A peça começa com a protagonista (Sandra Barata Belo)
sentada na primeira fila da plateia, vestida de preto. Simultâneamente, no
palco, ainda de cortina fechada houve-se barulhos de bolas de papel atirados ao
chão e a coreografia do sofrimento de um homem. Um pianista, vestido de azul,
acompanha a peça. A protagonista, começa pelo fim, e diz que o filho morreu. A
partir daí há uma analepse e é contada a história de um amor platónico entre
uma menina de 13 anos e um homem mais velho e como isso se vai tornando numa
obsessão. O que chama a atenção nesta peça, não é o texto, mas a interpretação
dos actores, principalmente as duas cenas de sexo. Duas coreografias perfeitas.
Violentas. Sincronizadas. Dança pura. Pas
de deux. Interpretação. Tudo dito sem palavras. Perfeito. As diferenças
significativas entre a primeira noite e quando ele não a reconhece e é (só) puro
sexo mecanizado. E no fim de tudo, a morte.
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
"Em Movimento" de Oliver Sacks
Há muitos anos vi Despertares
(Awakenings) o filme baseado no livro
homónimo de Oliver Sacks que descreve o acordar de vários doentes psiquiátricos
que devido a uma encefalite ficaram como estátuas e depois de muitos anos,
através da administração de uma determinada medicação “acordaram”. Mas fiquei a
saber quem era Oliver Sacks apenas em 2011 quando fui para NY e a C. me falou
da sua longa obra. Desde aí foi um descobrir de cada livro. Cada um melhor que
outro. Sem ordem cronológica. A única coisa que lamento é nunca ter estado
pessoalmente com ele, como estive com tantos outros escritores e/ou cientistas
que admirei.
Oliver Sacks nasceu em Londres em 1933 e morreu em NY em
Agosto deste ano. Quando tinha 12 anos um professor perspicaz escreveu: “O Sacks
irá longe, se não for longe de mais”. Esteve num colégio interno. Adorava
motas. Os pais e os dois irmãos mais velhos eram médicos. Estudou em Oxford. Adorava
ler, escrever e nadar. Teve uma educação
judia. Aos 18 anos disse aos pais que preferia rapazes. A mãe, supresa
disse-lhe: “És uma abominação. Preferia que nunca tivesses nascido”. A mãe que
era aberta e encorajadora, mostrou-se neste assunto retrógrada, dura e inflexível.
Ele refere que nos anos 50 o comportamento homossexual não era apenas uma
perversão mas um crime. Viveu a maior parte da vida com sentimentos de culpa. A
primeira vez que assumiu publicamente a sua homossexualidade foi nesta
autobiografia aos 82 anos.
Era um entusiasta de química e biologia marinha. Nunca teve
uma grande autoconfiança intelectual mas era considerado uma cabeça brilhante.
Era obcecado por ciências e por literatura. Lia todos os originais e fontes,
incluíndo Darwin. Dentro dos livros interessava-se especialmente por biografias.
Viajou bastante. Paris, onde descreve a primeira tentativa
de uma relação sexual com uma prostituta que não se consumou. Viajou à
boleia com um amigo onde percorreu França
e Alemanha. Conheceu a Viena d’O terceiro
Homem de Graham Greene. Após o curso foi para um kibbutz “ango-saxónico” perto de Haifa. Viajou por Israel:
Jerusalém, Haifa, Telavive, Mar Vermelho. Voltou pela terceira vez a
Amesterdão, desta vez, sozinho para se perder na cidade (mais concretamente
para perder a virgindade). Enfrascou-se até não haver amanhã, e com a coragem
de bêbado levantou-se e viu que mal se segurava de pé. Acordou numa cama
desconhecida, depois de possivelmente, ter desmaiado. A primeira experiência
sexual não ficou gravada devido ao estado de inconsciência.
O irmão mais novo era esquizofrénico. Estava sempre a ler,
tinha uma memória prodigiosa. Aos 15 anos tornou-se psicótico. Recebeu
tratamentos com terapia de choque de insulina, nos quais se baixava os níveis
de glicose no sangue até à perda de consciência e depois restaurá-la com
glicose. Esta era o tratamento em voga para a esquizofrenia em 1944 e seguida,
se necessário fosse de electrochoques ou lobotomia. Os tranquilizantes só
apareceriam 8 anos mais tarde: Largactil
(inglaterra) e Thorazine (EUA). Preveniam
as alucinações e delírios mas como efeitos secundários davam um andar curvado e
o arrastar dos pés. Em O tio Tungsténio
escreveu sobre as primeiras manifestações de psicose do irmão.
Fez o internato médico no Middlesex Hospital. Deixou
Inglaterra aos 27 anos para se afastar
do irmão mais novo, que não conseguia ajudar. Mas por outro lado, talvez
procurasse estudar pacientes com esquizofrenia e outras perturbações mentais e cerebrais.F
oi, primeiro, para o Canada, Monreal. Teve aí um professor que o aconselhou a
visitar as universidades no EUA: “A América é o lugar certo para si. Se for
bom, será reconhecido. Se for um impostor, depressa o desmascaram”. Chegou a São
Francisco e decidiu nesse dia que era ali que queria viver: “a cidade com que
sonhara durante anos”. Esteve no Mount
Zion. Aos fins de semana fazia grandes viagens de mota pela California. Aqui, ficou adepto de
levantamento de pesos, treinando de forma intensiva e até obsessiva. Em 1962
foi para a UCLA. No início dos anos 60 começaram a surgir mais conhecimento
sobre as drogas psicoactivas. Descreve uma pedrada de Artane (fármaco anti-Parkinson) com 20 comprimidos para uso recreativo.
Verificou que não lhe aconteceu nada mas passado algum tempo começou a alucinar
e “viu” e “ouviu”pessoas irreais. Descreve também as suas experiências com canabis,
sementes de glória-da-manhã e drogas sintéticas como o LSD, anfetaminas e a sua dependência durante 4 anos. A partir daqui
só piorou: marijuana aditivada com speed,
metanfetamina injectável ou em comprimidos. As festas de pó de anjo(fenilciclidina-PCP) em East Village. Falou desta última
em O homem que confundia a mulher com um
chapéu.
Aos 20 anos conheceu Richard Selig, dois anos mais velho, que foi o seu primeiro amor (não correspondido). Achava-o um génio e admirava o seu conhecimento do mundo. Confessou o seu sentimento por ele mas Richard disse não ser como ele e que gostava dele à sua maneira. Não se sentiu rejeitado ou destroçado.
Em 65 muda-se para NY para integrar o programa de
Neuroquímica e Neuropatologia Albert
Einstein. Ainda tinha a esperança de wse tornar um verdadeiro cientista, um
cientista de laboratório. Vivia em Greenwich Village e ia de mota para o Bronx.
Começou a ver doentes no Beth Abraham,
um hospital para doentes crónicos. Cerca de 80 pacientes eram sobreviventes da
pandemia de encefalite letárgica (doença do sono), cujos sintomas “congelados”
em profundos estados catatónicos, aparência de estátuas, posturas forçada e
olhares fixos. Muitos estavam assim há mais de 30 anos. Sacks passou um ano e meio a tirar notas e
observá-los e prescreveu-lhes L-dopa. Os resultados foram claros e espectaculares.
Despertaram para a vida. Este episódio deu origem ao livro Despertares (Awakenings)
que mais tarde foi adaptado a filme com os actores Robin Williams e Robert De
Niro nos principais papéis. Auden, sobre este livro disse ser uma “obra-prima”.
Era tímido, acanhado e inseguro. Virou-se para as drogas
quando se sentiu “desesperadamente só e rejeitado”. Tinha dificuldade em
reconhecer caras. Pouco sabia de actualidades. Tinha a tendência, para em
contextos sociais, ficar a um canto, fazer-se invisível, na esperança que o
ignorassem.
Descreve no livro muitas doenças e sintomas dos seus
pacientes de uma forma perceptível para os leigos. Menciona todos os cientistas
e mentores com os quais conviveu. Os encontros sexuais, as paixões e rejeições.
As descrições de experiências sexuais sob o efeito de anfetaminas. E como
perdeu amigos/amantes para o vício das drogas. E da sua experiência com a
psicanálise, que fez duas vezes por
semana desde que chegou a NY, sempre com o mesmo médico, até à sua morte.
Sobre NY, cidade que escolheu viver depois de São Francisco
e LA, escreveu: “É de facto uma cidade maravilhosa, rica, entusiasmante,
ilimitada em amplitude e profundidade – como Londres;embora as duas sejam muito
diferentes. NY é cheia de luzinhas, cintilante, como qualquer cidade vista de
um avião à noite: é um mosaico de qualidades e pessoas e épocas e estilos, uma
espécie de enorme puzzle urbano”.
Os seus maiores interesses incluíam grandes caminhadas ao ar
livre, ler, escrever, nadar, tocar piano, fotografar, viajar, diários e
descrições das manifestações clínicas dos seus doentes. Adorava os passeios a
pé pelo Jardim Botânico de NY. Foi amigo de Francis Crick, Auden, entre outros.
Em 2005 descobriu um melanoma no olho direito. O cancro foi tratado com radiação e lasers. Em 2008, aos 75 anos, após mais de 30 anos de abstinência sexual,
conheceu Billy Hayes por quem se apaixonou e foi o seu companheiro até à sua
morte. Há poucos meses teve uma recidiva com metástases no cérebro. Mau prognóstico. Restaram-lhe poucos meses de vida.
Grande autobiografia, não fosse escrita por um médico que
dominava a escrita tão bem. A tradução está aquém da qualidade do livro.
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Portátil by Porta dos Fundos
Há mais de um mês que tinha comprado os bilhetes. Na altura
já ouvira falar que escolhiam uma pessoa da plateia para interagir com os
actores. Com o pânico de poder ser a escolhida (já que achava que seriam os
actores a escolher), os lugares que comprei não tinham acesso directo nem ao
palco nem à plateia. Como seria de esperar, pelo sucesso da Porta dos Fundos,
os bilhetes esgotaram rapidamente.
No dia antes do espectáculo vi uma entrevista com o Gregorio
Duvivier na Sic Notícias e percebi, que ao contrário do que pensava, a pessoa
do público não seria escolhida pelos actores mas seria voluntária.
Como (quase) sempre, não sabia para o que ia. Nem sabia o que
me esperava. Pois bem, Portátil é um espectáculo de improvisação com os actores
Gregório Duvivier, João Vicente de Castro, Luís Lobianco e Gustavo Miranda e
que conta com a ajuda de um pianista. O cenário é simplesmente um tapete
branco, uma tela gigante e quatro cadeiras e os actores estão magnificamente
vestidos de Gilda Midani. Nos primeiros minutos os actores dizem o que estão a
fazer e apresentam-se, arrancando do público muitas gargalhadas:
- Quando era pequeno eu queria ser grande (Gregorio Duvivier)
- Quando eu era criança eu não queria estar na plateia,
queria estar no palco (Luís Lobianco).
A partir daí, começam a fazer perguntas à plateia: “quem é
português?”, “quem nasceu em Braga?”, “quem tem filhos?, “quem não tem filhos
mas gostaria de ter?”... Depois pedem voluntários.
No Theatro Circo,
foi escolhida uma senhora de meia idade a quem foi feita uma breve entrevista
na qual falou sobre como os seus pais se conheceram, onde vivia, família, trabalho
e o seu maior sonho. Este é o ponto de partida para a peça de improvisação que os
actores farão ao longo de 60 minutos. Basicamente, a peça será a história daquela
pessoa, resumindo a sua vida. A pessoa escolhida em Braga era chamava-se Luísa
brasileira, os pais conheceram-se na Ponta do Caju no Rio de Janeiro, o pai era
motorista de ministério e a mãe tecelã, o pai era “brabo” feito “siri na lata”,
adorava brincar no milharal, em criança tinha um amigo imaginário, era
apaixonada pelos personagens de Monteiro Lobato, era aposentada mas trabalhou
como funcionária pública, o maior defeito era dormir muito e acordar tarde e a
maior virtude era o senso de localização (como um pombo), era turista em Braga
e estava acompanhada pelo genro, o seu maior sonho era voar.
Eu estou a
escrever este texto e estou a rir à gargalhada. Eu não me lembro da última vez
que me ri tanto como nesta peça. A minha opinião: quem tiver oportunidade, assista. O
dinheiro mais bem dado dos últimos tempos.
Sobre o Theatro Circo, Gregorio Duvivier disse ser o “teatro
mais bonito do planeta”.
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terça-feira, 15 de dezembro de 2015
Regressos quase perfeitos: memórias da guerra em Angola
Regressos quase perfeitos vem da adaptação de uma frase do
Whitman “uma mentira é um regresso perfeito”. Tal como o pai, cujos títulos de
livros são sempre uma citação, este primeiro livro da filha, Maria José Lobo
Antunes, que resulta da sua tese de doutoramento, também o é. Três coisas fizeram-me
comprar este livro: ter sido escrito por uma Lobo Antunes, ter a chancela de
tão grande editora Tinta da China (não há nada que não goste) e a temática da
guerra colonial. Quando vi quem era a Maria José Lobo Antunes vi a cara do pai.
Agora falando do livro. Gostei muito, como disse o Joaquim
Furtado. Apesar das Guerras do Ultramar serem “nossas” e de a distância
temporal não chegar ao meio século, os livros sobre esta temática não são
abundantes: “A guerra colonial portuguesa é, hoje, um país estrangeiro”. Habituei-me
a ela nas referências biográficas e ficção de António Lobo Antunes e pouco mais
li. O meu pai não foi mobilizado para a guerra porque teve a sorte de ter ido à
inspecção em 1974. Como a maioria, naquele ano, passou à reserva territorial.
As histórias e os relatos da guerra são, por isso, para mim distantes e
resumem-se aos livros e séries de televisão. Tendo eu nascido em 1979, o
Portugal descrito neste livro é um país muito distante e desconhecido. Este
livro procura relatar a memória de alguns militares que a viveram. Chegaremos
ao fim a perceber que a memória e o passado destes militares é tão diferente
quanto as pessoas que o relatam. Alguns conceitos que são para nós, comuns
mortais, desconhecidos, como camaradagem, são neste livro destacados. A
camaradagem só pode ser compreendida por quem passou pela guerra (neste caso 26
meses): “Uma pessoa tem irmãos de sangue, nós somos irmãos de alma”. Depois a
descrição dos almoços do CART 3313 são tocantes e a gratidão que sentem pelo
seu camada alferes médico meliciano, António Lobo Antunes, “somos quem fomos”.
Maria José Lobo Antunes tem uma ligação com estes homens de que não se lembra
devido à tenra idade em que esteve em Angola. Mas todos eles se lembram muito
bem dela. O pai, António Lobo Antunes, tornou-se escritor e a guerra é assunto
muito presente na sua obra. Cus de Judas
é o livro que mais retrata os mais de dois anos que passou em Angola, assim
como, o livro que contém as cartas diárias que escreveu à mulher durante a
guerra.
Portugal, naquele tempo era uma sombra do que fora, mas que
o salazarismo insistia em que o destino de Portugal se cumprisse “enquanto
império colonial , heranças de gerações gloriosas que tinham dado novos mundos
ao mundo”, “Portugal do Minho a Timor”. Este era o Portugal que Salazar
ambicionava, provavelmente (apenas) no seu imaginário, já que nunca saira de
Portugal continental.
A tropa, para a maioria destes homens, que seriam soldados
ou praças, homens que fizeram a 4ª classe ou nem isso. Homens cujo mundo era
apenas frio, fome, miséria, trabalho e porrada. Eram filhos de “um país pobre e
rural, onde a agricultura ocupava mais de um terço da população total”. Um país
autoritário, em que a informação era considerada desnecessária e que vivia
debaixo de vigilância e censura. O regime defendia o respeito pela autoridade,
a valorização da tradição , o nacionalismo e a fé católica”. Os três pilares:
Deus, pátria e família. Há muito a menção à palavra respeito. Respeito ou medo
pelo professor que era maioritariamente um desumano que batia muito e sem
coerência. Um ensino que era marcado unicamente pela coação e repetição e não
pela razão. Aprendia-se que “Portugal era muito grande e muito rico”. Durante a
ditadura, “a educação era um luxo”. Um país de acentuadas diferenças sociais
entre patrões e criados. Um mundo de pais incógnitos e de mães solteiras. Pés
descalços. Trabalho quase escravo a troco de (má) comida. Um trabalho duro
demais para a tenra idade. Ninguém parece guardar saudades desse tempo em que
se valorizava a humildade, a simplicidade, a pobreza, a ignorância e os perigos
da ambição. Este foi o segredo do regime: “um lugar para cada um e cada um no
seu lugar”.
O liceu estava reservado às elites. A aposta do regime era
nas escolas comerciais e industriais. O magistério era o 5º ano mais dois. Aos
18 anos já se era professor primário.
Terminado o 7º ano fazia-se a admissão à universidade: “Os filhos dos
ricos iam para a universidade para ser doutores e nós íamos para as escolas
comerciais”. Só com inscrição ou frequência na universidade se ia para oficial
miliciano.
Entre os ex-militares as opiniões dividem-se entre aqueles que
achavam justa a guerra “acreditavam que era necessário defender aquilo que era
nosso”, aqueles que se voltassem atrás
nunca iriam à tropa e aqueles que mesmo antes de irem já eram contra: “Nunca
quis ir para a guerra. Abominava aquilo tudo”.
A maioria dos que foram para o Ultramar não tinham qualquer noção da
rigidez do regime nem da opressão. Viviam num mundo demasiado fechado e
escondido, longe das grandes cidades sem qualquer noção da realidade. A maioria
considerou que a ida para a tropa foi um “abrir de olhos”, que lhes deu mundo e
“alargamento de horizontes (...) tudo
era surpresa e novidade”.Oportunidades. Descoberta da dimensão e variedade da paisagem. Os mais
abastados perceberam que o mundo em que viviam era um privilégio. O grau de
instrução era o elemento diferenciador: menos que o 5º ano eram praças, com o
5º ano eram furriéis milicianos e 7º ano completo eram oficiais.
A maioria desconhecia a realidade da guerra no Ultramar. Só
começou a saber-se através de vizinhos, familiares e amigos recrutados para o
serviço militar. O regime não esmoreceu e manteve a determinação de “manter a
unidade de um país disperso pelo mundo”. Entre 1961 e 1973 foram mobilizados
para a guerra cerca de 105 mil homens. Do que se passou na guerra ficou no
segredo dos deuses e o pacto de silêncio entre os camaradas. A excepção era
feita a acontecimentos cómicos e banais.
Os negros ou pretos eram vistos como uma raça menor, com
“mentalidade de primitivos”. O trabalho
forçado dos negros só foi abolido quando se iniciou o conflito em Angola. Não
existia uma harmonia igualitária entre brancos e negros: “a injustiça de um
regime onde a cor de pele definia o lugar de uma pessoa”. Ocupavam lugares
distintos. Os negros eram subalternos, obedientes e silenciosos. Os brancos referiam
como desculpa a irresponsabilidade, preguiça e superstição dos negros.
Enfatizavam a aversão dos negros ao trabalho. Não existia, também, igualdade
entre homem branco e mulher negra. Usavam-nas, apenas. Referem, entre risos, a
possibilidade dos filhos que deixaram para trás.
Todos falam, sem excepção do medo e do inimigo sem cara. O isolamento.
A demora do passar do tempo. As saudades da família. Sensação de eternidade. O
rebentamento de minas. Os ataques. A utilização de napalm (negada pelas Forças
Armadas). O secretismo. Falam dos valores militares como a camaradagem, a
coragem e o heroísmo. E das fraquezas que incluem a cobardia. Fizeram muita
coisa, socialmente boa: vacinação conta a cólera e ensinar as crianças a ler e
a escrever. Alfabetizaram muita gente. Os jogos de cartas. Os jogos de futebol.
A caça. A torturante agonia da espera. O absurdo da morte. Os suicídios. Muito
bem resumido por Lobo Antunes nas cartas enviadas à sua mulher, publicadas em
livro: “Eu vou-me afundando numa apatia total. Nada faço, nada me apetece
(...) chego a pensar que sairei daqui para um hospital psiquiátrico – como
doente (...) o resto são mosquitos, chuvas, trovões, os mesmos horizontes que
não mudam, que não mudam... Como acabará isto?”.
Estes ex-militares não relatam na primeira pessoa episódios
grotescos. Mas percebe-se o pacto de silêncio, como a frase: “o que aconteceu
lá, fica lá”. Sobram suspeitas de
violência e do horror da guerra. O pronunciável são as histórias aceitáveis,
tudo o resto reduz-se a silêncio. São abordados os traumas da guerra, o stress
pós-traumático, os mutilados.
Passados 26 meses, regressaram. Para trás ficaram os
camaradas que não voltaram a ver durante muitos anos, retomando apenas os
encontros anuais muito depois. Voltaram diferentes. Tinham vontade de
normalidade. A guerra ficou-lhes para sempre.
Um excelente livro para quem, como eu, não nasceu nem viveu
no salazarismo nem na ditadura. Aprende-se muito. Principalmente a não ter
saudades e a não se querer voltar atrás. E depois, dá um certo orgulho, que
passado meio século, as transformações são gritantes. E agora, puxando a brasa
à minha sardinha, para dizer que as teses de doutoramento servem para alguma
coisa, afinal. Como disse Clara Ferreira Alves na apresentação do seu Pai
Nosso: “não podemos esquecer os anos de guerra colonial como se não tivesse
existido”.
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Da natureza dos deuses
Os títulos dos livros de António Lobo Antunes (ALA) são, na
sua maioria, citações. O último “Da natureza dos deuses” é o título de um livro
de Cícero. A principal temática deste livro é o poder e a riqueza. Monopólio e
domínio. Submissão, servidão e subserviência. Infidelidade. Desumanidade. Velhice:
“que maldade incompreensível o tempo”. A grandeza: “uma casa maior do que todas
as casas do mundo, salas, corredores, varandas e o jardim e o pinhal e o campo
de ténis..".
Este, é um dos livros maiores de ALA, ultrapassa as 500
páginas, exactamente 574, talvez também a fazer a analogia à imensidão dos
deuses do título. Os nomes dos personagens, como é tão característico de ALA,
são poucos. Os personagens deste livro são: a Senhora, o senhor doutor, o senhor
presidente, o avô da Senhora, o sem abrigo, a dona da livraria, a funcionária
da livraria, o empregado de casaco branco (Marçal), o sujeito da editora, secretária
loira, o senhor engenheiro (adjunto do senhor doutor) casado com a secretária
loira do senhor doutor (amante do Sr. Doutor), o senhor presidente, a esposa do deputado, a dona da loja de roupa,
o homem mais novo que o senhor doutor. O livro divide-se em 4 partes. As
primeiras 3 partes com 10 capítulos cada e a quarta parte com 7 capítulos. Este
livro passa-se entre Cascais, Estoril, Guincho e Lisboa.
O livro começa pelo tempo presente. O primeiro capítulo
começa com a funcionária da livraria, que é uma retornada de África, vive com
um filho pequeno numa casa barata de Cascais
e já passou os quarenta: “sou fácil de enganar, perdoo a todo o mundo,
olho e não vejo, vejo e não ligo”. Não entende a razão de a Senhora conversar
tanto com ela: “qual o motivo de falar comigo sou pobre”. Vai muitas vezes a
casa da Senhora, que está sempre sentada com um cãozito nos braços, entregar livros:
“a mulher idosa percorria o cãozito no colo com o anel”... “numa poltrona
grande demais para ela... quase em contraluz, transparente, a voz apenas...”. Vive
o presente numa profunda solidão mas
refere-se a um passado totalmente diferente: “os jantares que havia aqui o rei
da Itália, o rei da Roménia, o duque inglês... A sala com os seus móveis, os
seus quadros, os seus tesouros tão caros”. A Senhora “não recebe visitas nem sequer dos
filhos... qualquer desconhecida que a escute sem comentários nem perguntas... a
garganta magríssima, as linhas claras dos ossos e os dentes tão nítidos sob a
pele... não uma mulher idosa ou gasta, uma mulher quase defunta, não o palhaço
que durante anos e anos aceitara ser... os olhos vazios".
O pai da Senhora (senhor doutor) “de olhos tão pobres apesar
de ser dono de bancos, companhias, ministros”. É uma figura detestável,
autoritário, um “dono disto tudo”, “um pulha”a quem toda a gente presta
vassalagem: “A quantidade de gente que ele foi degolando ao comprido da vida
(...) a afastar-se no sentido de subalternos que o esperavam, atenciosos, curvados
(...). É uma questão de princípio não dar confiança a subordinados”. Joga ténis com personagens que vão sempre mudando à medida que vai
deixando de precisar deles e à medida que os destrói: “Obrigado por consentir
ganhar-lhe.” São continuamente substituídos. Tem sempre raparigas loiras novas
a quem cobre com puldeiras e colares, tacões, perfumes que, são também substituídas
com o passar dos anos e da idade. “...é sempre desagradável apertar a mão a um
pobre, fica-nos o cheiro na pele”.
O avô materno da Senhora era judeu e com
“estabelecimentozito de câmbios. O pai da Senhora salvou o avô da Senhora da
falência: “Perdoo-lhe a dívida se me der a sua filha”. A mãe da Senhora tinha
quinze ou dezasseis anos: “Não lhe faço mal descanse... Livra-se de ser preso e
ainda ganha um genro que o protege”. O casamento da Senhora foi arranjado pelo pai:
“Casas-te em Outubro” e a “Senhora a informar o pai de que preferia o sapo de
uma cómoda transformado em príncipe”. O marido da Senhora, “herdeiro de outro
banco que o pai da Senhora administrava, mais fábricas, mais empresas,...um
monte no Alentejo, dois barcos na marina...”.
O avô paterno da senhora (pai do senhor doutor): “O meu pai
teve que afastar o meu avô dos negócios... o meu avô morreu sem lhe ter
perdoado... sem conhecimentos nem estudos... vendia jornais e lotarias no
início, emprestava dinheiro no bairro... não se conhecia o pai, a mãe apenas,
que trabalhava nas limpezas... ao regressar da tropa o pai da Senhora, há quem
se lembre dele do bairro, aumentou os juros e transformou o negócio contra a
vontade do meu avô... o pai da Senhora chamou advogados que proibiram o avô da
Senhora de entrar”. O pai da Senhora para o avô da Senhora: “ A partir de hoje
começa a sua santa vida que sorte... A partir de hoje tem tempo para o dominó
com os amigos ler o jornalzinho e gozar a reforma... você está gasto não
presta”. “O pai da Senhora comprou-lhe uma casita com uma horta na província e
pagou a uma camponesa para tomar conta dele”.
O senhor engenheiro (adjunto do senhor doutor) é casado com
uma das secretárias loiras do senhor doutor (e sua amante). Começou na
contabilidade e passou, depois, a adjunto. Tem gabinete próprio, automóvel,
secretária loira e facilidades no crédito desde que não abuse. O senhor doutor
cumprimenta-o: “ele que não cumprimenta ninguém e eu honrado... convida-me para
o ténis aos sábados, onde a minha esposa se senta ao lado dele, tão loira (...)
sem me apertar a mão, claro, mas uma honra da parte de quem não cumprimenta as
pessoas de modo que eu, agradecido”. Insinua que o filho mais novo é filho do
senhor doutor: “o único que não se parece comigo, a coincidência de uma
pálpebra pendente como o senhor doutor”. Sem um poder comparável ao senhor
doutor, o senhor engenheiro, apesar de subalterno, de acordo com determinada
hierarquia, tem poder. Como tal, também tem uma secretária loira, que é sua
amante. Com o desenrolar das páginas, perceber-se-á que essa afirmação sobre a
questão da paternidade do filho mais novo não faz sentido.
O Senhor presidente: “o que manda em Portugal... o senhor
doutor visitava-o aos domingos... de pés numa escalfeta e manta nos joelhos...
uma voz fraquinha (...) a voz fininha... de fatito cinzento e cabelo branco
(...) sempre sozinho, escrevendo bilhetes minúsculos, numa caligrafia
minúscula, para os ministros que não o viam, eram nomeados e despedidos através
de cartõezinhos daqueles (...) o senhor presidente, que o mundo inteiro temia.
Parece o personagem que vivia no sotão no livro “Caminho como uma casa em
chamas”.
A mulher do senhor doutor (mãe da senhora) está aprisionada
num quarto no alto da casa de onde, através da janela, está sempre à espreita e
a ver os jogos de ténis. “O meu marido mandou pôr uma cadeira no meu quarto,
mesmo no alto da casa, onde até os falcões da serra vejo e o mar por trás dela,
outro mar além do Guincho... para me visitar de vez em quando, sinto-lhe os
passos no corredor, mais lentos do que os dos criados, o empregado de casaco
branco destranca a fechadura, volta a trancá-la quando ele se senta, sem olhar
para mim, e fica ali calado...”. Há uma ténue alusão à infidelidade da mãe da
Senhora: “anos depois a mãe da Senhora no comboio para Madrid com um homem...de
óculos escuros e lenço na cabeça”.
O Marçal é o empregado do casaco branco, o“faz tudo” e o
“cachorro” do senhor doutor. É o único que não foi substituído (...) Quando
morreu foi o único momento em que vi o senhor doutor chorar... no escritório,
não limpava as lágrimas, desciam-lhe as bochechas encalhando nas rugas”.
O sem abrigo atravessa todas as partes e todos os capítulos.
O seu papel no livro, é para mim, um enigma.
A cronologia deste livro divide-se em várias gerações.
Talvez do começo do Estado Novo até aos dias de hoje.
Há sempre algumas frase autobiográficas claras de ALA:
“lembro-me que não chorava, não era que não me desse vontade, as lágrimas não saiam
(...) Não me recordo de ser muito de beijos... aconteceu-me chorar...fui
secando com a vida (...) sempre tive um problema com lágrimas, o meu pai não
chorava, a minha mãe às vezes... mas escondia-as logo (...) a quem as lágrimas
tornam um fraco”.
Há as habituais referências a África e à tropa, mesmo que de
forma muito ténue. E as histórias paralelas que abordam o aborto, maus tratos e
relações ocasionais. Depois de todas as evidências e aparências dos personagens
há o submundo, a parte frágil e humana de cada um deles. Os livros de ALA, ao
contrário do que o próprio não assume, são difíceis de perceber. Os leitores
habituais terão bastante menos dificuldades para perceber as frase polifónicas,
analepses e prolepses mas há uma analogia cinematográfica que se poderá fazer
com os filmes de David Lynch. Muitas vezes os mistérios não são desfeitos e
muitas vezes existem partes que poderão ter sido escritas para serem mesmo
incompreencíveis. Quem sabe?
Famílias destruturadas. Traições. Mentiras. Humilhação.
Desprezo. Insensibilidade. Mentiras. Ilusões. Indiferença. Destruição.
Mostra-nos que o poder pode, quase tudo, mas não tudo. O senhor doutor, a mãe
da senhora (mulher do senhor doutor), a senhora e o Marçal (empregado de casaco
branco) são as chaves deste livro. Os dados estão lançados. Parte das
personagens e do enredo está exposto. Mais não digo. Falta agora o leitor
envolver-se e interpretar à sua maneira. Espero que aproveitem e desfrutem este
livro que, apesar de denso, é cativante e nada monótono. Não sei se sou eu que
me torno a cada livro mais devota do estilo de ALA e dos seus livros, ou se com
o passar dos anos, comecei a percebe-lo melhor. Continua com a sua habitual
escrita tão real, quotidiana, cuidada e cinematográfica.
Este livro já estava escrito há dois anos. Por esse motivo, não
há qualquer relação entre os factos actuais do poder e queda dos banqueiros e
bancos e a sua queda com este livro. Parece tratar-se de um pronúncio mas
(provavelmente) não passa (de uma mera) coincidência. O livro não está
organizado de acordo com este texto. Este texto é (apenas ) a interpretação que
faço do livro que poderá não ser a verdadeira.
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
13 de Novembro de 2015 – Os atentados em Paris
Na semana passada as discussões e os assuntos dos
telejornais portugueses andaram à volta da queda do governo, da legitimidade do
PS associado com o BE e CDU para ser governo e na tentativa de adivinhação de o
PR daria ou não posse a um governo de esquerda.
E eu passei a semana a discutir com as pessoas próximas as notícias,
passei a semana a irritar-me com pouco e até fui (injustamente) apelidada de
ultra reaccionária!
Na sexta, depois de jantar em casa dos meus pais com os meus
sobrinhos e o meu irmão, fui para casa e quando liguei a tv deparei-me com um
cenário de horror. Não queria acreditar que tão perto, na Europa, na capital do
país da liberdade, igualdade e fraternidade as imagens pareciam de filme. Há
poucos dias tinha sido o avião da companhia aérea russa saído de Sharm El
Sheik. E o atentado no Líbano. Sexta feira, 13, o inferno estava em Paris. O
que meia dúzia de pessoas pode provocar na liberdade de cada um de nós. Não
tenho respostas nem soluções. Só tenho muitas perguntas que provavelmente não
têm respostas. Os terroristas que lançaram o terror em Paris e que morreram nas
suas acções fizeram-no porquê? Não são refugiados, nem migrantes, nem
emigrantes. São cidadãos europeus nascidos e criados em países democráticos e
livres. Não culpem os refugiados que fogem do mesmo terror e que se sujeitam a
morrer para encontrar a paz.
Como tudo muda muito de repente. Como relativizamos tudo
perante o horror e a tragédia. Na semana passada discutíamos a maior ou menor legitimidade
de partidos democráticos assumirem um governo democrático. E na sexta à noite
choramos pela imensa tragédia. Pessoas livres numa sexta-feira à noite que só
procuravam divertir-se e descontrair. Ainda me custa a acreditar que não esteja
a sonhar. A verdade, é que não estamos seguros em lugar nenhum. E agora, ou
vivemos com medo e deixamos de fazer a nossa vida normal ou reagimos e fazemos
tudo aquilo que o EI nos quer proibir de fazer. Muita coisa terá de ser
repensada pelos líderes mundiais e novas soluções têm de ser encontradas para
esta nova forma de guerra. Nesta guerra sem nome não há regras.
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
Paulo Cunha e Silva (1962-2015)
Passava pouco das 9 da
manhã quando ouvi na Antena 1 a notícia da morte de Paulo Cunha e Silva. Morreu,
subitamente, aos 53 anos de enfarte agudo do miocárdio. Saiu inesperadamente de
cena. Uma árvore que morreu de pé. Uma grande pena. Deixa um enorme vazio. A
perplexidade de todas as pessoas pelo desaparecimento de quem parte tão jovem.
Um choque profundo. Angústia e dor. A vida, sempre imprevisível. Tão breve,
neste caso. Mas com certeza que viveu cada segundo como nunca mais e a uma
velocidade impressionante e difícil de acompanhar.
Médico (que nunca
exerceu), Doutor pela Universidade do Porto, professor universitário, adido
cultural, crítico de arte, programador cultural, Vereador da Câmara do Porto,
amigo, irmão, tio, inesquecível. Passou a vida a cruzar as artes com todas as
ciências. Sabia fazer ligações, sabia unir as pessoas em torno das causas em
que se envolvia. Tinha uma grande capacidade de gerar consensos.
A unanimidade da
descrição, de quem e como era, é reveladora: “um génio bom e generoso”, orgulhoso,
lutador, criativo, empenhado, caustico, humano, conhecedor, profundo, interior, sábio, feliz, confiante. Amigo,
simpático, optimista. Único, genial,
ímpar, provocador, entusiasta, vibrante, insubstituível.
Tal como na vida, na
morte, a estética não foi esquecida. O velório no Teatro Rivoli que ele
devolveu à cidade e ao povo. Com a urna no centro do palco, iluminada apenas
por uma luz ténue, e um piano. Ao fundo, uma fotografia gigante, recente de há
duas semanas quando acabara de ser condecorado pelo governo francês.
Milhares de pessoas participaram nas cerimónias fúnebres. O funeral de
Paulo Cunha e Silva reuniu uma massa impressionante de pessoas, que acompanhou
o cortejo fúnebre entre o Teatro Municipal Rivoli e a igreja da Lapa.
Uma dose extra de emoção, ao ser ovacionado longamente, em frente à Câmara
Municipal. Os elogios fúnebres
foram feitos por Rui Moreira, pelos sobrinhos e pelo companheiro Miguel.
Muitos recordam o muito
que fez mas sobretudo têm pena daquilo que não teve tempo de fazer. É uma perda
irreparável para o Porto e para o país. A cultura da cidade do Porto perde uma
peça fundamental. Deixou uma cidade completamente diferente daquela que
encontrou quando assumiu a Vereação da Cultura, com uma dinâmica incontrolável,
esperemos que impossível de parar. As suas flores plantadas permanecerão. Como o próprio disse: “A
maior forma de homenagearmos os autores e os artistas é mostrarmos a obra”.
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Uma noite na lua
Conhecia o Gregorio Duvivier do “Porta dos fundos” e do
evento “Minha língua, minha pátria”, organizado pelo jornal Público em São Paulo, numa conversa com a Matilde Campilho. Ontem,
quando fui ver “Uma noite na lua”, sabia apenas que era um monólogo. Nada mais.
Chegámos em cima da hora e os nossos lugares eram na primeira fila. Começou
pontualmente às 9:30. Tudo escuro e apenas fumo. Depois, a luz ilumina-o. Só
isto. Ele vestido de fato, gravata, um sobretudo e um chapéu. E a luz. O
cenário é só isto. Minimalista. E durante minutos a frase que ele mais repete
é: “Sou um homem em cima do palco pensando”. Nestes minutos ouço muita gente a
rir-se. E eu, entre a surpresa de ouvir risos e não perceber porque é que eu
não tinha vontade de rir, comecei a achar que o defeito era meu. O resto, é uma
interpretação incrível. Fenomenal. Magnífica. A iluminação e a interpretação são quase tudo nesta
peça. O tema é tão simples como a luta para reconquistar uma mulher, a
Berenice. E mais do que a vontade com que ficamos de nos apaixonar é a vontade
de ser uma Berenice por quem este personagem é tão devoto. Que loucura é estar
apaixonado e ser deixado. Que doença é essa que não nos larga, que só vemos o
objecto de adoração. Tudo pára. Ou tudo parece parar. Nada importa. Só captar a
atenção dela, a Berenice. Dudivier canta, dança, grita, deita-se no chão, imita
o som do telefone e do aspirador e da música. E quando termina parece ter saído
de um mergulho, embora não existisse água em palco. O cepticismo inicial e a
surpresa dão lugar a um grande sorriso. Não acredito que alguém tenha saído
defraudado. Mais que não seja que o amor é o grande veículo do mundo. Toda a
gente sai de coração cheio.
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| Copyright: Gregorio Dudivier |
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
O que correu mal?
Há um ano atrás ninguém, nem a pessoa mais ferrenha apoiante
da coligação, do PSD ou do CDS acreditaria sequer numa vitória, nem tão pouco
coagitaria uma maioria clara, absoluta, simpática, segura, certa, governável
(ou qualquer outro adjectivo, a mesma palavra para dizer o mesmo).
Quando o António José Seguro ganhou (por pouco) as
autárquicas e as europeias, toda a gente se levantou para dizer que não
chegava. Num ambiente hostil, debaixo de um protectorado, sob as ordens da
troika, mergulhados na mais alta taxa de desemprego que havia memória, dos
muitos cortes de salários pensões e feriados, depois da irrevogável demissão de
Portas, não ter uma vitória clara (por muito) era pouco. Este foi o motivo que
levou António Costa a concorrer a secretário-geral do PS, a quebrar a sua
promessa de ficar até ao fim na Câmara Municipal de Lisboa e a afastar o António José Seguro que não
conseguia descolar nas tendências de votos e mostrar uma unanimidade clara.
No mês de Agosto, estava eu em frente para ao Tejo, na
Ribeira das Naus, e comentava com os meus pais que se o país conhecesse a
governação de António Costa em Lisboa, o resultado das eleições seria
diferente. Nesse dia eu diria que o mal do país era não conhecer Lisboa. E hoje
digo que o mal de António Costa foi achar que o país era Lisboa. Não consigo
encontrar “o” erro de António Costa ou do PS. Este problema, como mostram as
intenções de voto no tempo de António José Seguro e agora com António Costa não
tem a ver com “a pessoa” mas com o partido que não conseguiu convencer ou
mobilizar as pessoas. O grande erro começa pelo fraquíssimo líder da bancada
Ferro Rodrigues. Depois, apesar de o programa económico ter sido liderado pelo
Professor Mário Centeno, mostrou-se com qualidades oratórias piores do que o
outro académico Professor Vitor Gaspar. Depois, as diferenças abissais entre o
pacífico Mário Centeno em confronto com o radical João Galamba. Depois, a
história dos cartazes. Mais o erro colossal de dizer que chumbaria o orçamento
de estado da coligação mesmo sem o conhecer. E hoje vem culminar com a
aceitação da privatização da TAP autorizada pela Autoridade da concorrência,
tendo António Costa dito que revogaria a privatização se chegasse ao governo.
E eu, que nunca votei no PS, com António Costa, e por ele ter
escolhido para deputados pessoas que eu conheço pessoalmente e que muito
estimo, tive a esperança um dia de mudar o meu sentido de voto. Mas como todas
as utopias, não passam disso. E hoje, voltando à realidade, o meu voto está decidido.
Hoje o meu apelo é: votem! Não fiquem em casa! Dignifiquem a democracia e
exerçam esse poder soberano dos povos. Dizem que vai chover no domingo. A
desculpa desta vez é a chuva. Às vezes é o sol. Quando se quer há sempre uma
desculpa. Mostremos que somos uma maioria que escolhe e que a maioria não é a
abstenção.
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
O que nos deveria envergonhar a todos, europeus
Já
morriam às centenas, aos milhares, no anonimato do mar e da guerra. A Itália e
a Grécia há muito que eram “invadidas” por pessoas que não esperavam muito mais
do que escapar à morte. Até que um dia surge aquela imagem chocante de uma
criança que saiu do anonimato e tem um nome: Aylan Kurdi. Quando vi, pela primeira
vez, a imagem pensei que fosse uma montagem ou um boneco. A criança, apesar de
morta, não tinha os braços pendentes. O que mostra que morrera há algum tempo,
o que se chama em ciência rigor mortis.
Durante noites seguidas sonhei com esta imagem. Essa imagem acordou o mundo. Se
existe algo na vida que tente justificar uma morte em vão ou se existe algum
sentido para a vida e para a morte, esta morte, serviu para acordar-nos. Não é
que o mundo ou, especificamente a Europa, tenha mudado muito de atitude em
termos políticos. Mas a sociedade civil mobilizou-se. E isso, faz-me ter um
sopro de esperança na humanidade. Mas com os exemplos de humanidade, arrasta-se
aquilo que só os humanos são capazes de ter:
fobia e ódio. Quando leio e ouço argumentos
que devíamos era tratar bem os nossos pobres, desempregados e sem-abrigo em vez
de acolher estas pessoas que fogem da guerra... Tenho lido cada argumento
absurdo: fazer referendos na Europa se sim ou não à aceitação de refugiados
(esta gente nem deve perceber o mínimo de leis quanto ao estatuto de refugiado
ou de asilado) que devíamos era trazer os sem-abrigo para dentro de casa (como
se a situação fosse comparável); que os terroristas estão infiltrados no meio
dos refugiados ( como se os terroristas se sujeitassem a andar dias e dias a
pé, debaixo de sol e chuva, a atravessar o mar em “cascas de banana”, quando de
facto podem apanhar um avião); os refugiados são todos terroristas (como se a
maioria dos atentados ocorridos no mundo fossem efectuados por estrangeiros...
a maioria dos atentados foram feitos por cidadãos do próprio país do atentado).
A Hungria construiu um muro à la Berlim em pleno séc XXI. Um país
europeu dentro da União Europeia (UE). Como é possível terem permitido isto? Não
percebo como é que a UE permite sem haver sanções. Não percebo a razão de
fecharem uma fronteira que é apenas de passagem porque ninguém quer ficar num
país xenófobo e racista. E ainda por cima ameaçam “castigar” quem dê abrigo a
refugiados dentro das próprias casas e aprovaram leis que permitem disparar
contra os refugiados caso a situação se proporcione. Relembro a migração dos
húngaros no final dos anos 50 e em 89 quando a cortina de ferro estava prestes
a cair. A memória da humanidade é tão curta...
Os países que votaram contra o plano de
distribuição voluntária de refugiados são aqueles que já passaram pelo mesmo e
que não aprenderam nada com isso: Eslováquia, Roménia, República Checa e
Hungria... Pena que a UE não tenha coragem de sancionar estes países...
A UE mostra não ter qualquer poder para fazer cumprir os acordos. As Nações
Unidas fecham-se num manto de silêncio, não fora o Alto-Comissário para os
Refugiados, que tem sido a voz mais activa a defender atitudes e soluções por
parte da Europa.
E depois, para mostrar que o mundo se pode
mudar devagarinho, surgem acções da sociedade civil que nos comovem: Aylan Kurdi Caravan. Muitos voluntários responderam ao apelo e
juntaram-se para preparar toneladas de comida, medicamentos, roupa que foram
organizados durante alguns dias e transportados até à Croácia por 3 camiões.
Soube desta iniciativa da sociedade civil por intermédio da Graça Fonseca,
Vereadora da Câmara Minicipal de Lisboa, que também apoiou a iniciativa. Num
tempo de campanha eleitoral em que os candidatos falam em números e
estatísticas, como tem de ser, o que distingue muitas vezes as candidaturas são
as pessoas que delas fazem parte. Com pessoas assim na política activa, a sociedade,
e consequentemente, o mundo, seria melhor.
Eu, que na minha inocência utópica achava não
mais ser possível uma xenofobia ao nível da Segunda guerra Mundial ou da Guerra
dos Balcãs, assisto impotente a esta fobia pelos refugiados. Aconselho a todos (as)
a leitura da obra do Primo Levi para perceber que a qualquer altura poderemos
ser o alvo a abater. Seja qual for a nossa cor, raça, formação ou
nacionalidade. Só entenderemos isso quando aquela máxima “put yourself in our
shoes” nos tocar. Até lá, não seremos “nós” mas apenas “os outros”.
segunda-feira, 27 de julho de 2015
Lakkana, restaurante tailandês
4 de Julho. Dia da independência dos Estados Unidos. O dia
estava lindo. Daqueles dias de sol não excessivamente quentes. Antes do jantar
bebemos um martini no Convento do Carmo.
Dia de clubbing. Há muito tempo tínhamos este jantar marcado. Muitas vezes
adiado. Destino: Lakkana. O primeiro
e único restaurante tailandês de Braga. Tentamos várias vezes jantar lá. Nunca
conseguimos uma reserva ao fim de semana porque à boa moda portuguesa
tentávamos marcar em cima da hora. Desta vez éramos duas. Arriscamos a nossa
sorte. O restaurante fica numa rua estreita que vai dar à Sé. Mesmo ao lado do Pedro Remy. As indicações e as opiniões
dos que tinham lá ido antes eram muito boas. Quando entramos foi-nos perguntado
se tínhamos reserva. Não. Mesmo assim indicaram-nos as escadas.Um balcão com um
bar à entrada do lado direito. A cozinha em frente. As escadas a seguir.
Ficamos no primeiro andar. Quem nos atende parece um velho conhecido.
Entrega-nos o menu. É-nos dado algum tempo. Volta e pergunta-nos se conhecemos
a comida tailandesa. Explica-nos os pratos. Aconselha-nos. Questiona-nos sobre
a nossa tolerância ao picante. Aconselha-nos o vinho que vai bem com a comida
que escolhemos. Eis as nossas escolhas: crepes vegetarianos de entrada, um
prato de camarão com leite de coco e que ´´e picante, e o incontornável pad thai. O vinho sugerido foi um rosé,
até aí desconhecido para nós, Beyra.
Uma escolha acertada. Os crepes de entrada com um molho doce estavam excelentes
na textura, frescura e combinação com o molho doce que os acompanhava. O prato
picante de camarão com leite de coco e acompanhado por arroz basmati foi o que me
ficou na memória e que até hoje me faz querer sempre repetir a experiência. O
que posso dizer? Era picante, sim. Tinha malaguetas cortadas em fatias finas.
Os camarões abundantes e grandes mergulhados naquele laranja. A experiência é
intensa. Dá vontade de repetir mas o picante obriga-nos a fazer uma pausa para
um cigarro. E voltar novamente. O pad
thai é melhor do que o que eu já havia provado. A comida é abundante. Duas
pessoas não conseguem acabar os pratos. Não conseguimos aventurar-nos pelas
sobremesas. Apesar de amigos nos terem aconselhado o arroz doce com manga.
Neste dia, não deu para mais. Demasiado cheias. Dois cafés, para finalizar.
Nota final: Restaurante altamente recomendado. Uma excelente
experiência cosmopolita numa cidade
tradicional como Braga.
O melhor: A simpatia dos donos do restaurante. A qualidade
da comida, verdadeiramente tailandesa, e cozinhada por uma nativa. Melhor seria
impossível. O preço absolutamente justo. A repetir, muitas vezes.
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| Copyright: Braga Cool |
sábado, 25 de julho de 2015
A minha primeira arguência num júri de Doutoramento
Domingo, fim da tarde. Aeroporto. Subo para o avião. O Eduardo Souto de Moura senta-se ao meu lado. Não é todos os dias que se tem um dos prémios Pritzker ao nosso lado. Quero falar-lhe mas, como sempre, não tenho coragem. Quero pedir-lhe que me assine alguma coisa já que o seu talento está na mão. Até podia assinar uma das folhas do livro que estava a ler já que só tinha isso e a tese de doutoramento que ia arguir. Nem isso consigo pedir-lhe. [Na semana seguinte saiu uma entrevista brilhante dele feita pela Anabela Mota Ribeiro. Percebe-se que é uma pessoa extraordinária, engraçada e culta. Que de tantas outras coisas disse para que serve lamber pedras e desenhar a sensação e “eu penso desenhando”. Percebi nos 50 mins de voo que os gordos são realmente bem dispostos e que sabem aproveitar todos os prazeres da vida. Ignorando a sua condição de estae bem acima do peso ainda pediu uns amendoins.
Chegada a Faro tinha a J. e a M. à minha espera. Noite quente e abafada. Das boas, como só os verões no Algarve, sabem ser. Chego ao hotel já passa das 11 da noite. Não tem cama de casal. Não tem muitas tomadas. A internet não funciona. Mas pelo menos tem tv e muitos canais. Adormeço com a tv ligada e rendo-me aos encantos do A/C que só admito para dormir. [As pessoas que me conhecem sabem os problemas que tenho com o A/C. No trabalho visto-me como se não fosse verão devido a esse atentado à condição humana. Adoro calor e as estações quentes. Nasci no país errado. Ao contrário da maioria das pessoas, adoro o verão quentíssimo de NY e Houston com uma humidade a beirar o insuportável. O único problema do calor é mesmo na hora de dormir porque no resto foi a melhor invenção do universo].
Acordo relativamente tarde para o habitual. Mas ainda a tempo do pequeno-almoço que tenho direito. Dou uma olhadela às perguntas que vou fazer na defesa da tese. Ao meio-dia faço check-out e chamam-me um táxi. Tenho almoço marcado com o júri ao meio dia e meia. Telefonam-me e estou ligeiramente atrasada, presa no trânsito. Como se em Faro houvesse trânsito. Almoçamos no restaurante vip da Universidade do Algarve, que de vip apenas tem o nome. Apenas duas escolhas para o almoço: robalo no forno e bife de cebolada. Quando chega o peixe à minha frente era o verdadeiro atentado. A simplicidade do robalo assassinada...mergulhado num molho de pimentos e cebola que estragou tudo. Durante o almoço falamos da revolução francesa e das invasões francesas em Portugal.
Pouco antes das duas, saímos em direcção ao anfiteatro onde seria a defesa. Vestimos as becas, cada qual da sua universidade. Eu, como não tenho, requisitei uma emprestada. A defesa começou atrasada porque não abriram o anfiteatro a horas. Depois houve o problema com a apresentação que é sempre o que acontece a quem tem um Mac...demora sempre mais tempo. Mesmo assim, a candidata apresentou muito bem, como se este atores inicial não a afectasse. E eu sentada, desta vez do outro lado, lembro-me do dia da minha defesa. Foi dos piores dias da minha vida. Para além de tudo o que representou para mim, o primeiro arguente não passou da página 7. Até que a muitos dos meus amigos ainda brincam com uma das perguntas que me fizeram: "O que mudaria na sua tese?" E a resposta é: "A página 7!".
O primeiro arguente da tese da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra era um gentleman, extremamente delicado, educado e cuidadoso. Organizadíssimo. Tinha a intervenção toda escrita, os cumprimentos, os comentários, e aproximadamente 20 perguntas. Tudo no seu Mac imaculadamente organizado. Entrei imediatamente em pânico. Eu era o oposto. Levei meia dúzia de folhas (americanas) amarelas. Tudo rasurado e corrigido. riscos e mais riscos. Correcções e adições a esferográfica e lápis. Tudo desastrosamente desorganizado. O pior de se ser a segunda arguente é muitos dos comentários e perguntas terem sido já feitos pelo anterior. Mas eu, que até sou muito mais crítica comigo do que com os outros, acho q a minha intervenção correu bem. A verdade, como sempre acontece nestas coisas, é que perdi a noção do tempo. Depois ainda se seguiram as intervenções da professora da Faculdade de Medicina da Universidade Nova de Lisboa, do Professor da Universidade do Algarve, da orientadora e da Presidente do Júri. Foi a primeira aluna de Doutoramento da G. Um marco, portanto. Dizem que a primeira de cada coisa na vida não se esquece. E terminou com Muito bom por unanimidade com distinção é louvor.
Depois, ainda houve tempo para ir á esplanada mesmo em cima da praia da ilha de Faro para beber uma imperial. Tudo aqui é perfeito. O sol, a vista, a praia, o calor, a cor. O pior é o atendimento. Os algarvios parece terem um talento nato para não serem simpáticos. Tudo parece ser feito por favor é obrigação. Esta miúda loira, que até é gira, e que me calha sempre na rifa sempre que vou a este bar, fica sem beleza nenhuma devido à atitude. Para a próxima vou dizer-lhe que quero ser atendida por outra pessoa. Já passa das 7 quando saímos da praia rumo ao aeroporto para me deixarem. Tenho voo às 8:15. Chego ao aeroporto às 7:15. Ando a passo apressado em direcção à segurança. Respiro de alívio quando vejo que a fila não é muita. Mas como na minha vida há sempre um episódio para contar, eis que me aparece um cromo à frente que leva uma mala de mão e dois sacos transparentes cheios de líquidos. O homem na sua inocência achou que estava a cumprir com tudo porque mostrou os dois sacos transparentes cheios de líquidos, a achar que não estava a cometer nenhuma irregularidade. Mas estava. De há uns tempos para cá só é permitido um saco transparente de líquidos que não ultrapasse cada frasco os 100 ml. Eu aprendi isto quando há uns tempos me ficaram com um frasco de perfume quase cheio cujo valor era superior a 70 dólares. Aprendi a lição e nunca mais mostrei o saco transparente. E a partir daí nunca mais ninguém me descobriu os líquidos que transportam na mala. O que só revela como funcionam bem os aeroportos portugueses. Obviamente, nos aeroportos americanos nunca me atrevi a testar esta situação. Mas a verdade é que em 2006 levei comigo na mochila um frasco de biovidro para os EUA que macroscopicamente é igual a muita coisa ilegal. Adiante, o senhor que estava à minha frente refilava bem alto que podia levar os dois sacos repletos de líquidos porque o tinham deixado passar em todos os aeroportos... E blá blá.... O problema é que eu tinha um avião para apanhar e as portas fechavam às 7:45. E a discussão já durava há 10 minutos. E eu q não queria perder o voo virei-me para a segurança e disse-lhe "não podem resolver este problema mais rápido. Estou aqui há 15 minutos". E ela com a atitude de quem acha que tem autoridade nestas situações diz-me que não estou ali há 15 minutos, talvez uns 10 a exagerar. E começamos ali numa discussão. Ao que ela me pergunta: "quer ensinar-me a fazer o meu trabalho?". Frase que ela me disse! Se soubesse fazer o trabalho dela não demorava 10 minutos a resolver o problema dos sacos. Ou deixava o homem passar ou os tirava. É isso não demorava 10 minutos. E eu que levava líquidos na mochila, mas nunca assumo que os levo, coloco o iPad fora da mochila e fazem-me a derradeira pergunta: "tem líquidos?". E eu respondo convictamente que não. Mas a imaginar que vai ser destaque me vão apanhar e que vou passar a vergonha da minha vida. Espero a mochila do outro lado e não descobrem nada. Tiro o saco da mochila com líquidos e digo para a que me disse se queria que eu a ensinasse a fazer o trabalho dela: "trabalho bem feito, não?". E continuo. Já estão a chamar pelo meu nome quando vejo o Eduardo Souto de Moura. Aí respiro fundo e sigo-o. Já não vou perder avião nenhum porque ele vai no mesmo que eu!
terça-feira, 21 de julho de 2015
São Paulo, por mim
Tinha muita curiosidade.
Queria ver como era. E queria ver como era de perto. Dizem que São Paulo não
tem horizonte só fila de trânsito. A eterna selva de pedra. E o muito do que vi
em São Paulo foi pela janela do táxi.
Há qualquer coisa que senti em
São Paulo que parece semelhante ao apartheid
ou ao fantasma mal resolvido da colonização. A subserviência do funcionário em
relação ao cliente que nunca vi em lugar nenhum do mundo, a arrogância da
elite, a forma displicente com que se dirigem aos funcionários a quem chamam de “moço”. Os clientes nos
restaurantes não agradecem nem pedem desculpa. A diferença de tratamento entre
classes é gritante. Mais do que racismo,
xenofobia, homofobia, o que eu vi em São Paulo foi classismo. Nem sei se essa palavra existe. Nos shoppings que
entrei (Morumbi e Market Place) só vi brancos com excepção dos funcionários, o mesmo no restaurante onde jantamos. Roupa branca, pelo que percebi, é sinónimo
de subalterno, farda para babá, diarista, faxineira...Não vi ninguém da dita
classe alta com óculos. E na minha inocência achei que todos em São Paulo
veriam bem. Contudo, explicaram-me que não. Nem todos vêem bem, como é óbvio. A
elite e a alta burguesia ou usa lentes ou são operados! E os que nem condições
têm para comprar óculos tem a triste sina de ver mal. Em que outra cidade do
mundo existe elevador social e elevador
de serviço nos prédios? Em que outra cidade do mundo é mais barato ter uma
faxineira e/ou uma diarista em vez de ter máquina de lavar roupa e máquina de
lavar louça? Outra coisa que estranhei: ninguém usa cabelo encaracolado. Numa
cidade de um país em que a mistura de raças é a característica e a regra, não
ver ninguém de cabelo encaracolado, surpreendeu-me. Toda a gente tem o cabelo
impecavelmente liso. Cadê o black power? Este subdesenvolvimento social que
observei em São Paulo disseram-me que, felizmente, não é generalizado a outras
cidades do Brasil.
Para o dinheiro dos
portugueses andar de táxi é barato. Uma ida do nosso hotel no Morumbi até à
Avenida Paulista não ultrapassa os 35 reais. Mas fomos veemente aconselhados a
não andar de onibus nem de metrô. Apesar destes transportes serem rejeitados
pela burguesia paulista, mas ser o transporte democrático e de todos em NY, em
que neste transporte não existem ricos nem pobres, brancos, pretos, hispânicos,
asiáticos, bonitos e feios, em São Paulo é um diferenciador social. Como em São
Paulo não se anda a pé, ciclovias quase não existem, a elite, alta burguesia e
a classe média têm helicópteros e carros, quem anda de transporte público? A
esta pergunta até os meus sobrinhos de 6 anos respondem. Triste realidade esta.
E se houve coisas que gostei
realmente em São Paulo, como a arquitectura, as muitas livrarias, os preços dos
livros e dos CD’s, a boa comida, as frutas, os sucos, o clima primaveril do
inverno paulista, o Parque Ibirapuera... Não me consigo acostumar com os
prédios cercados de grades, às vezes duplas, e com arame farpado electrificado... Um mundo onde ricos e pobres não se misturam,
um mundo em que a identidade é a miscigenação e as pessoas têm falta desse
orgulho, há com certeza muito a fazer. E a primeira delas é os brasileiros
aprenderem a ter orgulho na sua identidade.
Tenho o maior respeito pelo Brasil e sempre tive admiração e algumas das suas cidades foram algumas das que sempre quis conhecer em todo o mundo. Cresci e vivi com os livros de Machado de Assis, Clarice
Lispector, Jorge Amado, Vinícius, João Cabral, Manuel Bandeira, Drummond de
Andrade, Cecília Meireles, Ferreira Gullar, Caio Fernando de Abreu, Eucanaã
Ferraz. Só oiço música dos brasileiros João Gilberto, Tom, Vinícius, Caetano,
Maria Bethânia, Gal Costa, Marisa Monte, Adriana Calcanhotto. Os grandes
arquitectos que deixaram marcas na cidade como Lina Bo Bardi (SESC Pompeia,
MASP), Paulo Mendes da Rocha (Museu Brasileiro de Escultura,
reforma da Pinacoteca
do Estado de São Paulo, reforma da Estação da Luz e Museu da Língua Portuguesa), e Oscar Niemeyer (Parque Ibirapuera, Edifício
Copan, Memorial da América Latina). A pintora Tarsila do Amaral, Cândido
Portinari... e chegar a São Paulo e ver
esta realidade foi como uma bofetada na cara. Como se o Brasil que me foi dado
a conhecer nos livros não existisse (mais) e fosse (apenas) ficção.
Confesso que fiquei até
admirada que numa cidade em que as diferenças de classe são tão gritantes e tão
fenotipicamente visíveis, a violência não seja (ainda) maior. Como explicar que
alguém que vem do Nordeste está fadado à sua sina de excluído da sociedade,
pobre, nordestino e que nunca ascenderá
socialmente? São Paulo parece ainda feudal e socialmente parece não ter saído
do tempo do colonialismo.
Que cidade é esta?
quinta-feira, 16 de julho de 2015
Para a M., um abraço apertado e gigante
Quando conheci uma das minhas melhores amigas detestei-a. Tínhamos
amigas em comum. Uns meses mais tarde, as circunstâncias da vida juntaram-nos. Sozinhas, do outro lado do
mundo, ajudei-a, ouvindo-a. E nunca mais nos largamos. Uns anos mais tarde, do
lado oposto do mundo, salvou-me a vida duas vezes. Estes milagres não acontecem
sempre mas estão sempre à espreita para acontecerem. Quero com este exemplo dizer que tenho amigos
improváveis. Sendo eu uma pessoa difícil, e que gosta pouco de muitas pessoas,
os amigos são aqueles a quem eu dei uma hipótese.
Esta amiga é mais distante. Falamos poucas vezes. Geralmente
por emails sucintos, resumidos, bem escritos e curtos, como a vida. Esta minha amiga tem duas das coisas que mais
admiro: escreve maravilhosamente bem e tem um amor imensurável pelos sobrinhos.
Acho que foi isso que me aproximou dela. Para além de outras coisas, isso é o
que mais admiro nela. No resto, partilhamos a timidez. Chegada a casa de mais
uma viagem, leio a confirmação daquilo que andava desconfiada há uns tempos mas
não tive coragem de abordar. A minha cobardia de sempre. A má notícia vinha em
forma de um texto lindíssimo em que fazia a incrível analogia da morte de uma
estrela com o término de uma relação longa. E só ela para escrever sobre
qualquer coisa de forma tão sublime.
M., desculpa expor-te assim, mas se um amor como o vosso
sucumbiu após 10 anos... a esperança fica curta... Dizem que a melhor literatura nasce na dor. E nem imagino
o sofrimento ao escreveres estas palavras que são um soco no estômago, de tão
reais: “...Que morte linda a nossa, meu amor. Que história
mais sublime essa que escrevemos. Quantas coisas e casas e pessoas e dores e
amores dividimos. Como fomos felizes e como existimos (...) Tudo o
que sei é que foram os melhores anos da minha vida...”.
E eu, especialmente hoje, não consigo não estar triste.
Tens-me aqui para te ajudar a levantar, quando conseguires. Espero que te
consigas encontrar, no menor espaço de tempo possível, sem o teu amor. A questão chave é:
como se renasce depois da chama apagar? Mas depois penso: a humanidade tem
futuro. Porque existem pessoas que se respeitam e admiram mesmo depois que uma
relação acaba. Que não esquecem um minuto, que não apagam, que se reconstroem
e reinventam. Não como um fim. Mas como um renascimento. Um dia olharão para
trás e conseguirão sorrir, quem sabe, sem chorar.
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