quinta-feira, 14 de julho de 2016

Cumpriu-se Portugal

O Infante

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Este foi o poema de Fernando Pessoa do livro “Mensagem” que saiu no meu exame de Português no 12º ano. Começámos pequenos, com a conquista do que é agora Portugal aos Mouros. Fomos grandes na época dos Descobrimentos, que apesar de todo o mal causado aos povos nativos, teve o mérito de espalhar a língua portuguesa pelo Mundo. Tivemos as invasões Napoleónicas. Sobrevivemos e resistimos. Um grande português deu a independência ao Brasil (Grito de Ipiranga). Demos a independência a Goa, Damão e Diu, Timor e a todas as colónias de África. E finalmente Macau. Voltamos ao pequenino que sempre fomos. Não sendo, como se dizia no tempo do Estado Novo que Portugal era “do Minho a Timor”, mas do Minho ao Algarve (Portugal Continental) e ilhas (Açores e Madeira).

Os franceses demonstraram mau perder. Acreditavam que já estava ganho. O autocarro já estava pronto. A Torre Eiffel que sempre se iluminou com as cores da bandeira nacional que ganhara, apagou-se. Ganhar é bom mas saber perder é uma virtude. Um país a achar que era superior...

Pelo Ronaldo que saiu pequenino da Madeira que teve uma infância mais do que humilde e que, como a mãe, sonhou o sonho de ser feliz. Ele é o exemplo para muitos meninos espalhados pelo mundo. E a mim, particularmente, faz-me acreditar que tudo é possível e que nada está predestinado à nascença. Um menino que disse em tempos à sua mãe:  “A mãe que não chore. Quando for grande, vou ganhar bastante dinheiro. Vou comprar uma casa e tirar a mãe do trabalho”. Dizem que todo ele é força de vontade e muito trabalho. E um homem bom.

Pelos portugueses espalhados pelo mundo que já ouviram uma piada/crítica/comentário xenófobo, pelos emigrantes que algum dia foram humilhados, pelos portugueses que fazem sucesso, pelos muitos que brilham, pelos muitos estudantes, pelos que trabalha arduamente e honestamente. Isto também é a vitória deles.

Como diz Fernando Pessoa “a minha pátria é a minha língua”, talvez seja isso que une os portugueses espalhados pelo mundo. Dizem que somos 11 milhões, mas somos mais. Mundial ou um Europeu como o deste ano, só vivi o de 2004 ou quando estava nos EUA. Nessa altura que me senti uma emigrante. Privilegiada mas emigrante. Estar longe da pátria. E quando se está longe é quando mais se sofre e quando mais se ama. Saudade, essa palavra tão portuguesa que não tem tradução.

Como escreveu uma grande amiga “Porque já estive lá fora e sei a falta que o nosso país nos faz e a alegria que é quando aterramos em casa. Pode ser futebol e 11 malucos com a bola nos pés, mas hoje é uma alegria que dão aos 11 milhões. Aproveitemos. E acreditemos que conseguimos. No futebol e na vida”. É (só) isto! Ontem e hoje. “Sonhar é grátis”, como disse o Ronaldo. Só vacilei quando ele saiu lesionado. Aí achei que estava tudo perdido. Mas os 11 em campo, apoiados pelos milhares no estádio e milhões em Portugal e espalhados pelo mundo, continuaram a acreditar. Se não tivéssemos ganho não seria o mesmo. Mas o sentimento de gratidão seria igual. É (só) futebol. Mas sonhar e acreditar que é possível é a melhor metáfora da vida.

Ganhámos contra tudo e contra todos. Dizem que jogámos mal, que não merecíamos. Pelos que nos chamaram nojentos, que nunca acreditaram que seria possível, que nos criticaram, que falaram mal, que nos consideraram menores, que só sabíamos construir casas e ser porteiras, que nos humilharam. “Não importa se jogamos bem ou mal, o que importa é levar a taça para o nosso Portugal”.  

Que esta vitória sirva para termos orgulho e acreditarmos sempre. Nada é impossível. E como dizia alguém: “O céu é o limite”.

E domingo, merecidamente, com justiça e pelos portugueses espalhados pelo mundo, ganhamos! Demonstramos união e espírito de missão, e isso é quase tudo! E no dia seguinte fui de directa trabalhar, depois de muito festejar e de o barulho na minha rua não ter terminado até de manhã. No dia 10 de Julho cumpriu-se Portugal! Obrigada!














quinta-feira, 7 de julho de 2016

Sonhar é grátis

Quando tudo corre bem, todos falam bem. Mas a verdade é que esta selecção ouviu de tudo desde o início do EURO 2016: a equipa não era forte, não tinha suficientes valores individuais, CR7 não estava ao melhor nível, não jogava um futebol bonito, teve sorte,quem mandava na selecção era o Jorge Mendes e a Nike, o Messi é que é, Fernando Santos não é um bom treinador... Talvez por excesso de críticas, desde o início, acreditei nesta selecção. Não sei exactamente o motivo. Não jogávamos bonito mas éramos eficientes. No final era sempre a sensação de dever cumprido. Temos um seleccionador que antes de ser um grande treinador é um senhor e um grande ser humano. Um homem cheio de valores e que acredita e mima a sua equipa. Os jogadores parecem estar mais unidos que nunca e parece que querem tanto ganhar quanto os adeptos. Não sei o que me fez acreditar que estaríamos na final. Mas acho que estes jogadores merecem e os portugueses também. 

Numa época que estamos tão cheios de maus exemplos, de crise, de austeridade, de má governação, de más notícias, de roubalheira, de fuga aos impostos, temos um CR7. Um jogador que não desiste de investir em Portugal. Vejam o último CR7 Hotel. Vejam o encanto daquela família. Um jogador que apesar dos milhões que ganha não quer ser (só) milionário basta-lhe ser rico. Não foge aos impostos. Não foi apanhado nas listas dos paraísos ficais, por exemplo.

Quando vimos o primeiro golo de CR7, o que pensamos é que desafiou as leis da física. O que muitos o acusaram, de não estar ao seu nível nos jogos anteriores, culminou no grande primeiro golo e na assistência para o segundo. E o que é mais bonito? O melhor do mundo (ainda) chora! E diz coisas tão simples e tão tocantes como: “Sonhar é grátis”. #JesuisPortugal!


 Se fosse a escolher quem quero na final preferia a França para o “acertar” de contas quando fomos eliminados por causa de uma suposta mão do Abel Xavier. Ainda se lembram? Principalmente para alegria dos milhares de emigrantes portugueses França e que vão encher Paris no Domingo. E depois para todos os portugueses em Portugal e espalhados pelo mundo. Que alguma coisa nos faça alegres por algumas horas. O tal do sonho. Sejamos grandes por um dia!









quarta-feira, 22 de junho de 2016

Cristiano Ronaldo

O Cristiano Ronaldo não precisa que o defendam. Mas num mundo como o que vivemos, que é muito mais fácil criticar do que enaltecer, e muito mais fácil humilhar do que aplaudir, junto-me ao grupo daqueles que não esquecem os feitos deste grande jogador.

Não podemos nunca esquecer qual a origem do Ronaldo e que faz dele um grande exemplo. Um menino de uma zona muito pobre da Madeira que tinha, se não fosse o seu enorme talento e trabalho, um destino comum ao de tantos outros. No entanto, ainda menino foi para Lisboa onde se formou nas escolas do SCP e antes do 20 anos era já jogador do Manchester United. Depois, tornou-se numa das mais caras transferências de sempre do futebol quando se transferiu para o Real Madrid. Este jogador pago a peso de ouro, ajudou toda a família, amigos e muitos mais. As irmãs e a mãe têm mais do que uma mala Birkin que custam mais de cinco milhares de euros, numeradas e feitas manualmente. Ele faz com que os sonhos dos seus mais próximos se concretizem como se da lâmpada de Aladino se tratasse. O Ronaldo nas passagens de ano manda fechar o Ritz do Funchal a família e amigos. Aluga barcos e aviões. Paga férias de luxo aos que mais gosta. Tem casas em Madrid, Lisboa, Gerês, NY e Algarve, só para dizer algumas.

Sei de muitas doações que faz anonimamente a crianças e adultos vítimas de cancro e doenças raras. Já todos vimos as muitas acções que faz quando alguém lhe pede uma camisola ou alguém que contra tudo e todos quer com ele tirar uma selfie.

Assume e tem orgulho da família que tem, tem nela o seu exemplo e a sua maior força, vive orgulhosamente com a família. E depois, é unânime o que dizem sobre ser um profissional exemplar, metódico, correcto, trabalha sempre muito, mais e melhor.

Há 12 anos quando estava a tirar o Doutoramento em Houston ia frequentemente a uma loja de conveniência e um dos funcionários adorava o Ronaldo. Naquela altura ainda não era o astro mundial de hoje mas esse rapaz já lhe previa um grande futuro. Tinha uma camisola dele da selecção portuguesa. Lembro-me que nesse ano foi o Mundial de 2006 na Alemanha e a diferença horária era de 6 horas. Os jogos eram sempre de manhã ou à hora de almoço. Só quem está fora do país é que sabe do que é que falo. Não se explica por palavras. Parece que somos melhores portugueses. Chora-se a ouvir o hino. Temos um orgulho imenso e qualquer motivo é suficiente para nos juntarmos. E foi o Ronaldo que levou novamente o nome de Portugal ao mundo. É verdade, por mais que muitos queiram negar e não ver as evidências. Lembro-me ainda há muitos mais anos ouvir uma entrevista da Purificação Tavares no rádio em que ela dizia que quando estava nos Estados Unidos fazia kms para ir ver uma equipa portuguesa de qualquer coisa.

Em NY toda a gente conhece o Ronaldo, principalmente pelos grandes cartazes de publicidade da Armani espalhados pela cidade. Foi por causa do Ronaldo que a Irina Schayk se tornou numa modelo mediana e com acessos directos a mundos restritos. Ronaldo é um nome por si só que tem valor.
Basta de crucificarem o rapaz porque falhou um penalti e porque muitos dos seus remates teimaram em não entrar. Mas não o acusem, por favor, de não ter lutado! Há dias assim, menos bons para todos, E ele, apesar de especial, é (também) humano.

Hoje, concordo com a Dona Dolores que Portugal vai ganhar e eu acredito (ainda mais) que vão ser vários os golos. Os emigrantes merecem esta festa para comemorarem. Os portugueses merecem para se esquecerem (por horas) da crise em que teimamos não sair. Os jornais e os jornalistas precisam de fazer um mea culpa.


E eu espero que depois deste Europeu, dos anos de sucesso que o Cristiano Ronaldo ainda tem pela frente como jogador, tenha a coragem, tal como outros, de fugir ao preconceito instalado e ao machismo no futebol e assumir-se orgulhosamente. Um homem honesto, talentoso, um exemplo só se tornará ainda maior quando se assumir por inteiro. E aí sim, ainda mais palmas e elogios merecerá porque os enormes exemplos são eternos. É o que sobreviverá para sempre e ficará escrito nos livros.

Copyright: RR

P.S. Quanto ao episódio de hoje de manhã em que o Ronaldo atirou o microfone da CMTV ao lago fez muito bem. Pegar no microfone e atirá-lo sem magoar ninguém foi a coisa mais sensata que fez. Aquilo que aqueles pseudo-jornalistas fazem não é jornalismo... nem sei que nome chamar aquilo. Podia ter sido muito pior. Eu atirava-o ao jornalista ou dar-lhe-ia um murro.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Uma carta para os pais, para os homens, e para a família deles:

- Quando se casarem, mesmo que descubram que se enganaram, que a pessoa com quem se casaram não existe mais, que tudo não passou de uma ilusão, que as pessoas de facto não mudam (só se for para pior), não coloquem a hipótese de se divorciarem;

- Se por acaso tiverem filhos, o problema (só) aumenta exponencialmente, e em vez de “não colocarem a  hipótese de se divorciarem” mudem para “nunca se divorciem;

- Leiam as estatísticas de quantas mudanças, guardas, e responsabilidades parentais foram atribuídas aos pais (homens) desde a última mudança da lei. Acreditem nelas (porque existe a tendência para achar que é mentira e que os direitos são iguais, afinal estamos no séc. XXI);

- Quando vos disserem que os direitos de pais e mães em relação aos filhos são iguais, riam-se e relativizem. Nem sempre o que está escrito corresponde à verdade. O Direito não é uma ciência e muito menos exacta;

- Quando vos disserem que os magistrados são a classe mais bem preparada do país, esqueçam. A quantidade de juízes e procuradores aplicados, estudiosos, competentes, progressistas e que não sejam tendenciosos é como encontrar um grão de areia branca num areal preto (Eu que nunca mais oiça dizer que os médicos portugueses são maus porque me vai dar um ataque);

- O máximo que poderão esperar da decisão do tribunal é a “chapa 5”: um jantar todas as quartas-feiras, um fim-de-semana de 15 dias, Natal, Páscoa e aniversários à vez e uma via sacra de martírios, de vergonhas, de cenas, de espectáculos, de insultos, de mentiras e gastos de rios de dinheiro em Psiquiatria;

- Pelas experiências empíricas que conheço, em 4 anos, zero sessões de julgamento para alterações da guarda. Apenas, conferências de pais, requerimento para aqui e para ali, relatórios de psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, CPCJ, hospitais, papéis, tinta, muita tinta, resmas e resmas que ninguém lê, árvores abatidas;

- Encontrem conforto nas palavras dos poucos que ainda defendem  as crianças, não ligando ao género dos pais, mas aquele que é mais competente. A anotar: Dr. Maria Saldanha Pinto Ribeiro e Prof. Daniel Sampaio;

- E para aqueles que acham que as mulheres são todas iguais, não generalizem. De facto, as grandes mulheres existem e andam aí: “Vou dizer uma coisa que muitas mulheres detestam que eu diga, mas, hoje em dia, há muitas situações em que os homens são prejudicados e são discriminados. Dou como exemplo o que acontece na regulação do poder paternal. Normalmente o que acontece é que as mulheres, por serem mulheres, são beneficiadas judicialmente em detrimento dos homens. Não estou a dizer que não haja casos em que isto faça sentido. Agora não pode ser um princípio geral de que as mulheres serão sempre melhores como mães. Isto é uma questão de igualdade e mais, é de bem-estar das crianças. Não podemos defender a igualdade dizendo que nós somos mais iguais que eles. Não. O que temos de discutir hoje é a igualdade em tudo, quer nos casos em que as mulheres são discriminadas quer nos casos em que os homens são”-Doutora Graça Fonseca, actual Secretária de Estado Adjunta e da Modernização Administrativa, Jornal Público, 01/02/15.

- Ser crente ajuda. Para quem tem fé, acredita que se a justiça dos homens não funcionar, a justiça de Deus funcionará. E mesmo quando tudo parecer perdido, há sempre um milagre à espreita. Para quem não acredita, para além de não encontrar conforto terreno, passará acreditar que existe sempre mais fundo;


- Termino a sugerir a todos os licenciados e mestres em Direito: escolham como tema de doutoramento uma análise de decisões dos Tribunais de Família e Menores do norte do país (tradicionalmente mais conservador) e comparação das decisões da guarda dos filhos por género.

domingo, 12 de junho de 2016

O elogio a uma vida boa e longa

Hoje vamos exaltar apenas as virtudes e a qualidades de um homem de família. Marido. Pai. Irmão. Amigo. Um homem austero. Sério. Duro. Forte. Conservador. Tradicional. De bom gosto. Antecipava cenários e crises. Por vezes, exagerado. Trabalhador. Crente. Defensor das mulheres. Sempre defendeu a sua emancipação e a sua independência, sobretudo profissional. Conversador nato. Recto.

Teve uma vida boa. E quando a doença apareceu não houve muito que a Medicina pudesse fazer para o curar. Aceitou a doença e foi um bom doente. A voz, que era a sua característica e identidade, modificou-se, mas não se perdeu.

A última vez que o vi, tinha já sido diagnosticado. Uma semana antes da Páscoa. Se eu não soubesse não acreditaria. Estava igual ao que sempre foi. Crítico da política. Elogiou grandes homens. Criticou maus exemplos. Propunha soluções. Acompanhado, como sempre, pelo seu vinho branco que tanto orgulho tinha. Como sempre à volta da mesa e do famoso lanche. O que eu vi naquele dia foi um homem (ainda) cheio de energia e optimismo que me mostrou como se via mensagens no telemóvel e um cartão pré-pago especial para falar quando quisesse com a minha madrinha na Austrália. Nesse dia, levei duas garrafas de jeropiga, que lhe disseram que eu gostava. De facto, a melhor jeropiga do mundo. 

Como no salmo, o Senhor foi sempre o seu Pastor e por isso nada lhe faltou. Nos últimos dias, quando as forças lhe começaram a faltar, nos limites da condição humana, viveu uma vida de qualidade, apesar de difícil. As noites eram longas e silenciosas. Sempre contou com a melhor das ciências dos homens e com a Graça de Deus para não ter medo. Aceitou e soube viver com isso. Não se revoltou nem desistiu.

Nunca é fácil perdermos uma pessoa que gostámos. E sobretudo, achamos (sempre) que foi cedo demais e que tinha (ainda) tanto para dar. Mas a parte boa é que teve 79 anos de vida saudável e sem limitações.Teve o fim da vida ideal e que todos desejam. Rodeado e assistido pela família, que tudo fizeram. Nunca esteve só. Suportado pelo amor. Em casa. Em paz. Preparou tudo. Esteve lúcido, quase até ao fim. 

Em especial, para a família, sintam-se orgulhosos deste homem e do que por ele fizeram. A forma como o acompanharam e se apoiaram na doença é um exemplo. Sintam-se abraçados e confortados pelo vosso exemplo. Bem-hajam.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

SCOTE (Snack COfee TEa)

O SCOTE  é das melhores descobertas que fiz nos últimos tempos. Um misto de café, bar de hotel, salão de chá e sala lá de casa. Boa música. Faz lembrar o Starbucks, com um balcão enorme e cadeiras altas virado para a rua, copos de plástico de diferentes tamanhos to go. Tem umas mesas com cadeiras aos pares a lembrar um salão de chá ou um bom restaurante. Depois tem uns sofás baixos e umas mesas a lembrar os bares e as salas de estar dos hotéis. A decoração é de extremo bom gosto. Nada de muito pretensioso mas cool. Apetece ficar, sem horas, a ler um livro ou a estudar (para quem precisa). Tem umas sandes óptimas de pão de Montalegre enormes. Dá para duas pessoas. As saladas são visualmente apetecíveis e generosas. Chás, cafés (americano, expresso, pingado), pastelaria portuguesa, brownies, bolos caseiros, muffins, são muitas das escolhas. Um lugar destes era para estar a abarrotar e ter fila. Apesar de não estar vazio, tinha (apenas) pessoas que davam para contar pelos dedos de duas mãos. Acho que nem em Lisboa vi um café assim. Apetece elogiar tudo. Com pormenores que beiram a perfeição. Sóbrio e limpíssimo. Não sei se são as pessoas que não percebem o conceito. Se é errado para as pessoas de Braga. Mas sei dizer que está a minutos a pé da Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho e do Hospital de Braga. Se estivesse no centro, perto de minha casa, onde eu poderia ir a pé, confesso que seria a minha segunda casa. O dono é competente e muito simpático. Sabe do que fala e do valor que tem. É um homem do mundo e um cosmopolita pelas influências que se destacam. Como António Variações dizia estava entre Braga e NY. Nasceu e viveu cedo de mais, para o seu tempo.  Este conceito do SCOTE parece, um misto de Braga e NY, desajustadíssimo para a tacanhez e rotina dos bracarenses. Desejo ao dono o maior sucesso porque o SCOTE é bom demais para Braga. E deixo uma crítica directa: a elite deste país que entra com as notas mais elevadas de todos os cursos deve ser a classe menos intelectualizada, cosmopolita e aberta ao novo que conheço. Senhores, as notas e o maior número de palavras decorados em menos tempo não é tudo na vida! Aproveitem porque não vivemos para sempre e não levamos nada! 





Copyright: SCOTE

quarta-feira, 25 de maio de 2016

E a Venezuela, senhores?

Começo com um título, parafraseando uma grande artista brasileira que nos seus espectáculos usa sempre um respeitoso: “Boa noite, senhores”. Pois bem, nos últimos tempos, amigos, mais amigos, menos amigos, conhecidos, gente que gosta muito de mim, do contra que gosta menos, que me apoia, que discorda muito, perguntam-me: “E a Venezuela?”. Toda a gente que me conhece (muito bem) sabe que quando eu deixo de falar de uma coisa repetidamente, sistematicante, até que os outros se cansem muito, eu perdi a esperança. Revelo o pior de mim, desisto. A Venezuela é um dos casos. Tenho dois grandes amigos venezuelanos com quem aprendi muito e com quem aprendi, de uma forma privilegiada, a realidade venezuelana. Isso foi sempre o que me ligou à Venezuela, a amizade. De outra forma, seria (apenas) mais um país da América Latina. Um país que não tem nada de muito mais importante a dar ao mundo, a não ser o “ouro negro”. E até esse, que nos últimos tempos perdeu o valor que lhe davam, reduziu muitos à sua insignificância. Ao contrário, por ex. do Brasil, a Venezuela não tem uma elite cultural (sequer) parecida. Não foi o berço de nenhum tipo de música. Não é o maior país onde se fala castelhano, ao contrário do Brasil que é o maior país onde se fala português. Não é um país de escritores, nem de arquitectos, nem de artistas. A sua culinária não é conhecida mundialmente. E até no mau não tem comparação. Não tem Carnaval, nem a mulata, nem as famosas favelas, nem os mais procurados bandidos, nem os mais milionários, nem os mais corruptos. No entanto, tem de igual modo, belíssimas praias, a floresta amazónica e grandes rios. E muito menos gente. Tem o mesmo subdesenvolvimento dos países de terceiro mundo. Os muito ricos e os muito pobres. Mulheres muito arranjadas que cuidam do cabelo e pintam as unhas. Mas que vivem numa favela e têm mais do que três filhos, preferencialmente de homens casados, a quem o pai não é obrigado a dar o nome.

A Venezuela foi governada durante anos pela direita que não fez muito a não ser enriquecer (mais) a si mesma. A esquerda, a grande esperança dos desgraçados, dos miseráveis dos pobres, daqueles que não tinham nada, além de não os ensinar a pescar ainda lhes deu pouco peixe. A Venezuela,  ao contrário do Brasil, não elevou os pobres a uma classe média ambicionada há muito, não levou os seus filhos para estudar nas universidades públicas a partir do seu mérito, não se desenvolveu, não criou riqueza. Os venezuelanos, ao contrário dos brasileiros, não passaram a viajar em massa para o exterior nem passaram a viver melhor do que viviam.

Não vou comparar Chavez a Lula porque um já morreu e não morro de amores pelo outro. Mas a verdade é que não se pode comparar a afronta de Chavez em relação aos ricos com o que se passou no Brasil. Nunca vi no Brasil os discursos de esquerda inflamados como os que vi na Venezuela. A Venezuela não foi projectada para o mundo, ao contrário do Brasil. O que eu achei que nunca aconteceria na América Latina, temo que aconteça na Venezuela, uma guerra civil.

Na semana passada o The New York Times publicou uma reportagem sobre as condições indescritíveis dos hospitais venezuelanos. Quando vi aquelas fotos e aqueles textos achei que tinham sido cuidadosamente seleccionados pelos media americanos ( que muitos dos meus amigos acusam da sua tendencial preferência pela burguesia e capitalismo). Não, não é mentira nem é exagero. Aquilo está mesmo assim. Não há medicamentos básicos, os medicamentos para tratar neoplasias há muito desapareceram e só se traficam no mercado negro. Não há quase nada importado. As pessoas estão nas filas para tudo. Não há segurança (embora isso nunca houvesse muito). Pessoas presas sem razão. Presos políticos. As instituições não funcionam. Tudo se compra e se vende. Não existe Democracia. Maduro comporta-se como um coronel nas antigas fazendas no tempo da escravatura.

Muitos pensavam que a morte de Chavez acabaria com a ditadura boliveriana. Chavez não parecia jogar com o baralho todo. Mas Maduro conseguiu o impossível: mostrar que o buraco pode sempre ser mais fundo. Enquanto a Venezuela se vai destruindo e limitando-se apenas aos pobres e miseráveis (porque os ricos já saíram quase todos), os restantes poderes de  esquerda dos países da América do Sul ou assobiam para o lado ou (fingem) acreditar que os EUA estão a apoiar um golpe.


Onde está a elite Venezuelana e a oposição? Onde está o mundo que não denuncia e não se importa com a Venezuela?
Copyright: Reuters

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Dilma

Faço aqui uma declaração de interesses: Não simpatizo com o PT, não partilho da ideologia política e não tenho particular admiração por Lula. A mesma coisa achava de Dilma. Não achei a sua eleição (no primeiro mandato) tudo aquilo que escreveram. Não fiquei comovida por ter sido a primeira mulher presidente do Brasil. E não concordei com o título de “Presidenta” em vez de “Presidente”. No entanto, depois da segunda eleição, que ela ganhou no limite, considerei ter sido o mal menor. A sua oposição era constituída por gente menos preparada do que ela e por gente mal relacionada e/ou ligada a coisas menos sérias. Depois da segunda eleição comecei a admirar a força desta mulher que tem lutado estoicamente contra tudo e contra todos. Como as árvores, Dilma escolheu morrer politicamente de pé. Com a destituição de Dilma ficamos a saber o que há muito desconfiamos: os políticos brasileiros são na sua maioria corruptos, o poder é passado de geração em geração como se de uma Monarquia se tratasse, a política serve para enriquecer, na política vale tudo, a maioria dos deputados são analfabetos funcionais, os evangélicos têm um dos maiores poderes no Brasil ( o domínio e o aproveitamento sobre a ignorância de um povo), os políticos brasileiros são muito bem pagos e têm regalias incomparáveis com o cidadão comum. Apesar de tudo isso, a corrupção e as acusações sobre quase todos os políticos não os envergonha. Não se demitem por nada, seja qual for o teor da acusação. São como lapas. Seguem de cabeça erguida como se nada fosse. E como os vermes, em vez de se recatarem pelo mal causado, lançam ameaças de não caírem sós. Analisando a vida, a biografia, o CV e o percurso de cada político brasileiro poderemos contar pelos dedos aqueles sobre quem nada paira. Quase não existem imunes ou intocáveis. No entanto, apesar de todas as perseguições, de todo o escrutínio, depois de todas as investigações, a Dilma parece um oásis no deserto. Se ela é perfeita? Não. Se está bem rodeada? Não. Se seguiu a política que devia? Não. Mas é o mal menor, de facto. A questão é que tudo está mal. Num país com os milhões de pessoas que tem o Brasil, onde a educação e a saúde não é igual para todos, “quem tem um olho é Rei”. As classes mais desfavorecidas, das periferias, dos morros, do sertão, do interior, dos subúrbios serão sempre facilmente enganados e cativados pelos políticos mais populistas e que nada farão por eles. Servirão, apenas, como um degrau para a sua escada para chegarem ao topo da pirâmide. Um país em que a elite caucasiana, será sempre instruída, continuará a viajar para o estrangeiro, para fazer compras em Miami e NYC, continuarão a comprar apartamentos em Lisboa nos metros quadrados mais caros, continuarão a viver em condomínios fechados resguardados por grades electrificadas e separadas do mundo real, continuarão a viver no séc passado em que existe o mundo para a elite eo mundo para o subalterno, continuarão a ter contas na Suiça e a fugir aos impostos, continuarão a viajar em primeira classe e em executiva. Mas apesar disso continuarão a não ser evoluídos nem educados: o carro continuará a ser o que mais poluí, continuarão a atirar lixo para o chão para alguém de uma classe inferior apanhar, continuarão a perpetuar o desperdício, os seus cães continuarão a sujar as cidades para alguém as limpar, continuarão a ter cozinheira, faxineira, diarista e motorista, continuarão a passear pelas cidades com as babysitters atrás vestidas de branco. Enquanto a elite não se envergonhar destes comportamentos e perceber que o mundo mudou e que estamos no séc XXI, nada mudará. Enquanto a elite não perceber que comportamentos assim envergonham uma sociedade, serão sempre a piada do exterior. Enquanto a elite não perceber que os caucasianos não são o povo eleito e que toda a gente tem possibilidade de ascender socialmente, não há como esperar melhoras. O Brasil só mudará quando a elite não se sentir ameaçada. O Brasil só mudará quando os privilégios acabarem para quem teve a sorte de nascer caucasiano. O Brasil precisa ter orgulho de ser negro. E apostar na educação. Demora gerações, mas a mudança será visível. Enquanto a menor percentagem da sociedade continuar a comandar os seus destinos e tiver este tipo de poder, o Brasil continuará condenado. 

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Bem-vindo estranho

O espectáculo é baseado na obra "Be Mine", da  britânica Angela Clerkin, e explora a relação entre mãe e filha. Jackie (Regina Duarte), e a sua filha Elaine (Mariana Loureiro) que é advogada, vivem num pequeníssimo apartamento em Londres. É este o cenário da peça: o escuro e as várias divisões do apartamento. A relação delas é conturbada e oscila entre o extremo afecto e o insulto. Percebemos que Jackie teve a filha com 12 anos. Jackie é uma personagem complicada e fascinante. Deve ter sofrido muita para ser assim. Uma mãe manipuladora, profundamente amorosa, quase sufocante de tão apaixonada que é pela filha. Tão carente e tão incapaz de olhar para si mesma e incapaz de viver sozinha sem a “muleta” da filha. Uma egocêntrica nata. É daquelas pessoas que acha que a solidão é a morte e abomina-a. Gosta de ser mimada e de ser o centro das atenções, e consequentemente, usa todos os recursos possíveis para prender a filha junto de si "até que a morte nos separe.” O exagero da Jackie em relação à filha e é que gera o humor. É mesmo muito exagerada. Veste-se sem noção da idade, sai para “tomar todas”, totalmente descontrolada. Chega a ter graça de tão exagerada que é.

Um dia surge um estranho que pode “roubar” a filha. Com a chegada de Joseph (Kiko Bertholini), o misterioso namorado de Elaine, que se prepara para viver no mesmo apartamento provisoriamente, a atmosfera de suspense entra em erupção, levando a um conflito de desejos incontroláveis cujas consequências são imprevisíveis. Joseph, acusado da morte bárbara da namorada,  foi defendido em tribunal por Elaine. E ela conseguiu provar a sua inocência e conseguiu a sua absolvição. Ela acredita, de facto, na sua inocência. Elaine é uma filha carente e insegura e faz o papel da boazinha, de submissa e de certinha.

Humor, suspense e tensão, pautadas por uma banda sonora exemplar. Momentos de um suspense intenso e absorvente misturam-se com um humor muito perspicaz e inteligente. O publico oscila entre o riso e a gargalhada, o susto, a sugestão, o medo e a hipótese. O final é surpreendente, e tal como Regina pediu no final: “não contem pra ninguém”. Regina Duarte já conquistou o papel de diva. É esta a palavra que me ocorre usar. Uma interpretação magistral regadas pelas suas gargalhadas, gritos e voz inconfundíveis. A interpretação é acompanhada pelos enormes talentos dos outros dois actores.

A peça fala do ser humano. De sentimentos, emoções, desejos, frustrações e descontroles de seres humanos. Uma peça do tamanho do talento de Regina Duarte. Uma peça onde ela brilha e faz brilhar os dois outros actores. Regina Duarte mostra que está em plena forma aos quase 70 anos. 











quarta-feira, 27 de abril de 2016

A dignidade de se passar de bolseiro de pós-doutoramento a investigador de doutoramento

A ANICT, associação que representa investigadores doutorados (bolseiros ou contratados), que trabalham em Portugal, está a fazer um questionário nacional que pretende averiguar a opinião dos investigadores doutorados sobre a eventual conversão de bolsas de pós-doutoramento em contratos de trabalho a termo. “A passagem de bolsas a contratos está associada a um aumento dos custos de recrutamento. A ANICT defende que o rendimento líquido anual dos atuais bolseiros de pós-doutoramento não pode sofrer cortes, aquando desta mudança. Este fato, irá implicar um aumento de custos na ordem dos 33%. A ANICT defende que os orçamentos dos projetos financiados pela FCT, assim como a sua duração, sejam compatíveis com esta nova realidade”. A pergunta é ouro sobre azul. Questionam os investigadores se concordam ou não com um contrato que mantenha os mesmos valores da bolsa pós-doc. Em letrinhas quase ilegíveis pode ler-se que isto implicará que em cada 3 bolseiros pós-doc apenas 2 terão contrato.

Obviamente que questionar um bolseiro pós-doc, talvez a posição mais precária de toda a carreira académica, que não têm qualquer aumento do valor da bolsa há mais de 12 anos, que não descontam para a Segurança Social (a não ser através do precaríssimo Seguro Social Voluntário), que em caso de não renovação da bolsa não têm direito a subsídio de desemprego, acenar com um contrato, quem poderá dizer que não?

A questão sobre se os bolseiros pós-doc concordam ou não com um contrato deveria ser seguida da explicação. Eu concordo, em absoluto, que haja contratos para pós-docs. Mas isso, quem não concorda? A questão é: a qualquer preço? Não! Eu sou daquelas que não serão beneficiadas por estes possíveis contratos. Sou bolseira há 6 anos e pelas actuais regras, não estarei incluída neste pacote.
Mas eis o que eu questiono:
1)   Que haja obrigatoriedade de contratos pós-doc. Como nos habituam em ciência, a célebre questão do mérito e do merecimento. Quem merece e quem não merece? Como se faz essa avaliação? Os “protegidos” estarão sempre nos 2/3 a contratar. A questão é para onde vão os restantes 1/3?

2)  O que acontecerá aos investigadores pós-doc após 3 anos? Esta parte não está explicada. O que pretendem a ANICT e a FCT propor após 3 anos? Que o investigador pós-doc continue a concorrer para contratos sucessivos de 3 em 3 anos mantendo o valor de 1450€/ano + SS + subsídio de alimentação?
3) Que diferenciação de valores terá um investigador pós-doc após 3, 6 ou 9 anos?

4) No que se baseará a diferenciação entre investigador pós-doc e os actuais contratos de investigador FCT?

5)  No que se baseia a FCT e o Ministro da Ciência para cada 3 bolseiros de pós-doc atribuir apenas 2 contratos de investigador pós-doc? Partindo do princípio que quem financiará isto é o governo. Implicando, de facto, um aumento de 33% por cada investigador em impostos, esses mesmos valores retornarão para a máquina do Estado. Ou seja, não há qualquer perda. O dinheiro só se deslocará dentro do mesmo Estado entre diferentes Ministérios. Aqui residem as minhas maiores reticências. Deverão os bolseiros pós-doc aceitar os contratos a qualquer preço? Não deverão reflectir mais nesta questão? Não existirão, de facto, maiores gastos para o Estado/bolseiro.

Se se trata de discutir, e a decisão ainda não está tomada, aqui ficam as minhas opiniões que são só minhas e que não representam ninguém além de mim.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

O dia que o Brasil disse sim ao golpe

Domingo histórico para o Brasil, no sentido negativo e muito pessimista. Constrangida, é o mínimo que posso dizer hoje, depois do que vi durante parte da noite e madrugada. Das noites e madrugadas mais chocantes da minha vida. Ri para não chorar. Quando a realidade ultrapassou a ficção. A ignorância no seu esplendor. “Ao pé daquela Presidente e daquele Governo, daquele antigo Presidente, daquele Congresso, daquela Comunicação Social, a nossa vida política é um poço de sabedoria e de civilidade”

Que circo era aquele? Aquilo era na Casa do Povo (Câmara dos Deputados) ou um estádio de futebol?!  Que berraria, que claque, que baixo nível. Tanta gente a saber conjugar mal os verbos e não distinguir entre o singular e o plural. Tanto usar o nome de Deus em vão. Tantas graças, tantas glórias. Tanto agradecimento aos pais, aos filhos, aos netos, aos sobrinhos, aos primos, aos avós, aos tios, aos amigos, aos colegas, aos simpatizantes, às cidades, aos estados, ao cão, ao gato, aos que ainda estavam por nascer, aos militares, aos bombeiros, aos ditadores, aos reaccionários, aos democratas, aos golpistas, aos torturadores, aos ditadores, aos canalhas, aos padres, aos pastores, à paz em Jerusalém, aos agricultores, aos índios, aos coronéis.

Votaram sim, não pelo crime de responsabilidade da Presidente da República mas: “pela minha mãe negra Lucimar”, pela “família quadrangular”, por “Campo Grande onde tem a morena mais linda do Brasil”, “pela minha neta que vai nascer”, “ pelo fim da vagabundização remunerada”, “pelos produtores rurais, que se o produtor não plantar, não tem almoço nem janta”, “pelo estatuto do desarmamento”, pelo comunismo que assombra o país”, “pela nação evangélica”, “pelo fim dos petroleiros”, “pelos militares  vitoriosos de 64”, “pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rouseff”. Como? Não houve quem lhe desse um murro que lhe partisse a cara e os dentes?! Parece que esta é a única linguagem que (alguns) percebem.

Não foi um espectáculo bonito de se ver. Os patriotas, os golpistas, os de direita, os reaccionários, os conservadores, os ultra, os evangélicos de verde e amarelo de um mau gosto sem nome. Cabelos de homens pintados, a grande moda. Com direito até a confetis: “quem vota sim bota a mão para cima”, como se de um espectáculo de axé se tratasse. Só faltou a Ivete para cantar e dançar no fim!

Falta de educação, de boas maneiras, histeria raivosa, com algumas (raras) excepções.  Gritos. Urros. Apupos. Assobios. Cuspidelas. Vozes roucas, quase afónicas. Buzinadelas. Palmas. Braços no ar. Choro. Gritos. Cânticos. Claque. Mas...“faixa não é admitida”.

Canalhas. Corruptos. Quem naquela câmara não tem um processo a pairar sobre si: uma pequena minoria. O propagar de gerações de netos, filhos e avós políticos, como se de dinastias reais se tratassem. Analfabetos políticos. Semi-analfabetos literais. Falta de vergonha na cara. Vendidos. Ladrões. Gentalha que se dirige à Presidente como “Tchau querida”?!. Gente que mandou beijos através da televisão. "Que país é esse?" já perguntaram os visionários nos finais dos anos 80.

Nunca fui a favor de Dilma. Mas acho que comparativamente com o que a rodeia, é o mal menor. Não pairam sobre ela acusações de corrupção mesmo depois de todas as investigações a pente fino. O grande erro dela foi ter achado que Lula seria a solução de (quase) todos os seus problemas. No dia em que ela convidou Lula para Ministro ninguém percebeu nada e confundiu-se tudo. Ela nunca o devia ter feito. Para tentar salvar o seu governo e tentar salvar a face de Lula assinou a sua “morte” política. Nesse dia, os que (ainda) acreditavam na sua inocência passaram a colocá-la no mesmo saco. Ser contra o golpe e contra a destituição não é ser do PT. Ser contra a destituição de Dilma é ser a favor da Democracia e achar que o único poder de eleição de um Presidente é o voto do povo e não a eleição indirecta. Se chegarmos a ver Michel Temer na Presidência do Brasil, apoiado pelo Eduardo Cunha, é legitimar a corrupção. É aceitar que vale tudo. Num país evoluído, democrático, de primeiro mundo, um político que é réu do Lava-Jato, que tem contas na Suiça por lavagem de dinheiro, teria tido a honradez de se demitir e sair pelo próprio pé. Não teria a falta de vergonha de ter a cara levantada e riso cínico de presidir à Câmara de Deputados.


Não adianta estar indignado agora. Aqueles que defenderam  o fim da corrupção com o afastamento da Dilma verão, em pouco tempo, o mal que escolheram. Ninguém fora do Brasil percebe como é que Dilma Rouseff que não está indiciada nem acusada de nenhum crime é destituída pelo Presidente da Câmara e muitos dos deputados implicados no escândalo de corrupção que abala o Brasil. E toda a gente bate palmas?! Não acredito que o Brasil tenha solução. Com alternativas políticas tão pouco credíveis e tão fracas é difícil. Tenho muita pena pela grande geração que vejo crescer e que poderia ambicionar por um país melhor. Portugal ao pé do Brasil é um menino... Se o Brasil ambicionar mudar nos próximos tempos tem que começar por mudar este Congresso. É acabar para começar de novo. Zerar.

quarta-feira, 30 de março de 2016

As raposas (The Little Foxes)

A peça é sobre dinheiro, poder, valores. “Não quero ser só rico, quero ser milionário”. A luta pelo poder dentro da família. Tão actual. Tudo gira à volta de um grande negócio que uma família quer fazer para aumentar a sua riqueza. Três irmãos, dois homens e uma mulher: Regina (Luísa Cruz), Ben (Virgílio Castelo) e Óscar (Marco Delgado) .  Revelam-se diferentes maneiras de pensar e agir: quem olha a meios, quem não quer olhar a meios mas tem medo, e quem só olha a fins. Os sonhadores, os sentimentais, os pragmáticos. 
Regina tem pretensões de ir para NY e apesar de parecer neutra quer ter uma palavra a dizer neste negócio. Tem a vantagem de os dois irmãos precisarem do dinheiro do seu marido, Henrique (João Perry) que está na Suiça há algum tempo a tentar tratar-se do coração.
As melhores interpretações são as dos veteranos João Perry cuja papel é o do marido doente que tem dinheiro mas que subiu a pulso. Era empregado do banco e depois tornou-se dono dele. Está muito doente do coração e é do bem. Dá uma lição à mulher quanto ao que ganha não é quem joga a última carta. Não há fins perfeitos. Um João Perry que aparenta nesta peça ser mesmo doente e acabado. A  melhor aimulação de um ataque cardíaco que vi até hoje. Apetecia saltar para o palco para ajudar. Morre de ataque cardíaco por não conseguir alcançar o medicamento que a mulher não lhe dá. Regina, mantém-se inerte, sentada no sofá, a vê-lo morrer em agonia.
Outra grande interpretação é de Gracinda Nave, a Betty. A mulher boneca, a tonta, aquela que só sabe tocar piano e que não pode ter opinião sobre nada. Bebe demasiado para esquecer. O seu marido parece ter casado com ela por interesse, apenas para juntar fortunas.
Esta é uma adaptação para os dias de hoje de uma peça dos finais dos anos 30 de Lillian Hellman. Com o elenco: Diana Nicolau, Eurico Lopes, Gracinda Nave, João Perry, Luisa Cruz, Marco Delgado, Pedro Caeiro,  Sofia Cabrita e Virgílio Castelo.
Virgílio Castelo, aquele que interpreta talvez o mais cínico, aquele que dizia as palavras da mãe “Consegue-se tudo com um sorriso”, reconhece que perdeu mas que há mais vida para além deste negócio, mais virão.
O desfecho é dramático e aberto. Nada do que foi um dia voltará a ser.





Copyright: Teatro Aberto

sexta-feira, 18 de março de 2016

O que tem de errado na fotografia?

Esta fotografia é a imagem do Brasil, ou a imagem errada que o Brasil passa para o exterior (através das telenovelas). O estereótipo capitalista da elite dos cariocas da zona sul. Ou a alta burguesia dos paulistas das zonas nobres. Há muito que não vejo uma novela brasileira. Não me lembro da última que vi. Mas eu lembro-me de quando era pequena achar que toda a gente era rica no Brasil: pequenos-almoços sumptuosos,  boas roupas, bons carros, mansões, piscinas...). Aquele era, evidentemente, um Brasil caricatural.

Anos mais tarde, comecei a ver o ridículo da elite possidónia brasileira passear por NY com carrinhos de bebés e as suas babás vestidas de branco atrás, tal e qual como nesta foto. O dinheiro compra tudo no Brasil mas não deve, evidentemente, comprar a educação e o respeito pelas pessoas. A imagem actual (provavelmente errada) que eu tenho no Brasil é de uma elite endinheirada, loira, cabelos penteados de cabeleireiro, mas que não fala inglês (e por isso grita na expectativa absurda que alguém perceberá, como se o problema fosse a surdez...) que tem dinheiro para viajar para NY e achar que o dinheiro compra tudo. No aeroporto e nas ruas de NY reconheço as brasileiras ao longe.

O que tem de errado na fotografia é a estratificação social gritante que existe no Brasil. A elite branca, rica, em forma (e só olhar para os gémeos do casal) que vai à “passeata” contra a corrupção e usa a t-shirt brasileira da CFB ( talvez uma das mais corruptas instituições brasileiras). Como se não bastasse, a babá vai vestida de branco (como sempre) para se saber que não é da família. A babá poderá até ganhar muito dinheiro e até ganhar horas extraordinárias. Mas colocar-se no meio da manifestação, concordando ou não, não é no mínimo discutível? E o casal de patrões, o que fazia que ocupasse tanto, que não podia empurrar o carrinho de bebés que fosse necessária a presença de uma babá?

Eu só coloco esta questão: quais os países democráticos no mundo constroem (ainda) apartamentos que contemplam elevador de serviço, área de serviço dentro do apartamento e quarto da empregada?! Aliás, eu na minha ignorância, quando em SP me falaram em “área de serviço” num apartamento eu tive que pedir para me explicarem... E não venham com a história da escravidão e que os hábitos culturais demoram gerações e gerações a mudar. Tudo isto existia em Portugal antes da revolução de Abril. E hoje, felizmente, passados pouco mais de quarenta anos, os pobres e os ricos não se distinguem na rua. Quem nasceu numa determinada classe social tanto pode ascender como descer, de acordo com o talento e trabalho (talvez na política isto ainda não seja verdade).


Este é um texto caricatural e estereotipado. Meu Brasil que eu gosto tanto. O Brasil das letras e das canções. O Brasil das belezas naturais. O Brasil da língua portuguesa com “açucar”. Eu quero acreditar que o Brasil tem solução!


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