sexta-feira, 28 de outubro de 2016

João Lobo Antunes

João Lobo Antunes, como diria Pessoa, “tinha o mundo dentro dele”. Foi o primeiro Lobo Antunes que conheci e li. Li “Um modo de ser” no ano em que foi galardoado com o Prémio Pessoa, em 1996. Depois desse, quase todos os livros. Conheci a realidade de NY através dele, e Washington Heights, muito antes de achar que algum dia frequentaria aquelas ruas. Foi com ele que descobri o meu amor por NY. Foi assim que escolhi a universidade de sonho em NY e que achei que seria apenas isso: um sonho. E foi através dele que quis ir viver para lá. Através dele aprendi antes de ser uma new yorker “emprestada” a differença entre a opera e o museu. The Metropolitam Opera e The Metropolitan Museum of Art. A sigla Met. Quando finalmente fui para NY, para Columbia, mostraram-me  a cadeira com o nome dele no Neurological Institute of NY. Através dele apaixonei-me por Edward Hopper, principalmente aquele homem numa noite sob a sombra da luz (Night shadows). E depois disso fui a todos os museus de NY que têm obras do Hopper: Met, Whitney, MoMa e Brooklyn Museum. O americano que mais pintou o quotidiano. Com ele descobri a humanidade que deve existir em todas as profissões tão bem descrita na “Morte de Ivan Ilitch” de Tolstoi. O livro que talvez ele mais citava. O livro que todos os médicos deveriam ler. E o livro que eu mais li e ao qual volto sempre. Com o Professor aprendi que as mãos são a marca do ser humano. Aquilo que talvez mais nos distingue das outras espécies. As mãos, essa parte anatómica que denuncia a nossa idade. Aquela que ninguém consegue fazer regredir os anos. A mão que é o instrumento de trabalho mas que também afaga e consola. O peso da mão. E a beleza e delicadeza que as mãos cirúrgicas têm. Já apreciaram a beleza e a dança das mãos numa neurocirurgia. Os gestos delicados, o detalhe, a leveza? Já apreciaram as mãos de um neurocirurgião? Já pararam para apreciar o quanto umas mãos bonitas são talvez das mais belas partes do corpo humano?

João Lobo Antunes foi sempre um aluno brilhante. Dizem que fazia tudo bem. Tinha qualidades invulgares para um homem só. Escrevia exemplarmente bem, era um acérrimo leitor, apreciador de todas as artes e tinha uma cultura invulgar. Para além de tudo isso, foi o mais brilhante neurocirurgião da sua geração. Como ele disse um dia, aqui é famoso mas foi para NY onde era um “small fish in a little pond”. Há maior banho de humildade do que este? Exaltava como maiores virtudes do ser humano a compaixão, decência e carácter. Conheci, não pessoalmente a sua fama como neurocirurgião. Mas sobre o que posso opinirar é sobre a escrita. Que bem que ele escrevia. Ensaios e memórias, sobretudo. Espero ansiosa pelo registo  das suas memórias a que se dedicou nos últimos tempos.
Morreu em casa como Ivan Ilitch, mas não como ele. Com toda a certeza que rodeado da família, com compaixão, respeito e amor.

Nenhum dos livros que tenho dele estão por ele assinados. Não por falta de oportunidade mas por falta de coragem. Ele para mim estava num pedestal. Transparecia ser tímido, de poucas palavras, reservado, cerimonioso, educadíssimo. Aquilo que se dominaria de um “homem à antiga”. Daqueles que ainda beijam a mão. Um príncipe.

Era sabido que estava doente. Não sabia o quanto nem que fosse tão rápido. Se é verdade que na morte, todos são bons, a gigantesca quantidade de mensagens de pesar e a unanimidade no elogio, emoção  e na  admiração pelo médico e pelo homem é de ressaltar.

A Medicina, a Ciência e a Cultura portuguesa ficam mais pobres. Foi-se um dos grandes intelectuais do país.

Copyright: Correio da manhã
Copyright: The Metropolitan Museum of NY

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Sócrates (José), o esperto

Sócrates, esse grande Mestre e intelectual de Sciences Po. Por acaso foi em Paris, mas podia ter sido em NY. Há quem assegure que ele pensou em fazer o Mestrado em Columbia. Compra da licenciatura numa privada, cadeiras feitas ao Domingo, outras avaliações por fax, e finalmente, um grau que lhe foi atribuído mas que não merece. Pagou a um ghost writer. O caso de Sócrates é o exemplo de que a realidade pode superar a ficção. Nem nos meus maiores devaneios achava possível Sócrates dominar, comprar, controlar tanta gente.  Pagou para lhe escreverem a tese, para escreverem posts favoráveis ao seu governo, comprou silêncios, opiniões, pagou a várias mulheres despesas correntes (ainda não consegui perceber o motivo), pagou para lhe escreverem a tese de Mestrado, para que lhe comprassem o livro, pagou ao Lula para escrever o prefácio (como se Lula fosse um grande escritor ou académico na área) e parece que pagou para lhe escreverem o segundo livro.  O tal do Domingos Farinho, disse ter (apenas) revisto o livro . Consta-se que para isso recebeu qualquer coisa como 40 mil euros. A ser verdade, fez  pagar-se bem por esse (pequeno) trabalho.  E a ser verdade, que mal tem isso? Que crime é esse de pagar a alguém, 40 mil euros, para rever uma tese? Que tipo de crime existe nesse facto? É com este tipo de perguntas (idiotas) que Sócrates e a sua defesa costumam justificar os seus actos. Aqui percebe-se a falta de tacto da imprensa portuguesa. Não é ofício do orientador rever/corrigir uma tese de Mestrado? Quem foi o orientador da tese de Sócrates. Ninguém coloca essa questão?

O Domingos Farinho vem dar razão aquilo que eu defendo e escrevi várias vezes. Ser doutorado não diz nada sobre uma pessoa. Apenas que essa pessoa se especializou num tema em particular. Muitos (as) deles (as) não sabem nada (mais) para além disso. Não vou dizer a maioria, para não ferir susceptibilidades, mas muitos dos Doutorados que conheço são as pessoas mais incultas do mundo e que me fazem ter vergonha de dizer que sou doutorada (como se isso fosse uma vantagem). Este Dominhos Farinho falta-lhe uma coisa: tempo, vida, sabedoria. Doutorou-se em 2013. Ou seja, um Doutor à la Bologna. É um menino. Tem 39 anos, 2 anos mais velho do que eu. Licenciou-se antes de mim mas doutorou-se 4 anos depois. Ao contrário de mim, deve ser um bem sucedido Professor Universitário, e com isso ter uma vida profissional estável. E deve achar, como todas as crianças, insensatas que são, que quarenta mil euros vale para que outro receba os louros por si. Ora bem, quarenta mil euros, dava para pagar o empréstimo da minha casa. Ao contrário de mim, que continuo com o mesmo estado de bolseira desde o dia que me licenciei. Só as bolsas, o financiador e o valor mudaram ao longo dos anos. A situação mega, giga tera precária, permanece. E vocês obviamente, como bons portugueses que são, devem estar a achar-me uma invejosa. E como tal, só devo estar a criticar o meu colega porque queria ser como ele. E isso faz-me lembrar há uns anos, quando me ofereceram dinheiro para eu escrever teses de Mestrado, muito bem pagas, por sinal, ao que eu respondi: “por dinheiro nenhum do mundo porque a escrita é a única propriedade intelectual que me representa e que é minha”.

Há uns tempos, Sócrates deu uma entrevista em frente ao rio Tejo, no Altis Belém a Clara Ferreira Alves, num tom confessional, verdadeiro, que vivia da ajuda da mãe e do empréstimo que fizera para ir estudar para Paris. Querem imaginar a Clara Ferreira Alves que acreditou e transcreveu o que ele disse e que agora se sente e vê enganada como todos nós? Poder-se-á nunca se provar nada do ponto de vista jurídico mas conseguem perceber a grandiosidade do esquema do Sócrates. Um gajo que tem um amigo que lhe dá dinheiro para tudo. Um amigo que é o multibanco. Paga-lhe as viagens, as roupas, os restaurantes, os carros dele e da família, as casas, as contas dos filhos e da ex-mulher, as cópias, os livros, os envelopes, as malas, os vôos, os dentistas, o funeral do irmão, as férias... Não sou licenciada em Direito, não percebo nada de leis, mas existe uma expressão que se chama “livre convicção”. [Desculpem-me, é como o Paulo Pedroso que foi ilibado e não foi condenado. Mas a história do sinal que retirou, ninguém consegue apagar. Esse pode até estar livre, andar de cabeça levantada, receber uma indeminização do Estado português mas se a justiça terrena não funcionou, aguardá-lo-à justiça divida, e dessa, não poderá fugir].

Sócrates poderá nunca ser condenado por corrupção mas nunca se livrará da verdade, que nunca deixará de ser verdade, mesmo que não seja provada pela justiça portuguesa. Factos são factos e ele nunca poderá negar as transcrições dos telefonemas que existem. Podem ser ilegais. Podem não ser uma prova válida. Mas é um facto, aconteceu. Sócrates é o exemplo do trapaceiro, do fingidor, do que leva a melhor sobre os outros, do que se fica a rir. Sócrates é o exemplo do que a política portuguesa fabricou de pior. Mas a justiça portuguesa, não sei apontar a principal razão, peca por tardia. Ao contrário do Brasil, ainda não conseguimos julgar efectivamente grandes figuras de poder. Os únicos exemplos são os de Vale e Azevedo e Isaltino Morais. Mas esses não são exemplos do topo da pirâmide. Esperemos que a justiça portuguesa consiga formular uma acusação exemplar, sem erros, ou seremos para sempre conhecidos como a “república das bananas”. Só um Sócrates se lembraria de um Lula para escrever o prefácio do seu livro.


O lançamento do segundo livro já tem data marcada. Daqui a pouco temos um Doutor por extenso sem o merecer. E ele a rir-se de todos nós. 

Copyright: Expresso

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O meu problema com Bob Dylan

O meu problema com o Bob Dylan é quase o mesmo que os outros galardoados com o Nobel da Literatura. Não o conheço (bem). Sei que é um grande (e conhecido cantor, para muitos) e um grande compositor. Não sei apreciar a sua qualidade musical. Mas sei dizer que detesto a voz fanhosa e aguda dele com aquele sotaque do sul (Minnesota). Aquele ar superior, de estar a “cagar-se para o mundo”, enerva-me. E achei espectacular o facto de ele não ter falado (ainda) com a Academia Sueca. Ele não rejeitou o galardão. Pura e simplesmente ignorou-o, que é muito pior. A justificação da Academia Sueca para atribuir o Nobel da Literaura a Bob Dylan baseou-se no facto de ele “ter criado um novo modo de expressão poética na grande tradição da música americana”.

A minha questão é mais: Não havia quem mais merecesse nessa categoria. A tradição de premiarem poetas é quase inexistente. Se a ideia foi premiar “escritores de letras de músicas” acho muito bem. Não distingo poetas de “escritores de letras de músicas”. Retiremos a melodia desses poemas e veremos que o poema resisterá sem música e será igualmente grande. Mas nessa categoria podemos questionar-nos: Vinícius de Moraes não mereceria muito mais? Um grande poeta que escreveu músicas extraodinárias. Um menino que sonhava ser poeta. Nunca sonhou ser outra coisa. Foi um dos grandes percursores de um revolucionário estilo musical: a bossa nova. Ok, mas está morto e a Academia não premeia mortos. O mesmo poder-se-á dizer sobre David Bowie. Mas, e sobre Leonard Cohen ou Patti Smith? Esta pergunta não tem resposta certa. Gosto, apenas, da pergunta. Serve, apenas, para pensar.

A coisa mais improvável que me aconteceu em relação ao Bob Dylan foi que conheci primeiro quem era Dylan Thomas antes do Bob Dylan... E eu gosto tanto do Dylan Thomas que até já fui a todos os loscais e ruas que ele frequentou em NY. As únicas duas músicas que coheço de Bob Dylan são. “Knocking on heaven’s door” e “Mr tamborine man”. A primeira um hit da minha geração popularizada pelos Guns N’ Roses.

Depois, outra coisa, o mercado livreiro está de tão boa saúde que atribuir o prémio de literatura a alguém que vive da música, parece-me injusto. Mas provavelmente eu não consigo esboçar uma opinião neutra porque não gosto, especialmente, do Bob Dylan. Alguém que nem o próprio nome assina...o tal “bardo romântico judeu do Minnesota”, como escreveu Caetano Veloso.


Senhores, desculpem-me, mas eu nunca fui de concordar com a maioria. Esta é a minha opinião. Não pretendo convencer ninguém.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Onze de outubro de dois mil e dezasseis

Passaram-se quatro anos. O meu afilhado tinha 3 anos, usava chupeta e uma fralda na mão para dormir. O meu sobrinho mais velho tinha 4 anos, ainda não tinha mudado os dentes. Já usavam óculos. Não quero voltar a esse dia. Não consigo voltar a esse dia. É demasiado mau. Nestes 4 anos, a minha avó morreu. Passaram-se Natais, e novos anos e dias de anos e dias do pai. Muito medo, muitas lágrimas, muitas tristezas, muitas saudades, muita dor. Muitas lágrimas secaram e muitas lágrimas deixaram de brotar por não haver mais para chorar. Expectativas defraudadas. Muitas provas, muitas folhas, muita tinta, muitas palavras. Tempo, muito tempo, demasiado tempo. Tempo, que se pensava, irrecuperável. Depois de tantas desilusões chegava-se ao dia da decisão final. À estrada percorrida, comprida, sem saída. Uma única e justa solução. Não seria possível outra decisão que não fosse a justa. Que a justiça fosse justa, o verdadeiro pleonasmo. A decisão que defendesse o superior interesse das crianças. Uma justiça que fosse cega, como é a imagem que a representa, sem pender para nenhum lado das balanças. Ninguém entende, ninguém consegue perceber-nos, ninguém consegue colocar-se no nosso lugar. A tão bela frase que fica ainda melhor em inglês: "put yourself in my shoes". 

E chega o grande dia. Um entusiasmo calado, um optimismo que sentia estar certo. Mas conhecia as frases: "Quem disse que a vida é justa?", "A justiça não funciona", "Mãe é mãe", "Ninguém tira os filhos a uma mãe". Depois de tanto tempo, tantos factos, tantas provas, tantas evidências, só poderíamos estar confiantes. Mas o tempo perdido, decisões erradas e falta de coragem de muitos dos envolvidos, levam-me a ter (sobretudo) medo. Foi isto que mais aprendi nestes últimos 4 anos: a ter medo. E eu que só tinha medo que os meus morressem...

Acordei optimista, depois de não ter conseguido adormecer antes das 4 da manhã. Adormeci com dor de cabeça, como quase sempre nos últimos dias, e acordei como se não tivesse dormido. Mas acordei sem medo e sem angústia. Confiante, no fundo. Pela primeira vez, não conseguia não ser optimista. Quando no aeroporto, vi que iria viajar numa avioneta que mais parecia um avião de papel, pensei no quão injusto seria morrer antes de ver a alegria estampada no rosto dos meus sobrinhos. Aterrei sem problemas de maior. Fui trabalhar, como de costume. Não disse a ninguém o quão mal estava, por dentro. Acreditava, com a fé que tenho, que seria um grande dia e que tudo ia acabar em bem!

E assim foi. O grande sonho cumpriu-se. O dia da liberdade chegou! A justiça foi feita! Muita gente nunca desanimou. Muito obrigada a todas as pessoas que sempre acreditaram. Uma vida nova começa. Os meus sobrinhos ganharam! Palmas, principalmente, para a advogada do meu irmão que nunca perdeu a esperança e sabia, desde o inicío de que lado estava a razão!

Não quero mais olhar para trás. Só para a frente e pensar que os meus sobrinhos vão agora poder viver a vida na sua plenitude. Vão poder falar sem terem medo do que vão dizer, sem medo que lhes digam mal das pessoas que gostam, que vão ter aquilo que há quatro anos lhes tiraram: a liberdade de serem o que são.


“It was a long, long, long road”!

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Uma noite linda daquelas com Moreno Veloso

Dia de manif de taxistas em Lisboa. Eles chamaram de greve, eu chamo de bloqueio. Aeroporto caótico. Filas e filas. Pessoas e mais pessoas. Um mar de gente. Metro congestionado. A verdadeira democracia. Gente de todas as idades e estratos sociais como sardinha em lata. Mas tudo acaba dando bem. Em Lisboa não se vê um único táxi.

O concerto está marcado para as 9. Vou de metro até ao Chiado e vou comer qualquer coisa ao Mini Bar do José Avillez. Quero ficar ao balcão, como sempre quando estou sozinha. O balcão é do bar, para se aguardar enquanto não se tem mesa, mas fazem-me a vontade sem eu pedir muito. O que mais gostei foi da luz. Aquela iluminação de meia-luz como tão bem descreve Blanche DuBois em "Um eléctrico chamado desejo".: "Apaga essa luz demasiado forte! Apaga isso! Não quero ser vista debaixo desse clarão impiedoso! (...) Detesto lâmpadas sem quebra-luz (...) As pessoas frágeis têm de brilhar. Têm de usar cores suaves, cores de asas de borboletas, abafar a luz com uma lanterna de papel". O bar é ao estilo daqueles bares trendy de NYC onde se vai depois do trabalho, ou beber um copo antes ou depois do teatro e, por último, a mais comum das hipóteses, afogar as mágoas em grande estilo a beber uma pipa de massa (para depois garantir uma ressaca daquelas). 
Aqui a iluminação está focada nas garrafas e o que vi preparar leva-me a dizer que voltarei em breve (a minha intenção era voltar no fim do concerto para uma Margarita ou um mojito, mas nem tudo corre sempre como queremos e/ou esperamos. Devagar, dizem. O caminho faz-se caminhando. Paciência é a melhor virtude que podemos ter). Escolhi o mini hambúrguer porque só queria qualquer coisa para segurar o copo de vinho branco José Avillez. Entrei quase às 8:30 e perguntei se conseguia comer qualquer coisa até antes das 9. Disseram-me que sim. Irrepreensível. Às 8:55 já estava a pagar. Simpatia mais do que muita. Humor em doses idênticas e disponibilidade do melhor.



O Teatro São Luiz estava composto. A sala, para quem não conhece, é muito bonita no estilo do Teatro Nacional São João. As cortinas estão fechadas. Não esperamos muito para o início. Algumas caras conhecidas na plateia: Anabela Mota Ribeiro, Matilde Campilho, um dos músicos da banda Cê, achei que vi o Domenico Lacellotti (mas como sou pitosga, não aposto).
As cortinas abrem e lá está Moreno Veloso e a banda (Pedro Sá, Rafael Rocha e Bruno Di Lullo). Estão debaixo de uma iluminação de várias cores com uma espécie de vários candeeiros de luzes pequeninas. Eu não conhecia o Moreno no palco. Nem nunca nos cruzamos na vida. Mas este menino de 44 anos tem uma doçura misturada com um riso lindo e uma alegria que deve vir da Bahia. Não imaginava que fosse tão extrovertido. Sentia-se em casa, era notório. E rodeado de amigos. Um menino grande. Um despojado. É daqueles concertos que não se vai para cantar nem para reconhecer mas apenas para ouvir. Foi o que fiz. Não me lembrei do telemóvel. Perdi a noção do tempo. Não reconheci todas as músicas, nem esse era o objectivo. Mas cantou Mambeado aquela que diz: “Que lindo es estar en la tierra/ después de haber vivido el infierno”. Fechei os olhos e ouvi, somente.Que bem que o Moreno a canta.  Depois, chamou ao palco Luana Carvalho que tudo o que cantou eu gostei. E eu que quase não oiço música e que não gosto de quase nada. Cantaram juntos, a tão esperada por mim, Deusa do Amor, um verdadeiro hino ao Carnaval de Salvador mas com batida suave, uma melodia de amor, que eu tenho ouvido em loop: uma verdadeiracantada”: “Tudo fica mais bonito quando você está por perto/ você me levou ao delírio por isso eu confesso/ os seus beijos são ardentes/ quando você se aproxima o meu corpo sente/.../ Balanço o alicerce mais forte que tem nesse mundo/ O cupido me flechou”. Não é lindo? Não são necessárias grandes metáforas e eufemismos para descrever o maior dos sentimentos. Luana Carvalho que eu não conhecia nem nunca ouvi falar, imagino que a maioria também não. Vi-a pela primeira vez no Folio, em Óbidos num showcase de música e poesia (para ler mais aqui e aqui). Não se esqueçam, esta menina ainda vai dar muitas cartas! É só talento. Muitos, numa só. Depois, sozinho, cantou Coisa boa a canção de ninar para os seus “filhinhos”, Mar português de Pessoa, Noite de Santo António. Dançou muito com Luana Carvalho. Mostrou que sabe dançar. Tem swing. Dança muito! Uma alegria. Voltou duas vezes ao palco, incluiu Arriverdeci e Leãozinho.
No final do concerto saimos felizes e de bem com a vida. A felicidade num instante. É isto, apenas.






Todas as fotos, com excepção da primeira, foram gentilmente cedidas pela Catarina Henriques


E no dia seguinte seria talvez o dia mais feliz da minha vida. Mas esse merece um texto à parte. Aguardem. Eu gostava de dizer que sou inspirada e que escrever é inspiração. Mas para mim é trabalho, tempo, inspiração e disponibilidade. Conjugar estas coisas é uma tarefa hercúlica, para mim. Desculpem, para quem pede muito e mais e mais.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O dia da liberdade chegará

Ainda hoje, passados 4 anos, não consigo lembrar-me daquele dia. Ainda hoje, depois de muita ajuda, de muitas palavras, de muitos conselhos, de muitos químicos legais, de muitos comprimidos, de muitas insónias, de noites e noites sem dormir, de muitas lágrimas vertidas, de muitas lágrimas que secaram, continuo a ter medo daquele dia. E fechei-o em qualquer lugar dentro de mim para nunca mais lá voltar. Não há nenhum dia que ao lembrar-me de pequenas partes  (que aparecem sem avisar), a que imediatamente fujo, consigo não chorar. A maior injustiça de todas. O maior mal que se fez a algumas pessoas com o objectivo de se atingir apenas uma. O maior mal, o maior de todos, foi causado a duas crianças. E uns pais que criaram filhas inaptas para enfrentarem como adultas a sociedade apoiaram a birra e a maldade de uma filha contra o supremo interesse dos netos. O tempo e a memória permanecerão. E essa verdade imutável será a que sempre terão que se confrontar na vida. O peso do mal que fizeram. E eu só espero e peço que estes (inúteis) quatro anos não tenham interferência (negativa) na personalidade e carácter dos meus sobrinhos. Que sejam homens bons. Que a maldade nunca lhes afecte o juízo. Que sejam sérios e honestos. Que nunca precisem (mais) de mentir e de esconder o que sentem. Que se guiem sempre pela frase “A verdade liberta”. Que parem de me pedir “eu quero ficar com o pai” quando eu não tenho poder nenhum e quando eu nada nada posso fazer a não ser lutar para que seja feita justiça. É com essa fé, com que nasci, e profunda convicção e optimismo, nos homens, que espero que na terça seja feita justiça. Sem represálias, sem vinganças, sem acertos de contas. Só pelo bem de duas crianças que sabem (desde sempre o que querem) mas que sempre tiveram medo de falar a verdade. Para que nunca mais na vida tenham medo daquilo que sentem e que a partir de terça sejam seres humanos livres. “Não há mal que dure sempre, nem bem que sempre acabe”.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos 2016

Ponham os olhinhos no FOLIO, senhores! Ainda dizem que a cultura de alta qualidade não vende.Um evento de 10 dias à volta dos livros. Uma vila, no interior de Portugal, num país que se diz ler pouco e todas as sessões estão cheias e os eventos, mesmo os pagos, estão esgotados. O povo é aquilo que se lhes dá. Eu e a maioria das pessoas presentes no Folio foram propositadamente. Qual a receita do sucesso?

Fico a saber que o Presidente da Câmara Municipal de Óbidos é do PSD. O partido que muitas vezes nos seus governos aboliu o Ministério da Cultura. Incluindo o último, de Passos Coelho, que foi só tiros nos pés. Até o acervo do Miró queriam leiloar. Ou seja, as decisões culturais dos políticos não são ideológicas. Há por aí muito boa gente que diz que não precisa de estudar nem ler nada para além do seu trabalho porque já aprenderam tudo o que deviam quando foram alunos na Faculdade. Que visão mais redutora do mundo. Que pequeno o mundo que lhes vai na cabeça. Que falta de pensamento. Mas, isso, são outros quinhentos.

 O que me fez ir, não vou mentir, foi o programa. Primeiro o Salman Rushdie com a Clara Ferreira Alves. E depois, o Camané a cantar Jobim. Apesar de, para este último, já não ter conseguido bilhetes. Tirei o meu último dia de férias para ir e conseguir chegar a Óbidos às 9. A conversa de Rushdie com Clara Ferreira Alves teve que ser mudado de lugar. Da tenda de autores para a tenda de concertos. Acho que a conversa não poderia ser conduzida por ninguém mais habilitada. Quem melhor do que Clara Ferreira Alves para conversar com Salman Rushdie? Ela que é uma enciclopédia ambulante. Que domina e conhece o islão, o Médio Oriente, a fatwa, terrorismo, EUA, NY, Londres. Sobre isto e muito mais se falou nesta noite. E que escreveu um livro magnífico sobre estes assuntos. Eu diria que o humor e a ironia são as características deste escritor. Ao contrário de muitas outras vedetas do seu calibre, este não é tímido, é solícito e ri-se de si próprio. É talvez a única pessoa de origem indiana que conheci simpática, não querendo generalizar. Apelidou a religião de non sense. Referiu-se a Madre Teresa de Calcutá sobre ser o oposto de uma santa. E apelida o ex-Papa de “Eggs Benedict” Falou-se da sigla ISIS que há uns tempos ninguém conhecia: “era apenas o nome de uma deusa egípcia, ou de uma mercearia na rua onde vivo, em Nova Iorque. Falou de quanto é feliz por viver em NY. Clara perguntou-lhe onde se sentia em casa ou aonde é que ele pertencia. Ao que respondeu que sempre se sentiu pertencer muito mais a cidades do que a países. Gosta de livros que o façam pensar. Falou que grandes livros não mudam necessariamente o mundo. Deu como exemplo o “Moby Dick”, um colosso que segundo ele nem a pesca mudou.
No dia seguinte acordei relativamente cedo, para ser sábado. Fui comprar o “Expresso” em frente ao hotel e cruzo-me com o grande Luís Miguel Cintra. Nunca o tinha visto fora do palco. Passei a manhã a ver todas as livrarias de Óbidos: Mercado, Adega...O saco de pano que muitas pessoas usavam era ridiculamente caro. Nem um saco destes na Strand custa o mesmo.Almocei num dos restaurantes na rua principal. Comi muito bem, bebi melhor.


Copyright: Folio
Copyright: Folio
Copyright: Folio

Ao fim da tarde tive uma das grandes surpresas, talvez pela ausência de expectativa: a “Casa Cais”. Luana Carvalho (que eu não conhecia, como é possível), Alice Sant’Anna (que eu conhecia do livro “Rabo de Baleia” que trouxe de São Paulo), Pedro Sá (o grande músico da banda Cê e um dos grandes responsáveis pela modernidade dos últimos discos de Caetano) e Rafael Rocha. Pedro Luís, na plateia fez uma participação especial. Anabela Mota ribeiro apresentou-os, lendo “excertos” do grande livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas do não menos grande Machado de Assis. A delicadeza de Alice Sant’Anna a ler excertos do seu livro “Rabo de baleia” cujas palavras mais repetidas foram: baleia e Japão. E os variadíssimos nomes para a mesma cor usados no Japão. Mostrou ainda talento para cantar. Luana Carvalho, filha da mãe Beth, mostrou que o talento é genético. Até o cenário era inspirador. Uma laranjeira em que se viam as folhas a cair. O passar do tempo, como a vida. Que acontecimento este. Foi tão bom mas tão bom. Ficou a memória e a vontade de ver de novo. “Que lindeza tamanha”, como nas palavras de Régio.

Copyright: Anabela Mota Ribeiro


À noite, o grande concerto de Camané a cantar Tom Jobim. Uma verdadeira utopia neste registo. Indescritível de tão lindo e emocionante.

Copyright: Anabela Mota Ribeiro
No último dia houve ainda uma leitura encenada dos solilóquios de Hamlet — “como queiram de William Shakespeare” , coordenada por Beatriz Batarda e e por alunos e ex-alunos dela. Este para mim, foi o outro grande momento do festival. De uma delicadeza, força, verdade e excelentes interpretações. De encher a alma e o coração. Beatriz Batarda, uma excelente professora e uma das maiores encenadores e actrizes da sua geração. Que para além de tudo, é muito gira. Palamas para ela, muitas e para os alunos que ajuda a formar. Enquanto houver actores desta qualidade existirá sempre público.

Copyright: Folio
Copyright: Folio
Copyright: Folio
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Dos dois curadores só conhecia a Anabela Mota Ribeiro e José Eduardo Agualusa. O último não vi. A Anabela estava omnipresente. Todos os eventos que fui, lá estava ela. Sorriso aberto e abraços e beijinhos para todos os conhecidos. A felicidade era visível. Foi através dela que conheci o festival e não poderia haver melhor divulgadora. O seu entusiasmo e alegria foram contagiantes. Que qualidade de programa e que orgulho. Palmas e elogio, por isso, para ela.


Há coisas a melhorar, claro. Como as acessibilidades. O Comboio Literário foi uma excelente iniciativa. Falta melhorar os transfers da estação de comboios para a vila e criar um Comboio Literário desde o Porto (o norte também existe, e passar o dia entre aviões e comboios só com muita vontade mesmo). Mas não me arrependi. Tudo valeu muito a pena. Superou todas as minhas expectativas. O tempo ajudou. A organização magnífica, o cenário condizente. Tudo beirou a perfeição. Memórias muitas e já penso na vontade de voltar para o ano. Para mim, foi um verdadeiro acontecimento. 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A eleição merecida de um homem bom

Há uns anos tudo me afastava de Guterres. Mas lembro-me do poder mobilizador daquele homem. Nunca fui socialista nem sou, até hoje. Lembro-me como se fosse hoje, do ano de eleições para o governo da Republica. Eu gostava muito de política no ano de 1995. Foi o ano que Cavaco apoiara Fernando Nogueira, tendo como adversário António Guterres. Nesse ano, Fernando Nogueira terminou para a política, nunca mais se falou dele. E tinha um gigante da oratória como adversário. Era visível, já naquele tempo, o talento de Guterres. Foi quase uma batalha desigual. Guterres era mobilizador, tinha o poder da palavra e recordo-me dos seus comícios ao som de Vangelis. Guterres teve uma maioria absolutíssima e uma menos expressiva no segundo mandato. E, depois como todos sabem, abandonava com a célebre frase do “pântano” quando o PS teve uma derrota esmagadora nas eleições municipais. Mesmo ao fim de muitos anos, ainda me recordo destes acontecimentos, como se fossem hoje. A dignidade de se sair de cabeça erguida e de pé. Políticos assim há (muito) poucos. Homens que ganham quando ganham e que sabem perder. Como dizia alguém há uns dias é sobretudo “um homem bom”. Depois de se ser um bom profissional, ter uma vida boa, o que nos faz diferentes, de facto? O que marca a nossa vida e o nosso nome? Ser bom. Acho que isso faz toda a diferença. Não importa a ideologia, importa os valores que se tem. E este homem é unânime por isso.

Nos últimos tempos assistimos às jogadas de bastidores que mostravam que a batota poderia ser uma forma de ganhar. Felizmente, acabo de saber que este homem discreto, com um percurso irrepreensível até à sua eleição, acaba por vencer. Este homem que teve a coragem, quando mais ninguém parecia te-la, de dizer ao mundo como era possível ver-se morrer tantas pessoas que fugiam da guerra na Síria. Sei que Guterres não vai mudar o mundo. Mas tenho a certeza, pelo homem que é, pelos valores que tem que tudo fará e que não ficará indiferente perante a tragédia. 

www.unhcr.org

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Tasca Torta

Aconselhada no hotel, vim parar à Tasca Torta. Meia dúzia de mesas é o tamanho do restaurante. Quem nos recebe é um senhor de óculos com um humor peculiar. É-me dada a ementa. Olho em volta e os pratos têm todos óptimo aspecto. Pergunto por sugestões e nada me é aconselhado. Depende do meu gosto. Começamos pelo vinho. O antigo Vinha da Defesa que agora é apenas Defesa. Branco. Escolho uma entrada. Vieiras em cama de legumes. Enquanto espero, colocam-me copo e garrafa na mesa. E água, sem pedir. Aproveito e saio para fumar um cigarro, do prazer, não de viciada. Regresso e colocam-me as vieiras na mesa, como na foto. Simples. Rúcula,  courgette e umas pitadas de sal. Já vou em 2 copos de branco. Segue-se a espetada de frango com farinheira. E colocam-me um copo, que provo, e é vinho do porto LVD 10 anos Offley. O prato principal é uma experiência sensorial. A espetada, com pimento vermelho, cogumelos e frango acompanhada de um arroz de grelos/ espinafres  e uma salada de alface, rúcula, tomate cherry e cebola com um molho de mel. Meu Deus! O vinho agora muda para tinto: Cabeça de ToiroComer, beber livros e viajar! É isto que levamos da vida. Eu, pelo menos. A sobremesa entre o melhor chocolate do mundo, que conheço tão bem de NY, e uma mousse de pêra rocha com raspas de chocolate, massa filo eum molho de frutos vermelhos. A escolha é a última. Pouco doce. Nada enjoativo. Mesmo cheia, consegue ser a cereja no topo do bolo. Quem passar por Óbidos, não se esqueça de passar por aqui.Quem gostar de um humor judeu, quem está atrás do balcão, é do melhor que há.










sábado, 1 de outubro de 2016

A antítese

Percorro a Rua Direita de manhã e o ambiente de hoje não é o mesmo. Turistas e mais turistas. Daqueles que querem ver o maior número de coisas em menor tempo. Brasileiros, muitos brasileiros. Mulheres plastificadas de caras iguais. Daquelas que falam muito alto. Lula teve essa responsabilidade, democratizou o acesso das viagens para o exterior. Estas brasileiras não são daquelas que habitam muitos dos prédios em Portugal. Não são daquelas que descem à rua a mostrar mais do que devem, mesmo quando os seus corpos não sejam (para ninguém) um objecto de desejo, mas que ganham dinheiro para mandar para a terra natal com os anúncios que colocam no jornal a publicitar os seus serviços (cada vez a preços mais baixos. Dizem que é a crise, senhores). Não, não são dessas. Mas são aquelas que entram numa livraria e dirigem-se (apenas) para a secção infantil para comprar os presentes de Natal. São daquelas que apregoam aos sete ventos, no Brasil, perante as suas faxineiras e diaristas que são descendentes directas de alemães, espanhóis ou italianos. [Portugueses não. O português é europeu mas é  brega. O português é (apenas) o dono de padaria, supermercado ou restaurante. E isso, não é suficientemente bom para elas]. Estas são aquelas que dizem que são caucasianas puras e não morenas, pardas, pretas, mestiças. Apregoam isso, como se fosse uma virtude. E são aquelas que vêm a Portugal e continuam com o síndrome do colonizado. A culpar Portugal pelo mal do Brasil, que foi descoberto em 1500 e é independente desde 1882 mas não sabem que José Bonifácio foi quem descobriu o lítio. Eu gosto é de grandes mulheres brasileiras que assumem o que são. Que não têm vergonha do que são. Que não precisam da sua ascendência nem da sua genética para provarem o que valem.
O cenário muda quando chego à tenda do Folio Lounge. Tudo atrasado, felizmente. Agradeço ao universo pelos americanos que tentaram entrar no meu quarto porque confundiram o número. E mesmo com o aviso de "Não incomodar" insistiram em tentar abrir. O barulho foi tanto que acordei de uma sesta que devia ser de minutos e foi de mais de uma hora. Acordei na hora do evento. 

Passam por mim Pedro Sá, o grande amigo de Moreno Veloso. O estupendo músico, guitarrista da banda Cê que acompanhou Caetano Veloso. Deixou crescer o cabelo. Vejo o Pedro Luís, grande músico, também. Passa por mim, também, a (aparentemente) tímida Alice Santa'anna, uma enorme poeta que para pena nossa ainda não está publicada cá. Vejo também a omnipresente Anabela Mota Ribeiro que se desculpa pelo atraso. Este será o evento da Casa Cais idealizado pela Luana Carvalho (que eu não conhecia, como é possível?). É esta a composição: Luana Carvalho, Alice Sant'anna, Pedro Sá e Rafa. Um palco sóbrio com uma laranjeira que até se verão folhas a cair. A vida em movimento. Pedro Luís subirá ao palco para os acompanhar numa música. Anabela Mota Ribeiro abre com a leitura de um excerto do grande livro do não menos grande Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas" personagem que fez Direito na Universidade de Coimbra e viajou de Lisboa, onde chegou de barco e depois seguiu para a cidade dos estudantes. Eu não tenho palavras para descrever o que este evento foi. Tanta música desnecessária no mundo e eu não conhecia a Luana Carvalho? Que descobri hoje ser filha da Beth Carvalho. A Alice Sant'anna é a delicadeza em pessoa. Lê bem, apresenta-se bem e (ainda) canta bem. Leu partes de um dos seus livros e as palavras que mais retive foram: baleia e Japão. Que lindo que foi. Que maravilha. A vida feita de pequenos nadas. É aquela laranjeira, carregada de laranjas, cujas folhas caiam... A iluminação perfeita. Uma obra de arte. Inesquecível. E estes são também brasileiros. A antítese perfeita. Como não amar?

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Quando os sobrinhos acham que têm a cadela mais bonita do mundo

Chego ao carro. Entro para o banco de trás, onde seguem os meus sobrinhos, e eu espremida entre ele no lugar do meio. Beijinho num e beijinho no outro, reparo que o mais velho está triste. Pergunto-lhe o que se passa.Responde-me, todo fungoso, que a Bu não ganhou o prémio (fiquei sem entender se era prémio de habilidades ou beleza...). Durante a tarde tinham ido a uma "Cãominhada", uma caminhada solidária com cães que visava recolher ração para uma associação. Uma das actividades seria um concurso, que não cheguei a perceber o tipo. Choroso, o mais velho, continuou a explicar detalhadamente que a Bu não fez nada do que ele lhe pediu (mas que faz sempre). Não deu a patinha, não lambeu, não deitou, não sentou e não deu a barriguinha. Nada. Niente. Zero. E eu tentei explicar-lhe que a Bu não é uma cadela de circo. Que a função dela não é exibir os seus dotes artísticos mas ser feliz. Na linguagem mais simples tentei dizer-lhe que os cães, tal como nós, têm vontades e que, muitas vezes, só fazem o que lhes apetece. Provavelmente, viu muita gente e ficou inibida. Petrificou. E por mais que o dono pequeno (que ela adora) lhe pedisse e lhe implorasse, ela não se mexeu. Disse-me também que não ganhou o prémio de mais bonita. Perguntava-me ele como é que isso era possível? O que para ele não existe qualquer dúvida, mas apenas, uma certeza. O amor dos pequenos por ela é tão grande que lhes tolhe o juízo!

Pois bem, vou fazer a analogia com a história da coruja que ouço desde criança contada pela minha mãe. Era uma vez uma mãe coruja que precisava de ir arranjar comida para os filhos e pediu/avisou os predadores que não os comessem. Nas palavras da mãe-coruja "eram muito bonitos" quando questionada sobre a aparência deles. Quando os predadores chegaram, viram criaturas tão feias que não hesitaram em come-las de tão feios que eram. Moral da história: "Quem feio ama,bonito lhe parece".


terça-feira, 27 de setembro de 2016

Caetano Veloso e António Cicero à conversa com Inês Pedrosa no FIC

Cascais, nove de Setembro de dois mil e dezasseis

À horinha, ao contrário de muitos acontecimentos em Portugal, os convidados estão todos na sala que está cheia. As três primeiras filas estão reservadas a convidados: políticos, escritores, editores, produtores, amigos, intelectuais: Ministro da Cultura, Presidente da Câmara de Cascais, Paula Lavigne, Lucinha Araújo (mãe de Cazuza), Teresa Cristina, Inês Mota, Jorge Reis Sá, Marcelo Pies, Pedro Corrêa do Lago, Pilar Homem de Mel, David Ferreira (filho de David Mourão-Ferreira), Leonor Xavier, Maria João Lopo de Carvalho (e até Lili Caneças que não se senta nos lugares da frente). Estes e o resto do público são tudo gente que lê livros. Há quem fique em pé.

Inês Pedrosa conhece bem estes dois pensadores do Brasil. Para além de excelente moderadora, é uma contadora de boas histórias e percebe-se a intimidade que tem com eles. Nota-se o quão bem se preparou para esta conversa e confessa ter lido novamente “Verdade Tropical” para esta ocasião. António Cícero é um filósofo de profissão, poeta e escritor de letras de música (para os conservadores que consideram letra de música menor do que poema). Caetano Veloso procurou ser filósofo, estudou Filosofia mas abandonou a carreira cedo. Quis ser pintor e cineasta.  Fez um filme, dizem que muito interessante, chamado “Cinema falado. É cantor, compositor, escritor (“Verdade Tropical” e muitas cronicas escritas ao longo dos anos), pai e avô. Caetano e Cícero têm uma amizade longuíssima, já descrita na sua autobiografia e uma relação pessoal e intelectual muito forte.  Estiveram juntos em 2009, na Casa fernando Pessoa, para falarem na influência da “Mensagem”. Inês Pedrosa contou que Fernando Pessoa se candidatou a um lugar de bibliotecário na Câmara de Cascais, na Biblioteca Castro Guimarães e foi rejeitado. Ficou em segundo lugar porque em primeiro ficou um senhor de Cascais. Esta história arrancou gargalhadas do público presente.

Inês Pedrosa falou também no acaso ou coincidência de há precisamente 10 anos atrás, neste dia, o Prémio Camões ter sido entregue na Fundação Biblioteca Nacional pelo então Ministro da Cultura brasileiro, Gilberto Gil à escritora portuguesa Agustina Bessa Luís.

Inês Pedrosa faz uma provocação: “Para que é que Caetano fala tanto se ele o que sabe é cantar?. Fala de “Verdade Tropical” essa autobiografia de Caetano Veloso que é muito mais do que uma biografia mas uma reflexão sobre o Brasil, relação da música com as outras artes, e o estado da política brasileira na época. É também uma reflexão profunda sobre o que é o Brasil, os caminhos que o Brasil seguiu. Um livro fascinante com o qual se aprende muito. Nas últimas férias li-o pela quarta vez. É um livro a que sempre volto. É um livro obrigatório para quem quer conhecer a história da música brasileira. Para além disso, faz observações muito pertinestes e elogiosas sobre António Cícero, que Caetano considera um dos maiores filósofos brasileiros. Falou-se também sobre Mário de Andrade e Oswald de Andrade.

Quem também não foi esquecido foi Agostinho da Silva. Caetano contou que o Professor foi para a Universidade da Bahia para criar o instituto de estudos afro-orientais. E que o Reitor criou a cadeira de Filosofia do teatro para que o Professor para leccionar na Escola de Teatro. Caetano referiu, também, que o Professor tinha uma amor profundo por Portugal e pelos portugueses (“o povo que criou o globo terrestre”). E que o Brasil é uma espécie de aberração. Um país de dimensões continentais, na América, no hemisfério sul. E que Portugal é um país pequenino territorialmente e que aprendeu a tornar-se pequenino politicamente ao longo dos séculos. E Caetano afirmou que o Professor Agostinho ambicionado ambicionava resolver essa charada. Descreveu também o encontro com o Professor Agostinho em Lisboa. Caetano estava exilado em Londres e veio fazer uma apresentação a Lisboa: “Roberto Pinho que era meu amigo e tinha sido discípulo directo do Professor Agostinho falava-me muito dele”. Marcaram no hall do hotel e conversaram, não por muito tempo. “Eu fiquei um pouco intimidado. Não tinha muito o que dizer. Ouvi algumas coisas, falei muito poucas coisas e me senti meio vago. Ele se despediu, alegre, e se foi. E depois escreveu para Roberto Pinho, e digo isso sem falsa modéstia porque aconteceu assim, mais para que se saiba sobre o Professor Agostinho do que sobre mim. E escreveu simplesmente: Gostei do seu amigo. Pensa bem, fala bem. Age bem. Eu não tinha feito nada. Esta é toda a minha história sobre o Sebastianismo”.

Falou-se também de Eduardo Lourenço (“Do Brasil: fascínio e miragem) e Leonor Xavier (“Portugueses do Brasil e brasileiros de Portugal). Outra das histórias contadas `foi sobre quando os escritores portugueses são convidados para palestras em universidades americanas e estão 200 alunos americanos na plateia: “Quando estamos com o ego a começar a subir perguntamos qual a razão de quererem aprender língua e literatura” e respondem-nos: “Queremos ir ao Brasil porque gostamos de música brasileira.

José Bonifácio foi o nome que Caetano quis falar desde o início. Português, estudou na Universidade Coimbra Direito e Filosofia. Viveu em Portugal e teve uma vida intelectual de alto nível na Europa do séc. XIX. Ficou conhecido como mineralogista e descobriu o elemento químico lítio. É conhecido como “Patriarca da Independência” pois foi um importante ministro com muitos poderes de D. Pedro I, Imperador do Brasil (D. Pedro IV, em Portugal). Fez um plano para o Brasil que concebeu à luz dos seus conhecimentos mineralogistas, “amálgama”. A proposta dele era a seguinte: (i) abolir a escravatura (acabar com o horror da escravidão) e (ii) passar a considerar aqueles que haviam sido brutalizados pela escravidão, os negros, como irmãos e co-cidadãos e o mesmo com os índios. Seria o maior etnocídio se o plano de José Bonifácio tivesse sido colocado em prática. Era seu objectivo criar uma nação nova: amálgama racial e cultural. E criação de uma nova raça: mestiços. Um verdadeiro visionário no séc XIX com a ideia de multiculturalismo.

Inês Pedrosa falou de uma das suas noites mais comoventes da sua vida, no Porto, onde foi assistir a um espectáculo do Caetano. Nessa noite um dos filhos de Caetano foi encontrar-se com ele e Caetano, no fim do espectáculo, quis mostrar a cidade do Porto ao filho. Contou que andaram de carro pelas ruas e pontes do Porto e que Caetano começou a explicar o liberalismo, os ingleses, o vinho e que parecia saber mais e melhor tudo do que ela. Estava a explicar como se a cidade fosse dele e que lhe pertencesse. E quando Caetano foi convidado a comentar disse simplesmente: “Era o Zeca, o meu segundo filho, primeiro filho dela (apontando para Paula Lavigne na plateia). Quis mostrar-lhe o Porto. O que eu sabia eu queria dizer a  ele. Ele é o Zeca...”.

No final, ainda deu tempo para falar da situação política do Brasil. António Cícero falou do poder judiciário do Brasil. Da impossibilidade que existia há uns anos de alguém poderoso ser preso e que as coisas estão a mudar. Que isso é um enorme progresso. Pessoas importantes que são julgadas e presas. Caetano, desta vez, não pronunciou nenhum “FORA TEMER”. Mas referiu que se lhe tivessem dito há uns anos atrás que o Fernando Henrique Cardoso ia ser o primeiro Presidente democrático do Brasil e que a seguir ia ser Lula: “Eu iria dizer que era um sonho”. E foi possível”.
Ainda houve tempo para a piada sobre o que é que a água de Santo Amaro tinha por ser onde Caetano e Bethânia nasceram. Caetano, respondeu, rindo que “Santo Amaro tem uma das água mais poluídas por chumbo do mundo”.

Inês Pedrosa queria que Caetano lesse qualquer coisa mas ele disse “Eu não sei ler”. E Cícero terminou com o seu “Guardar”.









terça-feira, 20 de setembro de 2016

Déjà Lu

Já lido é o significado do nome. Esta é a melhor livraria que conheci nos últimos tempos. Soube da sua existência através de uma das madrinhas, Anabela Mota Ribeiro. Já na livraria descobri alguns dos outros padrinhos e as suas sugestões literárias: Leonor Silveira, Beatriz Batarda, Pedro Rolo Duarte, José António Tenente. Está situada num local muito privilegiado: Fortaleza da Cidadela de Cascais, no andar superior do restaurante Taberna da Praça. É uma livraria solidária cujos lucros revertem para portadores de Trissomia 21. Os livros podem ser novos ou usados (em muito bom estado) e a óptimos preços. Vale muito a visita. O conselho é que se vá com muito tempo. Dediquei-me apenas a ver, com muita atenção, os autores brasileiros e as sugestões dos padrinhos. E acabei por trazer 8 livros por aproximadamente 64 euros. E tentei fechar os olhos a tudo o resto. Tudo é apetecível. Difícil não encontrar qualquer coisa interessante. A secção de biografias também é de perder a cabeça.  Depois de a conhecer, a visita é obrigatória. Quem dera que as livrarias portuguesas fossem todas assim. Bem organizada, acolhedora, com marcadores repletos de humor, com pessoas responsáveis que conhecem os livros e que (ainda) aconselham só pelas preferências do que temos em mãos. De um bom gosto incrível. Tem sofás, bancos, cadeiras. Tudo o que é preciso para quem gosta de livros. Nem tenho palavras para descrever como fui recebida. Depois de uma pequena pesquisa, descobri que a senhora que tão bem me recebeu  se chama Francisca Prieto. A frase “Sinta-se como se estivesse em casa” é arrebatadora. É-nos dado espaço mas com toda a gentileza. Tudo nos é oferecido para que estejamos confortáveis. A qualidade do acervo é incrível. E no final, já com livros que não me cabiam nos braços ainda me foram sugeridos mais 2 livros que acabei por trazer. Não é habitual visitar livrarias que para além de bonitas sejam geridas por pessoas que gostam de livros e os conhecem. Muitas vezes é (mais) um negócio. Aqui respira-se literatura, o cheiro dos livros, conhecem-se (bem) os autores e através das nossas escolhas conseguem identificar-nos as preferências. Quantas livrarias há assim em Portugal. Tenho pena que não existam mais assim. Eu seria com toda a certeza (ainda) mais pobre. Falaram-me que o António Cicero tinha visitado a livraria e tinha levado muitos livros.Vi a versão brasileira da autobiografia do Caetano “Verdade Tropical” em cima de uma das mesas. Conciliar uma geografia privilegiada, bons livros, excelente organização, simpatia, competência e pessoas que amem livros numa livraria só é obra! Adorei, prometo voltar e doar alguns dos meus livros. Um verdadeiro tesouro escondido.






Copyright: Déjà Lu
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