terça-feira, 13 de setembro de 2016

As verdadeiras vítimas de violência doméstica que me perdoem

Tenho 37 anos, e felizmente, na minha vida entre este país à beira mar plantado e o outro do lado oposto do Atlântico não conheci nas minhas relações violência doméstica. Sou filha de pais casados há quase 41 anos (fazem em Dezembro). O meu pai continua a oferecer flores semanalmente à minha mãe e nunca lhes assisti a uma discussão. Claro que as deviam ter, como todos os casais, mas nunca à nossa frente, nem nunca envolveram vozes altas nem gritos.

Nos últimos tempos, e bem, as denúncias de violência doméstica têm disparado. Obviamente, que nem homens nem mulheres se tornaram mais violentos. A coragem, a divulgação e as consequência é que aumentaram. Seja por que motivo for, a violência, verbal e/ou física, são condenáveis. Quando se chega a este ponto, o sentimento que é o pilar das relações humanas, o respeito, terminou e não há volta a dar. Há limites que nunca se podem ultrapassar.

A minha experiência é outra. A violência por parte das mulheres. Conheço três casos concretos. O primeiro soube-o há alguns anos, ainda era aluna de doutoramento em Houston. Quando me contaram e me mostraram as marcas fiquei tão petrificada que só acreditei na evidência, vendo. Porque os olhos não mentem. Perante aquele absurdo só disse que era inadmissível e como era possível se sujeitar aqueles maus tratos. Na minha inocência de quem nunca vivenciou uma cena de violência perguntei porque não se defendia. Foi-me respondido: “Se reagir posso matá-la”. Aconselhei a pessoa em causa a não dar mais nenhuma oportunidade e revoltei-me, obviamente, com a agressora com quem não falo até hoje. Independentemente dos motivos, ninguém tem o direito de levantar a mão a ninguém. Nada se resolve assim. E nada disto se justifica.

Mais tarde, outro amigo disse-me que um homem com filhos quando terminava uma relação tinha uma coisa a fazer quando quisesse sair de casa e não ser privado dos filhos: fazer queixa à polícia de violência doméstica. Não entendi. Mas percebi com a experiência que era a única forma da justiça não optar pelo lado errado.

Façam um estudo e mostrem as estatísticas. A maioria das mulheres perante a iminência da separação, que aceitam ou não, usam os filhos como arma de arremesso. Primeiro, quando os filhos são pequenos, dominadas pelo instinto de vingança e aconselhadas perversamente por maus advogados, acusam-nos de violência doméstica contra si e os seus filhos e em simultâneo, para acabar de vez com a dignidade de uma pessoa de bem e reduzi-lo aquilo que ninguém aceita, a machadada final é dada com a acusação de abuso sexual dos filhos. Investiguem as falsas denúncias. Ouçam e leiam grandes peritos neste tema como o Prof. Daniel Sampaio e Dra Maria Saldanha Pinto Ribeiro. Imaginem, por um instante, ser acusado de uma coisa tão idionda que não se cometeu. Imaginem o que essa mentira provocará na vossa vida. E os efeitos dela. O pai que me contou ser vítima desta situação era um homem destruído, cansado, choroso, privado da sua filha de dois anos e quem eu dizia que a primeira coisa a fazer era apoiar-se na família, fortalecer-se psicologicamente e acreditar que a justiça dos homens funcionasse. Isto foi há 3 anos. Pelo menos já conseguiu provar que a mãe da filha mentia. Está outro homem. Melhor. Mas os estragos provocados ficarão lá para sempre.

O último e não menos importante caso tem 4 anos. O casamento nunca correu bem. Ele era pai, mãe, sustento da casa, quem tratava dos filhos, quem cozinhava, quem acordava de noite. Para além dos 2 filhos tinha a mulher que parecia ser mais um. Toda a gente conhecia a situação. Era visível demais. Ele era o pilar. E ia aguentando como podia para bem dos filhos. Os problemas começaram quando começou por não deixar os filhos ao fim de semana na casa dos pais. Continuaram porque ela deixou de trabalhar e pioraram com um facto grave que foi o fim. Os pais dela que sabiam de toda a situação gostavam dele e apoiavam-no. Quando se separaram fizeram um acordo escrito, acordado e tratado pelos respectivos advogados, e assinado pelas partes que incluía a permanência dos filhos em determinado colégio. Antes de dar entrada no registo, a mãe rasgou o acordo e andou com os filhos em parte incerta e o pai não os viu durante dois meses. Espalhou um sem número de mentiras. Dizia-se vítima de espancamentos sucessivos, vítima de violência e até de atropelamentos.O mesmo aplicado aos filhos. Factos zero. Provas zero. Relatos dos vizinhos zero. Chamada para a perícia médico-legal não compareceu. Na primeira avaliação psicológica a única coisa que demonstra é querer, sem razão, é não permitir a convivência dos filhos com o pai. Os pais dela desmentem a versão. Não vou entrar em pormenores sórdidos que incluem medicações perigosas para os filhos, mudanças várias de escolas e de casas, retirada dos filhos à mãe... O que mudou: quase nada. Apenas os pais dela, que inexplicavelmente, em vez de defenderem os netos preferem defender as loucuras da filha. Apesar de este pai ser um bom pai, de ter emprego fixo e estável, avaliação psicológica e social mais do que positiva, nenhum juíz (e já lá vão 3) lhe atribuiu a guarda (ainda). Tem tido azar em tudo. Juízes demasiado jovens, sem coragem, médicos incompetentes, psicólogos maus,técnicos pouco aplicados. Vítima de funcionários do Estado que se demitem do seu papel e que não acham este caso (demasiado) grave nem urgente. Este é o perigo dos casos que os outros não consideram graves. Há outros com maior prioridade e (realmente) graves. Gente que faz pouco ou nenhum trabalho de casa e que mal sabe investigar. E gente que dorme bem à noite, sem qualquer remorso. Até lá, espera-se com uma paciência estoica e com um fé que se pede que não desvaneça. Este pai sente-se inútil e impotente por não poder fazer mais do que lutar pelo melhor para os seus filhos e esperar que a justiça dos homens seja feita. Responsabiliza os juízes que optam sempre pela solução mais fácil que é não decidir. Que é passar a responsabilidade para o outro. Isto é o que mais se tem visto. Gente de verdade com muita coragem. Justiceiros. Juízes como Joaquim Silva a quem chamam “defensor dos filhos com pais em guerra”.

E por último, coloquemos na ordem do dia, tal como a violência doméstica, o síndrome de alienação parental.  Pessoas que acham que os filhos são propriedade sua, pais que querem que os filhos escolham e/ou gostem de apenas um dos progenitores e da sua família. Isto é uma calamidade social. E é preciso vive-la de perto. Passar por ela para que saibamos a sua dimensão.

E como me disse uma grande amiga é “ser confiante que as coisas só podem melhorar”. É essa a fé no futuro. E confiar que as pessoas más não triunfarão e que a maldade tem que ser punida.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Caetano apresenta Cristina

6 de Setembro. São quase 9 da noite. A temperatura na rua ultrapassa os 30 graus. Dizem ser o dia mais quente do ano. O Coliseu está praticamente vazio. O calor é mais que muito. E eu adoro calor. Só se fosse para ter o efeito da música: “Calor que provoca arrepio/ Toma esta canção/ Como um beijo”. O Coliseu demora a encher. Perto da hora do concerto começar, a lotação não estava a metade. A conhecida pontualidade dos portugueses. A temperatura subia exponencialmente, quase infernal. Pensei ser para o ar condicionado não afectar as vozes. Antes de começar o concerto eu já tinha bebido duas garrafas de água com gelo, compradas no bar. Cheguei, também, a pensar que esse seria o objectivo. O lucro extra com a venda de bebidas. O concerto começou 30 minutos depois da hora marcada. Este que foi o concerto extra. Sendo a primeiro dos dois. Quase esgotado.

As cortinas abriram e Caetano surge sozinho: "Este espectáculo se resume a uma cantora, um violonista é um compositor. Mas diz tudo sobre a extensão e a profundidade do samba. E por isso eu quero chamar ao palco Carlinhos 7 cordas e Teresa Cristina". Teresa Cristina é uma cantora praticamente desconhecida aqui e eu só a conheço por cantar uma música da Adriana Calcanhotto Beijo sem Aquele samba que fala de uma saída à noite para afogar as mágoas da "dor de corno": "vou á Lapa, decotada, viro todas, beijo bem...". Desta vez, Teresa Cristina vem cantar Cartola. Não posso dizer que adorei. Mas a simpatia, sinceridade, emoção e generosidade dela foram marcantes. Falou do sonho que tinha desde a infância de cantar em Portugal e que por isso era "um sonho com laço rosa". Disse também que o Coliseu foi o sítio mais lindo onde cantou. E os elogios não ficaram por aqui. "Tudo aqui é lindo, a rua, a padaria, a farmácia". E a emoção que é cantar falar numa língua que os outros entendem. Um discurso emocionante e emocionado que incluiu lágrimas. E ela própria sofreu com o calor quando aceitou a oferta e de um leque de uma senhora da primeira fila. 

Copyright: Catarina Henriques
Copyright: Catarina Henriques
Caetano entra e o figurino resume-se a um banco e um violão. Ele, que vem formal, de "paletó" castanho alaranjado, camisa, umas calças chinos e sapatos pretos de atacadores. O concerto dele começou com Um índiouma canção arrebatadora para lá de linda:

"Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás, todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor
Em gesto, em cheiro, em sombra, em luz, em som magnífico
(...)
É aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico 
Mas pelo facto de ter estado sempre oculto
Quando terá sido o óbvio

Seguiram-se Os passistas, Menino do Rio, Minha voz minha vida, Meu Bem, Meu Mal, Esse Cara, por desordem alfabética e de alinhamento, ao sabor minha memória. Caetano, um baiano do Recôncavo, mostra que continua a ser um menino do Rio e que no alto dos seus 74 anos, como o vinho do Porto, melhora com o passar dos anos, como a canção: “Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista/ O tempo não para e no entanto ele nunca envelhece”. Como o Coliseu está mais do que quente, "mais quente do que no Rio", Caetano não resistirá  a tirar o paletó "bonito” (not!). Nesta noite não haverá gritos de "Fora Temer" mas muitas vaias. Introduzirá um samba com: "Recentemente o presidente que era interino até poucos dias atrás no Brasil fez um discurso utilizando mesóclise e a imprensa sacaneou muito porque achou que era uma coisa, sei lá, formal. A mesóclise é uma forma considerada estranha para o coloquial brasileiro mas é bonita. E nesse samba eu faço duas mesóclises: Se desbotássemos, outros revelar-nos-íamos no Carnaval// (...) Amor,/ onde quer que estejamos juntos/ multiplicar-se-ão assuntos de mãos e pés/ e desvãos do ser.”

Copyright: Pedro Gomes
Copyright: Catarina Henriques

Mostrou também que é um poliglota genial e que domina (exemplarmente) no mínimo 3 línguas: Cucurucucu Paloma (do aclamado filme de Almodovar Hable com ella),  London London (uma irmã de Englishman in New York, a mostrar o quão difícil é ser estrangeiro numa grande metrópole: “I know no one here to say hello/ I know they keep the way clear/ Iam lonely in London without fear/ I’m wandering round and round here nowhere to go), Love for sale  (cantada  a capella) e por fim Libertação. Esta última, um fado cantado por Amália sobre um poema de David Mourão-Ferreira e que Caetano disse nunca se sentir preparado para cantá-la em palco. Não foi o que pareceu. O sotaque português beirou a perfeição.

Copyright: Catarina Henriques

Depois não podiam faltar as aclamadas Reconvexo, Leãozinho, Força estranha, Sozinho, talvez as mais aplaudidas e acompanhadas da noite e terminou Luz de Tieta.
Voltou para um primeiro encore, acompanhado: a fabulosa Tigresa (inspirada na Zezé Motta que frequentava a lendária boite Dancing Days que era uma amálgama social: “Me falou que o mal é bom e o bem cruel... Ela me conta, sem certeza, tudo o que viveu/ Que gostava de política em 1966/ E hoje dança no Frenetic Dancing Days /.../ Com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher/ Que tem muito ódio no coração, que tem dado muito amor/ E espalhado muito prazer e muita dor...) Miragem de Carnaval, Como 2 e 2 (que é tão linda e que diz: "Meu amor, Tudo em volta está deserto tudo certo, Tudo certo como dois e dois são cinco"), Desde que o samba é samba. E voltou para terminar, de vez, com Odara. já com toda a gente fora dos seus lugares, junto ao palco e de telemóveis em punho. Momentos inesquecíveis, memoráveis, fantásticos. Bom demais!
Copyright: Nuno Ferreira Santos
Copyright: Nuno Ferreira Santos
Copyright: Catarina Henriques
Copyright: Catarina Henriques


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Lisboa quase um ano depois

Não me lembro de ter estado tanto tempo sem vir cá. Cheguei ao aeroporto no início da tarde. No terminal 1, o Starbucks ao longe chama por mim. Lisboa de repente, em vez de ser Portugal, parece-me que acabei de aterrar nos EUA. Só eu e os funcionários somos portugueses. Perguntam-me o nome. Parece um dejá vu. Peço um regular iced coffee. E escrevem-me o nome no copo seguido de um smile. Quase ninguém me chama pelo nome. Chamam-me irmã, prima, titi, gaja, Anita, Ana Margarida, Martins, Martinez, Ana Martins, Anocas, Aninhas, Anita. Mas o meu nome que é pequeno, e que tem 3 letras apenas, ninguém me chama. E de repente, ouço o meu nome o maior número de vezes em menor tempo. Soletrado em português. E como se já não bastasse a minha alegria de voltar à cidade que mais amo, o sorriso abre sem que eu controle. Como o gelo é muito, volto para trás porque as minhas mãos estão prestes a congelar. Tento tirar um guardanapos e ouço chamar pelo meu nome, mas não ligo, porque Anas há muitas "sua palerma". Mas como continuam, decido olhar. E estendem-me um cartão que colocam nas bebidas quentes. Nunca ser chamada pelo meu nome me deixou tão feliz. O Starbucks é o que os Estados Unidos têm de melhor. É um sítio democrático. 
Dirijo-me aos táxis. A imagem do inferno. Uma fila gigantesca. Tal e qual como nos Aeroportos nos Estados Unidos. Mais pessoas do que táxis. Debaixo de um calor infernal. O dia mais quente do ano, dizem. A sensação térmica e de ter aberto a porta do forno. Desisto e vou para o metro. As filas para tirar bilhetes são muito menores e rápidas. Existe um funcionário que fala em todas as línguas. Eu sou, mais uma vez, a única portuguesa. Assisto boquiaberta a vê-lo trocar notas com uma amabilidade que desconheço nós portugueses, principalmente os do Algarve. Não lhe digo mas não aguento de tanto orgulho de ser portuguesa, perante esta cena. O metro é de 5 em 5 mns e em 20 minutos vou do aeroporto até aos Restauradores. Estou no início da avenida da Liberdade, ou no fim, dependendo da perspectiva. Os nossos Champs Elysees. São quatro da tarde e Lisboa está mais quente do que nunca. Sigo até à Rua Portas de Santo Antão e depois Elevador do Lavra. Só de olhar para a subida e para a inclinação dá-me um calafrio. Com o mesmo bilhete do metro subo o Elevador. No cimo, CEDOC. Vamos colocar a minha mala no carro. E vamos a um geladinho na Mú no Campo Mártires da Pátria. Depois, como as velhinhas, vamos para os bancos do Jardim do Torel olhar para os telhados de Lisboa que parecem um quadro da Maluda. Como temos um concerto e o lugar não é marcado, first come first serve, combinámos às 8:30 na entrada do Coliseu. Mas antes, comer qualquer coisa. Pensamos no Gambrinus mas a passar na Casa do Alentejo vemos que tem uma loja que vende queijos, presuntos, salpicão. Nada mais adequado. Uma sandes gigantesca em pão alentejano de presunto e uma imperial alemã. A sede é tanta que eu nem espero para comer. Bebo como se não houvesse amanhã. Apesar de ser de noite a temperatura não desce dos 30 graus. Parecemos derreter. Mais uma vez, o atendimento é irrepreensível e mais uma vez somos as únicas portuguesas. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Noite branca

Mesmo sem ter estado pessoalmente em nenhum dos 3 dias,  as opiniões e repercussões são as melhores possíveis. Aquilo que há uns anos era apenas uma noite, este ano foi um fim de semana. E desta vez, acho que nem os críticos têm muito a apontar.Sexta-feira à tarde disseram-me que a cidade estava inundada de gente. Durante o fim de semana, os autocarros circularam em horário extraordinário e de frequência regular. Os grandes concertos incluíram nomes como Carminho, Miguel Araújo, The Gift e Sérgio Godinho + Jorge Palma.  Houve actividades para os mais pequenos que incluía actividades como contar histórias, desenhar em paredes, construir a própria máscara, ofertas de algodão doce. Os museus estavam abertos e de entrada livre. As ofertas gastronómicas eram muitas. Orquestras sinfónicas e música clássica no Theatro Circo, assim como, DJ’s.  Cenas alternativas no GNRation. Danças no Largo São Paulo. Instalações espalhadas pela cidade. Performances. Bandas. Desta vez, parece que não há do que nos queixar. Ofertas para todos os gostos. Gente, muita gente a percorrer a cidade a pé. Uma cidade que foi para os pedestres. Não podemos deixar de aplaudir. O tempo também ajudou. É com estas dinâmicas que Braga se deve transformar. Uma cidade com diferentes ofertas culturais. Uma cidade pedestre, voltada para a rua e para o seu património e mostrar o que de melhor há. Havendo eventos, as pessoas saem à rua. Por isso, os organizadores, estão de parabéns.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Afinal houve golpe, não se consegui "botar" para fora Temer, e a querida saiu

Deixei de ter paciência para discutir sobre o Brasil. Aconteceu o mesmo quando há quase um ano o PS com uma coligação pós-eleições tomou “de assalto” o poder. Nada tenho em comum com este PSD. Mas a verdade é para ser dita. A coligação que ganhou as eleições não foi a que assumiu o poder. Foi, mas chumbaram o governo no parlamento. A história e os pormenores técnicos toda a gente os sabe. Mas os mesmos que tomaram de assallto o poder, os que o defendem e os que acham que esta esquerda é um governo ligitimo, são os mesmo que quando no Brasil se falou pela primeira vez em impeachment apelidaram-no de golpe.

Não sou analista política nem percebo nada de leis e estou apenas a dar uma opinião pessoal. Acho que se alguma vez um governo poderia ter sido destituído, esse teria sido na época da descoberta do “mensalão”. Aquele célebre caso em que o Lula era tão inocente que afirmou desconhecer o esquema e no qual muitos dos seus mais próximos foram presos, incluíndo José Dirceu. Contra o Lula tenho tudo. É uma espécie de Sócrates mas sem o mesmo nível e sofisticação. Acredito que será melhor pessoa. Mesmo depois de tudo, Lula, continua a ter mau gosto, a falar mal português, a precisar de umas aulas de etiqueta e por melhor que se vista e por mais banhos que tome, nunca deixará de ter ar de suburbano. Quando o acusaram de corrupção, os bens que lhe eram atribuídos, não era um apartamento num dos bairros nobres de São Paulo ou na zona sul carioca, mas um triplex nos subúrbios- São Bernardo do Campo. A outra propriedade, digamos mais de veraneio, ao contrário de ser numa charmosa ilha de Angra, Búzios ou Paraty, era na zona costeira paulista, que qualquer pessoa minimamente viajada nunca ouvira falar. Isto para dizer que se o Lula roubou, roubou à sua imagem, mal. Ou seja, nem gosto teve para roubar. Até no acto de roubar é simplório.

Pois bem, Lula saiu e ganhou Dilma. A sua seguidora. Mulher, estudada, imagem da resistência à ditadura brasileira e capaz. Apesar dos seus discursos serem incompreensíveis ou como muitos dizem, de ser numa língua que a própria inventou, “dilmês”. Tenho para mim que o maior erro da Dilma é defender até à morte o seu padrinho político, Lula. Acho que só ganharia se soubesse criar um novo caminho. Foi afastada por um crime que não cometeu. Foi julgada por uma manobra política por senadores que nada têm de juízes. O compadrio, a senzala e os coronéis venceram. A perpetuação do poder parece instalada. A boa e a má notícia é que todos os políticos poderão concorrer nas próximas eleições.

Mas depois surge-me a grande dúvida: as pessoas que apoiam o PT e a Dilma  (e o Lula) são as mesmas pessoas que estiveram caladas perante a ditadura de Cuba, os mesmos que contrataram e apoiaram a ida de médicos cubanos para o Brasil a pagar-lhes menos de que aos médicos brasileiros (os médicos cubanos recebiam uma parte e o governo cubano outra); são os mesmos que apoiaram a subida de Chavez ao poder e os seus grandes amigos; são os mesmos que se calam e assistem impávidos e serenos à vergonha que se passa na Venezuela onde falta tudo; os mesmos que apoiam o Evo Morales... Assim sendo, como é que eu posso escolher um lado?

O Presidente Temer, que não foi eleito pelo povo mas que a constituição brasileira permite que seja presidente vai se-lo durante os próximos 2 anos. Um Vice-Presidente que traiu desta maneira a sua Presidente não lhe espera um futuro muito risonho. Vende-se por pouco. E deixa ficar mal os seus colegas da grande disciplina que é o Direito, a Universidade do Largo São Francisco e o título de Doutor que não honra. Colherá o que semeou. Como o ciclo da vida. "Não há mal que dure sempre nem bem que nunca acabe". E depois tem ainda o defeito triste dos homens que não sabem envelhecer: a necessidade de ter ao seu lado uma barbie com idade para ser sua neta.

Todos, acusados ou não, culpados ou não, julgados ou não, arguidos ou reus, vão poder candidatar-se nas próximas eleições. O que é um pronúncio muito optimista, não haja dúvida. Num país onde não existe vergonha, todas estas pessoas não terão qualquer problema em voltar a candidatar-se. Evangélicos, religiosos, palhaços, analfabetos funcionais, pessoas capazes das cenas tristes que foram divulgadas ao mundo do Congresso brasileiro.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A amizade

A amizade, como o amor, não se explica. Há quem diga que tem muitos amigos. Eu não. Há quem diga que as amizades não acabam. A minha experiência também me diz que pode, sim,  acabar. O que é verdade numa amizade, ao contrário do amor, é que nunca se fica a odiar a outra pessoa, apesar de tudo. Mas eu também não odeio ninguém, seja porque motivo for. Esse sentimento nunca tive por ninguém. Nunca tive muitos amigos. Dizem que não gosto de quase ninguém, a esse ponto. Dizem que gosto pouco de pessoas. Gosto muito de algumas pessoas.  E os meus amigos são aqueles a quem eu dei uma oportunidade. Às vezes em situações difíceis, que não me envolviam, tentei ajudar usando o meu humor judeu. Isso já me valeu o afastamento de algumas pessoas por quem eu tive que lutar. O que é uma verdadeira amizade? Quando damos conta que o tempo passou, e que apesar da distância e da rara convivência, a intimidade permaneceu. É não ter capas. É falar verdade. É ser transparente. Mas não há regras nem fórmulas.

Durante muitos anos, os amigos que me acompanharam e partilharam a vida, vivíamos como se não houvesse amanhã. Dançávamos, coisa que nunca fiz em público a não ser que a concentração alcoólica fosse alta. Fumávamos sem conta e sem limite. Fizemos muitas loucuras. Nunca nos cansávamos. Tínhamos asas muito grandes. Fizemos interventions uns aos outros. Testámos os nossos limites. E isso passou. Há um tempo para tudo. Hoje, alguns, permanecem.

Tenho amigos de cá e de além-mar. Amigos malucos, neuróticos, chatos. Amigos com pinta. Amigos que não gostam de ler e que gostam de ler. Amigos que tocam piano.  Amigos de todas as horas. Amigos que choram no meu ombro e no meu colo. Amigos que já me viram chorar e com quem chorei ao telefone. Amigos que me ampararam as quedas e os tombos. Amigos que me salvaram a vida mais do que uma vez. Amigos que são irmãos. Amigos que me dão sobrinhos. Amigos que se riem do meu humor judeu. Amigos que se desfazem e que “estão tão à flor da pele que qualquer beijo de novela os faz chorar”. Amigos que perdoam. Amigos que pedem desculpa. Amigos que se esquecem. Amigos que contam e guardam segredos. Amigos que se expõem e que não fingem. Amigos que não se fazem de fortes. Amigos sinceros e honestos. Amigos com corações muito grandes. Amigos com coração sem tamanho. Amigos que me dizem que me adoram. Amigos que eu reconheço as mãos no escuro.  Amigos que nunca me abandonam e que já me abandonaram. Amigos que vão e que ficam. Amigos mega, tera, giga bons. Amigos que acreditam. Amigos que respeitam. Amigos que se fazem de fortes. Amigos que cantam e que pintam. Amigos que ouvem e que falam. Amigos de todas as horas e de todos os dias. Amigos íntimos e mais afastados. Amigos sem definição.

É assim que eu queria que os outros me descrevessem quando morresse: uma boa pessoa, uma grande amiga que sempre fez bem. Este é o meu objectivo maior.


domingo, 28 de agosto de 2016

A pessoa que escolheu apenas (sobre)viver

Passaram-se 21 meses e 15 dias desde que ele se foi embora. Sem uma explicação. Sem um pronúncio. Sem uma sugestão. Sem nada que indicasse um fim.  Tudo é “eterno enquanto dura”. Ela escolheu ser infeliz. Uma eremita. Uma anti-social. Uma Greta Garbo (que não vive em NY). Fechou-se para a vida. Só se pergunta o que fez de errado, como se houvesse (alguma) ciência nos finais. Podia ter optado por sair todas as noites até de manhã e dormir de dia. Sendo livre, podia abraçar toda a gente. Tinha a liberdade de escolher com quem sair. Bebia todas. Pedia uma bebida e traziam-lhe uma bandeja. Saía como se não houvesse amanhã. Beijava bem. Não era de ninguém. Tinha sempre o copo cheio, pela madrugada dentro, até ser dia. Até que sentia-se mais sozinha com o passar do tempo. Era mais uma no meio da multidão. Agora, não perde tempo a conhecer ninguém. Como se tempo não fosse o que mais tem.

Tem vivido o inferno de Dante. Não vive no presente, só no passado. Não tem futuro. Deixou de saber conversar. Só frases curtas e soltas. Toda a gente desistiu dela. Ninguém aguentava (mais) aquela depressão. Aquelas frase feitas. O pessimismo. A crítica ao ser humano. Cansaram-se de que lhes pedisse espaço. Não deixa que tomem conta dela. Nem que se aproximem. Os amigos desapareceram. Depois os colegas. Depois os conhecidos. Depois os que acabava de conhecer. E no fim, ficaram apenas os cães, que não cobram nada.

Não consegue distinguir a pessoa que foi nem na que se tornou. A irracionalidade tolheu-lhe o juízo. Não consegue mais ver o lado mais bonito de si. De como é bonita por dentro e por fora. O que ela sente é uma tristeza sem fim. Tem estado muito doente. Os médicos dizem-lhe para fazer o que lhe apetecer. Mas nada lhe apetece. Passa os dias a olhar o céu e o mar. Olha para o infinito. Vive de memórias. Ele não lhe sai da cabeça. Acha que amar sozinha também vale. Melhor um monólogo que nada. Vive de migalhas. O coração, esse orgão tão físico e tão complexo só lhe dá (falsas) esperanças e (falsos) sinais. O coração é o mais irracional dos orgãos. A razão mostra uma coisa e o sentimento indica a direcção contrária. A esperança que não cessa. Apesar do tempo que passou, não consegue entender a palavra fim. E que essa palavra, segundo as estatísticas, não tem continuação nem (re)começo. Não conseguiu mudar a página.Talvez um dia consiga reparar, dentro dos seus olhos cor de amêndoa, no instante que passa. A vida é uma viagem curta. Sente-se a morrer por dentro. As lágrimas não param de lhe cair. E todos os dias as seca. Os diamantes duram para sempre mas as pessoas não. Mas agora, ela (apenas) conta as horas e os minutos para que a morte chegue.

Coração bordado em tela by Daniela Ktenas.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

MICHIZAKI

Doze de Julho de 2016

Aproveitámos para comemorar o regresso da C. e do F. ao mundo depois de terminarem a escrita e a entrega das teses de doutoramento. O pior, segundo a maioria diz, está feito. Para mim, o pior, que é a defesa pública, ainda está para chegar. Felizmente para eles, que discordam de mim, a defesa será peanuts. Como nós arranjamos qualquer desculpa para festejar, o que quer que seja, fomos ao Michizaki. Ao contrário da maioria dos restaurantes japoneses all you can eat que servem os clássicos sushi, sashimi, crepes, temaki, katsu... em alguns restaurantes encontra-se ramen (mas não em Braga). Os melhores que experimentei em Portugal são o Gosho e um que acho que já fechou em Lisboa que era na R. da Misericórdia: UMAI.

Este Michizaki é pequeno. Convém reservar mesa. Tem um balcão onde se vê os chefs a preparar os pratos. Tem uma decoração minimalista e bem conseguida. Tem umas cadeiras lindíssimas e alguns bonsai. Não parece um restaurante mas um bar. A ideia é de degustação. Tudo é servido em pequenas doses (3 ou 4 unidades). Tem um boa carta de bebidas. Eu escolhi uma sakerinha (uma espécie de caipirinha com sake com pouco ou quase nenhum açucar). Pelo menu percebemos que existem diferentes opções para o almoço e para o jantar, incluindo o almoço, as famosas bento box. O que nos despertou o interesse foi saber que havia Tokoyaki  (uns bolinhos com polvo que são servidos a escaldar). Foi o que mais comemos. Experimentamos diferentes tipos de sashimi. De ressaltar que a variedade de peixes era maior que a normal e que a qualidade era perfeitamente distinguível. Comemos ainda uma massa vegetariana e pickles japoneses (que estavam maravilhosos). Eu comi ainda uma sopa miso.

O serviço é rápido. A espera entre os pratos mesmo quando se pede para repetir é muito aceitável. O ambiente é agradável. O espaço tem bom gosto. Produtos de óptima qualidade. Vale muito a pena. Não é barato nem nada que se compare (para se ficar satisfeita e eu como pouco): + 30 €/pessoa. Não é para desanimar nem para demover a vontade de experimentar. O preço é alto, mas justo. Para a qualidade e a experiência é um must go.



Copyrights: Braga Cool e Michizaki.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Um banho de humildade

Tudo na minha vida profissional sempre me indicou que não podia ser (demasiado) optimista. Quando achei (alguma vez) que tinha alguma coisa para o ser, o universo encarregou-se de mostrar-me o meu devido lugar. Fiz um doutoramento sem nunca ter tido uma bolsa da FCT. Perdi as vezes que concorri e não tive. Acho que bati o recorde: no número de vezes que alguém concorreu e que não conseguiu. Podia entrar para o Guiness. Talvez tenha sido esse facto que treinou a minha paciência e a minha “não desistência”. Nunca desisto de nada antes de achar que acabou. A célebre frase: “se o fim não foi bom é porque não acabou”. Depois, quando acabei o doutoramento, uma ideia revolucionária dada por um grande amigo e a leitura obsessiva sobre o assunto durante um mês, resultou numa das maiores alegrias da minha vida profissional: uma bolsa de pós-doutoramento da FCT. Essa bolsa permitiu-me arriscar numa nova área, viver na cidade que sempre quis, trabalhar com quem quis e evoluir. Comecei de novo. Do zero. E com isso, com todo o banho de humildade de aos 31 anos começar a (re)aprender tudo de novo. Sem vergonha de questionar, de não saber, de pedir. Ao contrário da maioria dos pós-docs do meu laboratório, fui para fora e apostei numa nova área. Com todos os contras que isso implicava, teve as suas vantagens: ensinou-me muito e permitiu-me independência. Perder a vergonha foi o maior ensinamento. E o outro foi acreditar nas minha capacidades. A minha auto-estima profissional cresceu muito. Quando o elogio vem de pessoas que defendem e acreditam na meritocracia, esse é o desfecho.


No ano passado concorri pela primeira vez a Investigador FCT. A saga das rejeições regressou. Não tive. Este ano concorri novamente. Passei à segunda fase. Um dia antes das férias recebo o veredicto. Foi a maior pancada profissional deste ano. Foi um KO imediato. Não o resultado mas o comentário. Para mim, não existe nada pior do que a crítica injusta. Aceito (quase) tudo mas não lido bem com a injustiça e a ingratidão. Nesse dia fui para casa e fechei-me. Uma amiga disse-me “Podes gritar. Eu deixo-te”. Não consegui. Nem  gritar nem chorar. Mas uma dor imensa tomou conta de mim. É nestas alturas, em que o nosso ego é posto em causa, que vacilamos e descemos à nossa humilde condição de humanos. Olhamos em frente, relativizamos e descobrimos que a melhor maneira de continuar é não nos levarmos muito a sério. Por cada vitória e conquista teremos sempre uma proporção imensa do outro lado da moeda. A vida é assim. E a melhor recuperação é pensar sempre que não há nada como dormir porque amanhã será outro dia.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Cumpriu-se Portugal

O Infante

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Este foi o poema de Fernando Pessoa do livro “Mensagem” que saiu no meu exame de Português no 12º ano. Começámos pequenos, com a conquista do que é agora Portugal aos Mouros. Fomos grandes na época dos Descobrimentos, que apesar de todo o mal causado aos povos nativos, teve o mérito de espalhar a língua portuguesa pelo Mundo. Tivemos as invasões Napoleónicas. Sobrevivemos e resistimos. Um grande português deu a independência ao Brasil (Grito de Ipiranga). Demos a independência a Goa, Damão e Diu, Timor e a todas as colónias de África. E finalmente Macau. Voltamos ao pequenino que sempre fomos. Não sendo, como se dizia no tempo do Estado Novo que Portugal era “do Minho a Timor”, mas do Minho ao Algarve (Portugal Continental) e ilhas (Açores e Madeira).

Os franceses demonstraram mau perder. Acreditavam que já estava ganho. O autocarro já estava pronto. A Torre Eiffel que sempre se iluminou com as cores da bandeira nacional que ganhara, apagou-se. Ganhar é bom mas saber perder é uma virtude. Um país a achar que era superior...

Pelo Ronaldo que saiu pequenino da Madeira que teve uma infância mais do que humilde e que, como a mãe, sonhou o sonho de ser feliz. Ele é o exemplo para muitos meninos espalhados pelo mundo. E a mim, particularmente, faz-me acreditar que tudo é possível e que nada está predestinado à nascença. Um menino que disse em tempos à sua mãe:  “A mãe que não chore. Quando for grande, vou ganhar bastante dinheiro. Vou comprar uma casa e tirar a mãe do trabalho”. Dizem que todo ele é força de vontade e muito trabalho. E um homem bom.

Pelos portugueses espalhados pelo mundo que já ouviram uma piada/crítica/comentário xenófobo, pelos emigrantes que algum dia foram humilhados, pelos portugueses que fazem sucesso, pelos muitos que brilham, pelos muitos estudantes, pelos que trabalha arduamente e honestamente. Isto também é a vitória deles.

Como diz Fernando Pessoa “a minha pátria é a minha língua”, talvez seja isso que une os portugueses espalhados pelo mundo. Dizem que somos 11 milhões, mas somos mais. Mundial ou um Europeu como o deste ano, só vivi o de 2004 ou quando estava nos EUA. Nessa altura que me senti uma emigrante. Privilegiada mas emigrante. Estar longe da pátria. E quando se está longe é quando mais se sofre e quando mais se ama. Saudade, essa palavra tão portuguesa que não tem tradução.

Como escreveu uma grande amiga “Porque já estive lá fora e sei a falta que o nosso país nos faz e a alegria que é quando aterramos em casa. Pode ser futebol e 11 malucos com a bola nos pés, mas hoje é uma alegria que dão aos 11 milhões. Aproveitemos. E acreditemos que conseguimos. No futebol e na vida”. É (só) isto! Ontem e hoje. “Sonhar é grátis”, como disse o Ronaldo. Só vacilei quando ele saiu lesionado. Aí achei que estava tudo perdido. Mas os 11 em campo, apoiados pelos milhares no estádio e milhões em Portugal e espalhados pelo mundo, continuaram a acreditar. Se não tivéssemos ganho não seria o mesmo. Mas o sentimento de gratidão seria igual. É (só) futebol. Mas sonhar e acreditar que é possível é a melhor metáfora da vida.

Ganhámos contra tudo e contra todos. Dizem que jogámos mal, que não merecíamos. Pelos que nos chamaram nojentos, que nunca acreditaram que seria possível, que nos criticaram, que falaram mal, que nos consideraram menores, que só sabíamos construir casas e ser porteiras, que nos humilharam. “Não importa se jogamos bem ou mal, o que importa é levar a taça para o nosso Portugal”.  

Que esta vitória sirva para termos orgulho e acreditarmos sempre. Nada é impossível. E como dizia alguém: “O céu é o limite”.

E domingo, merecidamente, com justiça e pelos portugueses espalhados pelo mundo, ganhamos! Demonstramos união e espírito de missão, e isso é quase tudo! E no dia seguinte fui de directa trabalhar, depois de muito festejar e de o barulho na minha rua não ter terminado até de manhã. No dia 10 de Julho cumpriu-se Portugal! Obrigada!














quinta-feira, 7 de julho de 2016

Sonhar é grátis

Quando tudo corre bem, todos falam bem. Mas a verdade é que esta selecção ouviu de tudo desde o início do EURO 2016: a equipa não era forte, não tinha suficientes valores individuais, CR7 não estava ao melhor nível, não jogava um futebol bonito, teve sorte,quem mandava na selecção era o Jorge Mendes e a Nike, o Messi é que é, Fernando Santos não é um bom treinador... Talvez por excesso de críticas, desde o início, acreditei nesta selecção. Não sei exactamente o motivo. Não jogávamos bonito mas éramos eficientes. No final era sempre a sensação de dever cumprido. Temos um seleccionador que antes de ser um grande treinador é um senhor e um grande ser humano. Um homem cheio de valores e que acredita e mima a sua equipa. Os jogadores parecem estar mais unidos que nunca e parece que querem tanto ganhar quanto os adeptos. Não sei o que me fez acreditar que estaríamos na final. Mas acho que estes jogadores merecem e os portugueses também. 

Numa época que estamos tão cheios de maus exemplos, de crise, de austeridade, de má governação, de más notícias, de roubalheira, de fuga aos impostos, temos um CR7. Um jogador que não desiste de investir em Portugal. Vejam o último CR7 Hotel. Vejam o encanto daquela família. Um jogador que apesar dos milhões que ganha não quer ser (só) milionário basta-lhe ser rico. Não foge aos impostos. Não foi apanhado nas listas dos paraísos ficais, por exemplo.

Quando vimos o primeiro golo de CR7, o que pensamos é que desafiou as leis da física. O que muitos o acusaram, de não estar ao seu nível nos jogos anteriores, culminou no grande primeiro golo e na assistência para o segundo. E o que é mais bonito? O melhor do mundo (ainda) chora! E diz coisas tão simples e tão tocantes como: “Sonhar é grátis”. #JesuisPortugal!


 Se fosse a escolher quem quero na final preferia a França para o “acertar” de contas quando fomos eliminados por causa de uma suposta mão do Abel Xavier. Ainda se lembram? Principalmente para alegria dos milhares de emigrantes portugueses França e que vão encher Paris no Domingo. E depois para todos os portugueses em Portugal e espalhados pelo mundo. Que alguma coisa nos faça alegres por algumas horas. O tal do sonho. Sejamos grandes por um dia!









quarta-feira, 22 de junho de 2016

Cristiano Ronaldo

O Cristiano Ronaldo não precisa que o defendam. Mas num mundo como o que vivemos, que é muito mais fácil criticar do que enaltecer, e muito mais fácil humilhar do que aplaudir, junto-me ao grupo daqueles que não esquecem os feitos deste grande jogador.

Não podemos nunca esquecer qual a origem do Ronaldo e que faz dele um grande exemplo. Um menino de uma zona muito pobre da Madeira que tinha, se não fosse o seu enorme talento e trabalho, um destino comum ao de tantos outros. No entanto, ainda menino foi para Lisboa onde se formou nas escolas do SCP e antes do 20 anos era já jogador do Manchester United. Depois, tornou-se numa das mais caras transferências de sempre do futebol quando se transferiu para o Real Madrid. Este jogador pago a peso de ouro, ajudou toda a família, amigos e muitos mais. As irmãs e a mãe têm mais do que uma mala Birkin que custam mais de cinco milhares de euros, numeradas e feitas manualmente. Ele faz com que os sonhos dos seus mais próximos se concretizem como se da lâmpada de Aladino se tratasse. O Ronaldo nas passagens de ano manda fechar o Ritz do Funchal a família e amigos. Aluga barcos e aviões. Paga férias de luxo aos que mais gosta. Tem casas em Madrid, Lisboa, Gerês, NY e Algarve, só para dizer algumas.

Sei de muitas doações que faz anonimamente a crianças e adultos vítimas de cancro e doenças raras. Já todos vimos as muitas acções que faz quando alguém lhe pede uma camisola ou alguém que contra tudo e todos quer com ele tirar uma selfie.

Assume e tem orgulho da família que tem, tem nela o seu exemplo e a sua maior força, vive orgulhosamente com a família. E depois, é unânime o que dizem sobre ser um profissional exemplar, metódico, correcto, trabalha sempre muito, mais e melhor.

Há 12 anos quando estava a tirar o Doutoramento em Houston ia frequentemente a uma loja de conveniência e um dos funcionários adorava o Ronaldo. Naquela altura ainda não era o astro mundial de hoje mas esse rapaz já lhe previa um grande futuro. Tinha uma camisola dele da selecção portuguesa. Lembro-me que nesse ano foi o Mundial de 2006 na Alemanha e a diferença horária era de 6 horas. Os jogos eram sempre de manhã ou à hora de almoço. Só quem está fora do país é que sabe do que é que falo. Não se explica por palavras. Parece que somos melhores portugueses. Chora-se a ouvir o hino. Temos um orgulho imenso e qualquer motivo é suficiente para nos juntarmos. E foi o Ronaldo que levou novamente o nome de Portugal ao mundo. É verdade, por mais que muitos queiram negar e não ver as evidências. Lembro-me ainda há muitos mais anos ouvir uma entrevista da Purificação Tavares no rádio em que ela dizia que quando estava nos Estados Unidos fazia kms para ir ver uma equipa portuguesa de qualquer coisa.

Em NY toda a gente conhece o Ronaldo, principalmente pelos grandes cartazes de publicidade da Armani espalhados pela cidade. Foi por causa do Ronaldo que a Irina Schayk se tornou numa modelo mediana e com acessos directos a mundos restritos. Ronaldo é um nome por si só que tem valor.
Basta de crucificarem o rapaz porque falhou um penalti e porque muitos dos seus remates teimaram em não entrar. Mas não o acusem, por favor, de não ter lutado! Há dias assim, menos bons para todos, E ele, apesar de especial, é (também) humano.

Hoje, concordo com a Dona Dolores que Portugal vai ganhar e eu acredito (ainda mais) que vão ser vários os golos. Os emigrantes merecem esta festa para comemorarem. Os portugueses merecem para se esquecerem (por horas) da crise em que teimamos não sair. Os jornais e os jornalistas precisam de fazer um mea culpa.


E eu espero que depois deste Europeu, dos anos de sucesso que o Cristiano Ronaldo ainda tem pela frente como jogador, tenha a coragem, tal como outros, de fugir ao preconceito instalado e ao machismo no futebol e assumir-se orgulhosamente. Um homem honesto, talentoso, um exemplo só se tornará ainda maior quando se assumir por inteiro. E aí sim, ainda mais palmas e elogios merecerá porque os enormes exemplos são eternos. É o que sobreviverá para sempre e ficará escrito nos livros.

Copyright: RR

P.S. Quanto ao episódio de hoje de manhã em que o Ronaldo atirou o microfone da CMTV ao lago fez muito bem. Pegar no microfone e atirá-lo sem magoar ninguém foi a coisa mais sensata que fez. Aquilo que aqueles pseudo-jornalistas fazem não é jornalismo... nem sei que nome chamar aquilo. Podia ter sido muito pior. Eu atirava-o ao jornalista ou dar-lhe-ia um murro.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Uma carta para os pais, para os homens, e para a família deles:

- Quando se casarem, mesmo que descubram que se enganaram, que a pessoa com quem se casaram não existe mais, que tudo não passou de uma ilusão, que as pessoas de facto não mudam (só se for para pior), não coloquem a hipótese de se divorciarem;

- Se por acaso tiverem filhos, o problema (só) aumenta exponencialmente, e em vez de “não colocarem a  hipótese de se divorciarem” mudem para “nunca se divorciem;

- Leiam as estatísticas de quantas mudanças, guardas, e responsabilidades parentais foram atribuídas aos pais (homens) desde a última mudança da lei. Acreditem nelas (porque existe a tendência para achar que é mentira e que os direitos são iguais, afinal estamos no séc. XXI);

- Quando vos disserem que os direitos de pais e mães em relação aos filhos são iguais, riam-se e relativizem. Nem sempre o que está escrito corresponde à verdade. O Direito não é uma ciência e muito menos exacta;

- Quando vos disserem que os magistrados são a classe mais bem preparada do país, esqueçam. A quantidade de juízes e procuradores aplicados, estudiosos, competentes, progressistas e que não sejam tendenciosos é como encontrar um grão de areia branca num areal preto (Eu que nunca mais oiça dizer que os médicos portugueses são maus porque me vai dar um ataque);

- O máximo que poderão esperar da decisão do tribunal é a “chapa 5”: um jantar todas as quartas-feiras, um fim-de-semana de 15 dias, Natal, Páscoa e aniversários à vez e uma via sacra de martírios, de vergonhas, de cenas, de espectáculos, de insultos, de mentiras e gastos de rios de dinheiro em Psiquiatria;

- Pelas experiências empíricas que conheço, em 4 anos, zero sessões de julgamento para alterações da guarda. Apenas, conferências de pais, requerimento para aqui e para ali, relatórios de psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, CPCJ, hospitais, papéis, tinta, muita tinta, resmas e resmas que ninguém lê, árvores abatidas;

- Encontrem conforto nas palavras dos poucos que ainda defendem  as crianças, não ligando ao género dos pais, mas aquele que é mais competente. A anotar: Dr. Maria Saldanha Pinto Ribeiro e Prof. Daniel Sampaio;

- E para aqueles que acham que as mulheres são todas iguais, não generalizem. De facto, as grandes mulheres existem e andam aí: “Vou dizer uma coisa que muitas mulheres detestam que eu diga, mas, hoje em dia, há muitas situações em que os homens são prejudicados e são discriminados. Dou como exemplo o que acontece na regulação do poder paternal. Normalmente o que acontece é que as mulheres, por serem mulheres, são beneficiadas judicialmente em detrimento dos homens. Não estou a dizer que não haja casos em que isto faça sentido. Agora não pode ser um princípio geral de que as mulheres serão sempre melhores como mães. Isto é uma questão de igualdade e mais, é de bem-estar das crianças. Não podemos defender a igualdade dizendo que nós somos mais iguais que eles. Não. O que temos de discutir hoje é a igualdade em tudo, quer nos casos em que as mulheres são discriminadas quer nos casos em que os homens são”-Doutora Graça Fonseca, actual Secretária de Estado Adjunta e da Modernização Administrativa, Jornal Público, 01/02/15.

- Ser crente ajuda. Para quem tem fé, acredita que se a justiça dos homens não funcionar, a justiça de Deus funcionará. E mesmo quando tudo parecer perdido, há sempre um milagre à espreita. Para quem não acredita, para além de não encontrar conforto terreno, passará acreditar que existe sempre mais fundo;


- Termino a sugerir a todos os licenciados e mestres em Direito: escolham como tema de doutoramento uma análise de decisões dos Tribunais de Família e Menores do norte do país (tradicionalmente mais conservador) e comparação das decisões da guarda dos filhos por género.

domingo, 12 de junho de 2016

O elogio a uma vida boa e longa

Hoje vamos exaltar apenas as virtudes e a qualidades de um homem de família. Marido. Pai. Irmão. Amigo. Um homem austero. Sério. Duro. Forte. Conservador. Tradicional. De bom gosto. Antecipava cenários e crises. Por vezes, exagerado. Trabalhador. Crente. Defensor das mulheres. Sempre defendeu a sua emancipação e a sua independência, sobretudo profissional. Conversador nato. Recto.

Teve uma vida boa. E quando a doença apareceu não houve muito que a Medicina pudesse fazer para o curar. Aceitou a doença e foi um bom doente. A voz, que era a sua característica e identidade, modificou-se, mas não se perdeu.

A última vez que o vi, tinha já sido diagnosticado. Uma semana antes da Páscoa. Se eu não soubesse não acreditaria. Estava igual ao que sempre foi. Crítico da política. Elogiou grandes homens. Criticou maus exemplos. Propunha soluções. Acompanhado, como sempre, pelo seu vinho branco que tanto orgulho tinha. Como sempre à volta da mesa e do famoso lanche. O que eu vi naquele dia foi um homem (ainda) cheio de energia e optimismo que me mostrou como se via mensagens no telemóvel e um cartão pré-pago especial para falar quando quisesse com a minha madrinha na Austrália. Nesse dia, levei duas garrafas de jeropiga, que lhe disseram que eu gostava. De facto, a melhor jeropiga do mundo. 

Como no salmo, o Senhor foi sempre o seu Pastor e por isso nada lhe faltou. Nos últimos dias, quando as forças lhe começaram a faltar, nos limites da condição humana, viveu uma vida de qualidade, apesar de difícil. As noites eram longas e silenciosas. Sempre contou com a melhor das ciências dos homens e com a Graça de Deus para não ter medo. Aceitou e soube viver com isso. Não se revoltou nem desistiu.

Nunca é fácil perdermos uma pessoa que gostámos. E sobretudo, achamos (sempre) que foi cedo demais e que tinha (ainda) tanto para dar. Mas a parte boa é que teve 79 anos de vida saudável e sem limitações.Teve o fim da vida ideal e que todos desejam. Rodeado e assistido pela família, que tudo fizeram. Nunca esteve só. Suportado pelo amor. Em casa. Em paz. Preparou tudo. Esteve lúcido, quase até ao fim. 

Em especial, para a família, sintam-se orgulhosos deste homem e do que por ele fizeram. A forma como o acompanharam e se apoiaram na doença é um exemplo. Sintam-se abraçados e confortados pelo vosso exemplo. Bem-hajam.

facebook