Ainda hoje, passados 4 anos, não consigo lembrar-me daquele
dia. Ainda hoje, depois de muita ajuda, de muitas palavras, de muitos
conselhos, de muitos químicos legais, de muitos comprimidos, de muitas
insónias, de noites e noites sem dormir, de muitas lágrimas vertidas, de muitas
lágrimas que secaram, continuo a ter medo daquele dia. E fechei-o em qualquer
lugar dentro de mim para nunca mais lá voltar. Não há nenhum dia que ao
lembrar-me de pequenas partes (que
aparecem sem avisar), a que imediatamente fujo, consigo não chorar. A maior
injustiça de todas. O maior mal que se fez a algumas pessoas com o objectivo de
se atingir apenas uma. O maior mal, o maior de todos, foi causado a duas
crianças. E uns pais que criaram filhas inaptas para enfrentarem como adultas a sociedade apoiaram
a birra e a maldade de uma filha contra o supremo interesse dos netos. O
tempo e a memória permanecerão. E essa verdade imutável será a que sempre terão
que se confrontar na vida. O peso do mal que fizeram. E eu só espero e peço que
estes (inúteis) quatro anos não tenham interferência (negativa) na
personalidade e carácter dos meus sobrinhos. Que sejam homens bons. Que a
maldade nunca lhes afecte o juízo. Que sejam sérios e honestos. Que nunca
precisem (mais) de mentir e de esconder o que sentem. Que se guiem sempre pela
frase “A verdade liberta”. Que parem de me pedir “eu quero ficar com o pai”
quando eu não tenho poder nenhum e quando eu nada nada posso fazer a não ser lutar
para que seja feita justiça. É com essa fé, com que nasci, e profunda convicção e
optimismo, nos homens, que espero que na terça seja feita justiça. Sem
represálias, sem vinganças, sem acertos de contas. Só pelo bem de duas crianças
que sabem (desde sempre o que querem) mas que sempre tiveram medo de falar a
verdade. Para que nunca mais na vida tenham medo daquilo que sentem e que a
partir de terça sejam seres humanos livres. “Não há mal que dure sempre, nem bem
que sempre acabe”.
sexta-feira, 7 de outubro de 2016
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos 2016
Ponham os olhinhos no FOLIO, senhores! Ainda dizem
que a cultura de alta qualidade não vende.Um evento de 10 dias à volta dos
livros. Uma vila, no interior de Portugal, num país que se diz ler pouco e
todas as sessões estão cheias e os eventos, mesmo os pagos, estão esgotados. O
povo é aquilo que se lhes dá. Eu e a maioria das pessoas presentes no Folio foram
propositadamente. Qual a receita do sucesso?
Fico a saber que o Presidente da Câmara Municipal de
Óbidos é do PSD. O partido que muitas vezes nos seus governos aboliu o
Ministério da Cultura. Incluindo o último, de Passos Coelho, que foi só tiros
nos pés. Até o acervo do Miró queriam leiloar. Ou seja, as decisões culturais
dos políticos não são ideológicas. Há por aí muito boa gente que diz que não
precisa de estudar nem ler nada para além do seu trabalho porque já aprenderam
tudo o que deviam quando foram alunos na Faculdade. Que visão mais redutora do
mundo. Que pequeno o mundo que lhes vai na cabeça. Que falta de pensamento.
Mas, isso, são outros quinhentos.
O que me fez
ir, não vou mentir, foi o programa. Primeiro o Salman Rushdie com a Clara
Ferreira Alves. E depois, o Camané a cantar Jobim. Apesar de, para este último,
já não ter conseguido bilhetes. Tirei o meu último dia de férias para ir e
conseguir chegar a Óbidos às 9. A conversa de Rushdie com Clara Ferreira Alves
teve que ser mudado de lugar. Da tenda de autores para a tenda de concertos.
Acho que a conversa não poderia ser conduzida por ninguém mais habilitada. Quem
melhor do que Clara Ferreira Alves para conversar com Salman Rushdie? Ela que é
uma enciclopédia ambulante. Que domina e conhece o islão, o Médio Oriente, a
fatwa, terrorismo, EUA, NY, Londres. Sobre isto e muito mais se falou nesta
noite. E que escreveu um livro magnífico sobre estes assuntos. Eu diria que o
humor e a ironia são as características deste escritor. Ao contrário de muitas
outras vedetas do seu calibre, este não é tímido, é solícito e ri-se de si
próprio. É talvez a única pessoa de origem indiana que conheci simpática, não
querendo generalizar. Apelidou a religião de non sense. Referiu-se a Madre Teresa de Calcutá sobre ser o oposto
de uma santa. E apelida o ex-Papa de “Eggs Benedict” Falou-se
da sigla ISIS
que há uns tempos ninguém conhecia: “era apenas o nome de uma deusa egípcia, ou
de uma mercearia na rua onde vivo, em Nova Iorque. Falou de quanto é feliz por viver em NY.
Clara perguntou-lhe onde se sentia em casa ou aonde é que ele pertencia. Ao que
respondeu que sempre se sentiu pertencer muito mais a cidades do que a países.
Gosta de livros que o façam
pensar. Falou que grandes livros não mudam necessariamente o mundo. Deu como
exemplo o “Moby Dick”, um colosso que segundo ele nem a pesca mudou.
No dia seguinte
acordei relativamente cedo, para ser sábado. Fui comprar o “Expresso” em frente
ao hotel e cruzo-me com o grande Luís Miguel Cintra. Nunca o tinha visto fora
do palco. Passei a manhã a ver todas as livrarias de Óbidos: Mercado, Adega...O
saco de pano que muitas pessoas usavam era ridiculamente caro. Nem um saco
destes na Strand custa o mesmo.Almocei num dos restaurantes na rua principal.
Comi muito bem, bebi melhor.
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| Copyright: Folio |
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| Copyright: Folio |
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| Copyright: Folio |
Ao fim da tarde tive
uma das grandes surpresas, talvez pela ausência de expectativa: a “Casa Cais”.
Luana Carvalho (que eu não conhecia, como é possível), Alice Sant’Anna (que eu
conhecia do livro “Rabo de Baleia” que trouxe de São Paulo), Pedro Sá (o grande
músico da banda Cê e um dos grandes responsáveis pela modernidade dos últimos discos
de Caetano) e Rafael Rocha. Pedro Luís, na plateia fez uma participação especial.
Anabela Mota ribeiro apresentou-os, lendo “excertos” do grande livro “Memórias
Póstumas de Brás Cubas do não menos grande Machado de Assis. A delicadeza de
Alice Sant’Anna a ler excertos do seu livro “Rabo de baleia” cujas palavras
mais repetidas foram: baleia e Japão. E os variadíssimos nomes para a mesma cor
usados no Japão. Mostrou ainda talento para cantar. Luana Carvalho, filha da
mãe Beth, mostrou que o talento é genético. Até o cenário era inspirador. Uma laranjeira em que se viam as folhas a cair. O passar do tempo, como a vida. Que acontecimento este. Foi tão bom
mas tão bom. Ficou a memória e a vontade de ver de novo. “Que lindeza tamanha”,
como nas palavras de Régio.
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| Copyright: Anabela Mota Ribeiro |
À noite, o grande
concerto de Camané a cantar Tom Jobim. Uma verdadeira utopia neste registo. Indescritível
de tão lindo e emocionante.
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| Copyright: Anabela Mota Ribeiro |
No último dia houve ainda uma leitura encenada dos solilóquios de Hamlet — “como queiram de William Shakespeare” —, coordenada por Beatriz Batarda e e
por alunos e ex-alunos dela. Este para mim, foi o outro grande momento do
festival. De uma delicadeza, força, verdade e excelentes interpretações. De
encher a alma e o coração. Beatriz Batarda, uma excelente professora e uma das
maiores encenadores e actrizes da sua geração. Que para além de tudo, é muito
gira. Palamas para ela, muitas e para os alunos que ajuda a formar. Enquanto
houver actores desta qualidade existirá sempre público.
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| Copyright: Folio |
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| Copyright: Folio |
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| Copyright: Folio |
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| Copyright: Folio |
Dos dois curadores só conhecia a Anabela Mota
Ribeiro e José Eduardo Agualusa. O último não vi. A Anabela estava
omnipresente. Todos os eventos que fui, lá estava ela. Sorriso aberto e abraços
e beijinhos para todos os conhecidos. A felicidade era visível. Foi através dela
que conheci o festival e não poderia haver melhor divulgadora. O seu
entusiasmo e alegria foram contagiantes. Que qualidade de programa e que
orgulho. Palmas e elogio, por isso, para ela.
Há coisas a
melhorar, claro. Como as acessibilidades. O Comboio Literário foi uma excelente
iniciativa. Falta melhorar os transfers da estação de comboios para a vila e
criar um Comboio Literário desde o Porto (o norte também existe, e passar o dia
entre aviões e comboios só com muita vontade mesmo). Mas não me arrependi. Tudo
valeu muito a pena. Superou todas as minhas expectativas. O tempo ajudou. A
organização magnífica, o cenário condizente. Tudo beirou a perfeição. Memórias
muitas e já penso na vontade de voltar para o ano. Para mim, foi um verdadeiro
acontecimento.
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
A eleição merecida de um homem bom
Há uns anos tudo me afastava de Guterres. Mas lembro-me do
poder mobilizador daquele homem. Nunca fui socialista nem sou, até hoje. Lembro-me
como se fosse hoje, do ano de eleições para o governo da Republica. Eu gostava
muito de política no ano de 1995. Foi o ano que Cavaco apoiara Fernando Nogueira,
tendo como adversário António Guterres. Nesse ano, Fernando Nogueira terminou
para a política, nunca mais se falou dele. E tinha um gigante da oratória como
adversário. Era visível, já naquele tempo, o talento de Guterres. Foi quase uma
batalha desigual. Guterres era mobilizador, tinha o poder da palavra e
recordo-me dos seus comícios ao som de Vangelis. Guterres teve uma maioria absolutíssima
e uma menos expressiva no segundo mandato. E, depois como todos sabem,
abandonava com a célebre frase do “pântano” quando o PS teve uma derrota esmagadora
nas eleições municipais. Mesmo ao fim de muitos anos, ainda me recordo destes
acontecimentos, como se fossem hoje. A dignidade de se sair de cabeça erguida e
de pé. Políticos assim há (muito) poucos. Homens que ganham quando ganham e que
sabem perder. Como dizia alguém há uns dias é sobretudo “um homem bom”. Depois
de se ser um bom profissional, ter uma vida boa, o que nos faz diferentes, de
facto? O que marca a nossa vida e o nosso nome? Ser bom. Acho que isso faz toda
a diferença. Não importa a ideologia, importa os valores que se tem. E este
homem é unânime por isso.
Nos últimos tempos assistimos às jogadas de bastidores que
mostravam que a batota poderia ser uma forma de ganhar. Felizmente, acabo de
saber que este homem discreto, com um percurso irrepreensível até à sua eleição,
acaba por vencer. Este homem que teve a coragem, quando mais ninguém parecia
te-la, de dizer ao mundo como era possível ver-se morrer tantas pessoas que
fugiam da guerra na Síria. Sei que Guterres não vai mudar o mundo. Mas tenho a
certeza, pelo homem que é, pelos valores que tem que tudo fará e que não ficará
indiferente perante a tragédia.
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terça-feira, 4 de outubro de 2016
Tasca Torta
Aconselhada no hotel, vim parar à Tasca Torta. Meia dúzia de
mesas é o tamanho do restaurante. Quem nos recebe é um senhor de óculos com um
humor peculiar. É-me dada a ementa. Olho em volta e os pratos têm todos óptimo
aspecto. Pergunto por sugestões e nada me é aconselhado. Depende do meu gosto. Começamos
pelo vinho. O antigo Vinha da Defesa que
agora é apenas Defesa. Branco.
Escolho uma entrada. Vieiras em cama de legumes. Enquanto espero, colocam-me
copo e garrafa na mesa. E água, sem pedir. Aproveito e saio para fumar um
cigarro, do prazer, não de viciada. Regresso e colocam-me as vieiras na mesa,
como na foto. Simples. Rúcula, courgette e umas pitadas de sal. Já vou em 2 copos de branco. Segue-se a
espetada de frango com farinheira. E colocam-me um copo, que provo, e é vinho
do porto LVD 10 anos Offley. O prato
principal é uma experiência sensorial. A espetada, com pimento vermelho,
cogumelos e frango acompanhada de um arroz de grelos/ espinafres e uma salada de alface, rúcula, tomate cherry
e cebola com um molho de mel. Meu Deus! O vinho agora muda para tinto: Cabeça de Toiro. Comer, beber livros e
viajar! É isto que levamos da vida. Eu, pelo menos. A sobremesa entre o melhor
chocolate do mundo, que conheço tão bem de NY, e uma mousse de pêra rocha com
raspas de chocolate, massa filo eum molho de frutos vermelhos. A escolha é a
última. Pouco doce. Nada enjoativo. Mesmo cheia, consegue ser a cereja no topo
do bolo. Quem passar por Óbidos, não se esqueça de passar por aqui.Quem gostar
de um humor judeu, quem está atrás do balcão, é do melhor que há.
sábado, 1 de outubro de 2016
A antítese
Percorro a Rua Direita de manhã e o ambiente de hoje não é o mesmo. Turistas e mais turistas. Daqueles que querem ver o maior número de coisas em menor tempo. Brasileiros, muitos brasileiros. Mulheres plastificadas de caras iguais. Daquelas que falam muito alto. Lula teve essa responsabilidade, democratizou o acesso das viagens para o exterior. Estas brasileiras não são daquelas que habitam muitos dos prédios em Portugal. Não são daquelas que descem à rua a mostrar mais do que devem, mesmo quando os seus corpos não sejam (para ninguém) um objecto de desejo, mas que ganham dinheiro para mandar para a terra natal com os anúncios que colocam no jornal a publicitar os seus serviços (cada vez a preços mais baixos. Dizem que é a crise, senhores). Não, não são dessas. Mas são aquelas que entram numa livraria e dirigem-se (apenas) para a secção infantil para comprar os presentes de Natal. São daquelas que apregoam aos sete ventos, no Brasil, perante as suas faxineiras e diaristas que são descendentes directas de alemães, espanhóis ou italianos. [Portugueses não. O português é europeu mas é brega. O português é (apenas) o dono de padaria, supermercado ou restaurante. E isso, não é suficientemente bom para elas]. Estas são aquelas que dizem que são caucasianas puras e não morenas, pardas, pretas, mestiças. Apregoam isso, como se fosse uma virtude. E são aquelas que vêm a Portugal e continuam com o síndrome do colonizado. A culpar Portugal pelo mal do Brasil, que foi descoberto em 1500 e é independente desde 1882 mas não sabem que José Bonifácio foi quem descobriu o lítio. Eu gosto é de grandes mulheres brasileiras que assumem o que são. Que não têm vergonha do que são. Que não precisam da sua ascendência nem da sua genética para provarem o que valem.
O cenário muda quando chego à tenda do Folio Lounge. Tudo atrasado, felizmente. Agradeço ao universo pelos americanos que tentaram entrar no meu quarto porque confundiram o número. E mesmo com o aviso de "Não incomodar" insistiram em tentar abrir. O barulho foi tanto que acordei de uma sesta que devia ser de minutos e foi de mais de uma hora. Acordei na hora do evento.
Passam por mim Pedro Sá, o grande amigo de Moreno Veloso. O estupendo músico, guitarrista da banda Cê que acompanhou Caetano Veloso. Deixou crescer o cabelo. Vejo o Pedro Luís, grande músico, também. Passa por mim, também, a (aparentemente) tímida Alice Santa'anna, uma enorme poeta que para pena nossa ainda não está publicada cá. Vejo também a omnipresente Anabela Mota Ribeiro que se desculpa pelo atraso. Este será o evento da Casa Cais idealizado pela Luana Carvalho (que eu não conhecia, como é possível?). É esta a composição: Luana Carvalho, Alice Sant'anna, Pedro Sá e Rafa. Um palco sóbrio com uma laranjeira que até se verão folhas a cair. A vida em movimento. Pedro Luís subirá ao palco para os acompanhar numa música. Anabela Mota Ribeiro abre com a leitura de um excerto do grande livro do não menos grande Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas" personagem que fez Direito na Universidade de Coimbra e viajou de Lisboa, onde chegou de barco e depois seguiu para a cidade dos estudantes. Eu não tenho palavras para descrever o que este evento foi. Tanta música desnecessária no mundo e eu não conhecia a Luana Carvalho? Que descobri hoje ser filha da Beth Carvalho. A Alice Sant'anna é a delicadeza em pessoa. Lê bem, apresenta-se bem e (ainda) canta bem. Leu partes de um dos seus livros e as palavras que mais retive foram: baleia e Japão. Que lindo que foi. Que maravilha. A vida feita de pequenos nadas. É aquela laranjeira, carregada de laranjas, cujas folhas caiam... A iluminação perfeita. Uma obra de arte. Inesquecível. E estes são também brasileiros. A antítese perfeita. Como não amar?
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
Quando os sobrinhos acham que têm a cadela mais bonita do mundo
Chego ao carro. Entro para o banco de trás, onde seguem os meus sobrinhos, e eu espremida entre ele no lugar do meio. Beijinho num e beijinho no outro, reparo que o mais velho está triste. Pergunto-lhe o que se passa.Responde-me, todo fungoso, que a Bu não ganhou o prémio (fiquei sem entender se era prémio de habilidades ou beleza...). Durante a tarde tinham ido a uma "Cãominhada", uma caminhada solidária com cães que visava recolher ração para uma associação. Uma das actividades seria um concurso, que não cheguei a perceber o tipo. Choroso, o mais velho, continuou a explicar detalhadamente que a Bu não fez nada do que ele lhe pediu (mas que faz sempre). Não deu a patinha, não lambeu, não deitou, não sentou e não deu a barriguinha. Nada. Niente. Zero. E eu tentei explicar-lhe que a Bu não é uma cadela de circo. Que a função dela não é exibir os seus dotes artísticos mas ser feliz. Na linguagem mais simples tentei dizer-lhe que os cães, tal como nós, têm vontades e que, muitas vezes, só fazem o que lhes apetece. Provavelmente, viu muita gente e ficou inibida. Petrificou. E por mais que o dono pequeno (que ela adora) lhe pedisse e lhe implorasse, ela não se mexeu. Disse-me também que não ganhou o prémio de mais bonita. Perguntava-me ele como é que isso era possível? O que para ele não existe qualquer dúvida, mas apenas, uma certeza. O amor dos pequenos por ela é tão grande que lhes tolhe o juízo!
Pois bem, vou fazer a analogia com a história da coruja que ouço desde criança contada pela minha mãe. Era uma vez uma mãe coruja que precisava de ir arranjar comida para os filhos e pediu/avisou os predadores que não os comessem. Nas palavras da mãe-coruja "eram muito bonitos" quando questionada sobre a aparência deles. Quando os predadores chegaram, viram criaturas tão feias que não hesitaram em come-las de tão feios que eram. Moral da história: "Quem feio ama,bonito lhe parece".
terça-feira, 27 de setembro de 2016
Caetano Veloso e António Cicero à conversa com Inês Pedrosa no FIC
Cascais, nove de
Setembro de dois mil e dezasseis
À horinha, ao contrário
de muitos acontecimentos em Portugal, os convidados estão todos na sala que
está cheia. As três primeiras filas estão reservadas a convidados: políticos,
escritores, editores, produtores, amigos, intelectuais: Ministro da Cultura, Presidente
da Câmara de Cascais, Paula Lavigne, Lucinha Araújo (mãe de Cazuza), Teresa
Cristina, Inês Mota, Jorge Reis Sá, Marcelo Pies, Pedro Corrêa do Lago, Pilar
Homem de Mel, David Ferreira (filho de David Mourão-Ferreira), Leonor Xavier,
Maria João Lopo de Carvalho (e até Lili Caneças que não se senta nos lugares da
frente). Estes e o resto do público são tudo gente que lê livros. Há quem fique
em pé.
Inês Pedrosa conhece
bem estes dois pensadores do Brasil. Para além de excelente moderadora, é uma
contadora de boas histórias e percebe-se a intimidade que tem com eles. Nota-se
o quão bem se preparou para esta conversa e confessa ter lido novamente
“Verdade Tropical” para esta ocasião. António Cícero é um filósofo de
profissão, poeta e escritor de letras de música (para os conservadores que
consideram letra de música menor do que poema). Caetano Veloso procurou ser
filósofo, estudou Filosofia mas abandonou a carreira cedo. Quis ser pintor e
cineasta. Fez um filme, dizem que muito
interessante, chamado “Cinema falado. É cantor, compositor, escritor (“Verdade
Tropical” e muitas cronicas escritas ao longo dos anos), pai e avô. Caetano e
Cícero têm uma amizade longuíssima, já descrita na sua autobiografia e uma
relação pessoal e intelectual muito forte.
Estiveram juntos em 2009, na Casa fernando Pessoa, para falarem na
influência da “Mensagem”. Inês Pedrosa contou que Fernando Pessoa se candidatou
a um lugar de bibliotecário na Câmara de Cascais, na Biblioteca Castro
Guimarães e foi rejeitado. Ficou em segundo lugar porque em primeiro ficou um
senhor de Cascais. Esta história arrancou gargalhadas do público presente.
Inês Pedrosa falou
também no acaso ou coincidência de há precisamente 10 anos atrás, neste dia, o
Prémio Camões ter sido entregue na Fundação Biblioteca Nacional pelo então
Ministro da Cultura brasileiro, Gilberto Gil à escritora portuguesa Agustina
Bessa Luís.
Inês Pedrosa faz uma
provocação: “Para que é que Caetano fala tanto se ele o que sabe é cantar?.
Fala de “Verdade Tropical” essa autobiografia de Caetano Veloso que é muito
mais do que uma biografia mas uma reflexão sobre o Brasil, relação da música
com as outras artes, e o estado da política brasileira na época. É também uma
reflexão profunda sobre o que é o Brasil, os caminhos que o Brasil seguiu. Um
livro fascinante com o qual se aprende muito. Nas últimas férias li-o pela
quarta vez. É um livro a que sempre volto. É um livro obrigatório para quem
quer conhecer a história da música brasileira. Para além disso, faz observações
muito pertinestes e elogiosas sobre António Cícero, que Caetano considera um
dos maiores filósofos brasileiros. Falou-se também sobre Mário de Andrade e
Oswald de Andrade.
Quem também não foi
esquecido foi Agostinho da Silva. Caetano contou que o Professor foi para a Universidade
da Bahia para criar o instituto de estudos afro-orientais. E que o Reitor criou
a cadeira de Filosofia do teatro para que o Professor para leccionar na Escola
de Teatro. Caetano referiu, também, que o Professor tinha uma amor profundo por
Portugal e pelos portugueses (“o povo que criou o globo terrestre”). E que o
Brasil é uma espécie de aberração. Um país de dimensões continentais, na
América, no hemisfério sul. E que Portugal é um país pequenino territorialmente
e que aprendeu a tornar-se pequenino politicamente ao longo dos séculos. E
Caetano afirmou que o Professor Agostinho ambicionado ambicionava resolver essa
charada. Descreveu também o encontro com o Professor Agostinho em Lisboa. Caetano
estava exilado em Londres e veio fazer uma apresentação a Lisboa: “Roberto
Pinho que era meu amigo e tinha sido discípulo directo do Professor Agostinho
falava-me muito dele”. Marcaram no hall do hotel e conversaram, não por muito
tempo. “Eu fiquei um pouco intimidado. Não tinha muito o que dizer. Ouvi algumas
coisas, falei muito poucas coisas e me senti meio vago. Ele se despediu,
alegre, e se foi. E depois escreveu para Roberto Pinho, e digo isso sem falsa
modéstia porque aconteceu assim, mais para que se saiba sobre o Professor
Agostinho do que sobre mim. E escreveu simplesmente: Gostei do seu amigo. Pensa bem, fala bem. Age bem. Eu não tinha
feito nada. Esta é toda a minha história sobre o Sebastianismo”.
Falou-se também de
Eduardo Lourenço (“Do Brasil: fascínio e miragem) e Leonor Xavier (“Portugueses
do Brasil e brasileiros de Portugal). Outra das histórias contadas `foi sobre
quando os escritores portugueses são convidados para palestras em universidades
americanas e estão 200 alunos americanos na plateia: “Quando estamos com o ego
a começar a subir perguntamos qual a razão de quererem aprender língua e
literatura” e respondem-nos: “Queremos ir ao Brasil porque gostamos de música
brasileira.
José Bonifácio foi o
nome que Caetano quis falar desde o início. Português, estudou na Universidade
Coimbra Direito e Filosofia. Viveu em Portugal e teve uma vida intelectual de
alto nível na Europa do séc. XIX. Ficou conhecido como mineralogista e
descobriu o elemento químico lítio. É conhecido como “Patriarca da
Independência” pois foi um importante ministro com muitos poderes de D. Pedro
I, Imperador do Brasil (D. Pedro IV, em Portugal). Fez um plano para o
Brasil que concebeu à luz dos seus conhecimentos mineralogistas, “amálgama”. A
proposta dele era a seguinte: (i) abolir a escravatura (acabar com o horror da
escravidão) e (ii) passar a considerar aqueles que haviam sido brutalizados
pela escravidão, os negros, como irmãos e co-cidadãos e o mesmo com os índios.
Seria o maior etnocídio se o plano de José Bonifácio tivesse sido colocado em
prática. Era seu objectivo criar uma nação nova: amálgama racial e cultural. E
criação de uma nova raça: mestiços. Um verdadeiro visionário no séc XIX com a
ideia de multiculturalismo.
Inês Pedrosa falou de
uma das suas noites mais comoventes da sua vida, no Porto, onde foi assistir a
um espectáculo do Caetano. Nessa noite um dos filhos de Caetano foi
encontrar-se com ele e Caetano, no fim do espectáculo, quis mostrar a cidade
do Porto ao filho. Contou que andaram de carro pelas ruas e pontes do Porto e
que Caetano começou a explicar o liberalismo, os ingleses, o vinho e que parecia
saber mais e melhor tudo do que ela. Estava a explicar como se a cidade fosse
dele e que lhe pertencesse. E quando Caetano foi convidado a comentar disse
simplesmente: “Era o Zeca, o meu segundo filho, primeiro filho dela (apontando
para Paula Lavigne na plateia). Quis mostrar-lhe o Porto. O que eu sabia eu
queria dizer a ele. Ele é o Zeca...”.
No final, ainda deu
tempo para falar da situação política do Brasil. António Cícero falou do poder
judiciário do Brasil. Da impossibilidade que existia há uns anos de alguém
poderoso ser preso e que as coisas estão a mudar. Que isso é um enorme
progresso. Pessoas importantes que são julgadas e presas. Caetano, desta vez,
não pronunciou nenhum “FORA TEMER”. Mas referiu que se lhe tivessem dito há uns
anos atrás que o Fernando Henrique Cardoso ia ser o primeiro Presidente
democrático do Brasil e que a seguir ia ser Lula: “Eu iria dizer que era um
sonho”. E foi possível”.
Ainda houve tempo para
a piada sobre o que é que a água de Santo Amaro tinha por ser onde Caetano e
Bethânia nasceram. Caetano, respondeu, rindo que “Santo Amaro tem uma das água
mais poluídas por chumbo do mundo”.
Inês Pedrosa queria que
Caetano lesse qualquer coisa mas ele disse “Eu não sei ler”. E Cícero terminou
com o seu “Guardar”.
terça-feira, 20 de setembro de 2016
Déjà Lu
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sexta-feira, 16 de setembro de 2016
Todas as declarações de amor são ridículas
Íris, cor de mel,
mostravam muito bem o que ela sabia fazer, fotografar. A verdadeira definição
de amador, aquele que ama o que faz. A câmara parece gigante quando comparada
com o seu corpo franzino e de baixa estatura. O desequilíbrio de tamanhos. Mas
a postura de um gigante. Olhar os outros através da lente. Captar o que os
olhos comuns não vêem. Gosta de conhecer gente interessante. E foi por causa de
uma pessoa, mais do que interessante, que se conheceram. Foi paixão à primeira
vista. Começou por ser um amor vivido em silêncio. A forma como amava não era
explicável por palavras. Talvez para além delas. A razão de muitas insónias. “Eu sou o sol da
sua noite em claro”. E a razão de contar estrelas enquanto o dia nascia. Mas
tinha todo o tempo do mundo. Esperaria o tempo que fosse preciso. Sem pressas. Muitos
sinais. Muito óbvios. Esperava que parasse de fingir que não reparava. Como a canção: “Meu bem, qualquer instante
que eu fico sem te ver aumenta a saudade que eu sinto
de você”.
Passaram algum tempo
a trocar mensagens. Estava numa fase complicada. Frases curtas e sucintas, como
a vida. Respostas por dar, perguntas sem resposta, quase nenhuns pormenores
dela. Como um saca-rolhas a quem é difícil resgatar qualquer informação que não
queria dar. Tudo muito devagar. Tudo com muita calma. O martírio da sedução. A
barreira intransponível dos muros. A carapaça dos bivalves e tartarugas com que
se protege. Difícil. Resolvia tudo com “não quero falar sobre isso”. Tudo eram
longas histórias. Incontáveis. Difíceis de contar. Com algumas insinuações e
sinais contava (tudo) o que viveu. Mas conversar não era o seu forte. Tinha um dedo podre para amizades.
Fazia-lhe falta alguém que a abraçasse sem pedir nada em troca. Estava farta de
parasitismo e que lhe sugassem as energias. Acabava sempre enganada, como
(quase) todas as mulheres, em alguma altura. Não tinha objectivos, alvos ou
metas. Respondia ao momento segundo o que lhe davam. Viver ao sabor do vento,
esse era o seu mote. Contou-me que tem muita mágoa no coração e que tem dado
muito amor. Que teve muito prazer mas também muita dor. E que os momentos de
felicidade se transformaram em sofrimento.
Como se explica? Não
foi um arranjo de família. Não foi interesse. Por isso, a resposta mais
sensata: foi o amor. Com muita perseverança e muita luta, sem perder a
esperança, mesmo quando esta parecia não ser nenhuma. Uma mulher de muita
coragem. A coragem nunca desvaneceu. Espera que a ouçam chorar. Olhar-lhe nos
olhos e sentir reciprocidade é tudo o que mais quer.
Acredita que não corre perigo e que tudo vai mudar. Porque não há mal que
dure sempre nem bem que nunca acabe. “Vem vambora/ Que o que você demora/ É o que o tempo leva”.
E foi assim que eu vi que a vida
Colocou ela pra mim
Ali naquela terça-feira
De setembro
Por isso eu sei de cada luz de cada cor de cor
Pode me perguntar de cada coisa
Que eu me lembro
Colocou ela pra mim
Ali naquela terça-feira
De setembro
Por isso eu sei de cada luz de cada cor de cor
Pode me perguntar de cada coisa
Que eu me lembro
(...)
Ela me achou muito engraçada
Ela falou, falou e eu fingi que ri
A blusa dela tava do lado errado/ toda amassada
Ela adorou o jeito que eu me vesti
Ela falou, falou e eu fingi que ri
A blusa dela tava do lado errado/ toda amassada
Ela adorou o jeito que eu me vesti
quinta-feira, 15 de setembro de 2016
Retalhos da vida de uma tia babada
Fim de dia. Cansaço. Leve dor de cabeça. Paciência quase
nenhuma. Sono, muito. Há muitos dias que durmo mal. Tenho sono quando não devo.
E quando devia dormir, leio. Só imagino uma cama, ao longe. Dia de jantar com
os sobrinhos. Toco a campainha e ouço a voz que quero ouvir: “Quem é?- a
pergunta de sempre. Com a resposta previsível e sem engano: “Sou eu”. Quando
querem brincar ainda acrescentam: “ Eu, quem?”. Subo de elevador e antes da
porta se abrir já ouço o ladrar da Bu. Quem me abre a porta é o meu afilhado. E
dá-me um abraço com toda a força que tem. Segue-se o abraço e os beijos do
sobrinho mais velho. Este, como sempre, nas suas actividades criativas que
envolvem pintura, desenhos e criações. Agora, sobretudo, bandeiras de Portugal,
dinossauros, baleias e tubarões. O afilhado está fechado num quarto cuja porta
está forrada de recados, desde horários de atendimento, conselhos e profissões.
Hoje a ordem é para que ninguém entre. O sinal proibido. Depois seguem-se as
instruções. Ao mesmo tempo que as leio a minha mãe diz-me ao longe que só se
pode entrar com autorização dele seguindo as instruções. São elas: bater 3
vezes e tocar o sino. Estou demasiado cansada para desempenhar um papel. Mas o
que eu não faço por eles?. Procuro o sino. Está ao lado da porta [é um sino
pequenino, comprado pelos meus pais em Washington no tempo em que os pequenos
tinham paranóia por sinos. Quando me lembro não consigo não rir. O mais pequeno
ainda não falava nem andava e por influência do mais velho dizia: “Tão, Tão,
Tão, Ti, Tão”. Existem vídeos de morrer a rir]. Faço o que os meus olhos lêem.
Bato à porta, toco o sino e espero. O mais velho vem a correr e diz que aquele
é o sino dele. E eu, já preocupada com o tempo que a demonstração teatral vai
demorar, peço-lhe que me empreste o sino, que é só para entrar. Depois de
alguma negociação, consigo que seja ele próprio a tocar o sino (enquanto o
leva) mas a tempo do mais novo ouvir. O afilhado abre a porta e pergunta “O que
deseja?” e eu “Entregar-lhe o presente que trouxe de Lisboa, espero que goste”.
Saio e fecho a porta. Vou à sala e entrego ao mais velho o que ele me tinha
pedido: uma miniatura da Torre de Belém. Abriu e felizmente disse: “Titi, era
mesmo isto que eu que queria, acertaste”, entre beijos e abraços. Ao longe ouço
o afilhado dizer à avó que não gostou nada do que eu lhe dei. Vou em direcção à
conversa e diz-me: “Não gostei nada! Não era nada disto que eu queria (uma
caneca de Lisboa com eléctricos, Torre de Belém, guitarras,...). Ao que
respondo: “Desculpa afilhado mas é o que acontece quando não se diz o que se
quer. E vais dar-lhe uso para beberes o leite.” Não convencido com a explicação
argumenta: “O que eu queria mesmo era o equipamento do Benfica!”. Todos os que
nos rodeiam sabem que isso será o presente do Natal... Este episódio faz-me
lembrar outro, protagonizado pelo pai deles que quando era pequeno respondeu à
madrinha dele: “Não gostei nada! Livros não são prendas!”. Quem sai aos seus não degenera (é de Genebra)...
terça-feira, 13 de setembro de 2016
As verdadeiras vítimas de violência doméstica que me perdoem
Tenho 37 anos, e felizmente, na minha vida entre este país à
beira mar plantado e o outro do lado oposto do Atlântico não conheci nas minhas
relações violência doméstica. Sou filha de pais casados há quase 41 anos (fazem
em Dezembro). O meu pai continua a oferecer flores semanalmente à minha mãe e
nunca lhes assisti a uma discussão. Claro que as deviam ter, como todos os
casais, mas nunca à nossa frente, nem nunca envolveram vozes altas nem gritos.
Nos últimos tempos, e bem, as denúncias de violência
doméstica têm disparado. Obviamente, que nem homens nem mulheres se tornaram
mais violentos. A coragem, a divulgação e as consequência é que aumentaram. Seja
por que motivo for, a violência, verbal e/ou física, são condenáveis. Quando se
chega a este ponto, o sentimento que é o pilar das relações humanas, o
respeito, terminou e não há volta a dar. Há limites que nunca se podem
ultrapassar.
A minha experiência é outra. A violência por parte das
mulheres. Conheço três casos concretos. O primeiro soube-o há alguns anos,
ainda era aluna de doutoramento em Houston. Quando me contaram e me mostraram
as marcas fiquei tão petrificada que só acreditei na evidência, vendo. Porque
os olhos não mentem. Perante aquele absurdo só disse que era inadmissível e
como era possível se sujeitar aqueles maus tratos. Na minha inocência de quem
nunca vivenciou uma cena de violência perguntei porque não se defendia. Foi-me
respondido: “Se reagir posso matá-la”. Aconselhei a pessoa em causa a não dar mais
nenhuma oportunidade e revoltei-me, obviamente, com a agressora com quem não
falo até hoje. Independentemente dos motivos, ninguém tem o direito de levantar
a mão a ninguém. Nada se resolve assim. E nada disto se justifica.
Mais tarde, outro amigo disse-me que um homem com filhos
quando terminava uma relação tinha uma coisa a fazer quando quisesse sair de
casa e não ser privado dos filhos: fazer queixa à polícia de violência
doméstica. Não entendi. Mas percebi com a experiência que era a única forma da
justiça não optar pelo lado errado.
Façam um estudo e mostrem as estatísticas. A maioria das
mulheres perante a iminência da separação, que aceitam ou não, usam os filhos
como arma de arremesso. Primeiro, quando os filhos são pequenos, dominadas pelo
instinto de vingança e aconselhadas perversamente por maus advogados,
acusam-nos de violência doméstica contra si e os seus filhos e em simultâneo,
para acabar de vez com a dignidade de uma pessoa de bem e reduzi-lo aquilo que
ninguém aceita, a machadada final é dada com a acusação de abuso sexual dos
filhos. Investiguem as falsas denúncias. Ouçam e leiam grandes peritos neste
tema como o Prof. Daniel Sampaio e Dra Maria Saldanha Pinto Ribeiro. Imaginem,
por um instante, ser acusado de uma coisa tão idionda que não se cometeu.
Imaginem o que essa mentira provocará na vossa vida. E os efeitos dela. O pai
que me contou ser vítima desta situação era um homem destruído, cansado,
choroso, privado da sua filha de dois anos e quem eu dizia que a primeira coisa
a fazer era apoiar-se na família, fortalecer-se psicologicamente e acreditar
que a justiça dos homens funcionasse. Isto foi há 3 anos. Pelo menos já
conseguiu provar que a mãe da filha mentia. Está outro homem. Melhor. Mas os
estragos provocados ficarão lá para sempre.
O último e não menos importante caso tem 4 anos. O casamento
nunca correu bem. Ele era pai, mãe, sustento da casa, quem tratava dos filhos,
quem cozinhava, quem acordava de noite. Para além dos 2 filhos tinha a mulher
que parecia ser mais um. Toda a gente conhecia a situação. Era visível demais.
Ele era o pilar. E ia aguentando como podia para bem dos filhos. Os problemas
começaram quando começou por não deixar os filhos ao fim de semana na casa dos
pais. Continuaram porque ela deixou de trabalhar e pioraram com um facto grave
que foi o fim. Os pais dela que sabiam de toda a situação gostavam dele e
apoiavam-no. Quando se separaram fizeram um acordo escrito, acordado e tratado
pelos respectivos advogados, e assinado pelas partes que incluía a permanência
dos filhos em determinado colégio. Antes de dar entrada no registo, a mãe
rasgou o acordo e andou com os filhos em parte incerta e o pai não os viu
durante dois meses. Espalhou um sem número de mentiras. Dizia-se vítima de
espancamentos sucessivos, vítima de violência e até de atropelamentos.O mesmo
aplicado aos filhos. Factos zero. Provas zero. Relatos dos vizinhos zero.
Chamada para a perícia médico-legal não compareceu. Na primeira avaliação
psicológica a única coisa que demonstra é querer, sem razão, é não permitir a
convivência dos filhos com o pai. Os pais dela desmentem a versão. Não vou
entrar em pormenores sórdidos que incluem medicações perigosas para os filhos,
mudanças várias de escolas e de casas, retirada dos filhos à mãe... O que
mudou: quase nada. Apenas os pais dela, que inexplicavelmente, em vez de
defenderem os netos preferem defender as loucuras da filha. Apesar de este pai
ser um bom pai, de ter emprego fixo e estável, avaliação psicológica e social
mais do que positiva, nenhum juíz (e já lá vão 3) lhe atribuiu a guarda
(ainda). Tem tido azar em tudo. Juízes demasiado jovens, sem coragem, médicos
incompetentes, psicólogos maus,técnicos pouco aplicados. Vítima de funcionários
do Estado que se demitem do seu papel e que não acham este caso (demasiado)
grave nem urgente. Este é o perigo dos casos que os outros não consideram
graves. Há outros com maior prioridade e (realmente) graves. Gente que faz
pouco ou nenhum trabalho de casa e que mal sabe investigar. E gente que dorme
bem à noite, sem qualquer remorso. Até lá, espera-se com uma paciência estoica
e com um fé que se pede que não desvaneça. Este pai sente-se inútil e impotente
por não poder fazer mais do que lutar pelo melhor para os seus filhos e esperar
que a justiça dos homens seja feita. Responsabiliza os juízes que optam sempre
pela solução mais fácil que é não decidir. Que é passar a responsabilidade para
o outro. Isto é o que mais se tem visto. Gente de verdade com muita coragem.
Justiceiros. Juízes como Joaquim Silva a quem chamam “defensor dos filhos com
pais em guerra”.
E por último, coloquemos na ordem do dia, tal como a
violência doméstica, o síndrome de alienação parental. Pessoas que acham que os filhos são
propriedade sua, pais que querem que os filhos escolham e/ou gostem de apenas
um dos progenitores e da sua família. Isto é uma calamidade social. E é preciso
vive-la de perto. Passar por ela para que saibamos a sua dimensão.
E como me disse uma grande amiga é “ser confiante que as
coisas só podem melhorar”. É essa a fé no futuro. E confiar que as pessoas más
não triunfarão e que a maldade tem que ser punida.
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
Caetano apresenta Cristina
6 de
Setembro. São quase 9 da noite. A temperatura na rua ultrapassa os 30 graus.
Dizem ser o dia mais quente do ano. O Coliseu está praticamente vazio. O calor
é mais que muito. E eu adoro calor.
Só se fosse para ter o efeito da música: “Calor que provoca arrepio/ Toma
esta canção/ Como um beijo”. O Coliseu
demora a encher. Perto da hora do concerto começar, a lotação não estava a
metade. A conhecida pontualidade dos portugueses. A temperatura subia
exponencialmente, quase infernal. Pensei ser para o ar condicionado não afectar
as vozes. Antes de começar o concerto eu já tinha bebido duas garrafas de água
com gelo, compradas no bar. Cheguei, também, a pensar que esse seria o objectivo.
O lucro extra com a venda de bebidas. O concerto começou 30 minutos
depois da hora marcada. Este que foi o concerto extra. Sendo a primeiro dos
dois. Quase esgotado.
As cortinas abriram e Caetano surge sozinho: "Este espectáculo se resume a uma cantora, um violonista é um compositor. Mas diz tudo sobre a extensão e a profundidade do samba. E por isso eu quero chamar ao palco Carlinhos 7 cordas e Teresa Cristina". Teresa Cristina é uma cantora praticamente desconhecida aqui e eu só a conheço por cantar uma música da Adriana Calcanhotto Beijo sem Aquele samba que fala de uma saída à noite para afogar as mágoas da "dor de corno": "vou á Lapa, decotada, viro todas, beijo bem...". Desta vez, Teresa Cristina vem cantar Cartola. Não posso dizer que adorei. Mas a simpatia, sinceridade, emoção e generosidade dela foram marcantes. Falou do sonho que tinha desde a infância de cantar em Portugal e que por isso era "um sonho com laço rosa". Disse também que o Coliseu foi o sítio mais lindo onde cantou. E os elogios não ficaram por aqui. "Tudo aqui é lindo, a rua, a padaria, a farmácia". E a emoção que é cantar falar numa língua que os outros entendem. Um discurso emocionante e emocionado que incluiu lágrimas. E ela própria sofreu com o calor quando aceitou a oferta e de um leque de uma senhora da primeira fila.
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| Copyright: Catarina Henriques |
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| Copyright: Catarina Henriques |
Caetano entra e o figurino resume-se a um banco e um violão. Ele, que vem
formal, de "paletó" castanho alaranjado, camisa, umas calças chinos e
sapatos pretos de atacadores. O concerto dele começou com Um índio, uma
canção arrebatadora para lá de linda:
"Um
índio preservado em pleno corpo físico
Em todo
sólido, todo gás, todo líquido
Em átomos,
palavras, alma, cor
Em gesto, em
cheiro, em sombra, em luz, em som magnífico
(...)
É aquilo que
nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá
a todos não por ser exótico
Mas pelo
facto de ter estado sempre oculto
Quando terá
sido o óbvio
Seguiram-se Os passistas, Menino do Rio, Minha voz minha vida, Meu
Bem, Meu Mal, Esse Cara, por
desordem alfabética e de alinhamento, ao sabor minha memória. Caetano, um
baiano do Recôncavo, mostra que continua a ser um menino do Rio e que no alto
dos seus 74 anos, como o vinho do Porto, melhora com o passar dos anos, como a
canção: “Eu vi
muitos cabelos brancos na fronte do artista/ O tempo não para e no
entanto ele nunca envelhece”. Como o
Coliseu está mais do que quente, "mais quente do que no Rio", Caetano
não resistirá a tirar o paletó "bonito” (not!). Nesta noite não
haverá gritos de "Fora Temer" mas muitas vaias. Introduzirá um samba com:
"Recentemente o presidente que era interino até poucos dias atrás no
Brasil fez um discurso utilizando mesóclise e a imprensa sacaneou muito porque
achou que era uma coisa, sei lá, formal. A
mesóclise é uma forma considerada estranha para o coloquial brasileiro mas é
bonita. E nesse samba eu faço duas
mesóclises: Se desbotássemos, outros revelar-nos-íamos no Carnaval// (...)
Amor,/ onde quer que estejamos juntos/ multiplicar-se-ão assuntos de mãos e pés/
e desvãos do ser.”
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| Copyright: Pedro Gomes |
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| Copyright: Catarina Henriques |
Mostrou também que é um poliglota genial e que domina (exemplarmente) no mínimo
3 línguas: Cucurucucu Paloma (do
aclamado filme de Almodovar Hable com
ella), London London (uma irmã de Englishman in New York, a mostrar o quão
difícil é ser estrangeiro numa grande metrópole: “I know no one here to say
hello/ I know they keep the way clear/ Iam lonely in London without fear/ I’m wandering
round and round here nowhere to go), Love
for sale (cantada a
capella) e por fim Libertação. Esta
última, um fado cantado por Amália sobre um poema de David Mourão-Ferreira e
que Caetano disse nunca se sentir preparado para cantá-la em palco. Não foi o
que pareceu. O sotaque português beirou a perfeição.
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| Copyright: Catarina Henriques |
Depois não
podiam faltar as aclamadas Reconvexo,
Leãozinho, Força estranha, Sozinho,
talvez as mais aplaudidas e acompanhadas da noite e terminou Luz de Tieta.
Voltou para
um primeiro encore, acompanhado: a
fabulosa Tigresa (inspirada na
Zezé Motta que frequentava a lendária boite Dancing Days que era uma amálgama
social: “Me
falou que o mal é bom e o bem cruel... Ela me conta, sem
certeza, tudo o que viveu/ Que gostava de política em 1966/ E hoje dança no
Frenetic Dancing Days /.../ Com
alguns homens foi feliz, com outros foi mulher/ Que tem muito ódio no coração,
que tem dado muito amor/ E espalhado muito prazer e muita dor...) Miragem de
Carnaval, Como 2 e 2 (que é tão
linda e que diz: "Meu amor,
Tudo em volta está deserto tudo certo, Tudo certo como dois e dois são cinco"), Desde que o samba é samba. E voltou para terminar, de vez, com Odara. já com toda a gente fora dos seus
lugares, junto ao palco e de telemóveis em punho. Momentos inesquecíveis,
memoráveis, fantásticos. Bom demais!
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| Copyright: Nuno Ferreira Santos |
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| Copyright: Nuno Ferreira Santos |
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| Copyright: Catarina Henriques |
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