sexta-feira, 28 de julho de 2017

Dessa vez

Tarde amena, sol, céu mais ou menos azul turquesa, leve brisa. Coimbra lá fora e calçadas pisadas por estudantes que carregam as suas pastas e livros, muitos livros nos braços. Nesta cidade dos estudantes e doutores já ninguém está de capa. Agora, o tempo é de estudar porque aqui a fama é de passar (apenas) quem souber.

Só existem os registos da memória de uma tarde de comida baiana que incluiu acarajé, abará e  vatapá regado com Quinta do Carmo branco. Os sabores e ingredientes fortíssimos da Bahia provaram não causar mal nenhum. O som não era baiano. Estes baianos de São Salvador não mostraram saber sambar, nem balançar. Não têm pulseira de ouro. Mas têm fita do Senhor do Bonfim, brinco de ouro, um jeitinho que Deus deu e graça como ninguém.

O cenário será os jardins onde (também) aconteceu uma das mais belas histórias de amor em Portugal (Pedro e Inês). Camões eternizou-a num dos seus cantos d’ Os Lusíadas. E está inscrito junto à Fonte dos Amores, de onde brotam as lágrimas e o sangue de Inês, até que o tempo e a água o apaguem.

A noite cai em Coimbra, tardia como todas perto do solstício. No anfiteatro da Colina de Camões na Quinta das Lágrimas, a lua aparece. Ao fundo, muito ao fundo, vislumbra-se a Universidade iluminada. Hoje não é uma lição. Hoje é apenas um concerto, Dessa vez. A cantora hoje será apenas uma cantora e uma performer. No máximo ousará tocar o seu novo instrumento, cortar o seu mais recente livro com as suas letras reunidas e fará uma leitura de um poema da Adília Lopes. Para minha tristeza, não interpretará Poética do eremita. Mas mostrando a sua generosidade, e que os artistas não estão (apenas) enclausurados no seu mundo, e estão abertos a ele, acederá a um pedido de cantar Seu pensamento (pedidos funcionam “só se eu souber e puder atender”).

não é o conhaque 
nem a lua
mas o vinho
mas as promessas 
que me movem como o diabo
Sarah Cohen

Aparece numa pontualidade britânica, sem o jeitinho brasileiro e português do famoso atraso. Dizem que chega sempre antes da hora. O traje é o mesmo vestido longo de veludo azul marinho Gilda Midani do espectáculo Das Rosas. Neste caso, acrescentou-lhe um cachecol da mesma cor.  Começa e nós ainda não nos sentámos. Na primeira fila está o Ministro da Cultura, o Presidente da Câmara e o Professor João Caraça. Temos um lago, que torna o cenário ainda mais bonito, a separar-nos do palco. A primeira música é Esquadros uma daquelas que toda a gente conhece e que um dia um produtor musical surpreendido pelo título, atreveu-se a perguntar: “Você acha mesmo que uma canção chamada ES-QUA-DROS vai tocar no rádio?”.

No concerto incluiu: Vim pra verFado Tropical, um poema musicado de Martim Codax, cantou D. Dinis e Negro amor. A pedido do Miguel Júdice cantou Nature Boy que termina com os magníficos versos:  "the greatest thing you'll ever learn, is just to love and be loved in return".

Cantou as (quase inéditas): Era pra ser "Era pra ser canção de amor / Era o amor em versos / ... / Era pra poder ficar eternamente no presente / O amor soprou de outro lugar / Pra derrubar o que houvesse pela frente / Tenho que te falar / Essa canção não fala mais da gente" cantada por Maria Bethânia e Não demora.

Para mim, Paramgolé Pamplona, tocado assim fez lembrar-me o primeiro concerto que vi da Adriana há 16 anos.  Desta vez, teve grande ideia de colocar a peça do próprio Hélio Oiticica em palco, o parangolé "que você mesmo faz". Um adolescente vestiu um dos parangolés de cor branca, mas mostrou-se pouco feliz porque foi parco a  mexer-se, quanto mais dançar. Feito este reparo, tudo foi fenomenal. A letra, a música simples, a ideia. “O parangolé pamplona você mesmo faz... Com um retângulo de pano de uma cor só/ E é só dançar/ E é só deixar a cor tomar conta do ar... Para o delírio porta aberta / Pleno ar/ Puro hélio...”.  Actualmente, encontra-se em exibição do Hélio Oitica no Whitney em NY: To organize the delirium (até 1 Outubro). Quem puder não perca.

Não esqueceu os sucessos Metade, Esquadros, Mais feliz, Sem saída e Devolva-me. Ao contrário de nas aulas, neste concerto, o último em Coimbra, não cantou a mais bonita do grande poeta, filósofo (e seiu amigo), António Cicero, Inverno.

Terminou com Vambora. E no encore não se esqueceu de  Fico Assim sem você, com a batida electrónica a lembrar o original de Domenico Lancellotti, e até mostrou que sabe (também) dançar.

E a cantora, desta vez a Professora e Embaixadora da Universidade de Coimbra, despede-se da cidade para a qual foi escolhida e aceitou viver por uns tempos. Sem lágrimas, levando as lições como companhia e o significado de saudade, desta que é a capital do amor em Portugal: “ Não permita Deus que eu morra sem que eu volte para cá”. Como “Foi Coimbra que me escolheu e se Coimbra me quiser...”. Esperemos que volte, sempre.



sexta-feira, 21 de julho de 2017

Suicídio

Ligou-lhe à noite quando estava a regressar do trabalho. Era primavera, passava das 9 da noite e ainda era dia. Ainda não tinha jantado. Nesse dia, a última refeição que fizera tinha sido o almoço. Só queria chegar a casa e deitar-se de tão exausta que estava. Guiava em piloto automático. Recebeu um telefonema. Não estranhou porque lhe ligava frequentemente a essa hora. Estranhou, apenas, ter sido para o telemóvel. Era sempre para casa. Nunca o ouvira chorar ao telefone. Só o vira chorar nos surtos psicóticos. A conversa não foi longa nem com rodeios. Foi directo ao assunto:

- Estou a ligar para me despedir. Já liguei a toda a gente. Sou um problema para toda a gente.

Sem experiência em nenhuma situação parecida, a primeira reacção foi o desespero. Mas numa fracção de segundo, disfarçou. Tentou raciocinar. Dissera-lhe que esperasse porque estava a caminho. Ocorreu-lhe ganhar tempo e mantê-lo em linha para que não o fizesse. Tentou saber mais. Percebeu, tarde demais, que a asneira estava feita e que o caminho era irreversível.

Não chegou a tempo, por mais que tudo fizesse. E só a esperança de encontrá-lo vivo a fez voar. Estava vivo, de facto. Mas a fronteira entre a vida e a morte é muito ténue. Estava vivo, sim. O coração ainda batia. Mas já não a ouvia. E nunca mais voltou à consciência para a ouvir.

Percebemos, depois, que planeara tudo ao pormenor. Organizara as contas. Telefonara aos amigos, aos familiares, aos que magoara, aos que esperaram por ele e a quem nunca apareceu. Mas ninguém percebeu. Nunca fez um ultimato. Nem um pedido de ajuda. Nem uma ameaça. Nem um acerto de contas. Pagou todos os jantares, como antes, e combinara os próximos. Dissera: “Pagas o próximo”. Tudo fez para que não o percebessem. E o último telefonema foi para ela. Como se vive depois disto? Como se vive sem conseguir evitar este desfecho?

Nunca mais deixou de ter tempo para não ouvir. Nunca mais adiou para amanhã, para depois. Nunca mais disse que não. Com isto aprendeu que, de facto, a vida tem um fim. E que o fado e o destino não existem.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

A última lição

Entra de óculos escuros numa sala totalmente escura. Ninguém percebe a razão. Ao contrário da primeira lição não entra com a capa de Doutora nem parece formal. Vem de t-shirt preta da Faculdade de Letras e o que parecem, ao longe, umas All Star. Nunca em nenhuma das aulas se apresentou tão informal. Quem a acompanha no palco está, igualmente, de negro. Num primeiro momento, pensei haver um significado para a escolha da cor. A representação da tristeza da última lição. O começo da saudade. A aula veio a mostrar-se totalmente diferente das anteriores. Mais curta. Sem intervalo. Mais canções. Menos palavras ditas. Menos preparação. Desta vez, não houve ensaiados e longos agradecimentos, com a pompa dos anteriores. Agradeceu a uma pessoa em particular, responsável pelas sapatilhas personalizava que calçava. Uma pintora que não pintava e que voltou a pintar por causa das suas aulas. Por isso, nas suas palavras, a sua missão já estava cumprida.

Está de luto pela tragédia "das queimadas". "Isso não pode ser pior a cada ano que passa". [O ser humano acha que controla tudo. Que todas as suas acções são inconsequentes. Há (até) um Presidente que considera o aquecimento global uma piada, um mito, uma invenção. E esta tragédia mostra, como tantas outras, que o ser humano nunca ganha uma luta contra a revolta da natureza. Como no Moby Dick, o Homem é sempre o elo mais fraco perante a grandeza do mais forte].

Nesta última lição, Adriana assumiu (mais) o papel de cantora em vez de professora ou leitora. Desta vez o palco era um palco não um estrado. Não havia uma secretaria, um computador ou um candeeiro, três dos objectos que a acompanharam em todas as outras aulas. Mas aquilo que poderia não fazer sentido nenhum, dada a desorganização inata, nas suas palavras, que desta vez foi mesmo visível, correu muito bem. A capacidade de improviso perante a pouca preparação desta aula mostrou uma das suas capacidades maiores. Sem ensaio. Sem treino. Sem preparo. Empírica. "No osso". Simples. E curta, como a vida. E mesmo assim, não desiludiu. Conseguiu prender a atenção das (tão poucas) pessoas que não compunham o TAGV. Maioritariamente brasileiros, claro. Tinha na plateia, nas primeiras filas, a autora da do texto sobre as rosas que se sacrificam pelo vinho. [Na aula anterior lerá um texto sobre como as rosas eram usadas para serem atacadas pelas pragas para que estas não atacassem o vinho].

Esta lição que tinha como tema Trobar Nova era supostamente para abordar poetas e/ou compositores contemporâneos. Começou por António Cicero, que nunca foi esquecido na maioria das aulas. Leu um poema. Tocou na questão da poesia e filosofia de Cicero (que dá nome a um dos livros). E deu a resposta de Cicero à pergunta "o que é ser poeta e filósofo ao mesmo tempo?": "Depende o que você quer dizer ao mesmo tempo".

Seguiram-se os poetas e as suas musas. E do tempo produtivo que tem passado em Coimbra, onde tem composto e musicado algumas músicas. Leu de forma performática, acompanhada pela guitarra de Gabriel Musak, um poema de Adília Lopes e no final arrancou devagar e sofridamente páginas de um livro.


A minha Musa antes de ser
a minha Musa avisou-me
cantaste sem saber
que cantar custa uma língua
agora vou cortar-te a língua
para aprender a cantar

a minha Musa é cruel
mas eu não conheço outra

Contou a história de como reencontrou o músico brasileiro Gabriel Musak em Lisboa. (Cujo nome verdadeiro é Gabriel Homem mas que deixou de usar o sobrenome porque o homem está em baixo). E que quando o questionou sobre o que estava cá a fazer, ele respondeu: "Vim pra ver". Para ela essa frase foi tão inesperada é tão impactante que voltou para o hotel e compôs uma música. De facto, a canção foi conseguida.

Vim pra ver
Quando vi, vim pra ver
Dei por mim
Tava aqui, vim te ver
Faço o que?
Você não sabe o que me cabe
No silêncio, dor
No escuro, dor
No espelho, dor
Doi a felicidade
Mas não repare
Mas não se iluda
É que não se usa
Refrão sem Musa(k)

Seguiu-se a canção medieval do trovador galego Martín Codax:
"Quantas sabedes amar amado

treides comig’a lo mar levado

e banhar-nos-emos nas ondas!"

Falou da recente visita à Bulgária, onde descobriu telenovelas dobradas em búlgaro e onde a palavra música significa o mesmo. Tocou a canção Mentiras com a referência: "as novelas acabam mas as músicas não".

Cantou o poema Mortal loucura de Gregório de Matos, dizem que o maior poeta barroco brasileiro. Um poeta também conhecido como “Boca do Inferno” e que “influenciou muito o mau comportamento de muita gente no Brasil.


Na oração, que desaterra … a terra,

Quer Deus que a quem está o cuidado … dado,
Pregue que a vida é emprestado … estado,
Mistérios mil que desenterra … enterra
.
Quem não cuida de si, que é terra, … erra,
Que o alto Rei, por afamado … amado,
É quem lhe assiste ao desvelado … lado,
Da morte ao ar não desaferra, … aferra.

Quem do mundo a mortal loucura … cura,

A vontade de Deus sagrada … agrada
Firmar-lhe a vida em atadura … dura.

O voz zelosa, que dobrada … brada,

Já sei que a flor da formosura, … usura,
Será no fim dessa jornada … nada.

Seguiu-se Fanatismo de Florbela Espanca musicada e cantada por Fagner e que se tornou um sucesso no Brasil.

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida

Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver, 
Pois que tu és já toda a minha vida !

Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça 
Duma boca divina fala em mim !

E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros, 
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."

Elogiou a paciência de quem estava naquela sala para a ver e ouvi-la com o dia lindo que estava lá fora. Para último deixou a tradução da canção de Bob Dylan, o Nobel de Literatura, Negro amor. E como a memória lhe falhara e alguém na plateia mostrava saber de cor a música desafiou-o dizendo: “O que você sabe para me ajudar?”.

Desta vez, não houve saudades (ainda) visíveis na despedida, nem choro, nem palavras mais ou menos comovidas. Foi uma despedida como as outras, talvez a mostrar que a Professora/cantora não gosta, de facto, de despedidas. Alguém na plateia falou a capella do significado destas aulas e do quão revolucionárias foram para quem as assistiu e para a Universidade de Coimbra, instituição centenária. Ofereceu-lhe, por fim, uma rosa e um cravo vermelhos.





terça-feira, 20 de junho de 2017

O sofrimento das mães

Todos os aniversários lembra-se que nasceu às 31 semanas, com um gémeo e com pouco mais de 1000 gramas. Todos os anos lembra-se, particularmente nesse dia, que a mãe ficou sem tocá-la durante quase um mês em que esteve na incubadora. A mãe recusara-se a vê-la (só) do vidro. A única vez que o fez sentiu-se a morrer por dentro porque, ao contrário das outras mães, não podia amamentar os filhos, encostá-los, cuidá-los, mimá-los, mudar-lhes as fraldas. Nada a não ser olhá-los pelo vidro. O pai ia todos os dias entregar o leite que a mãe tirava. Não durou muito porque até isso o desgosto lhe levou. Depois disso levou-lhe a fome, a alegria, o sono, tudo. Quando os filhos voltaram para casa pesava menos do que antes de engravidar. Até hoje a mãe fala dessa dor inqualificável de não ter podido tocar nos filhos durante um mês. Não houve nunca dor maior. E a filha imagina como é para um bebé ser retirado do conforto de um útero, de ter o irmão como vizinho durante sete meses, de ouvir a voz (conhecida) da mãe. E de ter sido alimentada e cuidada, sozinha, durante um mês numa fria incubadora. Sobreviveu, apesar de tudo. A mãe, apesar de ter sido sempre feliz, diz que nunca recuperou desse acontecimento.

As mães nunca se preparam para o pior. São sempre as mais felizes, as mais optimistas, as mais alegres. Tudo o que uma mãe quer ouvir, e se possível ver, é que está tudo bem com o seu bebé. Como se reage quando se faz tudo certo e a natureza mfalhou? Quando se planeia e a probabilidade de erro acontece? Quando se dá a notícia de o bebé não ser saudável, ou como os médicos dizem, não é viável? Como se enfrenta? Como se age? Como decidir? Não é um feto, é um filho - disse a mãe. Os médicos só lhe queriam menorizar a dor e poupar-lhe (algum) sofrimento. Poupá-la do julgamento moral porque o ético e o judicial estava previsto na lei. Mas como as mães orientam-se pelo princípio de Arquimedes (“Dá-me um ponto de apoio e eu moverei o mundo”) arranjam forças onde nem elas sabem de onde surgem. E assim, seguiu em frente, sem vacilar, sem um minuto de arrependimento com uma gravidez que todos apostavam para o bem de todos, que terminasse. E foi feliz, como todas as mães, durante os 9 meses. Esteve mesmo muito feliz. Nunca seria ela a terminar o que a natureza começou. Deixaria a natureza seguir o seu caminho. Depois, reencontrou-se nas palavras e no apoio dos amigos. A vida deste filho não foi a que imaginou nem teve o privilégio de  o ver crescer.  Mas a sua vida é tão mais que as primeiras impressões, nas suas palavras. A vida é insondável. E sente-se grata e em paz por todas estas vivências. No sofrimento e na alegria todas as mães parecem ser iguais. As mães, como as árvores, morrem de pé.

terça-feira, 13 de junho de 2017

De amor ou por amor (não) se morre

Tem os olhos da Bette Davis e a beleza da Audrey Hepburn. Escondeu-se do mundo, no seu refúgio, como a Greta Garbo. Embora este refúgio não seja  NY nem as montanhas suiças. A vida não lhe tem sido fácil. Foi deixada. Como se reage a ser-se trocada, quando a dependência era tanta, mas não se tinha consciência? Nada é sentido até ser provado.

O tempo passa. Ninguém morre de amor ou por amor, dizem-lhe. Começou a levantar-se, aos poucos, da cama. Começou a sair à rua. Passou a dormir de noite e não de dia. Começa a ir trabalhar. Começa a ultrapassar. Começa a gargalhar. Riso sincero. Está feliz, de verdade. Por um instante. Aqueles instantes que parecem durar uma eternidade. Tudo, por agora. Muito. Luta todos os dias contra a depressão. Ri muito, publicamente. Chora, sozinha, na solidão do quarto. Não exibe a sua tristeza. Disfarça-a parecendo bem. Sempre em guerra permanente consigo própria. Não esmorece. Parece o ponto de apoio de Arquimedes. O Cabo da Roca. Não se queixa. Não é desagradável. Não é cruel. Não magoa ninguém. Não se tornou amarga, apesar de tudo. Todos os dias pensa em matar-se. Pensa nos pormenores. Uma morte catártica. Atirar-se de uma ponte. Atirar-se de uma janela. Atirar-se de um telhado. Ou um suicídio anónimo, daqueles que nunca se saberá se foi um erro ou uma chamada de atenção a tempo de ser salva. Deixar-se adormecer, eternamente, com uma série de comprimidos certos e com concentrações correctas, sem margem para erros. Afogar-se numa banheira. Cortar longitudinalmente as artérias radiais até esvair-se em sangue. Sentar-se numa cadeira e dar um tiro, que pode falhar. Enforcar-se. Ou combinações destas, para (tentar) não falhar. Mas depois pensa no tempo que isso demora. Pensa na beleza das pequenas coisas. E no sofrimento dos últimos momentos. E se alguém a encontra antes do ponto final. No medo do desconhecido. Nas coisas que ficarão por dizer e por explicar. Na culpa dos outros e no que isso lhes provocará. E no que estará por vir. E o que virá depois desta realidade. E desiste.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A Lisboa que entardece

Lisboa, 20 de maio de 2017

Passa das 5 da tarde. Calor de verão. Surdo, como dizia a minha avó. Esplanada em frente ao Tejo. Esse rio que parece mar. Esse Tejo que parece ter a dimensão do oceano. Cheira a maresia (embora, me garantam, que cheira a rio). Almoço tardio. Habituei-me a observar o rio com a ponte à direita. Desta vez, a ponte está ao longe, à esquerda. No meio da vista, o Padrão dos Descobrimento, de perfil. Na mesa ao lado, um casal de franceses. Atrás italianos. Quem nos atende, brasileiros. O passeio junto ao rio parece o calçadão do Rio de Janeiro, tal o congestionamento de pessoas. Uma amálgama de cores, géneros, nacionalidades, línguas. Estudantes finalistas trajados que tiram fotos. A família dos subúrbios que se veste no seu melhor traje para vir à cidade. Turistas de chinelos. Turistas de sandálias e meias.Turistas muito brancos que estão queimados pela falta de hábito de fotossíntese. Casais de mão dada. Casais que tiram fotos a beijarem-se. Muita gente de chapéu. E de calções. Pais sozinhos a passear os filhos. Homens giros e bem vestidos. Um marido que passeia com a mulher que tem o lado direito paralisado. A mulher que sai da esplanada a ajudar o marido com mobilidade reduzida. Mulheres que tapam a cabeça com um lenço (provavelmente por causa da quimioterapia). Turistas bêbedos. Turistas muito ressacados. Mas o turista preferido é: " trajado a rigor, e pronto para enfrentar os 30º da selva lisboeta, o turista-attenborough, ostenta um chapéu de abas, calças e botas de caminhada e uma camisa que lhe cobre todo o torso superior deixando apenas expostos os ruborizados rosto e pescoço. Quando visto sem camelback ou mochila, é dado a algum cambalear e passível de desfalecimento”.

A bebida mais comum nas mesas é vinho branco gelado. Não dá vontade nem tempo para ler. O livro fica pousado na mesa à espera de horas melhores. Ou de cenários menos apelativos. Este filme em movimento é imperdível. O instante irrepetível que passa. 

Mas esta vista tem um preço. Um café, por exemplo, custa 2 euros e a garrafa de vinho mais barata tem o preço de um qualquer Chardonnay (rasca) em NY?

A Madonna esteve a visitar o Liceu Francês. Foi o acontecimento para os alunos. Os vídeos abundam e partilham-se nas redes sociais. A qualquer lado que se vá, fala-se dela. Alguém a viu, ou conhece alguém que viu, ou diz que viu, ou mente e jura que viu.

Como perguntava a Anabela Mota Ribeiro há dias a duas convidadas do programa: "o que é a felicidade?". Uma delas respondeu, citando Guimarães Rosa, que é (in)felicidade sem prefixo. A importância do prefixo é (quase) tudo nas palavras.A outra, que é a libertação química de serotonina.

Pela primeira vez em 3 dias não tenho dor de cabeça. A felicidade acontece quando menos se espera. A felicidade é isto.

Copyright: S. A.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Para aquela que está sentada no escuro à minha espera

Este romance é sobre uma mulher de 78 anos que perde a memória e as suas faculdades progressivamente: "sou uma mulher sozinha a perder a memória e o tino". É uma actriz aposentada que tinha pouco talento e andou por teatros manhosos a declamar patetices que ninguém ia ver". Nasceu em Faro e mudou-se para Lisboa. Teve dois maridos. Não fala. Quando fala, diz frases sem nexo. E vive de recordações do passado. Não se lembra, sobretudo, de acontecimentos recentes. Só a memória antiga permanece, e mais importante, a relação que ela tem com o pai. É isto que é dissecado ao pormenor.

O romance divide-se em três partes: primeiro, segundo e terceiro andamentos. A polifonia, tão característica, mistura-se, neste caso com uma sinfonia não muito desafinada composta de memórias antigas, que se confrontam com a realidade e com a imaginação, e algum desvarios.   “A noite é esquisita (...) as sombras tornam-se coisas verdadeiras e as vossas verdadeiras sombra (...) é noite o astro saudoso rompe a custo o plúmbeo céu (...) há noites em que adormecemos de mão dada e acordamos sempre sozinhos, por muito que não fujamos morreremos sozinhos".

Os personagens principais são a mulher sem memória, a senhora de idade (que cuidava dela e que tem um filho que morre), o sobrinho do marido (que é interesseiro, recebe a pensão e herdará o que é dela., a mãe (mais uma vez autobiográfica, e que tal como a sua, não tem grande instinto maternal e, neste caso, tem ciúmes da cumplicidade e da relação do marido com a filha), o médico e o pai (que é a sua grande ligação afectiva. Uma reunião de mundos que envolve o passado e o presente e pessoas vivas e que já morreram numa convivência paralela. Os personagens, maioritariamente, não têm nome, uma característica livros de ALA. Esta senhora sem memória foi uma actriz com pouco talento que se casou com... e era filha única. Tinha uma relação tocante e muito próxima com o pai. Com a mãe era o oposto. Personagens sempre tristes e deprimidos: "o meu avô no género calado, sem sorrisos, desatento de nós, ao reformar-se ficava de pijama o dia inteiro examinando a barriga" – uma frase tão”António Lobo Antunes (ALA).

Por oposição ao romance anterior, volta ao naperon e à classe média baixa, à falta de dinheiro. Mas os temas como solidão, falta de amor e traição, permanece. Os assuntos sempre abordados por ALA repetem-se: a falta de amor entre casais, a falta de interesse da mulher em relação ao marido, a atracção do médico pela assistente, o director do teatro que usa o seu pequeno poder para se aproveitar de uma actriz sem talento, a mãe que rejeita a filha, a falta de ambição, o marido maltratado pela mulher. O passado,o quotidiano e as suas personagens tão características misturam-se. Neste livro, mais marcante, a abordagem da velhice, da solidão e da angústia que isso causa. Mas sobretudo, a perda de memória: "As palavras não me vinham”. A perda da dignidade es questões existencias: “perder as capacidades em casa ou num lar, o que será melhor?”. Pobreza. Doença. Vergonha. Pudor. A indignidade da velhice: o nosso mal é durarmos demais (...) É assim que se acaba (...) Há alturas em que o desespero sobressalta a meio da noite (...) Afinal estar vivo é isto? Não sei se cosia com as mãos ou com os óculos...”. O tempo e a cruel passagem dele : “Ajudem-me a voltar a ser eu (...)  o tempo anula tudo (...) afasta-se do amor, abandona-o, esquece-o (...) A idade é uma gaita (...) tudo se gasta, é a vida (...) Não tinhas o direito de te tornar horrível (...) Que forma de acabar (...) Nada dura para sempre (...). Sexo, um dos grandes assuntos da humanidade, neste caso abordado do ponto de vista de obrigação e da infelicidade num casal "isto não é fole de ferreiro não te chegou uma dose? (...) diz amor diz (...) o crucifixo a bater contra a cabeceira da cama, primeiro muito ao de leve, depois menos leve, depois com força, depois cada vez com mais força e depois, finalmente, em estrondos tão intensos (...).

E as frases tão bem escritas por ALA: “São iguais às baleias os homens, ainda que morem longe morrem na mesma praia (...) Um dos pés nu e essa solidão do pé comoveu-o (...) A velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado (...) os homens gostam de acabar nos nossos braços murmurando-nos o nome normalmente errado, um nome de mulher, não importa qual, torna a eternidade habitável, encara-se em paz o túnel e a lâmpada ao fundo (...) com o peso da solidão do domingo inteiro em cima (...) segurando os músculos da cara para que não lhe víssemos a dor e via-se a dor nas sobrancelhas, via-se a dor nos caninos à mostra (...)o motor do gato já não roçava por mim porque os bichos dão conta, vão-se afastando da gente, acham que deixámos de ser nós, evitam-nos (...) a tragédia, como dizia o outro, não é ser velho, é envelhecer (...).

Um livro perturbador sobre a perda e a falta de memória. E como o nosso fim será igual: só.


sexta-feira, 24 de março de 2017

Mísia e as palavras – Poetas e cantautores

Mísia elegantemente vestida com um vestido preto. Sobe ao palco e senta-se numa mesa. Cabelo impecavelmente penteado. Os anos parecem não passar por ela. Começa por agradecer à directora do Museu do Fado pelo convite para esta residência artística. Apelida-a de conversas com o público, com pessoas que não a conheciam ou para pessoas que acompanham o trabalho mas que querem conhecê-la melhor. Enaltece a plateia, o público, como lhe chama. Esse público, e essa interacção é que fazem que cada concerto seja diferente. Realça que nesta conversa não falará sobre a história nem sobre a evolução do fado. Considera que há gente muito mais preparada, muitos musicólogos e muitas fadistas, como por exemplo, a Aldina Duarte que dominam o assunto. Neste fim de tarde foi convidada  “para falar de mim” o que é “estranho e constrangedor” nas palavras da própria.

Nestes 25 anos de carreira profissional considera que o corpo principal do seu trabalho foi a colaboração e interacção directa com os escritores, poetas e compositores. Considera um privilégio ter poemas que foram e são escritos especialmente para a sua voz. Contou a experiência de, antes de cantar profissionalmente, ter tido 4 anos de aprendizagem numa casa de fado onde cantava a Beatriz da Conceição – “a melhor professora que podia ter, cantava com uma verticalidade, aquelas costas eram um fio de azeite... foi um grande exemplo para mim, como ela tratava as letras, uma pessoa que não teve grande instrução académica, tinha uma dicção inteligente, não fazia voltinhas, não se tratava de fazer circo, nem performance, tratava-se de pôr cá fora o que estava a sentir”.

Quando começou em 1991 o fado não estava na moda, não tinha grande prestígio cultural nem comercial e não vendia. A excepção, segundo Mísia, era a grande Amália – “a maior fadista de todos os tempos, para mim”. Concordo absolutamente que Amália foi e é a maior de todas. Não só fadista mas também intérprete e poetisa. Mas não nos podemos esquecer como Amália após a revolução de Abril foi (quase) esquecida e ostracizada. Honra seja feita a Mário Soares que a homenageou nos finais dos anos 80 nos apoteóticos concertos do Coliseu. Isso devia ter sido um grande bálsamo para ela que como dizia “nasceu para ser triste” e que no fado Grito de despedida escreveu: “...que ao fim do além da vida/ do que já fui tenho sede/ sou sombra triste/ encostada a uma parede...”.  O fado, em geral, estava ainda com a marca do estigma do Estado Novo. No início dos anos 90, quando Mísia dizia que queria cantar fado com aquela imagem cosmopolita – de mini-saia, argolas enorme e cabelo à Beatriz Costa – as pessoas diziam-lhe para cantar outra coisa. Mas ela foi perseverante e teimosa e achou que o segredo era ter grandes nomes da literatura portuguesa a escreverem para o fado. Sem falsas modésticas (porque a modéstia fica para quem dela precisa) referiu que foi a primeira pessoa que convidou Jorge Palma, Sérgio Godinho, Vitorino , entre outros, a escreverem para fado. Aos grandes poetas, escritores e compositores deve o repertório que tem. Tem como privilégio e uma das maiores satisfações pessoais ter um poema, o único poema que se conhece, de Agustina Bessa Luís – “essa grande escritora do norte” [e que tão mal tem sido tratada pela sua editora que resolveu tirar os seus livros de catálogo e rescindir o contrato por falta de vendas. É no que dá quando a arte deixa de ser um gosto e um prazer e passa a ser números. O capitalismo no seu melhor. Agustina, pelo que foi, pelo que é, não merecia um tratamento assim. Mas este país tem uma memória tão curta]. Mísia, antes de cantar o poema de Agustina, desculpa-se pela “bruta laringite”. Disse que não seria perfeito mas que seria muito sentido. Que beleza tamanha. Mísia a cantar é de uma verticalidade impressionante, como a “mestre” Beatriz da Conceição. Recta, hirta, com a cabeça a apontar para o alto, olhos fechados, parece (até) mais alta. Tem uma voz segura, imponente mesmo estando doente. Se não dissesse que estava com uma laringite eu não adivinharia.

Voltou, uma vez mais, a enaltecer a importância e a generosidade dos “seus” poetas, escritores e compositores em usar as palavras deles. Falou de um episódio, numa tournée nos EUA, quando estava a dar uma série de entrevistas e era difícil explicar-lhes a importância dos grandes escreverem para o fado: “Era como se o Hemingway escrevesse para country music”. Nomeou, individualmente, cada autor que para ela escreveu: Agustina, Lídia Jorge, Hélia Correia, José Luís Peixoto, Vasco Graça Moura, Paulo José Miranda, Mário Cláudio e Saramago (acho que se esqueceu do Tiago Torres da Silva). Explicou que cantou António Lobo Antunes mas que este não escreveu especificamente para ela, mas para Vitorino. Os poemas que não entraram no trabalho de Vitorino foram cantados por Mísia. É esta a verdade da história. “Saramago é uma pessoa à parte. Gostava muito dele como pessoa e como escritor. Ia começar a trabalhar com ele num projecto muito muito importante, que quero ainda algum dia fazer. Na altura em que nos deixou e o projecto ficou orfão”. Todas essas pessoas não tiveram medo de emprestar as suas palavras para uma fadista, como a própria de autointitula, outsider, alternativa, na margem. Vasco Graça Moura fez 90% das letras de um disco que era inspirado nas músicas de Carlos Paredes. Nos anos em que esteve a viver em Barcelona, ouvia Amália e Carlos Paredes. “Não deixava qualquer dúvida que eu era mesmo daqui. Mesmo sendo filha de mãe espanhola. Tinha mesmo que voltar”. Vasco Graça Moura tinha uma grande intuição, erudição, ele sabia música, sabia muito bem onde deviam estar as tónicas das palavras.

Outra das poetisas a quem recorreu foi Amália Rodrigues, um caso raro de muitos talentos reunidos na mesma pessoa. Uma inteligência a cantar. Não apenas a voz miraculada. “A voz é uma coisa que se nasce com ela. O que se faz com ela é que é importante. Imaginem a Celine Dion” – disse entre risos.  Referiu também a Amélia Muge, tendo sido a primeira pessoa a pedir-lhe uma música. E a partir daí tornou-se uma figura incontornável do fado. Não se esqueceu do episódio de o Vitorino aceitar escrever “para uma louca” após ter saído da EMI-Valentim de Carvalho. O facto de ter tido sempre grandes autores associados à sua música fez muitas vezes pessoas quererem aprender português e conhecer os poetas que ela canta. “Metade Almodovar e metade Manuel de Oliveira”. A participação de todos estes autores no repertório de Mísia elevou o nível do seu trabalho.

Cantou Ciúmes de um coração operário um poema que Vitorino escreveu em 1992 que era o verdadeiro “novo fado”. E depois o poema de Fernando Pessoa Autopsicografia com o fado Meia-noite. Apresentou os músicos “que tornam possível que este momento esteja a acontecer”: André Dias na guitarra portuguesa (um músico da nova geração que “tem as pestanas mais bonitas que já vi”), Didi na viola e Luís Cunha no violino. Na primeira fila estava Mário Pacheco e Sandra Correia. Alguns amigos que vêm de fora ainda os leva ao Clube do Fado

Perguntou à plateia as horas e às 7:45, au point, senta-se sempre. Arrancou mais gargalhadas. “Estava preocupada por não ter aqui um relógio e ia passar a hora de eu me sentar”. No início quando actuava, cantava e ia embora e perguntava aos amigos “Notou-se muito que sou filha de mãe espanhola?”. Somente pelo pânico de acharem que não era uma verdadeira fadista. Hoje, não se preocupa mais, porque quem não a acha uma verdadeira fadista não importa o que ela faça.

O melhor deixa-se para o fim. Apresentou a convidada como sendo do seu coração. Convidada especial, também, do Artur (um dos gatos de Mísia). Já colaboraram muito. Já escreveu um poema para um dos discos da Mísia. Será a convidada no espectáculo de Mísia no CCB no dia 19 de Maio. “É com imenso carinho, ternura e admiração que eu peço à Adriana Calcanhotto para se juntar a nós”. Adriana que assistia na primeira fila, subiu ao palco casual chic de óculos, com um casacão de lã cinzento, calças de ganga, sapatos oxford camel e camisa aos quadrados de flanela cor de vinho e branco. Sentou-se. A viola não parecia ser a dela. Ou pelo menos, não é a que tem usado nos últimos concertos ou em Coimbra. Usou a piada do costume “passamos metade do tempo a afinar o instrumento e a outra metade a tocar com ele desafinado”. Usou o iphone para o afinar. Enquanto afinava foi explicando que não tem tocado e que adorou o convite para tocar. Disse que aprendeu “horrores com esta mulher” sobre fado e sobre a possibilidade de pegar num fado tradicional e colocar outro poema. Falou de ter ficado escandalizada quando há uns tempos atrás lhe disseram que quando Amália cantou Camões foi um escândalo. Mas considera que isso faz sentido, quando ainda há quem fique escandalizado pelo Bob Dylan ter ganho o Nobel da Literatura. “Apesar de a poesia existir antes da escrita”, citando o exemplo da Ilíada de Homero que seria para ser transmitida oralmente. Depois, falou do poeta com o qual "tem mais intimidade, não o que gosta mais" - Mário de Sá-Carneiro. E cantou a lindíssima Senhora dos olhos lindos (que para mim é um fado). 

Quando Adriana se juntou a Mísia na mesa foi recebida com um “Agora é um momento muito importante”: um prato de bolinhos de bacalhau. E Adriana às gargalhadas juntamente com o público. A Adriana em todos os concertos que sabe que a Mísia está ou quando lhe perguntam como conheceu a Mísia ela conta esta história. “Conta você. Eu gosto quando ela conta me imitando”. A Mísia tinha um namorado que era “um erro de casting” e por causa dele conheceu a Adriana. Quando chegou a Portugal fez o que todos os brasileiros fazem quando chegam ao hotel: ligar a tv ("fazia", corrigiu imediatamente Adriana, pretérito imperfeito, não mais). E viu um grande close up da Mísia a dizer "coisas insensatas". Ficou impressionadíssima com aquilo. E aí perguntou ao “erro de casting” quem era aquela cantora. E uma das características do erro de casting é que ele nunca assumia nada e disse apenas “Ah, eu conheço” (não disse que era namorado da Mísia). E aí combinaram ir ao Clube de Fado e a Mísia cantou para a Adriana. Como não se lembra nunca de almoçar ou jantar e como não tinha jantado pediu dois bolinhos de bacalhau porque era uma coisa fácil de comer. Aí comeu um bolinho de bacalhau e foi cantar. Quando regressou à mesa comeu o outro e a Adriana disse: “O segundo ela mereceu”. Esta conversa mostrou o humor e a cumplicidade destas duas amigas que são também grandes artistas mas que aqui estavam como em casa. “Quando ela canta me faz chorar e quando não está cantando faz-me chorar de rir”.

Mísia, ao contrário do que aparenta não é distante nem altiva. Tem um humor fenomenal. Tem em comum com  Adriana o humor, a paixão pelos animais e o gosto pela polenta frita de Porto Alegre. Adriana referiu que grandes poetas partilham deste gosto pelos animais, por ex, Alexandre O’Neill, “poeta fetiche de Amalia”- como lhe chamou, que escreveu sobre a pobreza da condição humana a partir dos animais. MÍísia pediu a Adriana para cantar outro tema, do mesmo Mário de Sá-Carneiro. Falou do restaurante Petit Riche que frequentava em Paris, do qual era assíduo. Adriana aproveitou para falar que Mário de Sá-Carneiro estudou Direito em Coimbra, obrigado pelo pai. Nesses 3 meses ele viveu num quarto (que deveria ser uma pensão e não um hotel). Adriana conta que quando foi convidada para passar o semestre em Coimbra pediu: E se eu ficasse no quarto do Mário de Sá-Carneiro?”. E que toda a gente a desaconselhou vivamente e a demoveram daquela ideia. “Podemos levá-la lá para ver o quarto mas ficar lá não pode”. E ela continuava “Mas porque não pode?”. “Porque aquele hotel paga-se por hora!”. Terminou com chave de ouro com O outro.

Soube a tão pouco. Não se percebeu a passagem do tempo. A plateia estava cheia. E atrás de mim estava o temido Nuno Pacheco, crítico de música do Público. Para quem for de Lisboa estas conversas são imperdíveis. Vale por tudo. Vale pela inteligência, pelo humor, pela conversa, pelas histórias por contar da persona Mísia. A diva, essa, voltaremos em breve a protagonizar Geosefine no TAGV e a interpretar os seus poetas no palco do CCB.

Copyright: Mariola Landowska

Copyright: Mariola Landowska

 P.S. Eu sei que as fotos não são o melhor mas foram as únicas que encontrei. Não tirei fotografias. Acho que a memória deve guardar tudo para sempre. A Adriana costuma dizer que "as pessoas fotografam mais quando gostam mais da música". Eu não, lamento, não consigo fazer (bem) duas coisas ao mesmo tempo. Perderia o momento único da interpretação e a fotografia ficaria, com certeza, péssima. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

O discurso sublime de António Lobo Antunes

Há umas semanas deu uma grande entrevista ao Expresso muito diferente daquilo que o apelidam. Sincero, demorado, descritivo.

Não vi a gala da SPA na RTP. Cheguei ao vídeo do discurso pela Fernanda Mira Barros. No agradecimento do prémio da SPA Vida e Obra não parece o grande escritor. Parece pequenino. e (ainda) mais velho. O tempo não o tem poupado. Apesar disso, parece um menino grande. Tímido. Tom de voz muito baixo. Agradeceu emocionado ao Presidente da República que lhe lhe enviou um bilhete sobre um livro que tinha saído. Congratulou-se por termos um Ministro da Cultura que é um grande poeta. Disse que escrever foi o que sempre lhe deu sentido à vida. E falou do Senhor Barata que tem um cancro e ao qual prometeu dizer “adeus”. “Livre-se de não vencer essa puta!”.

Este é a pessoa que tive a honra de conhecer. O maior escritor vivo. A maior parte das vezes quando conhecemos os génios ou os nossos ídolos temos  a tendência para nos sentirmos defraudados. O António é o contrário: perde tempo com os seus leitores, é um grande ouvinte (apesar de ser “surdo como uma porta”, como ele diz), terno, meigo, tem uma voz linda, pausada, sorri muito, agradece na mesma proporção e adora NY.


Gosta de Jorge Amado, mais do homem do que do escritor, e pergunta quem é que o lê hoje. Eu! Eu adoro Jorge Amado. Parece sempre um menino grande que teve falta de amor e afecto. O menino prodígio que tem uma memória de elefante, que aprendeu a ler com 4 anos mas que se recusou durante três anos a decorar 5400 g de Anatomia, embora tendo uma memória prodigiosa. Nunca deixou de ser um menino tímido “que se virava para a parede” para não enfrentar as pessoas. Costuma dizer que era muito bonito e que agora é um monstro. Detesta levantar-se cedo. Tem uma vida monástica. Preparou-se a vida inteira para o talento que sempre teve: escrever. Ainda hoje escreve com um livro grande aberto (dos tempos em que fingia que estava a estudar enquanto escrevia).

Copyright: Sociedade Portuguesa de Autores (SPA)

terça-feira, 21 de março de 2017

When breath becomes air by Paul Kalanithi

Nos últimos tempos, várias pessoas têm-me questionado sobre o meu (suposto) conhecimento literário. Essas pessoas, muito mais das letras, ficam sempre muito surpreendidas com a minha cultura literária e com a quantidade de coisas que já li e leio. Cada vez (mais) acho que os estudos e os graus das pessoas dizem cada vez (menos) sobre elas. As pessoas mais interessantes que conheci e conheço não se distinguem pelos graus académicos. E muito menos lhes dão a importância que os outros (acham que) têm. O que me desperta nelas é o interesse por qualquer coisa específica e, às vezes na generalidade, a vida. Afinal o que é ser interessante? O que é ser inteligente? E a importância que isso tem para a vida de cada um de nós? Mas essas são questões que não vou falar neste texto. 

Hoje vou escrever sobre duas pessoas da minha área de conhecimento. Pessoas  que dedicaram a sua vida à medicina e ciência. E com os quais eu aprendi tanto. Um deles é Siddhartha Mukerjee cientista, médico oncologista, professor, escritor sem ordem alfabética e/ou importância. Ganhou um prémio Pulitzer com o livro que é uma biografia magnífica sobre cancro The emperor of all maladies. E o último livro é, o não menos interessante, Gene. É casado com a grande artista plástica Sarah Sze e considerados o casal (mais) brilhante de NY pela Vogue. Para além disso, é giro e inteligente. Como quase todas as grandes figuras, é tímido. Quando eu estava em NY fui a todos os eventos, conferências, conversas só para o ouvir falar. E vi-o (algumas vezes) à espera do metro na 168 e a sair do metro na W4. Só olhar, discretamente para ele, sem que ele se apercebesse era uma maravilha. Um dia num cocktail, com a coragem dada pelo álcool pedi-lhe entre um copo de vinho, que me assinasse a versão inglesa do livro. Um meses mais tarde, numa conferência sobre cancro, na qual só chegou em cima da hora e saiu mal acabou a sua apresentação, corri para que me assinasse a versão portuguesa. Estas coisas são como os novelos, pega-se na ponta e vamos desenrolando até conhecer (mais, muito mais) mundo. Através dele conheci Primo Levi, do qual comprei e li toda a sua obra. E por causa dele conheci a Emily Dickinson, essa grande poeta que nasceu numa vila recôndita de Nova Inglaterra, da qual nunca saiu, não tinha mundo e daquele cérebro saíram aqueles poemas dos quais os olhos tinham visto tão pouco. Se é verdade que muitos dizem que escrever é autobiográfico, a obra de Dickinson mostra exactamente o contrário. Mukerjee deu-me a conhecer outro grande médico, escritor: Abraham Verghese, autor do livro My own country. Nascido na Etiópia, filho de pais indianos, formou-se em Medicina na India e fez a especialidade numa das cidades da America profunda no estado do Tennessee. Trabalhou dois anos em Boston onde o vírus HIV começava a ser conhecido e a vitimar muita gente, no início dos anos 80. E depois, quando foi regressou a Johnson City viu uma outra realidade de pessoas pouco instruídas e rurais infectadas com HIV. É desta experiência que ele fala no livro que lhe deu popularidade.

A segunda pessoa que quero falar é de Paul Kalanithi. Este, não conheci pessoalmente. Li uma das suas crónicas How long have I got left?, no The New York Times, na qual assumia a sua condição de doente terminal. Tal como Siddhartha, era médico (a terminar a sua especialidade em Neurocirurgia em Stanford). Tinha um Mestrado em  Literatura Inglesa, era culto, competente, genial, tinha um profundo amor à escrita e era um ávido leitor, tinha um futuro promissor, e falou sobre tudo isso e muito mais, na sua autobiografia de fim de vida que não chegou a terminar. O prefácio foi escrito por Abraham Verghese.

O primeiro capítulo começa com versos de T.S. Eliot e com a descrição da sua confrontação com a imagem da tomografia que mostrava “inúmeros tumores, a coluna vertebral deformada, o fígado completamente obliterado. Cancro amplamente disseminado”. Neste livro descreve a sensação de se ter  tornado doente e a sua vulnerabilidade. Das diferenças abissais entre ser um médico cheio de confiança e um paciente resignado.Os sinais premonitórios do cancro. O cansaço que o derrotava . As dores intoleráveis. O futuro brilhante com que sempre sonhou, que teria como neurocirurgião, evaporou-se num sopro. O marido e o pai presente em que prometeu tornar-se, e cumpriu, mesmo que por tão pouco tempo e em condições tão adversas. Do sonho que sempre teve de ser escritor. Da infância no Arizona. Das ausências do pai médico. De ter lido 1984 de George Orwell. O seu amor pela linguagem. Antes de entrar na universidade já tinha lido Edgar Allan Poe, Gogol, Dickens, Twain, Austen, Sartre, Shakespeare, entre outros. Para um americano criado no interior da América e médico, convenhamos que é invulgar. Durante a adolescência considerou os livros como confidentes, que lhe deram a mais vasta visão do mundo e que lhe abriram horizontes. Anos mais tarde tirou Literatura Inglesa e  Biologia Humana. Queria encontrar a resposta para a pergunta:  O que dá significado à vida? Por esta altura refere T.S. Eliot, Nobokov e Conrad como grandes referências. Quando fez o Mestrado em Literatura Inglesa em Standford, referiu a sorte que teve em estudar com Richard Rorty, o mais importante filósofo à época. A tese de Mestrado foi sobre Walt Whitman. Passou uma temporada em Cambridge, UK estudar História da Medicina, antes de entrar em Medicina em Yale. Foi aluno de Shep Nuland, um reconhecido e reputadíssimo cirurgião-filósofo, autor do livro sobre mortalidade How we die.  

Descreveu em pormenor o primeiro nascimento que foi também primeira morte a que presenciou. Ensinou-me o que é uma cirurgia Whipple (duodenopancreatectomia) uma operação complexa que consiste na remoção da cabeça do pâncreas, uma vez que o pâncreas se encontra na parte anterior e “coberto” por varias estruturas, envolvendo rearranjo da maioria dos orgãos presentes na cavidade abdominal.

Aprendemos tanto com este livro. Sobretudo sobre vulnerabilidade e humanidade, como andam de mãos juntas. Os médicos vêem as pessoas na sua forma mais vulnerável, assustados e o que há de mais privado neles. Depois, o seu talento para a escrita e as suas referências literárias fazem lembrar-me da grande obra de Tolstoi, Ivan Ilitch, com as devidas diferenças. Tal como em Portugal, nos Estados Unidos, os médicos tendem a escolher as especialidades menos exigentes (Ex. radiologia e dermatologia). No fim do curso de Medicina tendem a focar-se em especialidades que proporcionem uma melhor qualidade de vida, aquelas com menos horas de dedicação, melhores salários e menor pressão. Como 99% das pessoas escolhem o seu trabalho: quanto ganham, ambiente de trabalho e horas de trabalho. Neurocirurgia, como há uns anos o Prof. João Lobo Antunes discutiu em alguns dos seus ensaios sobre a mão, a perfeição do toque, a leveza da mão cirúrgica. Aqui Paul compara-a quase à perfeição. A exigência desta especialidade da Medicina que exige tanta técnica. A necessidade imperativa do treino da mente, das mãos e dos olhos. Da necessidade não só de serem os melhores cirurgiões mas os melhores médicos do hospital. As capacidades cirúrgicas são avaliadas pela técnica e pela velocidade: “Aprende a ser rápido agora. Mais tarde aprenderás a ser bom”. No bloco operatório todos os olhos estão sempre no relógio. Se o tédio é, como argumentou Heidegger, a consciência do tempo a passar, então a cirurgia é o oposto. Do conselho de comerem com a mão esquerda e de terem que aprender a ser ambidestros. Aprendemos pequenas coisas como as funções básicas que o hipotálamo regula: dormir, fome, sede, sexo. A loucura de trabalhar 100 horas por semana durante a especialidade. Viu muito sofrimento. O almoço típico dele, como vi muitas vezes do Presbyterian em NY ou no Methodist em Houston: Diet coke e um gelado. Escreveu sobre o receio que teve de se tornar o estereótipo médico de Tolstoi: apenas preocupado com a forma de tratamento da doença e desleixando a importância da parte humana. A excelência técnica não é tudo. Como neurocirurgião, o seu ideal não era apenas salvar vidas – porque todos acabamos por morrer – mas guiar os doentes e famílias a perceberem a doença e a morte. Todas as grandes doenças transformam os doentes. Deve tentar-se ser preciso, directo e certeiro mas deixar alguma margem para a esperança. Cita Heidegger “a consciência do tempo a passar”. Ensina-nos que a arte de falhar em neurocirurgia define-se por um ou dois milímetros: a ténue diferença entre triunfo e tragédia. A existência de áreas no cérebro que são quase sagradas ou invioláveis. Cita Montaigne: Se eu fosse um escritor iria compilar descrições de várias mortes de homens: deveria ensinar como morrer ao mesmo tempo que ensinaria a viver”. Descreveu ao pormenor as conversas com a médica oncologista, de como não voltaria ao hospital como médico. De como planeou tanto e esteve tão perto de conseguir. De como a oncologista se recusou a discutir com ele as curvas de sobrevivência de Kaplan-Meier. [A curva de Kaplan-Meier é um método estatístico standard que mede a sobrevivência dos pacientes em função do tempo. É a métrica que permite saber o progresso e que podemos perceber a gravidade da doença. Por exemplo,  no caso do glioblastoma a curva desce vertiginosamente até que apenas aproximadamente 5% dos pacientes estão vivos em dois anos].  De como no início da confirmação de diagnóstico quis saber onde se encontravam os melhores oncologistas de cancro do pulmão, das possibilidades do MD Anderson Cancer Center – Houston e o Memorial Sloan Katering Cancer Center – NYC. Seis dias antes do diagnóstico tinha passado 36 horas no bloco. Como tudo muda num instante. Tornou-se um inválido. Os passos seguintes foram prepará-lo, e tudo à sua volta, para a mudança abrupta de condição: de médico para doente. Com o passar dos dias, com a repetição de exames, com a teraputica, até mesmo os médicos, tão profundamente cientes da gravidade da sua condição, permitem-se ter (alguma) esperança. Discute que a palavra hope  combina ao mesmo tempo confiança e desejo. Somente 0.0012 % de pessoas com 36 anos têm cancro de pulmão. Paul tinha planeado uma vida de 40 anos entre ser médico e escritor. Os primeiros 20 como neurocirurgião e os últimos 20 como escritor. Como tudo se precipitou por causa do cancro terminal ele queria saber quanto tempo mais lhe restava para tomar decisões relativamente à sua carreira: “Se tivesse 2 anos de vida, escreveria. Se tivesse 10, voltaria à cirurgia”. Mas vida e morte não são uma ciência exacta. Cita Darwin e Nietzsche. Houve uma melhora após 6 semanas de tratamento com Tarceva. O cancro estabilizou. Voltou a ler literatura: Tolstoi, Kafka, Montaigne, memórias de doentes com cancro, tudo o que tivesse relacionado com mortalidade: “Foi a literatura que me trouxe de volta à vida durante esse tempo”. Cita Hemingway, Beckett. Ainda voltou ao trabalho. Faria uma cirurgia por dia, não acompanharia os doentes fora do bloco e não estaria on call. Ouvia bossa nova Getz/ Gilberto. O primeiro caso foi uma lobectomia temporal, uma das suas cirurgias predilectas. Passou a noite anterior a rever livros de texto de cirurgia e anatomia e todos os passos dessa cirurgia. Descreve com uma beleza única como decorreu o procedimento. Como Lobo Antunes referia repete a “forma mais elegante” de proceder. Para se aguentar tomava antieméticos, Tylenol e anti-inflamatórios não esteróides. “A morte pode ser um evento mas viver com uma doença terminal é um processo... Se soubesse que me restavam 3 meses passava-os com a família. Se fosse 1 ano escreveria um livro. Se me dessem 10 anos, voltaria e trataria doenças. Mas a verdade é que viver um dia de cada vez não ajuda”. Tinham passado 9 meses e operava até tarde ou até de amanhã. Chegava a casa tão cansado que nem conseguia comer. Decidiram ter um filho. Engravidaram por fertilização in vitro.

Repetiu a tomografia 7 meses depois de voltar a operar. Seria a última antes de terminar a especialidade. Antes de ser pai e de o futuro se tornar real. Apareceu um novo tumor, grande. Foi o seu último de no hospital como médico. Começou a quimioterapia. E com ela vieram os efeitos secundários: fadiga, fastio, vómitos, diarreia. Ler era impossível. Obrigava-se a comer. Foi internado para ser hidratado por via intravenosa. As metástases ósseas causavam-lhe muitas dores. Quase morreu quando a filha tinha 38 semanas. Esteve nos cuidados intensivos uma semana. Perdera 20 kgs desde que fora diagnosticado, 7 deles nessa semana horribilis. Cita Graham Green. A filha nasceu. Tinha o desejo de viver tempo suficiente para que a filha se lembrasse dele. O seu desejo não foi cumprido.

Morreu 22 meses depois de ter sido diagnosticado com um cancro de pulmão metastizado no estadio IV, aos 37 anos. Não terminou o livro. Não teve tempo nem vida para o terminar. Chorei como uma Maria Madalena. Então no epílogo escrito pela mulher Lucy, desfiz-me. Morreu no hospital 8 meses depois do nascimento da filha rodeado da família.


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