudo de carros, de chaves de carros e de lavar carros!

Quando chegamos a casa dos meus pais, o meu irmão já tinha ido buscar a Bu. Os meus sobrinhos deliram com a Bu. E o mundo para a Bu pára quando vê os meus sobrinhos. Pediram para ficar com ela. E eu não tive como não deixar porque ela é uma vendida e troca-me, sem nenhuma dificuldade, por eles.

Ontem, os meus sobrinhos foram passear com o meu irmão pelo centro e encontraram muitos amigos. Quando chegou a vez de andarem no comboio de Natal, o motorista não queria deixar a Bu entrar. Ao que o meu irmão lhe disse:
-Ou entramos todos ou não entra ninguém.
Perante este cenário, o motorista não teve outro remédio a não ser autorizar a Bu entrar...
Quando chegou a hora do conto na Centésima Página, o meu irmão teve que levar-me a Bu a casa porque, aí sim, não tinha hipótese de entrar. O meu afilhado, perante este cenário, já não queria ir à hora do conto. Queria ficar em casa comigo e com a Bu. Lá tive que entrar no carro e ir com eles. O meu irmão ficou com a Bu a passear nos jardins da Avenida Central e eu fui com os meus sobrinhos à livraria. Chegamos atrasados, como quase sempre, e o conto tinha terminado. Mas ainda chegamos a tempo de uma actividade. As crianças todas sentadas num tapete a construir uma colagem de um anjo de Natal.

O K. é uma simpatia. Mal chegou, entrou no meio da roda de meninos, sem qualquer receio. Sem ninguém lhe perguntar nada disse, em voz alta, o nome dele, que tinha uma cadela que se chamava Bu, e ainda apontou para trás para mostrar a titi e o irmão. O meu afilhado é o oposto. Não se quis sentar junto aos meninos se eu não estivesse com ele. É um anti-social como a madrinha. Para ele uma dezena de meninos é uma multidão. Passamos o resto do tempo a colar o anjo de Natal e o meu afilhado ainda desenhou a cara. Quando os meninos todos sairam fiquei eu, o K., o afilhado e ainda um pai com um filho com uns 9 meses. Os meus sobrinhos adoram bebés. E o introvertido do meu afilhado perdeu a vergonha com o pai do menino que se chamava Vasco.
- o meu avô chama-se Vasco - disse o afilhado
- E tenho uma cadela que se chama Bu e que faz muitas asneiras. Fez cocó no sofá da avó e roeu o tlm da titi, até comeu a tampa!
O pai do Vasco só se ria e o Vasco saltava enquanto o pai o segurava debaixo dos braços. O meu afilhado ainda teve coragem para mais uma coisa:
- Posso pegar no Vasquinho?
E o Vasquinho lá andou, com a ajuda do pai, entre os colos o K. e afilhado.

Depois de jantarmos na casa dos avós fomos para casa. Queriam ver o aviões mas por problemas técnicos acabaram a ver montagem de legos no tablet. Eu no meio, e os dois homens da minha vida, um de cada lado. Eu, que costumo ser uma friorenta, parecia estar nos trópicos, tal era o calor! Quando o afilhado adormeceu, o pai veio buscá-lo para a cama dele. A Bu, ignorando quem é a dona e quem a salvou de um futuro que não parecia muito risonho, trocou-me facilmente para ir dormir no quarto do afilhado. Ainda fui chamar por ela mas ignorou-me completamente. Acabei a dormir com o K. que é um verdadeiro aquecedor mas que, felizmente, não ressona. Adormeci tarde, como sempre, depois de muito ler.

Sei que o toque de alvorada foi pouco depois das 7 porque tenho uma vaga memória de ter ouvido, ao longe, o meu afilhado e o meu irmão a tomarem o pequeno-almoço. Eu continuei a dormir acompanhada pelo mais velho que dormia ocupando quase a cama toda.... e eu sem reclamar. Por volta das 11 acordamos com a Bu a saltar para cima de nós.

Fomos almoçar com os avós e à tarde os meus sobrinhos foram ao cinema com o pai ver "Frozen". Nem preciso descrever a cena da Bu de cada vez que os meninos se vão embora. Dá dó! Chora, soluça, uiva, raspa as patas na porta... nunca vi devoção maior.

copyright: Centésima Página

copyright: Centésima Página

copyright: Centésima Página

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A destruição

A Bu, que está quase a tornar-se adulta, faz cada vez mais asneiras. Quem a vê pessoalmente, à primeira vista, é inofensiva e tem um ar muito meigo e doce. O problema da Bu são os vícios. Meias, ténis, chinelos, peluches, pão, rolos de papel, fotografias, bolas de ténis só, para escrever alguns. Todas as meias que encontra leva-as para a cama. Não lhes encontro encontro estragos, ainda não percebi o que faz com elas...Nos ténis interessa-lhe particularmente os atacadores. Os peluches é um misto de os trincar com cheirar, mas a verdade é que não os destrói, só lhes arranja uns defeitos. Fotografias e bolas de ténis é para roer até não sobrar nada. A porta da casa de banho nunca pode ficar aberta porque a Bu adora desenrolar o papel higiénico e fantasiar-se! A Bu não é grande apreciadora da comida seca que lhe sirvo diariamente. Acho que só a come quando não aguenta mais a fome. O que ela delira é com pão.


Mas o inimaginável aconteceu no domingo! Por vezes, deixo o telemóvel a carregar em cima do balcão, na cozinha. Foi o que fiz no domingo de manhã. Só que o problema é que, em vez, de o desligar quando acabei de tomar o pequeno almoço, deixei-o todo o dia. O fio do carregador devia estar a cair ligeiramente. Imagino que a Bu olhasse para o fio e desafiou o seu físico para tentar alcançá-lo. Devia ter sido isso que fez. Quando cheguei a casa à noite não reparei que o telemóvel não estava no sítio que o tinha deixado... Quando me baixei para ver o que estava no chão, no meio de várias coisas destruídas, encontrei o meu BB!! Estava irreconhecível... Respirei fundo e não me descontrolei. Percebi que funcionava... contentei-me com pouco... E a Bu olhava-me com aquele ar tão terno dela...













quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O espírito natalício

Chego a casa de madrugada e tenho na minha cama 3 homens e a Bu. Os dois pequenos, um de cada lado, com o pai no meio. A Bu acordou comigo a abrir a porta e espreguiça-se. A tv está acesa no Disney Channel. O pai muda-se com o mais velho para o quarto deles e deixa-me com o mais novo. A Bu, essa ingrata, segue-os e instala-se confortavelmente no fundo da cama do meu sobrinho mais velho. E eu, qual dona rejeitada, ainda me ponho feita parva a chamar por ela... A Bu, muito bem instalada, o único gesto que faz é levantar a cabeça e ignorar-me... Volto cabisbaixa para a cama e contento-me em dormir com o homem que nunca me abandona. Para este “piqueno” tudo o que eu faço é que está bem feito e tudo o que eu tenho é que é bom! Depois é capaz das questões mais espantosas. Como ele vê uma pilha de dezenas livros na mesa ao lado da minha cama, que mais parece a torre de Pisa, tal o equilíbrio que parece lutar contra a gravidade e não desabarem como um baralho de cartas: “Para que servem estes livros todos quase a cair?”.
- Para eu ler.
-Mas não os lês todos ao mesmo tempo... podiam estar onde estão os outros (quer ele dizer nas estantes.

E eu dou comigo a pensar que ele tem razão mas não sei como lhe explicar que o meu interesse momentâneo por aqueles livros não é directamente proporcional à velocidade que os consigo ler... E daí, aquela pilha que se amontua com o passar dos dias...
De manhã fui dar com ele, mais a sua inseparável chupeta e fralda, a olhar para o pinheiro que o pai e o irmão tinham feito no dia anterior.
-Afilhado, a árvore está bonita.
- Está mas não fui eu que a fiz. Foi o K. e o pai. (Lá sinceridade não lhe falta). Eu gosto é de olhar.

O artista da casa levanta-se e vai contemplar a árvore. Ao contrário do irmão não se limita a olhar. Arranja as bolas, os pais Natal, as fitas, como se alguém lhes tivesse mexido. E depois, com um grande sorriso, continua a contemplação.

São 7:45 da manhã e dois dos homens da casa estão acordados. E eu que não adormeci antes das 4...


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

valter hugo mãe no 14º aniversário da Centésima Página

A apresentação do livro “Desumanização”, o mais recente de valter hugo mãe, começou pela classificação de estranho. Para quem conhece os livros de valter, este é muito diferente e é isso que causa a tal estranheza. A principal diferença centra-se na deslocalização no espaço. O hino  à portugalidade e Portugal que são sempre tão caros a valter, desaparecem neste livro. A escrita fluída dos seus livros também não existe neste. Os personagens são islandeses. Daí a impossibilidade de qualquer comparação. Nada pode separar tanto um povo. Depois, a imagem visual é quase um inédito. As palavras neste livro parecem mais escolhidas. Este livro parece um grande poema . Quase uma oração ou evocação.

Quando o valter começou a falar referiu a intensa relação que tem com a Centésima Página. Uma relação pessoal, segundo ele, muito antiga que “antes de ser conhecido já as pessoas desta livraria acreditavam em mim”. E disse também  que acha que esta livraria é uma das mais bonitas do mundo.

Valter começou por dizer sobre este novo livro que procura escrever livros que não sejam redundantes, que não sejam um livro “parte 2”. Procura escrever livros onde “não haja receitas”. Segundo o próprio, andava há muito tempo a ganhar coragem para escrever um livro que não parecesse um português a escrever sobre a Islândia, mas um islandês. Acrescentou que os livros não vivem do relato puro e simples. A trama deste livro não é a grande questão. O que lhe interessa é a intensidade e que os personagens sejam reais.

Cresceu a pensar que a Islândia era um país de fantasias, crendices estranhas, mitologia e do universo fantástico. Realçou que os islandeses foram capazes de derrubar um governo e fazer os banqueiros pagar a crise. A Islândia tem um inverno agreste e um verão que é uma tristeza. É um país interior, enclausurado. Tem 300000 habitantes, menos que a população do Porto, mas é o país que tem o maior número de orquestras do mundo.Toda a gente fala inglês fluente “com o sotaque da Bjork”. São uma comunidade absolutamente letrada. Foi o único país do mundo que fez um referendo no Facebook. É um país totalmente desburocratizado, com uma “anarquia prática” a “piscar o olho aos EUA”. Os islandeses viajam para a Dinamarca, para o sul de Espanha e para NY. Os islandeses não são nada simpáticos mas são extremamente eficientes no seu local de trabalho. No horário de trabalho, um pedido é sempre atendido. Os códigos de intimidade dos islandeses não são iguais aos nossos. São muito pouco receptivos.

A morte está muito presente neste livro. Muito mais do que em qualquer outro livro anteriormente escrito pelo valter. Quando lhe perguntam sobre a morte: “Tudo na vida tem que ver com a morte”. Literariamente tenta que a morte seja boa. A morte pode ser a nossa grande oportunidade”.


Sobre o amor, diz que ficou de tal maneira sufocado por este que o próximo livro que escrever não terá amor nenhum.Será muito pragmático e seco. (Apesar de eu achar que era a brincar). Disse que se sentia “um triste”. Que inventa todos estes “amores assolapados” e depois vai para casa “chuchar no dedo”.





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