quinta-feira, 26 de março de 2015

Tarde e noite em Braga

Braga. Tarde de sábado. Tarde primaveril. Tarde amena. Subo a Avenida da Liberdade. Vejo os canteiros de flores em frente ao Theatro Circo. A arquitectura antiga e nova. Contrastes. Passo no Largo Carlos Amarante. Muitos turistas sentados nas escadarias da igreja de Santa Cruz. Uma feira no Largo de São João do Souto. Compro um colar de missangas. Não discuto o preço. Lembro-me da Bahia. Sigo pela Rua D. Afonso Henriques. Reparo no número de lojas e restaurantes novos abertos. Paro na Mercearia Dom Casmurro. Um género de Vida Portuguesa com preços mais acessíveis. Turistas entram e saem. Um pouco de tudo mas principalmente comidas e bebidas. Tudo biológico e de excelente qualidade. Vale a visita. Passamos a tarde entre cerveja Letra, vinho branco, azeitonas, tostas e conservas. Saio de lá com uma pandeireta artesanal, uma lousa pequenina para escrever recados e um patê de ovas de pescada.

Próxima paragem:  Retrokitchen, Rua do Anjo. Desta vez conseguimos mesa. Havia tentado há umas semanas atrás. Cedo. Também no sábado, antes do concerto da Adriana Calcanhotto. Tudo cheio. Lembro-me do cheiro bom. Massada de peixe. Gostei imediatamente do restaurante e da simpatia do dono. Aconselhou-nos a Casa de Pasto das Carvalheiras como alternativa e foi lá que fomos parar.
No Retrokitchen regressamos aos anos 70. Cadeiras e mesas de fórmica. Garrafas antigas de Sumol, 7UP e Pepsi a servir de jarras. Um quadro de escola. Um cão de louça. Copos diferentes. Tudo retro. Não achei kitch. Uma mesa para 8 pessoas às 8:30. Não chegamos a horas, como sempre. Mas aqui a velocidade não é tudo. Não nos dão o menu nem uma lista. Pedimos o vinho. Aconselham-nos um verde da casa. Recuso amavelmente o vinho verde. Mas dizem-me que este é mesmo bom, que devo experimentar e só depois, se não gostar pedir outro. Assim fiz. Provei e não é que era mesmo bom? Não me lembro do nome mas vou saber. Trazem-nos um rolos de massa filo com carne, uma tábuas com fatias de pão e ameijoas à Bulhão Pato. O melhor de tudo não são as ameijoas, mas o molho delas! Fumam-se uns cigarros no pátio e levam-se os copos de vinho. O ambiente é mais do que amigável. Nos entretantos o dono, de seu nome Rui, junta-se a nós. Parece que estamos num jantar em casa. Tudo muito informal. Trocamos muitas vezes entre o pátio e a mesa. Vê-se no pátio a Abelha Maia que esteve muitos anos à entrada de um café na Rua do Souto. Quem viveu em Braga reconhecerá. Começo a chatear a cabeça ao Rui para me dar uma garrafa de 7UP retro. Às 11:00 estamos a começar a jantar. Posta à Mirandesa com umas batatas fritas cortadas às rodelas com casca, acompanhadas de couve branca salteada em azeite. Outros comem salmão. E as vegetarianas comem uma frittata com bom aspecto. As garrafas de vinho multiplicaram-se durante estas horas. Sei que havia sobremesas. Mas não consegui ter estômago para mais. O café, que nunca tomo, foi-me dado no pátio. Que serviço tão bom. Ainda ouvi Tribulations dos LCD Sound System. Quase chorei! Palmas para o Rui e Cláudia que nos fazem sentir em casa e querer voltar. O Rui, no final, foi buscar a garrafa e ofereceu-ma. Está em minha casa numa secretária a servir de jarra e já começou a fazer sucesso.






Copyright: Retrokitchen
Copyright: Retrokitchen
Copyright: Retrokitchen

Próximas paragens: Juno, Latino e Convento do Carmo. Quando saio à noite,  que é cada vez mais raro, não fico num sítio só. Percorremos todas as capelinhas. No Juno, encontra-se sempre alguém conhecido. As caras que fui conhecendo em muitos anos de Insólito. No Latino acontece o mesmo. O espaço está ligeiramente diferente, sem o bilhar no centro da sala. O Convento do Carmo é um edifício lindíssimo mas falta ali qualquer coisa que não sei explicar. Talvez as pessoas. Tem dois espaços com músicas diferentes. Paga-se para entrar.


Braga está bem e recomenda-se. Acho que começamos a voltar aos saudosos finais dos anos 80 em que Braga foi o centro da movida. O que vi, surpreendeu-me pela positiva. Aproveitemos o momento!

terça-feira, 24 de março de 2015

Ver crescer os sobrinhos

Há umas semanas os meus sobrinhos tiveram a emoção da vida deles, tendo em conta a tenra idade. Entraram em campo de mãos dadas com os jogadores do Porto e do Braga. O mais velho foi de mãos dadas com o guarda-redes do Braga (que eu não sabia quem era, e continuo a não saber) cujo nome é Mateus. O afilhado, segundo o meu irmão, entrou amuado porque na sorte calhou-lhe um jogador do Porto. E como o rapaz é do Benfica, a coisa não correu bem. Lá entrou de mãos dadas com o Hernani, que também não sei quem seja. Quando cheguei a casa, nessa noite,  já dormiam e só no dia seguinte contaram a aventura. O afilhado mal acordou veio enfiar-se na minha cama para contar os pormenores. Não me falou do amuo. E disse-me que o jogador que lhe deu a mão lhe perguntou o nome. A aventura para ele foi mesmo pisar a relva. O mais velho disse-me que a maior emoção tinha sido entrar no campo e ver uns meninos nus ( o que ele deve ter visto foram os membros da claque em tronco-nu) com umas bandeira gigantes e fogo vermelho. O que eu me ri com esta descrição. E ainda me disse que cantou o hino do Braga enquanto esperava no túnel de mão dada com o seu jogador.

No dia do pai achávamos todos que jantassem com o pai e connosco. Como os meus sobrinhos dependem da vontade da mãe deles, esta não autorizou que jantassem com o pai. Por essa razão, o meu irmão esteve apenas com eles pouco mais de uma hora. Eu, já tinha chegado a Braga, quando recebo um telefonema do meu irmão a dizer que o meu afilhado não parava de chorar porque queria estar comigo. Sem olhar nem para trás, fiz-me á estrada para estar com os meus sobrinhos não mais do que 30 minutos. Mas a alegria de os ver com o pai e os abraços apertados que me deram, salvaram-me o dia.


No sábado passado fomos a uma sessão de um género de yoga  que envolvia adultos e crianças. A ideia é que os miúdos imitassem os adultos ou os adultos imitassem os adultos. Os meus sobrinhos não gostaram do que eles apelidaram de ginástica. Mas eu achei que foi uma coisa divertida. Imitámos animais, fizemos túneis, relaxamos. O que o meu afilhado mais gostou foi das massagens e o mais velhos gostou de imitar o leão.

quinta-feira, 19 de março de 2015

O dia do pai

Hoje de manhã cheguei ao meu trabalho e um dos meus amigos mostrou-me o presente da filha que está quase a fazer um ano: a mão da filha marcada no papel com tinta cor de rosa. A alegria dele de ser o primeiro ano que comemora, como pai, este dia. Outro dos meus amigos vai à festinha do colégio da filha, embora a filha o avisasse que nem todos os pais podiam ir. Mas este pai podia e foi.

De há uns anos para cá, tudo o que seja festejos, festas, comemorações, dias evocativos, celebrações, são mais de tristeza e medo do que alegria. Sempre de coração na mão. Sempre à espera da última decisão. Do poder que alguém humano decida de acordo com a sua vontade. Os crentes na humanidade, pessoas normais que nunca passaram (felizmente) por uma situação destas poderão perguntar: a justiça não funciona? Não. A justiça é lenta e lenta como é perde dias, meses e anos de situações que são irreparáveis. No Natal, Passagem de ano, dia de anos do pai, dia do pai, dias de aniversário... são sempre de expectativa e de prece silenciosa para que tudo corra bem.

Quando há uma separação, o interesse maior deveria ser salvaguardar os filhos. Pois bem, na maioria dos casos, infelizmente, os filhos são usados para causar as piores dores de todas: distância, saudade e ausência. Privar um dos progenitores de estar com os filhos. Eu pergunto-me o que terá na cabeça uma pessoa que faz tudo para evitar que os filhos estejam com o pai, nestes dias particularmente, que um pai tem direito a estar  com os filhos? Que ódio gigantesco é este que permite afastar um pai dos filhos? O que leva uma pessoa a não informar a escola e as informações escolares de um filho? Que troca a escola dos filhos todos os anos sem informar o pai? Que maldade é esta que permite que se não atenda os telefonemas do pai e da família do pai? Que avassaladoras atitudes são estas que permitem que os filhos sejam considerados propriedade de uma pessoa? Que amor é este? Que palavra se pode dar a isto? Que magnânime poder é este que alguns humanos têm de provocar um frio na barriga e um aperto no coração que deve ser semelhante aqueles que percorrem o corredor da morte?

Como me dizia uma amiga há dias, estou descreste nesta humanidade. Que vida tiveram alguns para ter este tipo de atitudes? Acho que nem a medicina nem a justiça os pode salvar...

Este texto não tem a ambição de encontrar respostas nem para ter explicações. É apenas de desabafo de quem nunca falou em público sobre esta dor que presencia diariamente e a partilha.

Eu, que tenho o melhor pai do mundo, hoje, como sempre que quero, vou estar com ele. As minhas palavras são de conforto e de esperança para todos os filhos que têm os pais vivos e que não podem estar com eles. Dicas de leitura: os livros da Maria Saldanha Pinto Ribeiro e o último do Daniel Sampaio “O Tribunal é o réu”.

terça-feira, 17 de março de 2015

Mísia no Theatro Circo

Braga, 6 de Março de 2015

Eu, ignorante em música, confesso-me. Tenho 35 anos, vivo entre Braga ("O penico do mundo"), NY ("A grande maçã") e Lisboa ( "A grande alface") e menos por outros lugares do mundo aos quais se chegam pelos ares. Considero-me instruída. Dizem que leio muito. Tenho um doutoramento. Viajo muito. Já estive em todos os continente excepto na América do Sul. Durmo muito pouco. Por isso, penso muito. Quase não oiço música. Leio todos os dias os jornais portugueses e New York Times. Leio todas as semanas o Expresso. A única rádio que oiço, quando oiço, é a TSF. Quase não vejo TV. Tudo isto para dizer que apesar de tudo o que mencionei, nunca tinha ido um concerto da Mísia. Ontem foi a primeira vez!  Não encontro uma explicação razoável, nem desculpas coerentes. Digo apenas que é uma vergonha este facto. Mas, como o ditado, mais vale tarde do que nunca. E nunca uma frase combinou tanto com uma situação. 

Ontem percebi o que perdi nestes anos todos. Não tinha qualquer expectativa. Fui ao concerto porque era indesculpável que uma pessoa como eu que já fez loucuras para ver uma ópera, um ballet ou uma peça de teatro, que já pagou fortunas para estar num determinado dia em determinada cidade, que conheceu quase todas as pessoas portuguesas e estrangeiras que queria conhecer, não tivesse visto um (que fosse) concerto da Mísia. Esta cantora mais conhecida fora do que dentro do país. Esta pessoa que eu nada sabia ou conhecia para além de estar sempre impecavelmente vestida e penteada, uns cortes de cabelo contemporâneos, que cantava uns fados. Como a maioria das pessoas, e sem nenhuma razão plausível, achei que morava fora de Portugal. Talvez em Paris, no meu imaginário. Ouvi, repetidas vezes, tempos a fio, até à exaustão um fado na voz dela, que até hoje não sei se é das suas músicas mais conhecidas: "O Corvo" ("Tenho um corvo à flor da pele/ vive de uma ferida aberta/ acorda quando me deito/ levanta voo do meu peito/ sempre sempre à hora certa/...entra pela minha vida/ como a lua num jardim / pendura tudo o que valha/ no gume de uma navalha/ traz-me pedaços de mim/ tenho um corvo à flor da pele/ um irmão da minha idade/ acorda quando me deito/ levanta voo do meu peito/ diz que se chama saudade").

Um piano e uma voz. É assim este concerto. Um maestro (Fabrízio Romano) que tocava tão bem que parecia cantar com as mãos. Belíssima performance. Mísia introduziu cada música com detalhados monólogos. Delikatessen Café Concerto é um jantar em tempos de crise que Mísia imaginou um dia que estava em casa. As músicas são sobretudo das décadas de 50 e 60. Começou com a primeira canção do disco Fado do ciúme. As histórias que foram descrições de acontecimentos reais como a coincidência de ter encontrado num alfarrabista telegramas de artistas dessa época. Contou também a história  do poema de Tiago Torres da Silva sobre o altar que tem em casa com santos de todas as partes do mundo. Confessou-se agnóstica mas que acha que aqueles santos, rodeados por fotos da família e amigos, põem-se todos de acordo e protegem-na. Falou também de um poeta espanhol que morreu na prisão e nunca chegou a conhecer a filha e que para ela fez uma canção de embalar: Nanas de la cebolla. Destacou os amigos Eduardo Prado Coelho e Vasco Graça Moura que diz fazerem-lhe muita falta. A segunda parte do concerto, na qual mudou de roupa, virou-se para o fado: Que fazes aí Lisboa?, Sem saber. O poema Veste de noite este quarto foi escrito por António Lobo Antunes para o cantor Vitorino Salomé. Mísia perguntou se sabíamos quanto tinha ficado o jogo Braga-Porto. Disse não se interessar por futebol nem saber deste jogo mas que quando chegou perguntou “Onde está o público?”. Mas apesar de a sala não estar cheia, para ela, é como se estivesse. E, por isso, foi longamente aplaudida. Duas das músicas com que terminou, entre elas Espelho quebrado, fazem parte do disco que será uma homenagem a Amália. Será lançado no outono e chamar-se-á Para Amália. Fez um demorado elogio a Amália, não só como cantora e intérprete, mas como grande talento para a escrita de poemas e a sua contemporaneidade (mais do que Edith Piaff e Billie Holiday)

Descobri uma cantora totalmente desconhecida para mim. Diz-se tímida. Mas tem um humor judeu que adorei. Ama os poetas e os poemas. O poeta que mais cantou foi Vasco Graça Moura (que eu tanto gosto e que fez a tradução brilhante e que eu conheço do livro Divina Comédia de Dante). Cantou o meu querido António Lobo Antunes. No intervalo das músicas conversa. Conta histórias. Não sei se foi improviso. Eu prefiro acreditar que sim.

Eu prefiro fingir acreditar na desculpa para o concerto estar meio vazio foi de coincidir com o dia e hora de um jogo Braga-Porto. As "mentiras piedosas", como Blanche Dubois chama-as no Eléctrico chamado desejo de Tennessee Williams. Porque será que eu sempre tive capacidade para decorar falas de diálogos de livros e nunca tive capacidade para decorar matéria quando era estudante? Alguma explicação científica deve haver para este fenómeno

Terminou com um agradecimento ao público que para ela encheu a sala, a transbordar.O encore foi somente com Lágrima de  Amália, que para mim é tristíssima. Dedicou-a ao seu fiel amor, o público. Aplaudida de pé, mais uma vez, como bem mereceu. A sala não estava cheia nem perto disso. Mas o entusiasmo era o equivalente.


Estava na primeira fila. Esperei um pouco para as pessoas que estavam atrás de mim, agora à frente, saíssem. Quando vejo a Adriana Calcanhotto. Se não fosse verdade diria que estava a alucinar. Encontrá-la por mero acaso, em duas cidades diferentes, no espaço de duas semanas, em locais que não era os concertos dela,  qual seria a infinitésima possibilidade? Tento passar despercebida por ela. Prefiro que não me reconheça. Eu e o meu medo de os outros acharem que o meu desconforto é directamente proporcional ao deles, nestas situações. A evitar, por isso. Eu, que tenho capacidade social de uma criança tímida de quatro anos. Sim, quase um bicho do mato. Ultrapasso, o melhor que posso, esta "pedra no caminho". Vou comprar o último CD  da Mísia Delikatessen Café Concerto que não tinha encontrado em lado nenhum em Braga, Guimarães e Lisboa. Mas que a Mísia tinha-me dito que estaria disponível para venda no Theatro Circo. E já que ali estava, eu e o CD, num concerto que adorei e que não sabia quando se iria repetir. Dei um pontapé, a custo, à minha timidez e vou aos camarins. Esta sim, a verdadeira situação constrangedora. Se há situação constrangedora é esta. Estar ali à espera de falar com uma pessoa que não nos conhece, a quem vamos dizer umas palavras amáveis e gentis, iguais às dezenas de outras pessoas. Que vamos ser apresentadas, mas que se for como eu, no dia seguinte não se lembra do que comeu na refeição anterior. Quando cheguei ao camarim, a Adriana estava a despedir-se da Mísia. Eu não lhe queria dizer nada para além dos parabéns pelo magnífico concerto. A Mísia assinou- me o CD que eu vou ouvir até enjoar no carro. E eu desci no elevador e pelos labirínticos corredores do Theatro Circo. 




quinta-feira, 5 de março de 2015

As três (velhas) irmãs - uma memória de Tchékhov

Nesta peça as biografias das actrizes (Graça Lobo, Mariema e Paula Só) combinam-se ou confundem-se com as das personagens do belíssimo texto de Tchekov: a ficção do texto original e a representação da realidade ou a autorrepresentação. Martim Pedroso, encenador da peça, participa também como actor, funcionando como “o ponto” e dando-lhes deixas,  comprimentos, a comida, uma espécie de cuidador". As memórias das actrizes confundem-se com as memórias das personagens que interpretam, as três irmãs: Olga, Macha e Irina, que ainda sonham em ir para Moscovo. Tal como a peça de Tchékhov, esta também acaba mal. As três mulheres não vão para Moscovo e ficam na pasmaceira da sua casa.  Há fotos a preto-e-branco que espalhadas no cenário que destacam os momentos mais importantes da carreira de cada actriz.

Há muito tempo que não me sentia assim depois de assistir a uma peça de teatro! Que privilégio ver a interpretação destas três grandes actrizes. Mostram que a idade não é só velhice mas posto, sabedoria e talento! Tão preocupada em aplaudir que nem tirei fotos...



Copyright: Alípio Padilha

Copyright: Público

quarta-feira, 4 de março de 2015

Caminho como uma casa em chamas

Este livro, último de António Lobo Antunes, tem como capítulos os diferentes apartamentos. É descrito a várias vozes, os vários narradores e a polifonia tão característicos da sua escrita.

Segundo direito. "sem gosto, os azulejos da cozinha atrozes, por baixo um casal de judeus emigrados...e um bêbado  com a família do outro, no terceiro uma actriz idosa...um prédio sem elevador nem garagem". "Até adormecer num divãzito que não existe mais, abraçado a um leão de pano a que falta uma orelha e mesmo sem orelha me defendia do mundo". " Nem no meu casamento bebi, apesar de tão aflito não bebi"." Não sei se sou infeliz, como se mede a infelicidade, devo ser infeliz..."

Segundo esquerdo. Juíza maltratada por todos os namorados mais novos. O marido deixou-a quando as crianças eram pequenas. 59 anos. Morou em Castelo Branco. Com peso a mais. Acha-se feia: " demoro-me numa loja até os espelhos me expulsarem, o rosto que se alterou, a cintura que já não tenho, a forma de andar que não acredito ser minha". Usa placa. Os filhos desprezam-na: "os meus filhos não telefonam, não escrevem, a indiferença deles magoou-me, não me magoa já", ... " os meus filhos adormeciam com o meu dedo na mão e hoje nem um postal me escrevem quanto mais um telefonema ou um retrato". Pedem-lhe dinheiro emprestado. Sente-se sozinha: "em certas noites quando as vozes do silêncio nos inquietam". A quem os namorados batem e chamam "pudim de banhas". E velha: " o meu cheiro a velha porque a pele se alterou, o cabelo grisalho' as rugas, a coluna...". "A idade roubou-ma, a minha pele, o meu marido, o meu avô, quase tudo, não refiro os filhos porque não são nossos, emprestam-nós e vão-se, os meus emprestaram-mos durante vinte anos e a seguir perdi-os, primeiro custou, depois habituei-me, hoje é-me igual, estiveram aqui, não estão aqui, não me pertencem mais". Tem um piano que frequentemente interrompe o silêncio. 

Primeiro esquerdo. Bêbado. "Bebe para espertares miúdo". "Aceitava por obediência porque me ardia na garganta, depois calor, depois os ossos fosforentes, depois o corpo que demorava a tornar a ser meu e o coração no umbigo"."O silêncio depois de pancadas e gritos". "Nunca encontrei degraus tão complicados, sempre a mudarem de posição e cada vez mais altos". "Na altura não era do sabor que gostava, era de sentir-me feliz, bastava-me um golfinho para conseguir voar, tão simples tudo, tão real! Se me perguntassem qualquer matéria na escola não falhava um resposta". Tem uma filha chamada Alexandra. A mulher e a filha riscaram-no do mapa, se se cruzarem na rua não se conhecem.

Primeiro direito. Judeus. "Falam em estrangeiro"

Terceiro esquerdo vive o tenente velhote, xenófobo e racista: "não se conhece a razão, alguns pretos dedicam-se, não pedem, não reclamam, não falam, acompanham a gente é obedecem", " mesmo mulatos alguma coisa lhes há-de entrar na cabeça até os animais aprendem".

Sótão: "uma tosse, um cochicho", "oiço-lhe os passos". "Contam que Salazar não faleceu, se esconde por aí continuando a mandar".

Terceiro. A actriz "lançando flores invisíveis ao público invisível". "Adoram-me". "Sou uma estrela", "encho plateias". "Mostra a esse vizinho simpático o cartão que o Salazar me enviou". " jantamos uma sopa e para chegarão fim do mês é o cabo dos trabalhos". A actriz tem 91 anos. Há muito tempo que não sai de casa, vive com a pseudo sobrinha amarradas pela pobreza. Poupam na luz para não gastar electricidade. Delírio puro: "tanto ruído no interior de mim onde actualmente silêncio que só os aplausos à minha tia que não é minha tia interrompem, tanta gente de pé na sala deserta e ela a sorrir para a direita e para a esquerda enviando beijos".

Os personagens e as vozes alternam entre o bêbado, os judeus, o cego, a actriz decadente que acha que o Salazar tem um fraquinho por ela, a cuidadora da actriz: "mora com uma velha maluca a cair da tripeça e tratá-la por tia...dama de companhia de uma actriz que foi quase esposa de Salazar"), o militar, maus tratos infligidos pelos filhos, violência doméstica... Um universo de solidão ("Manhãs mais compridas, tardes curtas, noites longuíssimas", "apesar de tudo prefiro as censuras ao silêncio da ausência, ligo o aspirador, deixo-o trabalhar para me sentir acompanhados"), decadência, depressão, envelhecimento que é comum a todos os personagens ("esses fluidos dos idosos...que o corpo não segura, custos, suores, gotas no nariz, misérias, pingos vermelhos sem relação com as lágrimas...não choram, babam-se apenas", " o suplício das escadas, sapatos que se elevam puxados pelas gruas das pernas"Todos eles vivem amarrados ao passado. Alguns com terror do passado. Gente psicótica com a mania da perseguição. Gente com muita falta de afecto. A temática da guerra sempre presente, mesmo que de forma subtil. Há, também, sempre um médico. A maioria dos personagens não tem nome. A narrativa do livro parece passar-se no outono, não por acaso, a mais triste das estações do ano.

António Lobo Antunes parece usar as suas memórias reais, como por exemplo, o seu pai, professor conceituado de Medicina e assistente de Egas Moniz, quando consultou Salazar aquando da sua  célebre queda da cadeira: "-Salazar um gigante - disse o professor. - Vi-o como daqui para aí." E dos tempos de aluno de Medicina: "cerebelo hipotálamo calcâneo" prédio situa-se algures em Lisboa. O enredo  divide-se, ou refere-se pontualmente, a Castelo Branco, Portalegre, Carcavelos, Barreiro ou a "genérica" província ("todas as terras da província se assemelham mais igreja menos igreja").

Sempre com pormenores detalhados sobre o comum quotidiano e sempre com um revivalismo e saudosismo dos anos 70/80: " a lavar a marquise com a esfregona". "O horror dos domingos quando as vozes da infância nos visitam". Os poucos nomes de personagens, alguns são pindéricos: Sofia Rosa. Descreve sempre situações com uma memória fotográfica surpreendente. A descrição pormenorizada de sensações como a náusea: "o corredor às voltas, no quarto um abismo e eu agarrado ao colchão". Analepses e prolepses constantes entre a infância e o presente.


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A noite catártica de Adriana Calcanhotto na Gulbenkian

Este era para ser o concerto que encerraria "Olhos de onda". A tournée começou há aproximadamente dois anos em Lisboa. Um concerto concebido propositadamente para a comemoração dos 20 anos da Culturgest, primeiro palco que Adriana havia pisado em Lisboa. Este concerto na Gulbenkian seria o último. Em Lisboa começou e em Lisboa acabaria. Infelizmente, a mulher de Adriana, Susana de Moraes, faleceu há quase um mês e por esse motivo Adriana teve que adiar os concertos de São Paulo que antecediam o concerto de Lisboa. Não sei qual o motivo, mas a verdade, é que já que o concerto de Lisboa não seria o último, "Olhos de onda" não tem planos de terminar, pelo menos, para já.


Ontem, depois de ter adormecido às 7 da noite e acordado às 2 da manhã, andei a tocar viola até ser dia.... Mas como tinha pequeno-almoço incluído até às 10:30, não tinha como não aproveitar! Acordei, tomei banho em 5 minutos e em 10 estava pronta... O que significa que eram 10:20 quando desci no elevador. A porta do elevador no restaurante abre-se e tenho uma adolescente a fazer um demonstração de karate com direito a som e tudo! Quando a porta se abre ia morrendo com o susto e ela não se conteve com o riso! Ainda não refeita do susto, que me ia provocando um ataque cardíaco ( há duas coisas que eu não aguento: sustos e surpresas!), dirijo-me aos expositores com vários pães... A primeira coisa que vi. Tentei suspirar de alívio! Vou a pegar num prato e exactamente ao meu lado vejo uma pessoa com uns óculos escuros gigantescos! Aí ia morrendo verdadeiramente. Tento disfarçar para não deixar cair o prato. Devo ter dado um ar de malcriada e virei-lhe as costas para fingir que não a reconheci. E para ela não ficar tão incomodada como eu. Peguei no primeiro pão que vi, num pacote de manteiga e numa maçã. Ela continuou na vida dela e eu fui em direcção a uma mesa que me tinham atribuído junto à janela. Não mais me levantei e tiveram a amabilidade de me trazer o café à mesa. Eu felizmente tinha levado um livro que me ocupou o tempo. E a atenção.

Depois de ter comprado uma camisola verdadeira do Benfica para o afilhado  e uma das poucas coisas que o sobrinho mais velho não tem do Cars 2, quase que chegava atrasada ao concerto, que começou exactamente à hora marcada. 

Adriana entrou no palco vestida de cinzento, o traje habitual do espectáculo, a única diferença é que tem uma echarpe. Os cabelos estão presos. No palco somente o banco, a viola, o microfone, uns livros onde coloca o pé direito e uma mesa com uma garrafa de água. O concerto começa como no original com "O nome da cidade". "Maresia" passou de canção final para segunda. Seguiu-se "Inverno". Aqui percebeu-se o quanto estaria a ser difícil este concerto para ela. O dilema, aquilo que ela gosta tanto de fazer, numa cidade que ama, mas num momento tão delicado da vida dela. Enganou-se na letra. Esta letra que António Cicero dedicou a Susana de Moraes. Nem quero imaginar o nó que tinha na garganta. Isso foi tão perceptível nas explicações seguintes de "Para lá", "Sem saída" e "Motivos reais banais", em que uma Adriana entalada, com a voz quase embargada e com a tosse e a voz  (quase) a atraiçoa-la. Até eu me senti nervosa por ela nesses momentos. Uma das canções inéditas foi um poema de Sá-Carneiro que ela musicou para um sarau com a Professora Cleonilde Beraldinelli, especialista em Fernando Pessoa e Doutora Honoris Causa por Coimbra:

Senhora dos olhos lindos,
Por que é que sois tão cruel?
As pombas não têm fel,
E vós sois pomba, senhora...
Tormentos vários, infindos,
Sem dó, me fazeis sofrer...
Morto, vós me qu'reis ver,
Não é verdade, traidora?
Respondei! Ficais calada!
Neste caso, adivinhei...
Pois muito bem! morrerei...
Morrerei, sem ter pesar!...
Minha vida amargurada
Eu vos vou dar, deusa qu'rida...
Antes porém da partida
Dai-me a esmola de um olhar.

Um dos momentos altos da noite foi quando introduziu a canção "Susana" que  ela explicou que escreveu entre 20 ou 21 de Março do ano passado e que tinha falado disso num programa "Alta definição" para um menino, Daniel Oliveira, que é perigo em todos os sentidos. A letra falava de mar, de desertos...

Em tantos concertos que assisti da Adriana Calcanhotto nunca a vi interagir tanto com o público. Parecia um género de exorcizar a dor. Explicou quase todos os poemas. Contou piadas. Com o seu humor tão característico. Sentiu-se que ela estava ali inteira e o público recebeu-a com um silêncio inquietante mas com palmas ensurdecedoras no final de cada música. Adriana de certeza que se sentiu abraçada, especialmente hoje. Aplaudida sempre de pé das vezes que regressou ao palco. Quando lhe pediram no último encore "Fico assim sem você" confessou que ali não podia negar nada e revelou-se surpresa pelos concertos do seu alter-ego, Partimpim, estarem ambos esgotados. Uma noite grande, comovente, inesquecível, apoteótica, catártica, como só algumas têm o privilégio de ser. Uma noite daquelas, nas suas palavras.



Créditos: Catarina Henriques



sábado, 14 de fevereiro de 2015

Um amor de 26 anos

[Para a Susana de Moraes, in memoriam ]
Foi um amor que durou 26 anos. Sucumbiu, apenas, com a morte. Casou-se 7 vezes, isso herdou do pai. Mas um dia um amor fulminou-a e prendeu-a 26 anos. Qual o segredo? Foi o amor. O que mais poderia ser? Encontraram-se. Esse privilégio que só alguns têm na vida. Nas palavras de familiares e amigos, Susana, era uma pessoa fascinante, uma mulher incrível, forte, lutadora, inteligente, culta, bem-humorada, chique, admirável, generosa, amiga, sofisticada, interessante, alegre, incentivadora, conselheira. Uma pessoa única. Qualquer pessoa que a conhecia ficava encantada. Enfrentava tudo com muita força. Uma das irmãs apelidou-a de "nosso farol", "guia" e "matriarca". Como Vinicius escreveu:

"A redação seria a coisa mais triste do mundo, não fosse a presença inesperada de Susana. Susana com seus 13 anos em flor, sua sábia beleza, seu doce e triste olhar castanho e sua perfeita desenvoltura encheram a redação de uma vida inesperada, fazendo-me por alguns instantes esquecer a mesquinhez do cotidiano. Ela entrou nos amplos espaços do meu tédio com passos graciosos de dançarina e ficou a girar por ali, balançando os cabelos longos sobre os ombros firmes de adolescente. Pus-me a adorá-la como nunca dantes, àquela menina a quem dei vida, e nunca senti mais forte, doce, secreto, o elo que a ela me prende. 

Talvez para os outros sua jovem figura trouxesse apenas o encanto uma flor em desabrochamento. Para mim, seu pai, trouxe uma sensação de indizível amor, de um triste, fatal e pacífico amor sem remédio. Revia-a pequenina em meus braços diante de um branco céu crepuscular olhar para o alto anunciando-me que as estrelinhas estavam acordando. Revi-a a me olhar do seu modo sério quando lhe contava histórias, longas histórias por vezes inventadas
 e que nunca eram bastantes para a sua imaginação insone. Revi-a crescendo diante de mim qual planta misteriosa, estirando o caule,
distendendo os ramos numa ânsia saudável de crescer. Agora ali estava ela a dançar sua maravilhosa dança ritual só para mim, nos infinitos espaços do meu silêncio - Susana, uma vida tirada de mim, 
uma menina que eu fiz para amar com a maior doçura do mundo: Susana, flor de agosto, filha minha muito amada, para quem eu cantei meus mais sentidos cantos e sobre cujo pequenino rosto adormecido despetalei as mais lindas pétalas do meu carinho".

Um dos poemas mais bonitos de António Cicero, que é também uma das canções mais bonitas da Adriana Calcanhotto, chama-se "Inverno" e fala do momento inicial, do início da paixão, do atordoamento. E é assim:

No dia em que fui mais feliz
Eu vi um avião 
Se espelhar no seu olhar até sumir

De lá pra cá não sei
Caminho ao longo do canal
Faço longas cartas pra ninguém
E o inverno no Leblon é quase glacial.

Há algo que jamais se esclareceu:
Onde foi exactamente que larguei
Naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?

Lá mesmo esqueci
Que o destino
Sempre me quis só
No deserto, sem saudades, sem remorsos, só
Sem amarras, barco embriagado ao mar

Não sei o que em mim
Só quer me lembrar
Que um dia o céu
Reuniu-se à terra um instante por nós dois
Pouco antes do ocidente se assombrar

"Qual é a resposta?/ Me diga, então/ Qual é a pergunta?" São os primeiros três versos do "Tema de Alice" do filme "Mil e uma" da Susana Moraes e o primeiro destes versos é a pergunta que Alice B. Toklas fez a Gertrude Stein quando esta se encontrava no leito da morte. Quase tão profunda como a declaração da sua mulher, Adriana Calcanhotto, no mesmo dia que morreu: "Fui a mulher mais feliz do mundo nestes 26 anos em que estive com ela. Uma grande mulher, inteligente, engraçada, culta, amiga dos seus amigos, que teve uma vida extraordinária, e que vivia cada segundo como nunca mais. Morreu de mãos dadas comigo. Foi-se o amor da minha vida".

Através da neta mais velha, que tem o meu primeiro nome, e que é uma beldade (nas palavras da avó Susana) conheci um texto lindíssimo que é uma carta de Susana ao pai, Vinicius de Moraes, e que pode se lida aqui.

Há muitas pessoas que passam pela vida sem encontrarem um amor assim. É um privilégio conseguir-se isso!


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O dia que a Bu fugiu

Nunca imaginei um dia assim. Vivo por antecipação muitos dos dias da minha vida. Imagino cenários, antecipo situações, sofro por antecipação, sonho alegria e tristezas, imagino conversas, tento o simples tão difícil. Mas nunca imaginei que a Bu um dia fugisse. Era uma sexta à tarde e ligaram-me. Fiquei parada sem reacção. Não sabia o que fazer. Não sabia por onde começar. Liguei primeiro para uma amiga e para o meu irmão. Ficaram os dois como a noite. Liguei para um vizinho meu que tem duas cadelas para me aconselhar. A Bu fugiu porque é uma medricas. Estava a passear sem trela e ouviu um barulho grande e fugiu com o medo. Desorientou-se. A bem da verdade, ela nunca é orientada. O tempo que demorou a chegar a Braga foi uma eternidade. Preparei-me psicologicamente para que o pior tivesse acontecido ou fosse acontecer. O meu medo não era que a roubassem ou que se perdesse porque ela tem chip e uma placa com o nome dela é com o meu telemóvel. O meu receio é que fosse atropelada. Com uma rua cheia de trânsito à frente de casa nunca imaginei um bom cenário. Quando cheguei a casa comecei por procurar o Poeta e pedir-lhe que a procurasse e espalhar a notícia. Depois fui à pastelaria. Estava tudo em alerta. Depois fui procurá-la a pé a chamar pelo nome dela. Quando achei que a vi, avistei- a ao longe. Uma coisa pequena a andar junto ao rio. Comecei a gritar o nome dela. E ela imediatamente parou. Não correu, não andou, simplesmente parou. Rodava a cabeça sem sair do lugar. E quando cheguei ao pé dela ela não reagiu com a euforia e o barulho de sempre. A excitação era muita mas não se ouvia apenas se via. Desde esse dia que reparo que está muito mais atenta e que não foge. Desde esse dia que não mais a passeei sem trela.



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A tese de doutoramento do RP

[escrito no dia 06/02/2015]
O RP é meu amigo há muitos anos. Fomos colegas de curso e no fim veio pedir-me para lhe arranjar o estágio. Desde o início que é um grande investigador. E desde sempre que é uma grande pessoa. Para o bem e para o mal é muito parecido com o meu irmão. É assim que o sinto, quase um irmão. Uma grande pessoa, um grande amigo, culto, amigo dos seus amigos, interessante. Tem dois grandes defeitos: adia sempre decisões importantes e nunca quer enfrentar os problemas. Como se fosse uma solução, resolve os problemas sem os enfrentar. Aí, desaparece e não responde. É um eterno Peter Pan. Começou o doutoramento oficialmente um ano depois de mim.  Tal como eu, teve a felicidade de crescer e de aprender muito fora de Portugal. Mas ao contrário de mim, trocou Portugal por Itália há 8 anos. Deveria ter acabado o doutoramento em 2010 , um ano depois de mim. Mas arrastou-se. Neste tempo tornou-se ainda melhor investigador. Percebe de cartilagem como eu percebo de livros. Fala disso com uma alegria imensa. Mas tem um problema: detesta escrever. A vida dele é o lab. A vida dele é ter grandes questões e hipóteses e encontrar-lhes soluções. Entretanto, para além de ter plantado árvores, teve dois filhos gémeos lindos. São a razão da vida dele. Eu nunca imaginei o RP pai de filhos, quanto mais de dois, antes de acabar o doutoramento. Esta semana, o RP tinha de entregar a tese. A coisa, talvez, mais difícil da vida dele. Veio para Braga uma semana e trabalhou para esse objectivo. Ficou em minha casa e todos os dias o vi desesperado com saudades dos filhos. O cansaço de não saber o que era dormir mais de 5 horas seguidas há quase um ano não melhorou. Realmente, poderia ter dormido sem interrupções mas os dias e noites longas de trabalho não permitiram. Nunca achei que não seria possível terminar tudo em 5 dias. Afinal, como diz o ditado, a esperança é sempre a última a morrer. Nestes 5 dias trabalhamos como se não houvesse amanhã. Jantamos quase todos os dias em cada do A e da L. Sem a ajuda deles não teria sido possível. O R nunca se queixou do cansaço mas fez todos os dias a pergunta que acompanha os desesperados: "Para que me meti nisto?". O outro queixume era as saudades dos filhos. Em 5 dias, a obra do R, para além de ter tido filhos e ter plantado árvores, saiu. Mas sem antes pregar alguns sustos. Nada pode terminar bem sem a sua dose de suspense. A sua " maçã" não aguentou a pressão e resolveu entrar em coma no último dia. Como se não bastasse, descobrimos que a tese estava escrito num estilode letra que não era o correcto. A L deu conta da bomba. O A. com a imensa paciência dos monges budistas não se questionou e apenas agiu. Formatou a tese toda, conferiu páginas, números, figuras e tabelas. Modificou letras. Conseguiu-o em tempo record. E como última emoção, como o melhor acontece sempre no fim, o RP descobriu hoje, já depois de ter entregue a tese, dois erros no título.... Tudo acaba bem. Se não acabasse bem é porque ainda não tinha acabado. Depois de uma semana de cansaço acumulado em que tivemos de conciliar trabalho e tese, é um enorme alívio chegar a sexta à tarde com tudo pronto. Agora falta a defesa. Uma grande parte do pior está feita. Não falta muito para termos um novo Doutor. 


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O significado de Cristiano Ronaldo

Há alguns anos quando fui a primeira vez para Houston coincidiu com um Europeu de futebol. Foi em 2006. O único português que conheci fazia também o doutoramento em Rice University. O único contacto que tinha com a pátria era através telemóvel e do skype. Quando me perguntavam a nacionalidade achavam sempre que Portugal ficava no Brasil ou em Espanha. Apesar de Houston ser muito conhecida pela diversidade de restaurantes de várias nacionalidades, não havia restaurantes portugueses. Descobri um, já lá estava há algum tempo, que se chamava Oporto Café que era de um filho de um madeirense e nem português falava. Mas tinha um imenso orgulho da sua portugalidade. Todos os apartamentos que tive em Houston ficavam num condomínio que se chamava Maryland Manor e ficava numa das ruas com mais kms que conheci na vida. Chamava-se Bissonnet Street e atravessava Houston. A loja de conveniência mais perto de minha casa ficava a uns 5 mns de bicicleta. Era num posto de gasolina cujas pessoas que lá trabalhavam, ao contrário da maior parte dos locais em Houston, não eram mexicanos mas indianos. Quando me começaram a perguntar de onde era, a empatia foi imediata e nunca mais falavam de outra coisa a não ser Cristiano Ronaldo. Foi em 2006, longe de Portugal, num lugar improvável, no sul dos Estados Unidos que começou a minha simpatia pelo Cristiano Ronaldo! Esses indianos tinham até uma camisola da selecção portuguesa do CR7! Com o passar dos anos a minha admiração por ele só aumentou. A principal razão deve-se ao apego e respeito pela família. Não renega as origens, mostra-as. Dá à família aquilo que nunca poderiam ter se não fosse o sucesso dele. E eu admiro a união daquela família e a sua vida cigana. Andam juntos para todo o lado, vivem juntos, viajam juntos, passam férias juntos. E quando chega à altura de Ronaldo receber os prémios maiores de todos, não renega a sua origem e apesar de dominar pelo menos mais de 3 línguas, fala sempre em português. Nos agradecimentos, as maiores palavras vão sempre para a família. Já fui muito admiradora de futebol, há uns anos que não ligo muito. Quando me perguntam qual o melhor jogador do mundo digo sempre que é o Cristiano Ronaldo. Sou suspeita, eu sei. Mas para além de um excelente profissional, com características espectaculares, é um grande ser humano. E se é muito importante sermos grandes no nosso ofício, muito mais valor se acrescenta quando se é ainda uma grande pessoa. Cristiano, és um grande orgulho!


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Grande marcha em Paris

Em Paris, no último Domingo, uma multidão de gente juntou-se a favor da liberdade, dos princípios fundamentais, dos direitos humanos. Não sei que impacto terá no futuro, mas a simples imagem de ver políticos que muitas vezes discordam em quase tudo, poderem dar  os braços contra o terrorismo e o fanatismo é de aplaudir. Há imagens que valem mais do que mil palavras. E estas, ficarão para sempre.





sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo

O que posso dizer eu? Não há palavras! Não percebo como se pode matar em nome de Deus. Não tenhamos medo!

Copyright: Eugene Lee Yang

Depois de tanto sem sem escrever aqui não era assim que gostaria de ter regressado. Mas, este acontecimento brutal, não podia deixar de ser lembrado.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

A liberdade tem género?

4.10.14. “A Liberdade tem género?”, o debate entre Paulo Côrte-Real, Sofia Aboim e o Pe José Manuel Pereira de Almeida, moderados por Maria Flor Pedroso. Não foi uma conversa polémica. Os três intervenientes concordaram entre eles. Faltou a parte do contra. Este Padre, como se sabe, é muito moderno e simpático. A Sofia Aboim, que eu não conhecia, parecia saber do que estava a falar. E o Paulo Côrte- Real não acrescentou nada de novo ao habitual. Continua a ter uma das vozes mais bonitas que conheço. O que me deixou chocada foi a pergunta de uma adolescente, supostamente do séc. XXI, mas com mentalidade medieval. A questão dela foi colocada directamente ao Paulo Côrte-Real e foi assim(sobre a liberdade dos casais homossexuais poderem adoptar):  “Eles têm a liberdade de poder adoptar mas uma criança precisa de uma versão masculina e de uma versão feminina. Mesmo que seja a morte de um pai precisa sempre de um exemplo masculino. Não estamos a sobrepor um bocado a liberdade do casal de poder adoptar com a liberdade da criança poder escolher poder ter uma visão masculina e feminina?”. O que mais me chocou foi ouvir palmas na sala, numa cidade com fama de cosmopolita, sendo uma cidade do mundo, e supostamente aberta ao novo.




terça-feira, 4 de novembro de 2014

Correr atrás do amor

Uma grande amiga disse-me estes dias que vai correr atrás do amor dela. Não o desperdiçou nem lhe virou as costas! Às vezes tenho orgulho das opiniões que dou e de como elas influenciam positivamente a vida dos meus amigos! Parabéns, A! Vai correr tudo muito bem! E lá vou eu conhecer mais duas cidades deste mundo!

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Quem perdeu foi o Brasil

Nunca morri de amores pelo PT, pelo fenómeno "Lula", nem pela "presidenta" Dilma. Contudo, concordo que nos últimos 3 mandatos PT, muita gente saiu do limiar da pobreza extrema e a classe média cresceu no Brasil. Falta saber a que preço. E quanto tempo irá durar. Acho que 3 mandatos do mesmo partido no poder só criam maus vícios. O que deixou o Brasil a optar pelo "mal menor" foi o Aécio. Faço minhas as palavras do Benjamin Moser (autor da biografia de Clarice Lispector e talvez o americano que melhor fala do Brasil): "o Aécio com sua cocaína, sua atitude de filho-de-coronel, suas falas, nos Estados Unidos, que a mulher brasileira só vai à praia e faz compras, sabe o que eu vejo? George W. Bush, edição tropical".

Os pobres no Brasil

Grande texto. As desigualdades gritantes do Brasil aos olhos do mundo: «No Brasil, pobre não tem direito a artigo nem plural. Só "pobre (...) Os privilegiados e os "fudidos", como por vezes se escreve no Brasil, uma vez que há aqueles que nem merecem a vogal certa. (..) mesmo a vida dos que deixaram de ser oficialmente pobres continua impedida pelo descaso das autoridades e pela estrutura de castas. Horas de martírio para ir de casa para o emprego, medíocre prestação do Estado na saúde e educação, corrupção, favoritismo, discriminação, desamparo e muito pouca mobilidade social». Felizmente, Portugal apesar da crise e apesar do crescimento da pobreza infantil não tem este tipo de diferença social e de estigma. Espero que este tipo de (in)diferença nunca chegue cá. O texto completo escrito pelo Hugo Gonçalves no DN: 

"No Brasil ser pobre é ter o destino traçado na palma da mão, um estigma quase sempre vitalício. No Brasil, pobre não tem direito a artigo nem plural. Só "pobre". Um dia disseram-me: "Não vou na praia, está cheia de pobre." Pobre é desdentado. Mesmo o astro literário Nelson Rodrigues - que vestia o mesmo casaco puído dias a fio e que tinha mil trabalhos para pagar as contas - não conservava um dente na boca antes dos 40. Mas os pobres - mesmo pobres - que não mudaram a dramaturgia do Brasil como Rodrigues, sempre foram desdentados perpétuos sem esperanças de glória ou justiça, párias cujo desmerecimento e a exclusão vão muito além da falta de dentes.
"Pereba, você não tem dentes, é vesgo, preto e pobre, você acha que as madames vão dar pra você? Ô Pereba, o máximo que você pode fazer é tocar uma", diz uma personagem em Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca.
Pobre é preto - mesmo quando é branco. Pobre vale menos. Às vezes vale nada. A escritora americana Julia Michaels, com 30 anos de Brasil, escreveu que uma mulher fofocava com as amigas sobre o namoro da sua empregada e, quando perguntaram se a empregada era bonita, a patroa respondeu: "Para eles é." Nós e eles. Quem manda e quem obedece. Os privilegiados e os "fudidos", como por vezes se escreve no Brasil, uma vez que há aqueles que nem merecem a vogal certa.

Questionei uma amiga sobre o motivo de alguns anúncios de TV terem o som bastante mais alto do que os restantes. "Porque é anúncio para pobre." Pobre viaja esmagado em ônibus sem ar condicionado. Pobre morre porque o médico não apareceu no hospital. Pobre não vale um tostão furado para a polícia. Pobre causa mais repulsa do que compaixão. Pobre diz, sobre o vereador, o prefeito, o pastor: "Ele rouba, mas faz", uma subversão a condescender porque, por norma, nunca ninguém faz nada pelo pobre.
Os norte-americanos têm nigger, kike, spick, chink, guinea, tudo epítetos raciais. Em Espanha chamam sudacas aos sul-americanos (certo dia vi uma porrada no metro de Madrid e alguém gritava "Soy argentino, no soy sudaca"). Já ouvi chamar "o preto", "o gordo", "o cigano", "o anão", "o mongoloide", mas nunca, como no Brasil, ouvira "pobre" como uma designação tão depreciativa e amplamente usada - um chega para lá social, a arrogância de quem se acha escolhido em oposição à subserviência de quem, desde sempre, baixa a cabeça e se cala.
Caco Antibes, personagem da sitcom brasileira Sai de Baixo, ficou famoso por ter "horror a pobre" e pelos aforismos: "Pobre precisa entender que só passeia no shopping de Havaiana quem é rico." Presumível caricatura de ficção, Caco Antibes tem muitos sucedâneos na vida real.

Pobre faz parte do imaginário do Brasil como o boteco, o arroz com feijão ou Carinhoso, de Pixinguinha. A designação "pobre", para definir um grupo de milhões - mesmo os que não são pobres -, diz muito sobre o teimoso legado da escravidão e as conservadoras e pouco lubrificadas estruturas sociais neste país.
O Brasil já não é, de facto, desdentado. Antes pelo contrário, a democratização dos aparelhos odontológicos faz que hoje a maioria - até "pobre" - tenha a brancura dental das estrelas de Hollywood. Há mais gente na universidade, menos a passar fome, muitas famílias podem agora ter algum conforto, manter os filhos na escola, aspirar a mais do que subsistir da mão para a boca.

Mas mesmo a vida dos que deixaram de ser oficialmente pobres continua impedida pelo descaso das autoridades e pela estrutura de castas. Horas de martírio para ir de casa para o emprego, medíocre prestação do Estado na saúde e educação, corrupção, favoritismo, discriminação, desamparo e muito pouca mobilidade social. Ser pobre não é apenas uma designação do governo federal - aqueles com menos de 25 euros de rendimento mensal. É também uma sina e uma opressão.

Encontrei o porteiro do meu prédio, que deveria estar de férias, a lavar um carro no parque de estacionamento às sete da manhã. Perguntei--lhe o que fazia ali. "O coroa vai viajar e pediu para eu lavar o carro dele." O porteiro tinha vindo de propósito de São Gonçalo (longe para burro), de madrugada, interrompendo as férias, para obedecer ao pedido (à ordem) de um inquilino. Quando me indignei, ele não pareceu especialmente vingado. "Faz parte", disse-me - a ordem natural das coisas como ele sempre as conheceu e que se perpetua ainda, apesar do aumento dos rendimentos dos pobres.

Milhões podem ter saído oficialmente da pobreza. Mas no Brasil, que por vezes parece o país dos coronéis, ser pobre ainda continua a ser uma má sina para a vida inteira - mesmo que se tenham os dentes todos".

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Saga lisboeta: tuk tuks e taxistas

Chego a Lisboa à tarde. Santa Apolónia. Há muito não frequento esta zona, desde que me cansei de noites muito longas no Lux. A última vez que vim para estes lados fui ao Bica no Sapato. Ficou a memória do único vinho do Douro que bebo: Graínha. De resto, nada de especial. Sol, como sempre. Fila enorme para os táxis. Os passageiros acomodam-se exemplarmente em fila indiana. Os táxis, a desordem do costume, filas de duas faixas. Avisto dois cruzeiros enormes. Sigo para Alcântara. Reparo que de um lado e outro, mais atrás e mais à frente, a nova moda dos tuk tuk. Assusto-me com a velocidade que atingem. Arrepio-me com a velocidade que fazem as curvas. Imagino a falta de segurança que aquilo deve ter. Comento com o taxista. Questiono-me sobre o que faz os turistas trocarem um táxi por uma pena. O meu cérebro não pára de processar um possível toque de um carro. Tento pensar noutra coisa. Chego a tempo de ir à apresentação do livro do Saramago, que dele tem apenas dezenas de páginas, mas os bilhetes estão esgotados. Sigo para o hotel. Chego ao quarto e tenho uma vista fantástica para o rio, que para mim, é o mais bonito do mundo. Não parece um rio, parece um mar. O Mississipi, visto de Memphis, foi para mim uma desilusão. Este Tejo, continua até hoje, a lembrar-me a descoberta de novos mundos. O hotel manda-me como boas vindas maçãs e uma garrafa de água. Eu que não gosto de maçãs. Ando há dias com uma crise de vesícula que teima em não passar. Mas o destino parece conspirar a meu favor. As maçãs revelar-se-ão a minha salvação, já que pouco mais consigo comer.

A noite chega. Escrevo. Tenho o ar condicionado (AC) ligado, embora deteste. Por isso, espero o mínimo tempo possível para arrefecer. Desligo-o. Não sei que truque de magia fiz mas consegui fazer desaparecer o comando do AC. Como estou reduzida a poucos metros quadrados, não saí e o chão não é furado...Tenho poderes? Revisto tudo. Não o encontro. Agora, para além do esforço físico da procura, acrescento o calor tropical do quarto. Tento dormir. Não consigo. Levanto-me, uma vez mais, para fazer outra busca. Nada. Passei a noite nisto. Mal dormi. Obviamente quando deveria ter acordado, e já era bem dia, adormeci. Isto é o espelho da minha vida.

Depois do almoço sigo de táxi para Belém. Chegada aos Jerónimos comovo-me, como sempre. Não sei o que é. Os olhos ficam marejados. Felizmente, tenho óculos de sol. O que haveria o taxista pensar de mim? Reparo numa das invenções turísticas mais estúpidas que conheço, e que inundam as grandes cidades do mundo: cavalos e carroças. Neste caso, é apenas um cavalo e uma carroça. O cavalo tem a cara tapada. Viro costas porque não posso fazer nada. E penso que não posso mudar o mundo.

Dia seguinte. Outro táxi. Digno de registo. Mal entrei no táxi, percebi. O taxista, sem eu lhe pedir, conduzia para além dos limites de velocidade. Tipo bala. Resmunga com todos à volta. Para mim é simpático. Diz mal de todos. Queixa-se de tudo. Para mim é amável. Quando chegamos ao pé dos Jerónimos para virar para o CCB, estou tão distraída com o comportamento do taxista, que não reparo no cavalo. Nem tenho tempo de me emocionar com os Jerónimos. Uma parte de mim é receio e a outra é riso (escondido). Azar dos azares, aparece um tuk tuk à frente. Não podia ser pior. O taxista espuma-se. Quando ultrapassa o tuk tuk, a coitada da senhora só diz um tímido “Obrigadinha”. Palavra que disse. O taxista insultou-a de todos os nomes que envolviam filhas e alhos. Eu só queria que não sobrasse para mim. Vasculho os bolsos e rezo para ter trocos mas só encontro notas. Daquelas que não dão para ficar com o troco. Mas eu já estava por tudo. O taxista só gritava que os tuk tuk eram ilegais. Ladrões. Não passam facturas. Não pagam impostos. São um perigo. Eu estendo-lhe a nota. E o homem continua distraído com os insultos a mexer nas moedas. Eu bem lhe digo para arredondar. O táxi está mal estacionado atrás de outros. De repente: “Pum”. E eu só penso: “o mundo vai acabar”. O motorista de um conhecido político, ao sair do estacionamento, bate exactamente na minha porta. Acabou tudo. Não tenho por onde sair. Digo ao taxista que pode ficar com o troco. E ele diz-me para esperar. Sai do carro aos berros. O motorista do conhecido político só pede desculpas. “Desculpa não, vai pagar e bem!”. E insulta o homem de tudo. Eu só quero sair do táxi. Tento manter-me calma. Mas ao mesmo tempo só me apetece rir. Tudo a olhar e ninguém faz nada. O taxista entra novamente. Volta às moedas mas parece não prestar atenção. Felizmente, chega o táxi à frente. Saio. “Espere minha senhora”. “Fique com o troco”, respondo eu. E despeja toda a ira no coitado do motorista que teve o azar de não reparar no táxi. Ninguém faz nada. Eu só digo: “Vá, calma”. O motorista: “Eu pago”. O taxista: “vai pagar muito bem. Querem entrar com os carros em todo o lado”. Queria ter tido a coragem de fazer muito e mais. Acho que consegui que o taxista não chegasse a vias de facto. Virei as costas sem o troco e sem factura.


No fim da tarde, quando regresso ao hotel, vejo o cavalo. Sem a cara tapada mas com os olhos. Apetece-me fazer alguma coisa. Mas o que posso eu? No dia seguinte: o cavalo outra vez de cara tapada. Penso que deve ser legal porque com tanta polícia e tantas pessoas, alguém já se deve ter apercebido. Que vida animal é esta? Para além de amarrado não pode sequer ver o mundo? Século XXI. Escravo e cego. 








Presente no Futuro

Seguiu-se a brilhante conversa entre um dos maiores pensadores contemrâneos, Eduardo Lourenço, e uma das vozes mais bonitas de Portugal e um grande condutor de conversas, Carlos Vaz Marques.



A penúltima sessão do dia foi “Música e liberdade”. Aline Frazão, Amélia Muge, Mitó e Lura moderadas por José Carlos Araújo. Não percebo muito de música e tão pouco estou actualizada com as novas tendências. De todas estas pessoas só reconheci a Amélia Muge mas nem sequer conheço o trabalho dela. De todas, foi a que melhor falou.
Aline Frazão veio de Angola para estudar jornalismo e acabou na música. Falou de outro tipo de realidade: ter comida na mesa”. Falou da falta de democracia em Angola (esta, real). Falou de míninos necessários numa sociedade, finalmente já ultrapassados em Portugal: “comida na mesa, escola e assistência médica”.

Lura disse que para ela “a liberdade é posta ao serviço de Cabo Verde e que serve para ultrapassar a timidez e a dizer aquilo que sente em palco”.

Mitó é vocalista da A naifa. Tem uma voz poderosa mesmo sem cantar. Um corpo tão franzino e uma voz tão forte. Não a conhecia. De todas foi, talvez, a que apresentou um discurso mais radical: “nunca deixem de de pensar pela vossa cabeça nem de lutar pelos vossos direitos”. Falou da música Tourada que foi reinterpretada por ela e que descreve o ambiente político e social de 1973 que é muito semelhante ao de 2014”. Exagerada, no mínimo. A Mitó em 2014 pode fazer estas afirmações sem que nada lhe aconteça e em 1973 nem nascida devia ser, e com mais certeza ainda, não poderia fazer estas afirmações, de facto. Mas tenho a certeza que deve ser muito melhor intérprete do que comentadora política.


A última sessão do dia foi do Governo Sombra. Começaram por falar da vitória de António Costa, o Gandhi de Lisboa, como o apelidou um jornal indiano. E da sua primeira atitude enquanto líder do PS: “abster-se violentamente de citar Seguro”. Imaginaram o futuro de António José Seguro como Provedor da Santa Casa da Misericórdia. Criticaram a “maneira de ser muito plástica” de Seguro, “como se tivesse uma vassoura num sítio que os pombos são analisados na China”.

João Miguel Tavares foi indicado para Ministro do perímetro (orçamental), Pedro Mexia para Ministro da estupidez e Ricardo Araújo Pereira para Ministro das condições.
A parte que mais gostei foi quando falaram de um artista de Braga (na verdade, de Barcelos) que fez os bustos comemorativos do centenário da República. Pelo vistos, este artista, já tinha apresentado uma obra Padres, Prostitutas e Paneleiros (aka 3P’s) que mostrava “o padre a colocar as mãos nas nádegas das duas restantes entidades”.

Mesmo no final, o João Miguel Tavares, mostrou o livro com a obra completa de Machado de Assis editado pela Glaciar com a Academia Brasileira das Letras e que estará disponível em todas as bibliotecas públicas nacionais.




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