segunda-feira, 16 de novembro de 2015

13 de Novembro de 2015 – Os atentados em Paris

Na semana passada as discussões e os assuntos dos telejornais portugueses andaram à volta da queda do governo, da legitimidade do PS associado com o BE e CDU para ser governo e na tentativa de adivinhação de o PR daria ou não posse a um governo de esquerda.  E eu passei a semana a discutir com as pessoas próximas as notícias, passei a semana a irritar-me com pouco e até fui (injustamente) apelidada de ultra reaccionária!

Na sexta, depois de jantar em casa dos meus pais com os meus sobrinhos e o meu irmão, fui para casa e quando liguei a tv deparei-me com um cenário de horror. Não queria acreditar que tão perto, na Europa, na capital do país da liberdade, igualdade e fraternidade as imagens pareciam de filme. Há poucos dias tinha sido o avião da companhia aérea russa saído de Sharm El Sheik. E o atentado no Líbano. Sexta feira, 13, o inferno estava em Paris. O que meia dúzia de pessoas pode provocar na liberdade de cada um de nós. Não tenho respostas nem soluções. Só tenho muitas perguntas que provavelmente não têm respostas. Os terroristas que lançaram o terror em Paris e que morreram nas suas acções fizeram-no porquê? Não são refugiados, nem migrantes, nem emigrantes. São cidadãos europeus nascidos e criados em países democráticos e livres. Não culpem os refugiados que fogem do mesmo terror e que se sujeitam a morrer para encontrar a paz.


Como tudo muda muito de repente. Como relativizamos tudo perante o horror e a tragédia. Na semana passada discutíamos a maior ou menor legitimidade de partidos democráticos assumirem um governo democrático. E na sexta à noite choramos pela imensa tragédia. Pessoas livres numa sexta-feira à noite que só procuravam divertir-se e descontrair. Ainda me custa a acreditar que não esteja a sonhar. A verdade, é que não estamos seguros em lugar nenhum. E agora, ou vivemos com medo e deixamos de fazer a nossa vida normal ou reagimos e fazemos tudo aquilo que o EI nos quer proibir de fazer. Muita coisa terá de ser repensada pelos líderes mundiais e novas soluções têm de ser encontradas para esta nova forma de guerra. Nesta guerra sem nome não há regras. 




sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Paulo Cunha e Silva (1962-2015)

Passava pouco das 9 da manhã quando ouvi na Antena 1 a notícia da morte de Paulo Cunha e Silva. Morreu, subitamente, aos 53 anos de enfarte agudo do miocárdio. Saiu inesperadamente de cena. Uma árvore que morreu de pé. Uma grande pena. Deixa um enorme vazio. A perplexidade de todas as pessoas pelo desaparecimento de quem parte tão jovem. Um choque profundo. Angústia e dor. A vida, sempre imprevisível. Tão breve, neste caso. Mas com certeza que viveu cada segundo como nunca mais e a uma velocidade impressionante e difícil de acompanhar.

Médico (que nunca exerceu), Doutor pela Universidade do Porto, professor universitário, adido cultural, crítico de arte, programador cultural, Vereador da Câmara do Porto, amigo, irmão, tio, inesquecível. Passou a vida a cruzar as artes com todas as ciências. Sabia fazer ligações, sabia unir as pessoas em torno das causas em que se envolvia. Tinha uma grande capacidade de gerar consensos.

A unanimidade da descrição, de quem e como era, é reveladora: “um génio bom e generoso”, orgulhoso, lutador, criativo, empenhado, caustico, humano, conhecedor,  profundo, interior, sábio, feliz, confiante. Amigo, simpático, optimista. Único,  genial, ímpar, provocador, entusiasta, vibrante, insubstituível.

Tal como na vida, na morte, a estética não foi esquecida. O velório no Teatro Rivoli que ele devolveu à cidade e ao povo. Com a urna no centro do palco, iluminada apenas por uma luz ténue, e um piano. Ao fundo, uma fotografia gigante, recente de há duas semanas quando acabara de ser condecorado pelo governo francês.

Milhares de pessoas participaram nas cerimónias fúnebres. O funeral de Paulo Cunha e Silva reuniu uma massa impressionante de pessoas, que acompanhou o cortejo fúnebre entre o Teatro Municipal Rivoli e a igreja da Lapa. Uma dose extra de emoção, ao ser ovacionado longamente, em frente à Câmara Municipal. Os elogios fúnebres foram feitos por Rui Moreira, pelos sobrinhos e pelo companheiro Miguel.

Muitos recordam o muito que fez mas sobretudo têm pena daquilo que não teve tempo de fazer. É uma perda irreparável para o Porto e para o país. A cultura da cidade do Porto perde uma peça fundamental. Deixou uma cidade completamente diferente daquela que encontrou quando assumiu a Vereação da Cultura, com uma dinâmica incontrolável, esperemos que impossível de parar. As suas flores plantadas permanecerão. Como o próprio disse: “A maior forma de homenagearmos os autores e os artistas é mostrarmos a obra”.



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Uma noite na lua

Conhecia o Gregorio Duvivier do “Porta dos fundos” e do evento “Minha língua, minha pátria”, organizado pelo jornal Público em São Paulo, numa conversa com a Matilde Campilho. Ontem, quando fui ver “Uma noite na lua”, sabia apenas que era um monólogo. Nada mais. Chegámos em cima da hora e os nossos lugares eram na primeira fila. Começou pontualmente às 9:30. Tudo escuro e apenas fumo. Depois, a luz ilumina-o. Só isto. Ele vestido de fato, gravata, um sobretudo e um chapéu. E a luz. O cenário é só isto. Minimalista. E durante minutos a frase que ele mais repete é: “Sou um homem em cima do palco pensando”. Nestes minutos ouço muita gente a rir-se. E eu, entre a surpresa de ouvir risos e não perceber porque é que eu não tinha vontade de rir, comecei a achar que o defeito era meu. O resto, é uma interpretação incrível. Fenomenal. Magnífica. A iluminação e a interpretação são quase tudo nesta peça. O tema é tão simples como a luta para reconquistar uma mulher, a Berenice. E mais do que a vontade com que ficamos de nos apaixonar é a vontade de ser uma Berenice por quem este personagem é tão devoto. Que loucura é estar apaixonado e ser deixado. Que doença é essa que não nos larga, que só vemos o objecto de adoração. Tudo pára. Ou tudo parece parar. Nada importa. Só captar a atenção dela, a Berenice. Dudivier canta, dança, grita, deita-se no chão, imita o som do telefone e do aspirador e da música. E quando termina parece ter saído de um mergulho, embora não existisse água em palco. O cepticismo inicial e a surpresa dão lugar a um grande sorriso. Não acredito que alguém tenha saído defraudado. Mais que não seja que o amor é o grande veículo do mundo. Toda a gente sai de coração cheio.

Copyright: Gregorio Dudivier



sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O que correu mal?

Há um ano atrás ninguém, nem a pessoa mais ferrenha apoiante da coligação, do PSD ou do CDS acreditaria sequer numa vitória, nem tão pouco coagitaria uma maioria clara, absoluta, simpática, segura, certa, governável (ou qualquer outro adjectivo, a mesma palavra para dizer o mesmo).

Quando o António José Seguro ganhou (por pouco) as autárquicas e as europeias, toda a gente se levantou para dizer que não chegava. Num ambiente hostil, debaixo de um protectorado, sob as ordens da troika, mergulhados na mais alta taxa de desemprego que havia memória, dos muitos cortes de salários pensões e feriados, depois da irrevogável demissão de Portas, não ter uma vitória clara (por muito) era pouco. Este foi o motivo que levou António Costa a concorrer a secretário-geral do PS, a quebrar a sua promessa de ficar até ao fim na Câmara Municipal de Lisboa  e a afastar o António José Seguro que não conseguia descolar nas tendências de votos e mostrar uma unanimidade clara.

No mês de Agosto, estava eu em frente para ao Tejo, na Ribeira das Naus, e comentava com os meus pais que se o país conhecesse a governação de António Costa em Lisboa, o resultado das eleições seria diferente. Nesse dia eu diria que o mal do país era não conhecer Lisboa. E hoje digo que o mal de António Costa foi achar que o país era Lisboa. Não consigo encontrar “o” erro de António Costa ou do PS. Este problema, como mostram as intenções de voto no tempo de António José Seguro e agora com António Costa não tem a ver com “a pessoa” mas com o partido que não conseguiu convencer ou mobilizar as pessoas. O grande erro começa pelo fraquíssimo líder da bancada Ferro Rodrigues. Depois, apesar de o programa económico ter sido liderado pelo Professor Mário Centeno, mostrou-se com qualidades oratórias piores do que o outro académico Professor Vitor Gaspar. Depois, as diferenças abissais entre o pacífico Mário Centeno em confronto com o radical João Galamba. Depois, a história dos cartazes. Mais o erro colossal de dizer que chumbaria o orçamento de estado da coligação mesmo sem o conhecer. E hoje vem culminar com a aceitação da privatização da TAP autorizada pela Autoridade da concorrência, tendo António Costa dito que revogaria a privatização se chegasse ao governo.


E eu, que nunca votei no PS, com António Costa, e por ele ter escolhido para deputados pessoas que eu conheço pessoalmente e que muito estimo, tive a esperança um dia de mudar o meu sentido de voto. Mas como todas as utopias, não passam disso. E hoje, voltando à realidade, o meu voto está decidido. Hoje o meu apelo é: votem! Não fiquem em casa! Dignifiquem a democracia e exerçam esse poder soberano dos povos. Dizem que vai chover no domingo. A desculpa desta vez é a chuva. Às vezes é o sol. Quando se quer há sempre uma desculpa. Mostremos que somos uma maioria que escolhe e que a maioria não é a abstenção.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O que nos deveria envergonhar a todos, europeus

Já morriam às centenas, aos milhares, no anonimato do mar e da guerra. A Itália e a Grécia há muito que eram “invadidas” por pessoas que não esperavam muito mais do que escapar à morte. Até que um dia surge aquela imagem chocante de uma criança que saiu do anonimato e tem um nome: Aylan Kurdi. Quando vi, pela primeira vez, a imagem pensei que fosse uma montagem ou um boneco. A criança, apesar de morta, não tinha os braços pendentes. O que mostra que morrera há algum tempo, o que se chama em ciência rigor mortis. Durante noites seguidas sonhei com esta imagem. Essa imagem acordou o mundo. Se existe algo na vida que tente justificar uma morte em vão ou se existe algum sentido para a vida e para a morte, esta morte, serviu para acordar-nos. Não é que o mundo ou, especificamente a Europa, tenha mudado muito de atitude em termos políticos. Mas a sociedade civil mobilizou-se. E isso, faz-me ter um sopro de esperança na humanidade. Mas com os exemplos de humanidade, arrasta-se aquilo que só os humanos são capazes de ter:  fobia e ódio.  Quando leio e ouço argumentos que devíamos era tratar bem os nossos pobres, desempregados e sem-abrigo em vez de acolher estas pessoas que fogem da guerra... Tenho lido cada argumento absurdo: fazer referendos na Europa se sim ou não à aceitação de refugiados (esta gente nem deve perceber o mínimo de leis quanto ao estatuto de refugiado ou de asilado) que devíamos era trazer os sem-abrigo para dentro de casa (como se a situação fosse comparável); que os terroristas estão infiltrados no meio dos refugiados ( como se os terroristas se sujeitassem a andar dias e dias a pé, debaixo de sol e chuva, a atravessar o mar em “cascas de banana”, quando de facto podem apanhar um avião); os refugiados são todos terroristas (como se a maioria dos atentados ocorridos no mundo fossem efectuados por estrangeiros... a maioria dos atentados foram feitos por cidadãos do próprio país do atentado).

A Hungria construiu um muro à la Berlim em pleno séc XXI. Um país europeu dentro da União Europeia (UE). Como é possível terem permitido isto? Não percebo como é que a UE permite sem haver sanções. Não percebo a razão de fecharem uma fronteira que é apenas de passagem porque ninguém quer ficar num país xenófobo e racista. E ainda por cima ameaçam “castigar” quem dê abrigo a refugiados dentro das próprias casas e aprovaram leis que permitem disparar contra os refugiados caso a situação se proporcione. Relembro a migração dos húngaros no final dos anos 50 e em 89 quando a cortina de ferro estava prestes a cair. A memória da humanidade é tão curta...

Os países que votaram contra o plano de distribuição voluntária de refugiados são aqueles que já passaram pelo mesmo e que não aprenderam nada com isso: Eslováquia, Roménia, República Checa e Hungria... Pena que a UE não tenha coragem de sancionar estes países... A UE mostra não ter qualquer poder para fazer cumprir os acordos. As Nações Unidas fecham-se num manto de silêncio, não fora o Alto-Comissário para os Refugiados, que tem sido a voz mais activa a defender atitudes e soluções por parte da Europa.


E depois, para mostrar que o mundo se pode mudar devagarinho, surgem acções da sociedade civil que nos comovem: Aylan Kurdi Caravan. Muitos voluntários responderam ao apelo e juntaram-se para preparar toneladas de comida, medicamentos, roupa que foram organizados durante alguns dias e transportados até à Croácia por 3 camiões. Soube desta iniciativa da sociedade civil por intermédio da Graça Fonseca, Vereadora da Câmara Minicipal de Lisboa, que também apoiou a iniciativa. Num tempo de campanha eleitoral em que os candidatos falam em números e estatísticas, como tem de ser, o que distingue muitas vezes as candidaturas são as pessoas que delas fazem parte. Com pessoas assim na política activa, a sociedade, e consequentemente, o mundo, seria melhor.

Eu, que na minha inocência utópica achava não mais ser possível uma xenofobia ao nível da Segunda guerra Mundial ou da Guerra dos Balcãs, assisto impotente a esta fobia pelos refugiados. Aconselho a todos (as) a leitura da obra do Primo Levi para perceber que a qualquer altura poderemos ser o alvo a abater. Seja qual for a nossa cor, raça, formação ou nacionalidade. Só entenderemos isso quando aquela máxima “put yourself in our shoes” nos tocar. Até lá, não seremos “nós” mas apenas “os outros”.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Lakkana, restaurante tailandês

4 de Julho. Dia da independência dos Estados Unidos. O dia estava lindo. Daqueles dias de sol não excessivamente quentes. Antes do jantar bebemos um martini no Convento do Carmo. Dia de clubbing. Há muito tempo tínhamos este jantar marcado. Muitas vezes adiado. Destino: Lakkana. O primeiro e único restaurante tailandês de Braga. Tentamos várias vezes jantar lá. Nunca conseguimos uma reserva ao fim de semana porque à boa moda portuguesa tentávamos marcar em cima da hora. Desta vez éramos duas. Arriscamos a nossa sorte. O restaurante fica numa rua estreita que vai dar à Sé. Mesmo ao lado do Pedro Remy. As indicações e as opiniões dos que tinham lá ido antes eram muito boas. Quando entramos foi-nos perguntado se tínhamos reserva. Não. Mesmo assim indicaram-nos as escadas.Um balcão com um bar à entrada do lado direito. A cozinha em frente. As escadas a seguir. Ficamos no primeiro andar. Quem nos atende parece um velho conhecido. Entrega-nos o menu. É-nos dado algum tempo. Volta e pergunta-nos se conhecemos a comida tailandesa. Explica-nos os pratos. Aconselha-nos. Questiona-nos sobre a nossa tolerância ao picante. Aconselha-nos o vinho que vai bem com a comida que escolhemos. Eis as nossas escolhas: crepes vegetarianos de entrada, um prato de camarão com leite de coco e que ´´e picante, e o incontornável pad thai. O vinho sugerido foi um rosé, até aí desconhecido para nós, Beyra. Uma escolha acertada. Os crepes de entrada com um molho doce estavam excelentes na textura, frescura e combinação com o molho doce que os acompanhava. O prato picante de camarão com leite de coco e acompanhado por arroz basmati foi o que me ficou na memória e que até hoje me faz querer sempre repetir a experiência. O que posso dizer? Era picante, sim. Tinha malaguetas cortadas em fatias finas. Os camarões abundantes e grandes mergulhados naquele laranja. A experiência é intensa. Dá vontade de repetir mas o picante obriga-nos a fazer uma pausa para um cigarro. E voltar novamente. O pad thai é melhor do que o que eu já havia provado. A comida é abundante. Duas pessoas não conseguem acabar os pratos. Não conseguimos aventurar-nos pelas sobremesas. Apesar de amigos nos terem aconselhado o arroz doce com manga. Neste dia, não deu para mais. Demasiado cheias. Dois cafés, para finalizar.

Nota final: Restaurante altamente recomendado. Uma excelente experiência cosmopolita  numa cidade tradicional como Braga.

O melhor: A simpatia dos donos do restaurante. A qualidade da comida, verdadeiramente tailandesa, e cozinhada por uma nativa. Melhor seria impossível. O preço absolutamente justo. A repetir, muitas vezes.





Copyright: Braga Cool

sábado, 25 de julho de 2015

A minha primeira arguência num júri de Doutoramento

Domingo, fim da tarde. Aeroporto. Subo para o avião. O Eduardo Souto de Moura senta-se ao meu lado. Não é todos os dias que se tem um dos prémios Pritzker ao nosso lado. Quero falar-lhe mas, como sempre, não tenho coragem. Quero pedir-lhe que me assine alguma coisa já que o seu talento está na mão. Até podia assinar uma das folhas do livro que estava a ler já que só tinha isso e a tese de doutoramento que ia arguir. Nem isso consigo pedir-lhe. [Na semana seguinte saiu uma entrevista brilhante dele feita pela Anabela Mota Ribeiro.  Percebe-se que é uma pessoa extraordinária, engraçada e culta. Que de tantas outras coisas disse para que serve lamber pedras e desenhar a sensação e “eu penso desenhando”. Percebi nos 50 mins de voo que os gordos são realmente bem dispostos e que sabem aproveitar todos os prazeres da vida. Ignorando a sua condição de estae bem acima do peso ainda pediu uns amendoins. 

Chegada a Faro tinha a J. e a M. à minha espera. Noite quente e abafada. Das boas, como só os verões no Algarve, sabem ser. Chego ao hotel já passa das 11 da noite. Não tem cama de casal. Não tem muitas tomadas. A internet não funciona. Mas pelo menos tem tv e muitos canais. Adormeço com a tv ligada e rendo-me aos encantos do A/C que só admito para dormir. [As pessoas que me conhecem sabem os problemas que tenho com o A/C. No trabalho visto-me como se não fosse verão devido a esse atentado à condição humana. Adoro calor e as estações quentes. Nasci no país errado. Ao contrário da maioria das pessoas, adoro o verão quentíssimo de NY e Houston com uma humidade a beirar o insuportável. O único problema do calor é mesmo na hora de dormir porque no resto foi a melhor invenção do universo].
Acordo relativamente tarde para o habitual. Mas ainda a tempo do pequeno-almoço que tenho direito. Dou uma olhadela às perguntas que vou fazer na defesa da tese. Ao meio-dia faço check-out e chamam-me um táxi. Tenho almoço marcado com o júri ao meio dia e meia. Telefonam-me e estou ligeiramente atrasada, presa no trânsito. Como se em Faro houvesse trânsito. Almoçamos no restaurante vip da Universidade do Algarve, que de vip apenas tem o nome. Apenas duas escolhas para o almoço: robalo no forno e bife de cebolada. Quando chega o peixe à minha frente era o verdadeiro atentado. A simplicidade do robalo assassinada...mergulhado num molho de pimentos e cebola que estragou tudo. Durante o almoço falamos da revolução francesa e das invasões francesas em Portugal. 
Pouco antes das duas, saímos em direcção ao anfiteatro onde seria a defesa. Vestimos as becas, cada qual da sua universidade. Eu, como não tenho, requisitei uma emprestada. A defesa começou atrasada porque não abriram o anfiteatro a horas. Depois houve o problema com a apresentação que é sempre o que acontece a quem tem um Mac...demora sempre mais tempo. Mesmo assim, a candidata apresentou muito bem, como se este atores inicial não a afectasse. E eu sentada, desta vez do outro lado, lembro-me do dia da minha defesa. Foi dos piores dias da minha vida. Para além de tudo o que representou para mim, o primeiro arguente não passou da página 7. Até que a muitos dos meus amigos ainda brincam com uma das perguntas que me fizeram: "O que mudaria na sua tese?" E a resposta é: "A página 7!".
O primeiro arguente da tese da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra era um gentleman, extremamente delicado, educado e cuidadoso. Organizadíssimo. Tinha a intervenção toda escrita, os cumprimentos, os comentários, e aproximadamente 20 perguntas. Tudo no seu Mac imaculadamente organizado. Entrei imediatamente em pânico. Eu era o oposto. Levei meia dúzia de folhas (americanas) amarelas. Tudo rasurado e corrigido. riscos e mais riscos. Correcções e adições a esferográfica e lápis. Tudo desastrosamente desorganizado. O pior de se ser a segunda arguente é muitos dos comentários e perguntas terem sido já feitos pelo anterior. Mas eu, que até sou muito mais crítica comigo do que com os outros, acho q a minha intervenção correu bem. A verdade, como sempre acontece nestas coisas, é que perdi a noção do tempo. Depois ainda se seguiram as intervenções da professora da Faculdade de Medicina da Universidade Nova de Lisboa, do Professor da Universidade do Algarve, da orientadora e da Presidente do Júri. Foi a primeira aluna de Doutoramento da G. Um marco, portanto. Dizem que a primeira de cada coisa na vida não se esquece. E terminou com Muito bom por unanimidade com distinção é louvor.
Depois, ainda houve tempo para ir á esplanada mesmo em cima da praia da ilha de Faro para beber uma imperial. Tudo aqui é perfeito. O sol, a vista, a praia, o calor, a cor. O pior é o atendimento. Os algarvios parece terem um talento nato para não serem simpáticos. Tudo parece ser feito por favor é obrigação. Esta miúda loira, que até é gira, e que me calha sempre na rifa sempre que vou a este bar, fica sem beleza nenhuma devido à atitude. Para a próxima vou dizer-lhe que quero ser atendida por outra pessoa. Já passa das 7 quando saímos da praia rumo ao aeroporto para me deixarem. Tenho voo às 8:15. Chego ao aeroporto às 7:15. Ando a passo apressado em direcção à segurança. Respiro de alívio quando vejo que a fila não é muita. Mas como na minha vida há sempre um episódio para contar, eis que me aparece um cromo à frente que leva uma mala de mão e dois sacos transparentes cheios de líquidos. O homem na sua inocência achou que estava a cumprir com tudo porque mostrou os dois sacos transparentes cheios de líquidos, a achar que não estava a cometer nenhuma irregularidade. Mas estava. De há uns tempos para cá só é permitido um saco transparente de líquidos que não ultrapasse cada frasco os 100 ml. Eu aprendi isto quando há uns tempos me ficaram com um frasco de perfume quase cheio cujo valor era superior a 70 dólares. Aprendi a lição e nunca mais mostrei o saco transparente. E a partir daí nunca mais ninguém me descobriu os líquidos que transportam na mala. O que só revela como funcionam bem os aeroportos portugueses. Obviamente, nos aeroportos americanos nunca me atrevi a testar esta situação. Mas a verdade é que em 2006 levei comigo na mochila um frasco de biovidro para os EUA que macroscopicamente é igual a muita coisa ilegal. Adiante, o senhor que estava à minha frente refilava bem alto que podia levar os dois sacos repletos de líquidos porque o tinham deixado passar em todos os aeroportos... E blá blá.... O problema é que eu tinha um avião para apanhar e as portas fechavam às 7:45. E a discussão já durava há 10 minutos. E eu q não queria perder o voo virei-me para a segurança e disse-lhe "não podem resolver este problema mais rápido. Estou aqui há 15 minutos". E ela com a atitude de quem acha que tem autoridade nestas situações diz-me que não estou ali há 15 minutos, talvez uns 10 a exagerar.  E começamos ali numa discussão. Ao que ela me pergunta: "quer ensinar-me a fazer o meu trabalho?". Frase que ela me disse! Se soubesse fazer o trabalho dela não demorava 10 minutos a resolver o problema dos sacos. Ou deixava o homem passar ou os tirava. É isso não demorava 10 minutos. E eu que levava líquidos na mochila, mas nunca assumo que os levo, coloco o iPad fora da mochila e fazem-me a derradeira pergunta: "tem líquidos?". E eu respondo convictamente que não. Mas a imaginar que vai ser destaque me vão apanhar e que vou passar a vergonha da minha vida. Espero a mochila do outro lado e não descobrem nada. Tiro o saco da mochila com líquidos e digo para a que me disse se queria que eu a ensinasse a fazer o trabalho dela: "trabalho bem feito, não?". E continuo. Já estão a chamar pelo meu nome quando vejo o Eduardo Souto de Moura. Aí respiro fundo e sigo-o. Já não vou perder avião nenhum porque ele vai no mesmo que eu!

terça-feira, 21 de julho de 2015

São Paulo, por mim

Tinha muita curiosidade. Queria ver como era. E queria ver como era de perto. Dizem que São Paulo não tem horizonte só fila de trânsito. A eterna selva de pedra. E o muito do que vi em São Paulo foi pela janela do táxi.


Há qualquer coisa que senti em São Paulo que parece semelhante ao apartheid ou ao fantasma mal resolvido da colonização. A subserviência do funcionário em relação ao cliente que nunca vi em lugar nenhum do mundo, a arrogância da elite, a forma displicente com que se dirigem aos funcionários  a quem chamam de “moço”. Os clientes nos restaurantes não agradecem nem pedem desculpa. A diferença de tratamento entre classes é gritante.  Mais do que racismo, xenofobia, homofobia, o que eu vi em São Paulo foi classismo. Nem sei se essa palavra existe. Nos shoppings que entrei (Morumbi e Market Place) só vi brancos com excepção dos funcionários, o mesmo no restaurante onde jantamos. Roupa branca, pelo que percebi, é sinónimo de subalterno, farda para babá, diarista, faxineira...Não vi ninguém da dita classe alta com óculos. E na minha inocência achei que todos em São Paulo veriam bem. Contudo, explicaram-me que não. Nem todos vêem bem, como é óbvio. A elite e a alta burguesia ou usa lentes ou são operados! E os que nem condições têm para comprar óculos tem a triste sina de ver mal. Em que outra cidade do mundo existe elevador social  e elevador de serviço nos prédios? Em que outra cidade do mundo é mais barato ter uma faxineira e/ou uma diarista em vez de ter máquina de lavar roupa e máquina de lavar louça? Outra coisa que estranhei: ninguém usa cabelo encaracolado. Numa cidade de um país em que a mistura de raças é a característica e a regra, não ver ninguém de cabelo encaracolado, surpreendeu-me. Toda a gente tem o cabelo impecavelmente liso. Cadê o black power? Este subdesenvolvimento social que observei em São Paulo disseram-me que, felizmente, não é generalizado a outras cidades do Brasil.

Para o dinheiro dos portugueses andar de táxi é barato. Uma ida do nosso hotel no Morumbi até à Avenida Paulista não ultrapassa os 35 reais. Mas fomos veemente aconselhados a não andar de onibus nem de metrô. Apesar destes transportes serem rejeitados pela burguesia paulista, mas ser o transporte democrático e de todos em NY, em que neste transporte não existem ricos nem pobres, brancos, pretos, hispânicos, asiáticos, bonitos e feios, em São Paulo é um diferenciador social. Como em São Paulo não se anda a pé, ciclovias quase não existem, a elite, alta burguesia e a classe média têm helicópteros e carros, quem anda de transporte público? A esta pergunta até os meus sobrinhos de 6 anos respondem. Triste realidade esta.

E se houve coisas que gostei realmente em São Paulo, como a arquitectura, as muitas livrarias, os preços dos livros e dos CD’s, a boa comida, as frutas, os sucos, o clima primaveril do inverno paulista, o Parque Ibirapuera... Não me consigo acostumar com os prédios cercados de grades, às vezes duplas, e com arame farpado electrificado...  Um mundo onde ricos e pobres não se misturam, um mundo em que a identidade é a miscigenação e as pessoas têm falta desse orgulho, há com certeza muito a fazer. E a primeira delas é os brasileiros aprenderem a ter orgulho na sua identidade.

Tenho o maior respeito pelo Brasil e sempre tive admiração e algumas das suas cidades foram algumas das que sempre quis conhecer em todo o mundo. Cresci e vivi  com os livros de Machado de Assis, Clarice Lispector, Jorge Amado, Vinícius, João Cabral, Manuel Bandeira, Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Ferreira Gullar, Caio Fernando de Abreu, Eucanaã Ferraz. Só oiço música dos brasileiros João Gilberto, Tom, Vinícius, Caetano, Maria Bethânia, Gal Costa, Marisa Monte, Adriana Calcanhotto. Os grandes arquitectos que deixaram marcas na cidade como Lina Bo Bardi (SESC Pompeia, MASP), Paulo Mendes da Rocha (Museu Brasileiro de Escultura, reforma da Pinacoteca do Estado de São Paulo, reforma da Estação da Luz e Museu da Língua Portuguesa),  e Oscar Niemeyer (Parque Ibirapuera, Edifício Copan, Memorial da América Latina). A pintora Tarsila do Amaral, Cândido Portinari...  e chegar a São Paulo e ver esta realidade foi como uma bofetada na cara. Como se o Brasil que me foi dado a conhecer nos livros não existisse (mais) e fosse (apenas) ficção.

Confesso que fiquei até admirada que numa cidade em que as diferenças de classe são tão gritantes e tão fenotipicamente visíveis, a violência não seja (ainda) maior. Como explicar que alguém que vem do Nordeste está fadado à sua sina de excluído da sociedade, pobre, nordestino e que nunca  ascenderá socialmente? São Paulo parece ainda feudal e socialmente parece não ter saído do tempo do colonialismo.

Que cidade é esta?


quinta-feira, 16 de julho de 2015

Para a M., um abraço apertado e gigante

Quando conheci uma das minhas melhores amigas detestei-a. Tínhamos amigas em comum. Uns meses mais tarde, as circunstâncias da vida  juntaram-nos. Sozinhas, do outro lado do mundo, ajudei-a, ouvindo-a. E nunca mais nos largamos. Uns anos mais tarde, do lado oposto do mundo, salvou-me a vida duas vezes. Estes milagres não acontecem sempre mas estão sempre à espreita para acontecerem.  Quero com este exemplo dizer que tenho amigos improváveis. Sendo eu uma pessoa difícil, e que gosta pouco de muitas pessoas, os amigos são aqueles a quem eu dei uma hipótese.

Esta amiga é mais distante. Falamos poucas vezes. Geralmente por emails sucintos, resumidos, bem escritos e curtos, como a vida.  Esta minha amiga tem duas das coisas que mais admiro: escreve maravilhosamente bem e tem um amor imensurável pelos sobrinhos. Acho que foi isso que me aproximou dela. Para além de outras coisas, isso é o que mais admiro nela. No resto, partilhamos a timidez. Chegada a casa de mais uma viagem, leio a confirmação daquilo que andava desconfiada há uns tempos mas não tive coragem de abordar. A minha cobardia de sempre. A má notícia vinha em forma de um texto lindíssimo em que fazia a incrível analogia da morte de uma estrela com o término de uma relação longa. E só ela para escrever sobre qualquer coisa de forma tão sublime.

M., desculpa expor-te assim, mas se um amor como o vosso sucumbiu após 10 anos... a esperança fica curta... Dizem que a melhor literatura nasce na dor. E nem imagino o sofrimento ao escreveres estas palavras que são um soco no estômago, de tão reais: “...Que morte linda a nossa, meu amor. Que história mais sublime essa que escrevemos. Quantas coisas e casas e pessoas e dores e amores dividimos. Como fomos felizes e como existimos (...) Tudo o que sei é que foram os melhores anos da minha vida...”.

E eu, especialmente hoje, não consigo não estar triste. Tens-me aqui para te ajudar a levantar, quando conseguires. Espero que te consigas encontrar, no menor espaço de tempo possível, sem o teu amor. A questão chave é: como se renasce depois da chama apagar? Mas depois penso: a humanidade tem futuro. Porque existem pessoas que se respeitam e admiram mesmo depois que uma relação acaba. Que não esquecem um minuto, que não apagam, que se reconstroem e reinventam. Não como um fim. Mas como um renascimento. Um dia olharão para trás e conseguirão sorrir, quem sabe, sem chorar.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Terceiro e último dia em São Paulo

Depois das caipirinhas e dos chopes resolvemos ir para o hotel sem ir para a verdadeira balada. Combinamos ir de manhã ao centro de São Paulo que incluiria a catedral e comer uma sandes de mortadela. Acordo, como sempre às 6:30, sem despertador. Acordo de ressaca. A cabeça doi-me e vejo que bebi todas as águas minerais que tinha no quarto. Volto para a cama mas percebo que não consigo voltar a dormir. Daí a pouco tenho o L. a bater-me à porta. Doi-lhe a cabeça mas pelo menos não está enjoado. Depois do banho descemos para o pequeno-almoço. Esqueço-me dos óculos de sol para ofuscar a claridade. E devo ter escrito na testa “ressaca” porque toda a gente me olha. Desta vez não consigo comer mais nada a não ser frutas e mesmo estas são comidas a custo. O suco é de ananás e o café é sem leite. Como só temos tranfer para o aeroporto às 12:30 resolvemos ir ao Parque Ibirapuera, o grande parque urbano de São Paulo idealizado por Oscar Niemeyer e Burle Marx. Subimos para o quarto e tenho cinco minutos para fazer a mala. Atiro tudo. Sem ordem e sem arrumação. As dezenas de livros que comprei, felizmente, cabem todos na mala (quase) vazia que levei.




Chamamos um táxi à entrada do hotel. O taxista tem uns óculos Ray Ban na cabeça e é o mais falador que encontramos nestes dias. No caminho vai servindo de guia turístico. Passamos por uma ponte, que pelos vistos é um viaduto, que deveria ter sido concluído para a Copa mas agora a sua conclusão será (na melhor das hipóteses) em 2018. Por conta disto, conta-nos a história do engenheiro desta obra que foi morto (juntamente com a mulher) pela filha à paulada para ficar com a herança. E a filha não tinha mais do que 18 anos.  Depois disto refere um outro crime, o de uma mulher que matou o marido de origem japonesa e que o desmembrou. Ela que era uma ex-prostituta e que após descobrir que o marido, mesmo depois de casado, continuava com o mesmo vício matou-o. E destas histórias falou-nos das presões brasileiras e de como se as pessoas que assumissem relações dentro das cadeias tinham outras regalias. E aí introduziu-nos na gíria brasileira de viados e sapatões. Fala-nos que ali havia uma favela que foi destruída mas ainda sobram alguns vestígios. Aquilo que se vê na tv e que é o estereótipo: mulheres com filhos no colo nos caminhos ou à entrada das portas e rapazes de chinelo no pé, calção e boné de basket e manga cavada. Fala-nos muito mal do Lula e de como ele mesmo com cancer não morre “Quando toda a gente quer que ele morra”. Eu que achava que o PT era o partido dos trabalhadores e dos desfavorecidos parece-me que tenho à frente um militante do PSDB mesmo sem nunca o ter referido abertamente. Passámos por uma das avenidas que atravessa São paulo, junto do aeroporto de Congonhas. O monumento das vítimas do avião que se despenhou vindo de Campinas e que teve mais de 200 vítimas fica do nosso lado esquerdo. Aqui, ele diz-nos que é bisneto de um português de Almeirim.  Numa manhã de sábado sem trânsito, chegamos ao Parque Ibirapuera, depois de acharmos que ele foi dar uma volta maior do que a que seria necessária. Mas pelo menos contou-nos histórias, foi simpático e conhecemos as estradas de São Paulo.
Chegados ao Parque Ibirapera percebemos o tamanho gigantesco. Tem a bienal, o Museu de Arte Moderna, imensa gente e um lago (o único que vimos). As pistas de bicicletas e de corrida estão inundadas de gente. Existem barracas que vendem cocos. Não perco a oportunidade. Nunca provei e lembro-me dos milagres e dos benefícios que a água de coco terá para a ressaca. Peço um coco e perguntam-me se quero na garrafa ou o coco. Claro que quero o coco, de preferência levá-lo comigo para Portugal. Dizem-me que não, que não posso sair dali com o coco e até me apontam para umas cadeirinhas. Tudo em nome de questões ambientais! O coco não o posso levar comigo mas as garrafas de plástico, que é o maior veneno da humanidade, estão ali à disposição de quem quiser poluir. Mas o coco não. O coco, para meu desgosto, terá que ficar. Agora lembro-me que vi escrito que um coco custava 4 reais mas para mim disseram-me que eram 5... Só me lembro disto agora. Teria dado 5 mesmo que me tivessem cobrado 4... e percebo a maravilha de se ser turista em qualquer parte do mundo. Muita gente corre, muita gente caminha. Bicicletas. Carrinhos de bebé. Skates. Muitos noivos tiram fotos. Vemos uma festa de Doentes de Pompe. Nem de propósito. Uma menina tem um cartaz escrito “free hugs”. Quando falamos com ela responde-nos em inglês apesar de falarmos com ela em português. Continuamos até ao lago gigante. De um lado avista-se os prédios enormes de São Paulo ao fundo e do outro a fauna e a flora brasileira. Os trópicos no seu melhor. O tempo não dá para mais e voltamos para encontrar um táxi.







Pela janela do táxi despedimo-nos de São Paulo. As últimas ruas. Cruzamos com ruas com o nome Portugal, California... O dia está lindo. O taxista parece um saxofonista ou um pastor americano. Está de fato e gravata e chapéu. Tem um perfume tão forte que misturado com a minha ressaca faz-me querer (ainda mais) vomitar. No regresso para Guarulhos percebemos que existem pessoas a morar por baixo dos viadutos. Vemos algumas favelas e vejo novamente o Rio Pinheiros que parece um esgoto a céu aberto. Tem cor de petróleo e não tem corrente. Parece um rio morto. Uma cidade que não cuida da sua natureza e do ambiente, não pode querer ser uma cidade evoluída.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Segundo dia em São Paulo

O dia começa outra vez antes de o alarme tocar. Ainda não são 6:30. O dia nasce. Começa a clarear. A tv está ligada. O assunto principal é a morte de um cantor sertanejo que morreu de acidente de viação. A importância que todos os canais brasileiros dão a um cantor cujos versos de uma música são “Bara bara bara bere bere bere”, que eu nunca ouvi falar, deixa-me boquiaberta.
A manhã segue com palestras. Se ainda não tinha percebido, comprovo que a língua que se fala no Brasil é realmente diferente. Aprendo novas palavras a cada hora: experimento, peritóneo, acumúlo, escalonamento, coletar, liberado... Custa-me tanto constatar, também, que a ciência que se faz no Brasil está a anos luz daquela que eu conheço. Senti-me quase sempre numa aula do secundário em vez de estar num congresso internacional. E perceber que os investigadores, médicos e cientistas brasileiros não falam inglês deixou-me envergonhada e triste, para não dizer pior. Perceber que o estereótipo que se tem generalizado é de facto verdade, custa. Queria não ter razão.

À tarde ainda tivemos tempo de ir ao Morumbi Shopping. Mais duas livrarias e mais alguns livros: Saraiva e FNAC. Depois escolhemos ir à Avenida Paulista. O ambiente e a realidade das cidades conhecem-se nas ruas. Se não tínhamos quase tempo nenhum, a minha condição, para além das livrarias, era ver pessoalmente alguma obra da Lina Bo Bardi. Nada melhor que o MASP (Museu de Arte Moderna de São Paulo). Esse era o destino. Táxi até lá. O taxista já era melhor que os primeiros. Passamos pelo shopping JK Iguatemi, sumptuoso, gigante, soberbo, brilhante. Trânsito. Ruas desertas de pessoas. Trânsito caótico. As pessoas parecem não caminhar nelas. Não se avistam bicicletas. Os carros param no sinal vermelho. Vidros escuros em todos os carros. Todos os edifícios, casas, prédios estão rodeados de grades, por vezes duplas. Arame farpado e electrizado. Que choque. Que contraste. Achava que isto era mito. Não. É mesmo assim. Só passamos por bairros nobres. Prédios e mais prédios. Porteiros. Motos. Motorboys. As árvores são tropicais. Tudo é gigante. A sensação eminente de perigo ou de insegurança é nula. Mas não se vê polícia. Hospital Sírio-Libanês.  Parque Trianon. MASP. Chegamos. Edifício vermelho-sangue e cinzento. É bonito. Este edifício da arquitecta italiana Lina Bo Bardi era uma das poucas coisas que sempre quis ver em São Paulo juntamente com o SESC Pompeia. Como não deu para ver os dois, um já não foi mau!




Andamos pela avenida. Aqui há pessoas. Mas não se atropelam. Não parecem moscas. O dia começa a chegar ao fim. A temperatura está amena. O L. está de manga curta mas a maioria veste-se como se fosse inverno. Prédios bonitos. Arquitectura bonita. A ciclovia vai ser inaugurada. E eu pergunto-me: “Se uma cidade onde as pessoas têm medo de andar a pé, que os carros não param no sinal vermelho, que quem usa autocarro ou metro são os desfavorecidos, quem nesta cidade anda de bicicleta?”. Mas louvo a iniciativa. A educação das pessoas faz-se assim, pelo início. Criando condições, impregnando o micróbio das boas práticas. E um dia, depois de muito tempo, isso não será questionável. Passamos por várias livrarias. Na volta, não resisto a entrar numa dela. Livraria Martins Fontes é o seu nome. Não parece uma livraria parece uma biblioteca. Não tenho muito tempo para explorar mas consigo finalmente encontrar “O Anjo Pornográfico” de Nelson Rodrigues. Encontro também correspondências da grande Clarice. Não resisto e junto mais este. Encontro um livro de entrevistas do Lobo Antunes que procuro há anos em Portugal e nunca o encontrei. Só desisto dele pelo peso e pelo preço que me daria para comprar o dobro dos livros que comprei em São Paulo. Na caixa, quando estou a pagar os livros, olho para o nome da Livraria Martins Fontes não resisto a perguntar: “Esta é uma livraria portuguesa?”. Resposta: “Oi?”. Reformulo: “O nome desta livraria Martins Fontes é português por acaso o dono é português?”. Resposta: “Ah... não sei. Boa pergunta. Nunca tinha pensado nisso, mas vou tentar saber”. 



Saímos e andamos até encontrar um sítio onde se bebia. Não sei se foi o indicado mas tinha bebida e comida. Chamava-se Cafe Creme em plena Paulista. Antes do jantar lançamos-nos nos pães de queijo e no chope da Brahma. Levezinho, quase sem álcool, geladinho. Gostei. 



Apanhámos um táxi. Já tinha escurecido. Próxima paragem: Mercearia. Uma mistura de bar e restaurante. Aqui o encontro era com a I. Que já não via há muito tempo (o tema será abordado noutro post). Pedimos imediatamente caipirinhas. Portugueses, já tinha ouvido falar mas comprovei. A caipirinha de Portugal não é a caipirinha do Brasil. A original é do melhor que há. Começa na qualidade da cachaça que é mineira! O gelo não é picado mas aos cubos, o que faz que a diluição alcoólica seja muito mais lenta. Tem muita mais lima (no Brasil chama-se limão) alguma dela às rodelas e outra desfeita. Tem muito menos açucar e não é do amarelo. Provamos a picanha. O sabor nada a ver com a picanha que se come em Portugal. Tudo estava perfeito, desde o ponto de sal, ao ponto da carne e ao sabor característico da picanha. Do melhor que já comi. Provamos também os tão famosos pasteis que não são parecidos com nada que já tivesse comido. Provamos as coxinhas e mais coisas que não lembro mais. Fica difícil quando a bebida é caipirinha. Daqui seguimos para o bar Wall St.  Aqui bebi mais caipirinhas e uma garrafa de 600 ml de SKOL. Depois disto sem condições para ir para a balada mas com a promessa que acordaria daí a umas horas para irmos à Catedral de São Paulo e ao centro....



sábado, 27 de junho de 2015

Primeiro dia em São Paulo

Depois de uma noite bem dormida, de ter ido dormir já passava da uma da manhã, acordei sem despertador às seis e meia. Deve ser a influência dos trópicos! Queria que fosse sempre assim! Eu e o L. tínhamos estado a preparar a apresentação durante o voo e quando chegamos ao hotel. Às 7:30 já estávamos a tomar o pequeno-almoço. Começa aqui a saga: "Por favor, onde vai ser servido o pequeno-almoço?". Resposta surpresa com uma pergunta:  "oi?". "Senhores, não entendo". Já a pensar em brasileiro, "cai-me a ficha" e respondo: "Café da manhã, desculpe". O nosso português é mesmo uma língua estrangeira. Ninguém entende nada. Mas começamos a usar o nosso treinado sotaque carioca e a partir daqui é tudo uma maravilha. Os funcionários do hotel são extremamente educados, prestáveis e simpáticos mas a cortesia e o tratamento formal excessivo fazem lembrar-me uma época que felizmente não vivi. Acho que as diferenças sociais extremas aqui podem ser comparáveis ao Portugal esquecido e ostracizado (parafraseando a rábula do Herman) antes da revolução. Os funcionários dirigem-se aos hóspedes pela hierarquia. Alguns não devem estar autorizados a falar porque reagem com muita surpresa quando os cumprimentamos. Tudo aqui tem uma hierarquia. Ou seja, as pessoas não são de facto tratadas de forma igual. Começo a perceber o ridículo das cenas comuns em NY das mulheres brasileiras da alta sociedade serem acompanhadas por uma babysitter fardada de branco atrás a empurrar o carrinho e a "peruas" à frente com a mala Berkin.

O pequeno-almoço é sumptuoso. Tanta escolha faz-me não saber escolher. Seguindo os conselhos que me deram provo as frutas e os sucos. Em Roma sê romano e aqui estou eu num país tropical a trocar o meu habitual pão com manteiga pelas frutas. Os sucos são mesmo naturais de fruta espremida: melancia, ananás, laranja.... As frutas variam do maracujá gigante, papaia, figos, e frutas que nunca vi na vida. Adorei a goiabada!

Após o pequeno-almoço, hora de reunir as tropas no quarto do L. Como o quarto é maior que a minha casa dividimo-nos pelos sofás e cadeiras. Ultimar a derradeira apresentação. Às 11 entramos numa sala de reuniões à americana. Blocos e lápis do hotel. Uma mesa de apoio com garrafas de água, copos, chávenas, café, leite, chá e muffins. A mesa é redonda. Somos quatro portugueses (todos médicos menos eu), o responsável da empresa em Espanha, o responsável do Brasil, um suíço e o chefão dos Estados Unidos ( que por acaso é britânico, e gosta do Manchester United, mas estudou no Canadá). A O. apresenta-nos e faz uma pequena introdução. Imediatamente elogiam-lhe o inglês. E eu lembro-me imediatamente do ditado "em terra de cegos quem tem um olho é rei". A apresentação foi espectacular. Correu muito bem. Fizeram algumas perguntas que antecipamos e causamos uma excelente impressão. Os dados estão lançados. O que nos trouxe aqui está feito. 

Após o almoço, palestras a tarde toda. O que vemos confirma as nossas piores expectativas. As palestras são em português ou espanhol. Só são em inglês no caso de oradores que não falem português e espanhol. E o mais incrível? Há tradução simultânea. O mundo está perdido. As palestras são de um amadorismo gritante. Nada é novo. Parece que estou a assistir a aulas do secundário. O nível é básico mesmo. 

Antes do jantar ainda há tempo para ir a um shopping para comprar os meus tão ambicionados livros. Escolhemos o shopping Market Place que fica a 5 minutos a pé do hotel. Mas como tememos pela nossa vida optamos pelo táxi que no trânsito demora 10 minutos. Foi uma aventura. A taxista era uma mulher. Nunca vi tão pouca simpatia numa pessoa. A mulher estava com umas trombas que metiam medo! O L. ia ao lado dela e eu, O. e M. atrás. Os táxis, assim como a maioria dos carros no trânsito, são Fiat. O táxi é um Fiat Idea. Apesar de ter tv onde só se vê mortes e detenções, a taxista não activa o taxímetro. A condução da mulher é digna de um filme. A O. que ia no meio teve que se agarrar às nossas pernas. As travagens e os arranques e os barulhos da caixa de mudanças eram de rir. Escolhemos o táxi para não morrer de uma bala perdida mas bater com o táxi era uma ideia que nos perturbava. Felizmente, o trânsito era muito mas os arranques e as travagens eram medonhos. Finalmente chegamos ao shopping e a mulher chuta: 20 reais. Não achei nada caro mas verificaríamos depois o quão roubados fomos. 

Entramos no shopping e fomos directos à livraria Cultura. Como o tempo era escasso, já que tínhamos que estar no hotel às 8, decidi dar a lista dos livros em vez de os procurar. Não havia mais de metade dos livros que queria. Os DVDs nenhuns. Fomos rapidamente à loja Americanas. Não vale mesmo a pena. Parece a loja dos chineses com preços mais caros!

Ao voltar para o hotel percebemos o quanto fomos roubados pela primeira taxista que nos cobrou 20 reais e este 8... Está tudo dito. Esta amostragem de taxistas foi esclarecedora: mudos, antipáticos, rudes e têm a tv ligada em canais que só passam desgraças.

Hora de jantar. Oito da noite. Reparo à entrada do restaurante do hotel que existem pelo menos duas pessoas que nos abrem a porta, cumprimentam-nos e dizem "cuidado com o degrau". Isto repetir-se á até ao último dia. Buffet internacional. Com a esperança de que haja comida brasileira só encontro um tipo de empadão com carne seca. O resto é o que se come pelo mundo todo. A minha perdição continua a ser a goiabada com queijo de minas. Na hora de beber vem um senhor com uma bandeja e vejo que o L. tem um copo do que parece ser sumo de maçã mas ele não está na mesa. Então peço: "sumo de maçã" e respondem-me mais uma vez "Oi?". Começo a pensar como posso pronunciar da melhor maneira "maçã" à maneira brasileira... Mas começo a achar que a forma como eu pronuncio "maçã" é igual à dos brasileiros... Então começo a repetir, quase a lotetrar "maçã"... e a resposta foi "ah, maçã!, não temos!". Acabei por perceber, mais tarde, que o que o L. estava a beber era guaraná.

Fui dormir cedo porque era realmente cedo mas o meu corpo sentia como se tivesse corrido todo o dia. Deixei a tv ligada, como barulho de fundo. Quase não se ouve falar da Grécia. De facto, esse país, lá longe, do o lado do mundo que foi o berço da civilização e da democracia continua, como sempre esteve, bem longe. E o assunto principal das tvs brasileiras é a morte de um cantor de música de qualidade duvidosa cujos versos de uma das suas canções é "Bara bara bara bere bere bere". E assim vai o mundo.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

A primeira impressão de São Paulo

Sempre quis conhecer o Brasil. Há muitos anos, pelos livros de Jorge Amado, uma cidade de Salvador da Bahia que já não deve existir. Mas os cheiros descritos nos livros dele, as paisagens, o calor, a humanidade dos personagens, a realidade, tudo me fazia querer conhecer essa cidade. O Lobo Antunes dizia que o Jorge Amado era muito melhor pessoa do que escritor. Como eu não conheci a pessoa só o posso avaliar como escritor. Pode não ser isso que a maioria e os cânones acham mas eu adoro-o. Acho que é o Hemingway da América Latina. Há anos que adio a viagem à cidade que eu mais quero conhecer: Rio de Janeiro.

Ontem, depois de dez horas de viagem e pela primeira vez ter dormido num avião, cheguei fresca como uma alface a São Paulo. Chegamos depois das 9 da noite. Sem filas e com a mala a chegar rapidamente. A primeira impressão do aeroporto foi a melhor. Um aeroporto de um país de primeiro mundo. Ao passar a alfândega entramos numa gigantesca loja que faz- nos lembrar o piso térreo da Macy's. Luzes, muitas luzes, perfumes, marcas, maquilhagem e muitas pessoas a dizerem-nós que podemos guardar as malas para ir às compras. Pois, sim! Mal saímos temos uma senhora com um cartaz "COLATEL". Depois aparece outra. Verifico em poucos minutos que muitas mulheres não caucasianas têm cabelos loiros oxigenados. Parecem a Nicky Minaj. Saímos do aeroporto e esperamos pela van que nos levaria ao hotel. Surpreendentemente, o caminho do aeroporto para o hotel é-nos familiar. Nada feio, favelas, estradas em más condições nem trânsito infernal. A surpresa é no número de vias na autoestrada. Em alguns trajectos tem duas em cada faixa, o máximo que vamos ver são cinco. Depois a surpresa de ver o número de camiões. Imensos. E depois o rio Pinheiros que nos acompanha do lado esquerdo. Sujo, feio, escuro. Não parece um rio, parece um canal. Um esgoto a céu aberto. E o mau cheiro acompanha o rio. Quando chegamos a Berrini/ Itaim/ Morumbi os prédios são bonitos, altos, muito altos, modernos, luminosos e com uma arquitectura bonita. Mas as paragens de autocarro e de comboio que se cruzam são assustadoras. Percebo que não há ninguém a andar a pé depois das 10 da noite. Os prédios são rodeados de altos gradeamentos e têm arame farpado. Chegamos ao hotel e o número de seguranças à entrada e de concierge é ridículo. Somos menos do que eles! Tudo é em número surpreendente. No balcão da recepção são uns dez. O hotel tem umas escadas rolantes que parece um shopping. Como sou a única que tenho duas malas (quase vazias para regressarem cheias de livros) um dos concierge acompanha-me. Espera pacientemente por mim enquanto faço o check in, entregar-me o livro que a Marina Lima teve a amabilidade de enviar, e faço todas as perguntas. Quando finalmente termino acompanha-me ao quarto e pergunta-nos como correu a viagem. Eu só penso na gorjeta que terei que lhe dar mas não tenho reais e tenho a esperança de ter cinco euros na carteira. Chegados ao quarto coloca a mala num banco que vai buscar propositadamente para aquilo. Mostra-me o quarto que tem vários compartimentos. E eu penso que é maior que a minha casa. Abro a carteira e percebo que a nota mais baixa é de 10 euros. Entre a vergonha de dizer-lhe que não tenho reais e não lhe dar nada, estendo-lhe os 10 euros. O senhor ficou radiante e até me disse: " pode me pedir tudo, menos dinheiro". E eu aproveito: "Então, isto é tão perigoso como dizem?". E ele: "Se forem os quatro durante o dia ali ao Shopping Morumbi não há problema. Mas só de dia. E se fizerem compras regressam de táxi". Pronto, percebi! Todos no hotel são de uma amabilidade que não vi em muitos lugares do mundo. Muito agradavelmente surpreendida. To be continued.



quarta-feira, 24 de junho de 2015

A classe executiva

24 de Junho. Feriado em Braga e no Porto. Dia 1 de Portugal, em Guimarães. Voo Porto-Lisboa em executiva. Nada diferente das outras vezes a não ser a água servida num copo de vidro e os muitos jornais e revistas que nos são oferecidos. Em Lisboa temos apenas tempo para mudar de avião e pouco mais. Não sei se fui eu que nunca reparei ou se é sempre assim mas existia fila para a classe executiva, apenas com menos pessoas. Já no avião, sentados, reparamos que somos os únicos portugueses. A classe executiva tem 24 lugares e estão todos ocupados. A média de idades deve ser acima dos 50. Com excepção de nós (os 4 portugueses) e os dois casais de recém casados à frente e ao nosso lado. O casal da frente são os típicos patricinhos. Devem pertencer à alta sociedade paulistana. Casados de fresco. Caucasianos, ricos, cabelos claros, mala Berkin. Devem morar num bairro fino e fazer compras na Oscar Freire. Os do lado esquerdo também parecem regressados de lua-de-mel. Mas o nível é diferente. Provavelmente não vivem em São Paulo mas parecem filhos de algum prefeito de uma cidade do interior. Mal chegaram ao avião andaram o tempo todo descalços e sem meias. Ele tem um bigodinho que já passou de moda é um boné a fazer lembrar um rapper americano. Ela é a típica brasileira. A mostrar mais do que o que devia. As restantes pessoas são homens de negócios e casais mais velhos regressados de férias na Europa. A maioria das mulheres fez cirurgias plásticas.


Já tinha a TAP em muito boa conta desde que me mudei para NY. Não conheço a executiva das outras companhias. Em 36 anos é a primeira vez que viajo nesta classe. Nada a apontar, como esperava. As hospedeiras são simpáticas e profissionais. O serviço é irrepreensível. Mal nos sentamos, eu e o L., desatamos a experimentar os botões da cadeira que faz as acrobacias todas de uma cadeira de dentista. Podemos ficar sentados muito altos, quase à altura do tecto até à posição horizontal de cama. Temos uma almofada com fronha de pano e um edredão azul. Depois, distribuem-nos uma caixa de toilette. São quase 4 da tarde, uma hora depois do voo levantar, e começam  a servir o almoço. Primeiro, distribuem uma toalha molhada quente. Segue-se o menu num livrinho. As boas vindas com espumante ou água ou sumo de laranja (estilo vernissage) Não é uma refeição é um banquete. Temos direito a toalha de mesa e guardanapo de pano. Para começar espargo enrolado em pastrami, espetada de camarão com tomate cheiro e avelãs torradas. Uma sopa de cogumelos, saladas que podiam incluir pato, salmão ou fruta. Quatro pratos quentes à escolha que eram: vitela, frango, polvo ou massa. As bebidas são ao estilo bar aberto: tudo o que se quiser (menos dinheiro, como a piada). Os vinhos são Dona Maria e churchill's. Reparo que uma senhora acompanha a refeição com vinho do Porto! Conto-lhe pelo menos três! E invejo-lhe a resistência para a idade que tem. A noiva à minha frente acompanha a refeição com whisky. O marido não bebe álcool. O assistente de bordo até brinca com ela que não tarda e está a cantar o fado! E as piadas não se ficam por aqui... Ainda diz ao marido que para um cair o outro tem que segurar. As sobremesas são várias  e podemos optar por fruta laminada, pastel de nata, arroz doce ou queijo com doce de abóbora.  Para além do que comi bebi 2 copos de Dona Maria e um Porto a acompanhar a sobremesa. Pela primeira vez, desde que ando de avião dormi. Não sei se foi pelas bebidas ou pelo conforto de ter uma cama. A única coisa que tenho a apontar é a disponibilidade de filmes. Ao contrário de outros aviões da TAP, mesmo em económica que se pode escolher filmes de uma lista enorme, neste voo os filmes eram poucos e não grande coisa. Mas quando tudo é excelente, um pormenor destes não conta para nada. Como habitualmente, em todos os voos de longo curso, há a regra de fingir-se noite quando é dia. Como dormi, desta vez não custou tanto. E foram 10 horas! Ainda durante a fingida noite, o L. conversou com um assistente de bordo e perguntou-lhe: "O que é que São Paulo tem de bom para se ver?". E ela: "Nada! Nesta cidade é tudo feio! A única coisa que esta cidade tem de bom são os restaurantes".










quarta-feira, 20 de maio de 2015

A força na sua verdadeira dimensão

Naquela semana tirei uns dias para me afastar de tudo. Para estar longe. Para sentir falta. Para organizar ideias. Desço do quarto para comer qualquer coisa. Já é noite. Mas não passa das 7. A poucos metros de mim vejo-a entrar pela porta do hotel. Cabelo solto. Óculos graduados. Anda devagar. Lentamente. Está de luto há um mês. Foi-se o amor da vida dela. Morreu de mãos dadas com ela. E mesmo assim, segue com a vida. Eu que sei, percebo-lhe a tristeza. Talvez para os outros seja imperceptível. Penso na perda e comparo-a com o balanço que faço à minha vida. Afinal, não tenho do que me queixar, comparativamente. No dia seguinte vejo-a outra vez. De manhã. Poderia deixar-se ficar. Resignar-se à tristeza. Não lutar. Não reagir. Optar por não viver. Não levantar-se da cama. Não viajar. Mas é o contrário. Faz o que esperam dela. Não desilude.  Cumpre. Luta. Reage. Alimenta-se. Vive. Ri. Até lhe ouço uma gargalhada. Conversa. E vendo este exemplo, envergonho-me da minha inércia. Relativizo. Dou-lhe valor. E desvalorizo-me. Obrigo-me a olhar em frente. Umas horas mais tarde vejo-a sair. Já não parece tão pequenina como há uns anos achei. Parece poderosa. Cheia de força.

Nessa noite mágica tudo é mudança. Como se houvesse um obstáculo a ultrapassar. Se isso acontecesse estava feito. No exercício da sua arte ouço-a vacilar. Mas ultrapassa com elegância, arte, profissionalismo e delicadeza. A prova de fogo foi ultrapassada. E o sacrifício mostrou valer a pena. Uma noite catártica, portanto. Heráclito, como todas, dito por ela. Mais tarde, sem contar, encontro-a. Quero solidarizar-me com a dor dela mas sem tocar nisso. Não tenho palavras. Nem eufemismos. Quero felicitá-la e dar-lhe uma palavra de reconhecimento de quão boa foi a noite. Limito-me a agradecer e a elogiar. O sorriso abre-se e estende-me as duas mãos.

No dia seguinte fui almoçar com uma grande amiga no restaurante ao lado do hotel, o mais antigo vegetariano de Lisboa. Chego primeiro, coisa pouco habitual. Ela chega depois. Eu estou sentada. Apesar de já não a ver há um ano, está igual, para mim. Apesar de estarmos num vegetariano pergunto-lhe se vai beber vinho. Diz-me que não. E eu, como devo ser a lentidão das lentidões, não percebo a deixa que deveria ser claríssima. Para quem bebe diariamente, não beber, não restam muitas hipóteses. Já que não consegui perceber, ela foi clara. Estava grávida. E eu entre a surpresa da notícia e a falta de percepção de sinais subliminares e físicos não me restou muito tempo até que me dissesse que o bebé tinha Trissomia 22. Eu que nos últimos tempos, profissionalmente, só tenho escrito e lido sobre doenças raras. Isso poderia ter feito de mim a ouvinte ideal. Mas não. O meu cérebro parou. Queria dizer qualquer coisa. Uma palavra de conforto, de esperança, de ânimo. Nada disso. E só piorou com a descrição das anomalias possíveis.  Esse era o último dia que poderia optar pelo aborto terapêutico. Percebi que não o faria. Não me disse explicitamente mas percebi que a decisão por terminar uma vida não dependia dela. Ia deixar a natureza desempenhar o seu papel. Quando o nosso almoço terminou já era hora do lanche. Dei por mim sem forças para dizer nada de bom. E quando não temos nada de bom a dizer o melhor  é o silêncio. E eu que lido com números, estatísticas, casos, tendências, casos raros. Fiquei prostrada. Não sabia dizer nada que confortasse. E arrastei-me por Lisboa. Nesses dias percebi, finalmente, a relatividade das nossas tristezas.

Há um mês voltei a Lisboa e vi-a já numa gravidez avançada. Feliz como todas as mães. Como a canção “Só as mães são felizes”. Almoçamos, tardiamente, um peixe escalado que me ficou na memória.  Transbordava felicidade. Nada de azedumes, nem queixas, nem mágoas, nem culpas por carregar um bebé diferente. O M. já tinha nome. E aí percebi a grandeza que só algumas pessoas são capazes de ter. O medo que assola todas as mulheres numa gravidez. Não importa o sexo. Importa que seja perfeitinho. Essa ânsia e esse desejo. E depois o muro desmorona como um castelo de cartas de baralho. Como se reage? Como se enfrenta? Como se continua? E acima de tudo como se renasce?  Como se convive com um cenário tão limitado? Sabe-se o hoje. Amanhã logo se verá. Passámos um dia fantástico. Tudo de muito bom.

Desde esse dia não falei mais com ela. Por culpa minha. Aquelas coisas pequeninas da vida. De nunca ter tempo para o mais importante. E sobretudo, aquilo que mais me queixo, não estar quando deveria estar. Todos os dias me lembrava dela. Mas não o manifestei. E falhei, mais uma vez, como todos os humanos. Essa culpa que me acompanha desde que nasci. E eu, que nasci especialmente, para ser culpada.

Ontem acordei com a mensagem que mais temo na vida: “...O M. ficou duas horas connosco e partiu serenamente dos nossos braços...”. Chorei o dia inteiro, por dentro. Pensei o dia todo no que poderia dizer. Só no fim da tarde consegui.

E hoje, recebo a maior mensagem de força da mãe que perdeu o filho há dias, que entre coisas tão bonitas que escreveu, destaco: “Passou duas horas ao nosso colo e morreu serenamente nos nossos braços. No meio de toda a dor, revelou-se uma doçura, uma beleza que nos deixou de coração cheio (...). A sua vida, as nossas vidas, jamais se podem medir pelo tempo, mas pelo Amor”. E partiu, não cedo demais, mas porque a vida é uma passagem”. Pronto e é isto. Quando não estamos à altura dos nossos amigos, eles encarregam-se de nos mostrar o quão bem rodeados estamos. A força na sua verdadeira dimensão.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Porto-Faro

Jantar rápido na mãe. O sobrinho mais velho janta com o apetite das quartas-feiras. O afilhado está mal disposto porque adormeceu no carro. Colo, muito colo, sempre. Estou com uma dor de cabeça que não me larga desde ontem. O tempo, como quase sempre em Braga, está mau. Janto rapidamente. Vou apanhar o avião ao Porto. A fila está imensa e o voo atrasado. O frio é muito. Eu vestida como quem vai para o Algarve. À espera ao relento. Desta vez não implicam com a mala. Dormi o tempo todo na vã expectativa que a dor de cabeça me passasse. Chegada a Faro e parece que estamos noutro país. A temperatura está amena. Vou em direcção aos táxis. Quando chego ao local de espera dos passageiros sinto-me em Lisboa, tal a fila de táxis. Apesar de quase não haver passageiros os táxis organizam-se em 3 filas. Qual delas escolho? Qual é a ordem? Entre o olhar para afrente e para trás para ver se alguém me da uma indicação, só vejo caras mal dispostas e a abanarem os braços em direcção à sei lá o quê. Vou a entrar para um táxi. Gritam-me que não é aquele e que há uma ordem. Vou para outro. Já com a minha mala na mala do táxi. Entro e o taxista diz-me que a minha mochila não pode entrar ou se entrar só pode ir no chão. Ainda não refeita da afirmação incompreensível e a tentar entender manda-me: " a mochila não entra ou vai no chão porque os clientes seguintes podem ficar todos cagados". Eu, entre a estupefação do que acabei de ouvir saí do táxi. Como aquilo deve tratar-se de uma máfia achei que ficaria no aeroporto a noite toda porque arranjei um problema. Ninguém me queria levar. No próximo que entrei, tratei de não discutir e fazer tudo o mais inócuo possível. Coloco a mochila e a mala na mala do táxi. Aqui os taxistas não ajudam as pessoas com as malas. É a lei do "faça você mesmo". Quando chegamos ao hotel demorei ligeiramente a encontrar a carteira, na mochila... Lembram-se daquela que coloquei na mala porque não entrava no táxi... O taxista não tem mais nada, depois de eu ter demorado não mais do que um minuto: "ó dona, vai demorar muito?". E eu já sem palavras, porque nunca tenho resposta à altura quando sou apanhada de surpresa, limitei-me ao silêncio. Subo ao quarto e reparo q a tv não funciona. Desisto e vou dormir. Há dias que mais vale dormir e esperar pelo dia seguinte. Almoço com o P. e a J. em frente à universidade. Pelo menos aqui as pessoas parecem ser simpáticas. O tempo é de verão e convida a esplanar. Resto da tarde aulas intensivas. Apesar de serem alunos de mestrado em Ciências Biomédicas, todos querem Medicina, excepto uma que quer veterinária. Cruzo-me no intervalo com o Rui Vieira Nery e vejo muitos professores com a toga de doutorado. Dizem-me depois que é o Doutoramento Honoris Causa do professor Sampaio da Nóvoa e que a universidade tinha dado tolerância de ponte nessa tarde. Como a aula terminava às 6 e como só tinha avião às 8 ainda deu para ir à ilha de Faro beber uma Margarita e comer uma bifana. Já passava das 7 quando me deixaram no aeroporto e deu tempo para tudo. A maioria dos passageiros eram turistas daqueles que foram aproveitar bem a praia. A sua indumentária denunciava-os. Havaianas, calções, chapéus. E a cor alternava entre o quase bronzeado e o camarão. Chegado ao Porto, um dilúvio aguardava-nos. Muita chuva é muito frio para os padrões algarvios. O Porto nunca nos desilude!





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