segunda-feira, 28 de abril de 2014

Caetano é foda!

Caetano subiu ao palco com apenas 15 minutos de atraso. Cabelo curtíssimo. Camisa branca. Na estreia da tournée europeia, Coliseu cheio para o ouvir. Público ecléctico: muita gente muito nova, adolescentes, gente da minha idade, gente mais velha, gente de todas as idades. Cantou quase todas as canções do Abraçaço. Do alinhamento constaram as mais antigas Coração vagabundo e Eclipse oculto. Parco em palavras mas com gestos de muito carinho e interacção com o público. Perguntou se alguém festejava o aniversário e dedicou  Parabéns (“Tudo mega bom/ giga bom/ tera bom”), “a todos os que não falaram verdade mas principalmente aqueles que falaram verdade”. Desceu duas vezes do palco e o público correu para mais perto. As palavras são desnecessárias quando os gestos, as acções e teatralidade são tudo. Deitou-se no chão e ainda em Homem ousou dizer, o que todos pensam mas têm medo de falar: “Não tenho inveja da adiposidade/nem da menstruação/ só tenho inveja da longevidade/ e dos orgasmos múltiplos”. Caetano mostrou, também, que tem swing e que dança bem. De noite na cama foi quando Caetano desapertou a camisa e ameaçou tirá-la. Um dos momentos mais bonitos da noite, que deixou muita gente com o queixo na mão foi Estou triste: “Eu me sinto vazio e ainda assim farto/Estou triste, tão triste/ E o lugar mais frio do Rio é o meu quarto (...) Por que será que existe o que quer que seja/ O meu lábio não diz/ O meu gesto não faz”. Esta música tão difícil em termos vocais, mostra que a idade para Caetano é apenas um bálsamo. E para os que falam mal da Coca-Cola e dos seus malefícios aqui têm um bom exemplo: Caetano é viciado nesta bebida! De salientar que a idade só o beneficia, está cada vez mais grisalho e charmoso.  Terminou com Reconvexo, a minha preferida. Escrita propositadamente para Maria Bethânia e que cita Andy Warhol e Dona Canô, muito aplaudida nesta parte. No primeiro encore as músicas foram: Nine out of ten, o tão esperado Leãozinho, e Luz de Tieta. As luzes acenderam e muitos sairam mas os mais insistentes e resistentes ficaram e Caetano voltou. De braços abertos repetiu a dose. Já com quase todo o público, o mais próximo possível do palco, Caetano terminou com Força estranha em uníssono. Caetano, aos 71, mostra que antiguidade é posto e que teve Lisboa aos pés.

















domingo, 27 de abril de 2014

Solar dos Presuntos

16 de Abril, quarta-feira à noite. Dia de Porto-Benfica para a Taça de Portugal. A entrada do “Solar dos Presuntos” está repleta de pessoas. Algumas têm mesa marcada, outras não. A espera é de meia-hora. Muito amavelmente, Pedro Cardoso é quem recebe as pessoas. Já vi muita gente simpática, mas tanta simpatia por metro quadrado e um serviço assim, foi a primeira vez. À entrada está, também, um grande aquário com lagostas. As paredes do restaurante estão cobertas por fotografias de gente conhecida. Gente das artes, do espectáculo, futebol, música, política, portugueses e estrangeiros. Gente da ciência não vi, mas é provável que por lá também estejam.

Esperei cinco minutos e levaram-me à mesa, no terceiro piso. O José Luís foi a pessoa responsável pela minha mesa. Mesa posta, um prato com queijo de S. Jorge, presunto e paio. Um cesto de pão chega com diferentes tipos. A minha atenção vai para a baguete acabada de sair do forno. Acho que nem em Paris comi nenhuma tão boa. Como direcciono o meu apetite para a baguete barrada com manteiga, não toco no presunto, queijo e paio. Tinha que fazer escolhas pois o estômago não chega para tudo. Depois de uma vista rápida pela ementa pergunto o que me sugerem. Carne ou peixe é a pergunta. Peixe, é a resposta. Posta de cherne, peixe galo... mas estava inclinada para uma das especialidades da casa: açorda de lavagante. O vinho que me trazem é “Carvalhos” do Douro, também sugerido. Eu que não sou muito apreciadora dos vinhos do Douro, fiquei rendida à combinação. Foi o vinho ideal para acompanhar o prato.

Restaurante completamente cheio. As três salas cheias. À minha frente, um casal de japoneses não trocam uma palavra durante todo o jantar. Devem estar a jogar “ao sério”. À minha volta vários casais e muitos brasileiros. Os brasileiros são a população maior deste restaurante, pelo menos nesta noite. Todas as pessoas responsáveis pelo serviço de mesa dominam vários idiomas, são muito simpáticos e têm conhecimento de vinhos. As paredes deste terceiro andar, fotos grandes de Amália e Rui de Carvalho, entre outros, e muitas caricaturas.

O José Luís traz uma pequena panela com a açorda de aspecto divinal, com um ovo cru e muitos coentros. Mistura tudo muito bem e serve-me. O cheiro perfumado dos coentros é indescritível. O vinho mostra-se perfeito para acompanhar este prato. O José Luís vem frequentemente perguntar se a açorda está boa.  Chega a hora da sobremesa. É-me sugerido o “melhor do mundo”. Recuso amavelmente porque já conheço. Quero outra coisa. O José Luís faz-me uma surpresa e traz-me pão de Ló de Monção com doce de ovos e canela. Foi a catarse. Terminei com um descafeinado. Serviço exemplar. Comida muito bem feita. Carta de vinhos muito completa. Tenho a certeza que ninguém se vai arrepender.



segunda-feira, 21 de abril de 2014

A Sentinela

A sentinela é o último livro de Richard Zimler. Como eu disse ao autor, este e o anterior, “A ilha Teresa”, são diferentes de todos os outros. A actualidade é que os distingue. O livro centra-se no personagem principal, Henrique Monroe, inspector-chefe da PJ que é chamado para investigar o homicídio de um importante construtor civil. Podemos classificar este livro de policial porque há um crime e o autor é desconhecido, a dúvida e as pistas persistem quase até ao final do livro. No entanto, este livro é muito mais que um policial. Aborda várias questões como a violência e os problemas psiquiátricos que daí advêm.

Henrique Monroe é um americano que sofreu de maus-tratos por parte do pai, juntamente com a mãe e o irmão. Viviam os três aterrorizados. Passavam o dia a esconder-se do pai para evitar as suas agressões. A mãe sofria de depressão profunda e passava os dias sem se vestir. Monroe sofre de um distúrbio psiquiátrico, transtorno dissociativo de personalidade, que toda a gente desconhece, com a excepção do irmão, e que se manifesta no seu alter-ego, Gabriel. Henrique e o irmão vivem com o medo permanente de o pai os descobrir noutro país, após tantos anos. O que o medo faz. E aborda outra questão importante, como o trauma na infância influencia os agredidos, mas estes abominam a violência e a agressão. Há uma frase do personagem principal que manifesta isso mesmo: “Não há dia em que não me preocupe com a possibilidade de os meus filhos terem herdado de mim algum problema genético”.

Depois há a história da filha do homem assassinado, Sandi, uma adolescente com problemas e que esconde um grande segredo. Juntamente com o autor do homicídio, este é outro dos segredos para desvendar no decorrer do livro. Quase até ao final do livro a dúvida e os segredos persistem.  E o desenrolar do enredo é catártico.

A acção passa-se entre o Colorado e as ruas de Lisboa, sempre magnificamente bem descritas.

Um livro duro de se ler e que nos faz revoltar muita vezes. Mas tem de tudo, desde a descrição de como uma família rodeada de amor e unida ultrapassa tudo. E mostra-nos como, apesar de infâncias terríveis que nos podiam transformar em delinquentes ou até fazer com que não chegássemos à idade adulta, podemos ser seres humanos que não querem replicar o mal que nos foi feito. Uma luz no fundo do túnel é o que parece termos todos em comum quando nascemos.

Um livro mais do que interessante e que merece muito ser lido. 





Benfica campeão

Sem poder deixar passar este feito em claro, escrevo um dia atrasada. Ao contrário do ano passado, em que a euforia foi mais imprudente do que os factos, este ano a vivência do título foi menor. Ontem não acreditava até ao final do jogo que seríamos campeões. Os meus sobrinhos festejaram mais do que eu. Não entrei em festejos citadinos. Na semana passada havia passado pelo Marquês de Pombal e já tinha visto gente a reservar o lugar. Este título foi doloroso após o ano horribilis em que podíamos ter ganho tudo, mas tudo perdemos em pouco mais de uma semana. Já que o país anda triste por causa da crise, haja estes pequenos momentos em que podemos explodir a nossa alegria, nem que seja por uns instantes. Passados esses momentos, o país é o mesmo e a realidade continua. 


quinta-feira, 17 de abril de 2014

A cool Vereadora de Lisboa: da investigação à política

Graça Fonseca. 42 anos. Vereadora da Câmara Municipal de Lisboa para a Economia, Inovação, Modernização Administrativa e Descentralização. Licenciou-se em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Foi assistente de investigação do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, integrada no Observatório Permanente da Justiça Portuguesa na área de direito de menores e família, tendo aí concluído o mestrado em Sociologia do Direito. Trabalhou aí com José Manuel Pureza, Boaventura Sousa Santos, João Pedroso e Maria Ioannis Baganha. Passou pelo Brasil, Washington D.C. (Georgetown University), Coimbra e Cabo Verde. Infelizmente, a orientadora Maria Ioannis Baganha, não viveu para vê-la defender a tese de doutoramento. Doutorou-se em Sociologia pelo ISCTE-IUL em 2010. Dá um semestre de aulas, que é o que consegue. Falou de acreditar no projecto de António Costa, que acompanha desde o Ministério Justiça. Low profile. Pontalidade britânica, tão pouco portuguesa. Sem gravação nem notas. Somente a cábula das perguntas estritamente programada para uma hora, que por princípio cumpriria à regra. Como não sou jornalista nem para lá caminho, a atrapalhação levou-me a começar pelo fim. Não posso ainda falar daquilo que deu início à conversa, mas ao contrário daquilo que esperava, aquela mentirinha piedosa tão portuguesa “vamos ver o que se pode fazer” ou “talvez”. Não, nada disso, a resposta foi um sincero não. E eu aprecio isso nas pessoas. Sinceridade. Um não é um não e passa-se à frente. Ninguém corta os pulsos por isso. Os meus óculos  haviam ficado no táxi, valeu-me o tamanho da letra. Está cansada. Confidencia-me que o dia começara cedo, às 8 da manhã. Passa pouco das 7 da tarde. Olhos muito verdes. Aspecto de quem já aproveitou o sol de Lisboa ou a praia na tímida Primavera. O cansaço só se nota nos bocejos. iPhone em cima da mesa mas pouco ou nada olhou para ele, ou se o fez, não notei. Também me pareceu nunca ter olhado para o relógio. Um caderno A5 da Emílio Bragaportuguês, fechado, garrido, em tons de vermelho. Lá fora o céu de Lisboa, sem vista para o Tejo. Mas a sala onde falamos já valeu a pena. Elogiei a sala. Pouco funcional, nas palavras da própria. Enorme, como o rio, diria eu. A um canto, pendurada, uma portuguesíssima mala da Ideal&Co. Conversa informal. Uma hora au point. Quando questionada sobre a razão pela qual mudou da academia para a política respondeu que “quer marcar a diferença” e fazer várias coisas ao mesmo tempo. Abraçar projectos e desafios. É isso que a move. Nunca se importou com cargos. Isso não importa. Apetece fazer a analogia com o escritor que é a imagem de Lisboa (ou será Lisboa a imagem do escritor?): “Não sou nada/ Nunca serei nada/ Não posso querer nada/ À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”. As palavras são sempre de optimismo, mesmo quando provocada. Diz que existem pessoas extraordinárias na política portuguesa. E que há muitos “Miguel Relvas” em todos os quadrantes da sociedade. Não insulta, não injuria, não há uma palavra amarga. Só boas palavras e optimismo. Hoje é melhor que antes. Salienta que há coisas muito boas mas que os portugueses gostam de exagerar o lado negativo. Fala claro e detalhadamente. Quando lhe falo de cargos de nomeação e de confiança política, insurge-se (pacificamente) e relembra-me que foi eleita. Não acredita que não haja meritocracia, na maioria dos casos. Defende Portugal fervorosamente. Percebe-se que é uma optimista, apesar das minhas provocações. É daquelas pessoas para as quais o copo está sempre meio cheio e não meio vazio. Fala-me que quando era criança havia racionamento de comida em Lisboa. Havia muito analfabetismo e a maioria tinha a 4ª classe. Temos apenas 40 anos de democracia. As mudanças demoram décadas a notarem-se. E de repente, estamos no séc XXI, somos da mesma geração e temos ambas doutoramento. Fala com conhecimento de causa de todos os projectos. Percebe-se o orgulho daquilo que ajudou e ajudará a construir. Refere que há duas ou três start up que muito em breve vão dar que falar na área das ciências. Falamos de mecenato e filantropia, coisa pouco comum em Portugal. Quando, mais uma vez provocada, diz achar legítimo que as empresas queiram algo em troca quando financiam projectos. São empresas. Nunca critica. Levanta a questão de como podem as PMEs contratar doutorados quando a média da escolaridade dos superiores é o 9º ano. Falamos do rio por onde partimos para descobrir novos mundos. Da luz, do clima, dos museus, dos preços e das condições únicas de Lisboa. Nunca há uma só resposta. As respostas são demoradas e argumentativas. Soube há pouco tempo através da FLAD que Lisboa ficava lugares abaixo do Azerbeijão1 no que respeita a estudantes americanos escolherem cidades para estudar. Tentou inverter isso. Terminamos às 8, como combinado. Um jantar oficial esperava-a. Acompanhou-me à majestosa escadaria com o “Coração Independente” da Joana Vasconcelos. Eis o retrato de uma política que já foi investigadora. Sabe do que se fala quando se pronuncia a sigla FCT e afins. É a antítese da opinião que a maioria dos portugueses têm (infelizmente) em relação aos políticos. É também uma política que não se põe fora dos políticos e tem orgulho disso. Hajam muitas Graça Fonseca que só dignificam a nobre causa política. Este é um texto sobre o que retive, o que esqueci era acessório. O simples tão difícil.

1Exemplo ilustrativo

Copyright: Graça Fonseca

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Uma conversa com Richard Zimler

Richard Zimler chegou ligeiramente atrasado. Revelou que já tinha estado em Braga mas nunca na Centésima Página. Sala cheia para o ouvir. Prefere uma pequena introdução e pede perguntas. Eu comecei. Este último livro “A sentinela”, tal como o anterior “Ilha Teresa” são bastante diferentes dos outros porque são actuais. “A sentinela” mantém traços marcantes do autor: tem um personagem que é americano e judeu e tem um personagem homossexual. Pergunto-lhe pelo pai violento de Henry, que apesar de ser violento, extremamente violento, não é um abusador sexual, tema tão actual. Eu não sabia que o Richard Zimler teve um pai violento e que também maltratava a mãe verbalmente. Falou longamente sobre isso. Como o pai queria que os filhos o respeitassem e que não sabia a diferença entre respeito e medo. Falou de como a mãe foi depressiva e se manteve em casa longe do mundo e que não se vestia. Questionei-o também sobre o facto do cenário do livro ser em Lisboa. Porque não no Porto que ele conhece tão bem? Como é que le descreve tão bem Lisboa, o Chiado e afins não vivendo em Lisboa? Lisboa foi usado por ser uma cidade apelativa. Começou por me dizerque não gosta dessa “guerra” entre Porto e Lisboa. Mas que isso acontece entre San Francisco e L.A., por exemplo. Conhece muito bem Lisboa e gosta muito da cidade. Passou algum tempo em casa de um amigo na Rua do Vale, “daquelas ruas que têm roupa a secar e gatos” e que também foi a cidade para onde o sogro se mudou. Lembra-se dos almoços e da casa em Campo de Ourique.

A crise moral foi também longamente discutida. Deu o exemplo do caso Madoff que foi julgado e condenado em 6 meses. Que em Portugal tudo prescreve e que as pessoas não acreditam na justiça. Deu um exemplo de quando acompanha “a minha cara-metade” a jantares de cientistas, onde a maioria não o conhece e se limitam a ignorá-lo. E que já aconteceu pessoas posteriormente reconhecê-lo como Richard Zimler, o escritor e lhe pedirem muitas desculpas por não o terem tratado como tal.

Discutiu-se e foram muito elogiados os romances “A sétima porta” e “Meia noite e o princípio do mundo”. Muitas pessoas muito familiarizadas com a extensa obra do Richard. Foi muito emocionante ouvi-las falar demoradamente de pequenos pormenores e de personagens que as tocaram. Pessoas a citar frases, e mais do que isso, a considerarem que aquele livro é um grande apoio. Não me lembro da última vez que ouvi coisas tão bonitas em tão reduzido tempo.

Uma leitora que tinha lido todos os seus livros comentou que quando leu “O último cabalista de Lisboa” se interrogou “O que faz um americano judeu em Portugal?”.

Richard falou também que gosta muito de ser judeu e que até brinca com isso mas que discorda totalmente de os judeus se considerarem o “povo eleito” ou o “povo escolhido”. Falou também de grandes escritores judeus como Primo Levi e Philip Roth. Mas também não deixou de criticar a política externa norte-americana  e a sua ignorância que levou à morte de 2 milhões de vietnamitas e a repetição do mesmo erro na invasão do Iraque. Elogiou o seu amigo Barack Obama e que não achava possível um negro ser eleito como presidente dos Estados Unidos e como isso foi um sonho concretizado.

Muitas mais coisas foram faladas, muitas palavras bem ditas, muita sinceridade nos elogios, muita sensibilidade dos leitores, muitas opiniões de fundo da alma, muitos sorrisos, muita partilha. Afinal para que servem os livros?

Muito obrigada, Richard!








segunda-feira, 7 de abril de 2014

A paranóia do meu sobrinho mais novo

O meu sobrinho mais novo (aka afilhado) tem uma paranóia que são as chaves dos carros. Quando conhece alguém ou quando alguém conhecido chega ao pé dele a primeira coisa que ele faz, depois de cumprimentar as pessoas, é perguntar a marca do carro para logo a seguir perguntar se lhe podem emprestar as chaves. Pois bem, a chave preferida dele antes de eu trocar de carro era a do meu velhinho Fiat Punto, que ele também considerava dele. Quando troquei de carro, ficou muito desgostoso porque ao contrário do primeiro, este em vez de ter uma chave tem um cartão. Tentei solucionar o problema colocando um porta-chaves de NY que pertencia ao meu velhinho carro. Parece que resultou. A primeira coisa que ele faz quando me vê, depois de um demorado abraço e de um beijo, é pedir as chaves (cartão) e moedas. Então ele torna-se um armazém ambulante. É ve-lo munido da sua fralda, chupeta, chaves e moedas. Desde os 2 anos que sabe todas as marcas de carros. Foi assim que aprendeu os números (através das matrículas) e as letras.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Os encantos e recantos de Lisboa

Um dos restaurantes que queria experimentar há muito era o UMAI. Paulo Morais, o dono, está referenciado como um dos melhores chefs de cozinha japonesa do país. As especialidades deste restaurante incluem países como Índia, Tailândia, Vietname, Coreia ou China. Sábado à noite numa rua meio Chiado meio Bairro Alto, mais propriamente na Rua da Misericórdia, é para esquecer. A hora avançada não é sinónimo de restaurante vazio mas antes de populoso e barulhento. Pessoas já bem bebidas e a falar como se as outras fossem surdas. Provavelmente fui no dia errado e esqueci o objectivo deste restaurante. A palavra-chave deste restaurante deverá ser: partilha. Experimentar várias coisas, vários pratos, vários sabores porque as doses parecem abundantes para uma pessoa só. Atendimento impecável. Comecei por um cocktail (cujo nome não me lembro) mas era com frutos vermelhos, gin e água com gás. Recomendo. 


A sopa misoshiru foi menos que mediana. De todas as que provei pelo mundo fora, mesmo nos restaurantes menos afamados, superaram esta. Escolhi, depois, 15 peças de sashimi com 3 peixes diferentes. Os nomes dos peixes foram-me ditos, mas eu não os retive. A sobremesa foi aquilo que mais surpreendeu. As palavras não conseguem descrever a surpresa do que chamam de ensaio, o que equivale a dizer a surpresa do chef. Como Hemingway pedira para descrever o sabor de uma pêra no livro “Moveable feast” poderia descrever esta extraordinária sobremesa. Mas como não tenho o dom dos adjectivos como Hemingway, fica a foto: 


Mas concordo com quem uma vez disse que o português é uma língua que usa muitas palavras para se dizer o que noutra língua se poderia dizer com uma.


Há locais difíceis de encontrar para quem não é local. Pois bem, o jardim do Palácio das Galveias é um desses. Um encanto no meio da cidade. Um género de Bryant Park ladeado pelo edifício sede da Caixa Geral de Depósitos. O jardim está muito bem cuidado. Há cadeiras para apanhar sol. Tem um quiosque que serve refeições ligeiras e onde se pode beber (até) vinho. As sanduíches valem a pena e o serviço é muito simpático e impecável.  Encontrem as diferenças:


quarta-feira, 26 de março de 2014

Shiatsu

Em NY descobri o shiatsu. Mas acho que lá não tinha a melhor terapeuta. Mas para mim, que sempre sofri de dores nas costas e de cabeça, qualquer massagem, bem ou mal feita era qualquer coisa. Para além disso,  as massagens de rua a $10 por 10 minutos eram a minha perdição. A maioria das festas ou mercados de rua tinham uma barraca com várias cadeiras de massagem. Muitas vezes saía de lá pior do que o que chegava. Nunca cheguei a saber que tipo de massagens eram. A maioria das pessoas que as faziam nem inglês sabiam falar. Mas conheciam perfeitamente bem a palavra “tip”.


No ano passado, numa ida ao médico, na sala de espera, no verão, vi um cartaz a publicitar sessões de shiatsu. Experimentei, adorei, e desde aí nunca mais parei. Comecei com sessões de 15/15 dias, depois a cada 3 semanas, e mais recentemente, faço uma vez por mês. Quem não experimentou devia experimentar e quem teve uma má experiência deveria dar uma segunda oportunidade. Naquela hora tudo pára. Olhos fechados , relaxamento total, apenas o barulho da água e da música. Todas as minha dores melhoraram. Não terminaram mas a frequência e intensidade não têm comparação. Aqui fica a publicidade: http://barbaracouto.wordpress.com/

terça-feira, 25 de março de 2014

Um saltinho até ao Algarve

Estou atrasada para apanhar o avião. Para piorar, não activei a via verde. Sem velocidades loucas e sem perigos, chego ao aeroporto. Passo, sem problemas, pela segurança vazia. Nunca percebi este aeroporto Francisco Sá Carneiro, sempre às moscas. Tanto espaço para tão pouca gente... Tão poucos aviões, tão poucas pessoas, mais funcionários que passageiros, lojas às moscas. Chego à porta de embarque. Bancos compostos, o voo parece estar cheio. Só penso que não impliquem com a mala, como fizeram na única vez que viajei com a Ryanair. Chegada a hora lá vamos nós, filinha indiana, exterior, nevoeiro, frio, esforços para não perder a pose ao subir a escada com a mala de mão. Percebo que agora a Ryanair atribui-nos um lugar, óptimo. Sinto-me menos feliz quando percebo que vou literalmente entalada entre duas pessoas. Tento ler algumas das coisas que levo... mas o cansaço fala mais alto...o voo que dura perto de uma hora, na minha percepção demorou 5 minutos. Acordo quando o avião começa a abanar como um berço e eu só me lembro da frase do VES: “Não quero ser carne para peixe!!”. Eu habituada à TAP, aterro desajeitadamente (se não tivesse o cinto teria batido com a cabeça no tecto) com um “ai”. Mas o pior já passou, respiro de alívio. A temperatura é bastante mais alta que no Porto. Passam das 11 da noite e tenho a G. à minha espera. Em casa, em vez de dormirmos cedo, colocamos a conversa em dia e preparo o meu estágio para ficar afónica (isto acontece sempre que me encontro com a G.). Aterro na cama, e pela primeira vez em duas semanas, adormeço sem dificuldade. Interrogo-me se não será por não ter a minha vizinha maluca aos pontapés à minha porta diariamente ou a gata do vizinho que está com o cio... Acordo tarde. Banho. Festinhas no “Estibi” (aka HTB). Pequeno-almoço com o pão alentejano com manteiga. Sol, muito sol lá fora. O que mais se pode querer? Em 5 minutos estamos na Universidade. Apenas o tempo de subir até ao gabinete da G. e atinar com os vídeos que teimam em nunca funcionar. Dou a palestra em 45 minutos. Consegui cumprir o tempo. Perguntas e pessoas interessadas (ou disfarçam muito bem). Ideias novas, sugestões. Bom para o ego, sempre. Vamos almoçar à cantina 3Bs: “BOM, BONITO e BARATO”. A verdade, é que não fui eu que paguei. 

Início da tarde, aula para os alunos de Ciências Biomédicas. Pelo que a G. me disse aparecem todos ou quase todos. Assinam a folha de presenças. Eu, como não sei dar aulas, e como despejar matéria toda a gente pode fazer, decidi falar do meu percurso académico. Desde que aprendi a escrever aos 3 anos até agora. Juntamente com a apresentação powerpoint, falei de tudo, de ter andado dos 6 aos 18 anos num colégio de padres, que não entrei no curso que queria, que não gostei do curso, que escolhi o meu estágio por acaso porque fui a uma aula teórica à tarde, de Houston, do Ike, de osso, do doutoramento, de NY, do coração, dos meus sobrinhos... Fiz um intervalo, não muito convencida que a maioria regressaria. Para meu espanto, apareceram novamente todos. 

À noite fomos jantar ao “Tertúlia Algarvia”. Bebemos vinho algarvio, que foi uma estreia para mim. Entradas: pão, azeitonas e Queijo de cabra gratinado com maçã reineta. E para jantar: Tentáculos de polvo com grelos e batata a murro, Costeletas de borrego com molho de hortelã e puré, Bife de novilho à Tertúlia com redução de medronho. Sobremesas: Fofo de chocolate e alfarroba, molho de frutos vermelhos e sorvete de citrinos, Fatia de torta regional (alfarroba) e Tarte de requeijão, compota de abóbora e granizado de amêndoa amarga. Depois deste repasto, só nos restava andar muito... e lá fomos olhar os telhados algarvios, a cidade antiga de Faro, as ruelas, os bares e a ria. Ainda fomos beber um copo. Mais uma vez, dormi como um bebé e acordei sem despertador perto da hora de almoço.








Próximo destino: Praia de Faro. Que luz, que sol, que temperatura, que qualidade de vida. Mesmo em frente à praia, a um metro do areal tínhamos já mesa guardada pelo P. Que linda a cor do mar nesse dia, estar só de camisa e muita gente, tal como nós, a aproveitar a temperatura e a paisagem. Que influência tem o sol em mim. Dias claros e luminosos. O azul do céu e o azul do mar e o brilho dos raios. Imagem indescritível.





sexta-feira, 21 de março de 2014

Ode Marítima

Acompanho há muito a carreira (palavra que não gosta) de Diogo Infante. Ele é várias coisas num só. Para mim, apenas a voz basta. Mas na interpretação supera-se. Comemora este ano 25 anos de actor. Vi-o há muitos anos na peça “Sexo, drogas & rock and roll” num mítico conjunto de oito monólogos. Assisti ao seu brilhantismo como encenador no “Ano do Pensamento Mágico de Joan Didion, um monólogo magnificamente interpretado pela nossa grande Eunice Muñoz. E a melhor encenação de sempre de “Um eléctrico chamado desejo” de Tennessee Williams, quando trouxe de volta aos palcos Alexandra Lencastre, a melhor Blanche Dubuois de sempre. Há pouco tempo vi-o na leitura do “Sermão de Santo António aos peixes”.

Na semana passada, no penúltimo dia, fui ver “Ode Marítima” ao Teatro São Luiz. Não tinha muitas expectativas. Não tinha lido nada. Assumi que fosse uma leitura teatral do grande poema do heterónimo de Pessoa, engenheiro naval, Álvaro de Campos. A voz do Diogo, a sua presença física, Pessoa e a encenação de Natália Luiza, bastavam-me.  Meu Deus, que surpresa! Diogo não lê, interpreta. Um pouco mais de uma hora que nos enche a alma. João Gil, discreto acompanha as palavras e a narrativa de Diogo. Só acrescenta, não atrapalha.
O homem que olha para o horizonte, vê um paquete entrar na barra e faz uma viagem interior. não está aqui a interpretar uma personagem. Este homem não é Pessoa nem Álvaro de Campos. “É a suma de todos os homens. Em primeiro lugar, sou eu, porque não se trata de uma personagem mas de uma energia. É como se o meu corpo, a minha voz e as minhas emoções fossem um veículo para expressar esta transcendência emocional que abarca a dimensão humana. Ele somos todos nós: nas nossas contradições, medos, ânsias, desejo de sentir, de viver. Na catarse do monólogo, Diogo transforma-se, como se ele não fosse ele, como se fosse possuído por algo maior, ele urra, berra, sofre, vira-se ao contrário, expõe-se, põe as suas entranhas em cima da mesa, com tudo o que isso tem de horrível e termina exausto, completamente molhado, como se tivesse saído da água. As pessoas ao meu lado diziam baixinho: “Credo!”. Atira-se para o chão, a voz muda, acalma, compassa.


Depois dos aplausos regressaram ao palco para meia hora de perguntas feitas pelo público presente. A não perder. Estará em breve no Teatro Nacional S. João, no Porto. Fará digressão nacional e seguirá para o Brasil.

Depois de achar que mais ninguém conseguisse ler, interpretar e representar Pessoa melhor do que Maria Bethânia, eis que Diogo Infante superou tudo neste espectáculo "Ode Marítima".












Todas as fotos, com a excepção da última, pertencem a José Frade


sexta-feira, 7 de março de 2014

Merly Streep vs Cate Blanchett

Merly Streep é uma das actrizes que mais admiro. Uma das minhas amigas, a C., detesta-a porque diz que ela tem sempre o mesmo registo. Eu discordo. Foi nomeada 18 vezes e ganhou 3. Em “Kramer vs. Kramer” ganhou o oscar de melhor actriz secundária e neste filme chorei baba e ranho.  Três anos depois ganhou o óscar de melhor actriz em “Sophie's Choice”. Mas quem não se lembra do seus maravilhosos desempenhos em “Out of Africa” e “The bridges of Madison County”, “The devil wears Prada” e “Doubt”? No ano passado ganhou o terceiro óscar pelo seu papel em “The Iron Lady”. A semana passada fui ao cinema ver “August: Osage County”. Merly Streep é uma doente terminal com um cancro na boca cujo marido é alcoólatra, poeta e que tem os livros como companhia. Merly, neste filme, é uma mulher dura, irónica, sarcástica, insensível, fria, completamente desajustada, racista, feia, maltratada que demonstra não ter qualquer demonstração de afecto ou ternura e viciada em drogas legais prescritas pelo médico. O vício é tal que entra frequentemente no absurdo e fica com dificuldade em articular palavras. Depois do desaparecimento do marido, que ela diz ser viciado na bebida e ela em medicamentos, reúne a família que se percebe completamente surreal.  Uma das cenas mais marcantes do filme é uma disputa entre mãe e filha, em que Julia Roberts tenta tirar os medicamentos à mãe e a cena chega a ser violenta. O resultado é um filme recheado de humor negro, com intensa carga dramática e a expressividade marcante de cada uma das personagens. Para além disso, tem uma deslumbrante história humana, repleta de segredos. Outro dos grandes papéis pertence a Julia Roberts, (merecidamente nomeada para o óscar de melhor actriz secundária), a filha mais velha, que parece ser a cópia da mãe, dura como ela. Eu arrisco-me a dizer que esta é a melhor interpretação de sempre de Julia Roberts. E apesar de neste filme desempenhar o papel de uma mulher descuidada, mostra como a idade é como o vinho do Porto! É um filme cheio de surpresas e que ninguém sai da sala indiferente.Merly Streep tem aqui uma interpretação poderosa. Este filme vale a pena, não tivesse o livro que lhe deu origem, galardoado com o Prémio Pulitzer, uma das melhores marcas de qualidade.

Não gosto da maioria dos filmes do Woody Allen, assim como, não gosto dele. Mas alguns filmes até gosto. E “Blue Jasmin” é um desses. Passa-se entre NY (Madison e Park Avenue) e San Francisco. Não sabia a história quando o vi mas no decorrer do filme pareceu-me uma cópia perfeita de “Um eléctrico chamado desejo”. Obviamente com as devidas diferenças. Cate Blanchett tem muitas características da Blanche Dubuois e a irmã dela é uma submissa e o namorado da irmã é um falhado e um arruaceiro.  Jasmine (Cate Blanchett) é uma ex-milionária acabada de cair em desgraça após o marido milionário ser preso. Vende tudo, segundo ela, mas viajou em primeira classe de NY-San Francisco e chega a casa da irmã adoptiva carregada com malas Vuitton. Como Blanche Dubois, tenta a todo o custo omitir o passado. Finge que o marido é um cirurgião, que não tem um filho, inventa uma profissão que não tem... é viciada em álcool e em comprimidos. Uma excelente interpretação de Cate Blanchett.


Alguém escrevia, depois da Cate Blanchett ter ganho o óscar, que alguém se devia ter enganado a escrever o nome no envelope. Não podia concordar mais. Desculpem-me, eu adoro a Cate Blanchett mas a interpretação da Merly Streep foi poderosíssima.

terça-feira, 4 de março de 2014

Pra tudo se acabar na quarta-feira por Adriana Calcanhotto

No dia em que o "Público" comemora o 24º aniversário, a Adriana Calcanhotto foi convidada para ser a directora nesta edição especial. Aqui segue o editorial escrito pela Adriana, desta vez não é curto como a vida, mas é muito bem escrito e a tocar em assuntos que a maioria não se lembraria:

"Porque gosto de viver perigosamente foi a razão para aceitar o convite do PÚBLICO para a edição de hoje, seu aniversário de 24 anos.
Aceitei na hora, imagina, que sonho, falar da língua portuguesa, da palavra lusitana, provocar o PÚBLICO a respeito do acordo ortográfico, vigente no Brasil desde 2009 e não adotado pelo periódico com furor argumentativo. Falar dos dogmas modernos para os poetas antigos; abrir espaço para as especulações atuais do tipo seria Mário de Sá-Carneiro, “o esfinge gorda de delicadas mãos”, transgênero? O grande poeta brasileiro Manuel Bandeira afirmava, quando inquirido sobre os heterônimos pessoanos, que neles via claramente o poeta tentando sair de seu drama. Seria mesmo o fato, reza a lenda, de que ele tinha um pênis exageradamente pequenino e esse era o seu facetador, que o empurrava para ser outro homem qualquer que não ele mesmo? Pois se isso é um drama real para um homem qualquer, imaginemos para ele, que era tantos, ou era ele tantos por isso mesmo? Poderia me estender sobre a correspondência do mesmo Pessoa com Ofélia, onde ela várias vezes o trata como “preto”, “meu preto”, “meu pretinho”, afinal, sou a diretora hoje, tenho carta branca. Começava a separar livros quando recebo um email oficial do PÚBLICO, agradecendo-me por aceitar o convite para a edição especial de 5 de março de 2014, sobre o Brasil. Sobre o Brasil? Como assim sobre o Brasil? Eu não entendo nada de Brasil, aliás, entendo cada dia menos, o Brasil não é para amadores, e agora?
O Brasil não é só diversidade, natural, cultural e racial, mas também temporal. O trabalho infantil escravo, o sistema prisional arcaico, com cadeias hiperlotadas sobre as quais o próprio ministro da Justiça admite serem “o inferno”, convivem com jurisprudências incontornáveis diante da sociedade e dos novos arranjos familiares. Fizemos progressos, tivemos um parlamentar cumprindo pena de reclusão por corrupção mantendo o cargo público, no exercício de seu mandato de deputado com a concordância da câmara, não temos mais. Vimos mudando. O racismo é crime, temos a lei Maria da Penha, que protege as mulheres da machista violência doméstica, temos a lei da Ficha Limpa, que deveria impedir que parlamentares com pendências na Justiça candidatem-se aos pleitos, menos gente passa fome, o beijo gay tem classificação livre na TV. Mas como viajo muito, acho que devo ter perdido algum evento importantíssimo porque, de uns tempos para cá, desde as últimas manifestações de rua, não consigo saber mais quem é a polícia, quem é a milícia, quem é o bandido, o mercenário, o mascarado, a caboclada maoísta, os vândalos que apedrejam à noite o banco onde trabalham de dia, o político cínico, o velho coronel, o coronelzinho de ocasião. Não nego que sou distraída, mas está difícil de acompanhar. A quem será que interessa incitar a violência nas manifestações legítimas municiando garotos miseráveis com máscaras de gás e rojões? De onde viria isso? Quem é o vilão, quem é a imprensa, quem é o sistema? 
O passaporte mais visado no mundo para ser falsificado é o brasileiro; claro, podemos ter qualquer raça, cor, a mistura mais improvável de raças, podemos ter qualquer nome, ter um sobrenome sírio-libanês, por exemplo, podemos ser tudo, temos a vocação para a originalidade como Caetano Veloso sempre diz, e uma vocaçãozinha para a incompetência bastante pronunciada. Podemos ascender na escala social, não somos aprisionados por castas, um menino pobre e analfabeto pode virar uma estrela do futebol internacional, não é obrigado a seguir a profissão do pai ou do avô, pode escolher o que quer, fazer o que gosta, um metalúrgico pode ser presidente, tudo muito diferente da malha social britânica, para dar um exemplo, onde saltos sociais não ocorrem. Isso é das coisas mais fascinantes do novo mundo, especialmente no Brasil. A gente inventa. Enquanto isso, a causa indígena é completamente desprestigiada pelo governo, os assentamentos dos sem-terra diminuíram, seguimos desmatando a mata amazônica e crescimento na economia não há.
No momento, a população vem mostrando descontentamento nas ruas, o que não é mau sinal, já que educação, saúde, transporte e ética andam muito castigados e não é comum irmos às ruas por qualquer coisinha. A revolta com os milhões gastos em estádios para a Copa do Mundo mais o aumento das passagens de ônibus e a carga tributária pesada sem serviços públicos de qualidade levou-nos às ruas, mas um cinegrafista foi morto por um garoto pago não se sabe bem por quem, para “fazer barulho”, e o rojão atingiu a cabeça de um cinegrafista que cobria a manifestação. O ministro dos Esportes do Brasil diz aqui em entrevista chapa branca que “não há por que se preocupar com manifestações” durante a Copa do Mundo, declaração, convenhamos, extremamente preocupante.
Um país inapreensível em qualquer tentativa de explicação, a democracia racial não é bem o que parece, nossa diplomacia visivelmente fascinada por ditaduras de diferentes países do mundo envergonha, assim como os 33.000.000 de analfabetos funcionais, além daqueles que se orgulham de nunca terem lido um livro alegando que não precisam de livros para vencer na vida.
Assim é, queridíssimos patrícios, que a edição de hoje do PÚBLICO está invadida pelo Brasil com seus inacreditáveis contrastes, belezas, contradições e maravilhas, impregnados da profunda e maior herança portuguesa depois da língua, a mestiçagem. Em Cabo Verde dizem-se eles inchados de orgulho “somos mestiços puros”. Herança portuguesa. O poeta brasileiro Antonio Cicero replica com uma gargalhada aberta, “já nós, que somos mestiços in-puros...”. Ainda na seara dos poetas cito aqui um trecho da extraordinária letra de Vinicius de Moraes para a melodia de Tom Jobim:
“A felicidade do pobre parece/ A grande ilusão do carnaval/ A gente trabalha o ano inteiro/ Por um momento de sonho/ Pra fazer a fantasia/ De rei ou de pirata ou jardineira/ Pra tudo se acabar na quarta-feira.”
Terminou o carnaval, hoje é a quarta-feira de cinzas. Costuma-se dizer que é ao meio-dia da quarta-feira de cinzas que começa o ano no país, antes disso a nação não consegue pensar em outra coisa. Então, neste primeiro dia de 2014 no Brasil, país que é essa auto-invenção permanente, neste primeiro dia do Ano Grande do Brasil no PÚBLICO, vamos ao “gigante pela própria natureza”. Muito bem-vindos!"















Todas as fotos pertencem ao "Público"


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