quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Onze de Outubro de 2017

Ontem, onze de Outubro de 2017 foi o dia em que “o Ministério Público, do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, deduziu acusação contra 28 arguidos, 19 pessoas singulares e 9 pessoas colectivas, no âmbito da designada Operação Marquês”. José Sócrates foi acusado de 31 crimes (3 crimes de corrupção passiva de titular de cargo político, 16 crimes de branqueamento de capitais, 9 crimes de falsificação de documentos e 3 crimes de fraude fiscal qualificada). A ser verdade este enredo/tese, difícil de explicar e de perceber, e que os jornais e televisões (muito eficientemente) tentam explicar em esquemas simples, deve envergonhar-nos a todos. Há uma coisa que toda a gente sabe que é verdade: o Sócrates é um mentiroso compulsivo, se é ou não uma patologia só os psiquiatras poderão avaliar. Alguém se esqueceu da célebre entrevista à Clara Ferreira Alves, cuja capa é uma foto de Sócrates casual no Altis de Belém, de blazer, jeans e botins? Ainda ontem, a Clara Ferreira Alves dizia que não se considera mal informada (e até ela foi magistralmente enganada nesta entrevista) na qual Sócrates garantia que a única fonte de financiamento tinha sido um empréstimo bancário de 120 mil euros da CGD (que segundo as contas que fizeram acabaria em 4 meses pelo volume de despesas que tinha). Já nesta altura pensei como é que ele conseguia enganar toda a gente. Mas como diz o nosso Primeiro Ministro “há o tempo da política e o tempo da justiça”. E pelos vistos, não se compadecem um com o outro. Ofuscou, claro, o anúncio das candidaturas do “Menino guerreiro” e do “Barão de Azeitão”. Deixou de se falar dos fogos que queimam tudo o que aparece pela frente. E da qualificação de Portugal para o Mundial. Mais a Madonna que, coitadinha, não encontra casa em Lisboa.

Acho que o tempo é essencial para tudo. Há um tempo certo. Santana Lopes estava tão bem com Provedor da Santa Casa. Fez um óptimo trabalho e até criou os Prémios Santa Casa para a área das Ciências da Saúde. Acho que foi um ingénuo quando aceitou substituir o inqualificável Durão Barroso (que abandonou o barco em troca de trono melhor) sem sei eleito. Acabou a perder tudo, quando ganharia facilmente, se em vez de nomeado fosse eleito. Mas Sampaio, Durão e ele próprio não entenderam assim e Sócrates foi eleito por maioria absoluta. Lembram-se? Perdeu a liderança do PSD contra Ferreira Leite. Perdeu as eleições à Câmara de Lisboa contra António Costa. Volta a ser candidato à liderança do PSD. O que o motiva?

Rui Rio quase não o conheço para além de ter estado 12 anos à frente da Câmara do Porto. Dizem que é um homem sério, austero e granítico (como a cidade de onde é). Deixou as contas em ordem, toda a gente lhe reconhece o trabalho, mas fez do Porto uma cidade apagada, principalmente, culturalmente. É dele a célebre frase que não se podia gastar mais em cultura do que em acção social. Esquece-se, contudo, que a cultura e a educação não são frutos que se colhem no tempo de duração de um ou dois mandatos. No resto, tem alguns dos piores defeitos de um bairrista. Se tivermos que comparar, tem muitas semelhanças com Passos Coelho, é obstinado com números e contas, não é empático, não governa para a comunicação social, não é mobilizador. Tudo o que o PSD não precisa neste momento.

José Eduardo Martins, que participou na escrita do projecto político do PSD para a Câmara de Lisboa, lançou ontem um “Manifesto PSD 2017 Nós, Sociais-Democratas”.  É um nome a ter em conta para os próximos anos se o PSD não quer ficar agarrado aos mesmos do costume e se quer renovação que não inclua gente sem qualidades como Hugo Soares e Duarte Marques. Tudo me afasta desta gente. Vamos ver em quem agora esta canalha se vai pendurar.

O que os militantes do PSD deveriam querer saber é qual dos dois candidatos se rodeará de gente mais competente e afastará (de vez) os Hugo Soares, Duarte Marques, Miguel Relvas, Marco António Costa, José Manuel Fernandes, e os arguidos Miguel Macedo, António Vilela (faltar-me-ão muitos nomes, com certeza, mas ando desinformada politicamente) e outros tantos desta vida. Já não tenho paciência para aqueles Luís Filipe Arnaut, que estão sempre prontos para voltar aos lugares de poder e que são eternos “ministeriáveis”. Mas como eu não voto, a minha opinião, vale o que vale. 

Ontem, dia marcante para a justiça portuguesa, fez um ano que vi fazer-se justiça e a continuar a acreditar que não podemos deixar a esperança morrer. Nunca devemos esmorecer nem deixar de lutar por aquilo que acreditamos, leve o tempo que levar. 

terça-feira, 3 de outubro de 2017

O momento que (se) foi

Partiram, juntos, rumo a coisas diferentes. Eram amigos há muitos anos. Ele ia atrás de um (possível) amor. Ela ia fazer-lhe companhia. Dias antes da partida envolvera-se com uma pessoa. Não tinha sido nada (relevante). (Talvez) uma promessa de (algum) futuro. Na penúltima noite, antes do regresso, saíram. Na hora de irem embora do bar, alguém (re)conheceu-lhes o idioma. Ele era alto, loiro, o fenótipo nórdico. O típico homem bibelot. Mas entendia e falava (mal) português. Estivera um ano no Brasil. O tal do português com açucar. Um encontro casual. Apenas isso. Um desconhecido. Falaram muito e trocaram números de telefone e a promessa de um encontro no que seria o último dia.

Abriu-se com um desconhecido. Contou-lhe tudo. Sem medo de ser julgada e de se expor. Dos medos às paixões. Das fobias aos deslumbramentos. Da vida à ficção. Do que era e do que gostaria que fosse.

Passaram a noite juntos. Na maior intimidade. Mas não houve sexo. Como se aproveita o tempo que resta? Como se eterniza o momento?

Há pessoas que escolhem culparem-se por não ter acontecido, por não terem tido coragem de deixar acontecer, outras escolhem deitar fora o mau, outras fazem por esquecer, outras reprimem-se, outras não se permitem que aconteça, outras em dias menos maus preferem acreditar que guardaram o bom. Nunca perder o momento é tudo. O que é o fado e o destino? Como se os finta?

O que poderia ter sido? A resposta que nunca será respondida. A (in)certeza do nada que (não) existe. O nada não existe na natureza.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Adeus Passito

A derrota do PSD era expectável. Pedro Passos Coelho tinha a seu favor as baixas expectativas.  Mas uma hecatombe desta dimensão deixou muita gente surpreendida. A começar por mim. Ficar abaixo da CDU é uma catástrofe. Só uma visão deturpada e uma cegueira intratável justificam o mundo paralelo em que Passos vive desde o dia 4 de Outubro de 2015. Toda a gente sabe que foi Passos que ganhou as eleições legislativas. Toda a gente sabe que a formação da “geringonça” foi o golpe que Passos até hoje ainda não aceitou. Toda a gente sabe que o fim do mundo não chegou e que não haverá eleições legislativas antecipadas como Passos desde o primeiro dia da tomada de posse de António Costa ambicionou. Toda a gente sabe que o diabo não chegará. E como diz João Miguel Tavares: “Já várias vezes escrevi que o país muito lhe deve, e que a História lhe fará justiça. Mas agora é hora de pendurar o retrato na Rua de São Caetano à Lapa e dizer adeus”. Acrescento o que disse Manuel Ferreira Leite “atónita e chocada com os resultados demasiadamente maus”. José Miguel Júdice, que entregou o cartão de militante do PSD, disse que este não é o partido de Sá Carneiro e nem consegue perceber qual a actual ideologia.
Os candidatos do PSD em Lisboa e no Porto eram fraquíssimos e nascem de erros de avaliação, de segundas e tardias escolhas e teimosia do seu líder. Começou com o erro de não ter apresentado um candidato vencedor antes de Cristas e, depois, não ter reconhecido isso e errar pela segunda vez não apoiando Cristas em Lisboa e não ter apoiado Rui Moreira no Porto. Tenho muita pena que o José Eduardo Martins, crítico interno de Passos, aceitasse ter escrito um programa eleitoral que estava derrotado à partida. Tenho pena, também, da Teresa Leal Coelho que aceitou a tarefa ingrata de não ser a primeira escolha e ter-se sujeitado a este papel. Até admiro a frontalidade dela como deputada e as opiniões anti-racismo que expressou, sozinha, durante as eleições. Mas, não conseguiria pensar em candidata tão fraca e com tão pouco entusiasmo durante a campanha. No entanto, acho que ela é a menor das culpadas.
Braga continua completamente irrelevante sob o ponto de vista político nacional. Braga, que  tantos dizem estar no mapa e que é a terceira cidade do país, nunca o é nem nas eleições nem  nas previsões meteorológicas. Com a maioria, pela segunda vez consecutiva, vamos ver se Ricardo Rio saberá usar melhor depois de ter sido, segundo disse, condicionado pelo estado das contas que encontrou no município. Este era um resultado esperado. Primeiro porque uma governação jurássica do Partido Socialista já não acrescentava nada a Braga e a oposição pouco mais fez do que críticas avulsas. Acrescenta-se um PS totalmente descaracterizado, com os arguidos apoiantes de Mesquita Machado de um lado e um Miguel Corais orgulhosamente só do outro. No entanto, existem muitas coisas que têm que melhorar nos próximos anos. É indiscutível como a cidade ganhou vida nos últimos 4 anos. A relação com a Universidade é notória e de salutar. As actividades culturais são muitas e diversificadas. A procura e oferta turística tiveram um aumento exponencial. A revogação de alguns péssimos negócios como o edifício das convertidas é um grande exemplo. A decisão sobre o S. Geraldo depois de muita pressão pública foi outra das grandes decisões a mostrar que esta coligação não está de costas voltadas para a população. As reabilitações do Parque Exposições de Braga (PEB) e do mercado Municipal foram dois dos grandes investimentos desta coligação. No entanto, há coisas que não se percebem: como não se cria mais verde naqueles espaços à volta do parque da Ponte, mais ciclovias e passeios?Como é que aquele parque pode ter tão pouca vida? O que se fez nas margens do Rio Este nestes últimos 4 anos? Uma das promessas da coligação “Juntos por Braga” era a revogação do  aumento de ruas com estacionamento pago. A minha rua fazia parte das ruas acrescentadas cujo estacionamento é totalmente pago. Há uns tempos critiquei publicamente a forma como o actual Presidente da Câmara prometera revogar a decisão da ESSE no que respeita ao aumento do número de ruas com estacionamento pago. Fui corrigida, posteriormente, pela sua Chefe de Gabinete (pessoa que prezo e tenho consideração) que a acção teve parecer positivo do Tribunal mas que a ESSE recorreu. É neste ponto que estamos. O pagamento continua a ser cobrado. Eu sou residente numa rua cujo estacionamento é pago mas eu não tenho garagem. Ou seja, qual a justiça de se cobrar o estacionamento a residentes que não têm lugar de garagem. O que me sugerem é que pague a avença mensal? Tenho centenas de euros por pagar. O que proponho: devia ser criado um dístico isento de pagamento para residentes sem estacionamento. É o mínimo que se pede num país civilizado e cujo cidadão comum paga por tudo o que usufrui. Será pedir muito? Uma das promessas desta coligação é mudar a recolha dos lixos domésticos. Pois bem, para quem conhece a recolha do lixo em Braga é qualquer coisa que considero indescritível para o século XXI. O lixo é colocado nas calçadas à porta dos prédios. Será  que vai mudar em 4 anos?
O resultado de Isaltino em Oeiras  é anedótico. O concelho com maior percentagem de licenciados e doutorados do país elegeu, com um resultado esmagador, um senhor julgado, condenado e preso por crimes praticados no tempo em que era presidente da câmara. O exemplo de Oeiras faz-me lembrar a piada que conto muitas vezes que os maiores burros que conheci na vida são doutorados. A democracia (também) é isto?
Inês de Medeiros derrotar o bastião do PCP em Almada foi outra surpresa, para mim. Uma candidata sem nenhum peso político, como Inês de Medeiros, é a prova de que tudo corre bem ao PS. O estado de graça chegou para ficar.
A frase tantas vezes repetida, a mesma frase tantas vezes lida “não me demito” não é sinónimo de coragem nem inteligência. É sinónimo apenas de teimosia e não saber sair de cabeça erguida. Tomasse como bom exemplo o de Paulo Portas, e quem sabe, pudesse voltar um dia. Desta forma, ficará como o pior exemplo da história de agarrado ao poder. Nunca devemos ser nós a acharmos que somos (sempre) indispensáveis. Os outros é que devem opinar por nós e deverão fazer esse julgamento. Como tudo na vida devemos sair quando estamos a mais e não esperar que nos empurrem.O grande problema do PSD é quem quer ir para o lugar mais indesejável do país? Rui Rio é um homem provinciano, bairrista, dizem que  equilibrou as contas no Porto mas nunca a cidade esteve tão apagada e tão invisível como no seu tempo. Um homem sem visão é tudo o que o PSD não precisa. 

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Festa do Livro no Palácio de Belém

23 de Setembro de 2017

A Festa do livro de Belém, organizada pela Presidência da República, regressou pela segunda vez aos jardins do Palácio de Belém. Programa diversificado que incluiu debates, muitas editoras representadas em pequenos stands, música, concertos, sessões de autógrafos e comidas.

No dia em que fui, a meio da tarde, estava indecisa entre os petiscos portugueses que iam do camarão da costa aos percebes, de tostas com sapateira aos pregos no pão. Havia opções vegan e piadinas, gelados e sumos naturais. De tudo um pouco. Fiquei-me pelo prego no pão, da espessura de uma fatia grossa de fiambre, acho que nem de vaca era e até sal faltava. Pouco depois, um burburinho à volta, e vejo o PR rodeado de marceletes a treinar selfies. Parece uma romaria. Abraça-se. Abraçam-no. Pega em bebés ao colo.  Baixa-se à altura dos carrinhos de bebés. Baixa-se à altura das crianças. Distribui beijos e sorrisos. Ouve-se: “É o presidente do povo”. Segue para ver as bancas dos livros, compra alguns.

Copyright: PR

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Ás 5 da tarde começou a conversa sobre o futuro do jornalismo, na cascata. Moderado pelo Carlos Vaz Marques, a discussão teve a participação da Clara Ferreira Alves, Isabel Lucas e Paulo Moura.  A Clara Ferreira Alves (sempre) no seu tom irónico/sarcástico começou por dizer que a resposta a essa pergunta seria: “Não tem futuro e vamos todos embora para casa”. Falou dos tempos de redacção, de como era importante o contacto humano. Mas que as coisas mudaram e está tudo à mão de um e-mail ou de um smartphone. É do tempo do telelex e do satélite. Falou de como os actuais jornalistas das redacções são mal pagos e trabalhadores indiferenciados. Falou do mês que passou nas últimas férias na Birmânia para escrever o próximo livro que será sobre o sudoeste asiático. Falou da culpa da Fox News de termos um Presidente americano anedótico como Donald Trump. E falou que o futuro da literatura e dos livros não está em causa. Caso contrário, não teriam sobrevivido a esta era tecnológica, e já teriam acabado.

A Isabel Lucas falou especialmente da sua experiência pessoal na América da campanha eleitoral. Das terras no meio do nada. E da tecnologia que via nos seus colegas de grandes orgão de comunicação social americanos. E que dependia de wifi grátis do Starbucks para enviar os seus textos.

O Paulo Moura falou da sua experiência como repórter de guerra e freelance. Da quase impossibilidade de se ser reporter de guerra por conta própria sem suporte de uma grande cadeia. Dos custos diários que nunca saõ menos do que 500 euros.

Todos falaram, com um certo toque de nostalgia, do tempo que não regressará.

No meio de nós estava o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, tendo preferido o meio por oposição à primeira fila.

Ainda tive tempo de ouvir os ensaios da Lisbon Poetry Orchestra – Poetas Portugueses de Agora – e Orquestra Académica da Universidade de Lisboa 


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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

De Ana Hatherly a Tarkovski

Com Anastasia Lukovnikova, Mariano Marovatto, Matilde Campilho e Tomás Cunha Ferreira na Feira do Livro do Porto, mais precisamente, na Biblioteca Almeida Garrett. Uma sessão, como foi apresentado, com “palavras, imagens e um fio de música”. Foi (bem mais) do que isso.  Palavra dita, imagem, diversidade de idiomas e sotaque, som, música, real e passagem tempo.

Para os apresentar, Anabela Mota Ribeiro, leu o seguinte texto: “Um grande ecrã ao fundo, instrumentos, livros e quatro amigos no palco. Uma conversa de esquina a quatro vozes, um cordel que será desenrolado a oito mãos. Anastasia, Matilde, Mariano e Tomás são poetas, mesmo quando não são. Falarão da revolução e da memória, dos monumentos e do futuro, do silêncio, sem o ferir, e das estórias das ruínas. Com eles: Chris Marker e Chantal Akerman, Leonard Cohen e Susan Sontag, um canto tupi e as câmaras da NASA em direto do cosmos. Copacabana Mon Amour, Meredith Monk, as cores de Pancetti sobre o Tejo, o golo que Maradona marcou com a mão e outras impossibilidades. Maiakovski, James Bond e John Cage. Bashō, Darwin e os habitantes de todas as ilhas. São todos poetas, mesmo os que não são. Estão entre Ana Hatherly e Tarkovski, porque tudo sempre está”.

A primeira imagem (não sei bem se a primeira mas a que me lembro), na grande tela por trás dos quatro foi a de Philippe Petit (que atravessou as torres gémeas do Word Trade Center em 1974) a equilibrar-se num cabo, com a Harbor Bridge como cenário. Petit, o homem que desafiou as vertigens e que disse que nada é impossível. "O fio não tem medo".

De Helio Oiticica, o parangolé, que  Adriana Calcanhotto eternizou numa música como: “um rectângulo de pano de uma cor só/ E é só dançar/ E é só deixar a cor tomar conta do ar/ Verde Rosa/ Branco no branco no preto nu”. Haroldo de Campos referiu-se ao parangolé como uma “asa delta para o êxtase”.

Uma foto de Leonard Cohen, ao fundo. O dono daquela voz grave e sussurrada e cujo timbre nos cuidou tantas vezes. Aquele que viveu em Hydra, em Londres e no Chelsea Hotel em NY. Aquele que cantou Marianne e Suzanne. Aquele que disse que a resposta era sempre sim. Aquele que nos ensinou tanto sobre tanta coisa. Que escreveu para os introspectivos, para os amantes platónicos, para os amantes de todos os graus de sofrimento, para os que se autoflagelam, para os traídos, para os que querem chorar e para muitos mais. E eternizou-se, para todo o sempre, enquanto houver som.

Falaram também de Bashô, o famoso poeta japonês, (re)conhecido pelos haicai (poemas de três versos e dezassete sílabas) .

Exibiram a imagem de John Cage a apanhar cogumelos no seu livro Silence. Sobre os cogumelos, de se saber ou não distinguir entre os cogumelos venenosos ou não, “como a vida seria chata sem uma certa incerteza”. 

Foram exibidas imagens em tempo real do espaço, de onde estamos a ser permanentemente observados, à la Orwell.

Leram Tarkovski em russo e em português.

Falaram de nitrogénio (em inglês é nitrogen), que não sei se quiseram dizer em português do Brasil, mas que em português de Portugal é azoto.

Marovatto e Tomás cantaram uma música inédita e outra de Caetano Veloso “Enquanto seu lobo não vem” que cita a Mangueira e a Avenida Presidente Vargas.

A imagem final foi de cruzamento com passadeiras em forma de pentágono, em Tóquio. Tempo real, lá amanhecia.  O tempo no espaço e o instante que passa.

Li algures que a Matilde nunca foi a NY nem aos EUA. “Quem diria por aquilo que escreve? É aqui que ficção se confunde com o real e a imaginação para formar geografias privadas e imaginárias? Quem sabe?

O auditório da Biblioteca Almeida Garrett estava composto, mas não cheio nem a abarrotar, como parece ter sido tendência em todos os eventos da Feira do Livro do Porto. No entanto, parece que o concerto dos Mão Morta & Remix Ensemble roubou parte do público. Eles nunca saberão mas foi o que perderam. O momento que não se repete.

Copyright: Anabela Mota Ribeiro




terça-feira, 22 de agosto de 2017

Uma declaração política (ainda) necessária no séc. XXI

Há uns anos, Alexandre Quintanilha disse numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro: “Pensei muito sobre se devia dar esta entrevista ou não, porque não tenho que explicar rigorosamente nada. As pessoas são aquilo que fazem e aquilo que são, e não aquilo que dizem. Há uma pequenina coisa que é muito importante: a questão dos role models. [...] Temos que nos reinventar e dar a noção a outros gay de que isso é possível, realizável. É preciso que o mundo à nossa volta perceba que não me acho especial, positiva ou negativamente, por ser assim. Tive muita sorte em encontrar uma pessoa como o Richard, tive muita sorte em ter os pais que tive, em viver nos sítios onde vivi, apesar de às vezes me sentir muito só e de ter momentos muito difíceis de afirmação pessoal. Isso também é uma história que vale a pena divulgar. Numa sociedade que está cada vez mais competitiva, é importante as pessoas falarem daquilo que não é competição selvagem. É a partilha, é sentirmos – isto parece uma treta... – que o mundo, se tivermos boa vontade, e se funcionarmos de boa fé, vale a pena”. É por estas palavras que (ainda) acho que declarações políticas como as da Secretária de Estado da Modernização Administrativa são tão importantes.

Palmas para a Graça Fonseca que falou “mesmo de tudo”.

A Graça é o exemplo da pessoa que deve estar na política. Chegou tarde mas dá-lhe o seu melhor. Uma pessoa inteligente, competente, bem formada, sóbria, discreta, honesta e “militantemente optimista” é o que destaco dela. Esta entrevista só lhe acrescenta a dimensão humana que eu já tinha. Tendo (tantas) qualidades, e o seu o percurso profissional exemplar, destaca-se ser a primeira mulher da política portuguesa a assumir-se como homossexual.

No séc XXI não devia ser notícia, de facto, até porque em Portugal o casamento e a adopção são permitidos a todas as pessoas sem  descriminações.  Mas num século em que ainda são mortas pessoas por amarem alguém, estas palavras da Graça, devem ser lidas e viralizadas: “ ... se as pessoas começarem a olhar para políticos, pessoas do cinema, desportistas, sabendo-os homossexuais, como é o meu caso, isso pode fazer que a próxima vez que sai uma notícia sobre pessoas serem mortas por serem homossexuais pensem em alguém por quem até têm simpatia. E se as pessoas perceberem que há um seu semelhante, que não odeiam, que é homossexual, isso pode fazer que a forma como olham para isso seja por um lado menos não querer saber se essas pessoas são perseguidas, por outro lado até defender que assim não seja”.

E depois temos palavras como as do Carlos Abreu Amorim que, infelizmente, é Vice-Presidente do Partido que eu um dia simpatizei: Não demonstra coragem, diferença ou novidade. Só exibe que não tem mais nada para dizer. [...] Quando um governante dá uma entrevista é porque tem alguma coisa importante a dizer ao país. Deve ter mensagens políticas acerca daquilo que fez e faz, sobre os seus planos para o futuro. Não age bem um governante que apenas fala de si, que usa a entrevista para tentar projectar-se a si mesmo, a sua vida privada e a sua sexualidade, como uma espécie de modelo de comportamento público”. A sério que o Carlos Abreu Amorim escreveu que a Graça Fonseca quis projectar-se?

O PSD precisa mesmo, muito mesmo, de uma limpeza. Devemos nunca esquecer que foi Sá Carneiro que dizia que se a Snu Abecassis (por quem assumiu publicamente o seu amor e só não se casou com ela porque não lhe foi dado o divórcio) não fosse convidada ele não ia. Assim sendo, 36 anos depois da morte de Sá Carneiro, este reaccionário dizer frases destas, é insultuoso. Desde quando é que num mundo, onde ainda morrem pessoas por assumirem a sua homossexualidade, é visto como propaganda pessoal? Depois há os que se calam e não comentam. 

Mas depois, felizmente, ainda há pessoas do PSD como o Carlos Moedas, que actualmente é Comissário Europeu da Ciência, Investigação e Inovação, com estas palavras: "A coragem da @gracafonseca é importante para os que lutam por uma sociedade mais justa. Obrigado Graça."

O que eu espero? Já que temos um investigador da geração de 70 que é Ministro, espero ver em breve uma mulher, que também já foi investigadora, e da geração de 70 chegar brevemente a Ministra. Go, go, Graça!



Copyright: Jorge Amaral/ Global Imagens

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O que amar tem de errado?

Há 20 anos fiquei muito chocada quando um grande amigo não teve coragem de me dizer que era gay e optou por me dizer por carta. Eu sabia, sempre soube mas fiquei tristíssima por ele não ter tido coragem de me dizer olhos nos olhos e por ter demorado tanto tempo.  Eu tinha 18 anos e ele também. Essa verdade que eu sempre soubera, era e sempre foi, clara para mim. E nada mudou. A importância que dei ao tempo que demorou e a forma de me dizer relativizou-se. Tudo é tão relativo, veio o tempo a mostrar-me, depois.

Hoje, passados 20 anos, a história repete-se. Soube ontem, abertamente, por mensagem o que sempre achei que se sabia mas que nunca me disse. Mas teria que dizer? Conheço-o desde sempre. É mais velho do que eu. É a pessoa mais delicada, educada, física, amorosa, que conheço. Um doce de pessoa. Sempre com coisas bonitas para dizer. Um esteta. Tem uma biblioteca que me faz ter inveja. E uma casa linda de morrer. Tem sempre flores frescas. Estamos pouco mas quando estamos é uma alegria. Acabo de saber que tinha uma relação há 18 anos. Vividos em silêncio. Viveu aprisionado tempo demais. Viveu com as verdades que ninguém quis ver. Em segredo. Pergunta-nos se sabemos o que é calar. Esconder. Passar uma vida assim. Como se a outra pessoa não existisse. Como ninguém. Estou tão feliz por ele. Por amar abertamente. Tantas pessoas que passam pelo mundo e não sabem o que isso é. E ele permitir-se, dar-se a essa oportunidade que pode não ser repetível, é o que me faz sorrir e festejar por ele. Assumiu o seu segredo.

Decidiu chegar de novo. Começar de novo. Permitiu-se assumir o que sente. Abriu o coração. Sem pensar. Sem medo. Sentir o amor. (Apenas) para ser feliz. A vida é curta. Muito curta. Porque sonhar (só) não adianta nada.  Mas (ainda) está a tempo. Sempre a tempo. Porque o tempo não volta atrás. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Não há desculpa

Há anos, no tempo da Presidência Bush (filho) ouvia: “Bush é Presidente dos EUA, como posso sentir-me segura?”. Sou uma optimista mas sempre achei que haveria pior do que Bush. O buraco pode sempre ser mais fundo. Esta América elegeu democraticamente um Presidente que defendeu a construção de um muro para separar dois países, que diz “nós e eles”, sendo esses “eles” os maus, a causa do crime, do insucesso, da delinquência, que a inexistência desses “eles” seriam a salvação do país.  O Presidente que ousou dizer que não aceitava trans no exército. O Presidente que ignora os homossexuais. O Presidente que ousou um dia duvidar e questionar a nacionalidade de outro Presidente. O Presidente que pinta o cabelo de loiro e quer parecer sempre bronzeado ao estilo Miami beach. O Presidente que precisou de dois dias para comentar o que se passou em Charlottesville. “Let’s make America great again”? Mesmo? Nunca nos poderemos esquecer que este Presidente foi eleito democraticamente. Esta América que deu grandes lições ao mundo, foi a mesma que elegeu o presidente mais xenófobo, homofóbico, racista e idiota que a América conheceu. Pior do que isto é impossível. A história já nos mostrou como se dão, democraticamente, as grandes tragédias da humanidade.

Sobrevivente do Holocausto @Union Square-NY

Aqui no nosso cantinho, o PSD de Sá Carneiro, com o qual me identifiquei um dia, não sei onde está ou o que resta dele. O Pedro Passos Coelho, que na sequência do acontecimento da Virgínia poderia ter, no mínimo, algum recato lançou esta pérola: “Não podemos acolher toda a gente”. O que é toda a gente? Por acaso, PPC já foi emigrante alguma vez? Soube o que é ser olhado de lado por ser identificado pelo sotaque não nativo? Ou ser descriminado pela cor da pele? Não. PPC teve a sorte de nascer branco, homem, heterossexual, loiro, alto e na classe média. E não conseguirá, nunca, colocar-se na pele dos outros. PPC que já soube o sabor amargo da crítica à sua trajectória pessoal (terminou a licenciatura bastante depois dos 30 e numa universidade privada). Este PSD foi o mesmo que elegeu para líder da sua bancada o Hugo Soares que há uns anos mostrou que em política vale tudo. Para quem não se lembra, o Hugo Soares, depois da votação na generalidade da lei da co-adopção e adopção de crianças por casais homossexuais, achou que um referendo é que era.  [Não esquecer que Teresa Leal Coelho demitiu-se do cargo de vice-presidente da bancada parlamentar do PSD nessa altura  por ser a favor da co-adoção e considerar que esta matéria não devia ser referendável]. Estes reaccionários ultraconservadores não me representam e o que me deixa ainda mais triste é haver (ainda) gente mais nova do que eu a pensar assim... 

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Um poço de defeitos

Dorme pouco. Se pudesse, trabalhava de noite e dormia de dia. Ri muito. Fala pouco. Ouve mais. Só faz o que lhe apetece. Ignora todos os conselhos. A teimosia é o seu elo mais forte. Pragmática nas breves e directas constatações. Nunca desiste. Dizem que não aceita limites. Dizem que não sabe ouvir um não. Quer sempre tudo. Nunca faz escolhas. Tem sofreguidão de viver. Abusa da retórica. Tem uma deficiência social. Não sabe avaliar pessoas. Trata toda a gente de forma transversal. Erra muito. Pede (muitas) desculpas. Diz muitos sins. Volta (muitas vezes) com a palavra atrás. Nunca diz nunca. Tem poucos amigos. Gosta pouco de pessoas. Dizem que foge. Chata. Insistente. Tem memória de peixe. Gosta de analisar. Nunca é directa. Enrola muito. Tem um humor judeu. Detesta a palavra “enfim”. Quase não gosta de música. Não percebe nada de cinema. É uma ignorante cultural.Tem medo. Vive a vida com excesso. Vive como se o amanhã não existisse. Protege-se do sentimento. Escuda-se muito. Não usa referentes nem contextualiza. Não entende nada de contextos sociais. É exigente. Dizem que é literal demais. Nunca pára. É passiva-agressiva. É racional. Dizem que não é racional. Tem mau feitio. Agarra-se a detalhes. Melga as pessoas com explicações. Discute (muito) o sexo dos anjos. Precisa que lhe eduquem a sensibilidade e o gosto. Dizem que tem falta de empatia. Manifesta incapacidade de perceber como os outros estão a reagir. Usa a frase “faço gosto”. Deslumbra-se muito com NY. Abomina a palavra “TOP”. Tira fotos a comida e faz tags de restaurantes. Atira-se para fora de pé. Despreza pessoas de quem não gosta.  É provinciana. É vaga e evasiva. É altiva e arrogante. Não é concreta. Foge de todas as respostas. É cobarde. Tem um coeficiente de verbalização emocional negativo. Não se foca. Tem falta de tacto. Não pensa antes de abrir a boca. Dá respostas de merda. Relativiza tudo. Desconversa. É absolutamente redutora e facciosa em relação aos ideais políticos de esquerda. É info-excluída. Só fala duas línguas. Ponto.


sexta-feira, 28 de julho de 2017

Dessa vez

Tarde amena, sol, céu mais ou menos azul turquesa, leve brisa. Coimbra lá fora e calçadas pisadas por estudantes que carregam as suas pastas e livros, muitos livros nos braços. Nesta cidade dos estudantes e doutores já ninguém está de capa. Agora, o tempo é de estudar porque aqui a fama é de passar (apenas) quem souber.

Só existem os registos da memória de uma tarde de comida baiana que incluiu acarajé, abará e  vatapá regado com Quinta do Carmo branco. Os sabores e ingredientes fortíssimos da Bahia provaram não causar mal nenhum. O som não era baiano. Estes baianos de São Salvador não mostraram saber sambar, nem balançar. Não têm pulseira de ouro. Mas têm fita do Senhor do Bonfim, brinco de ouro, um jeitinho que Deus deu e graça como ninguém.

O cenário será os jardins onde (também) aconteceu uma das mais belas histórias de amor em Portugal (Pedro e Inês). Camões eternizou-a num dos seus cantos d’ Os Lusíadas. E está inscrito junto à Fonte dos Amores, de onde brotam as lágrimas e o sangue de Inês, até que o tempo e a água o apaguem.

A noite cai em Coimbra, tardia como todas perto do solstício. No anfiteatro da Colina de Camões na Quinta das Lágrimas, a lua aparece. Ao fundo, muito ao fundo, vislumbra-se a Universidade iluminada. Hoje não é uma lição. Hoje é apenas um concerto, Dessa vez. A cantora hoje será apenas uma cantora e uma performer. No máximo ousará tocar o seu novo instrumento, cortar o seu mais recente livro com as suas letras reunidas e fará uma leitura de um poema da Adília Lopes. Para minha tristeza, não interpretará Poética do eremita. Mas mostrando a sua generosidade, e que os artistas não estão (apenas) enclausurados no seu mundo, e estão abertos a ele, acederá a um pedido de cantar Seu pensamento (pedidos funcionam “só se eu souber e puder atender”).

não é o conhaque 
nem a lua
mas o vinho
mas as promessas 
que me movem como o diabo
Sarah Cohen

Aparece numa pontualidade britânica, sem o jeitinho brasileiro e português do famoso atraso. Dizem que chega sempre antes da hora. O traje é o mesmo vestido longo de veludo azul marinho Gilda Midani do espectáculo Das Rosas. Neste caso, acrescentou-lhe um cachecol da mesma cor.  Começa e nós ainda não nos sentámos. Na primeira fila está o Ministro da Cultura, o Presidente da Câmara e o Professor João Caraça. Temos um lago, que torna o cenário ainda mais bonito, a separar-nos do palco. A primeira música é Esquadros uma daquelas que toda a gente conhece e que um dia um produtor musical surpreendido pelo título, atreveu-se a perguntar: “Você acha mesmo que uma canção chamada ES-QUA-DROS vai tocar no rádio?”.

No concerto incluiu: Vim pra verFado Tropical, um poema musicado de Martim Codax, cantou D. Dinis e Negro amor. A pedido do Miguel Júdice cantou Nature Boy que termina com os magníficos versos:  "the greatest thing you'll ever learn, is just to love and be loved in return".

Cantou as (quase inéditas): Era pra ser "Era pra ser canção de amor / Era o amor em versos / ... / Era pra poder ficar eternamente no presente / O amor soprou de outro lugar / Pra derrubar o que houvesse pela frente / Tenho que te falar / Essa canção não fala mais da gente" cantada por Maria Bethânia e Não demora.

Para mim, Paramgolé Pamplona, tocado assim fez lembrar-me o primeiro concerto que vi da Adriana há 16 anos.  Desta vez, teve grande ideia de colocar a peça do próprio Hélio Oiticica em palco, o parangolé "que você mesmo faz". Um adolescente vestiu um dos parangolés de cor branca, mas mostrou-se pouco feliz porque foi parco a  mexer-se, quanto mais dançar. Feito este reparo, tudo foi fenomenal. A letra, a música simples, a ideia. “O parangolé pamplona você mesmo faz... Com um retângulo de pano de uma cor só/ E é só dançar/ E é só deixar a cor tomar conta do ar... Para o delírio porta aberta / Pleno ar/ Puro hélio...”.  Actualmente, encontra-se em exibição do Hélio Oitica no Whitney em NY: To organize the delirium (até 1 Outubro). Quem puder não perca.

Não esqueceu os sucessos Metade, Esquadros, Mais feliz, Sem saída e Devolva-me. Ao contrário de nas aulas, neste concerto, o último em Coimbra, não cantou a mais bonita do grande poeta, filósofo (e seiu amigo), António Cicero, Inverno.

Terminou com Vambora. E no encore não se esqueceu de  Fico Assim sem você, com a batida electrónica a lembrar o original de Domenico Lancellotti, e até mostrou que sabe (também) dançar.

E a cantora, desta vez a Professora e Embaixadora da Universidade de Coimbra, despede-se da cidade para a qual foi escolhida e aceitou viver por uns tempos. Sem lágrimas, levando as lições como companhia e o significado de saudade, desta que é a capital do amor em Portugal: “ Não permita Deus que eu morra sem que eu volte para cá”. Como “Foi Coimbra que me escolheu e se Coimbra me quiser...”. Esperemos que volte, sempre.



sexta-feira, 21 de julho de 2017

Suicídio

Ligou-lhe à noite quando estava a regressar do trabalho. Era primavera, passava das 9 da noite e ainda era dia. Ainda não tinha jantado. Nesse dia, a última refeição que fizera tinha sido o almoço. Só queria chegar a casa e deitar-se de tão exausta que estava. Guiava em piloto automático. Recebeu um telefonema. Não estranhou porque lhe ligava frequentemente a essa hora. Estranhou, apenas, ter sido para o telemóvel. Era sempre para casa. Nunca o ouvira chorar ao telefone. Só o vira chorar nos surtos psicóticos. A conversa não foi longa nem com rodeios. Foi directo ao assunto:

- Estou a ligar para me despedir. Já liguei a toda a gente. Sou um problema para toda a gente.

Sem experiência em nenhuma situação parecida, a primeira reacção foi o desespero. Mas numa fracção de segundo, disfarçou. Tentou raciocinar. Dissera-lhe que esperasse porque estava a caminho. Ocorreu-lhe ganhar tempo e mantê-lo em linha para que não o fizesse. Tentou saber mais. Percebeu, tarde demais, que a asneira estava feita e que o caminho era irreversível.

Não chegou a tempo, por mais que tudo fizesse. E só a esperança de encontrá-lo vivo a fez voar. Estava vivo, de facto. Mas a fronteira entre a vida e a morte é muito ténue. Estava vivo, sim. O coração ainda batia. Mas já não a ouvia. E nunca mais voltou à consciência para a ouvir.

Percebemos, depois, que planeara tudo ao pormenor. Organizara as contas. Telefonara aos amigos, aos familiares, aos que magoara, aos que esperaram por ele e a quem nunca apareceu. Mas ninguém percebeu. Nunca fez um ultimato. Nem um pedido de ajuda. Nem uma ameaça. Nem um acerto de contas. Pagou todos os jantares, como antes, e combinara os próximos. Dissera: “Pagas o próximo”. Tudo fez para que não o percebessem. E o último telefonema foi para ela. Como se vive depois disto? Como se vive sem conseguir evitar este desfecho?

Nunca mais deixou de ter tempo para não ouvir. Nunca mais adiou para amanhã, para depois. Nunca mais disse que não. Com isto aprendeu que, de facto, a vida tem um fim. E que o fado e o destino não existem.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

A última lição

Entra de óculos escuros numa sala totalmente escura. Ninguém percebe a razão. Ao contrário da primeira lição não entra com a capa de Doutora nem parece formal. Vem de t-shirt preta da Faculdade de Letras e o que parecem, ao longe, umas All Star. Nunca em nenhuma das aulas se apresentou tão informal. Quem a acompanha no palco está, igualmente, de negro. Num primeiro momento, pensei haver um significado para a escolha da cor. A representação da tristeza da última lição. O começo da saudade. A aula veio a mostrar-se totalmente diferente das anteriores. Mais curta. Sem intervalo. Mais canções. Menos palavras ditas. Menos preparação. Desta vez, não houve ensaiados e longos agradecimentos, com a pompa dos anteriores. Agradeceu a uma pessoa em particular, responsável pelas sapatilhas personalizava que calçava. Uma pintora que não pintava e que voltou a pintar por causa das suas aulas. Por isso, nas suas palavras, a sua missão já estava cumprida.

Está de luto pela tragédia "das queimadas". "Isso não pode ser pior a cada ano que passa". [O ser humano acha que controla tudo. Que todas as suas acções são inconsequentes. Há (até) um Presidente que considera o aquecimento global uma piada, um mito, uma invenção. E esta tragédia mostra, como tantas outras, que o ser humano nunca ganha uma luta contra a revolta da natureza. Como no Moby Dick, o Homem é sempre o elo mais fraco perante a grandeza do mais forte].

Nesta última lição, Adriana assumiu (mais) o papel de cantora em vez de professora ou leitora. Desta vez o palco era um palco não um estrado. Não havia uma secretaria, um computador ou um candeeiro, três dos objectos que a acompanharam em todas as outras aulas. Mas aquilo que poderia não fazer sentido nenhum, dada a desorganização inata, nas suas palavras, que desta vez foi mesmo visível, correu muito bem. A capacidade de improviso perante a pouca preparação desta aula mostrou uma das suas capacidades maiores. Sem ensaio. Sem treino. Sem preparo. Empírica. "No osso". Simples. E curta, como a vida. E mesmo assim, não desiludiu. Conseguiu prender a atenção das (tão poucas) pessoas que não compunham o TAGV. Maioritariamente brasileiros, claro. Tinha na plateia, nas primeiras filas, a autora da do texto sobre as rosas que se sacrificam pelo vinho. [Na aula anterior lerá um texto sobre como as rosas eram usadas para serem atacadas pelas pragas para que estas não atacassem o vinho].

Esta lição que tinha como tema Trobar Nova era supostamente para abordar poetas e/ou compositores contemporâneos. Começou por António Cicero, que nunca foi esquecido na maioria das aulas. Leu um poema. Tocou na questão da poesia e filosofia de Cicero (que dá nome a um dos livros). E deu a resposta de Cicero à pergunta "o que é ser poeta e filósofo ao mesmo tempo?": "Depende o que você quer dizer ao mesmo tempo".

Seguiram-se os poetas e as suas musas. E do tempo produtivo que tem passado em Coimbra, onde tem composto e musicado algumas músicas. Leu de forma performática, acompanhada pela guitarra de Gabriel Musak, um poema de Adília Lopes e no final arrancou devagar e sofridamente páginas de um livro.


A minha Musa antes de ser
a minha Musa avisou-me
cantaste sem saber
que cantar custa uma língua
agora vou cortar-te a língua
para aprender a cantar

a minha Musa é cruel
mas eu não conheço outra

Contou a história de como reencontrou o músico brasileiro Gabriel Musak em Lisboa. (Cujo nome verdadeiro é Gabriel Homem mas que deixou de usar o sobrenome porque o homem está em baixo). E que quando o questionou sobre o que estava cá a fazer, ele respondeu: "Vim pra ver". Para ela essa frase foi tão inesperada é tão impactante que voltou para o hotel e compôs uma música. De facto, a canção foi conseguida.

Vim pra ver
Quando vi, vim pra ver
Dei por mim
Tava aqui, vim te ver
Faço o que?
Você não sabe o que me cabe
No silêncio, dor
No escuro, dor
No espelho, dor
Doi a felicidade
Mas não repare
Mas não se iluda
É que não se usa
Refrão sem Musa(k)

Seguiu-se a canção medieval do trovador galego Martín Codax:
"Quantas sabedes amar amado

treides comig’a lo mar levado

e banhar-nos-emos nas ondas!"

Falou da recente visita à Bulgária, onde descobriu telenovelas dobradas em búlgaro e onde a palavra música significa o mesmo. Tocou a canção Mentiras com a referência: "as novelas acabam mas as músicas não".

Cantou o poema Mortal loucura de Gregório de Matos, dizem que o maior poeta barroco brasileiro. Um poeta também conhecido como “Boca do Inferno” e que “influenciou muito o mau comportamento de muita gente no Brasil.


Na oração, que desaterra … a terra,

Quer Deus que a quem está o cuidado … dado,
Pregue que a vida é emprestado … estado,
Mistérios mil que desenterra … enterra
.
Quem não cuida de si, que é terra, … erra,
Que o alto Rei, por afamado … amado,
É quem lhe assiste ao desvelado … lado,
Da morte ao ar não desaferra, … aferra.

Quem do mundo a mortal loucura … cura,

A vontade de Deus sagrada … agrada
Firmar-lhe a vida em atadura … dura.

O voz zelosa, que dobrada … brada,

Já sei que a flor da formosura, … usura,
Será no fim dessa jornada … nada.

Seguiu-se Fanatismo de Florbela Espanca musicada e cantada por Fagner e que se tornou um sucesso no Brasil.

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida

Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver, 
Pois que tu és já toda a minha vida !

Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça 
Duma boca divina fala em mim !

E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros, 
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."

Elogiou a paciência de quem estava naquela sala para a ver e ouvi-la com o dia lindo que estava lá fora. Para último deixou a tradução da canção de Bob Dylan, o Nobel de Literatura, Negro amor. E como a memória lhe falhara e alguém na plateia mostrava saber de cor a música desafiou-o dizendo: “O que você sabe para me ajudar?”.

Desta vez, não houve saudades (ainda) visíveis na despedida, nem choro, nem palavras mais ou menos comovidas. Foi uma despedida como as outras, talvez a mostrar que a Professora/cantora não gosta, de facto, de despedidas. Alguém na plateia falou a capella do significado destas aulas e do quão revolucionárias foram para quem as assistiu e para a Universidade de Coimbra, instituição centenária. Ofereceu-lhe, por fim, uma rosa e um cravo vermelhos.





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