Meados de Junho. Palestra nos Açores. Descanso e trabalho
para o projecto Investigador FCT nos restantes dias. Há muito queria conhecer o
arquipélago. Sempre me senti fascinada, nem sei bem qual a razão. Sempre achei
que estava muito preservada da mão humana. Não me enganei. Primeiro de tudo, o
mar está sempre presente. A maresia, também. O clima é do melhor que há. Nem
quente nem frio, ameno. Chove e no momento a seguir está sol. A imagem que
tinha dos Açores com vaquinhas e um verde imenso correspondeu. Depois, tem
óptimas estradas. Eu que não sou muito de natureza fiquei rendida. Até trilhos
fiz. Andei minutos seguidos para ver imagens de cortar a respiração. Comi a
melhor carne do mundo. E o melhor peixe, também. Queijos, perdi a conta. Ilha,
S. Jorge, S. Miguel. Todos, muitos. Os micaelenses são simpáticos. O tempo
deles e a velocidade é diferente. Tudo devagarinho. Mas a simpatia e a
disponibilidade superam tudo. Conheci muita coisa. Tenho fraca memória. Mas
nunca vou esquecer as escarpas e o mar sem fim. A cor escura do Atlântico. As
praias rochosas, vulcânicas e escuras. A areia escura. O clima ameno. O cozido
das Furnas com sabor à morcela com canela e pimenta da terra. A kima maracujá.
A Especial da Melo Abreu. O queijo fresco com pimenta da terra. A carne de vaca
dos Açores. O chá verda da Gorreana. Os tremoços com alho e pimenta da terra.
Os chicharrinhos fritos a saber a mar. As plantações de chá a perderem de
vista. A flora. Os fetos gigantes. As baleisas. Os golfinhos. As gaivotas. A
marina. As praias. As termas. A lagoa das Sete Cidades. Os jacarandás. A lagoa
do Fogo. A Ferraria. As praias tão desconhecidas e tão inesperadas. As cores.
Os ossos de baleia. O Parque Terra Nostra e o seu magnífico jardim botânico. E
como o melhor guarda-se para o fim, nunca esquecerei da sensação de entrar na
piscina natural de água termal a 40ºC naquele fim de tarde. A temperatura de
fim de tarde a contrastar com a temperatura da água, superior à do corpo. Não
há palavras para descrever a sensação. A lagoa das Furnas. As fumarolas. O bolo
lêvedo. O atum fresco. As bolachas moçor. Tudo ficou para sempre na minha
memória e quero lá voltar. A ilha de S. Miguel ficou empreguenada em mim sem
que eu contasse. Sabia que ia ser bom, não imaginava que seria tanto.
sábado, 28 de junho de 2014
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Viagem Porto-NY
23 de Junho. Desta vez não me atrasei. Apesar das poucas horas dormidas e
do stress do jogo Portugal-Estados Unidos. Acabamos empatados. Mais sorte do
que juízo, poderá ser dito. Acordei antes das 7 e estive no aeroporto a fazer
horas. Consegui, pela segunda vez em toda a vida , um daqueles lugares a seguir
à primeira classe com o maior espaço para as pernas. A única desvantagem é que
fui entalada entre duas mulheres bastante acima do peso. É nestas situações,
mesmo apesar de não estar em forma, que me sinto menos culpada. No meu lado esquerdo
uma americana. Do lado direito uma portuguesa que se intitulava americana.
Adoro! Deu-me todas as instruções e explicava-me tudo, como se eu nunca tivesse
andado de avião. Deixei-a brilhar. Se posso fazer as pessoas felizes por que
não? Disse-me saber aquilo tudo porque trabalhara no aeroporto. Como se não
fosse possível saber aquilo tudo com as muitas horas passadas no ar. Nos 2
lugares junto à janela iam um pai e um filho. Não deveriam saber o que era um
banho há semanas. O cheiro era tão nauseabundo que mesmo com o nariz habituado,
passados algumas horas, ainda conseguia sentir o cheiro. Os dois eram um
desleixo só. Nem a barba tinham feita. Com tempo de verão usavam duas parkas do
pico de inverno. Esses dois senhores teimavam usar o WC da classe executiva. A
minha “vizinha”, sempre oportuna, dizia-lhes que não podiam usar aquela que era
o WC dos ricos. Adiante, quando a pessoa da direita dormia e roncava e a da
esquerda também, aproveitei para dar um grande avanço na biografia de Einstein
que começara a ler. Chego a Newark e pela primeira vez não encontro fila. Ajudo
uns portugueses que vinham visitar um filho por um mês a serem entendidos.
Percebo quando saio que o Starbucks não existe mais e que foi substituído por
outro que desconheço o nome. A fila para marcar o super shuttle é grande. Mas a espera pelo motorista foi a mais
rápida de sempre. Desta vez foi ele que procurou por mim e não eu por ele. A
viagem até casa também foi rápida. Não havia trânsito a entrar em Manhattan
pelo Lincoln Tunnel. As primeiras
pessoas foram deixadas ali para os lados de Hells
Kitchen. Outras ficaram num hotel na 96 com a Broadway e eu fui a seguinte.
Deixei as malas com o porteiro do prédio e segui rumo ao Starbucks. Como a fila
era enorme, resolvi apenas sentar-me. O prédio à frente daquele que foi o meu
prédio por 6 meses já está pronto. As lojas e a Broadway continuam na mesma.
Apenas alguns táxis mudaram de cor para um verde vómito. O porteiro mudou. A
carrinha em frente ao prédio de halal
food é a mesma. A fila no Pinkberry
continua enorme. Há mais pessoas a passear os cães. Os sem-abrigo a pedir em
frente em frente ao supermercado são outros. Sinto-me em casa.
terça-feira, 17 de junho de 2014
Seguro vs Costa
A política, como espectadora, é uma das coisas que gosto.
Debates, discussões políticas, programas políticos. Programas de governos. Tudo
à distância de uma televisão, de um rádio, de um livro ou de um computador. Biografias
políticas. Histórias políticas. Política activa nunca mais. A não ser que um
grande amigo se meta nisso. Fora isso, a minha participação activa é um zero
absoluto.
Não me lembro em 35 anos de tamanha revolução num partido
político. Nem quando Santana Lopes esteve à frente do governo, quando foi
nomeado e não eleito, quando a ala cavaquista aproveitou para quase o aniquilar
politicamente. Ele disse que ia andar por aí e por aí continua. Nem quando a
Joana Amaral Dias apoiou e foi mandatária de Mário Soares quando estava
vinculada ao Bloco de Esquerda. Nem quando Paulo Pedroso foi preso e depois
libertado e saiu como um herói na então liderança de Ferro Rodrigues.
Catástrofe idêntica ao momento actual que se vive no PS, só a morte de Sá
Carneiro, da qual não me lembro mas sobre a qual estou bem informada. Foi
talvez sobre a pessoa que mais biografias li. Acho que li tudo o que existe
sobre ele.
António José Seguro teve a pior votação do PS nas Europeias
desde que me lembro de ser gente (31.5%). Sobre isto podemos fazer uma tese.
Mas como tenho poucas linhas, vou abreviar. Um líder do maior partido da
oposição, numa situação de pós-crise e incrível austeridade, consegue somente
mais 3% do que a coligação de governo. Seguro argumentou dizendo que não. A coligação
é constituída por dois partidos. É verdade. Mas também é verdade que este é o
governo mais odiado que há memória em Portugal. E mesmo assim, o PS conseguiu
apenas, mais 3%. E na minha opinião o PS tinha obrigação de ter conseguido
mais. Claro que sim. Se não uma maioria absoluta, qualquer coisa próximo disso.
Os portugueses mostraram com isso duas coisas: que nem toda a gente odeia o
governo e que existe muita gente que não acredita no actual PS, ou pelo menos
neste líder, para liderar uma mudança em Portugal. Eu, no lugar do governo e do
PSD estaria radiante: 27,7% depois de tudo....
Nunca acreditei politicamente no António José Seguro. Não
sei dizer qual a razão. Nunca foi um político carismático. Vem das jotinhas.
Não se lhe conhece outra profissão que não tenha sido a política. Foi um boy do Guterres. Foi e é um líder de oposição péssimo. Tirando
isto, não tenho muito a criticar. É-me indiferente. Como propostas políticas
para o futuro do país, afirma que não vai aumentar impostos e que vai repor os
salários. Vai revogar a decisão de alterar o mapa judiciário. Reduzir o número
de deputados. Exclusividade dos
deputados. Concordo com todas as propostas. Mas são estas propostas de governo?
“Apenas” isto vai mudar alguma coisa?
No entanto, não acho Seguro arrogante como Sócrates. Acho
que é melhor pessoa. E tenho-o como uma pessoa séria. Mas carisma, não é de
facto, o seu forte. Está rodeado de algumas pessoas que parecem muito bem
preparadas, como por exemplo o Eurico Brilhante Dias, que não tenho dúvidas que
dará cartas no futuro.
Concordo com Seguro quando ao timing de António Costa se candidatar à liderança do PS. Façamos o
exercício de concordarmos. António Costa teve duas oportunidades para ter
assumido a liderança e das duas vezes solidarizou-se com o líder. Seguro fez o
caminho das trevas, assegurou a liderança do maior partido de oposição
pós-Sócrates. Desgastou-se. Fez o trabalho mau. E agora vem o António Costa,
qual D. Sebastião, apontar para lá do nevoeiro. Concordo que Seguro possa estar
magoado, triste e inseguro.
Seguro, na minha opinião, perdeu toda a credibilidade quando
se recusou a convocar um congresso. [Eu adoro congressos. Discursos noite
dentro. As televisões generalistas começam as televendas mais tarde, o que é
óptimo para insones como eu. E depois da tempestade regressa a bonança. E ficam
todos amigos, novamente]. Agora, tenho muitas dúvidas sem resposta. Primárias?
Com militantes e simpatizantes do PS? Que critério define um simpatizante do
PS? Não realizar-se um Congresso? A possibilidade de ter um Secretário Geral
diferente do candidato a Primeiro-Ministro? Seguro acredita mesmo que
conseguirá ser Primeiro-Ministro?
António Costa. Ministro dos Assuntos Parlamentares e da
Justiça dos governos de Guterres. Ministro de Estado e da Administração Interna
do governo de Sócrates. No CV diz que a sua actividade profissional é advogado.
É presidente da Câmara de Lisboa desde 2007. Juntou Helena Roseta e Sá
Fernandes na sua lista. Conseguiu acordos até com o PSD na Câmara. Acho que fez
um trabalho muito visível na Câmara de Lisboa e isso vê-se pelos 51%
conseguidos. É muito simpático. Tem
carisma. Participa no “Quadratura do Círculo”, programa que adoro. Dizem que é
um homem de consensos. Diz que quer mobilizar Portugal. Não se envolve em
ataques pessoais. É politicamente correcto.
O que posso eu dizer? Li as 4 páginas de apresentação da candidatura.
Diz que o país precisa de uma mudança. Concordo. Diz que se tem de reverter a
situação económica e social do país. Concordo. Não diz como o vai fazer.
Atribui a situação do país ao alargamento a leste, da entrada da China no
mercado Europeu e da falta de resposta da Europa em relação à crise. Concordo. Orgulha-se
da visão do Governo liderado por Guterres e do impulso reformista de Sócrates.
Não poderia renegar o seu passado. Fala em voltar a investir na Ciência e na
Cultura. Não podia concordar mais. Um país sem ciência e sem cultura é um país
pior. Refere a necessidade da modernização do Estado e do Tecido Empresarial. Não
explica como fará estas mudanças. Faz política sem atacar. Não faz críticas
ferozes, nem ao Governo nem à actual liderança do PS. Gostei do que li, mas não
chega. Espero um programa mais completo para poder pronunciar-me. Está rodeado
de pessoas muito capazes e isso é visível por algumas das pessoas da sua equipa
na Câmara de Lisboa. Não sou do PS. Nunca votei no PS. Gosto do António Costa.
Fico à espera que me convença.
Como é que todos os apoiantes da candidatura de António
Costa, que também são membros da direcção da actual liderança, não se demitem? Tenho
para mim que não podemos ser do Benfica e do Porto ao mesmo tempo!
sexta-feira, 13 de junho de 2014
As baleias
Nove de Junho. Acordamos às quinze para as oito. Tomamos o
meu pequeno-almoço preferido desde que estou em Ponta Delgada: bolo lêvedo
torrado com queijo e meia de leite clara. Às oito e meia saímos de casa rumo à
marina, ansiosa, receosa, medrosa e todos os adjectivos possíveis de quem tem
medo e respeito pelo mar. A promessa era de ver vários tipos de baleias, aves e
golfinhos. A garantia é que se não avistássemos nem baleias nem golfinhos faríamos outra viagem for free. Eu
que nunca fui de natureza, nem de animais, nem de plantas, nem de flores ia com
a ténue esperança de ver pelo menos uma ponta de rabo de cachalote. Não sei qual o
motivo mas esta viagem mar adentro fazia-me lembrar em tudo Moby Dick e a Ode
Marítima. O Juan Pe, no dia anterior com as suas fotos maravilhosas,
havia-me maravilhado com as imagens impressionantes daquela cauda vertical da
baleia a mergulhar. Uma parte de mim estava cheia de curiosidade, de ver essa imagem, outra parte de mim era só temor. Desde que li há anos a descrição
da Adriana Calcanhotto no seu Saga Lusa
que ao mesmo tempo que a invejava, outra repelia-a. Eis a descrição dela,
quando o capitão do bote saía para o mar: “Não, não temos a certeza se
estaremos de volta às três, nem se há baleias e nem mesmo se voltaremos, se é
que algum viajante retorna, isto aqui é o mar, ó pá, não temos a certeza de
nada.” Perante esta descrição, como poderia ir eu qualquer coisa que se
assemelhasse a terror. Ainda para mais enjoo com tudo. Umas simples meia dúzia
de curvas fazem-me vomita. Eu enjoo a conduzir, coisa rara entre os
humanos... Equipámo-nos a rigor. Parka e calças impermeáveis e colete. O barco
era um semi-rígido com doze pessoas, o capitão e o guia que era biólogo. Com a
atrapalhação do momento nem me lembrei se o Juan Pe havia dito que o melhor
para mim era ir na parte da frente ou na parte de trás do barco. Como fomos as
últimas a entrar, sobrou-nos dois lugares no meio. Quando o barco arrancou
oceano dentro, a toda a velocidade, pensei para mim: “vai ser agora que vou
morrer”. Fechei os olhos e a brisa marítima a bater-me na cara, entreguei-me.
Convenci-me que se morresse morria como as árvores, de pé e com estilo. Nada de
os outros notarem que estava aterrorizada. O barco seguiu no imenso oceano,
para mim, sem fim, e aquele azul escuro tão bonito, de tirar a respiração. Um
azul escuro tão incrível, tão imenso, tão brilhante que nunca irei esquecer. E
nunca estive tanto em alto mar. Estamos atrás de baleias que são previamente
avistadas por um vigia estrategicamente colocado em terra. Depois de meia hora
a ir oceano dentro, avistamos duas baleias: baleia comum (fin whale). Grandes,
enormes, a segunda maior espécie do mundo! Que emoção. Eu que nunca me comovi
com estas coisas. Não sabia se fotografava, se olhava, se filmava...A maresia
na cara, o vento, aquela imagem clara na água, submersa e muito azul. Ou o
cinzento. Estiveram muito tempo a menos de um metro de nós. Avistamos estas
primeiras duas baleias. Nada é certo, tivemos sorte. O mar, tal como a vida,
não se tem certeza nenhuma. Depois de mais de uma hora, partimos à procura do
cachalote. A água bate-nos na cara e já não distingo se é água, baba ou ranho
porque ardem-se os olhos do sal. Depois de outros tantos minutos em direcção ao
tão esperado cachalote, eis que são dois. São os mais difíceis de avistar
porque só os conseguimos ver quando mergulham e isso só fazem uma vez durante o
tempo da viagem. A esperança é que pelo menos um deles não tivesse mergulhado.
E, ó sorte das sortes, passados alguns minutos, essa imagem acontece, avistamos
a cauda do cachalote magnificamente vertical. Terão que acreditar na minha
descrição porque não existem provas. Aqui estou eu, mais treze pessoas, rodeadas
de mar sem fim e eu não sei se chore ou ria de alegria. Regressamos a terra, o
mar repicado, nas palavras do capitão, continua a bater-me na cara, sem dar
tréguas. A temperatura do mar, segundo o capitão não ultrapassa os dezoito
graus. Eu teimo que tem de certeza mais de vinte e dois, mais quente que todas
as águas do mar que conheço. Pode ser da emoção, confesso. Mas esta água para
mim é quente e de um azul magnífico. Voltamos, sem antes avistar, seis
golfinhos que saltam felizes à nossa volta. Para uma reticente como eu como
não ter amado esta experiência? Em alto mar relativizamos tudo. A viagem acaba,
segura, inteira e para sempre ser recordada.
P.S. As fotos são do meu mais novo amigo Juan Pe, que para além de ser biólogo e perceber de todo o tipo de animais e plantas, é um excelente fotógrafo. É também guia dos semi-rígidos que fazem estas visitas ao largo de Ponta Delgada.
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas
Escrevo com um dia de atraso. Sempre o mar. Ontem foi o dia de Portugal. O dia da morte de Camões. Não o dia de um estadista, de um general, de um rei nem de um ditador. Em que outro país é assim? Que orgulho. Especialmente comemorado nos Açores. Aqui fica um dos poemas que mais gosto dele que foi para sempre imortalizado na voz da nossa Amália.
que em tão dura paixão me sepultou.
Que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado.
Mas chorar não estima neste estado
aonde suspirar nunca aproveitou.
Triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.
Assim a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé que a sofre e sente.
De tanto mal, a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dele aventuro.
terça-feira, 10 de junho de 2014
Porto - Ponta Delgada
5 de Junho. Mais uma vez acordo atrasada e mais uma vez
consigo não perder o avião. Vamos ver até quando... Viajo pela primeira vez, em
muitos anos, à janela.Disseram-me que a aterragem em S. Miguel era uma vista
maravilhosa e imperdível. Arrisquei! De facto, quem me disse isso, não mentiu.
Sair das nuvens brancas com o céu azul e o oceano Atlântico imenso, e ver
aproximar a ilhade um verde incrível no meio do oceano... A formação da ilha é
lindíssima, diferente de tudo o que vi até hoje. Ver o mar agitado, uma luz incrível no meio do
Atlântico é indescritível. Ou aproveitava o momento ou tirava fotos. Optei pelo
primeiro. Por um segundo mais feliz. Do lado de cá o oceano, do lado de lá
Portugal. Apenas S. Miguel no meio do mar. Que vista incrível: Na estrada do aeroporto
para o centro de Ponta Delgada avista-se sempre o mar. O verde e o mar são
sempre a paisagem. Tudo ainda muito selvagem. O sotaque das pessoas é lindo.
Tudo ao seu ritmo, lento e demorado. Não há trânsito. Estou rendida. Aqui não
há pressa, só o momento.
Serra da Estrela
No primeiro fim de semana de Maio levamos os meus sobrinhos
à Serra da Estrela para ver a neve. Já a tinham visto via skype da janela a
cair cadentemente em NY. Os floquinhos, como eles diziam. A subida longa da
serra é lindíssima. Faz-se devagar. A natureza intocável no seu explendor. O
tempo é de praia e nós procuramos neve! Avista-se o pico da Serra. Neve nem
vê-la. Mas chegados ao topo, a neve está lá! Branca e brilhante à nossa espera.
A neve resiste à temperatura alta, estamos vestidos de verão, mas os meus
sobrinhos estão equipados como se fosse o pico do inverno. A Serra da Estrela continua
selvagem, deserta e imutável, como há anos atrás. Nada mudou, para o bem e para
o mal. As crianças transbordam de felicidade e reagem à surpresa de tocar na
neve pela primeira vez. Apresentações feitas, brincadeiras de trenó, bonecos de
neve, o dia acaba.Tempo de ir para o hotel onde um buffet nos espera. Os meus
sobrinhos deliram por poder escolher in
vivo o que comer.Hoje não há discussões, nem negociações, nem cedências
para comer. O meu sobrinho mais novo, sempre com a paranoia das chaves,
delicia-se com a chave do quarto. Hoje o seu objecto de adoração, deixa por um
fim de semana de ser a chave do carro, para ser a chave do quarto. Segundo ele,
agora quer ser “fechadeiro” quando for grande. Explico-lhe que esssa palavra
não existe, que no máximo poderá ser porteiro. Poderia começar com divagações
que não existe quem passe somente o dia a fechar e abrir portas de quartos...
deixo vivê-lo a sua ilusão de criança, aquilo que os anos nos encarregará de
fazer perder... outras conversas. Entre o abrir e fechar da porta
mecânicamente, alterna-se entre o nosso quarto e o dos avós. Segundo o meu
sobrinho mais velhos, “está muito feliz” e os “fins de semana do pai são sempre
novos”. Um dia explicarei o que tanto ele quer dizer com tão pucas e sentidas
palavras. Dia da mãe passado em Manteigas. Dia em família. Dia de 3 gerações
juntas e felizes. A Natureza cativa-nos. Jogos de futebol e passeios ocupam-nos
o dia. Tempo para regressar à realidade. A vida é feita de pequenos momentos de
felicidade. Sorte para quem tem oportunidade de os viver.
sexta-feira, 23 de maio de 2014
A melhor loja do mundo
Já conhecia há anos A
vida Portuguesa da Rua Anchieta, no Chiado. A primeira vez que lá
entrei adorei o conceito e a forma como o a loja foi renovada. Tudo nela era
bom gosto. Nos mais pequenos detalhes. Os embrulhos eram de não os querer
rasgar. Tudo ao pormenor. Adorei os aventais das pessoas que lá trabalhavam.
Emocionei-me por, pela primeira vez ver após a destruição da belíssima fábrica
em Braga, os sabonetes Confiança. As lágrimas quase me vieram aos
olhos quando vi um motoqueiro com a sua mota de plástico e alumínio e o táxi
verde e preto. Comprei ambos para os sobrinhos. Os dois preferiram a mota...
eu, até hoje, como conseguiram não destrui-lo, prefiro o táxi.
Alguns anos depois, abriu A vida
Portuguesa no Intendente. Voltar aquela zona depois de muitos anos foi
uma surpresa. Falo disso com mais detalhe aqui. Nesta loja tudo é mais! Mais
coisas, mais cor, mais escolha, “mais grande” (como dizem as crianças quando
estão a aprender a falar), mais bonita... e por aí fora. Logo à entrada queria
comprar tudo. Não fosse eu ter apenas 2 braços, estar sozinha e a mais 300 kms
de casa... Apaixonei-me logo pelas cadeiras de jardim. Imaginei-me
imediatamente na varanda a ler. À
entrada, um móvel até ao tecto com tudo o que se possa imaginar do Bordalo Pinheiro. Passa-se à parte dos
sabonetes de várias marcas, cheiros, cores da Confiança à Ach Brito. O
que se segue é todos os utensílios de cozinha em madeira e alumínio (?). E os
azulejos e louças Viúva de Lamego. As
louças, copos, bebidas de marcas tradicionais, os chocolates Arcádia e Regina, não podiam faltar. O
recanto dos brinquedos foi o que mais memórias me trouxe. O pião, a corda, as
cartas, as sebentas, tambores, os fogões em miniatura, tanta coisa. A loja continua no
andar de cima. Tapetes, carpetes, atoalhados, cobertores de lã. Botas. Mochilas,
malas e pastas da Ideal &Co.
Não conheço loja mais bonita e surpreendente. Assim como, não lhe
consigo encontrar comparações. Nada se compara a esta loja. Poderia dizer que a
Antropologie tem qualquer coisa de A vida portuguesa. Mas não. Esta loja é
única. Tradição, portugalidade, detalhe, bom gosto e memórias são o que fazem, em partes diferentes, esta loja. Mais do que para turistas, esta loja é para
portugueses. Só os portugueses a conseguirão compreender. E como se não
bastasse, as pessoas que nos atendem são para lá de simpáticas. Lojas assim (já)
não se fazem!
E pensar que esta loja nasceu de uma single mind. A Catarina (Portas) nasceu com vários dons. Tanto
talento numa pessoa só. Ousou arriscar em plena crise. Venceu o cinzentismo e o
pessimismo geral e remou contra a maré. Bom gosto, empreendedorismo, tradição e
memória. Quatro palavras que parecem ser o segredo. Ainda por cima partilhamos
uma querida amiga: chef Luísa Fernandes (Robert
–NYC).
E como se não bastasse, a Catarina escreve bem que dói! Eu ainda
andava no secundário e os artigos dela já me prendiam. Há uns anos tinha o
projecto do António Variações em mãos... Não sei o que lhe aconteceu. Mas para
nosso mal, nós é que perdemos. A única coisa que lamento do sucesso d’A vida portuguesa e dos quiosques de
refresco é ter-se “perdido” uma brilhante escritora e jornalista. De resto,
desejo-lhe muito futuro! Go, Catarina go!
quinta-feira, 22 de maio de 2014
35 anos depois
Ontem há 35 anos atrás, a minha mãe deu-nos à vida, a mim e ao meu irmão. 15 minutos separaram-nos. Nasci com 1600 g. Depois de um breve olhar, mal acabara de nascer, a minha mãe voltaria a pôr-me os olhos em cima apenas quando regressei a casa após 3 semanas na incubadora. A reacção da minha mãe perante aquele ser minúsculo, quase desconhecido foi virar-se para o meu pai: "Tens a certeza que não a trocaram?". Ao que o meu pai respondeu com toda a certeza: "Não, é mesmo ela. Está sempre a gritar!".
quarta-feira, 14 de maio de 2014
Benfica-Sevilha
Mais uma final, cinquenta e tal anos sem ganhar uma taça europeia, mais 120 minutos... para acabar tudo nos penáltis. No ano passado foi aos 92 minutos, este ano foi nos penáltis... Como dizia o meu querido avô: "Eles ganham sempre!".
segunda-feira, 5 de maio de 2014
O das Joanas
26 de Abril. Início da tarde. Não ia ao Largo do Intendente
há uns 10 anos. Está irreconhecível. Renovadíssimo. Típico. Limpo.Moderno.
Cosmopolita. Com algumas das mesmas pessoas de sempre. Miúdos a brincar.
Esplanadas. Música. Azulejos. Segurança total. Muitos polícias. Desde NY que
aprendi a querer ir onde são as melhores reviews.
Pois bem, desta vez: O das Joanas.
Não entrei. Limitei-me à esplanada. Arrependo-me. Quem me atendeu tratou-me na segunda pessoa.
Depois dos 30 simpatizo imediatamente com quem me trata assim!. Fiquei a tarde
toda. Li 100 páginas d’O último cabalista
de Lisboa. Tarde toda com a vista magnífica dos azulejos da fachada. Ouvi
as conversas das mesas à volta. Uns vinham da visita guiada pela Catarina Portas
à loja A vida Portuguesa, mesmo ao lado. Uma mesa
atrás de mim, com muitas imperiais. Aprendo novos calões. “Atão puto?”. “Estamos
a beber uma jolas”. “Ei, bro”. Toda a santa tarde os ouvi. Bem me apetecia as
imperiais deles... mas como era manhã para mim, já que tinha contado estrelas
enquanto o dia nascia...Fiquei-me pelo brunch,
o completo, não o low cost.
Assustei-me quando o vi. Tinha a tarde toda para não envergonhar ninguém. Dava
à vontade para duas pessoas. Escolha de bebida quente: galão. Escolha de sumo:
laranja (o do dia era manga/laranja). Não gosto de misturas...Cesto de vários
pães e croissant, que dava para quatro... Manteiga, doce de abóbora e de
morango. Taça de morangos. Queijo fresco. Prato de queijo e salpicão (ou seria
paio?).Fatia de bolo de laranja molhado. Só de ver este banquete. Restava-me a
tarde toda. Não acabei, claro está. Tudo muito bom! Eu é que ainda tinha memória
(e os estragos) dos melhores mojitos de Lisboa (Bairro Alto Hotel). Uma das
Joanas (a de óculos) tira-me a conta e, muito simpática, pergunta-me porque não comi o queijo
fresco, “é de ovelha mesmo”. “Não morro de amores” - respondi eu. Simpatizei com toda a gente naquela tarde.
Vale a pena, vão por mim!
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Caetano é foda!
Caetano subiu ao palco com apenas 15 minutos de atraso. Cabelo curtíssimo.
Camisa branca. Na estreia da tournée europeia, Coliseu cheio para o
ouvir. Público ecléctico: muita gente muito nova, adolescentes, gente da minha
idade, gente mais velha, gente de todas as idades. Cantou quase todas as canções do Abraçaço.
Do alinhamento constaram as mais antigas Coração
vagabundo e Eclipse oculto. Parco
em palavras mas com gestos de muito carinho e interacção com o público.
Perguntou se alguém festejava o aniversário e dedicou Parabéns
(“Tudo mega bom/ giga bom/ tera bom”), “a todos os que não falaram verdade
mas principalmente aqueles que falaram verdade”. Desceu duas vezes do palco e o
público correu para mais perto. As palavras são desnecessárias quando os
gestos, as acções e teatralidade são tudo. Deitou-se no chão e ainda em Homem ousou dizer, o que todos pensam
mas têm medo de falar: “Não tenho inveja da adiposidade/nem da menstruação/ só
tenho inveja da longevidade/ e dos orgasmos múltiplos”. Caetano mostrou, também,
que tem swing e que dança bem. De noite
na cama foi quando Caetano desapertou a camisa e ameaçou tirá-la. Um dos
momentos mais bonitos da noite, que deixou muita gente com o queixo na mão foi Estou triste: “Eu me sinto vazio e ainda
assim farto/Estou triste, tão triste/ E o lugar mais frio do Rio é o meu quarto
(...) Por que será que existe o que quer que seja/ O meu lábio não diz/ O meu
gesto não faz”. Esta música tão difícil em termos vocais, mostra que a idade
para Caetano é apenas um bálsamo. E para os que falam mal da Coca-Cola e dos
seus malefícios aqui têm um bom exemplo: Caetano é viciado nesta bebida! De
salientar que a idade só o beneficia, está cada vez mais grisalho e charmoso. Terminou com Reconvexo, a minha preferida. Escrita
propositadamente para Maria Bethânia e que cita Andy Warhol e Dona Canô, muito
aplaudida nesta parte. No primeiro encore as músicas foram: Nine out of ten, o tão esperado
Leãozinho, e Luz de Tieta. As luzes
acenderam e muitos sairam mas os mais insistentes e resistentes ficaram e Caetano
voltou. De braços abertos repetiu a dose. Já com quase todo o público, o mais
próximo possível do palco, Caetano terminou com Força estranha em uníssono. Caetano,
aos 71, mostra que antiguidade é posto e que teve Lisboa aos pés.
domingo, 27 de abril de 2014
Solar dos Presuntos
16 de Abril, quarta-feira à noite. Dia de Porto-Benfica para
a Taça de Portugal. A entrada do “Solar dos Presuntos” está repleta de pessoas.
Algumas têm mesa marcada, outras não. A espera é de meia-hora. Muito
amavelmente, Pedro Cardoso é quem recebe as pessoas. Já vi muita gente
simpática, mas tanta simpatia por metro quadrado e um serviço assim, foi a
primeira vez. À entrada está, também, um grande aquário com lagostas. As
paredes do restaurante estão cobertas por fotografias de gente conhecida. Gente
das artes, do espectáculo, futebol, música, política, portugueses e
estrangeiros. Gente da ciência não vi, mas é provável que por lá também
estejam.
Esperei cinco minutos e levaram-me à mesa, no terceiro piso.
O José Luís foi a pessoa responsável pela minha mesa. Mesa posta, um prato com
queijo de S. Jorge, presunto e paio. Um cesto de pão chega com diferentes
tipos. A minha atenção vai para a baguete acabada de sair do forno. Acho que
nem em Paris comi nenhuma tão boa. Como direcciono o meu apetite para a baguete
barrada com manteiga, não toco no presunto, queijo e paio. Tinha que fazer
escolhas pois o estômago não chega para tudo. Depois de uma vista rápida pela
ementa pergunto o que me sugerem. Carne ou peixe é a pergunta. Peixe, é a
resposta. Posta de cherne, peixe galo... mas estava inclinada para uma das
especialidades da casa: açorda de lavagante. O vinho que me trazem é “Carvalhos”
do Douro, também sugerido. Eu que não sou muito apreciadora dos vinhos do
Douro, fiquei rendida à combinação. Foi o vinho ideal para acompanhar o prato.
Restaurante completamente cheio. As três salas cheias. À
minha frente, um casal de japoneses não trocam uma palavra durante todo o
jantar. Devem estar a jogar “ao sério”. À minha volta vários casais e muitos
brasileiros. Os brasileiros são a população maior deste restaurante, pelo menos
nesta noite. Todas as pessoas responsáveis pelo serviço de mesa dominam vários
idiomas, são muito simpáticos e têm conhecimento de vinhos. As paredes deste
terceiro andar, fotos grandes de Amália e Rui de Carvalho, entre outros, e
muitas caricaturas.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
A Sentinela
A sentinela é o último livro de Richard Zimler. Como eu
disse ao autor, este e o anterior, “A ilha Teresa”, são diferentes de todos os
outros. A actualidade é que os distingue. O livro centra-se no personagem
principal, Henrique Monroe, inspector-chefe da PJ que é chamado para investigar
o homicídio de um importante construtor civil. Podemos classificar este livro
de policial porque há um crime e o autor é desconhecido, a dúvida e as pistas
persistem quase até ao final do livro. No entanto, este livro é muito mais que
um policial. Aborda várias questões como a violência e os problemas
psiquiátricos que daí advêm.
Henrique Monroe é um americano que sofreu de maus-tratos por
parte do pai, juntamente com a mãe e o irmão. Viviam os três aterrorizados. Passavam
o dia a esconder-se do pai para evitar as suas agressões. A mãe sofria de
depressão profunda e passava os dias sem se vestir. Monroe sofre de um
distúrbio psiquiátrico, transtorno dissociativo de personalidade, que toda a
gente desconhece, com a excepção do irmão, e que se manifesta no seu alter-ego,
Gabriel. Henrique e o irmão vivem com o medo permanente de o pai os descobrir
noutro país, após tantos anos. O que o medo faz. E aborda outra questão
importante, como o trauma na infância influencia os agredidos, mas estes
abominam a violência e a agressão. Há uma frase do personagem principal que
manifesta isso mesmo: “Não há dia em que não me preocupe com a possibilidade de
os meus filhos terem herdado de mim algum problema genético”.
Depois há a história da filha do homem assassinado, Sandi,
uma adolescente com problemas e que esconde um grande segredo. Juntamente com o
autor do homicídio, este é outro dos segredos para desvendar no decorrer do
livro. Quase até ao final do livro a dúvida e os segredos persistem. E o desenrolar do enredo é catártico.
A acção passa-se entre o Colorado e as ruas de Lisboa,
sempre magnificamente bem descritas.
Um livro duro de se ler e que nos faz revoltar muita vezes.
Mas tem de tudo, desde a descrição de como uma família rodeada de amor e unida
ultrapassa tudo. E mostra-nos como, apesar de infâncias terríveis que nos
podiam transformar em delinquentes ou até fazer com que não chegássemos à idade
adulta, podemos ser seres humanos que não querem replicar o mal que nos foi
feito. Uma luz no fundo do túnel é o que parece termos todos em comum quando
nascemos.
Benfica campeão
Sem poder deixar passar este feito em claro, escrevo um dia atrasada. Ao contrário do ano passado, em que a euforia foi mais imprudente do que os factos, este ano a vivência do título foi menor. Ontem não acreditava até ao final do jogo que seríamos campeões. Os meus sobrinhos festejaram mais do que eu. Não entrei em festejos citadinos. Na semana passada havia passado pelo Marquês de Pombal e já tinha visto gente a reservar o lugar. Este título foi doloroso após o ano horribilis em que podíamos ter ganho tudo, mas tudo perdemos em pouco mais de uma semana. Já que o país anda triste por causa da crise, haja estes pequenos momentos em que podemos explodir a nossa alegria, nem que seja por uns instantes. Passados esses momentos, o país é o mesmo e a realidade continua.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
A cool Vereadora de Lisboa: da investigação à política
Graça Fonseca. 42 anos. Vereadora da Câmara Municipal de
Lisboa para a Economia, Inovação, Modernização Administrativa e
Descentralização. Licenciou-se em Direito na
Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Foi assistente de investigação
do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, integrada no
Observatório Permanente da Justiça Portuguesa na área de direito de menores e
família, tendo aí concluído o mestrado em Sociologia do Direito.
Trabalhou aí com José Manuel Pureza, Boaventura Sousa Santos, João Pedroso e Maria Ioannis Baganha. Passou
pelo Brasil, Washington D.C. (Georgetown University), Coimbra e Cabo Verde. Infelizmente, a orientadora
Maria Ioannis Baganha, não viveu para vê-la defender a tese de doutoramento. Doutorou-se
em Sociologia pelo ISCTE-IUL em 2010. Dá um semestre de aulas, que é o que consegue.
Falou de acreditar no projecto de António Costa, que acompanha desde o Ministério
Justiça. Low profile. Pontalidade britânica, tão pouco portuguesa. Sem gravação
nem notas. Somente a cábula das perguntas estritamente programada para uma
hora, que por princípio cumpriria à regra. Como não sou jornalista nem para lá
caminho, a atrapalhação levou-me a começar pelo fim. Não posso ainda falar
daquilo que deu início à conversa, mas ao contrário daquilo que esperava,
aquela mentirinha piedosa tão portuguesa “vamos ver o que se pode fazer” ou
“talvez”. Não, nada disso, a resposta foi um sincero não. E eu aprecio isso nas
pessoas. Sinceridade. Um não é um não e passa-se à frente. Ninguém corta os
pulsos por isso. Os meus óculos haviam
ficado no táxi, valeu-me o tamanho da letra. Está cansada. Confidencia-me que o
dia começara cedo, às 8 da manhã. Passa pouco das 7 da tarde. Olhos muito
verdes. Aspecto de quem já aproveitou o sol de Lisboa ou a praia na tímida Primavera.
O cansaço só se nota nos bocejos. iPhone
em cima da mesa mas pouco ou nada olhou para ele, ou se o fez, não notei.
Também me pareceu nunca ter olhado para o relógio. Um caderno A5 da Emílio Braga, português, fechado, garrido, em tons de vermelho. Lá fora o céu de Lisboa, sem
vista para o Tejo. Mas a sala onde falamos já valeu a pena. Elogiei a sala.
Pouco funcional, nas palavras da própria. Enorme, como o rio, diria eu. A um canto, pendurada, uma portuguesíssima mala da Ideal&Co. Conversa informal. Uma hora au point.
Quando questionada sobre a razão pela qual mudou da academia para a política
respondeu que “quer marcar a diferença” e fazer várias coisas ao mesmo tempo.
Abraçar projectos e desafios. É isso que a move. Nunca se importou com cargos.
Isso não importa. Apetece fazer a analogia com o escritor que é a imagem de
Lisboa (ou será Lisboa a imagem do escritor?): “Não sou nada/ Nunca serei nada/
Não posso querer nada/ À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.
As palavras são sempre de optimismo, mesmo quando provocada. Diz que existem pessoas extraordinárias na política portuguesa.
E que há muitos “Miguel Relvas” em todos os quadrantes da sociedade. Não
insulta, não injuria, não há uma palavra amarga. Só boas palavras e optimismo.
Hoje é melhor que antes. Salienta que há coisas muito boas mas que os
portugueses gostam de exagerar o lado negativo. Fala claro e detalhadamente.
Quando lhe falo de cargos de nomeação e de confiança política, insurge-se
(pacificamente) e relembra-me que foi eleita. Não acredita que não haja
meritocracia, na maioria dos casos. Defende Portugal fervorosamente. Percebe-se
que é uma optimista, apesar das minhas provocações. É daquelas pessoas para as
quais o copo está sempre meio cheio e não meio vazio. Fala-me que quando era
criança havia racionamento de comida em Lisboa. Havia muito analfabetismo e a
maioria tinha a 4ª classe. Temos apenas 40 anos de democracia. As mudanças
demoram décadas a notarem-se. E de repente, estamos no séc XXI, somos da mesma
geração e temos ambas doutoramento. Fala com conhecimento de causa de todos os
projectos. Percebe-se o orgulho daquilo que ajudou e ajudará a construir.
Refere que há duas ou três start up que muito em breve vão dar que falar na
área das ciências. Falamos de mecenato e filantropia, coisa pouco comum em
Portugal. Quando, mais uma vez provocada, diz achar legítimo que as empresas
queiram algo em troca quando financiam projectos. São empresas. Nunca critica.
Levanta a questão de como podem as PMEs contratar doutorados quando a média da
escolaridade dos superiores é o 9º ano. Falamos do rio por onde partimos para
descobrir novos mundos. Da luz, do clima, dos museus, dos preços e das
condições únicas de Lisboa. Nunca há uma só resposta. As respostas são
demoradas e argumentativas. Soube há pouco tempo através da FLAD que Lisboa
ficava lugares abaixo do Azerbeijão1 no que respeita a estudantes
americanos escolherem cidades para estudar. Tentou inverter isso. Terminamos às
8, como combinado. Um jantar oficial esperava-a. Acompanhou-me à majestosa
escadaria com o “Coração Independente” da Joana Vasconcelos. Eis o retrato de
uma política que já foi investigadora. Sabe do que se fala quando se pronuncia a
sigla FCT e afins. É a antítese da opinião que a maioria dos portugueses têm
(infelizmente) em relação aos políticos. É também uma política que não se põe fora dos políticos e tem orgulho disso. Hajam muitas Graça Fonseca que só
dignificam a nobre causa política. Este é um texto sobre o que retive, o que
esqueci era acessório. O simples tão difícil.
1Exemplo ilustrativo
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| Copyright: Graça Fonseca |
quinta-feira, 10 de abril de 2014
Uma conversa com Richard Zimler
Richard Zimler chegou ligeiramente atrasado. Revelou que já
tinha estado em Braga mas nunca na Centésima Página. Sala cheia para o ouvir.
Prefere uma pequena introdução e pede perguntas. Eu comecei. Este último livro
“A sentinela”, tal como o anterior “Ilha Teresa” são bastante diferentes dos
outros porque são actuais. “A sentinela” mantém traços marcantes do autor: tem
um personagem que é americano e judeu e tem um personagem homossexual.
Pergunto-lhe pelo pai violento de Henry, que apesar de ser violento,
extremamente violento, não é um abusador sexual, tema tão actual. Eu não sabia
que o Richard Zimler teve um pai violento e que também maltratava a mãe
verbalmente. Falou longamente sobre isso. Como o pai queria que os filhos o
respeitassem e que não sabia a diferença entre respeito e medo. Falou de como a
mãe foi depressiva e se manteve em casa longe do mundo e que não se vestia.
Questionei-o também sobre o facto do cenário do livro ser em Lisboa. Porque não
no Porto que ele conhece tão bem? Como é que le descreve tão bem Lisboa, o
Chiado e afins não vivendo em Lisboa? Lisboa foi usado por ser uma cidade
apelativa. Começou por me dizerque não gosta dessa “guerra” entre Porto e
Lisboa. Mas que isso acontece entre San Francisco e L.A., por exemplo. Conhece
muito bem Lisboa e gosta muito da cidade. Passou algum tempo em casa de um
amigo na Rua do Vale, “daquelas ruas que têm roupa a secar e gatos” e que
também foi a cidade para onde o sogro se mudou. Lembra-se dos almoços e da casa
em Campo de Ourique.
A crise moral foi também longamente discutida. Deu o exemplo
do caso Madoff que foi julgado e condenado em 6 meses. Que em Portugal tudo
prescreve e que as pessoas não acreditam na justiça. Deu um exemplo de quando
acompanha “a minha cara-metade” a jantares de cientistas, onde a maioria não o
conhece e se limitam a ignorá-lo. E que já aconteceu pessoas posteriormente
reconhecê-lo como Richard Zimler, o escritor e lhe pedirem muitas desculpas por
não o terem tratado como tal.
Discutiu-se e foram muito elogiados os romances “A sétima
porta” e “Meia noite e o princípio do mundo”. Muitas pessoas muito
familiarizadas com a extensa obra do Richard. Foi muito emocionante ouvi-las
falar demoradamente de pequenos pormenores e de personagens que as tocaram.
Pessoas a citar frases, e mais do que isso, a considerarem que aquele livro é
um grande apoio. Não me lembro da última vez que ouvi coisas tão bonitas em tão
reduzido tempo.
Uma leitora que tinha lido todos os seus livros comentou que
quando leu “O último cabalista de Lisboa” se interrogou “O que faz um americano
judeu em Portugal?”.
Richard falou também que gosta muito de ser judeu e que até
brinca com isso mas que discorda totalmente de os judeus se considerarem o
“povo eleito” ou o “povo escolhido”. Falou também de grandes escritores judeus
como Primo Levi e Philip Roth. Mas também não deixou de criticar a política
externa norte-americana e a sua
ignorância que levou à morte de 2 milhões de vietnamitas e a repetição do mesmo
erro na invasão do Iraque. Elogiou o seu amigo Barack Obama e que não achava
possível um negro ser eleito como presidente dos Estados Unidos e como isso foi
um sonho concretizado.
Muitas mais coisas foram faladas, muitas palavras bem ditas, muita sinceridade nos elogios, muita sensibilidade dos leitores, muitas opiniões de fundo da alma, muitos sorrisos, muita partilha. Afinal para que servem os livros?
Muito obrigada, Richard!
segunda-feira, 7 de abril de 2014
A paranóia do meu sobrinho mais novo
O meu sobrinho mais novo (aka afilhado) tem uma paranóia que são as chaves dos carros. Quando conhece alguém ou quando alguém conhecido chega ao pé dele a primeira coisa que ele faz, depois de cumprimentar as pessoas, é perguntar a marca do carro para logo a seguir perguntar se lhe podem emprestar as chaves. Pois bem, a chave preferida dele antes de eu trocar de carro era a do meu velhinho Fiat Punto, que ele também considerava dele. Quando troquei de carro, ficou muito desgostoso porque ao contrário do primeiro, este em vez de ter uma chave tem um cartão. Tentei solucionar o problema colocando um porta-chaves de NY que pertencia ao meu velhinho carro. Parece que resultou. A primeira coisa que ele faz quando me vê, depois de um demorado abraço e de um beijo, é pedir as chaves (cartão) e moedas. Então ele torna-se um armazém ambulante. É ve-lo munido da sua fralda, chupeta, chaves e moedas. Desde os 2 anos que sabe todas as marcas de carros. Foi assim que aprendeu os números (através das matrículas) e as letras.
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