sábado, 18 de abril de 2015

Quinta em Lisboa

Quinta-feira. Acordo em Lisboa. Dia claro e luminoso, como quase sempre em Lisboa. Lá fora as vivendas de Alvalade e a Av. Estados Unidos da América. Vamos em direcção ao Areeiro. Pequeno almoço com leite e café expresso, manteiga dos Açores e pão saloio. No alto de cadeiras de bistro. Bela vista. Descemos a Almirante Reis. Viramos à direita até ao campo de Santana. Passamos em frente à Embaixada Itália e depois em frente à Embaixada de Itália. Entramos no estacionamento subterrâneo do CEDOC. Subida de elevador até aos laboratórios e gabinetes. O dia de trabalho começa com café. Eu que não tomo café não tenho coragem de dizer que não e tomo-o como se fosse remédio. Tenho apenas tempo de olhar brevemente para a apresentação e confirmar que os vídeos funcionam. Vamos almoçar ao Goethe Institute. Vacilo entre uma salada Goethe é uma salsicha alemã. Mas penso na cerveja e decido-me pelo que me dará maior sustento. Cerveja alemã. Não termino as salsichas. Seguimos quase directas para a aula. Sala quase cheia. Uns 80 alunos. Novinhos. Maioritariamente alunas. Os alunos contam-se pelos dedos. Pouco antes de entrar para a aula reparo que caiu-me molho de tomate na camisa. Não tenho muito que fazer a não ser esperar que ninguém repare. Começo a aula a reparar na coincidência que descobri quando preparava a apresentação. O Dr. Sousa Martins que tem uma estátua em frente à faculdade de Medicina da NOVA fez uma tese de licenciatura sobre o Pneumogastrico e o coração. E morreu aos 54 anos, tuberculoso e vim uma lesão cardíaca, que caso não se tivesse suicidado com uma dose letal de morfina, teria morrido do coração. E eu venho falar sobre o coração e regeneração cardíaca. Coincidências. Que sinais podem ser estes. Conto mais umas piadas. Provavelmente resultado do quase meio litro de cerveja que bebi. A aula pareceu- me correr bem. O perfil dos alunos parece-me mudar anualmente. Quase não há cadernos, nem livros, nem sebentas, nem esferográficas. O que nos salta à vista são os ipads, tablets e notebooks. Os alunos são do terceiro ano mas a maioria não parece ter mais de 18 anos.

Aula terminada. Depois de muitas gargalhadas e risos nos últimos minutos da aula em q a G. falou das dicas para se fazer uma apresentação.   Voltamos para casa e foi um tour gastronómico até à hora de dormir. Começamos com Gin tónico, em copos normais, não daquele que parecem uma malha de sopa, que de tão grandes que são até se perde o jeito de beber. Pistácios. Azeitonas com alho, azeite e oregãos. Vinho tinto do Douro. Bacalhau assado no forno. Mousse de chocolate. Morangos. Framboesas. Há melhor tratamento do que este?



quinta-feira, 16 de abril de 2015

Quarta-feira

Quarta-feira, dia de jantar com os sobrinhos. Como o meu irmão ficou de me levar ao aeroporto, fomos jantar ao McDonals. Isto só acontece muito raramente. Então, para eles, é a alegria. O meu afilhado, que faz 6 anos no próximo sábado, anda sempre com um caderno é uma esferográfica. Diz ele que é para escrever. Como o irmão já anda na primária deve querer imitá-lo. Então é ver páginas e folhas completas de letras que só ele entende e outras que entendemos todos. No carro contam entusiasticamente a semana na escola. O que aprenderam. O que comeram. A peça de teatro que viram hoje. As histórias com os amigos. Quando saímos do carro a necessidade de serem abraçados e visível. Passamos o tempo abraçados e a trocar de par. O pai abraça um e eu abraço outro e depois trocamos. E passamos o jantar a encostar cabeças e ombros. E a tocar nas mãos. E a fazer festinhas na cabeça uns dos outros. Gargalhamos e rimos muito. Brincamos mesmo que o tempo seja curto. Falamos dos desenhos que os meus sobrinhos me prometem, mais uns, para escorar a minha secretária. Falamos das cartolinas que os esperam para fazerem o alfabeto dos animais e das profissões. Falamos do jantar de sábado que terão com os amiguinhos de Braga, R. e J. Vamos a caminho to aeroporto. O dilúvio da Arca de Noé abrandou. O céu cinzento escuro tornou-se mais claro. O dia está a terminar. O sol está a começar a pôr-se. Vê-se o arco-íris ao longe. O sol laranja, lindo, ao fundo da estrada. Falamos de ir a Serralves quando estiver bom tempo. O afilhado adormece. O K. bebe o resto da minha Coca-Cola. Aproveita porque quase nunca o pode fazer. É a bebida quase proibida. Estamos quase a chegar só aeroporto. O K. quer ir à torre de controle. Rimos da inocência dele. Prometo-lhe, que por hoje não haver tempo, na sexta entrará no aeroporto. Ele fiz- me que já conhece, claro. Mas quer ver outra vez.

Hora de embarcar. Fila enorme. Muitas pessoas. Muitas malas. Ninguém é parado. Só eu. Nestas horas percebo porque não gosto de low costs. A pessoa que controla os bilhetes diz-me que se a mala não cabe nas medidas deles é porque a mala não tem aquelas medidas. Não falo. Não discuto. Não argumento. Não digo nada. Só abano com a cabeça e lembro-me da razão pela qual só viajei duas vezes com a Ryanair. A minha cara deve dizer tudo. Poupo num lado mas gasto no mais elementar, a mala. Depois penso naquele vídeo dos apanhados da TVI: "Eles poupam 5, elas fo*** 10? De quem é a culpa, cara***? E sorrio. Afinal o que é isto comparado com tanta desgraça no mundo. Relativizo. Não dou importância. Não fico chateada por mais de10 segundos. Até que a senhora me pede licença para retirar a etiqueta da minha querida TAP e colocar a da Ryanair. E como se não bastasse diz-me que tenho que levar a mala para a pista e entregá-la para ir no porão. Como? Não basta ter que pagar por uma mala que deve ter 2 cm a mais, porque a régua que tenho em casa deve estar em polegadas em vez de estar em centímetros, e ainda tenho que ser eu a levá-la? Arrasto-me com a minha impotência para discutir e reparo que o selo que tenho no bilhete e a etiqueta que tenho na mala diz "free bag". Os meus passos ganham mais ritmo e a minha cabeça baixa levanta-se. E percebo, mais uma vez, porque é " melhor ser alegre do que ser triste". Não aproveito a vista da janela e não vi sequer a minha amada Lisboa do ar porque estava a escrever este texto. 



terça-feira, 14 de abril de 2015

O terror das apresentações

Estou com uma dor de costas que não me dá descanso há vários dias. Dor de costas para mim é sinónimo de stress e de preocupação. Para além disso, estou com uma afta, como há muito não me lembrava. Mal como. Essa é a melhor parte. O poder de emagrecer sem querer e sem fazer nada para que tal aconteça. Vou dar uma aula. Uma coisa que detesto. É tipo Joana D’Arc à espera da morte na fogueira. Contagem decrescente. Tudo em função daquele momento. E como os grandes profissionais, que se preparam, eu prefiro viver por antecipação. Em vez de me preparar, antecipo cenários de terror. Nunca digo não e nunca. Muito menos a esta grande amiga.  Este ano, acrescenta-se uma variável pior: uma audiência de 80 alunos de Medicina. Todos inteligentes. Ou pelo menos, com notas altas. Ou com autoconfiança. Numa emblemática Universidade de Lisboa: a NOVA. No célebre edifício do Mártires da Pátria. O berço da Escola-Médico Cirúrgica de Lisboa. Primeira Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. As escadas, os quadros, os bustos, os anfiteatros, a altura do edifício, tudo é grande. E eu, que já sou pequena, pareço uma formiga. Pior do que isto, só se fosse em Coimbra.  Vá, pelo menos tenho a benção do Dr. Sousa Martins, beatificado pelos lisboetas, e praticante da caridade que me olha lá do alto da sua estátua envergando a toga de Doutor. Vejam a coincidência, ele terminou a tese de licenciatura com o trabalho “O Pneumogástrico Preside à Tonicidade da Fibra Muscular do Coração”. E é sobre isso que vou falar: do coração e da regeneração cardíaca.

Em vez de preparar a apresentação, o discurso e a aula, evito. Como se isso resolvesse alguma coisa. Como se ajudasse, adio. Atitude inteligente, não é? Pior do que isto seria desaparecer ou não aparecer. Timidez tenho que baste, mas vergonha de fazer um disparate desses é o balanço que me obriga a erguer a cabeça. A morrer sim, de medo, mas de pé como as árvores. E como se não bastasse, ainda mais o medo de andar de avião. Enjoo no comboio (ou em quase todos os meios de transporte). Devo ser a única pessoa no mundo que enjoa a conduzir. Como não consigo fazer nada nas três horas de viagem, decidi-me pelo avião. Nada mais sensato, pois claro. Entre o enjoo e o medo vá o diabo e escolha. Pelo menos só são 40 minutos de puro pavor. Como são só 40 minutos, nada de beber. Então toca a encarar esta de frente, sóbria, limpa, aterrorizada. Mas depois lembro-me de Lisboa. A cidade que eu mais gosto no mundo. Só isso anima-me. E isso é quase tudo.

Como se escrever exorcizasse os medos. Em vez de preparar a apresentação, escrevo este texto. Adio sempre decisões importantes. E mais uma vez não toco nos slides. Faço tudo o que não me apetece, como no tempo em que estudava (pouco). Nunca tive a casa tão arrumada. Nunca tive as gavetas tão arrumadas. Nunca tive a secretária tão arrumada. Como diz uma amiga: “secretária arrumada, cabeça desarrumada”. Vá, riam-se. Porque eu rio para não chorar. E como me disseram ainda hoje, eu vivo (quase sempre) a sorrir. Mesmo que nem sempre tenha motivos para o fazer. E acredito cada vez mais na frase “é melhor ser alegre que ser triste”.


domingo, 12 de abril de 2015

Semana Santa em Braga

Braga. Semana Santa. Bom tempo. Céu azul. Ruas cheias. Turistas. Esplanadas cheias. Ruas decoradas. Igrejas visitadas. Procissões. Ecco Homo, a procissão de Quinta-Feira Santa. Farricocos. Calçada portuguesa. Pés descalços. Bandas de música.  Alegorias. Metáforas. Escrituras. Fotos. Flashes.

Sé Catedral. Três da tarde. Cerimónias da morte de Cristo.  Procissão Teofórica do Senhor. Procissão de Sexta-Feira Santa. Procissão do Enterro do Senhor. Cabeças cobertas. Cabeças baixas. Arrependimento. Silêncio. Recolhimento. Fotos. Flashes. Altas individualidades. Gravatas pretas.

Se há altura ideal para visitar Braga é esta. Movimento. Muitas pessoas. Temperatura amena. Primavera. Dias grandes. Comida boa. Tradição. 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O mítico DJ do Wesbter Hall

O Webster Hall era um mítico clube de NY. Agora já não é. Transformou-se noutra coisa. Poderia dizer mais “Meatpacking District”. Mas nem sei se é isso. Transformou-se naqueles banais clubes de gente toda igual, de preferência vestidos colados ao corpo, com mais destapados do que tapados. Aquele tipo de roupa, que na minha humilde opinião, não fica bem a ninguém.

Antes de ter ido ao Webster Hall já o conhecia. O edifício do Webster Hall já foi o estúdio do Marcel Duchamp em NY. A L. e a C. quando foram a NY, antes de eu viver lá, desbravaram e fizeram a descoberta da noite de NY. Tornaram-se amigas de um dos porteiros do Webster Hall e conseguiam estar sempre que queriam na guest list. Nessa altura, o Webster Hall tinha uma festa às sextas que se chamava Trash Party. A L. e a C. conseguiram o feito de entrarmos sempre por uma porta alternativa, pela qual fugiamos à gigantesca fila, e pagavamos apenas $10. Não sei bem definir como era a Trash Party. Era na cave. Escura. Cheia daqueles fumos dos concertos. Gente nua. Gente mascarada. Gente vestida das mais variadas formas. Onde se podia tudo. A música era espectacular. E havia o DJ, Jess, excêntrico, rodeado de figuras excêntricas. Era mítico. O Jess proporcionou-nos das mais inacreditáveis noites da nossa vida. Ontem, a L., disse-me que ele tinha morrido. Soubemos hoje que se suicidou. O Webster Hall, tal como o conhecemos morreu há algum tempo. As trash parties acabaram definitivamente no ano passado. E o mítico DJ nunca mais.











quarta-feira, 8 de abril de 2015

Ser anónimo em NYC

Acabo de ler o último texto da Milly Lacombe aqui. Hoje não vou falar no quanto admiro a escrita dela e a forma como escreve. Também não vou discutir o quanto discordo de muitas coisas que escreve. Nem das outras que eu subscrevo na íntegra. Hoje não vou falar do quanto o nosso amor pela cidade em que vivemos é tão diferente como o tamanho imenso do oceano que nos separa. 

No tempo que vivi em NY quase nunca fiz as refeições em casa. Nos primeiros 6 meses por intolerância à casa, ou antes, por intolerância total à pessoa com quem partilhei casa. Nesses 6 meses conheci NY como nunca mais. Fazia de tudo para nunca chegar a casa antes da meia-noite. Tudo para não me cruzar com aquela pessoa. Reconheço que provavelmente o defeito é meu. Mas o facto é que o meu santo não se cruza com o da maioria das pessoas. Como o defeito é meu, eu é que tinha que evitar os encontros. Por causa disso, conheci todos os restaurantes/ bares/ cafés da Broadway desde a 116 à 95. E quase todos na Amsterdam da 116 à 110. Mas dois deles fui mesmo habitual. O Metro Diner ia porque me parecia familiar. A comida não era grande coisa, como quase todos os diners, mas o que eu escolhia para comer seria exactamente igual em qualquer lado. Ficava sempre ao balcão. De toda a gente que trabalhava lá, de todas as caras conhecidas, que eu consigo reconhecer até hoje, apenas um me reconhecia. Nunca lhe perguntei o nome, mas aquela falsa familiaridade, dava-me conforto. O facto de ele saber, antes de eu pedir, o que queria e o sorriso dele, faziam-me sempre querer voltar. 

Panquecas no Metro Diner

O outro chamava-se SIP, entre a Broadway e Amsterdam (109&110) acabo de saber que fechou. Aí a comida já era bem melhor e o preço proporcional. Aí já havia vinho a copo. Tinha uma compota de apricot (que fiquei a saber na altura que era alperce) que nunca comi igual. E um pão que era muito semelhante ao europeu. Esse pão que é a primeira coisa que muitos de nós tem saudades. Mas apesar das minhas visitas sem fim, acho que ninguém me reconhecia. Se há cidade anónima é esta. A frieza do anonimato e do desprezo. 

Lembro-me também do Coogan's em Washington Heights, mesmo ao lado de Columbia Medical Center, poiso habitual com o L. Acho que a ele o reconheciam mas por motivos diferentes. Sempre me queixei disso. Porque ele era homem. Já na cafetaria do hospital, à qual eu ia pelo menos 3 vezes ao dia, as meninas que eram quase sempre as mesmas, insistiram em não me passar cartão até às últimas semanas do meu regresso. Mas com o L. desfaziam-se em simpatias. Podem chamar-me preconceituosa. 

Brunch no Coogan's ao Domingo antes de ir trabalhar para o lab
As quatro únicas excepções vão para emigrantes, como nós. O primeiro da lista: Tamaya que já não existe. Um restaurante japonês bom, bonito e barato, Incendiou -se na semana que os meus pais foram a NY. No Tamaya, a Sandy reconhecia-nos. Era uma chinesinha que falava mal inglês e que até se atrevia às mirabolantes hipóteses de eu e a C. sermos, respectivamente, amante e mulher do L. Quem diria, ah?
Bento Box no Tamaya
O segundo da lista era o Marcos do Meal Plan (cantina dos MD/PhD) que eu frequentava à socapa. Bastou-me dizer no registo que era estudante. As mentiras piedosas, com os americanos, funcionam sempre. E o pior é que acreditam sempre nelas. Esta, foi por um bom motivo. O Marcos, cuja história pode ser conhecida em pormenor aqui, era um brasileiro que nos tratava por "doutora dos olhos" e "pê agá dê inteligentchii" (com sotaque carioca). Naquele minutos rápidos tinha sempre uma palavra de simpatia que nos confortava.

O terceiro era quase a minha segunda casa: Zigolinis em Hells Kitchen. Tinha as melhores pizzas de massa fina que conhecia. Tinha vinho português Vinha do Monte a preços que não eram proibitivos para restaurantes. O dono e quase todo o staff eram portugueses. Passado uns tempos o "pizzeiro" mudou e com ele a qualidade inicial foi-se. Passados uns tempos fechou.

Zigolinis
O Chavalinho no Zigolinis
@Zigolinis
@Zigolinis
O último era (já não é assim) o 11th Street Cafe em West Village. Um cubículo, com meia dúzia de lugares sentados.Tinha uma omelete de espinafres espectacular. Passava lá horas. Foi lá que vi a irreconhecível Nicole Kidman de Birkenstock e meias brancas. E era passagem habitual da Julianne Moore e do Hugh Jackman. Tudo mudou, pelo menos as pessoas que estavam por trás do balcão. Quando passado um ano regressei, estava irreconhecível. A simpatia e a proximidade tinham desaparecido.

NY, essa cidade tão impessoal e anónima, que quem sobreviver, sobrevive a tudo e está preparado para tudo, caracteriza-se pela inexistência de relações pessoais. A minha experiência e estatísticas dizem-me que estas existem entre iguais. Deslocados, compatriotas e emigrantes são as únicas amizades que se conseguem fazer. O resto são falsas simpatias, aparências, brevidade, conveniências, efémero, a prazo. Realmente NY não é para sentimentais nem para pessoas que não sejam autosuficientes. Este é o principal lado negro de NY. E obviamente NY não é a representação da América. No mais, NY é uma cidade para aprender, aproveitar, descobrir e viver temporariamente. NY marca-nos para sempre.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Finalmente, a defesa do doutoramento

O RP começou oficialmente o doutoramento em 2007 e defendeu-o no passado dia 11 de Março. Passaram-se exactamente 8 anos. Camadas de tempo. Dizem que para evoluirmos não há atalhos. Só o tempo. E o tempo ensina tudo.

No dia antes da defesa o RP treinou todo o dia sozinho no auditório do 3B’s. Sozinho, como queria. Há momentos assim solitários. Passei por lá várias vezes durante o dia, rapidamente, para ver se precisava de alguma coisa. No fim do dia foi o ensaio geral. O tempo de apresentação deveria ser 20 minutos. Ele não conseguia fazer em menos de 25. Depois de ver uma apresentação completa precisava de deixar o Rui em qualquer lado enquanto eu compraria a prenda dele que me estava destinada. Não consegui nenhuma desculpa. Como não tínhamos lanchado, fomos jantar relativamente cedo, antes das 8. Fomos à Sagres e preferi o balcão, onde quase sempre fico, e onde se está mais resguardado de olhares alheios. O Porto jogava na TV. Eu não dava muita importância. O RP estava meio distraído. Apanhava-o a falar baixinho. Falamos sobre a defesa e do que lhe poderiam perguntar. A hipótese de perguntas era infinita. Mas eu sabia que ia correr bem. Não bebemos álcool. O RP bebeu uma água e eu uma coca-cola. Comemos caldo verde, queijo e salpicão de entradas. E depois um bife grelhado cada um. Fiz-lhe algumas das perguntas que acharia que lhe pudessem fazer. Verificamos, no dia seguinte que três delas coincidiram. Falamos em inglês. Os cozinheiros e os funcionários, que me conhecem, olhavam espantados. E depois sorriam. Acho que o nervosismo era visível. O RP não conseguiu acabar o prato principal dele. Sintomas admissíveis pré-defesa. O jogo ainda não tinha acabado quando saímos. Subimos para minha casa e o RP continuou a treinar. Eu fui levar a Bu à rua. O que deveria ter demorado não mais do que 10 minutos transformou-se em mais de uma hora porque encontramos a Becky e a Zara e os donos. Assim, o RP também esteve sozinho. Esta solidão que antecede uma tese, uma cirurgia, um exame, uma corrida, um parto, um concerto, um espectáculo, um desempenho, não pode ser ajudada nem partilhada. Imprevisível e só como a vida e a morte.

No dia seguinte fui de manhã comprar a prenda com o dinheiro que reunimos. O A. teve a ideia dos livros. Tinha como títulos possíveis: “Despertares” Oliver Sacks, “O imperador de todos os males” Siddhartha Mukherjee e “A vida imortal de Henrietta Lacks” Rebecca Skloot. Não encontrei nenhum destes. Comprei 4 livros: um do Calvin and Hobbes (que o RP gosta muito e cuja frase “sandes de atum” tem como email), e as biografias de Egas Moniz, Einstein e Stephen Hawking. Como agora os sacos de plástico são pagos resolvi també,m comprar-lhe um saco (daqueles que dá para ir às compras) com a frase: “Diz-me o que lês dir-te-ei quem és”.


À hora de almoço o RP e a irmã passaram em minha casa. O RP conduzia. Disse que preferia assim porque assim distraía-se. Enquanto eu e a irmã dele falávamos de trivialidades, ele ia compenetradíssimo a “rezar” (como eu chamo ao discurso baixinho dele). Só nos dizia que não se lembrava de nada e que não conseguia apresentar em 20 minutos. Mas eu sabia que ia correr bem. Só podia correr bem. O RP não é o mesmo que eu conheci no início da licenciatura. Se há exemplo de evolução que conheço é este. O RP não é o típico nerd. É um curioso. É um apaixonado pelo trabalho de laboratório. E para além disso, gosta de ler. Foi ele que me mostrou os livros controversos do Kerry Mullis e do Dulsberg. Foi com ele que falei do George Orwell. Falamos de Herberto Helder. Só (ainda) não me convenceu a gostar de banda desenhada. E para além disto tudo, fala apaixonadamente sobre o seu objecto de estudo. É um encanto ouvi-lo falar daquilo que gosta. E a defesa dele foi assim. Uma conversa fluída cheia de histórias, exemplos e até humor. E concordo com o RLR que o RP argumentou com sabedoria e citou o estado da arte actual. Defendeu a sua causa e arrasou, delicadamente e sofisticadamente, de quase todos. Deu gosto ver. Foi uma defesa com classe. A cereja no topo do bolo. Pouco ajudado nos últimos tempos mas apoiado pelo orientador que o empurrou para este dia. Se não tivesse sido assim, "de repente, não mais do que de repente", provavelmente este dia não chegasse tão cedo. E o RP não desiludiu. Orgulhosa por ter um amigo apaixonado assim por aquilo que faz e que o mostrou publicamente de uma forma tão sublime. Parabéns R, já está! O simples tão difícil!


quinta-feira, 26 de março de 2015

Tarde e noite em Braga

Braga. Tarde de sábado. Tarde primaveril. Tarde amena. Subo a Avenida da Liberdade. Vejo os canteiros de flores em frente ao Theatro Circo. A arquitectura antiga e nova. Contrastes. Passo no Largo Carlos Amarante. Muitos turistas sentados nas escadarias da igreja de Santa Cruz. Uma feira no Largo de São João do Souto. Compro um colar de missangas. Não discuto o preço. Lembro-me da Bahia. Sigo pela Rua D. Afonso Henriques. Reparo no número de lojas e restaurantes novos abertos. Paro na Mercearia Dom Casmurro. Um género de Vida Portuguesa com preços mais acessíveis. Turistas entram e saem. Um pouco de tudo mas principalmente comidas e bebidas. Tudo biológico e de excelente qualidade. Vale a visita. Passamos a tarde entre cerveja Letra, vinho branco, azeitonas, tostas e conservas. Saio de lá com uma pandeireta artesanal, uma lousa pequenina para escrever recados e um patê de ovas de pescada.

Próxima paragem:  Retrokitchen, Rua do Anjo. Desta vez conseguimos mesa. Havia tentado há umas semanas atrás. Cedo. Também no sábado, antes do concerto da Adriana Calcanhotto. Tudo cheio. Lembro-me do cheiro bom. Massada de peixe. Gostei imediatamente do restaurante e da simpatia do dono. Aconselhou-nos a Casa de Pasto das Carvalheiras como alternativa e foi lá que fomos parar.
No Retrokitchen regressamos aos anos 70. Cadeiras e mesas de fórmica. Garrafas antigas de Sumol, 7UP e Pepsi a servir de jarras. Um quadro de escola. Um cão de louça. Copos diferentes. Tudo retro. Não achei kitch. Uma mesa para 8 pessoas às 8:30. Não chegamos a horas, como sempre. Mas aqui a velocidade não é tudo. Não nos dão o menu nem uma lista. Pedimos o vinho. Aconselham-nos um verde da casa. Recuso amavelmente o vinho verde. Mas dizem-me que este é mesmo bom, que devo experimentar e só depois, se não gostar pedir outro. Assim fiz. Provei e não é que era mesmo bom? Não me lembro do nome mas vou saber. Trazem-nos um rolos de massa filo com carne, uma tábuas com fatias de pão e ameijoas à Bulhão Pato. O melhor de tudo não são as ameijoas, mas o molho delas! Fumam-se uns cigarros no pátio e levam-se os copos de vinho. O ambiente é mais do que amigável. Nos entretantos o dono, de seu nome Rui, junta-se a nós. Parece que estamos num jantar em casa. Tudo muito informal. Trocamos muitas vezes entre o pátio e a mesa. Vê-se no pátio a Abelha Maia que esteve muitos anos à entrada de um café na Rua do Souto. Quem viveu em Braga reconhecerá. Começo a chatear a cabeça ao Rui para me dar uma garrafa de 7UP retro. Às 11:00 estamos a começar a jantar. Posta à Mirandesa com umas batatas fritas cortadas às rodelas com casca, acompanhadas de couve branca salteada em azeite. Outros comem salmão. E as vegetarianas comem uma frittata com bom aspecto. As garrafas de vinho multiplicaram-se durante estas horas. Sei que havia sobremesas. Mas não consegui ter estômago para mais. O café, que nunca tomo, foi-me dado no pátio. Que serviço tão bom. Ainda ouvi Tribulations dos LCD Sound System. Quase chorei! Palmas para o Rui e Cláudia que nos fazem sentir em casa e querer voltar. O Rui, no final, foi buscar a garrafa e ofereceu-ma. Está em minha casa numa secretária a servir de jarra e já começou a fazer sucesso.






Copyright: Retrokitchen
Copyright: Retrokitchen
Copyright: Retrokitchen

Próximas paragens: Juno, Latino e Convento do Carmo. Quando saio à noite,  que é cada vez mais raro, não fico num sítio só. Percorremos todas as capelinhas. No Juno, encontra-se sempre alguém conhecido. As caras que fui conhecendo em muitos anos de Insólito. No Latino acontece o mesmo. O espaço está ligeiramente diferente, sem o bilhar no centro da sala. O Convento do Carmo é um edifício lindíssimo mas falta ali qualquer coisa que não sei explicar. Talvez as pessoas. Tem dois espaços com músicas diferentes. Paga-se para entrar.


Braga está bem e recomenda-se. Acho que começamos a voltar aos saudosos finais dos anos 80 em que Braga foi o centro da movida. O que vi, surpreendeu-me pela positiva. Aproveitemos o momento!

terça-feira, 24 de março de 2015

Ver crescer os sobrinhos

Há umas semanas os meus sobrinhos tiveram a emoção da vida deles, tendo em conta a tenra idade. Entraram em campo de mãos dadas com os jogadores do Porto e do Braga. O mais velho foi de mãos dadas com o guarda-redes do Braga (que eu não sabia quem era, e continuo a não saber) cujo nome é Mateus. O afilhado, segundo o meu irmão, entrou amuado porque na sorte calhou-lhe um jogador do Porto. E como o rapaz é do Benfica, a coisa não correu bem. Lá entrou de mãos dadas com o Hernani, que também não sei quem seja. Quando cheguei a casa, nessa noite,  já dormiam e só no dia seguinte contaram a aventura. O afilhado mal acordou veio enfiar-se na minha cama para contar os pormenores. Não me falou do amuo. E disse-me que o jogador que lhe deu a mão lhe perguntou o nome. A aventura para ele foi mesmo pisar a relva. O mais velho disse-me que a maior emoção tinha sido entrar no campo e ver uns meninos nus ( o que ele deve ter visto foram os membros da claque em tronco-nu) com umas bandeira gigantes e fogo vermelho. O que eu me ri com esta descrição. E ainda me disse que cantou o hino do Braga enquanto esperava no túnel de mão dada com o seu jogador.

No dia do pai achávamos todos que jantassem com o pai e connosco. Como os meus sobrinhos dependem da vontade da mãe deles, esta não autorizou que jantassem com o pai. Por essa razão, o meu irmão esteve apenas com eles pouco mais de uma hora. Eu, já tinha chegado a Braga, quando recebo um telefonema do meu irmão a dizer que o meu afilhado não parava de chorar porque queria estar comigo. Sem olhar nem para trás, fiz-me á estrada para estar com os meus sobrinhos não mais do que 30 minutos. Mas a alegria de os ver com o pai e os abraços apertados que me deram, salvaram-me o dia.


No sábado passado fomos a uma sessão de um género de yoga  que envolvia adultos e crianças. A ideia é que os miúdos imitassem os adultos ou os adultos imitassem os adultos. Os meus sobrinhos não gostaram do que eles apelidaram de ginástica. Mas eu achei que foi uma coisa divertida. Imitámos animais, fizemos túneis, relaxamos. O que o meu afilhado mais gostou foi das massagens e o mais velhos gostou de imitar o leão.

quinta-feira, 19 de março de 2015

O dia do pai

Hoje de manhã cheguei ao meu trabalho e um dos meus amigos mostrou-me o presente da filha que está quase a fazer um ano: a mão da filha marcada no papel com tinta cor de rosa. A alegria dele de ser o primeiro ano que comemora, como pai, este dia. Outro dos meus amigos vai à festinha do colégio da filha, embora a filha o avisasse que nem todos os pais podiam ir. Mas este pai podia e foi.

De há uns anos para cá, tudo o que seja festejos, festas, comemorações, dias evocativos, celebrações, são mais de tristeza e medo do que alegria. Sempre de coração na mão. Sempre à espera da última decisão. Do poder que alguém humano decida de acordo com a sua vontade. Os crentes na humanidade, pessoas normais que nunca passaram (felizmente) por uma situação destas poderão perguntar: a justiça não funciona? Não. A justiça é lenta e lenta como é perde dias, meses e anos de situações que são irreparáveis. No Natal, Passagem de ano, dia de anos do pai, dia do pai, dias de aniversário... são sempre de expectativa e de prece silenciosa para que tudo corra bem.

Quando há uma separação, o interesse maior deveria ser salvaguardar os filhos. Pois bem, na maioria dos casos, infelizmente, os filhos são usados para causar as piores dores de todas: distância, saudade e ausência. Privar um dos progenitores de estar com os filhos. Eu pergunto-me o que terá na cabeça uma pessoa que faz tudo para evitar que os filhos estejam com o pai, nestes dias particularmente, que um pai tem direito a estar  com os filhos? Que ódio gigantesco é este que permite afastar um pai dos filhos? O que leva uma pessoa a não informar a escola e as informações escolares de um filho? Que troca a escola dos filhos todos os anos sem informar o pai? Que maldade é esta que permite que se não atenda os telefonemas do pai e da família do pai? Que avassaladoras atitudes são estas que permitem que os filhos sejam considerados propriedade de uma pessoa? Que amor é este? Que palavra se pode dar a isto? Que magnânime poder é este que alguns humanos têm de provocar um frio na barriga e um aperto no coração que deve ser semelhante aqueles que percorrem o corredor da morte?

Como me dizia uma amiga há dias, estou descreste nesta humanidade. Que vida tiveram alguns para ter este tipo de atitudes? Acho que nem a medicina nem a justiça os pode salvar...

Este texto não tem a ambição de encontrar respostas nem para ter explicações. É apenas de desabafo de quem nunca falou em público sobre esta dor que presencia diariamente e a partilha.

Eu, que tenho o melhor pai do mundo, hoje, como sempre que quero, vou estar com ele. As minhas palavras são de conforto e de esperança para todos os filhos que têm os pais vivos e que não podem estar com eles. Dicas de leitura: os livros da Maria Saldanha Pinto Ribeiro e o último do Daniel Sampaio “O Tribunal é o réu”.

terça-feira, 17 de março de 2015

Mísia no Theatro Circo

Braga, 6 de Março de 2015

Eu, ignorante em música, confesso-me. Tenho 35 anos, vivo entre Braga ("O penico do mundo"), NY ("A grande maçã") e Lisboa ( "A grande alface") e menos por outros lugares do mundo aos quais se chegam pelos ares. Considero-me instruída. Dizem que leio muito. Tenho um doutoramento. Viajo muito. Já estive em todos os continente excepto na América do Sul. Durmo muito pouco. Por isso, penso muito. Quase não oiço música. Leio todos os dias os jornais portugueses e New York Times. Leio todas as semanas o Expresso. A única rádio que oiço, quando oiço, é a TSF. Quase não vejo TV. Tudo isto para dizer que apesar de tudo o que mencionei, nunca tinha ido um concerto da Mísia. Ontem foi a primeira vez!  Não encontro uma explicação razoável, nem desculpas coerentes. Digo apenas que é uma vergonha este facto. Mas, como o ditado, mais vale tarde do que nunca. E nunca uma frase combinou tanto com uma situação. 

Ontem percebi o que perdi nestes anos todos. Não tinha qualquer expectativa. Fui ao concerto porque era indesculpável que uma pessoa como eu que já fez loucuras para ver uma ópera, um ballet ou uma peça de teatro, que já pagou fortunas para estar num determinado dia em determinada cidade, que conheceu quase todas as pessoas portuguesas e estrangeiras que queria conhecer, não tivesse visto um (que fosse) concerto da Mísia. Esta cantora mais conhecida fora do que dentro do país. Esta pessoa que eu nada sabia ou conhecia para além de estar sempre impecavelmente vestida e penteada, uns cortes de cabelo contemporâneos, que cantava uns fados. Como a maioria das pessoas, e sem nenhuma razão plausível, achei que morava fora de Portugal. Talvez em Paris, no meu imaginário. Ouvi, repetidas vezes, tempos a fio, até à exaustão um fado na voz dela, que até hoje não sei se é das suas músicas mais conhecidas: "O Corvo" ("Tenho um corvo à flor da pele/ vive de uma ferida aberta/ acorda quando me deito/ levanta voo do meu peito/ sempre sempre à hora certa/...entra pela minha vida/ como a lua num jardim / pendura tudo o que valha/ no gume de uma navalha/ traz-me pedaços de mim/ tenho um corvo à flor da pele/ um irmão da minha idade/ acorda quando me deito/ levanta voo do meu peito/ diz que se chama saudade").

Um piano e uma voz. É assim este concerto. Um maestro (Fabrízio Romano) que tocava tão bem que parecia cantar com as mãos. Belíssima performance. Mísia introduziu cada música com detalhados monólogos. Delikatessen Café Concerto é um jantar em tempos de crise que Mísia imaginou um dia que estava em casa. As músicas são sobretudo das décadas de 50 e 60. Começou com a primeira canção do disco Fado do ciúme. As histórias que foram descrições de acontecimentos reais como a coincidência de ter encontrado num alfarrabista telegramas de artistas dessa época. Contou também a história  do poema de Tiago Torres da Silva sobre o altar que tem em casa com santos de todas as partes do mundo. Confessou-se agnóstica mas que acha que aqueles santos, rodeados por fotos da família e amigos, põem-se todos de acordo e protegem-na. Falou também de um poeta espanhol que morreu na prisão e nunca chegou a conhecer a filha e que para ela fez uma canção de embalar: Nanas de la cebolla. Destacou os amigos Eduardo Prado Coelho e Vasco Graça Moura que diz fazerem-lhe muita falta. A segunda parte do concerto, na qual mudou de roupa, virou-se para o fado: Que fazes aí Lisboa?, Sem saber. O poema Veste de noite este quarto foi escrito por António Lobo Antunes para o cantor Vitorino Salomé. Mísia perguntou se sabíamos quanto tinha ficado o jogo Braga-Porto. Disse não se interessar por futebol nem saber deste jogo mas que quando chegou perguntou “Onde está o público?”. Mas apesar de a sala não estar cheia, para ela, é como se estivesse. E, por isso, foi longamente aplaudida. Duas das músicas com que terminou, entre elas Espelho quebrado, fazem parte do disco que será uma homenagem a Amália. Será lançado no outono e chamar-se-á Para Amália. Fez um demorado elogio a Amália, não só como cantora e intérprete, mas como grande talento para a escrita de poemas e a sua contemporaneidade (mais do que Edith Piaff e Billie Holiday)

Descobri uma cantora totalmente desconhecida para mim. Diz-se tímida. Mas tem um humor judeu que adorei. Ama os poetas e os poemas. O poeta que mais cantou foi Vasco Graça Moura (que eu tanto gosto e que fez a tradução brilhante e que eu conheço do livro Divina Comédia de Dante). Cantou o meu querido António Lobo Antunes. No intervalo das músicas conversa. Conta histórias. Não sei se foi improviso. Eu prefiro acreditar que sim.

Eu prefiro fingir acreditar na desculpa para o concerto estar meio vazio foi de coincidir com o dia e hora de um jogo Braga-Porto. As "mentiras piedosas", como Blanche Dubois chama-as no Eléctrico chamado desejo de Tennessee Williams. Porque será que eu sempre tive capacidade para decorar falas de diálogos de livros e nunca tive capacidade para decorar matéria quando era estudante? Alguma explicação científica deve haver para este fenómeno

Terminou com um agradecimento ao público que para ela encheu a sala, a transbordar.O encore foi somente com Lágrima de  Amália, que para mim é tristíssima. Dedicou-a ao seu fiel amor, o público. Aplaudida de pé, mais uma vez, como bem mereceu. A sala não estava cheia nem perto disso. Mas o entusiasmo era o equivalente.


Estava na primeira fila. Esperei um pouco para as pessoas que estavam atrás de mim, agora à frente, saíssem. Quando vejo a Adriana Calcanhotto. Se não fosse verdade diria que estava a alucinar. Encontrá-la por mero acaso, em duas cidades diferentes, no espaço de duas semanas, em locais que não era os concertos dela,  qual seria a infinitésima possibilidade? Tento passar despercebida por ela. Prefiro que não me reconheça. Eu e o meu medo de os outros acharem que o meu desconforto é directamente proporcional ao deles, nestas situações. A evitar, por isso. Eu, que tenho capacidade social de uma criança tímida de quatro anos. Sim, quase um bicho do mato. Ultrapasso, o melhor que posso, esta "pedra no caminho". Vou comprar o último CD  da Mísia Delikatessen Café Concerto que não tinha encontrado em lado nenhum em Braga, Guimarães e Lisboa. Mas que a Mísia tinha-me dito que estaria disponível para venda no Theatro Circo. E já que ali estava, eu e o CD, num concerto que adorei e que não sabia quando se iria repetir. Dei um pontapé, a custo, à minha timidez e vou aos camarins. Esta sim, a verdadeira situação constrangedora. Se há situação constrangedora é esta. Estar ali à espera de falar com uma pessoa que não nos conhece, a quem vamos dizer umas palavras amáveis e gentis, iguais às dezenas de outras pessoas. Que vamos ser apresentadas, mas que se for como eu, no dia seguinte não se lembra do que comeu na refeição anterior. Quando cheguei ao camarim, a Adriana estava a despedir-se da Mísia. Eu não lhe queria dizer nada para além dos parabéns pelo magnífico concerto. A Mísia assinou- me o CD que eu vou ouvir até enjoar no carro. E eu desci no elevador e pelos labirínticos corredores do Theatro Circo. 




quinta-feira, 5 de março de 2015

As três (velhas) irmãs - uma memória de Tchékhov

Nesta peça as biografias das actrizes (Graça Lobo, Mariema e Paula Só) combinam-se ou confundem-se com as das personagens do belíssimo texto de Tchekov: a ficção do texto original e a representação da realidade ou a autorrepresentação. Martim Pedroso, encenador da peça, participa também como actor, funcionando como “o ponto” e dando-lhes deixas,  comprimentos, a comida, uma espécie de cuidador". As memórias das actrizes confundem-se com as memórias das personagens que interpretam, as três irmãs: Olga, Macha e Irina, que ainda sonham em ir para Moscovo. Tal como a peça de Tchékhov, esta também acaba mal. As três mulheres não vão para Moscovo e ficam na pasmaceira da sua casa.  Há fotos a preto-e-branco que espalhadas no cenário que destacam os momentos mais importantes da carreira de cada actriz.

Há muito tempo que não me sentia assim depois de assistir a uma peça de teatro! Que privilégio ver a interpretação destas três grandes actrizes. Mostram que a idade não é só velhice mas posto, sabedoria e talento! Tão preocupada em aplaudir que nem tirei fotos...



Copyright: Alípio Padilha

Copyright: Público

quarta-feira, 4 de março de 2015

Caminho como uma casa em chamas

Este livro, último de António Lobo Antunes, tem como capítulos os diferentes apartamentos. É descrito a várias vozes, os vários narradores e a polifonia tão característicos da sua escrita.

Segundo direito. "sem gosto, os azulejos da cozinha atrozes, por baixo um casal de judeus emigrados...e um bêbado  com a família do outro, no terceiro uma actriz idosa...um prédio sem elevador nem garagem". "Até adormecer num divãzito que não existe mais, abraçado a um leão de pano a que falta uma orelha e mesmo sem orelha me defendia do mundo". " Nem no meu casamento bebi, apesar de tão aflito não bebi"." Não sei se sou infeliz, como se mede a infelicidade, devo ser infeliz..."

Segundo esquerdo. Juíza maltratada por todos os namorados mais novos. O marido deixou-a quando as crianças eram pequenas. 59 anos. Morou em Castelo Branco. Com peso a mais. Acha-se feia: " demoro-me numa loja até os espelhos me expulsarem, o rosto que se alterou, a cintura que já não tenho, a forma de andar que não acredito ser minha". Usa placa. Os filhos desprezam-na: "os meus filhos não telefonam, não escrevem, a indiferença deles magoou-me, não me magoa já", ... " os meus filhos adormeciam com o meu dedo na mão e hoje nem um postal me escrevem quanto mais um telefonema ou um retrato". Pedem-lhe dinheiro emprestado. Sente-se sozinha: "em certas noites quando as vozes do silêncio nos inquietam". A quem os namorados batem e chamam "pudim de banhas". E velha: " o meu cheiro a velha porque a pele se alterou, o cabelo grisalho' as rugas, a coluna...". "A idade roubou-ma, a minha pele, o meu marido, o meu avô, quase tudo, não refiro os filhos porque não são nossos, emprestam-nós e vão-se, os meus emprestaram-mos durante vinte anos e a seguir perdi-os, primeiro custou, depois habituei-me, hoje é-me igual, estiveram aqui, não estão aqui, não me pertencem mais". Tem um piano que frequentemente interrompe o silêncio. 

Primeiro esquerdo. Bêbado. "Bebe para espertares miúdo". "Aceitava por obediência porque me ardia na garganta, depois calor, depois os ossos fosforentes, depois o corpo que demorava a tornar a ser meu e o coração no umbigo"."O silêncio depois de pancadas e gritos". "Nunca encontrei degraus tão complicados, sempre a mudarem de posição e cada vez mais altos". "Na altura não era do sabor que gostava, era de sentir-me feliz, bastava-me um golfinho para conseguir voar, tão simples tudo, tão real! Se me perguntassem qualquer matéria na escola não falhava um resposta". Tem uma filha chamada Alexandra. A mulher e a filha riscaram-no do mapa, se se cruzarem na rua não se conhecem.

Primeiro direito. Judeus. "Falam em estrangeiro"

Terceiro esquerdo vive o tenente velhote, xenófobo e racista: "não se conhece a razão, alguns pretos dedicam-se, não pedem, não reclamam, não falam, acompanham a gente é obedecem", " mesmo mulatos alguma coisa lhes há-de entrar na cabeça até os animais aprendem".

Sótão: "uma tosse, um cochicho", "oiço-lhe os passos". "Contam que Salazar não faleceu, se esconde por aí continuando a mandar".

Terceiro. A actriz "lançando flores invisíveis ao público invisível". "Adoram-me". "Sou uma estrela", "encho plateias". "Mostra a esse vizinho simpático o cartão que o Salazar me enviou". " jantamos uma sopa e para chegarão fim do mês é o cabo dos trabalhos". A actriz tem 91 anos. Há muito tempo que não sai de casa, vive com a pseudo sobrinha amarradas pela pobreza. Poupam na luz para não gastar electricidade. Delírio puro: "tanto ruído no interior de mim onde actualmente silêncio que só os aplausos à minha tia que não é minha tia interrompem, tanta gente de pé na sala deserta e ela a sorrir para a direita e para a esquerda enviando beijos".

Os personagens e as vozes alternam entre o bêbado, os judeus, o cego, a actriz decadente que acha que o Salazar tem um fraquinho por ela, a cuidadora da actriz: "mora com uma velha maluca a cair da tripeça e tratá-la por tia...dama de companhia de uma actriz que foi quase esposa de Salazar"), o militar, maus tratos infligidos pelos filhos, violência doméstica... Um universo de solidão ("Manhãs mais compridas, tardes curtas, noites longuíssimas", "apesar de tudo prefiro as censuras ao silêncio da ausência, ligo o aspirador, deixo-o trabalhar para me sentir acompanhados"), decadência, depressão, envelhecimento que é comum a todos os personagens ("esses fluidos dos idosos...que o corpo não segura, custos, suores, gotas no nariz, misérias, pingos vermelhos sem relação com as lágrimas...não choram, babam-se apenas", " o suplício das escadas, sapatos que se elevam puxados pelas gruas das pernas"Todos eles vivem amarrados ao passado. Alguns com terror do passado. Gente psicótica com a mania da perseguição. Gente com muita falta de afecto. A temática da guerra sempre presente, mesmo que de forma subtil. Há, também, sempre um médico. A maioria dos personagens não tem nome. A narrativa do livro parece passar-se no outono, não por acaso, a mais triste das estações do ano.

António Lobo Antunes parece usar as suas memórias reais, como por exemplo, o seu pai, professor conceituado de Medicina e assistente de Egas Moniz, quando consultou Salazar aquando da sua  célebre queda da cadeira: "-Salazar um gigante - disse o professor. - Vi-o como daqui para aí." E dos tempos de aluno de Medicina: "cerebelo hipotálamo calcâneo" prédio situa-se algures em Lisboa. O enredo  divide-se, ou refere-se pontualmente, a Castelo Branco, Portalegre, Carcavelos, Barreiro ou a "genérica" província ("todas as terras da província se assemelham mais igreja menos igreja").

Sempre com pormenores detalhados sobre o comum quotidiano e sempre com um revivalismo e saudosismo dos anos 70/80: " a lavar a marquise com a esfregona". "O horror dos domingos quando as vozes da infância nos visitam". Os poucos nomes de personagens, alguns são pindéricos: Sofia Rosa. Descreve sempre situações com uma memória fotográfica surpreendente. A descrição pormenorizada de sensações como a náusea: "o corredor às voltas, no quarto um abismo e eu agarrado ao colchão". Analepses e prolepses constantes entre a infância e o presente.


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A noite catártica de Adriana Calcanhotto na Gulbenkian

Este era para ser o concerto que encerraria "Olhos de onda". A tournée começou há aproximadamente dois anos em Lisboa. Um concerto concebido propositadamente para a comemoração dos 20 anos da Culturgest, primeiro palco que Adriana havia pisado em Lisboa. Este concerto na Gulbenkian seria o último. Em Lisboa começou e em Lisboa acabaria. Infelizmente, a mulher de Adriana, Susana de Moraes, faleceu há quase um mês e por esse motivo Adriana teve que adiar os concertos de São Paulo que antecediam o concerto de Lisboa. Não sei qual o motivo, mas a verdade, é que já que o concerto de Lisboa não seria o último, "Olhos de onda" não tem planos de terminar, pelo menos, para já.


Ontem, depois de ter adormecido às 7 da noite e acordado às 2 da manhã, andei a tocar viola até ser dia.... Mas como tinha pequeno-almoço incluído até às 10:30, não tinha como não aproveitar! Acordei, tomei banho em 5 minutos e em 10 estava pronta... O que significa que eram 10:20 quando desci no elevador. A porta do elevador no restaurante abre-se e tenho uma adolescente a fazer um demonstração de karate com direito a som e tudo! Quando a porta se abre ia morrendo com o susto e ela não se conteve com o riso! Ainda não refeita do susto, que me ia provocando um ataque cardíaco ( há duas coisas que eu não aguento: sustos e surpresas!), dirijo-me aos expositores com vários pães... A primeira coisa que vi. Tentei suspirar de alívio! Vou a pegar num prato e exactamente ao meu lado vejo uma pessoa com uns óculos escuros gigantescos! Aí ia morrendo verdadeiramente. Tento disfarçar para não deixar cair o prato. Devo ter dado um ar de malcriada e virei-lhe as costas para fingir que não a reconheci. E para ela não ficar tão incomodada como eu. Peguei no primeiro pão que vi, num pacote de manteiga e numa maçã. Ela continuou na vida dela e eu fui em direcção a uma mesa que me tinham atribuído junto à janela. Não mais me levantei e tiveram a amabilidade de me trazer o café à mesa. Eu felizmente tinha levado um livro que me ocupou o tempo. E a atenção.

Depois de ter comprado uma camisola verdadeira do Benfica para o afilhado  e uma das poucas coisas que o sobrinho mais velho não tem do Cars 2, quase que chegava atrasada ao concerto, que começou exactamente à hora marcada. 

Adriana entrou no palco vestida de cinzento, o traje habitual do espectáculo, a única diferença é que tem uma echarpe. Os cabelos estão presos. No palco somente o banco, a viola, o microfone, uns livros onde coloca o pé direito e uma mesa com uma garrafa de água. O concerto começa como no original com "O nome da cidade". "Maresia" passou de canção final para segunda. Seguiu-se "Inverno". Aqui percebeu-se o quanto estaria a ser difícil este concerto para ela. O dilema, aquilo que ela gosta tanto de fazer, numa cidade que ama, mas num momento tão delicado da vida dela. Enganou-se na letra. Esta letra que António Cicero dedicou a Susana de Moraes. Nem quero imaginar o nó que tinha na garganta. Isso foi tão perceptível nas explicações seguintes de "Para lá", "Sem saída" e "Motivos reais banais", em que uma Adriana entalada, com a voz quase embargada e com a tosse e a voz  (quase) a atraiçoa-la. Até eu me senti nervosa por ela nesses momentos. Uma das canções inéditas foi um poema de Sá-Carneiro que ela musicou para um sarau com a Professora Cleonilde Beraldinelli, especialista em Fernando Pessoa e Doutora Honoris Causa por Coimbra:

Senhora dos olhos lindos,
Por que é que sois tão cruel?
As pombas não têm fel,
E vós sois pomba, senhora...
Tormentos vários, infindos,
Sem dó, me fazeis sofrer...
Morto, vós me qu'reis ver,
Não é verdade, traidora?
Respondei! Ficais calada!
Neste caso, adivinhei...
Pois muito bem! morrerei...
Morrerei, sem ter pesar!...
Minha vida amargurada
Eu vos vou dar, deusa qu'rida...
Antes porém da partida
Dai-me a esmola de um olhar.

Um dos momentos altos da noite foi quando introduziu a canção "Susana" que  ela explicou que escreveu entre 20 ou 21 de Março do ano passado e que tinha falado disso num programa "Alta definição" para um menino, Daniel Oliveira, que é perigo em todos os sentidos. A letra falava de mar, de desertos...

Em tantos concertos que assisti da Adriana Calcanhotto nunca a vi interagir tanto com o público. Parecia um género de exorcizar a dor. Explicou quase todos os poemas. Contou piadas. Com o seu humor tão característico. Sentiu-se que ela estava ali inteira e o público recebeu-a com um silêncio inquietante mas com palmas ensurdecedoras no final de cada música. Adriana de certeza que se sentiu abraçada, especialmente hoje. Aplaudida sempre de pé das vezes que regressou ao palco. Quando lhe pediram no último encore "Fico assim sem você" confessou que ali não podia negar nada e revelou-se surpresa pelos concertos do seu alter-ego, Partimpim, estarem ambos esgotados. Uma noite grande, comovente, inesquecível, apoteótica, catártica, como só algumas têm o privilégio de ser. Uma noite daquelas, nas suas palavras.



Créditos: Catarina Henriques



sábado, 14 de fevereiro de 2015

Um amor de 26 anos

[Para a Susana de Moraes, in memoriam ]
Foi um amor que durou 26 anos. Sucumbiu, apenas, com a morte. Casou-se 7 vezes, isso herdou do pai. Mas um dia um amor fulminou-a e prendeu-a 26 anos. Qual o segredo? Foi o amor. O que mais poderia ser? Encontraram-se. Esse privilégio que só alguns têm na vida. Nas palavras de familiares e amigos, Susana, era uma pessoa fascinante, uma mulher incrível, forte, lutadora, inteligente, culta, bem-humorada, chique, admirável, generosa, amiga, sofisticada, interessante, alegre, incentivadora, conselheira. Uma pessoa única. Qualquer pessoa que a conhecia ficava encantada. Enfrentava tudo com muita força. Uma das irmãs apelidou-a de "nosso farol", "guia" e "matriarca". Como Vinicius escreveu:

"A redação seria a coisa mais triste do mundo, não fosse a presença inesperada de Susana. Susana com seus 13 anos em flor, sua sábia beleza, seu doce e triste olhar castanho e sua perfeita desenvoltura encheram a redação de uma vida inesperada, fazendo-me por alguns instantes esquecer a mesquinhez do cotidiano. Ela entrou nos amplos espaços do meu tédio com passos graciosos de dançarina e ficou a girar por ali, balançando os cabelos longos sobre os ombros firmes de adolescente. Pus-me a adorá-la como nunca dantes, àquela menina a quem dei vida, e nunca senti mais forte, doce, secreto, o elo que a ela me prende. 

Talvez para os outros sua jovem figura trouxesse apenas o encanto uma flor em desabrochamento. Para mim, seu pai, trouxe uma sensação de indizível amor, de um triste, fatal e pacífico amor sem remédio. Revia-a pequenina em meus braços diante de um branco céu crepuscular olhar para o alto anunciando-me que as estrelinhas estavam acordando. Revi-a a me olhar do seu modo sério quando lhe contava histórias, longas histórias por vezes inventadas
 e que nunca eram bastantes para a sua imaginação insone. Revi-a crescendo diante de mim qual planta misteriosa, estirando o caule,
distendendo os ramos numa ânsia saudável de crescer. Agora ali estava ela a dançar sua maravilhosa dança ritual só para mim, nos infinitos espaços do meu silêncio - Susana, uma vida tirada de mim, 
uma menina que eu fiz para amar com a maior doçura do mundo: Susana, flor de agosto, filha minha muito amada, para quem eu cantei meus mais sentidos cantos e sobre cujo pequenino rosto adormecido despetalei as mais lindas pétalas do meu carinho".

Um dos poemas mais bonitos de António Cicero, que é também uma das canções mais bonitas da Adriana Calcanhotto, chama-se "Inverno" e fala do momento inicial, do início da paixão, do atordoamento. E é assim:

No dia em que fui mais feliz
Eu vi um avião 
Se espelhar no seu olhar até sumir

De lá pra cá não sei
Caminho ao longo do canal
Faço longas cartas pra ninguém
E o inverno no Leblon é quase glacial.

Há algo que jamais se esclareceu:
Onde foi exactamente que larguei
Naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?

Lá mesmo esqueci
Que o destino
Sempre me quis só
No deserto, sem saudades, sem remorsos, só
Sem amarras, barco embriagado ao mar

Não sei o que em mim
Só quer me lembrar
Que um dia o céu
Reuniu-se à terra um instante por nós dois
Pouco antes do ocidente se assombrar

"Qual é a resposta?/ Me diga, então/ Qual é a pergunta?" São os primeiros três versos do "Tema de Alice" do filme "Mil e uma" da Susana Moraes e o primeiro destes versos é a pergunta que Alice B. Toklas fez a Gertrude Stein quando esta se encontrava no leito da morte. Quase tão profunda como a declaração da sua mulher, Adriana Calcanhotto, no mesmo dia que morreu: "Fui a mulher mais feliz do mundo nestes 26 anos em que estive com ela. Uma grande mulher, inteligente, engraçada, culta, amiga dos seus amigos, que teve uma vida extraordinária, e que vivia cada segundo como nunca mais. Morreu de mãos dadas comigo. Foi-se o amor da minha vida".

Através da neta mais velha, que tem o meu primeiro nome, e que é uma beldade (nas palavras da avó Susana) conheci um texto lindíssimo que é uma carta de Susana ao pai, Vinicius de Moraes, e que pode se lida aqui.

Há muitas pessoas que passam pela vida sem encontrarem um amor assim. É um privilégio conseguir-se isso!


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O dia que a Bu fugiu

Nunca imaginei um dia assim. Vivo por antecipação muitos dos dias da minha vida. Imagino cenários, antecipo situações, sofro por antecipação, sonho alegria e tristezas, imagino conversas, tento o simples tão difícil. Mas nunca imaginei que a Bu um dia fugisse. Era uma sexta à tarde e ligaram-me. Fiquei parada sem reacção. Não sabia o que fazer. Não sabia por onde começar. Liguei primeiro para uma amiga e para o meu irmão. Ficaram os dois como a noite. Liguei para um vizinho meu que tem duas cadelas para me aconselhar. A Bu fugiu porque é uma medricas. Estava a passear sem trela e ouviu um barulho grande e fugiu com o medo. Desorientou-se. A bem da verdade, ela nunca é orientada. O tempo que demorou a chegar a Braga foi uma eternidade. Preparei-me psicologicamente para que o pior tivesse acontecido ou fosse acontecer. O meu medo não era que a roubassem ou que se perdesse porque ela tem chip e uma placa com o nome dela é com o meu telemóvel. O meu receio é que fosse atropelada. Com uma rua cheia de trânsito à frente de casa nunca imaginei um bom cenário. Quando cheguei a casa comecei por procurar o Poeta e pedir-lhe que a procurasse e espalhar a notícia. Depois fui à pastelaria. Estava tudo em alerta. Depois fui procurá-la a pé a chamar pelo nome dela. Quando achei que a vi, avistei- a ao longe. Uma coisa pequena a andar junto ao rio. Comecei a gritar o nome dela. E ela imediatamente parou. Não correu, não andou, simplesmente parou. Rodava a cabeça sem sair do lugar. E quando cheguei ao pé dela ela não reagiu com a euforia e o barulho de sempre. A excitação era muita mas não se ouvia apenas se via. Desde esse dia que reparo que está muito mais atenta e que não foge. Desde esse dia que não mais a passeei sem trela.



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