Aconselhada no hotel, vim parar à Tasca Torta. Meia dúzia de
mesas é o tamanho do restaurante. Quem nos recebe é um senhor de óculos com um
humor peculiar. É-me dada a ementa. Olho em volta e os pratos têm todos óptimo
aspecto. Pergunto por sugestões e nada me é aconselhado. Depende do meu gosto. Começamos
pelo vinho. O antigo Vinha da Defesa que
agora é apenas Defesa. Branco.
Escolho uma entrada. Vieiras em cama de legumes. Enquanto espero, colocam-me
copo e garrafa na mesa. E água, sem pedir. Aproveito e saio para fumar um
cigarro, do prazer, não de viciada. Regresso e colocam-me as vieiras na mesa,
como na foto. Simples. Rúcula, courgette e umas pitadas de sal. Já vou em 2 copos de branco. Segue-se a
espetada de frango com farinheira. E colocam-me um copo, que provo, e é vinho
do porto LVD 10 anos Offley. O prato
principal é uma experiência sensorial. A espetada, com pimento vermelho,
cogumelos e frango acompanhada de um arroz de grelos/ espinafres e uma salada de alface, rúcula, tomate cherry
e cebola com um molho de mel. Meu Deus! O vinho agora muda para tinto: Cabeça de Toiro. Comer, beber livros e
viajar! É isto que levamos da vida. Eu, pelo menos. A sobremesa entre o melhor
chocolate do mundo, que conheço tão bem de NY, e uma mousse de pêra rocha com
raspas de chocolate, massa filo eum molho de frutos vermelhos. A escolha é a
última. Pouco doce. Nada enjoativo. Mesmo cheia, consegue ser a cereja no topo
do bolo. Quem passar por Óbidos, não se esqueça de passar por aqui.Quem gostar
de um humor judeu, quem está atrás do balcão, é do melhor que há.
terça-feira, 4 de outubro de 2016
sábado, 1 de outubro de 2016
A antítese
Percorro a Rua Direita de manhã e o ambiente de hoje não é o mesmo. Turistas e mais turistas. Daqueles que querem ver o maior número de coisas em menor tempo. Brasileiros, muitos brasileiros. Mulheres plastificadas de caras iguais. Daquelas que falam muito alto. Lula teve essa responsabilidade, democratizou o acesso das viagens para o exterior. Estas brasileiras não são daquelas que habitam muitos dos prédios em Portugal. Não são daquelas que descem à rua a mostrar mais do que devem, mesmo quando os seus corpos não sejam (para ninguém) um objecto de desejo, mas que ganham dinheiro para mandar para a terra natal com os anúncios que colocam no jornal a publicitar os seus serviços (cada vez a preços mais baixos. Dizem que é a crise, senhores). Não, não são dessas. Mas são aquelas que entram numa livraria e dirigem-se (apenas) para a secção infantil para comprar os presentes de Natal. São daquelas que apregoam aos sete ventos, no Brasil, perante as suas faxineiras e diaristas que são descendentes directas de alemães, espanhóis ou italianos. [Portugueses não. O português é europeu mas é brega. O português é (apenas) o dono de padaria, supermercado ou restaurante. E isso, não é suficientemente bom para elas]. Estas são aquelas que dizem que são caucasianas puras e não morenas, pardas, pretas, mestiças. Apregoam isso, como se fosse uma virtude. E são aquelas que vêm a Portugal e continuam com o síndrome do colonizado. A culpar Portugal pelo mal do Brasil, que foi descoberto em 1500 e é independente desde 1882 mas não sabem que José Bonifácio foi quem descobriu o lítio. Eu gosto é de grandes mulheres brasileiras que assumem o que são. Que não têm vergonha do que são. Que não precisam da sua ascendência nem da sua genética para provarem o que valem.
O cenário muda quando chego à tenda do Folio Lounge. Tudo atrasado, felizmente. Agradeço ao universo pelos americanos que tentaram entrar no meu quarto porque confundiram o número. E mesmo com o aviso de "Não incomodar" insistiram em tentar abrir. O barulho foi tanto que acordei de uma sesta que devia ser de minutos e foi de mais de uma hora. Acordei na hora do evento.
Passam por mim Pedro Sá, o grande amigo de Moreno Veloso. O estupendo músico, guitarrista da banda Cê que acompanhou Caetano Veloso. Deixou crescer o cabelo. Vejo o Pedro Luís, grande músico, também. Passa por mim, também, a (aparentemente) tímida Alice Santa'anna, uma enorme poeta que para pena nossa ainda não está publicada cá. Vejo também a omnipresente Anabela Mota Ribeiro que se desculpa pelo atraso. Este será o evento da Casa Cais idealizado pela Luana Carvalho (que eu não conhecia, como é possível?). É esta a composição: Luana Carvalho, Alice Sant'anna, Pedro Sá e Rafa. Um palco sóbrio com uma laranjeira que até se verão folhas a cair. A vida em movimento. Pedro Luís subirá ao palco para os acompanhar numa música. Anabela Mota Ribeiro abre com a leitura de um excerto do grande livro do não menos grande Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas" personagem que fez Direito na Universidade de Coimbra e viajou de Lisboa, onde chegou de barco e depois seguiu para a cidade dos estudantes. Eu não tenho palavras para descrever o que este evento foi. Tanta música desnecessária no mundo e eu não conhecia a Luana Carvalho? Que descobri hoje ser filha da Beth Carvalho. A Alice Sant'anna é a delicadeza em pessoa. Lê bem, apresenta-se bem e (ainda) canta bem. Leu partes de um dos seus livros e as palavras que mais retive foram: baleia e Japão. Que lindo que foi. Que maravilha. A vida feita de pequenos nadas. É aquela laranjeira, carregada de laranjas, cujas folhas caiam... A iluminação perfeita. Uma obra de arte. Inesquecível. E estes são também brasileiros. A antítese perfeita. Como não amar?
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
Quando os sobrinhos acham que têm a cadela mais bonita do mundo
Chego ao carro. Entro para o banco de trás, onde seguem os meus sobrinhos, e eu espremida entre ele no lugar do meio. Beijinho num e beijinho no outro, reparo que o mais velho está triste. Pergunto-lhe o que se passa.Responde-me, todo fungoso, que a Bu não ganhou o prémio (fiquei sem entender se era prémio de habilidades ou beleza...). Durante a tarde tinham ido a uma "Cãominhada", uma caminhada solidária com cães que visava recolher ração para uma associação. Uma das actividades seria um concurso, que não cheguei a perceber o tipo. Choroso, o mais velho, continuou a explicar detalhadamente que a Bu não fez nada do que ele lhe pediu (mas que faz sempre). Não deu a patinha, não lambeu, não deitou, não sentou e não deu a barriguinha. Nada. Niente. Zero. E eu tentei explicar-lhe que a Bu não é uma cadela de circo. Que a função dela não é exibir os seus dotes artísticos mas ser feliz. Na linguagem mais simples tentei dizer-lhe que os cães, tal como nós, têm vontades e que, muitas vezes, só fazem o que lhes apetece. Provavelmente, viu muita gente e ficou inibida. Petrificou. E por mais que o dono pequeno (que ela adora) lhe pedisse e lhe implorasse, ela não se mexeu. Disse-me também que não ganhou o prémio de mais bonita. Perguntava-me ele como é que isso era possível? O que para ele não existe qualquer dúvida, mas apenas, uma certeza. O amor dos pequenos por ela é tão grande que lhes tolhe o juízo!
Pois bem, vou fazer a analogia com a história da coruja que ouço desde criança contada pela minha mãe. Era uma vez uma mãe coruja que precisava de ir arranjar comida para os filhos e pediu/avisou os predadores que não os comessem. Nas palavras da mãe-coruja "eram muito bonitos" quando questionada sobre a aparência deles. Quando os predadores chegaram, viram criaturas tão feias que não hesitaram em come-las de tão feios que eram. Moral da história: "Quem feio ama,bonito lhe parece".
terça-feira, 27 de setembro de 2016
Caetano Veloso e António Cicero à conversa com Inês Pedrosa no FIC
Cascais, nove de
Setembro de dois mil e dezasseis
À horinha, ao contrário
de muitos acontecimentos em Portugal, os convidados estão todos na sala que
está cheia. As três primeiras filas estão reservadas a convidados: políticos,
escritores, editores, produtores, amigos, intelectuais: Ministro da Cultura, Presidente
da Câmara de Cascais, Paula Lavigne, Lucinha Araújo (mãe de Cazuza), Teresa
Cristina, Inês Mota, Jorge Reis Sá, Marcelo Pies, Pedro Corrêa do Lago, Pilar
Homem de Mel, David Ferreira (filho de David Mourão-Ferreira), Leonor Xavier,
Maria João Lopo de Carvalho (e até Lili Caneças que não se senta nos lugares da
frente). Estes e o resto do público são tudo gente que lê livros. Há quem fique
em pé.
Inês Pedrosa conhece
bem estes dois pensadores do Brasil. Para além de excelente moderadora, é uma
contadora de boas histórias e percebe-se a intimidade que tem com eles. Nota-se
o quão bem se preparou para esta conversa e confessa ter lido novamente
“Verdade Tropical” para esta ocasião. António Cícero é um filósofo de
profissão, poeta e escritor de letras de música (para os conservadores que
consideram letra de música menor do que poema). Caetano Veloso procurou ser
filósofo, estudou Filosofia mas abandonou a carreira cedo. Quis ser pintor e
cineasta. Fez um filme, dizem que muito
interessante, chamado “Cinema falado. É cantor, compositor, escritor (“Verdade
Tropical” e muitas cronicas escritas ao longo dos anos), pai e avô. Caetano e
Cícero têm uma amizade longuíssima, já descrita na sua autobiografia e uma
relação pessoal e intelectual muito forte.
Estiveram juntos em 2009, na Casa fernando Pessoa, para falarem na
influência da “Mensagem”. Inês Pedrosa contou que Fernando Pessoa se candidatou
a um lugar de bibliotecário na Câmara de Cascais, na Biblioteca Castro
Guimarães e foi rejeitado. Ficou em segundo lugar porque em primeiro ficou um
senhor de Cascais. Esta história arrancou gargalhadas do público presente.
Inês Pedrosa falou
também no acaso ou coincidência de há precisamente 10 anos atrás, neste dia, o
Prémio Camões ter sido entregue na Fundação Biblioteca Nacional pelo então
Ministro da Cultura brasileiro, Gilberto Gil à escritora portuguesa Agustina
Bessa Luís.
Inês Pedrosa faz uma
provocação: “Para que é que Caetano fala tanto se ele o que sabe é cantar?.
Fala de “Verdade Tropical” essa autobiografia de Caetano Veloso que é muito
mais do que uma biografia mas uma reflexão sobre o Brasil, relação da música
com as outras artes, e o estado da política brasileira na época. É também uma
reflexão profunda sobre o que é o Brasil, os caminhos que o Brasil seguiu. Um
livro fascinante com o qual se aprende muito. Nas últimas férias li-o pela
quarta vez. É um livro a que sempre volto. É um livro obrigatório para quem
quer conhecer a história da música brasileira. Para além disso, faz observações
muito pertinestes e elogiosas sobre António Cícero, que Caetano considera um
dos maiores filósofos brasileiros. Falou-se também sobre Mário de Andrade e
Oswald de Andrade.
Quem também não foi
esquecido foi Agostinho da Silva. Caetano contou que o Professor foi para a Universidade
da Bahia para criar o instituto de estudos afro-orientais. E que o Reitor criou
a cadeira de Filosofia do teatro para que o Professor para leccionar na Escola
de Teatro. Caetano referiu, também, que o Professor tinha uma amor profundo por
Portugal e pelos portugueses (“o povo que criou o globo terrestre”). E que o
Brasil é uma espécie de aberração. Um país de dimensões continentais, na
América, no hemisfério sul. E que Portugal é um país pequenino territorialmente
e que aprendeu a tornar-se pequenino politicamente ao longo dos séculos. E
Caetano afirmou que o Professor Agostinho ambicionado ambicionava resolver essa
charada. Descreveu também o encontro com o Professor Agostinho em Lisboa. Caetano
estava exilado em Londres e veio fazer uma apresentação a Lisboa: “Roberto
Pinho que era meu amigo e tinha sido discípulo directo do Professor Agostinho
falava-me muito dele”. Marcaram no hall do hotel e conversaram, não por muito
tempo. “Eu fiquei um pouco intimidado. Não tinha muito o que dizer. Ouvi algumas
coisas, falei muito poucas coisas e me senti meio vago. Ele se despediu,
alegre, e se foi. E depois escreveu para Roberto Pinho, e digo isso sem falsa
modéstia porque aconteceu assim, mais para que se saiba sobre o Professor
Agostinho do que sobre mim. E escreveu simplesmente: Gostei do seu amigo. Pensa bem, fala bem. Age bem. Eu não tinha
feito nada. Esta é toda a minha história sobre o Sebastianismo”.
Falou-se também de
Eduardo Lourenço (“Do Brasil: fascínio e miragem) e Leonor Xavier (“Portugueses
do Brasil e brasileiros de Portugal). Outra das histórias contadas `foi sobre
quando os escritores portugueses são convidados para palestras em universidades
americanas e estão 200 alunos americanos na plateia: “Quando estamos com o ego
a começar a subir perguntamos qual a razão de quererem aprender língua e
literatura” e respondem-nos: “Queremos ir ao Brasil porque gostamos de música
brasileira.
José Bonifácio foi o
nome que Caetano quis falar desde o início. Português, estudou na Universidade
Coimbra Direito e Filosofia. Viveu em Portugal e teve uma vida intelectual de
alto nível na Europa do séc. XIX. Ficou conhecido como mineralogista e
descobriu o elemento químico lítio. É conhecido como “Patriarca da
Independência” pois foi um importante ministro com muitos poderes de D. Pedro
I, Imperador do Brasil (D. Pedro IV, em Portugal). Fez um plano para o
Brasil que concebeu à luz dos seus conhecimentos mineralogistas, “amálgama”. A
proposta dele era a seguinte: (i) abolir a escravatura (acabar com o horror da
escravidão) e (ii) passar a considerar aqueles que haviam sido brutalizados
pela escravidão, os negros, como irmãos e co-cidadãos e o mesmo com os índios.
Seria o maior etnocídio se o plano de José Bonifácio tivesse sido colocado em
prática. Era seu objectivo criar uma nação nova: amálgama racial e cultural. E
criação de uma nova raça: mestiços. Um verdadeiro visionário no séc XIX com a
ideia de multiculturalismo.
Inês Pedrosa falou de
uma das suas noites mais comoventes da sua vida, no Porto, onde foi assistir a
um espectáculo do Caetano. Nessa noite um dos filhos de Caetano foi
encontrar-se com ele e Caetano, no fim do espectáculo, quis mostrar a cidade
do Porto ao filho. Contou que andaram de carro pelas ruas e pontes do Porto e
que Caetano começou a explicar o liberalismo, os ingleses, o vinho e que parecia
saber mais e melhor tudo do que ela. Estava a explicar como se a cidade fosse
dele e que lhe pertencesse. E quando Caetano foi convidado a comentar disse
simplesmente: “Era o Zeca, o meu segundo filho, primeiro filho dela (apontando
para Paula Lavigne na plateia). Quis mostrar-lhe o Porto. O que eu sabia eu
queria dizer a ele. Ele é o Zeca...”.
No final, ainda deu
tempo para falar da situação política do Brasil. António Cícero falou do poder
judiciário do Brasil. Da impossibilidade que existia há uns anos de alguém
poderoso ser preso e que as coisas estão a mudar. Que isso é um enorme
progresso. Pessoas importantes que são julgadas e presas. Caetano, desta vez,
não pronunciou nenhum “FORA TEMER”. Mas referiu que se lhe tivessem dito há uns
anos atrás que o Fernando Henrique Cardoso ia ser o primeiro Presidente
democrático do Brasil e que a seguir ia ser Lula: “Eu iria dizer que era um
sonho”. E foi possível”.
Ainda houve tempo para
a piada sobre o que é que a água de Santo Amaro tinha por ser onde Caetano e
Bethânia nasceram. Caetano, respondeu, rindo que “Santo Amaro tem uma das água
mais poluídas por chumbo do mundo”.
Inês Pedrosa queria que
Caetano lesse qualquer coisa mas ele disse “Eu não sei ler”. E Cícero terminou
com o seu “Guardar”.
terça-feira, 20 de setembro de 2016
Déjà Lu
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| Copyright: Déjà Lu |
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sexta-feira, 16 de setembro de 2016
Todas as declarações de amor são ridículas
Íris, cor de mel,
mostravam muito bem o que ela sabia fazer, fotografar. A verdadeira definição
de amador, aquele que ama o que faz. A câmara parece gigante quando comparada
com o seu corpo franzino e de baixa estatura. O desequilíbrio de tamanhos. Mas
a postura de um gigante. Olhar os outros através da lente. Captar o que os
olhos comuns não vêem. Gosta de conhecer gente interessante. E foi por causa de
uma pessoa, mais do que interessante, que se conheceram. Foi paixão à primeira
vista. Começou por ser um amor vivido em silêncio. A forma como amava não era
explicável por palavras. Talvez para além delas. A razão de muitas insónias. “Eu sou o sol da
sua noite em claro”. E a razão de contar estrelas enquanto o dia nascia. Mas
tinha todo o tempo do mundo. Esperaria o tempo que fosse preciso. Sem pressas. Muitos
sinais. Muito óbvios. Esperava que parasse de fingir que não reparava. Como a canção: “Meu bem, qualquer instante
que eu fico sem te ver aumenta a saudade que eu sinto
de você”.
Passaram algum tempo
a trocar mensagens. Estava numa fase complicada. Frases curtas e sucintas, como
a vida. Respostas por dar, perguntas sem resposta, quase nenhuns pormenores
dela. Como um saca-rolhas a quem é difícil resgatar qualquer informação que não
queria dar. Tudo muito devagar. Tudo com muita calma. O martírio da sedução. A
barreira intransponível dos muros. A carapaça dos bivalves e tartarugas com que
se protege. Difícil. Resolvia tudo com “não quero falar sobre isso”. Tudo eram
longas histórias. Incontáveis. Difíceis de contar. Com algumas insinuações e
sinais contava (tudo) o que viveu. Mas conversar não era o seu forte. Tinha um dedo podre para amizades.
Fazia-lhe falta alguém que a abraçasse sem pedir nada em troca. Estava farta de
parasitismo e que lhe sugassem as energias. Acabava sempre enganada, como
(quase) todas as mulheres, em alguma altura. Não tinha objectivos, alvos ou
metas. Respondia ao momento segundo o que lhe davam. Viver ao sabor do vento,
esse era o seu mote. Contou-me que tem muita mágoa no coração e que tem dado
muito amor. Que teve muito prazer mas também muita dor. E que os momentos de
felicidade se transformaram em sofrimento.
Como se explica? Não
foi um arranjo de família. Não foi interesse. Por isso, a resposta mais
sensata: foi o amor. Com muita perseverança e muita luta, sem perder a
esperança, mesmo quando esta parecia não ser nenhuma. Uma mulher de muita
coragem. A coragem nunca desvaneceu. Espera que a ouçam chorar. Olhar-lhe nos
olhos e sentir reciprocidade é tudo o que mais quer.
Acredita que não corre perigo e que tudo vai mudar. Porque não há mal que
dure sempre nem bem que nunca acabe. “Vem vambora/ Que o que você demora/ É o que o tempo leva”.
E foi assim que eu vi que a vida
Colocou ela pra mim
Ali naquela terça-feira
De setembro
Por isso eu sei de cada luz de cada cor de cor
Pode me perguntar de cada coisa
Que eu me lembro
Colocou ela pra mim
Ali naquela terça-feira
De setembro
Por isso eu sei de cada luz de cada cor de cor
Pode me perguntar de cada coisa
Que eu me lembro
(...)
Ela me achou muito engraçada
Ela falou, falou e eu fingi que ri
A blusa dela tava do lado errado/ toda amassada
Ela adorou o jeito que eu me vesti
Ela falou, falou e eu fingi que ri
A blusa dela tava do lado errado/ toda amassada
Ela adorou o jeito que eu me vesti
quinta-feira, 15 de setembro de 2016
Retalhos da vida de uma tia babada
Fim de dia. Cansaço. Leve dor de cabeça. Paciência quase
nenhuma. Sono, muito. Há muitos dias que durmo mal. Tenho sono quando não devo.
E quando devia dormir, leio. Só imagino uma cama, ao longe. Dia de jantar com
os sobrinhos. Toco a campainha e ouço a voz que quero ouvir: “Quem é?- a
pergunta de sempre. Com a resposta previsível e sem engano: “Sou eu”. Quando
querem brincar ainda acrescentam: “ Eu, quem?”. Subo de elevador e antes da
porta se abrir já ouço o ladrar da Bu. Quem me abre a porta é o meu afilhado. E
dá-me um abraço com toda a força que tem. Segue-se o abraço e os beijos do
sobrinho mais velho. Este, como sempre, nas suas actividades criativas que
envolvem pintura, desenhos e criações. Agora, sobretudo, bandeiras de Portugal,
dinossauros, baleias e tubarões. O afilhado está fechado num quarto cuja porta
está forrada de recados, desde horários de atendimento, conselhos e profissões.
Hoje a ordem é para que ninguém entre. O sinal proibido. Depois seguem-se as
instruções. Ao mesmo tempo que as leio a minha mãe diz-me ao longe que só se
pode entrar com autorização dele seguindo as instruções. São elas: bater 3
vezes e tocar o sino. Estou demasiado cansada para desempenhar um papel. Mas o
que eu não faço por eles?. Procuro o sino. Está ao lado da porta [é um sino
pequenino, comprado pelos meus pais em Washington no tempo em que os pequenos
tinham paranóia por sinos. Quando me lembro não consigo não rir. O mais pequeno
ainda não falava nem andava e por influência do mais velho dizia: “Tão, Tão,
Tão, Ti, Tão”. Existem vídeos de morrer a rir]. Faço o que os meus olhos lêem.
Bato à porta, toco o sino e espero. O mais velho vem a correr e diz que aquele
é o sino dele. E eu, já preocupada com o tempo que a demonstração teatral vai
demorar, peço-lhe que me empreste o sino, que é só para entrar. Depois de
alguma negociação, consigo que seja ele próprio a tocar o sino (enquanto o
leva) mas a tempo do mais novo ouvir. O afilhado abre a porta e pergunta “O que
deseja?” e eu “Entregar-lhe o presente que trouxe de Lisboa, espero que goste”.
Saio e fecho a porta. Vou à sala e entrego ao mais velho o que ele me tinha
pedido: uma miniatura da Torre de Belém. Abriu e felizmente disse: “Titi, era
mesmo isto que eu que queria, acertaste”, entre beijos e abraços. Ao longe ouço
o afilhado dizer à avó que não gostou nada do que eu lhe dei. Vou em direcção à
conversa e diz-me: “Não gostei nada! Não era nada disto que eu queria (uma
caneca de Lisboa com eléctricos, Torre de Belém, guitarras,...). Ao que
respondo: “Desculpa afilhado mas é o que acontece quando não se diz o que se
quer. E vais dar-lhe uso para beberes o leite.” Não convencido com a explicação
argumenta: “O que eu queria mesmo era o equipamento do Benfica!”. Todos os que
nos rodeiam sabem que isso será o presente do Natal... Este episódio faz-me
lembrar outro, protagonizado pelo pai deles que quando era pequeno respondeu à
madrinha dele: “Não gostei nada! Livros não são prendas!”. Quem sai aos seus não degenera (é de Genebra)...
terça-feira, 13 de setembro de 2016
As verdadeiras vítimas de violência doméstica que me perdoem
Tenho 37 anos, e felizmente, na minha vida entre este país à
beira mar plantado e o outro do lado oposto do Atlântico não conheci nas minhas
relações violência doméstica. Sou filha de pais casados há quase 41 anos (fazem
em Dezembro). O meu pai continua a oferecer flores semanalmente à minha mãe e
nunca lhes assisti a uma discussão. Claro que as deviam ter, como todos os
casais, mas nunca à nossa frente, nem nunca envolveram vozes altas nem gritos.
Nos últimos tempos, e bem, as denúncias de violência
doméstica têm disparado. Obviamente, que nem homens nem mulheres se tornaram
mais violentos. A coragem, a divulgação e as consequência é que aumentaram. Seja
por que motivo for, a violência, verbal e/ou física, são condenáveis. Quando se
chega a este ponto, o sentimento que é o pilar das relações humanas, o
respeito, terminou e não há volta a dar. Há limites que nunca se podem
ultrapassar.
A minha experiência é outra. A violência por parte das
mulheres. Conheço três casos concretos. O primeiro soube-o há alguns anos,
ainda era aluna de doutoramento em Houston. Quando me contaram e me mostraram
as marcas fiquei tão petrificada que só acreditei na evidência, vendo. Porque
os olhos não mentem. Perante aquele absurdo só disse que era inadmissível e
como era possível se sujeitar aqueles maus tratos. Na minha inocência de quem
nunca vivenciou uma cena de violência perguntei porque não se defendia. Foi-me
respondido: “Se reagir posso matá-la”. Aconselhei a pessoa em causa a não dar mais
nenhuma oportunidade e revoltei-me, obviamente, com a agressora com quem não
falo até hoje. Independentemente dos motivos, ninguém tem o direito de levantar
a mão a ninguém. Nada se resolve assim. E nada disto se justifica.
Mais tarde, outro amigo disse-me que um homem com filhos
quando terminava uma relação tinha uma coisa a fazer quando quisesse sair de
casa e não ser privado dos filhos: fazer queixa à polícia de violência
doméstica. Não entendi. Mas percebi com a experiência que era a única forma da
justiça não optar pelo lado errado.
Façam um estudo e mostrem as estatísticas. A maioria das
mulheres perante a iminência da separação, que aceitam ou não, usam os filhos
como arma de arremesso. Primeiro, quando os filhos são pequenos, dominadas pelo
instinto de vingança e aconselhadas perversamente por maus advogados,
acusam-nos de violência doméstica contra si e os seus filhos e em simultâneo,
para acabar de vez com a dignidade de uma pessoa de bem e reduzi-lo aquilo que
ninguém aceita, a machadada final é dada com a acusação de abuso sexual dos
filhos. Investiguem as falsas denúncias. Ouçam e leiam grandes peritos neste
tema como o Prof. Daniel Sampaio e Dra Maria Saldanha Pinto Ribeiro. Imaginem,
por um instante, ser acusado de uma coisa tão idionda que não se cometeu.
Imaginem o que essa mentira provocará na vossa vida. E os efeitos dela. O pai
que me contou ser vítima desta situação era um homem destruído, cansado,
choroso, privado da sua filha de dois anos e quem eu dizia que a primeira coisa
a fazer era apoiar-se na família, fortalecer-se psicologicamente e acreditar
que a justiça dos homens funcionasse. Isto foi há 3 anos. Pelo menos já
conseguiu provar que a mãe da filha mentia. Está outro homem. Melhor. Mas os
estragos provocados ficarão lá para sempre.
O último e não menos importante caso tem 4 anos. O casamento
nunca correu bem. Ele era pai, mãe, sustento da casa, quem tratava dos filhos,
quem cozinhava, quem acordava de noite. Para além dos 2 filhos tinha a mulher
que parecia ser mais um. Toda a gente conhecia a situação. Era visível demais.
Ele era o pilar. E ia aguentando como podia para bem dos filhos. Os problemas
começaram quando começou por não deixar os filhos ao fim de semana na casa dos
pais. Continuaram porque ela deixou de trabalhar e pioraram com um facto grave
que foi o fim. Os pais dela que sabiam de toda a situação gostavam dele e
apoiavam-no. Quando se separaram fizeram um acordo escrito, acordado e tratado
pelos respectivos advogados, e assinado pelas partes que incluía a permanência
dos filhos em determinado colégio. Antes de dar entrada no registo, a mãe
rasgou o acordo e andou com os filhos em parte incerta e o pai não os viu
durante dois meses. Espalhou um sem número de mentiras. Dizia-se vítima de
espancamentos sucessivos, vítima de violência e até de atropelamentos.O mesmo
aplicado aos filhos. Factos zero. Provas zero. Relatos dos vizinhos zero.
Chamada para a perícia médico-legal não compareceu. Na primeira avaliação
psicológica a única coisa que demonstra é querer, sem razão, é não permitir a
convivência dos filhos com o pai. Os pais dela desmentem a versão. Não vou
entrar em pormenores sórdidos que incluem medicações perigosas para os filhos,
mudanças várias de escolas e de casas, retirada dos filhos à mãe... O que
mudou: quase nada. Apenas os pais dela, que inexplicavelmente, em vez de
defenderem os netos preferem defender as loucuras da filha. Apesar de este pai
ser um bom pai, de ter emprego fixo e estável, avaliação psicológica e social
mais do que positiva, nenhum juíz (e já lá vão 3) lhe atribuiu a guarda
(ainda). Tem tido azar em tudo. Juízes demasiado jovens, sem coragem, médicos
incompetentes, psicólogos maus,técnicos pouco aplicados. Vítima de funcionários
do Estado que se demitem do seu papel e que não acham este caso (demasiado)
grave nem urgente. Este é o perigo dos casos que os outros não consideram
graves. Há outros com maior prioridade e (realmente) graves. Gente que faz
pouco ou nenhum trabalho de casa e que mal sabe investigar. E gente que dorme
bem à noite, sem qualquer remorso. Até lá, espera-se com uma paciência estoica
e com um fé que se pede que não desvaneça. Este pai sente-se inútil e impotente
por não poder fazer mais do que lutar pelo melhor para os seus filhos e esperar
que a justiça dos homens seja feita. Responsabiliza os juízes que optam sempre
pela solução mais fácil que é não decidir. Que é passar a responsabilidade para
o outro. Isto é o que mais se tem visto. Gente de verdade com muita coragem.
Justiceiros. Juízes como Joaquim Silva a quem chamam “defensor dos filhos com
pais em guerra”.
E por último, coloquemos na ordem do dia, tal como a
violência doméstica, o síndrome de alienação parental. Pessoas que acham que os filhos são
propriedade sua, pais que querem que os filhos escolham e/ou gostem de apenas
um dos progenitores e da sua família. Isto é uma calamidade social. E é preciso
vive-la de perto. Passar por ela para que saibamos a sua dimensão.
E como me disse uma grande amiga é “ser confiante que as
coisas só podem melhorar”. É essa a fé no futuro. E confiar que as pessoas más
não triunfarão e que a maldade tem que ser punida.
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
Caetano apresenta Cristina
6 de
Setembro. São quase 9 da noite. A temperatura na rua ultrapassa os 30 graus.
Dizem ser o dia mais quente do ano. O Coliseu está praticamente vazio. O calor
é mais que muito. E eu adoro calor.
Só se fosse para ter o efeito da música: “Calor que provoca arrepio/ Toma
esta canção/ Como um beijo”. O Coliseu
demora a encher. Perto da hora do concerto começar, a lotação não estava a
metade. A conhecida pontualidade dos portugueses. A temperatura subia
exponencialmente, quase infernal. Pensei ser para o ar condicionado não afectar
as vozes. Antes de começar o concerto eu já tinha bebido duas garrafas de água
com gelo, compradas no bar. Cheguei, também, a pensar que esse seria o objectivo.
O lucro extra com a venda de bebidas. O concerto começou 30 minutos
depois da hora marcada. Este que foi o concerto extra. Sendo a primeiro dos
dois. Quase esgotado.
As cortinas abriram e Caetano surge sozinho: "Este espectáculo se resume a uma cantora, um violonista é um compositor. Mas diz tudo sobre a extensão e a profundidade do samba. E por isso eu quero chamar ao palco Carlinhos 7 cordas e Teresa Cristina". Teresa Cristina é uma cantora praticamente desconhecida aqui e eu só a conheço por cantar uma música da Adriana Calcanhotto Beijo sem Aquele samba que fala de uma saída à noite para afogar as mágoas da "dor de corno": "vou á Lapa, decotada, viro todas, beijo bem...". Desta vez, Teresa Cristina vem cantar Cartola. Não posso dizer que adorei. Mas a simpatia, sinceridade, emoção e generosidade dela foram marcantes. Falou do sonho que tinha desde a infância de cantar em Portugal e que por isso era "um sonho com laço rosa". Disse também que o Coliseu foi o sítio mais lindo onde cantou. E os elogios não ficaram por aqui. "Tudo aqui é lindo, a rua, a padaria, a farmácia". E a emoção que é cantar falar numa língua que os outros entendem. Um discurso emocionante e emocionado que incluiu lágrimas. E ela própria sofreu com o calor quando aceitou a oferta e de um leque de uma senhora da primeira fila.
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| Copyright: Catarina Henriques |
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| Copyright: Catarina Henriques |
Caetano entra e o figurino resume-se a um banco e um violão. Ele, que vem
formal, de "paletó" castanho alaranjado, camisa, umas calças chinos e
sapatos pretos de atacadores. O concerto dele começou com Um índio, uma
canção arrebatadora para lá de linda:
"Um
índio preservado em pleno corpo físico
Em todo
sólido, todo gás, todo líquido
Em átomos,
palavras, alma, cor
Em gesto, em
cheiro, em sombra, em luz, em som magnífico
(...)
É aquilo que
nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá
a todos não por ser exótico
Mas pelo
facto de ter estado sempre oculto
Quando terá
sido o óbvio
Seguiram-se Os passistas, Menino do Rio, Minha voz minha vida, Meu
Bem, Meu Mal, Esse Cara, por
desordem alfabética e de alinhamento, ao sabor minha memória. Caetano, um
baiano do Recôncavo, mostra que continua a ser um menino do Rio e que no alto
dos seus 74 anos, como o vinho do Porto, melhora com o passar dos anos, como a
canção: “Eu vi
muitos cabelos brancos na fronte do artista/ O tempo não para e no
entanto ele nunca envelhece”. Como o
Coliseu está mais do que quente, "mais quente do que no Rio", Caetano
não resistirá a tirar o paletó "bonito” (not!). Nesta noite não
haverá gritos de "Fora Temer" mas muitas vaias. Introduzirá um samba com:
"Recentemente o presidente que era interino até poucos dias atrás no
Brasil fez um discurso utilizando mesóclise e a imprensa sacaneou muito porque
achou que era uma coisa, sei lá, formal. A
mesóclise é uma forma considerada estranha para o coloquial brasileiro mas é
bonita. E nesse samba eu faço duas
mesóclises: Se desbotássemos, outros revelar-nos-íamos no Carnaval// (...)
Amor,/ onde quer que estejamos juntos/ multiplicar-se-ão assuntos de mãos e pés/
e desvãos do ser.”
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| Copyright: Pedro Gomes |
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| Copyright: Catarina Henriques |
Mostrou também que é um poliglota genial e que domina (exemplarmente) no mínimo
3 línguas: Cucurucucu Paloma (do
aclamado filme de Almodovar Hable com
ella), London London (uma irmã de Englishman in New York, a mostrar o quão
difícil é ser estrangeiro numa grande metrópole: “I know no one here to say
hello/ I know they keep the way clear/ Iam lonely in London without fear/ I’m wandering
round and round here nowhere to go), Love
for sale (cantada a
capella) e por fim Libertação. Esta
última, um fado cantado por Amália sobre um poema de David Mourão-Ferreira e
que Caetano disse nunca se sentir preparado para cantá-la em palco. Não foi o
que pareceu. O sotaque português beirou a perfeição.
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| Copyright: Catarina Henriques |
Depois não
podiam faltar as aclamadas Reconvexo,
Leãozinho, Força estranha, Sozinho,
talvez as mais aplaudidas e acompanhadas da noite e terminou Luz de Tieta.
Voltou para
um primeiro encore, acompanhado: a
fabulosa Tigresa (inspirada na
Zezé Motta que frequentava a lendária boite Dancing Days que era uma amálgama
social: “Me
falou que o mal é bom e o bem cruel... Ela me conta, sem
certeza, tudo o que viveu/ Que gostava de política em 1966/ E hoje dança no
Frenetic Dancing Days /.../ Com
alguns homens foi feliz, com outros foi mulher/ Que tem muito ódio no coração,
que tem dado muito amor/ E espalhado muito prazer e muita dor...) Miragem de
Carnaval, Como 2 e 2 (que é tão
linda e que diz: "Meu amor,
Tudo em volta está deserto tudo certo, Tudo certo como dois e dois são cinco"), Desde que o samba é samba. E voltou para terminar, de vez, com Odara. já com toda a gente fora dos seus
lugares, junto ao palco e de telemóveis em punho. Momentos inesquecíveis,
memoráveis, fantásticos. Bom demais!
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| Copyright: Nuno Ferreira Santos |
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| Copyright: Nuno Ferreira Santos |
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| Copyright: Catarina Henriques |
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| Copyright: Catarina Henriques |
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
Lisboa quase um ano depois
Não me lembro de ter estado tanto tempo sem vir cá. Cheguei ao aeroporto no início da tarde. No terminal 1, o Starbucks ao longe chama por mim. Lisboa de repente, em vez de ser Portugal, parece-me que acabei de aterrar nos EUA. Só eu e os funcionários somos portugueses. Perguntam-me o nome. Parece um dejá vu. Peço um regular iced coffee. E escrevem-me o nome no copo seguido de um smile. Quase ninguém me chama pelo nome. Chamam-me irmã, prima, titi, gaja, Anita, Ana Margarida, Martins, Martinez, Ana Martins, Anocas, Aninhas, Anita. Mas o meu nome que é pequeno, e que tem 3 letras apenas, ninguém me chama. E de repente, ouço o meu nome o maior número de vezes em menor tempo. Soletrado em português. E como se já não bastasse a minha alegria de voltar à cidade que mais amo, o sorriso abre sem que eu controle. Como o gelo é muito, volto para trás porque as minhas mãos estão prestes a congelar. Tento tirar um guardanapos e ouço chamar pelo meu nome, mas não ligo, porque Anas há muitas "sua palerma". Mas como continuam, decido olhar. E estendem-me um cartão que colocam nas bebidas quentes. Nunca ser chamada pelo meu nome me deixou tão feliz. O Starbucks é o que os Estados Unidos têm de melhor. É um sítio democrático.
Dirijo-me aos táxis. A imagem do inferno. Uma fila gigantesca. Tal e qual como nos Aeroportos nos Estados Unidos. Mais pessoas do que táxis. Debaixo de um calor infernal. O dia mais quente do ano, dizem. A sensação térmica e de ter aberto a porta do forno. Desisto e vou para o metro. As filas para tirar bilhetes são muito menores e rápidas. Existe um funcionário que fala em todas as línguas. Eu sou, mais uma vez, a única portuguesa. Assisto boquiaberta a vê-lo trocar notas com uma amabilidade que desconheço nós portugueses, principalmente os do Algarve. Não lhe digo mas não aguento de tanto orgulho de ser portuguesa, perante esta cena. O metro é de 5 em 5 mns e em 20 minutos vou do aeroporto até aos Restauradores. Estou no início da avenida da Liberdade, ou no fim, dependendo da perspectiva. Os nossos Champs Elysees. São quatro da tarde e Lisboa está mais quente do que nunca. Sigo até à Rua Portas de Santo Antão e depois Elevador do Lavra. Só de olhar para a subida e para a inclinação dá-me um calafrio. Com o mesmo bilhete do metro subo o Elevador. No cimo, CEDOC. Vamos colocar a minha mala no carro. E vamos a um geladinho na Mú no Campo Mártires da Pátria. Depois, como as velhinhas, vamos para os bancos do Jardim do Torel olhar para os telhados de Lisboa que parecem um quadro da Maluda. Como temos um concerto e o lugar não é marcado, first come first serve, combinámos às 8:30 na entrada do Coliseu. Mas antes, comer qualquer coisa. Pensamos no Gambrinus mas a passar na Casa do Alentejo vemos que tem uma loja que vende queijos, presuntos, salpicão. Nada mais adequado. Uma sandes gigantesca em pão alentejano de presunto e uma imperial alemã. A sede é tanta que eu nem espero para comer. Bebo como se não houvesse amanhã. Apesar de ser de noite a temperatura não desce dos 30 graus. Parecemos derreter. Mais uma vez, o atendimento é irrepreensível e mais uma vez somos as únicas portuguesas.
segunda-feira, 5 de setembro de 2016
Noite branca
Mesmo sem ter estado pessoalmente em nenhum dos 3 dias, as opiniões e repercussões são as melhores
possíveis. Aquilo que há uns anos era apenas uma noite, este ano foi um fim de
semana. E desta vez, acho que nem os críticos têm muito a apontar.Sexta-feira à
tarde disseram-me que a cidade estava inundada de gente. Durante o fim de
semana, os autocarros circularam em horário extraordinário e de frequência
regular. Os grandes concertos incluíram nomes como Carminho, Miguel Araújo, The
Gift e Sérgio Godinho + Jorge Palma.
Houve actividades para os mais pequenos que incluía actividades como
contar histórias, desenhar em paredes, construir a própria máscara, ofertas de
algodão doce. Os museus estavam abertos e de entrada livre. As ofertas
gastronómicas eram muitas. Orquestras sinfónicas e música clássica no Theatro
Circo, assim como, DJ’s. Cenas
alternativas no GNRation. Danças no Largo São Paulo. Instalações espalhadas
pela cidade. Performances. Bandas. Desta vez, parece que não há do que nos
queixar. Ofertas para todos os gostos. Gente, muita gente a percorrer a cidade
a pé. Uma cidade que foi para os pedestres. Não podemos deixar de aplaudir. O
tempo também ajudou. É com estas dinâmicas que Braga se deve transformar. Uma
cidade com diferentes ofertas culturais. Uma cidade pedestre, voltada para a
rua e para o seu património e mostrar o que de melhor há. Havendo eventos, as
pessoas saem à rua. Por isso, os organizadores, estão de parabéns.
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
Afinal houve golpe, não se consegui "botar" para fora Temer, e a querida saiu
Deixei de ter paciência
para discutir sobre o Brasil. Aconteceu o mesmo quando há quase um ano o PS com
uma coligação pós-eleições tomou “de assalto” o poder. Nada tenho em comum com
este PSD. Mas a verdade é para ser dita. A coligação que ganhou as eleições não
foi a que assumiu o poder. Foi, mas chumbaram o governo no parlamento. A
história e os pormenores técnicos toda a gente os sabe. Mas os mesmos que
tomaram de assallto o poder, os que o defendem e os que acham que esta esquerda
é um governo ligitimo, são os mesmo que quando no Brasil se falou pela primeira
vez em impeachment apelidaram-no de
golpe.
Não sou analista política nem percebo nada de leis e estou apenas a dar uma opinião pessoal. Acho que se
alguma vez um governo poderia ter sido destituído, esse teria sido na época da
descoberta do “mensalão”. Aquele célebre caso em que o Lula era tão inocente
que afirmou desconhecer o esquema e no qual muitos dos seus mais próximos foram
presos, incluíndo José Dirceu. Contra o Lula tenho tudo. É uma espécie de
Sócrates mas sem o mesmo nível e sofisticação. Acredito que será melhor pessoa.
Mesmo depois de tudo, Lula, continua a ter mau gosto, a falar mal português, a
precisar de umas aulas de etiqueta e por melhor que se vista e por mais banhos
que tome, nunca deixará de ter ar de suburbano. Quando o acusaram de corrupção,
os bens que lhe eram atribuídos, não era um apartamento num dos bairros nobres
de São Paulo ou na zona sul carioca, mas um triplex nos subúrbios- São Bernardo
do Campo. A outra propriedade, digamos mais de veraneio, ao contrário de ser numa
charmosa ilha de Angra, Búzios ou Paraty, era na zona costeira paulista, que
qualquer pessoa minimamente viajada nunca ouvira falar. Isto para dizer que se
o Lula roubou, roubou à sua imagem, mal. Ou seja, nem gosto teve para roubar.
Até no acto de roubar é simplório.
Pois bem, Lula saiu e ganhou
Dilma. A sua seguidora. Mulher, estudada, imagem da resistência à ditadura
brasileira e capaz. Apesar dos seus discursos serem incompreensíveis ou como
muitos dizem, de ser numa língua que a própria inventou, “dilmês”. Tenho para
mim que o maior erro da Dilma é defender até à morte o seu padrinho político,
Lula. Acho que só ganharia se soubesse criar um novo caminho. Foi afastada por
um crime que não cometeu. Foi julgada por uma manobra política por senadores
que nada têm de juízes. O compadrio, a senzala e os coronéis venceram. A
perpetuação do poder parece instalada. A boa e a má notícia é que todos os
políticos poderão concorrer nas próximas eleições.
Mas depois surge-me a
grande dúvida: as pessoas que apoiam o PT e a Dilma (e o Lula) são as mesmas pessoas que estiveram
caladas perante a ditadura de Cuba, os mesmos que contrataram e apoiaram a ida
de médicos cubanos para o Brasil a pagar-lhes menos de que aos médicos
brasileiros (os médicos cubanos recebiam uma parte e o governo cubano outra);
são os mesmos que apoiaram a subida de Chavez ao poder e os seus grandes
amigos; são os mesmos que se calam e assistem impávidos e serenos à vergonha
que se passa na Venezuela onde falta tudo; os mesmos que apoiam o Evo
Morales... Assim sendo, como é que eu posso escolher um lado?
O Presidente Temer, que não foi eleito pelo povo mas que a
constituição brasileira permite que seja presidente vai se-lo durante os
próximos 2 anos. Um Vice-Presidente que traiu desta maneira a sua Presidente
não lhe espera um futuro muito risonho. Vende-se por pouco. E deixa ficar mal
os seus colegas da grande disciplina que é o Direito, a Universidade do Largo
São Francisco e o título de Doutor que não honra. Colherá o que semeou. Como o ciclo da vida. "Não há mal que dure sempre nem bem que nunca acabe". E depois tem ainda o defeito triste dos homens que não sabem envelhecer: a necessidade de ter ao seu lado uma barbie com idade para ser sua neta.
Todos, acusados ou não,
culpados ou não, julgados ou não, arguidos ou reus, vão poder candidatar-se nas
próximas eleições. O que é um pronúncio muito optimista, não haja dúvida. Num
país onde não existe vergonha, todas estas pessoas não terão qualquer problema
em voltar a candidatar-se. Evangélicos, religiosos, palhaços, analfabetos
funcionais, pessoas capazes das cenas tristes que foram divulgadas ao mundo do
Congresso brasileiro.
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
A amizade
A amizade, como o amor,
não se explica. Há quem diga que tem muitos amigos. Eu não. Há quem diga que as
amizades não acabam. A minha experiência também me diz que pode, sim, acabar. O que é verdade numa amizade, ao contrário
do amor, é que nunca se fica a odiar a outra pessoa, apesar de tudo. Mas eu
também não odeio ninguém, seja porque motivo for. Esse sentimento nunca tive
por ninguém. Nunca tive muitos amigos. Dizem que não gosto de quase ninguém, a
esse ponto. Dizem que gosto pouco de pessoas. Gosto muito de algumas pessoas. E os meus amigos são aqueles a quem eu dei uma
oportunidade. Às vezes em situações difíceis, que não me envolviam, tentei
ajudar usando o meu humor judeu. Isso já me valeu o afastamento de algumas
pessoas por quem eu tive que lutar. O que é uma verdadeira amizade? Quando
damos conta que o tempo passou, e que apesar da distância e da rara
convivência, a intimidade permaneceu. É não ter capas. É falar verdade. É ser
transparente. Mas não há regras nem fórmulas.
Durante muitos anos, os
amigos que me acompanharam e partilharam a vida, vivíamos como se não houvesse
amanhã. Dançávamos, coisa que nunca fiz em público a não ser que a concentração
alcoólica fosse alta. Fumávamos sem conta e sem limite. Fizemos muitas
loucuras. Nunca nos cansávamos. Tínhamos asas muito grandes. Fizemos interventions uns aos outros. Testámos
os nossos limites. E isso passou. Há um tempo para tudo. Hoje, alguns, permanecem.
Tenho amigos de cá e de
além-mar. Amigos malucos, neuróticos, chatos. Amigos com pinta. Amigos que não
gostam de ler e que gostam de ler. Amigos que tocam piano. Amigos de todas as horas. Amigos que choram
no meu ombro e no meu colo. Amigos que já me viram chorar e com quem chorei ao
telefone. Amigos que me ampararam as quedas e os tombos. Amigos que me salvaram
a vida mais do que uma vez. Amigos que são irmãos. Amigos que me dão sobrinhos.
Amigos que se riem do meu humor judeu. Amigos que se desfazem e que “estão tão
à flor da pele que qualquer beijo de novela os faz chorar”. Amigos que perdoam.
Amigos que pedem desculpa. Amigos que se esquecem. Amigos que contam e guardam
segredos. Amigos que se expõem e que não fingem. Amigos que não se fazem de
fortes. Amigos sinceros e honestos. Amigos com corações muito grandes. Amigos
com coração sem tamanho. Amigos que me dizem que me adoram. Amigos que eu
reconheço as mãos no escuro. Amigos que
nunca me abandonam e que já me abandonaram. Amigos que vão e que ficam. Amigos
mega, tera, giga bons. Amigos que acreditam. Amigos que respeitam. Amigos que
se fazem de fortes. Amigos que cantam e que pintam. Amigos que ouvem e que
falam. Amigos de todas as horas e de todos os dias. Amigos íntimos e mais
afastados. Amigos sem definição.
É assim que eu queria
que os outros me descrevessem quando morresse: uma boa pessoa, uma grande amiga
que sempre fez bem. Este é o meu objectivo maior.
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