Dirijo-me aos táxis. A imagem do inferno. Uma fila gigantesca. Tal e qual como nos Aeroportos nos Estados Unidos. Mais pessoas do que táxis. Debaixo de um calor infernal. O dia mais quente do ano, dizem. A sensação térmica e de ter aberto a porta do forno. Desisto e vou para o metro. As filas para tirar bilhetes são muito menores e rápidas. Existe um funcionário que fala em todas as línguas. Eu sou, mais uma vez, a única portuguesa. Assisto boquiaberta a vê-lo trocar notas com uma amabilidade que desconheço nós portugueses, principalmente os do Algarve. Não lhe digo mas não aguento de tanto orgulho de ser portuguesa, perante esta cena. O metro é de 5 em 5 mns e em 20 minutos vou do aeroporto até aos Restauradores. Estou no início da avenida da Liberdade, ou no fim, dependendo da perspectiva. Os nossos Champs Elysees. São quatro da tarde e Lisboa está mais quente do que nunca. Sigo até à Rua Portas de Santo Antão e depois Elevador do Lavra. Só de olhar para a subida e para a inclinação dá-me um calafrio. Com o mesmo bilhete do metro subo o Elevador. No cimo, CEDOC. Vamos colocar a minha mala no carro. E vamos a um geladinho na Mú no Campo Mártires da Pátria. Depois, como as velhinhas, vamos para os bancos do Jardim do Torel olhar para os telhados de Lisboa que parecem um quadro da Maluda. Como temos um concerto e o lugar não é marcado, first come first serve, combinámos às 8:30 na entrada do Coliseu. Mas antes, comer qualquer coisa. Pensamos no Gambrinus mas a passar na Casa do Alentejo vemos que tem uma loja que vende queijos, presuntos, salpicão. Nada mais adequado. Uma sandes gigantesca em pão alentejano de presunto e uma imperial alemã. A sede é tanta que eu nem espero para comer. Bebo como se não houvesse amanhã. Apesar de ser de noite a temperatura não desce dos 30 graus. Parecemos derreter. Mais uma vez, o atendimento é irrepreensível e mais uma vez somos as únicas portuguesas.
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
Lisboa quase um ano depois
Não me lembro de ter estado tanto tempo sem vir cá. Cheguei ao aeroporto no início da tarde. No terminal 1, o Starbucks ao longe chama por mim. Lisboa de repente, em vez de ser Portugal, parece-me que acabei de aterrar nos EUA. Só eu e os funcionários somos portugueses. Perguntam-me o nome. Parece um dejá vu. Peço um regular iced coffee. E escrevem-me o nome no copo seguido de um smile. Quase ninguém me chama pelo nome. Chamam-me irmã, prima, titi, gaja, Anita, Ana Margarida, Martins, Martinez, Ana Martins, Anocas, Aninhas, Anita. Mas o meu nome que é pequeno, e que tem 3 letras apenas, ninguém me chama. E de repente, ouço o meu nome o maior número de vezes em menor tempo. Soletrado em português. E como se já não bastasse a minha alegria de voltar à cidade que mais amo, o sorriso abre sem que eu controle. Como o gelo é muito, volto para trás porque as minhas mãos estão prestes a congelar. Tento tirar um guardanapos e ouço chamar pelo meu nome, mas não ligo, porque Anas há muitas "sua palerma". Mas como continuam, decido olhar. E estendem-me um cartão que colocam nas bebidas quentes. Nunca ser chamada pelo meu nome me deixou tão feliz. O Starbucks é o que os Estados Unidos têm de melhor. É um sítio democrático.
segunda-feira, 5 de setembro de 2016
Noite branca
Mesmo sem ter estado pessoalmente em nenhum dos 3 dias, as opiniões e repercussões são as melhores
possíveis. Aquilo que há uns anos era apenas uma noite, este ano foi um fim de
semana. E desta vez, acho que nem os críticos têm muito a apontar.Sexta-feira à
tarde disseram-me que a cidade estava inundada de gente. Durante o fim de
semana, os autocarros circularam em horário extraordinário e de frequência
regular. Os grandes concertos incluíram nomes como Carminho, Miguel Araújo, The
Gift e Sérgio Godinho + Jorge Palma.
Houve actividades para os mais pequenos que incluía actividades como
contar histórias, desenhar em paredes, construir a própria máscara, ofertas de
algodão doce. Os museus estavam abertos e de entrada livre. As ofertas
gastronómicas eram muitas. Orquestras sinfónicas e música clássica no Theatro
Circo, assim como, DJ’s. Cenas
alternativas no GNRation. Danças no Largo São Paulo. Instalações espalhadas
pela cidade. Performances. Bandas. Desta vez, parece que não há do que nos
queixar. Ofertas para todos os gostos. Gente, muita gente a percorrer a cidade
a pé. Uma cidade que foi para os pedestres. Não podemos deixar de aplaudir. O
tempo também ajudou. É com estas dinâmicas que Braga se deve transformar. Uma
cidade com diferentes ofertas culturais. Uma cidade pedestre, voltada para a
rua e para o seu património e mostrar o que de melhor há. Havendo eventos, as
pessoas saem à rua. Por isso, os organizadores, estão de parabéns.
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
Afinal houve golpe, não se consegui "botar" para fora Temer, e a querida saiu
Deixei de ter paciência
para discutir sobre o Brasil. Aconteceu o mesmo quando há quase um ano o PS com
uma coligação pós-eleições tomou “de assalto” o poder. Nada tenho em comum com
este PSD. Mas a verdade é para ser dita. A coligação que ganhou as eleições não
foi a que assumiu o poder. Foi, mas chumbaram o governo no parlamento. A
história e os pormenores técnicos toda a gente os sabe. Mas os mesmos que
tomaram de assallto o poder, os que o defendem e os que acham que esta esquerda
é um governo ligitimo, são os mesmo que quando no Brasil se falou pela primeira
vez em impeachment apelidaram-no de
golpe.
Não sou analista política nem percebo nada de leis e estou apenas a dar uma opinião pessoal. Acho que se
alguma vez um governo poderia ter sido destituído, esse teria sido na época da
descoberta do “mensalão”. Aquele célebre caso em que o Lula era tão inocente
que afirmou desconhecer o esquema e no qual muitos dos seus mais próximos foram
presos, incluíndo José Dirceu. Contra o Lula tenho tudo. É uma espécie de
Sócrates mas sem o mesmo nível e sofisticação. Acredito que será melhor pessoa.
Mesmo depois de tudo, Lula, continua a ter mau gosto, a falar mal português, a
precisar de umas aulas de etiqueta e por melhor que se vista e por mais banhos
que tome, nunca deixará de ter ar de suburbano. Quando o acusaram de corrupção,
os bens que lhe eram atribuídos, não era um apartamento num dos bairros nobres
de São Paulo ou na zona sul carioca, mas um triplex nos subúrbios- São Bernardo
do Campo. A outra propriedade, digamos mais de veraneio, ao contrário de ser numa
charmosa ilha de Angra, Búzios ou Paraty, era na zona costeira paulista, que
qualquer pessoa minimamente viajada nunca ouvira falar. Isto para dizer que se
o Lula roubou, roubou à sua imagem, mal. Ou seja, nem gosto teve para roubar.
Até no acto de roubar é simplório.
Pois bem, Lula saiu e ganhou
Dilma. A sua seguidora. Mulher, estudada, imagem da resistência à ditadura
brasileira e capaz. Apesar dos seus discursos serem incompreensíveis ou como
muitos dizem, de ser numa língua que a própria inventou, “dilmês”. Tenho para
mim que o maior erro da Dilma é defender até à morte o seu padrinho político,
Lula. Acho que só ganharia se soubesse criar um novo caminho. Foi afastada por
um crime que não cometeu. Foi julgada por uma manobra política por senadores
que nada têm de juízes. O compadrio, a senzala e os coronéis venceram. A
perpetuação do poder parece instalada. A boa e a má notícia é que todos os
políticos poderão concorrer nas próximas eleições.
Mas depois surge-me a
grande dúvida: as pessoas que apoiam o PT e a Dilma (e o Lula) são as mesmas pessoas que estiveram
caladas perante a ditadura de Cuba, os mesmos que contrataram e apoiaram a ida
de médicos cubanos para o Brasil a pagar-lhes menos de que aos médicos
brasileiros (os médicos cubanos recebiam uma parte e o governo cubano outra);
são os mesmos que apoiaram a subida de Chavez ao poder e os seus grandes
amigos; são os mesmos que se calam e assistem impávidos e serenos à vergonha
que se passa na Venezuela onde falta tudo; os mesmos que apoiam o Evo
Morales... Assim sendo, como é que eu posso escolher um lado?
O Presidente Temer, que não foi eleito pelo povo mas que a
constituição brasileira permite que seja presidente vai se-lo durante os
próximos 2 anos. Um Vice-Presidente que traiu desta maneira a sua Presidente
não lhe espera um futuro muito risonho. Vende-se por pouco. E deixa ficar mal
os seus colegas da grande disciplina que é o Direito, a Universidade do Largo
São Francisco e o título de Doutor que não honra. Colherá o que semeou. Como o ciclo da vida. "Não há mal que dure sempre nem bem que nunca acabe". E depois tem ainda o defeito triste dos homens que não sabem envelhecer: a necessidade de ter ao seu lado uma barbie com idade para ser sua neta.
Todos, acusados ou não,
culpados ou não, julgados ou não, arguidos ou reus, vão poder candidatar-se nas
próximas eleições. O que é um pronúncio muito optimista, não haja dúvida. Num
país onde não existe vergonha, todas estas pessoas não terão qualquer problema
em voltar a candidatar-se. Evangélicos, religiosos, palhaços, analfabetos
funcionais, pessoas capazes das cenas tristes que foram divulgadas ao mundo do
Congresso brasileiro.
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
A amizade
A amizade, como o amor,
não se explica. Há quem diga que tem muitos amigos. Eu não. Há quem diga que as
amizades não acabam. A minha experiência também me diz que pode, sim, acabar. O que é verdade numa amizade, ao contrário
do amor, é que nunca se fica a odiar a outra pessoa, apesar de tudo. Mas eu
também não odeio ninguém, seja porque motivo for. Esse sentimento nunca tive
por ninguém. Nunca tive muitos amigos. Dizem que não gosto de quase ninguém, a
esse ponto. Dizem que gosto pouco de pessoas. Gosto muito de algumas pessoas. E os meus amigos são aqueles a quem eu dei uma
oportunidade. Às vezes em situações difíceis, que não me envolviam, tentei
ajudar usando o meu humor judeu. Isso já me valeu o afastamento de algumas
pessoas por quem eu tive que lutar. O que é uma verdadeira amizade? Quando
damos conta que o tempo passou, e que apesar da distância e da rara
convivência, a intimidade permaneceu. É não ter capas. É falar verdade. É ser
transparente. Mas não há regras nem fórmulas.
Durante muitos anos, os
amigos que me acompanharam e partilharam a vida, vivíamos como se não houvesse
amanhã. Dançávamos, coisa que nunca fiz em público a não ser que a concentração
alcoólica fosse alta. Fumávamos sem conta e sem limite. Fizemos muitas
loucuras. Nunca nos cansávamos. Tínhamos asas muito grandes. Fizemos interventions uns aos outros. Testámos
os nossos limites. E isso passou. Há um tempo para tudo. Hoje, alguns, permanecem.
Tenho amigos de cá e de
além-mar. Amigos malucos, neuróticos, chatos. Amigos com pinta. Amigos que não
gostam de ler e que gostam de ler. Amigos que tocam piano. Amigos de todas as horas. Amigos que choram
no meu ombro e no meu colo. Amigos que já me viram chorar e com quem chorei ao
telefone. Amigos que me ampararam as quedas e os tombos. Amigos que me salvaram
a vida mais do que uma vez. Amigos que são irmãos. Amigos que me dão sobrinhos.
Amigos que se riem do meu humor judeu. Amigos que se desfazem e que “estão tão
à flor da pele que qualquer beijo de novela os faz chorar”. Amigos que perdoam.
Amigos que pedem desculpa. Amigos que se esquecem. Amigos que contam e guardam
segredos. Amigos que se expõem e que não fingem. Amigos que não se fazem de
fortes. Amigos sinceros e honestos. Amigos com corações muito grandes. Amigos
com coração sem tamanho. Amigos que me dizem que me adoram. Amigos que eu
reconheço as mãos no escuro. Amigos que
nunca me abandonam e que já me abandonaram. Amigos que vão e que ficam. Amigos
mega, tera, giga bons. Amigos que acreditam. Amigos que respeitam. Amigos que
se fazem de fortes. Amigos que cantam e que pintam. Amigos que ouvem e que
falam. Amigos de todas as horas e de todos os dias. Amigos íntimos e mais
afastados. Amigos sem definição.
É assim que eu queria
que os outros me descrevessem quando morresse: uma boa pessoa, uma grande amiga
que sempre fez bem. Este é o meu objectivo maior.
domingo, 28 de agosto de 2016
A pessoa que escolheu apenas (sobre)viver
Passaram-se 21 meses e 15 dias desde que ele se foi
embora. Sem uma explicação. Sem um pronúncio. Sem uma sugestão. Sem nada que
indicasse um fim. Tudo é “eterno
enquanto dura”. Ela escolheu ser infeliz. Uma eremita. Uma anti-social. Uma
Greta Garbo (que não vive em NY). Fechou-se para a vida. Só se pergunta o que
fez de errado, como se houvesse (alguma) ciência nos finais. Podia ter optado
por sair todas as noites até de manhã e dormir de dia. Sendo livre, podia
abraçar toda a gente. Tinha a liberdade de escolher com quem sair. Bebia todas.
Pedia uma bebida e traziam-lhe uma bandeja. Saía como se não houvesse amanhã.
Beijava bem. Não era de ninguém. Tinha sempre o copo cheio, pela madrugada
dentro, até ser dia. Até que sentia-se mais sozinha com o passar do tempo. Era
mais uma no meio da multidão. Agora, não perde tempo a conhecer ninguém. Como
se tempo não fosse o que mais tem.
Tem vivido o inferno de Dante. Não vive no presente,
só no passado. Não tem futuro. Deixou de saber conversar. Só frases curtas e
soltas. Toda a gente desistiu dela. Ninguém aguentava (mais) aquela depressão.
Aquelas frase feitas. O pessimismo. A crítica ao ser humano. Cansaram-se de que
lhes pedisse espaço. Não deixa que tomem conta dela. Nem que se aproximem. Os amigos
desapareceram. Depois os colegas. Depois os conhecidos. Depois os que acabava
de conhecer. E no fim, ficaram apenas os cães, que não cobram nada.
Não consegue distinguir a pessoa que foi nem na que
se tornou. A irracionalidade tolheu-lhe o juízo. Não consegue mais ver o lado
mais bonito de si. De como é bonita por dentro e por fora. O que ela sente é uma tristeza sem fim. Tem
estado muito doente. Os médicos dizem-lhe para fazer o que lhe apetecer. Mas
nada lhe apetece. Passa os dias a olhar o céu e o mar. Olha para o infinito.
Vive de memórias. Ele não lhe sai da cabeça. Acha que amar sozinha também vale.
Melhor um monólogo que nada. Vive de migalhas. O coração, esse orgão tão físico
e tão complexo só lhe dá (falsas) esperanças e (falsos) sinais. O coração é o
mais irracional dos orgãos. A razão mostra uma coisa e o sentimento indica a
direcção contrária. A esperança que não cessa. Apesar do tempo que passou, não
consegue entender a palavra fim. E que essa palavra, segundo as estatísticas,
não tem continuação nem (re)começo. Não conseguiu mudar a página.Talvez um dia
consiga reparar, dentro dos seus olhos cor de amêndoa, no instante que passa. A
vida é uma viagem curta. Sente-se a morrer por dentro. As lágrimas não param de
lhe cair. E todos os dias as seca. Os diamantes duram para sempre mas as
pessoas não. Mas agora, ela (apenas) conta as horas e os minutos para que a
morte chegue.
![]() |
| Coração bordado em tela by Daniela Ktenas. |
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
MICHIZAKI
Doze de Julho de 2016
Aproveitámos para
comemorar o regresso da C. e do F. ao mundo depois de terminarem a escrita e a entrega das
teses de doutoramento. O pior, segundo a maioria diz, está feito. Para mim, o
pior, que é a defesa pública, ainda está para chegar. Felizmente para eles, que
discordam de mim, a defesa será peanuts.
Como nós arranjamos qualquer desculpa para festejar, o que quer que seja, fomos
ao Michizaki. Ao contrário da maioria
dos restaurantes japoneses all you can eat que servem os clássicos sushi, sashimi, crepes,
temaki, katsu... em alguns restaurantes encontra-se ramen (mas não em Braga).
Os melhores que experimentei em Portugal são o Gosho e um que acho que já fechou em Lisboa que era na R. da
Misericórdia: UMAI.
Este Michizaki é
pequeno. Convém reservar mesa. Tem um balcão onde se vê os chefs a preparar os pratos. Tem uma
decoração minimalista e bem conseguida. Tem umas cadeiras lindíssimas e alguns bonsai. Não parece um restaurante mas um bar. A
ideia é de degustação. Tudo é servido em pequenas doses (3 ou 4 unidades). Tem
um boa carta de bebidas. Eu escolhi uma sakerinha (uma espécie de caipirinha
com sake com pouco ou quase nenhum açucar). Pelo menu percebemos que existem
diferentes opções para o almoço e para o jantar, incluindo o almoço, as famosas
bento box. O que nos despertou o
interesse foi saber que havia Tokoyaki (uns bolinhos com polvo que são servidos a
escaldar). Foi o que mais comemos.
Experimentamos diferentes tipos de sashimi.
De ressaltar que a variedade de peixes era maior que a normal e que a qualidade
era perfeitamente distinguível. Comemos ainda uma massa vegetariana e pickles
japoneses (que estavam maravilhosos). Eu comi ainda uma sopa miso.
O serviço é rápido. A espera entre os pratos mesmo quando se pede para
repetir é muito aceitável. O ambiente é agradável. O espaço tem bom gosto. Produtos
de óptima qualidade. Vale muito a pena. Não é barato nem nada que se compare (para
se ficar satisfeita e eu como pouco): + 30 €/pessoa. Não é para desanimar nem
para demover a vontade de experimentar. O preço é alto, mas justo. Para a
qualidade e a experiência é um must go.
Copyrights: Braga Cool e Michizaki.
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
Um banho de humildade
Tudo na minha vida profissional sempre me indicou que não
podia ser (demasiado) optimista. Quando achei (alguma vez) que tinha alguma
coisa para o ser, o universo encarregou-se de mostrar-me o meu devido lugar. Fiz
um doutoramento sem nunca ter tido uma bolsa da FCT. Perdi as vezes que
concorri e não tive. Acho que bati o recorde: no número de vezes que alguém
concorreu e que não conseguiu. Podia entrar para o Guiness. Talvez tenha sido
esse facto que treinou a minha paciência e a minha “não desistência”. Nunca
desisto de nada antes de achar que acabou. A célebre frase: “se o fim não foi
bom é porque não acabou”. Depois, quando acabei o doutoramento, uma ideia
revolucionária dada por um grande amigo e a leitura obsessiva sobre o assunto
durante um mês, resultou numa das maiores alegrias da minha vida profissional:
uma bolsa de pós-doutoramento da FCT. Essa bolsa permitiu-me arriscar numa nova
área, viver na cidade que sempre quis, trabalhar com quem quis e evoluir.
Comecei de novo. Do zero. E com isso, com todo o banho de humildade de aos 31
anos começar a (re)aprender tudo de novo. Sem vergonha de questionar, de não
saber, de pedir. Ao contrário da maioria dos pós-docs do meu laboratório, fui
para fora e apostei numa nova área. Com todos os contras que isso implicava,
teve as suas vantagens: ensinou-me muito e permitiu-me independência. Perder a
vergonha foi o maior ensinamento. E o outro foi acreditar nas minha
capacidades. A minha auto-estima profissional cresceu muito. Quando o elogio vem
de pessoas que defendem e acreditam na meritocracia, esse é o desfecho.
No ano passado concorri pela primeira vez a Investigador
FCT. A saga das rejeições regressou. Não tive. Este ano concorri novamente.
Passei à segunda fase. Um dia antes das férias recebo o veredicto. Foi a maior
pancada profissional deste ano. Foi um KO imediato. Não o resultado mas o
comentário. Para mim, não existe nada pior do que a crítica injusta. Aceito
(quase) tudo mas não lido bem com a injustiça e a ingratidão. Nesse dia fui
para casa e fechei-me. Uma amiga disse-me “Podes gritar. Eu deixo-te”. Não consegui.
Nem gritar nem chorar. Mas uma dor
imensa tomou conta de mim. É nestas alturas, em que o nosso ego é posto em
causa, que vacilamos e descemos à nossa humilde condição de humanos. Olhamos
em frente, relativizamos e descobrimos que a melhor maneira de continuar é não
nos levarmos muito a sério. Por cada vitória e conquista teremos sempre uma
proporção imensa do outro lado da moeda. A vida é assim. E a melhor recuperação
é pensar sempre que não há nada como dormir porque amanhã será outro dia.
quinta-feira, 14 de julho de 2016
Cumpriu-se Portugal
O Infante
Deus quer, o homem sonha, a obra
nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
Este foi o poema de Fernando Pessoa
do livro “Mensagem” que saiu no meu exame de Português no 12º ano. Começámos
pequenos, com a conquista do que é agora Portugal aos Mouros. Fomos grandes na
época dos Descobrimentos, que apesar de todo o mal causado aos povos nativos, teve
o mérito de espalhar a língua portuguesa pelo Mundo. Tivemos as invasões
Napoleónicas. Sobrevivemos e resistimos. Um grande português deu a independência
ao Brasil (Grito de Ipiranga). Demos a independência a Goa, Damão e Diu, Timor
e a todas as colónias de África. E finalmente Macau. Voltamos ao pequenino que
sempre fomos. Não sendo, como se dizia no tempo do Estado Novo que Portugal era
“do Minho a Timor”, mas do Minho ao Algarve (Portugal Continental) e ilhas (Açores
e Madeira).
Os franceses demonstraram mau
perder. Acreditavam que já estava ganho. O autocarro já estava pronto. A Torre
Eiffel que sempre se iluminou com as cores da bandeira nacional que ganhara,
apagou-se. Ganhar é bom mas saber perder é uma virtude. Um país a achar que era
superior...
Pelo Ronaldo que saiu pequenino da
Madeira que teve uma infância mais do que humilde e que, como a mãe, sonhou o
sonho de ser feliz. Ele é o exemplo para
muitos meninos espalhados pelo mundo. E a mim, particularmente, faz-me
acreditar que tudo é possível e que nada está predestinado à nascença. Um
menino que disse em tempos à sua mãe: “A mãe que não chore. Quando
for grande, vou ganhar bastante dinheiro. Vou comprar uma casa e tirar a mãe do
trabalho”. Dizem que todo ele é força de vontade e muito trabalho. E um homem
bom.
Pelos portugueses espalhados pelo mundo que já
ouviram uma piada/crítica/comentário xenófobo, pelos emigrantes que algum dia
foram humilhados, pelos portugueses que fazem sucesso, pelos muitos que
brilham, pelos muitos estudantes, pelos que trabalha arduamente e honestamente.
Isto também é a vitória deles.
Como diz Fernando Pessoa “a minha
pátria é a minha língua”, talvez seja isso que une os portugueses espalhados
pelo mundo. Dizem que somos 11 milhões, mas somos mais. Mundial ou um Europeu
como o deste ano, só vivi o de 2004 ou quando estava nos EUA. Nessa altura que
me senti uma emigrante. Privilegiada mas emigrante. Estar longe da pátria. E
quando se está longe é quando mais se sofre e quando mais se ama. Saudade, essa
palavra tão portuguesa que não tem tradução.
Como escreveu uma grande amiga
“Porque já estive lá fora e sei a falta que o nosso país nos faz e a alegria
que é quando aterramos em casa. Pode
ser futebol e 11 malucos com a bola nos pés, mas hoje é uma alegria que dão aos
11 milhões. Aproveitemos. E acreditemos que conseguimos. No futebol e na vida”.
É (só) isto! Ontem e hoje. “Sonhar é grátis”, como disse o Ronaldo. Só vacilei
quando ele saiu lesionado. Aí achei que estava tudo perdido. Mas os 11 em
campo, apoiados pelos milhares no estádio e milhões em Portugal e espalhados
pelo mundo, continuaram a acreditar. Se não tivéssemos ganho não seria o mesmo.
Mas o sentimento de gratidão seria igual. É (só) futebol. Mas sonhar e
acreditar que é possível é a melhor metáfora da vida.
Ganhámos contra tudo e contra
todos. Dizem que jogámos mal, que não merecíamos. Pelos que nos chamaram
nojentos, que nunca acreditaram que seria possível, que nos criticaram, que
falaram mal, que nos consideraram menores, que só sabíamos construir casas e ser
porteiras, que nos humilharam. “Não importa se jogamos bem ou mal, o que
importa é levar a taça para o nosso Portugal”.
Que esta vitória sirva para termos
orgulho e acreditarmos sempre. Nada é impossível. E como dizia alguém: “O céu é
o limite”.
E domingo, merecidamente, com
justiça e pelos portugueses espalhados pelo mundo, ganhamos! Demonstramos união e espírito de missão, e isso é quase tudo! E no dia seguinte
fui de directa trabalhar, depois de muito festejar e de o barulho na minha rua
não ter terminado até de manhã. No dia 10 de Julho cumpriu-se Portugal! Obrigada!
quinta-feira, 7 de julho de 2016
Sonhar é grátis
Quando tudo corre bem, todos falam bem. Mas a verdade é que
esta selecção ouviu de tudo desde o início do EURO 2016: a equipa não era
forte, não tinha suficientes valores individuais, CR7 não estava ao melhor
nível, não jogava um futebol bonito, teve sorte,quem mandava na selecção era o
Jorge Mendes e a Nike, o Messi é que é, Fernando Santos não é um bom
treinador... Talvez por excesso de críticas, desde o início, acreditei nesta
selecção. Não sei exactamente o motivo. Não jogávamos bonito mas éramos
eficientes. No final era sempre a sensação de dever cumprido. Temos um
seleccionador que antes de ser um grande treinador é um senhor e um grande ser
humano. Um homem cheio de valores e que acredita e mima a sua equipa. Os
jogadores parecem estar mais unidos que nunca e parece que querem tanto ganhar
quanto os adeptos. Não sei o que me fez acreditar que estaríamos na final. Mas
acho que estes jogadores merecem e os portugueses também.
Numa época que
estamos tão cheios de maus exemplos, de crise, de
austeridade, de má governação, de más notícias, de roubalheira, de fuga aos impostos, temos um
CR7. Um jogador que não desiste de investir em Portugal. Vejam o último CR7
Hotel. Vejam o encanto daquela família. Um jogador que apesar dos milhões que
ganha não quer ser (só) milionário basta-lhe ser rico. Não foge aos impostos.
Não foi apanhado nas listas dos paraísos ficais, por exemplo.
Quando vimos o primeiro golo de CR7, o que pensamos é que
desafiou as leis da física. O que muitos o acusaram, de não estar ao seu nível
nos jogos anteriores, culminou no grande primeiro golo e na assistência para o
segundo. E o que é mais bonito? O melhor do mundo (ainda) chora! E diz coisas
tão simples e tão tocantes como: “Sonhar é grátis”. #JesuisPortugal!
Se fosse a escolher quem
quero na final preferia a França para o “acertar” de contas quando fomos
eliminados por causa de uma suposta mão do Abel Xavier. Ainda se lembram? Principalmente
para alegria dos milhares de emigrantes portugueses França e que vão encher
Paris no Domingo. E depois para todos os portugueses em Portugal e espalhados
pelo mundo. Que alguma coisa nos faça alegres por algumas horas. O tal do sonho.
Sejamos grandes por um dia!
quarta-feira, 22 de junho de 2016
Cristiano Ronaldo
O Cristiano Ronaldo não
precisa que o defendam. Mas num mundo como o que vivemos, que é muito mais
fácil criticar do que enaltecer, e muito mais fácil humilhar do que aplaudir,
junto-me ao grupo daqueles que não esquecem os feitos deste grande jogador.
Não podemos nunca esquecer
qual a origem do Ronaldo e que faz dele um grande exemplo. Um menino de uma
zona muito pobre da Madeira que tinha, se não fosse o seu enorme talento e
trabalho, um destino comum ao de tantos outros. No entanto, ainda menino foi
para Lisboa onde se formou nas escolas do SCP e antes do 20 anos era já jogador
do Manchester United. Depois, tornou-se numa das mais caras transferências de
sempre do futebol quando se transferiu para o Real Madrid. Este jogador pago a
peso de ouro, ajudou toda a família, amigos e muitos mais. As irmãs e a mãe têm
mais do que uma mala Birkin que custam mais de cinco milhares de euros,
numeradas e feitas manualmente. Ele faz com que os sonhos dos seus mais
próximos se concretizem como se da lâmpada de Aladino se tratasse. O Ronaldo
nas passagens de ano manda fechar o Ritz do Funchal a família e amigos. Aluga
barcos e aviões. Paga férias de luxo aos que mais gosta. Tem casas em Madrid,
Lisboa, Gerês, NY e Algarve, só para dizer algumas.
Sei de muitas doações
que faz anonimamente a crianças e adultos vítimas de cancro e doenças raras. Já
todos vimos as muitas acções que faz quando alguém lhe pede uma camisola ou
alguém que contra tudo e todos quer com ele tirar uma selfie.
Assume e tem orgulho da
família que tem, tem nela o seu exemplo e a sua maior força, vive
orgulhosamente com a família. E depois, é unânime o que dizem sobre ser um
profissional exemplar, metódico, correcto, trabalha sempre muito, mais e
melhor.
Há 12 anos quando
estava a tirar o Doutoramento em Houston ia frequentemente a uma loja de
conveniência e um dos funcionários adorava o Ronaldo. Naquela altura ainda não
era o astro mundial de hoje mas esse rapaz já lhe previa um grande futuro.
Tinha uma camisola dele da selecção portuguesa. Lembro-me que nesse ano foi o Mundial
de 2006 na Alemanha e a diferença horária era de 6 horas. Os jogos eram sempre
de manhã ou à hora de almoço. Só quem está fora do país é que sabe do que é que
falo. Não se explica por palavras. Parece que somos melhores portugueses. Chora-se
a ouvir o hino. Temos um orgulho imenso e qualquer motivo é suficiente para nos
juntarmos. E foi o Ronaldo que levou novamente o nome de Portugal ao mundo. É
verdade, por mais que muitos queiram negar e não ver as evidências. Lembro-me
ainda há muitos mais anos ouvir uma entrevista da Purificação Tavares no rádio
em que ela dizia que quando estava nos Estados Unidos fazia kms para ir ver uma
equipa portuguesa de qualquer coisa.
Em NY toda a gente
conhece o Ronaldo, principalmente pelos grandes cartazes de publicidade da Armani espalhados pela cidade. Foi por
causa do Ronaldo que a Irina Schayk se tornou numa modelo mediana e com acessos
directos a mundos restritos. Ronaldo é um nome por si só que tem valor.
Basta de crucificarem o
rapaz porque falhou um penalti e porque muitos dos seus remates teimaram em não
entrar. Mas não o acusem, por favor, de não ter lutado! Há dias assim, menos
bons para todos, E ele, apesar de especial, é (também) humano.
Hoje, concordo com a
Dona Dolores que Portugal vai ganhar e eu acredito (ainda mais) que vão ser
vários os golos. Os emigrantes merecem esta festa para comemorarem. Os
portugueses merecem para se esquecerem (por horas) da crise em que teimamos não
sair. Os jornais e os jornalistas precisam de fazer um mea culpa.
E eu espero que depois
deste Europeu, dos anos de sucesso que o Cristiano Ronaldo ainda tem pela
frente como jogador, tenha a coragem, tal como outros, de fugir ao preconceito
instalado e ao machismo no futebol e assumir-se orgulhosamente. Um homem
honesto, talentoso, um exemplo só se tornará ainda maior quando se assumir por
inteiro. E aí sim, ainda mais palmas e elogios merecerá porque os enormes
exemplos são eternos. É o que sobreviverá para sempre e ficará escrito nos
livros.
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| Copyright: RR |
P.S. Quanto ao episódio de hoje de manhã em que o Ronaldo atirou o microfone da CMTV ao lago fez muito bem. Pegar no microfone e atirá-lo sem magoar ninguém foi a coisa mais sensata que fez. Aquilo que aqueles pseudo-jornalistas fazem não é jornalismo... nem sei que nome chamar aquilo. Podia ter sido muito pior. Eu atirava-o ao jornalista ou dar-lhe-ia um murro.
terça-feira, 14 de junho de 2016
Uma carta para os pais, para os homens, e para a família deles:
-
Quando se casarem, mesmo que descubram que se enganaram, que a pessoa com quem
se casaram não existe mais, que tudo não passou de uma ilusão, que as pessoas
de facto não mudam (só se for para pior), não coloquem a hipótese de se divorciarem;
-
Se por acaso tiverem filhos, o problema (só) aumenta exponencialmente, e em vez
de “não colocarem a hipótese de se
divorciarem” mudem para “nunca se divorciem;
- Leiam
as estatísticas de quantas mudanças, guardas, e responsabilidades parentais
foram atribuídas aos pais (homens) desde a última mudança da lei. Acreditem
nelas (porque existe a tendência para achar que é mentira e que os direitos são
iguais, afinal estamos no séc. XXI);
-
Quando vos disserem que os direitos de pais e mães em relação aos filhos são
iguais, riam-se e relativizem. Nem sempre o que está escrito corresponde à
verdade. O Direito não é uma ciência e muito menos exacta;
- Quando
vos disserem que os magistrados são a classe mais bem preparada do país,
esqueçam. A quantidade de juízes e procuradores aplicados, estudiosos, competentes,
progressistas e que não sejam tendenciosos é como encontrar um grão de areia
branca num areal preto (Eu que nunca mais oiça dizer que os médicos portugueses
são maus porque me vai dar um ataque);
- O máximo que poderão esperar da decisão do tribunal
é a “chapa 5”: um jantar todas as quartas-feiras, um fim-de-semana de 15 dias,
Natal, Páscoa e aniversários à vez e uma via sacra de martírios, de vergonhas,
de cenas, de espectáculos, de insultos, de mentiras e gastos de rios de
dinheiro em Psiquiatria;
- Pelas
experiências empíricas que conheço, em 4 anos, zero sessões de julgamento para
alterações da guarda. Apenas, conferências de pais, requerimento para aqui e
para ali, relatórios de psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, CPCJ,
hospitais, papéis, tinta, muita tinta, resmas e resmas que ninguém lê, árvores
abatidas;
- Encontrem
conforto nas palavras dos poucos que ainda defendem as crianças, não ligando ao género dos pais,
mas aquele que é mais competente. A anotar: Dr. Maria Saldanha Pinto Ribeiro e Prof. Daniel Sampaio;
- E
para aqueles que acham que as mulheres são todas iguais, não generalizem. De
facto, as grandes mulheres existem e andam aí: “Vou
dizer uma coisa que muitas mulheres detestam que eu diga, mas, hoje em dia, há
muitas situações em que os homens são prejudicados e são discriminados. Dou
como exemplo o que acontece na regulação do poder paternal. Normalmente o que
acontece é que as mulheres, por serem mulheres, são beneficiadas judicialmente
em detrimento dos homens. Não estou a dizer que não haja casos em que isto faça
sentido. Agora não pode ser um princípio geral de que as mulheres serão sempre
melhores como mães. Isto é uma questão de igualdade e mais, é de bem-estar das
crianças. Não podemos defender a igualdade dizendo que nós somos mais iguais
que eles. Não. O que temos de discutir hoje é a igualdade em tudo, quer nos
casos em que as mulheres são discriminadas quer nos casos em que os homens são”-Doutora
Graça Fonseca, actual Secretária de Estado Adjunta e da Modernização
Administrativa, Jornal Público, 01/02/15.
- Ser crente ajuda. Para quem tem fé, acredita que se a justiça dos homens não funcionar, a justiça de Deus funcionará. E mesmo quando tudo parecer perdido, há sempre um milagre à espreita. Para quem não acredita, para além de não encontrar conforto terreno, passará acreditar que existe sempre mais fundo;
- Termino
a sugerir a todos os licenciados e mestres em Direito: escolham como tema de
doutoramento uma análise de decisões dos Tribunais de Família e Menores do
norte do país (tradicionalmente mais conservador) e comparação das decisões da
guarda dos filhos por género.
domingo, 12 de junho de 2016
O elogio a uma vida boa e longa
Hoje vamos exaltar apenas as virtudes e a qualidades de um homem de família. Marido. Pai. Irmão. Amigo. Um homem austero. Sério. Duro. Forte. Conservador. Tradicional. De bom gosto. Antecipava cenários e crises. Por vezes, exagerado. Trabalhador. Crente. Defensor das mulheres. Sempre defendeu a sua emancipação e a sua independência, sobretudo profissional. Conversador nato. Recto.
Teve uma vida boa. E quando a doença apareceu não houve muito que a Medicina pudesse fazer para o curar. Aceitou a doença e foi um bom doente. A voz, que era a sua característica e identidade, modificou-se, mas não se perdeu.
A última vez que o vi, tinha já sido diagnosticado. Uma semana antes da Páscoa. Se eu não soubesse não acreditaria. Estava igual ao que sempre foi. Crítico da política. Elogiou grandes homens. Criticou maus exemplos. Propunha soluções. Acompanhado, como sempre, pelo seu vinho branco que tanto orgulho tinha. Como sempre à volta da mesa e do famoso lanche. O que eu vi naquele dia foi um homem (ainda) cheio de energia e optimismo que me mostrou como se via mensagens no telemóvel e um cartão pré-pago especial para falar quando quisesse com a minha madrinha na Austrália. Nesse dia, levei duas garrafas de jeropiga, que lhe disseram que eu gostava. De facto, a melhor jeropiga do mundo.
Como no salmo, o Senhor foi sempre o seu Pastor e por isso nada lhe faltou. Nos últimos dias, quando as forças lhe começaram a faltar, nos limites da condição humana, viveu uma vida de qualidade, apesar de difícil. As noites eram longas e silenciosas. Sempre contou com a melhor das ciências dos homens e com a Graça de Deus para não ter medo. Aceitou e soube viver com isso. Não se revoltou nem desistiu.
Nunca é fácil perdermos uma pessoa que gostámos. E sobretudo, achamos (sempre) que foi cedo demais e que tinha (ainda) tanto para dar. Mas a parte boa é que teve 79 anos de vida saudável e sem limitações.Teve o fim da vida ideal e que todos desejam. Rodeado e assistido pela família, que tudo fizeram. Nunca esteve só. Suportado pelo amor. Em casa. Em paz. Preparou tudo. Esteve lúcido, quase até ao fim.
Em especial, para a família, sintam-se orgulhosos deste homem e do que por ele fizeram. A forma como o acompanharam e se apoiaram na doença é um exemplo. Sintam-se abraçados e confortados pelo vosso exemplo. Bem-hajam.
quarta-feira, 1 de junho de 2016
SCOTE (Snack COfee TEa)
O SCOTE é das
melhores descobertas que fiz nos últimos tempos. Um misto de café, bar de
hotel, salão de chá e sala lá de casa. Boa música. Faz lembrar o Starbucks, com um balcão enorme e
cadeiras altas virado para a rua, copos de plástico de diferentes tamanhos to go. Tem umas mesas com cadeiras aos
pares a lembrar um salão de chá ou um bom restaurante. Depois tem uns sofás
baixos e umas mesas a lembrar os bares e as salas de estar dos hotéis. A
decoração é de extremo bom gosto. Nada de muito pretensioso mas cool. Apetece ficar, sem horas, a ler um
livro ou a estudar (para quem precisa). Tem umas sandes óptimas de pão de
Montalegre enormes. Dá para duas pessoas. As saladas são visualmente
apetecíveis e generosas. Chás, cafés (americano, expresso, pingado), pastelaria
portuguesa, brownies, bolos caseiros, muffins,
são muitas das escolhas. Um lugar destes era para estar a abarrotar e ter fila.
Apesar de não estar vazio, tinha (apenas) pessoas que davam para contar pelos
dedos de duas mãos. Acho que nem em Lisboa vi um café assim. Apetece elogiar
tudo. Com pormenores que beiram a perfeição. Sóbrio e limpíssimo. Não sei se
são as pessoas que não percebem o conceito. Se é errado para as pessoas de
Braga. Mas sei dizer que está a minutos a pé da Escola de Ciências da Saúde da
Universidade do Minho e do Hospital de Braga. Se estivesse no centro, perto de
minha casa, onde eu poderia ir a pé, confesso que seria a minha segunda casa. O
dono é competente e muito simpático. Sabe do que fala e do valor que tem. É um
homem do mundo e um cosmopolita pelas influências que se destacam. Como António
Variações dizia estava entre Braga e NY. Nasceu e viveu cedo de mais, para o
seu tempo. Este conceito do SCOTE
parece, um misto de Braga e NY, desajustadíssimo para a tacanhez e rotina dos
bracarenses. Desejo ao dono o maior sucesso porque o SCOTE é bom demais para
Braga. E deixo uma crítica directa: a elite deste país que entra com as notas
mais elevadas de todos os cursos deve ser a classe menos intelectualizada,
cosmopolita e aberta ao novo que conheço. Senhores, as notas e o maior número
de palavras decorados em menos tempo não é tudo na vida! Aproveitem porque não
vivemos para sempre e não levamos nada!
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| Copyright: SCOTE |
quarta-feira, 25 de maio de 2016
E a Venezuela, senhores?
Começo com um título, parafraseando uma grande artista
brasileira que nos seus espectáculos usa sempre um respeitoso: “Boa noite,
senhores”. Pois bem, nos últimos tempos, amigos, mais amigos, menos amigos,
conhecidos, gente que gosta muito de mim, do contra que gosta menos, que me apoia,
que discorda muito, perguntam-me: “E a Venezuela?”. Toda a gente que me conhece
(muito bem) sabe que quando eu deixo de falar de uma coisa repetidamente,
sistematicante, até que os outros se cansem muito, eu perdi a esperança. Revelo
o pior de mim, desisto. A Venezuela é um dos casos. Tenho dois grandes amigos
venezuelanos com quem aprendi muito e com quem aprendi, de uma forma
privilegiada, a realidade venezuelana. Isso foi sempre o que me ligou à
Venezuela, a amizade. De outra forma, seria (apenas) mais um país da América
Latina. Um país que não tem nada de muito mais importante a dar ao mundo, a não
ser o “ouro negro”. E até esse, que nos últimos tempos perdeu o valor que lhe
davam, reduziu muitos à sua insignificância. Ao contrário, por ex. do Brasil, a
Venezuela não tem uma elite cultural (sequer) parecida. Não foi o berço de
nenhum tipo de música. Não é o maior país onde se fala castelhano, ao contrário
do Brasil que é o maior país onde se fala português. Não é um país de
escritores, nem de arquitectos, nem de artistas. A sua culinária não é
conhecida mundialmente. E até no mau não tem comparação. Não tem Carnaval, nem
a mulata, nem as famosas favelas, nem os mais procurados bandidos, nem os mais
milionários, nem os mais corruptos. No entanto, tem de igual modo, belíssimas
praias, a floresta amazónica e grandes rios. E muito menos gente. Tem o mesmo
subdesenvolvimento dos países de terceiro mundo. Os muito ricos e os muito
pobres. Mulheres muito arranjadas que cuidam do cabelo e pintam as unhas. Mas
que vivem numa favela e têm mais do que três filhos, preferencialmente de
homens casados, a quem o pai não é obrigado a dar o nome.
A Venezuela foi governada durante anos pela direita que não
fez muito a não ser enriquecer (mais) a si mesma. A esquerda, a grande
esperança dos desgraçados, dos miseráveis dos pobres, daqueles que não tinham
nada, além de não os ensinar a pescar ainda lhes deu pouco peixe. A
Venezuela, ao contrário do Brasil, não
elevou os pobres a uma classe média ambicionada há muito, não levou os seus
filhos para estudar nas universidades públicas a partir do seu mérito, não se
desenvolveu, não criou riqueza. Os venezuelanos, ao contrário dos brasileiros,
não passaram a viajar em massa para o exterior nem passaram a viver melhor do
que viviam.
Não vou comparar Chavez a Lula porque um já morreu e não
morro de amores pelo outro. Mas a verdade é que não se pode comparar a afronta
de Chavez em relação aos ricos com o que se passou no Brasil. Nunca vi no
Brasil os discursos de esquerda inflamados como os que vi na Venezuela. A
Venezuela não foi projectada para o mundo, ao contrário do Brasil. O que eu
achei que nunca aconteceria na América Latina, temo que aconteça na Venezuela,
uma guerra civil.
Na semana passada o The
New York Times publicou uma reportagem sobre as condições indescritíveis dos
hospitais venezuelanos. Quando vi aquelas fotos e aqueles textos achei que
tinham sido cuidadosamente seleccionados pelos media americanos ( que muitos dos meus amigos acusam da sua tendencial
preferência pela burguesia e capitalismo). Não, não é mentira nem é exagero.
Aquilo está mesmo assim. Não há medicamentos básicos, os medicamentos para
tratar neoplasias há muito desapareceram e só se traficam no mercado negro. Não
há quase nada importado. As pessoas estão nas filas para tudo. Não há segurança
(embora isso nunca houvesse muito). Pessoas presas sem razão. Presos políticos.
As instituições não funcionam. Tudo se compra e se vende. Não existe
Democracia. Maduro comporta-se como um coronel nas antigas fazendas no tempo da
escravatura.
Muitos pensavam que a morte de Chavez acabaria com a
ditadura boliveriana. Chavez não parecia jogar
com o baralho todo. Mas Maduro conseguiu o impossível: mostrar que o buraco
pode sempre ser mais fundo. Enquanto a Venezuela se vai destruindo e
limitando-se apenas aos pobres e miseráveis (porque os ricos já saíram quase
todos), os restantes poderes de esquerda
dos países da América do Sul ou assobiam
para o lado ou (fingem) acreditar que os EUA estão a apoiar um golpe.
Onde está a elite Venezuelana e a oposição? Onde está o
mundo que não denuncia e não se importa com a Venezuela?
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| Copyright: Reuters |
quarta-feira, 11 de maio de 2016
Dilma
Faço aqui uma declaração de interesses: Não simpatizo com o
PT, não partilho da ideologia política e não tenho particular admiração por
Lula. A mesma coisa achava de Dilma. Não achei a sua eleição (no primeiro
mandato) tudo aquilo que escreveram. Não fiquei comovida por ter sido a
primeira mulher presidente do Brasil. E não concordei com o título de
“Presidenta” em vez de “Presidente”. No entanto, depois da segunda eleição, que
ela ganhou no limite, considerei ter sido o mal menor. A sua oposição era
constituída por gente menos preparada do que ela e por gente mal relacionada
e/ou ligada a coisas menos sérias. Depois da segunda eleição comecei a admirar
a força desta mulher que tem lutado estoicamente contra tudo e contra todos.
Como as árvores, Dilma escolheu morrer politicamente de pé. Com a destituição
de Dilma ficamos a saber o que há muito desconfiamos: os políticos brasileiros
são na sua maioria corruptos, o poder é passado de geração em geração como se
de uma Monarquia se tratasse, a política serve para enriquecer, na política
vale tudo, a maioria dos deputados são analfabetos funcionais, os evangélicos
têm um dos maiores poderes no Brasil ( o domínio e o aproveitamento sobre a
ignorância de um povo), os políticos brasileiros são muito bem pagos e têm
regalias incomparáveis com o cidadão comum. Apesar de tudo isso, a corrupção e
as acusações sobre quase todos os políticos não os envergonha. Não se demitem
por nada, seja qual for o teor da acusação. São como lapas. Seguem de cabeça
erguida como se nada fosse. E como os vermes, em vez de se recatarem pelo mal
causado, lançam ameaças de não caírem sós. Analisando a vida, a biografia, o CV
e o percurso de cada político brasileiro poderemos contar pelos dedos aqueles
sobre quem nada paira. Quase não existem imunes ou intocáveis. No entanto,
apesar de todas as perseguições, de todo o escrutínio, depois de todas as
investigações, a Dilma parece um oásis no deserto. Se ela é perfeita? Não. Se
está bem rodeada? Não. Se seguiu a política que devia? Não. Mas é o mal menor,
de facto. A questão é que tudo está mal. Num país com os milhões de pessoas que
tem o Brasil, onde a educação e a saúde não é igual para todos, “quem tem um
olho é Rei”. As classes mais desfavorecidas, das periferias, dos morros, do sertão,
do interior, dos subúrbios serão sempre facilmente enganados e cativados pelos
políticos mais populistas e que nada farão por eles. Servirão, apenas, como um
degrau para a sua escada para chegarem ao topo da pirâmide. Um país em que a
elite caucasiana, será sempre instruída, continuará a viajar para o
estrangeiro, para fazer compras em Miami e NYC, continuarão a comprar
apartamentos em Lisboa nos metros quadrados mais caros, continuarão a viver em
condomínios fechados resguardados por grades electrificadas e separadas do
mundo real, continuarão a viver no séc passado em que existe o mundo para a
elite eo mundo para o subalterno, continuarão a ter contas na Suiça e a fugir
aos impostos, continuarão a viajar em primeira classe e em executiva. Mas
apesar disso continuarão a não ser evoluídos nem educados: o carro continuará a
ser o que mais poluí, continuarão a atirar lixo para o chão para alguém de uma
classe inferior apanhar, continuarão a perpetuar o desperdício, os seus cães
continuarão a sujar as cidades para alguém as limpar, continuarão a ter
cozinheira, faxineira, diarista e motorista, continuarão a passear pelas
cidades com as babysitters atrás vestidas de branco. Enquanto a elite não se
envergonhar destes comportamentos e perceber que o mundo mudou e que estamos no
séc XXI, nada mudará. Enquanto a elite não perceber que comportamentos assim
envergonham uma sociedade, serão sempre a piada do exterior. Enquanto a elite
não perceber que os caucasianos não são o povo eleito e que toda a gente tem
possibilidade de ascender socialmente, não há como esperar melhoras. O Brasil
só mudará quando a elite não se sentir ameaçada. O Brasil só mudará quando os
privilégios acabarem para quem teve a sorte de nascer caucasiano. O Brasil
precisa ter orgulho de ser negro. E apostar na educação. Demora gerações, mas a
mudança será visível. Enquanto a menor percentagem da sociedade continuar a
comandar os seus destinos e tiver este tipo de poder, o Brasil continuará
condenado.
quinta-feira, 28 de abril de 2016
Bem-vindo estranho
O espectáculo é baseado na
obra "Be Mine", da britânica Angela Clerkin, e explora a
relação entre mãe e filha. Jackie (Regina Duarte), e a sua filha Elaine
(Mariana Loureiro) que é advogada, vivem num pequeníssimo apartamento em
Londres. É este o cenário da peça: o escuro e as várias divisões do
apartamento. A relação delas é conturbada e oscila entre o extremo afecto e o
insulto. Percebemos que Jackie teve a filha com 12 anos. Jackie é uma personagem
complicada e fascinante. Deve ter sofrido muita para ser assim. Uma mãe
manipuladora, profundamente amorosa, quase sufocante de tão apaixonada que é
pela filha. Tão carente e tão incapaz de olhar para si mesma e incapaz de viver
sozinha sem a “muleta” da filha. Uma egocêntrica nata. É daquelas
pessoas que acha que a solidão é a morte e abomina-a. Gosta de ser mimada e de
ser o centro das atenções, e consequentemente, usa todos os recursos possíveis
para prender a filha junto de si "até que a morte nos separe.” O
exagero da Jackie em relação à filha e é que gera o humor. É mesmo muito
exagerada. Veste-se sem noção da idade, sai para “tomar todas”, totalmente
descontrolada. Chega a ter graça de tão exagerada que é.
Um dia surge um estranho que pode “roubar” a
filha. Com a chegada de Joseph (Kiko Bertholini), o misterioso namorado de
Elaine, que se prepara para viver no mesmo apartamento provisoriamente, a
atmosfera de suspense entra em erupção, levando a um conflito de desejos
incontroláveis cujas consequências são imprevisíveis. Joseph, acusado da
morte bárbara da namorada, foi defendido
em tribunal por Elaine. E ela conseguiu provar a sua inocência e conseguiu a
sua absolvição. Ela acredita, de facto, na sua inocência. Elaine é uma
filha carente e insegura e
faz o papel da boazinha, de submissa e de certinha.
Humor, suspense e tensão, pautadas por uma
banda sonora exemplar. Momentos de um suspense intenso e absorvente misturam-se
com um humor muito perspicaz e inteligente. O publico oscila entre o riso e a
gargalhada, o susto, a sugestão, o medo e a hipótese. O final é surpreendente,
e tal como Regina pediu no final: “não contem pra ninguém”. Regina Duarte já
conquistou o papel de diva. É esta a palavra que me ocorre usar. Uma
interpretação magistral regadas pelas suas gargalhadas, gritos e voz
inconfundíveis. A interpretação é acompanhada pelos enormes talentos dos outros
dois actores.
A peça fala do ser humano. De sentimentos,
emoções, desejos, frustrações e descontroles de seres humanos. Uma peça do tamanho
do talento de Regina Duarte. Uma peça onde ela brilha e faz brilhar os dois
outros actores. Regina Duarte mostra que está em plena forma aos quase 70 anos.
quarta-feira, 27 de abril de 2016
A dignidade de se passar de bolseiro de pós-doutoramento a investigador de doutoramento
A ANICT, associação que representa
investigadores doutorados (bolseiros ou contratados), que trabalham em Portugal,
está a fazer um questionário nacional que pretende averiguar a opinião dos
investigadores doutorados sobre a eventual conversão de bolsas de pós-doutoramento
em contratos de trabalho a termo. “A passagem de
bolsas a contratos está associada a um aumento dos custos de recrutamento. A
ANICT defende que o rendimento líquido anual dos atuais bolseiros de
pós-doutoramento não pode sofrer cortes, aquando desta mudança. Este fato, irá
implicar um aumento de custos na ordem dos 33%. A ANICT defende que os
orçamentos dos projetos financiados pela FCT, assim como a sua duração, sejam
compatíveis com esta nova realidade”. A pergunta é ouro sobre azul. Questionam
os investigadores se concordam ou não com um contrato que mantenha os mesmos
valores da bolsa pós-doc. Em letrinhas
quase ilegíveis pode ler-se que isto implicará que em cada 3 bolseiros pós-doc
apenas 2 terão contrato.
Obviamente que questionar um bolseiro pós-doc, talvez a
posição mais precária de toda a carreira académica, que não têm qualquer
aumento do valor da bolsa há mais de 12 anos, que não descontam para a
Segurança Social (a não ser através do precaríssimo Seguro Social Voluntário),
que em caso de não renovação da bolsa não têm direito a subsídio de desemprego,
acenar com um contrato, quem poderá dizer que não?
A questão sobre se os bolseiros pós-doc concordam ou não
com um contrato deveria ser seguida da explicação. Eu concordo, em absoluto, que haja contratos para pós-docs.
Mas isso, quem não concorda? A questão é: a qualquer preço? Não! Eu sou
daquelas que não serão beneficiadas por estes possíveis contratos. Sou bolseira
há 6 anos e pelas actuais regras, não estarei incluída neste pacote.
Mas eis o que eu questiono:
1) Que haja obrigatoriedade de contratos pós-doc. Como nos habituam em ciência, a célebre questão do mérito
e do merecimento. Quem merece e quem não merece? Como se faz essa avaliação? Os
“protegidos” estarão sempre nos 2/3 a contratar. A questão é para onde vão os
restantes 1/3?
2) O que acontecerá aos investigadores pós-doc após 3 anos? Esta parte não está explicada. O que pretendem a ANICT e
a FCT propor após 3 anos? Que o investigador pós-doc continue a concorrer para
contratos sucessivos de 3 em 3 anos mantendo o valor de 1450€/ano + SS +
subsídio de alimentação?
3) Que diferenciação de valores terá um investigador pós-doc
após 3, 6 ou 9 anos?
4) No que se baseará a diferenciação entre investigador
pós-doc e os actuais contratos de investigador FCT?
5) No que se baseia a FCT e o Ministro da Ciência para cada 3
bolseiros de pós-doc atribuir apenas 2 contratos de investigador pós-doc? Partindo do princípio que quem financiará isto é o governo.
Implicando, de facto, um aumento de 33% por cada investigador em impostos,
esses mesmos valores retornarão para a máquina do Estado. Ou seja, não há
qualquer perda. O dinheiro só se deslocará dentro do mesmo Estado entre
diferentes Ministérios. Aqui residem as minhas maiores reticências. Deverão os bolseiros pós-doc aceitar
os contratos a qualquer preço? Não deverão reflectir mais nesta questão? Não
existirão, de facto, maiores gastos para o Estado/bolseiro.
Se se trata de discutir, e a decisão ainda não está tomada, aqui ficam as minhas opiniões que são só minhas e que não representam ninguém além de mim.
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