terça-feira, 14 de junho de 2016

Uma carta para os pais, para os homens, e para a família deles:

- Quando se casarem, mesmo que descubram que se enganaram, que a pessoa com quem se casaram não existe mais, que tudo não passou de uma ilusão, que as pessoas de facto não mudam (só se for para pior), não coloquem a hipótese de se divorciarem;

- Se por acaso tiverem filhos, o problema (só) aumenta exponencialmente, e em vez de “não colocarem a  hipótese de se divorciarem” mudem para “nunca se divorciem;

- Leiam as estatísticas de quantas mudanças, guardas, e responsabilidades parentais foram atribuídas aos pais (homens) desde a última mudança da lei. Acreditem nelas (porque existe a tendência para achar que é mentira e que os direitos são iguais, afinal estamos no séc. XXI);

- Quando vos disserem que os direitos de pais e mães em relação aos filhos são iguais, riam-se e relativizem. Nem sempre o que está escrito corresponde à verdade. O Direito não é uma ciência e muito menos exacta;

- Quando vos disserem que os magistrados são a classe mais bem preparada do país, esqueçam. A quantidade de juízes e procuradores aplicados, estudiosos, competentes, progressistas e que não sejam tendenciosos é como encontrar um grão de areia branca num areal preto (Eu que nunca mais oiça dizer que os médicos portugueses são maus porque me vai dar um ataque);

- O máximo que poderão esperar da decisão do tribunal é a “chapa 5”: um jantar todas as quartas-feiras, um fim-de-semana de 15 dias, Natal, Páscoa e aniversários à vez e uma via sacra de martírios, de vergonhas, de cenas, de espectáculos, de insultos, de mentiras e gastos de rios de dinheiro em Psiquiatria;

- Pelas experiências empíricas que conheço, em 4 anos, zero sessões de julgamento para alterações da guarda. Apenas, conferências de pais, requerimento para aqui e para ali, relatórios de psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, CPCJ, hospitais, papéis, tinta, muita tinta, resmas e resmas que ninguém lê, árvores abatidas;

- Encontrem conforto nas palavras dos poucos que ainda defendem  as crianças, não ligando ao género dos pais, mas aquele que é mais competente. A anotar: Dr. Maria Saldanha Pinto Ribeiro e Prof. Daniel Sampaio;

- E para aqueles que acham que as mulheres são todas iguais, não generalizem. De facto, as grandes mulheres existem e andam aí: “Vou dizer uma coisa que muitas mulheres detestam que eu diga, mas, hoje em dia, há muitas situações em que os homens são prejudicados e são discriminados. Dou como exemplo o que acontece na regulação do poder paternal. Normalmente o que acontece é que as mulheres, por serem mulheres, são beneficiadas judicialmente em detrimento dos homens. Não estou a dizer que não haja casos em que isto faça sentido. Agora não pode ser um princípio geral de que as mulheres serão sempre melhores como mães. Isto é uma questão de igualdade e mais, é de bem-estar das crianças. Não podemos defender a igualdade dizendo que nós somos mais iguais que eles. Não. O que temos de discutir hoje é a igualdade em tudo, quer nos casos em que as mulheres são discriminadas quer nos casos em que os homens são”-Doutora Graça Fonseca, actual Secretária de Estado Adjunta e da Modernização Administrativa, Jornal Público, 01/02/15.

- Ser crente ajuda. Para quem tem fé, acredita que se a justiça dos homens não funcionar, a justiça de Deus funcionará. E mesmo quando tudo parecer perdido, há sempre um milagre à espreita. Para quem não acredita, para além de não encontrar conforto terreno, passará acreditar que existe sempre mais fundo;


- Termino a sugerir a todos os licenciados e mestres em Direito: escolham como tema de doutoramento uma análise de decisões dos Tribunais de Família e Menores do norte do país (tradicionalmente mais conservador) e comparação das decisões da guarda dos filhos por género.

domingo, 12 de junho de 2016

O elogio a uma vida boa e longa

Hoje vamos exaltar apenas as virtudes e a qualidades de um homem de família. Marido. Pai. Irmão. Amigo. Um homem austero. Sério. Duro. Forte. Conservador. Tradicional. De bom gosto. Antecipava cenários e crises. Por vezes, exagerado. Trabalhador. Crente. Defensor das mulheres. Sempre defendeu a sua emancipação e a sua independência, sobretudo profissional. Conversador nato. Recto.

Teve uma vida boa. E quando a doença apareceu não houve muito que a Medicina pudesse fazer para o curar. Aceitou a doença e foi um bom doente. A voz, que era a sua característica e identidade, modificou-se, mas não se perdeu.

A última vez que o vi, tinha já sido diagnosticado. Uma semana antes da Páscoa. Se eu não soubesse não acreditaria. Estava igual ao que sempre foi. Crítico da política. Elogiou grandes homens. Criticou maus exemplos. Propunha soluções. Acompanhado, como sempre, pelo seu vinho branco que tanto orgulho tinha. Como sempre à volta da mesa e do famoso lanche. O que eu vi naquele dia foi um homem (ainda) cheio de energia e optimismo que me mostrou como se via mensagens no telemóvel e um cartão pré-pago especial para falar quando quisesse com a minha madrinha na Austrália. Nesse dia, levei duas garrafas de jeropiga, que lhe disseram que eu gostava. De facto, a melhor jeropiga do mundo. 

Como no salmo, o Senhor foi sempre o seu Pastor e por isso nada lhe faltou. Nos últimos dias, quando as forças lhe começaram a faltar, nos limites da condição humana, viveu uma vida de qualidade, apesar de difícil. As noites eram longas e silenciosas. Sempre contou com a melhor das ciências dos homens e com a Graça de Deus para não ter medo. Aceitou e soube viver com isso. Não se revoltou nem desistiu.

Nunca é fácil perdermos uma pessoa que gostámos. E sobretudo, achamos (sempre) que foi cedo demais e que tinha (ainda) tanto para dar. Mas a parte boa é que teve 79 anos de vida saudável e sem limitações.Teve o fim da vida ideal e que todos desejam. Rodeado e assistido pela família, que tudo fizeram. Nunca esteve só. Suportado pelo amor. Em casa. Em paz. Preparou tudo. Esteve lúcido, quase até ao fim. 

Em especial, para a família, sintam-se orgulhosos deste homem e do que por ele fizeram. A forma como o acompanharam e se apoiaram na doença é um exemplo. Sintam-se abraçados e confortados pelo vosso exemplo. Bem-hajam.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

SCOTE (Snack COfee TEa)

O SCOTE  é das melhores descobertas que fiz nos últimos tempos. Um misto de café, bar de hotel, salão de chá e sala lá de casa. Boa música. Faz lembrar o Starbucks, com um balcão enorme e cadeiras altas virado para a rua, copos de plástico de diferentes tamanhos to go. Tem umas mesas com cadeiras aos pares a lembrar um salão de chá ou um bom restaurante. Depois tem uns sofás baixos e umas mesas a lembrar os bares e as salas de estar dos hotéis. A decoração é de extremo bom gosto. Nada de muito pretensioso mas cool. Apetece ficar, sem horas, a ler um livro ou a estudar (para quem precisa). Tem umas sandes óptimas de pão de Montalegre enormes. Dá para duas pessoas. As saladas são visualmente apetecíveis e generosas. Chás, cafés (americano, expresso, pingado), pastelaria portuguesa, brownies, bolos caseiros, muffins, são muitas das escolhas. Um lugar destes era para estar a abarrotar e ter fila. Apesar de não estar vazio, tinha (apenas) pessoas que davam para contar pelos dedos de duas mãos. Acho que nem em Lisboa vi um café assim. Apetece elogiar tudo. Com pormenores que beiram a perfeição. Sóbrio e limpíssimo. Não sei se são as pessoas que não percebem o conceito. Se é errado para as pessoas de Braga. Mas sei dizer que está a minutos a pé da Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho e do Hospital de Braga. Se estivesse no centro, perto de minha casa, onde eu poderia ir a pé, confesso que seria a minha segunda casa. O dono é competente e muito simpático. Sabe do que fala e do valor que tem. É um homem do mundo e um cosmopolita pelas influências que se destacam. Como António Variações dizia estava entre Braga e NY. Nasceu e viveu cedo de mais, para o seu tempo.  Este conceito do SCOTE parece, um misto de Braga e NY, desajustadíssimo para a tacanhez e rotina dos bracarenses. Desejo ao dono o maior sucesso porque o SCOTE é bom demais para Braga. E deixo uma crítica directa: a elite deste país que entra com as notas mais elevadas de todos os cursos deve ser a classe menos intelectualizada, cosmopolita e aberta ao novo que conheço. Senhores, as notas e o maior número de palavras decorados em menos tempo não é tudo na vida! Aproveitem porque não vivemos para sempre e não levamos nada! 





Copyright: SCOTE

quarta-feira, 25 de maio de 2016

E a Venezuela, senhores?

Começo com um título, parafraseando uma grande artista brasileira que nos seus espectáculos usa sempre um respeitoso: “Boa noite, senhores”. Pois bem, nos últimos tempos, amigos, mais amigos, menos amigos, conhecidos, gente que gosta muito de mim, do contra que gosta menos, que me apoia, que discorda muito, perguntam-me: “E a Venezuela?”. Toda a gente que me conhece (muito bem) sabe que quando eu deixo de falar de uma coisa repetidamente, sistematicante, até que os outros se cansem muito, eu perdi a esperança. Revelo o pior de mim, desisto. A Venezuela é um dos casos. Tenho dois grandes amigos venezuelanos com quem aprendi muito e com quem aprendi, de uma forma privilegiada, a realidade venezuelana. Isso foi sempre o que me ligou à Venezuela, a amizade. De outra forma, seria (apenas) mais um país da América Latina. Um país que não tem nada de muito mais importante a dar ao mundo, a não ser o “ouro negro”. E até esse, que nos últimos tempos perdeu o valor que lhe davam, reduziu muitos à sua insignificância. Ao contrário, por ex. do Brasil, a Venezuela não tem uma elite cultural (sequer) parecida. Não foi o berço de nenhum tipo de música. Não é o maior país onde se fala castelhano, ao contrário do Brasil que é o maior país onde se fala português. Não é um país de escritores, nem de arquitectos, nem de artistas. A sua culinária não é conhecida mundialmente. E até no mau não tem comparação. Não tem Carnaval, nem a mulata, nem as famosas favelas, nem os mais procurados bandidos, nem os mais milionários, nem os mais corruptos. No entanto, tem de igual modo, belíssimas praias, a floresta amazónica e grandes rios. E muito menos gente. Tem o mesmo subdesenvolvimento dos países de terceiro mundo. Os muito ricos e os muito pobres. Mulheres muito arranjadas que cuidam do cabelo e pintam as unhas. Mas que vivem numa favela e têm mais do que três filhos, preferencialmente de homens casados, a quem o pai não é obrigado a dar o nome.

A Venezuela foi governada durante anos pela direita que não fez muito a não ser enriquecer (mais) a si mesma. A esquerda, a grande esperança dos desgraçados, dos miseráveis dos pobres, daqueles que não tinham nada, além de não os ensinar a pescar ainda lhes deu pouco peixe. A Venezuela,  ao contrário do Brasil, não elevou os pobres a uma classe média ambicionada há muito, não levou os seus filhos para estudar nas universidades públicas a partir do seu mérito, não se desenvolveu, não criou riqueza. Os venezuelanos, ao contrário dos brasileiros, não passaram a viajar em massa para o exterior nem passaram a viver melhor do que viviam.

Não vou comparar Chavez a Lula porque um já morreu e não morro de amores pelo outro. Mas a verdade é que não se pode comparar a afronta de Chavez em relação aos ricos com o que se passou no Brasil. Nunca vi no Brasil os discursos de esquerda inflamados como os que vi na Venezuela. A Venezuela não foi projectada para o mundo, ao contrário do Brasil. O que eu achei que nunca aconteceria na América Latina, temo que aconteça na Venezuela, uma guerra civil.

Na semana passada o The New York Times publicou uma reportagem sobre as condições indescritíveis dos hospitais venezuelanos. Quando vi aquelas fotos e aqueles textos achei que tinham sido cuidadosamente seleccionados pelos media americanos ( que muitos dos meus amigos acusam da sua tendencial preferência pela burguesia e capitalismo). Não, não é mentira nem é exagero. Aquilo está mesmo assim. Não há medicamentos básicos, os medicamentos para tratar neoplasias há muito desapareceram e só se traficam no mercado negro. Não há quase nada importado. As pessoas estão nas filas para tudo. Não há segurança (embora isso nunca houvesse muito). Pessoas presas sem razão. Presos políticos. As instituições não funcionam. Tudo se compra e se vende. Não existe Democracia. Maduro comporta-se como um coronel nas antigas fazendas no tempo da escravatura.

Muitos pensavam que a morte de Chavez acabaria com a ditadura boliveriana. Chavez não parecia jogar com o baralho todo. Mas Maduro conseguiu o impossível: mostrar que o buraco pode sempre ser mais fundo. Enquanto a Venezuela se vai destruindo e limitando-se apenas aos pobres e miseráveis (porque os ricos já saíram quase todos), os restantes poderes de  esquerda dos países da América do Sul ou assobiam para o lado ou (fingem) acreditar que os EUA estão a apoiar um golpe.


Onde está a elite Venezuelana e a oposição? Onde está o mundo que não denuncia e não se importa com a Venezuela?
Copyright: Reuters

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Dilma

Faço aqui uma declaração de interesses: Não simpatizo com o PT, não partilho da ideologia política e não tenho particular admiração por Lula. A mesma coisa achava de Dilma. Não achei a sua eleição (no primeiro mandato) tudo aquilo que escreveram. Não fiquei comovida por ter sido a primeira mulher presidente do Brasil. E não concordei com o título de “Presidenta” em vez de “Presidente”. No entanto, depois da segunda eleição, que ela ganhou no limite, considerei ter sido o mal menor. A sua oposição era constituída por gente menos preparada do que ela e por gente mal relacionada e/ou ligada a coisas menos sérias. Depois da segunda eleição comecei a admirar a força desta mulher que tem lutado estoicamente contra tudo e contra todos. Como as árvores, Dilma escolheu morrer politicamente de pé. Com a destituição de Dilma ficamos a saber o que há muito desconfiamos: os políticos brasileiros são na sua maioria corruptos, o poder é passado de geração em geração como se de uma Monarquia se tratasse, a política serve para enriquecer, na política vale tudo, a maioria dos deputados são analfabetos funcionais, os evangélicos têm um dos maiores poderes no Brasil ( o domínio e o aproveitamento sobre a ignorância de um povo), os políticos brasileiros são muito bem pagos e têm regalias incomparáveis com o cidadão comum. Apesar de tudo isso, a corrupção e as acusações sobre quase todos os políticos não os envergonha. Não se demitem por nada, seja qual for o teor da acusação. São como lapas. Seguem de cabeça erguida como se nada fosse. E como os vermes, em vez de se recatarem pelo mal causado, lançam ameaças de não caírem sós. Analisando a vida, a biografia, o CV e o percurso de cada político brasileiro poderemos contar pelos dedos aqueles sobre quem nada paira. Quase não existem imunes ou intocáveis. No entanto, apesar de todas as perseguições, de todo o escrutínio, depois de todas as investigações, a Dilma parece um oásis no deserto. Se ela é perfeita? Não. Se está bem rodeada? Não. Se seguiu a política que devia? Não. Mas é o mal menor, de facto. A questão é que tudo está mal. Num país com os milhões de pessoas que tem o Brasil, onde a educação e a saúde não é igual para todos, “quem tem um olho é Rei”. As classes mais desfavorecidas, das periferias, dos morros, do sertão, do interior, dos subúrbios serão sempre facilmente enganados e cativados pelos políticos mais populistas e que nada farão por eles. Servirão, apenas, como um degrau para a sua escada para chegarem ao topo da pirâmide. Um país em que a elite caucasiana, será sempre instruída, continuará a viajar para o estrangeiro, para fazer compras em Miami e NYC, continuarão a comprar apartamentos em Lisboa nos metros quadrados mais caros, continuarão a viver em condomínios fechados resguardados por grades electrificadas e separadas do mundo real, continuarão a viver no séc passado em que existe o mundo para a elite eo mundo para o subalterno, continuarão a ter contas na Suiça e a fugir aos impostos, continuarão a viajar em primeira classe e em executiva. Mas apesar disso continuarão a não ser evoluídos nem educados: o carro continuará a ser o que mais poluí, continuarão a atirar lixo para o chão para alguém de uma classe inferior apanhar, continuarão a perpetuar o desperdício, os seus cães continuarão a sujar as cidades para alguém as limpar, continuarão a ter cozinheira, faxineira, diarista e motorista, continuarão a passear pelas cidades com as babysitters atrás vestidas de branco. Enquanto a elite não se envergonhar destes comportamentos e perceber que o mundo mudou e que estamos no séc XXI, nada mudará. Enquanto a elite não perceber que comportamentos assim envergonham uma sociedade, serão sempre a piada do exterior. Enquanto a elite não perceber que os caucasianos não são o povo eleito e que toda a gente tem possibilidade de ascender socialmente, não há como esperar melhoras. O Brasil só mudará quando a elite não se sentir ameaçada. O Brasil só mudará quando os privilégios acabarem para quem teve a sorte de nascer caucasiano. O Brasil precisa ter orgulho de ser negro. E apostar na educação. Demora gerações, mas a mudança será visível. Enquanto a menor percentagem da sociedade continuar a comandar os seus destinos e tiver este tipo de poder, o Brasil continuará condenado. 

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Bem-vindo estranho

O espectáculo é baseado na obra "Be Mine", da  britânica Angela Clerkin, e explora a relação entre mãe e filha. Jackie (Regina Duarte), e a sua filha Elaine (Mariana Loureiro) que é advogada, vivem num pequeníssimo apartamento em Londres. É este o cenário da peça: o escuro e as várias divisões do apartamento. A relação delas é conturbada e oscila entre o extremo afecto e o insulto. Percebemos que Jackie teve a filha com 12 anos. Jackie é uma personagem complicada e fascinante. Deve ter sofrido muita para ser assim. Uma mãe manipuladora, profundamente amorosa, quase sufocante de tão apaixonada que é pela filha. Tão carente e tão incapaz de olhar para si mesma e incapaz de viver sozinha sem a “muleta” da filha. Uma egocêntrica nata. É daquelas pessoas que acha que a solidão é a morte e abomina-a. Gosta de ser mimada e de ser o centro das atenções, e consequentemente, usa todos os recursos possíveis para prender a filha junto de si "até que a morte nos separe.” O exagero da Jackie em relação à filha e é que gera o humor. É mesmo muito exagerada. Veste-se sem noção da idade, sai para “tomar todas”, totalmente descontrolada. Chega a ter graça de tão exagerada que é.

Um dia surge um estranho que pode “roubar” a filha. Com a chegada de Joseph (Kiko Bertholini), o misterioso namorado de Elaine, que se prepara para viver no mesmo apartamento provisoriamente, a atmosfera de suspense entra em erupção, levando a um conflito de desejos incontroláveis cujas consequências são imprevisíveis. Joseph, acusado da morte bárbara da namorada,  foi defendido em tribunal por Elaine. E ela conseguiu provar a sua inocência e conseguiu a sua absolvição. Ela acredita, de facto, na sua inocência. Elaine é uma filha carente e insegura e faz o papel da boazinha, de submissa e de certinha.

Humor, suspense e tensão, pautadas por uma banda sonora exemplar. Momentos de um suspense intenso e absorvente misturam-se com um humor muito perspicaz e inteligente. O publico oscila entre o riso e a gargalhada, o susto, a sugestão, o medo e a hipótese. O final é surpreendente, e tal como Regina pediu no final: “não contem pra ninguém”. Regina Duarte já conquistou o papel de diva. É esta a palavra que me ocorre usar. Uma interpretação magistral regadas pelas suas gargalhadas, gritos e voz inconfundíveis. A interpretação é acompanhada pelos enormes talentos dos outros dois actores.

A peça fala do ser humano. De sentimentos, emoções, desejos, frustrações e descontroles de seres humanos. Uma peça do tamanho do talento de Regina Duarte. Uma peça onde ela brilha e faz brilhar os dois outros actores. Regina Duarte mostra que está em plena forma aos quase 70 anos. 











quarta-feira, 27 de abril de 2016

A dignidade de se passar de bolseiro de pós-doutoramento a investigador de doutoramento

A ANICT, associação que representa investigadores doutorados (bolseiros ou contratados), que trabalham em Portugal, está a fazer um questionário nacional que pretende averiguar a opinião dos investigadores doutorados sobre a eventual conversão de bolsas de pós-doutoramento em contratos de trabalho a termo. “A passagem de bolsas a contratos está associada a um aumento dos custos de recrutamento. A ANICT defende que o rendimento líquido anual dos atuais bolseiros de pós-doutoramento não pode sofrer cortes, aquando desta mudança. Este fato, irá implicar um aumento de custos na ordem dos 33%. A ANICT defende que os orçamentos dos projetos financiados pela FCT, assim como a sua duração, sejam compatíveis com esta nova realidade”. A pergunta é ouro sobre azul. Questionam os investigadores se concordam ou não com um contrato que mantenha os mesmos valores da bolsa pós-doc. Em letrinhas quase ilegíveis pode ler-se que isto implicará que em cada 3 bolseiros pós-doc apenas 2 terão contrato.

Obviamente que questionar um bolseiro pós-doc, talvez a posição mais precária de toda a carreira académica, que não têm qualquer aumento do valor da bolsa há mais de 12 anos, que não descontam para a Segurança Social (a não ser através do precaríssimo Seguro Social Voluntário), que em caso de não renovação da bolsa não têm direito a subsídio de desemprego, acenar com um contrato, quem poderá dizer que não?

A questão sobre se os bolseiros pós-doc concordam ou não com um contrato deveria ser seguida da explicação. Eu concordo, em absoluto, que haja contratos para pós-docs. Mas isso, quem não concorda? A questão é: a qualquer preço? Não! Eu sou daquelas que não serão beneficiadas por estes possíveis contratos. Sou bolseira há 6 anos e pelas actuais regras, não estarei incluída neste pacote.
Mas eis o que eu questiono:
1)   Que haja obrigatoriedade de contratos pós-doc. Como nos habituam em ciência, a célebre questão do mérito e do merecimento. Quem merece e quem não merece? Como se faz essa avaliação? Os “protegidos” estarão sempre nos 2/3 a contratar. A questão é para onde vão os restantes 1/3?

2)  O que acontecerá aos investigadores pós-doc após 3 anos? Esta parte não está explicada. O que pretendem a ANICT e a FCT propor após 3 anos? Que o investigador pós-doc continue a concorrer para contratos sucessivos de 3 em 3 anos mantendo o valor de 1450€/ano + SS + subsídio de alimentação?
3) Que diferenciação de valores terá um investigador pós-doc após 3, 6 ou 9 anos?

4) No que se baseará a diferenciação entre investigador pós-doc e os actuais contratos de investigador FCT?

5)  No que se baseia a FCT e o Ministro da Ciência para cada 3 bolseiros de pós-doc atribuir apenas 2 contratos de investigador pós-doc? Partindo do princípio que quem financiará isto é o governo. Implicando, de facto, um aumento de 33% por cada investigador em impostos, esses mesmos valores retornarão para a máquina do Estado. Ou seja, não há qualquer perda. O dinheiro só se deslocará dentro do mesmo Estado entre diferentes Ministérios. Aqui residem as minhas maiores reticências. Deverão os bolseiros pós-doc aceitar os contratos a qualquer preço? Não deverão reflectir mais nesta questão? Não existirão, de facto, maiores gastos para o Estado/bolseiro.

Se se trata de discutir, e a decisão ainda não está tomada, aqui ficam as minhas opiniões que são só minhas e que não representam ninguém além de mim.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

O dia que o Brasil disse sim ao golpe

Domingo histórico para o Brasil, no sentido negativo e muito pessimista. Constrangida, é o mínimo que posso dizer hoje, depois do que vi durante parte da noite e madrugada. Das noites e madrugadas mais chocantes da minha vida. Ri para não chorar. Quando a realidade ultrapassou a ficção. A ignorância no seu esplendor. “Ao pé daquela Presidente e daquele Governo, daquele antigo Presidente, daquele Congresso, daquela Comunicação Social, a nossa vida política é um poço de sabedoria e de civilidade”

Que circo era aquele? Aquilo era na Casa do Povo (Câmara dos Deputados) ou um estádio de futebol?!  Que berraria, que claque, que baixo nível. Tanta gente a saber conjugar mal os verbos e não distinguir entre o singular e o plural. Tanto usar o nome de Deus em vão. Tantas graças, tantas glórias. Tanto agradecimento aos pais, aos filhos, aos netos, aos sobrinhos, aos primos, aos avós, aos tios, aos amigos, aos colegas, aos simpatizantes, às cidades, aos estados, ao cão, ao gato, aos que ainda estavam por nascer, aos militares, aos bombeiros, aos ditadores, aos reaccionários, aos democratas, aos golpistas, aos torturadores, aos ditadores, aos canalhas, aos padres, aos pastores, à paz em Jerusalém, aos agricultores, aos índios, aos coronéis.

Votaram sim, não pelo crime de responsabilidade da Presidente da República mas: “pela minha mãe negra Lucimar”, pela “família quadrangular”, por “Campo Grande onde tem a morena mais linda do Brasil”, “pela minha neta que vai nascer”, “ pelo fim da vagabundização remunerada”, “pelos produtores rurais, que se o produtor não plantar, não tem almoço nem janta”, “pelo estatuto do desarmamento”, pelo comunismo que assombra o país”, “pela nação evangélica”, “pelo fim dos petroleiros”, “pelos militares  vitoriosos de 64”, “pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rouseff”. Como? Não houve quem lhe desse um murro que lhe partisse a cara e os dentes?! Parece que esta é a única linguagem que (alguns) percebem.

Não foi um espectáculo bonito de se ver. Os patriotas, os golpistas, os de direita, os reaccionários, os conservadores, os ultra, os evangélicos de verde e amarelo de um mau gosto sem nome. Cabelos de homens pintados, a grande moda. Com direito até a confetis: “quem vota sim bota a mão para cima”, como se de um espectáculo de axé se tratasse. Só faltou a Ivete para cantar e dançar no fim!

Falta de educação, de boas maneiras, histeria raivosa, com algumas (raras) excepções.  Gritos. Urros. Apupos. Assobios. Cuspidelas. Vozes roucas, quase afónicas. Buzinadelas. Palmas. Braços no ar. Choro. Gritos. Cânticos. Claque. Mas...“faixa não é admitida”.

Canalhas. Corruptos. Quem naquela câmara não tem um processo a pairar sobre si: uma pequena minoria. O propagar de gerações de netos, filhos e avós políticos, como se de dinastias reais se tratassem. Analfabetos políticos. Semi-analfabetos literais. Falta de vergonha na cara. Vendidos. Ladrões. Gentalha que se dirige à Presidente como “Tchau querida”?!. Gente que mandou beijos através da televisão. "Que país é esse?" já perguntaram os visionários nos finais dos anos 80.

Nunca fui a favor de Dilma. Mas acho que comparativamente com o que a rodeia, é o mal menor. Não pairam sobre ela acusações de corrupção mesmo depois de todas as investigações a pente fino. O grande erro dela foi ter achado que Lula seria a solução de (quase) todos os seus problemas. No dia em que ela convidou Lula para Ministro ninguém percebeu nada e confundiu-se tudo. Ela nunca o devia ter feito. Para tentar salvar o seu governo e tentar salvar a face de Lula assinou a sua “morte” política. Nesse dia, os que (ainda) acreditavam na sua inocência passaram a colocá-la no mesmo saco. Ser contra o golpe e contra a destituição não é ser do PT. Ser contra a destituição de Dilma é ser a favor da Democracia e achar que o único poder de eleição de um Presidente é o voto do povo e não a eleição indirecta. Se chegarmos a ver Michel Temer na Presidência do Brasil, apoiado pelo Eduardo Cunha, é legitimar a corrupção. É aceitar que vale tudo. Num país evoluído, democrático, de primeiro mundo, um político que é réu do Lava-Jato, que tem contas na Suiça por lavagem de dinheiro, teria tido a honradez de se demitir e sair pelo próprio pé. Não teria a falta de vergonha de ter a cara levantada e riso cínico de presidir à Câmara de Deputados.


Não adianta estar indignado agora. Aqueles que defenderam  o fim da corrupção com o afastamento da Dilma verão, em pouco tempo, o mal que escolheram. Ninguém fora do Brasil percebe como é que Dilma Rouseff que não está indiciada nem acusada de nenhum crime é destituída pelo Presidente da Câmara e muitos dos deputados implicados no escândalo de corrupção que abala o Brasil. E toda a gente bate palmas?! Não acredito que o Brasil tenha solução. Com alternativas políticas tão pouco credíveis e tão fracas é difícil. Tenho muita pena pela grande geração que vejo crescer e que poderia ambicionar por um país melhor. Portugal ao pé do Brasil é um menino... Se o Brasil ambicionar mudar nos próximos tempos tem que começar por mudar este Congresso. É acabar para começar de novo. Zerar.

quarta-feira, 30 de março de 2016

As raposas (The Little Foxes)

A peça é sobre dinheiro, poder, valores. “Não quero ser só rico, quero ser milionário”. A luta pelo poder dentro da família. Tão actual. Tudo gira à volta de um grande negócio que uma família quer fazer para aumentar a sua riqueza. Três irmãos, dois homens e uma mulher: Regina (Luísa Cruz), Ben (Virgílio Castelo) e Óscar (Marco Delgado) .  Revelam-se diferentes maneiras de pensar e agir: quem olha a meios, quem não quer olhar a meios mas tem medo, e quem só olha a fins. Os sonhadores, os sentimentais, os pragmáticos. 
Regina tem pretensões de ir para NY e apesar de parecer neutra quer ter uma palavra a dizer neste negócio. Tem a vantagem de os dois irmãos precisarem do dinheiro do seu marido, Henrique (João Perry) que está na Suiça há algum tempo a tentar tratar-se do coração.
As melhores interpretações são as dos veteranos João Perry cuja papel é o do marido doente que tem dinheiro mas que subiu a pulso. Era empregado do banco e depois tornou-se dono dele. Está muito doente do coração e é do bem. Dá uma lição à mulher quanto ao que ganha não é quem joga a última carta. Não há fins perfeitos. Um João Perry que aparenta nesta peça ser mesmo doente e acabado. A  melhor aimulação de um ataque cardíaco que vi até hoje. Apetecia saltar para o palco para ajudar. Morre de ataque cardíaco por não conseguir alcançar o medicamento que a mulher não lhe dá. Regina, mantém-se inerte, sentada no sofá, a vê-lo morrer em agonia.
Outra grande interpretação é de Gracinda Nave, a Betty. A mulher boneca, a tonta, aquela que só sabe tocar piano e que não pode ter opinião sobre nada. Bebe demasiado para esquecer. O seu marido parece ter casado com ela por interesse, apenas para juntar fortunas.
Esta é uma adaptação para os dias de hoje de uma peça dos finais dos anos 30 de Lillian Hellman. Com o elenco: Diana Nicolau, Eurico Lopes, Gracinda Nave, João Perry, Luisa Cruz, Marco Delgado, Pedro Caeiro,  Sofia Cabrita e Virgílio Castelo.
Virgílio Castelo, aquele que interpreta talvez o mais cínico, aquele que dizia as palavras da mãe “Consegue-se tudo com um sorriso”, reconhece que perdeu mas que há mais vida para além deste negócio, mais virão.
O desfecho é dramático e aberto. Nada do que foi um dia voltará a ser.





Copyright: Teatro Aberto

sexta-feira, 18 de março de 2016

O que tem de errado na fotografia?

Esta fotografia é a imagem do Brasil, ou a imagem errada que o Brasil passa para o exterior (através das telenovelas). O estereótipo capitalista da elite dos cariocas da zona sul. Ou a alta burguesia dos paulistas das zonas nobres. Há muito que não vejo uma novela brasileira. Não me lembro da última que vi. Mas eu lembro-me de quando era pequena achar que toda a gente era rica no Brasil: pequenos-almoços sumptuosos,  boas roupas, bons carros, mansões, piscinas...). Aquele era, evidentemente, um Brasil caricatural.

Anos mais tarde, comecei a ver o ridículo da elite possidónia brasileira passear por NY com carrinhos de bebés e as suas babás vestidas de branco atrás, tal e qual como nesta foto. O dinheiro compra tudo no Brasil mas não deve, evidentemente, comprar a educação e o respeito pelas pessoas. A imagem actual (provavelmente errada) que eu tenho no Brasil é de uma elite endinheirada, loira, cabelos penteados de cabeleireiro, mas que não fala inglês (e por isso grita na expectativa absurda que alguém perceberá, como se o problema fosse a surdez...) que tem dinheiro para viajar para NY e achar que o dinheiro compra tudo. No aeroporto e nas ruas de NY reconheço as brasileiras ao longe.

O que tem de errado na fotografia é a estratificação social gritante que existe no Brasil. A elite branca, rica, em forma (e só olhar para os gémeos do casal) que vai à “passeata” contra a corrupção e usa a t-shirt brasileira da CFB ( talvez uma das mais corruptas instituições brasileiras). Como se não bastasse, a babá vai vestida de branco (como sempre) para se saber que não é da família. A babá poderá até ganhar muito dinheiro e até ganhar horas extraordinárias. Mas colocar-se no meio da manifestação, concordando ou não, não é no mínimo discutível? E o casal de patrões, o que fazia que ocupasse tanto, que não podia empurrar o carrinho de bebés que fosse necessária a presença de uma babá?

Eu só coloco esta questão: quais os países democráticos no mundo constroem (ainda) apartamentos que contemplam elevador de serviço, área de serviço dentro do apartamento e quarto da empregada?! Aliás, eu na minha ignorância, quando em SP me falaram em “área de serviço” num apartamento eu tive que pedir para me explicarem... E não venham com a história da escravidão e que os hábitos culturais demoram gerações e gerações a mudar. Tudo isto existia em Portugal antes da revolução de Abril. E hoje, felizmente, passados pouco mais de quarenta anos, os pobres e os ricos não se distinguem na rua. Quem nasceu numa determinada classe social tanto pode ascender como descer, de acordo com o talento e trabalho (talvez na política isto ainda não seja verdade).


Este é um texto caricatural e estereotipado. Meu Brasil que eu gosto tanto. O Brasil das letras e das canções. O Brasil das belezas naturais. O Brasil da língua portuguesa com “açucar”. Eu quero acreditar que o Brasil tem solução!


quinta-feira, 17 de março de 2016

O golpe de Lula

O Brasil não pára de nos surpreender.Quando Lula foi detido para interrogatório e se ouviu/ leu a possibilidade de Lula se tornar Ministro para ter imunidade achei uma anedota. Como todas as ideias absurdas, não passavam disso.  Quando ontem li em vários jornais a possibilidade do absurdo, petrifiquei. O que leva um homem que se tornou mundialmente conhecido, que tinha popularidade, que era a “vítima” de todas as ciladas, que tinha sempre quem o defendesse, ter uma jogada suja destas? Getúlio Vargas suicidou-se e Collor foi demitido, acho que por muito menos

Li frases bem escritas como esta: “Aceitar esta imunidade a troco de um lugar inventado apenas para o proteger é perder o que lhe resta de dignidade" para definir o que está a acontecer. O Lula mostra que a falta de vergonha na cara é o pior dos defeitos.  E Dilma aceitar esta jogada é deprimente.Uma Presidente que lutou contra a ditadura, que foi torturada e se tornou uma das mulheres no mundo PR, acabará sem glória. Como conseguirá  Lula andar de cabeça levantada e olhar nos olhos dos brasileiros? Não sou vidente, mas depois disto, o PT morreu. Nenhum apoiante do PT actual e nenhum dos relacionados com estes políticos serão eleitos democraticamente. Depois de Lula se tornar Chefe da Casa Civil terá poderes, até, para alterar o rumo da justiça. Uma Presidente que é um fantoche, um governo debaixo de fogo, presumíveis corruptos, uma oposição de evangélicos e corruptos também, uma justiça que é alvo de chacota, um país democrático com tiques de país totalitário.

O que fará Lula trocar a sua dignidade de inocente até que provem o contrário por um culpado em praça pública que não pode ser preso? Os inocentes têm assim tanto medo?!
O Eduardo Cunha, Presidente do Senado, com provas que mostram as suas contas na Suiça não foi e acredito que não será preso devido aos acordos que tem feito com o governo de Dilma. “Que país é esse”? como perguntava Renato Russo e cantava "...no Senado/ sujeira pra todo lado...Piada no exterior..." e as poéticas palavras de Cazuza “eu vejo o futuro repetir o passado”. Poderiam as palavras ser mais actuais?

Fui a primeira a ser contra a manifestação de domingo nas ruas. Não percebia bem sobre o que aquele aglomerado de classe média, alta burguesia, gente com muito dinheiro, cirurgias plásticas e muito treino cardiovascular, com camisolas da selecção Brasileira (de realçar que a Federação brasileira de futebol é talvez uma das mais corruptas) tinham em comum e sobre o que estavam realmente a contestar. Uma manifestação apoiada pela oposição que incluía o Aecinho, esse playboyzinho da zona sul carioca que tem fama de “cheirador de coca” e que nunca fez nada a não ser viver debaixo do nome de um parente directo, Tranquedo Neves. Acusam-no de ter feito um aeroporto em MG para proveito pessoal. Não ganhou em MG nas eleições para PR. Alguém do seu staff foi apanhado com Kgs de cocaína num helicóptero, na ordem de grandeza das centenas. Esta é a fama do principal rosto da oposição a Dilma.

Hoje um juíz "chumbou" a nomeação de Lula... Quais serão os capítulos seguinta da telenovela? A realidade é muito melhor do que a ficção... To be continued...


Um país com o descrédito que está, não ter uma oposição preparada para o assumir, é aterrador. "Um governo que não dá para defender versus uma oposição que não dá para apoiar." Terá este Brasil solução? 

quarta-feira, 9 de março de 2016

Marcelo Rebelo de Sousa

Faz 21 anos para o Outono que Cavaco Silva deixou de ser Primeiro-Ministro (PM). Eu tinha 16 anos e lembro-me como se fosse hoje desse acontecimento. Nesse Outono, exactamente em plena campanha legislativa, eu filiei-me numa Jota. Nessa altura não percebia nada de política. Filiei-me porque alguns dos meus melhores amigos me convenceram. E eu, fácil como sou, não resisti. Não estou com isto a dizer que me arrependo. Quase nunca me arrependi na vida. Embora a palavra “nunca” faça poucas vezes parte do meu vocabulário. Continuando, foram as legislativas Fernando Nogueira vs António Guterres. A vitória foi De António Guterres. O tempo, que nos ensina tudo e que é sempre sábio mostrou-nos muita coisa. O inadequado, desajeitado, pouco empático Fernando Nogueira veio a mostrar que o PSD fizera uma má escolha a escolhe-lo para substituir Cavaco Silva que governara com uma minoria e duas maiorias absolutas. António Guterres chefiou dois governos minoritários, durante os quais, teve como sua principal paixão, a educação. Deu muito aos professores. Naquela altura, apesar de o popular e bom orador, achei-o sempre um PM com pouca autoridade e até um pouco frouxo (anos depois, o tempo ensinou-me que tudo muda). Quando Cavaco Silva se candidatou pela primeira vez a Presidente da República participei na campanha. Participei fervorosamente, debaixo de chuva, insultos e afins. Já nessa altura lhe vislumbrei um ar distante, pouco afável, nada empático, carrancudo, até. Mas nem isso me fez mudar. Estava ali inteira, e sou como as árvores: morrem de pé. Nunca abandono.

Conheci o Marcelo Rebelo de Sousa numa noite fria de Inverno na Universidade do Minho, não me lembro em que iniciativa. Lembro-me que ele era líder do PSD e que pouco tempo depois se demitiria por causa de Paulo Portas. Era o mesmo de hoje, simpático, sorridente, bem-disposto, excelente orador, comunicativo, popular. Vi-o anos mais tarde numa conferência no meu antigo colégio. A minha opinião sobre ele manteve-se.

Anos mais tarde, votaria na primeira maioria de Cavaco Silva para Presidente da República. Como hoje escrevia o Herman, Cavaco Silva teve duas maiorias absolutas e foi eleito para PR duas vezes. E eu não renego que votei nele no primeiro mandato. No segundo, apesar de já discordar muito, as alternativas eram piores. Mas não votei porque estava em NY. As críticas e ficarão para outro texto. Apenas digo que um político que admirei, e que li as duas biografias, me desiludiu profundamente. Foi com Cavaco Silva que comecei a achar que (afinal) os políticos são todos iguais.

Não vou sequer referir José Sócrates, pois faço parte das pessoas que discordam em absoluto dele, a quem ele nunca enganou nem iludiu. Ele revelou-se o que sempre foi para mim:  e que o maior mentiroso de todos os tempo. A montanha que pariu um rato. O tempo mostrará que a sua vida assentava em muitos telhados de vidro. Mas isso não me cabe a mim, mas à justiça.

Também não vou falar de Passos Coelho porque hoje não é dia de críticas mas de celebração e isso ficará para outro texto.

Marcelo Rebelo de Sousa não precisa de elogios nem de descrições. Um brilhante aluno e professor de Direito. Muitas pessoas que conheço e amigos de família foram alunos dele. O que mais admirava nele nos últimos anos era a divulgação dos livros e os elogios aos prémios e feitos dos portugueses. De resto, como a maioria que o elegeu, acho que é a pessoa mais preparada para ser PR. Deixando de lado o político e o professor, o que mais admiro nele são os afectos. Tem como defeito (para mim) ser demasiado conservador. De aplaudir a forma como não renega as origens e as mantém. Colocou Celorico de Basto no mapa e doou a sua biblioteca pessoal à biblioteca da terra, tal como Adriano Moreira fez com Bragança. O homem publicamente afectuoso, que não esconde a relação próxima que tem com os filhos e netos e por quem o rodeia. Um homem que não tem vergonha do que sente nem de o demonstrar. Um chefe de Estado humano, como qualquer um de nós. Terrestre, físico, próximo. Um homem culto que sabe citar políticos poetas e escritores. Finalmente, acho que Portugal tem o PM que merece. O que mais podemos querer?

sábado, 5 de março de 2016

"Doce pássaro da juventude" de Tennessee Williams

Doce Pássaro da Juventude (Sweet Bird of Youth) como Um eléctrico chamado desejo (A streetcar named desire) a personagem principal é vítima da passagem do tempo. O desaparecer da beleza. Uma actriz decadente, alcoólica, envelhecida, com pouca ou nenhuma esperança no futuro que bebe e droga-se para (simplesmente) esquecer. Alexandra Del Lago, a “Princesa” (Maria João Luís), acompanha Chance Wayne (Ruben Gomes), um gigolô de 29 anos com aspirações a actor, à cidade onde nasceu, St Cloud, no sul dos Estados Unidos. Percebe-se que tem praia pelo som das gaivotas. Este texto maravilhoso  de Tennessee Williams, um dos que vai mais longe na abordagem à degradação humana. Encenado por Jorge Silva Melo. Uma grande interpretação de Maria João Luís. Uma das grandes vozes do teatro nacional.

Um rapaz, Chance Wayne, de regresso à terra de onde partiu há anos à conquista do mundo (de uma forma fácil). Já não tão novo assim, apira a uma carreira de actor, embora seja mediocre. Quer um futuro com o seu amor, Heavenly. É Páscoa, mas não haverá ressurreição. Todos procuram voltar a um passado que imaginaram feliz. Mas nada do que foi voltará a ser. O tempo passa e não se pode recuperar o que passou. "Tempo... Quem o pode combater, quem o pode vencer?... O tempo que rói". Irrepetível. Heráclito. de

A cena começa num quarto de hotel. Chance acorda ressacado enquanto a Princesa/Alexandra Del Lago aproveita os últimos minutos de sono, com os olhos cobertos. A noite foi difícil, percebe-se. Regada a muito álcool. Incluiu óculos partidos e garrafas de vodka. 
Chance está a queimar os últimos cartuchos da sua juventude. Os anos estão a passar e com eles a levar a juventude e a beleza que foi o seu sustento. Tem 29 anos e o cabelo começa a cair-lhe. Era o rapaz mais bonito, encantador e mais querido de St Cloud, cidade onde nasceu.
Queria ter sido actor: "Tive mais oportunidades do que os dedos da minha mão, e quase o consegui...há sempre qualquer coisa que me bloqueia". Critica a vidinha que as raparigas e os rapazes do seu tempo têm: "As raparigas tornaram-se donas de casa, jogam bridge, e os maridos pertencem à Câmara de Comércio...uma chatice". Ele gaba-se da boa vida que viveu: " talvez a minha única é verdadeira vocação: fazer amor... Dormi com todo o jet-set de NY!... Às pessoas de meia-idade restituía uma sensação de juventude. Às raparigas solitárias, compreensão, apreço! Às pessoas tristes, perdidas, algo de leve e revigorante! Aos excêntricos, tolerância...".  Passou os últimos tempos a "pôr bronzeador nas costas de milionárias gordas". Revela o insucesso da carreira militar quando foi chamado para o Exército: "fui para a Marinha porque me agradava mais a farda de marinheiro. A farda era a única coisa que me agradava... Não era capaz de suportar a maldita rotina, a disciplina... Tinha vinte e três anos. Estava no auge da minha juventude e sabia que a juventude não durava para sempre... Comecei a ter maus sonhos, pesadelos e suores frios durante a noite, e tinha palpitações. Quando ia de licença, embebedava-me e acordava nos lugares mais estranhos, e ao meu lado estavam rostos que nunca vira.... Por motivo de doença, fui dispensado e voltei para casa à civil. E nesse momento reparei como estavam diferentes, a cidade e as pessoas. Educadas? Sim, mas não cordiais. Não havia títulos nos jornais, só umas linhas, uma coisa de nada ao fundo da quinta página.... A dizer que Chance Wayne passara honrosamente à disponibilidade da Marinha devido a doença e que vinha para casa convalescer... Foi então que Heavenly se tornou mais importante para mim do que tudo no mundo".
O sonho de Chance é ter o impossível: a juventude de volta, intacta e honrada. E isso, ninguém poderá voltar  ter. O tempo passa e não volta.

Alexandra Del Lago foi em tempos uma bem sucedida actriz. Uma vedeta de Hollywood. Uma artista. Experimenta agora o declínio, suportado por muito álcool e drogas. O tempo também passou por ela. A sua aparência jovem desapareceu. Segundo ela, cometeu a loucura de regressar, "regresso triunfal". Foi  uma decepção. As pessoas ficaram surpreendidas com o aspecto dela, ficaram chocadas: "aquilo é ela?". Fugiu, qual Gata Borralheira, e tropeçou nas escadas: "caí, rolei como uma puta bêbada até ao fundo... Mãos piedosas sem rosto, ajudaram-me a levantar".

Heavenly, filha de Boss Finley, o político mais poderoso da região. Tinha quinze anos quando Chance Wayne a "possuiu". "Houve uma altura em que me podia ter salvo, se me tivesse deixado casar com um rapaz que ainda era jovem e honesto, mas em vez disso mandou-o embora, expulsou-o de St Cloud... Tentou ser tão importante como esses figurões com os quais o papá quis usar-me, ele foi-se embora. tentou. Mas como as portas certas não se abriram foi às erradas... Se o papá casou por amor porque não deixou fazer o mesmo, quando ainda estava viva por dentro e ele ainda era honesto e decente?"
Heavenly, depois da doença sexualmente transmitida por Chance, "uma doença de putas", teve que se sujeitar a uma operação que lhe cortou a juventude do corpo. "Fez dela uma mulher velha, estéril. Seca, gélida, vazia como uma velha". Espera terminar a vida num convento.

Boss Finley, o político mais poderoso da região. Chegou a St Cloud de pés descalços aos 15 anos. Ostenta o orgulho branco do Sul dos Estados Unidos. Considera que a filha vale cem mil vezes mais do que Chance. Viúvo. Foi sempre infiel enquanto a mulher ainda era viva. Mas, mostra que no fundo, até os maus tem qualquer coisa de bom: "lembras-te dessa jóia? A última que lhe dei antes de morrer.... Quando a comprei sabia que ela estava a morrer. Custou-me quinze mil dólares. E sabes porquê? Para que ela pensasse que ia ficar boa... Quando a pus na sua camisa de noite, coitada, começou a chorar...". Queria convencê-la que ninguém daria um diamante tão grande a alguém que estaria a morrer. " sentou-se na cama, feliz com um passarinho com a sua jóia, recebeu visitas durante todo o dia, riu, brincou com elas, ali com o diamante, e com ele morreu antes da meia-noite. E até ao último instante da vida acreditou que o diamante era a prova que não estava a morrer".

Em Chance e na Princesa observamos um destino comum, o destino da perda. Tal como Chance, ela não pode fazer o relógio voltar para trás. O relógio não pára para nenhum deles, como não pára para nenhum de nós. "" Para Princesa, parece no final, haver um regresso à glória e fama passadas, embora pareça muito transitório: "eu sei que estou morta como o antigo Egipto".

A peça termina com um monólogo de Chance virado para o público: "Não vos peço piedade de, apenas compreensão... Não, nem isso. Apenas que me reconheçam em vós próprios, e reconheçam o inimigo comum: o tempo, o tempo em todos nós".







quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

"Pai Nosso" de Clara Ferreira Alves

Este livro é dos melhores que li nos últimos tempos. Arrisco-me a dizer que, talvez, um dos melhores da última década. Embora, não sabendo se algumas partes deste livro são autobiográficas, parecem ser. E como diz Lobo Antunes “ no fundo, tudo o que escrevemos é autobiográfico”. Quando as expectativas são muitas, a desilusão é frequente. O que não acontece com este livro. Não está nele (simples) pesquisas. Ou muito trabalho. Ou horas de labuta e inspiração.  Nele está tempo. Muito tempo. A passagem do tempo. Sem atalhos. Maturação. Vivências. Vida. Viagens. Conhecimento. Realidade. Não o que se lê (apenas) nos livros. Este livro não seria o mesmo se Clara Ferreira Alves (CFA) não conhecesse tão bem as cidades sobre as quais escreveu. Ela viveu-as. Como a própria assumiu, pagou do próprio bolso muitas das estadias. Muitas cidades. Muitos países. Israel, Iraque, Afeganistão, Turquia, Síria, Marrocos, Nova Iorque, Londres, Paris, Lisboa.  O Médio Oriente no seu esplendor. E neste livro estão muito marcadas e perceptíveis (para quem conhece) as influências de Graham Green e Eça. Pelo menos estes dois eu consegui identificar.  E o amor da personagem principal pela América, por NY, coisa que CFA também parece partilhar.O fascínio pelo Médio Oriente
Uma narrativa feita na primeira pessoa. Cheia de analepses e prolepses. Rewind. Passado. Memória. Play. Presente.
A narrativa começa no presente. Sempre na primeira pessoa.  Uma professora universitária, especialista em Estudos do Médio Oriente. “...um rato de biblioteca”. Foi aprender a diferença entre a teoria e a prática, como (quase) todos os académicos. Beatriz  quer contar a história d’ “O  Fantasma”. Resolve sair da comodidade da academia em Hull aventurar-se a escrever sobre uma fotógrafa famosa. "ela nunca abriu a boca...pode ser que fale antes de morrer...é uma lenda".
Presente. Marie. Maria. "Uma mulher de certa idade que fuma cigarros até meio...A claridade dos olhos corta vidro. A Leica em cima da mesa ... Ela bebe um gin, sempre da mesma garrafa... Gin alemão... É muito alta para portuguesa e deve ter sido muito bonita... Veste-se de preto... Tem voz rouca, daquelas vozes de noites mal dormidas, do sarro dos cigarros e dos copos...”. Fala pouco. Passa muito tempo com palestinianos. Computador. Tapete persa. Dólares. Baton. Óculos escuros. Keffieh. Um frasco de prata vindo de Jerusalém. A sua água benta. "A vista diz tudo sobre o lugar onde estamos". Oiro negro. Ficamos saber que o plástico dos chinelos fica quase sempre intacto, ao contrário da carne. É uma nómada:"...levei a vida a fugir do lugar onde nasci". Os quartos de hotel são a casa dela. Viaja leve: “quando se envelhece aprecia-se a liberdade de nada possuir ou carregar".
Passado. Ganhou dinheiro e fama com a fotografia de uma criança morta.  A Pietá. Um grito animal da mãe que reclama o filho morto. Cuspia saliva e ranho e babava lágrimas. Grunhia como um animal degolado. Aquele dia ficou nela como uma queimadura. “Da primeira morte não se recupera como do primeiro amor”. A mãe dela matou-se depois de uma primeira tentativa de colocar-se na frente de um comboio. Amou Matt como nunca amou ninguém e nunca mais voltou a amar. Comportava-se como uma tonta quando se apaixonou por Matt. Conheceu Matt no bar da cave. "Matt transformou a minha vida em matéria inflamável e esqueceu-se de avisar para não aproximar da chama". Passava os dias a ver Matt: "passo os dias a medir o tempo que escorre entre ver Matt e voltar a ver Matt"..."Um homem que entra pela calada da noite e sai de madrugada"."Amei uma pessoa no labirinto de Jerusalém... Jerusalém é o lugar mais anormal do mundo...em Jerusalém os namorados passeiam sem se tocarem. Cidade Velha pela Porta de Damasco... É uma cidade da guerra, é a cidade de Deus. Os repórteres de guerra nunca dizem guerra, ali. Dizem conflito... Eu gosto dos lugares de guerra quando estão em paz... Foi preciso envelheçer para ver a Cidade Velha de Jerusalém tal como ela é, uma praça de fancaria... É a cidade das pedras e não são pedras iguais às outras, são pedras pisadas pelos pés gretados do filho de Deus... Amei em Jerusalém e amei Jerusalém... Em Jerusalém fui a estrangeira e hoje sou um fantasma.. É o problema dos palestinianos, dos árabes, das seitas do Islão. Fome de sexo.lambem com os olhos as pernas, os decotes, as nádegas das estrangeiras... A Via Dolorosa são seiscentos metros de sofrimento entre a Fortaleza Antónia e o Santo Sepulcro... Há muita mulher sozinha em Jerusalém, muita peregrina, muita do-gooders, muita jornalista com dólares frescos. Muita fome de sexo... Para tormento dos judeus, os árabes multiplicam-se mais. Um suicida tem pelo menos dois filhos se explodir enquanto jovem. Se explodir mais tarde, terá sem ou sete. Uma família tem muitas crianças para sacrificar... Judeus e muçulmanos, israelitas e palestinianos”.  De que lado está?
Esta personagem tem a mesma opinião que eu: "sem um bom ditador, todo o Médio Oriente é um matadouro... Sem uma ditadura nada fica de pé. O selvagem do Saddam mantinha o Iraque unido atando os iraquianos com arame farpado". o que sobra do Iraque? No que se transformou o Egipto? Durante anos mantido debaixo do pé de Mubarak. O déspota do Bashar al-Assad manteve ditatorialmente a Síria próspera. O país que era laico, as mulheres não usavam véu e havia liberdade religiosa. Como está a Síria depois da Primavera Árabe? E a Arábia Saudita, o país mais radicalizado muçulmano, onde reina a sharia, onde as mulheres não podem conduzir, nem votar e têm de andar totalmente tapadas, para dizer o melhor dos males. O ocidente e os países desenvolvidos não condenam isto?
Maria falou da sua infância suburbana. Gostavam de morar nas Avenidas Novas mas moravam em Campolide. O pai era militar e a mãe queria ter estudado mas a família não deixou. Gostava dos escritores russos e franceses. Quando a mãe morreu ficou com uma tia solteira, amarga, azeda que não sabia dar amor. Lia folhetins e chorava no cinema com filmes de terceira categoria. A família dela resumia-se a Beatriz. A única amiga. A família dela. Conheceu Beatriz (a amiga, não a professora universitária) no liceu. "Venho de lugar nenhum e sou parte do provoque foi a todos os lugares. O povo que aprendeu a perder". Sempre se achou demasiado alta num país de meia estatura. Faz descrições perfeitas de quem já viu cadáveres mutilados pela guerra. "O cheiro a carne humana assada é uma recordação". Tem o cabelo bem cortado. Recebeu o primeiro treino de guerra na Jugoslávia. É sempre a que parte nunca a que fica. "Confiava na delicadeza de estranhos" como a Blanche Dubois que sempre dependeu da bondade de estranhos. Nunca olha para trás.
"O Afeganistão foi a minha melhor guerra...a paisagem tinha uma luz libertadora...o Iraque, a Síria, a Líbia, os Balcãs foram más guerras". A rotina é uma salvação.. O amor é ópio. É uma droga. Fica-se agarrado. O amor distorce a realidade mais do que a guerra"...."Enerva-me a mania de cobrir o cabelo  de tornar a mulher numa criatura sem género".... "De todos os países onde trabalhei, o Iraque é o mais viciado, o mais violado, um serial killer serially killed. Dizem que aqui nasceu a nossa civilização. A Mesepotâmia. Bagdade foi a capital do Califado, uma cidades de sábios e de bibliotecas.... O amigo Saddam tinha sido nosso aliado contra o Khomeini e tornou-se o nosso inimigo.... O meu primeiro amigo iraquiano foi um taxista do nosso hotel... Tinha um retrato da equipa do Benfica na parede de casa, uma foto a preto e branco com a águia benfiquista de asa aberta... Aqui morre-se cedo e morre-se mal". O que são os países islâmicos? Cafés cheios de homens sentados a beber café turco. "Bagdade era uma cidade de leitores. No tempo dos otomanos esta rua já era o que é. Um supermercado de livros, uma livraria ao ar livro, uma universidade... Quando na Europa andávamos a quatro patas aqui liam livros... A Biblioteca Nacional é um dos raros edifícios decentes de Bagdade. Os iraquianos têm orgulho em ter uma biblioteca. Não são o bando de primitivos que o nosso mundo branco supõe... Eu tenho horror à vida normal...o chefe do frango assado torna-se um amigo". (Quase) tudo neste livro é cru, como a realidade. "Poucos sabiam fazer bombas em 91. Sabiam na Palestina... foi por lá que comecei a carreira, pela busca do Engenheiro”.

Pierre. É uma amizade de circunstância, feita em Israel e na espera da entrada no Iraque. Um parisiense efeminado que é o correspondente em Jerusalém do maior diário de França. É mais um para quem os dias de glória são prefeito mais que perfeito. Fala muito de Cuba e de Fidel Castro, aquela foi a sua guerra e toda a gente tem uma. Não é má companhia e tem sentido de humor. “A minha ocupação predilecta é observar as pessoas, desporto inofensivo”.

Mattew Barak. Matt. "Dentes americanos de porcelana”. Tem passaporte britânico. É palestiniano.Filho de um dos patriarcas da terra. Um homem muito rico. Um milionário, financiador de guerras e negócios de guerras.os filhos estudaram em Inglaterra. Vive no quartinho mais modesto do Colony. Foi educado em Inglaterra. Não é muçulmano. É palestiniano. Tem passaporte britânico. Estudou em Inglaterra. É um ethonian. Um palestiniano nascido Jerusalém... “Antes de Arafat ninguém sabia que existiam palestinianos. Eram árabes iguais a outros árabes. Ele inventou uma categoria, um povo sem Terra. Os heróis têm a obrigação de morrer cedo , antes de se tornarem bandidos. Não se pode ficar muito tempo em Jerusalém porque faz mal à saúde”. Tudo nele defende uma origem... Habituado a ordenar a vida dos outros ordenando o mundo à sua volta...Descende de gente sem país, sem casa, sem Pátria. Matt não gosta de Tariq. Diz que é uma vergonha para os palestinianos. Um inútil, um parasita, um delinquente, talvez um informador. Matt é cheio de segredos e mistérios. "Entrar no coração palestiniano é entrar no desgosto...é como beber fel.. A raiva, a estupefacção, a vingança...".

"Tariq, o palestiniano que teima em não querer parecer palestiniano”... Tariq aparece e desaparece como os gatos. Tariq está sentado nas portas de Damasco... É ele o autor da frase “Welcome in Falestine”. Muçulmano: “Não sou muito de orações. A Mesquita é para homens casados, os velhos e as mulheres... As mulheres são anjos... Não parece árabe... Um rapaz bonito.... E uma melga....com os sapatos dois números acima...” O maior sonho dele é ir para a América, para NY. Conhecia todos os cantos bíblicos de Jerusalém. Tariq era o mais novo dos irmãos e queria escapar dali. Nova Iorque! Era para onde queria emigrar. A América era a terra prometida... Notava-se que tinha sido educado por mulheres...se Israel não tivesse vindo para A nossa terra eu não andava para aqui às voltas, tinha uma casa e uma profissão....foi Tariq que me falou no Engenheiro pela primeira vez... Tariq é uma aparição a saltitar como um gafanhoto. Parece tudo menos palestiniano. Tariq aprendeu a viver na clandestinidade o sexo mal pago, um prostituto barato que oferece os serviços às do-gooders por uns dólares. " gostava de matar todos os judeus mas não posso. Eles são mais fortes do que nós.e se não posso não vale a pena morrer"..."quero estudar na América e vou conseguir". Quer provar os cachorros-quentes da América. É um muçulmano que come carne de porco. Tariq sumiu-se. Não há sinal dele.

Amjad. "Esta é a minha casa. A minha terra... Um dia Israel deixará de ser Israel. Esse dia há-de chegar. Nunca vamos desistir. Ninguém gosta dos palestinianos. Nem os árabes...o Hamas dará a liberdade a Gaza... A luta vai entrar numa nova fase"
"Só um judeu pode saber o que significa não ter um país". A Palestina é um lugar ocupado nas palavras de Matt.

Marci é uma missionária. Como Adam. Passou a vida a cuidar dos refugiados. Os que dependem dos outros para tudo. Ninguém os quer. "São párias, vivem no limbo". Apaixonou-se por um palestiniano mas deixou-o porque ele lhe pediu. Converteu-se ao islão. Visitou Lisboa. Quis saber onde ficava a mesquita. Orienta o tapete para Meca. Não gostava de Jerusalém. Dizia ser a terra do pecado e do ódio. É uma beta americana.

 Uriel. Escritor. Poeta. Vive em Telavive numa casa que tem mais livros do que casa. Tem mar quente. Judeu. Tem a arrogância dos israelitas.
Adam. Maria teve um romance com ele que começou no Dubai. Não se consegue chegar perto dele. Era um soldado. Foi o único amor feliz de Maria. Recebeu dele o treino militar. 

Beatriz. A grande amiga de infância de Maria que sobreviveu ao passar dos anos. Vivia na Lapa. Filha de um grande banqueiro. Casada com um político, Eduardo. Pessoa muito bondosa. O bem em forma de pessoa. Muito católica e bem feitora. Uma do-gooder natural. Preocupava-se com os outros. Adorava fazer os outros felizes.

Márcia. Márci. Conheceu Maria num hotel em Amã. Nasceu em NY. Filha de um senador do Estado de NY e de uma arquitecta. Uma do-gooder com dinheiro. Foi educada na igreja unitária. Estudou Sociologia em Columbia University. Gosta de trabalho social, ajudar os outros: "é embaraçoso ser-se feliz quando os outros sofrem". Simpatiza com os palestinianos. Começa a sentir-se atraída pelo Islão. Tem um amor proibido. “Os palestinianos são iguais aos israelitas só que mais mal vestidos. Uns convertem-se ao Islão outros não”.

David Peretz. Perito em diplomacia e comunicação. Nasceu em Israel. Viveu nos EUA. Tem a tenacidade e a força do figo-da-índia (o cacto que dá fruto na aridez).

Um livro cheio de cidades, lugares, monumentos, museus. Hull. Jerusalém. Mar Morto. Galileia. Londres. Dubai. Beirute. Meca. Gaza. Istambul. Egipto. Cidadela. Cairo. Gizé "a esfinge bocejava na solidão". Bagdade. Hotel Al-Rashid.Jordânia. Amã. Ein karem (a aldeia onde nasceu São João Baptista, um lugar bíblico). Islamabad. Cabul. NY. Ramallah. Georgetown. Jafa “um bilhete-postal... é uma praia que nunca sai da maré baixa”. Jericó “Terra do leite e do mel. É a cidade das palmeiras. Um oásis no Mar Morto. É a cidade dos perfumes. Tem as melhores tâmaras do mundo”.

As descrições das cidades, principalmente de Jerusalém são de quem as viveu."Jerusalém é tudo o que queremos que seja ao crepúsculo... À noite pertence aos homens sem Deus... Allahu Akbar. Pela Cidade Velha o eco repete-se porque é a hora da chamada dos fiéis por Deus...Os olhos dos árabes são bagas de zimbro amargo. Cheira-se o aroma pestilento da vingança. Quando as represálias israelitas acabaram com os esfaqueamentos diários, os palestinianos descobriram uma nova arma mais barata e destrutiva. O próprio corpo. A granada humana”.

A escrita de CFA, para quem a conhece há muito, é facilmente perceptível. Usa, ainda, palavras como criado, oiro, doirado. Quem é que em Portugal ainda usa estas palavras?

Um livro obrigatório que não poderia ter sido lançado em melhor tempo. Nunca um livro fez tanto sentido. Fala-nos do medo inevitável da guerra dentro de casa. Não a podemos evitar nem nos podemos proteger. Não há fórmula nem protocolo. Estão em todo o lado. Ubiquidade. "O inimigo não tem cara, nem nome, nem posto".

Um livro cheio de sinais e de pronúncios. Com um final catártico de tragédia grega. Um final que não redime, só revolta. A dor da humanidade. “Os filhos, como a guerra, não têm fim".



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