terça-feira, 21 de novembro de 2017

Sopro de Tiago Rodrigues

A vida é feita de improvisos, sem guião.

Parte de quem está na sombra, o ponto, de quem (quase) tudo depende. Cristina Vidal, ponto no Teatro D. Maria II há 39 anos, sai da sombra e do anonimato e junta-se a cinco actores em palco para narrar (também) 28 minutos de “brancas”, histórias reais e inventadas. Pela primeira vez, sobe ao palco e sai da penumbra que é ajudar os actores, soprando-lhes o texto. A diferença entre uma pausa dramática, um silêncio, uma falha de texto. Ela que vive nas sombras, na invisibilidade, escondida nos bastidores: “A discrição do ponto deve ser proporcional à indiscrição do actor”. A Cristina Vidal juntam-se Beatriz Brás, Isabel Abreu, João Pedro Vaz, Sofia Dias e Vitor Roriz.

A peça tem ritmos diferentes. Dá para rir e para chorar. Sabe-se que partes são tragédias antigas, histórias friccionadas, outras, provavelmente, verdadeiras. Nunca saberemos. O tempo passa como um temporal e como o vento.

Há uma cena de uma despedida que é tão física e tão bem feita que é talvez, para mim, o melhor momento da peça. Um abraço desesperado. Quem nunca o vivenciou e sentiu?

A voz alta de Cristina Vidal só se ouve no final para dizer os versos finais de Berenice, os mesmos que foram a primeira branca, o primeiro esquecimento, a primeira falha de texto de uma infalível grande actriz. Termina a ler, com a voz suave e soletrada de quem fuma, a branca e o silêncio que também teve quando não conseguiu ajudar uma actriz. Porque o silêncio lhe pareceu tudo.

Qual o propósito do teatro se não questionarmo-nos e provocar-nos emoções?

É preciso preservar os momentos em que nos dedicamos aos mistérios, em que nos encontramos e dizemos: aqui estamos, talvez poucos, mas certos de que, perante a perspectiva da morte, escolhemos ficar na vida. E sussurrar em vez de gritar, recusar o ruído do mundo, escutar a respiração que emerge do silêncio e que sempre esteve lá, mesmo quando não a queríamos ouvir. Preservar os lugares onde podemos ouvir o vento, o sopro do pensamento, o espírito do lugar, o momento breve e irrepetível em que nos vemos pela primeira vez. E, sobretudo, não morrer".

Desta vez, o ponto, para além de ouvir, sai para receber as merecidas palmas.

Para mim, maravilhoso. Que comoção. Há muito tempo que não me sentia tocada assim.



quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A(s) verdade(s) inconveniente(s)

Este é o tema que qualquer que seja a opinião (quase) toda a gente tem razão.

Devemos ser dos poucos países civilizados em que um investigador doutorado não tem (obrigatoriedade) de ter um contrato de trabalho. Para quem não sabe, vou repetir ad nauseum, um aluno que acabe o doutoramento, até há (bem) pouco tempo, o máximo que poderia ambicionar era uma bolsa de postdoc (1495 €/mês x 12 meses, sem subsídios de férias e de Natal e os descontos para a Segurança Social resumem-se ao Seguro social voluntário (opcional) no valor de aproximadamente 125€/mês. Bolsa esta que não é actualizada há mais de 10 anos.

Há uns anos, começaram os contratos para doutorados da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), a que foram dados diferentes nomes pelos diferentes governos. Estes eram poucos mas garantiam estabilidade e valores variáveis consoante idade e experiência durante 3 a 5 anos. Entre avanços e recuos, estes concursos que este governo sugeriu que iam acabar, pelos vistos, irão continuar.

Depois existe a possibilidade, através de projectos (Europeus ou não) de as Universidades contratarem investigadores doutorados por determinado número de anos. Neste caso, não são sujeitos ao regulamento rígido da FCT que só permite que doutorados com 3 ou mais anos sejam elegíveis. Nestes casos, apesar do concurso ser público, e da meritocracia ser alegada, os critérios de selecção são mais discutíveis.

Este governo teve a pertinente ideia de considerar que todos os bolseiros doutorados que eram financiados directa ou indirectamente pela FCT, há mais de três anos, que desempenhem funções em instituições públicas têm direito a um contrato. Quem pode não achar? Para isso propôs que todas as universidades abram concursos para os candidatos elegíveis. O Ministro da Ciência anunciou hoje o princípio de 2018 para iniciar o processo de contratação, a termo, de três mil investigadores doutorados. O diploma, que aguarda publicação em Diário da República, define que a FCT suportará os custos da contratação de doutorados. E aqui começa o eterno problema. Não parece um cenário utópico? Eu acho óptimo. Aplaudo de pé. Mas é (mesmo) verdade? As universidades, nomeadamente de Lisboa e Coimbra, têm alegado constrangimentos orçamentais para a contratação de investigadores doutorados. Eu, só acredito, vendo.

No Domingo, o grande cientista António Coutinho (ex-director do Instituto Gulbenkian de Ciência e actual Presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa) escreveu um texto no Observador que dá que pensar. Começa por escrever que "Os dados oficiais da FCT mostram que o orçamento realizado em 2016 (367M€) foi inferior ao do ano anterior (372M€). O investimento na ciência é propaganda política". Quem diz isto é o insuspeito Prof António Coutinho. Faltou ainda dizer que os resultados do concurso dos projectos FCT não estão previstos para antes do início do próximo ano. Este governo vai acabar a legislatura com 2 concursos de projectos atribuído em 4 anos...

Também, no início da semana, a excelsa cientista Maria de Sousa foi galardoada com o prémio da Universidade de Lisboa. Na nota biográfica disponibilizada estava escrito: "Profundamente estimada e muito respeitada na comunidade científica, Maria de Sousa é também uma humanista que cultiva o gosto pelas artes, pela história e pela poesia”. É que tal como dizia Abel Salazar: “Um médico que só sabe de Medicina nem de Medicina sabe”. E esta mulher, intelectual, médica, cientista com a idade que tem é um orgulho. Também, mas principalmente, por ser mulher. Elogiou publicamente os alunos de doutoramento: “Permitam-me um parêntesis de reconhecimento dos nossos estudantes GABBA”. A cientista a não esquecer quem ajudou e quem a ajudou. Diz muito da pessoa que é. E destacou dois momentos: explosão do número de bolsas de doutoramento da responsabilidade do Ministro Mariano Gago e de investigadores da FCT.  Destes últimos, já mais seniores, e que se tornaram directores de grupo (entre os 40 e 50 anos), e que são “ os recipientes de grandes bolsas internacionais” mas “a universidade parece não querer ou não poder integrá-los e o Governo vai implementar um decreto-lei que vai empregar milhares de postdocs com 6 anos de doutoramento”.

Quando dois dos maiores cientistas (jubilados) do nosso país, que podiam estar no conforto do silêncio sobre um problema que não os afecta directamente, falam na mesma semana dos mesmos (e mais) problemas na ciência em Portugal, algo vai muito mal.


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

A minha lista de música, hoje

 “Canção do engate”, António Variações. A minha mãe deve ser uma das maiores fãs do António Variações.  Lembro-me do dia da morte dele, no dia 13 de Junho, dia de Santo António. Tinha 5 anos. Acho que foi a primeira vez que soube o significado de morte: nunca mais voltar, para sempre. E a minha pergunta foi: “Como morreu se está a a cantar?”. Admito muito a história de vida deste homem. Um rural de uma aldeia recôndita perto de Braga, chamada Fiscal. Um incompreendido, um excêntrico, um ET que nasceu antes do tempo e numa terra onde não o entendiam. Um menino da província que não aceitou a sua sorte de ser marceneiro “e andar todo sujo, de ter uma vida normal, casar com uma mulher e ter filhos”. Era, também, homossexual e uma uma das primeiras figuras públicas a morrer de SIDA e que a família,  até hoje 33 anos depois da sua morte, insiste em ocultar e/ou desmentir.

“The man who sold the world”, David Bowie. Podia ser qualquer uma do Bowie mas esta é também uma das versões dos Nirvana que foi outra das bandas da minha adolescência.

“It´s no good”, Depeche Mode e “Sub-16”, GNR .Não sei como é que os CDs ainda existem. Foram os que mais ouvi na minha pré/adolescência.

“Miracle of love”, Eurythmics e “Whiter shade of pale”, Annie Lenox.  É a imagem do fecho das matinees no Club 84 em Braga com aquelas bolas gigantes das discotecas nos anos 80/90.

 “Vapor barato”, Gal Costa com Zeca Baleiro. A letra é de Wally Salomão. Consta-se que Wally Salomão disse a Gal (que acrescentou “Graças a Deus”que não estava no poema): “Gal, dinheiro não rima com Deus”.


"Neighborhood #2 (Laika), Arcade Fire. A primeira vez que os vi em palco, com as cabeças cobertas com capacetes a servirem de bateria, nunca esquecerei.

“The greatest”, Cat Power. Esta música foi-me enviada de madrugada por uma das minhas grandes amigas numa altura que eu estava a panicar para uma apresentação oral que faria em Memphis. (Ainda) achava que havia coisas (profissionais)  pelas quais valia a pena chorar. Hoje não acho. Mas esta música ficou-me para sempre. E ainda hoje a ouço quando preciso de força.

“Fix you”, Coldplay. Num hotel em Shanghai com duas das minhas grandes amigas, no escuro do quarto, iluminado apenas pelas luzes da cidade a panicar antes de uma apresentação oral.


“True faith”, New Order. Ouvi-a muito quando era criança e depois levei-a comigo para Houston. A imagem desta música é o campus de Rice University a alta velocidade de bicicleta.

“Grito”, Amália. Uma pessoa com a 3ª classe foi capaz de escrever: “Sou sombra triste encostada a uma parede”. Eu sou daquelas pessoas que dizia que não gosta de Fado, gosta da Amália. Quando fui fazer o meu doutoramento para Houston uma das minhas playlists no ipod era Amália, que incluía a Amália da voz madura, que muitos acham a pior fase dela mas que para mim é que eu mais gosto.


“Unfinished sympathy”, Massive attack A primeira vez que ouvi esta música ao vivo, num dos maiores festivais de música dos Estados Unidos (Austin City Limits Festival), chorei copiosamente. Fui com um colega e mais quatro desconhecidos a esse festival. Foi dos fins de semana mais felizes da minha vida.  “How can I have a day without a night/ You’re the book the book that I have opened/ And now I´ve got to know I’ve got to know much more (…) The curiousness of your potential kiss/ Has got my mind and body aching (…) Like a soul without a mind/ In a body without a heart/ I’m missing every part”.


“Girl, you’ll be a woman soon”, Urge Overkill. Faz parte da banda sonora de um dos filmes que mais gosto do Tarantino. Nesta música é a voz.

“Tribulations”, LCD Soundsystem. Já fui muito feliz ao som desta música.

“Roads”, Portishead, “Into my arms”, Nick Cave e “Hope there’s someone”, Antony and Jonhsons. Quando quero “curtir uma fossa” e sangrar tudo é o que oiço. Depois, tudo passa.

 “Hung up”, Madonna. Foi-me oferecido num Natal. Perdi as vezes que ouvi o disco e as vezes que dancei esta música. “Time goes by so slowly for those who wait”

“Beijo sem” Adriana Calcanhotto. Hoje escolho esta, outro dia seria outra. Mas a música que mais gosto dela, apesar de a letra ser do Antonio Cicero, é “Inverno”. Qualquer lista que fizesse tinha que ter Adriana Calcanhotto. Não pela qualidade vocal. De facto, a voz dela não é o melhor. Interessa-me muito mais o que se aprende com as letras dela e onde nos leva. As descobertas que se fazem, tal como com o Caetano.

“Nessum Dorma”. Quando escrevo faço-o maioriatariamente em silêncio total. Nas raras excepções só consigo ouvir música clássica e ópera. Todas as óperas que assisti fi-lo porque conhecia as árias. E Nessum dorma que é o final de Turandot de Puccini, de todas as árias, é a minha favorita. 

“Oceano” na versão do Caetano. “Longe de ti  tudo parou/ Ninguém sabe o qu sofri/ Amar é seus deserto e seus temores”(...)”Vem me fazer feliz porque eu te amo” (...)“Esqueço que amar é quase uma dor só”.

“Cajuína”, Caetano Veloso. Caetano sempre. Tem uma música para qualquer estado de espírito. Para mim Caetano é o brasileiro. Pensa bem, escreve bem, fala bem, canta bem. Tanta qualidade num homem só. Podia ser qualquer outra mas hoje escolhi esta “Existirmos: a que será que se destina?” , uma versão da pergunta existencial de Heidegger. Convenhamos que um autor que é capaz de fazer uma canção com a pergunta das perguntas não é pouca coisa. A cena da canção remete para o encontro de Caetano Veloso com o pai de Toquato Neto (amigo e parceiro de Caetano na época da Tropicália que se suicidou no dia seguinte ao seu aniversário) em Teresina, capital do Piauí.

"La chanson d´Hélène", Mísia e Iggy Pop. Sou muito susceptível a vozes, para o bem e para o mal. Esta combinação de duas vozes, tão diferentes, o cantar e o dizer, a melodia e a língua francesa.

 “Hallelujah”, Rufus Wainwright. Apesar de o original ser do Leonard Cohen, prefiro a versão do  Rufus Wainwright. No ano passado fiquei chateada pelo prémio Nobel da Literatura ter sido atribuído ao Bob Dylan. Não por não lhe reconhecer valor literário, isso acho que tem muito. Mas acho que teria sido muito mais justo para o Leonard Cohen. (Mas eu tenho um problema de fundo com o Bob Dylan que é a voz. Não consigo, até hoje, ter aprendido a gostar da voz fanhosa, anasalada, com o sotaque arrastado do Minnesota).

“Lisboa que amanhece” Sérgio Godinho com Caetano Veloso. Um portuense escrever tão bem sobre Lisboa só pode ser amor: “..E já tudo pode ser/Tudo aquilo que parece/ Na Lisboa que amanhece/ O Tejo que reflecte o dia à solta...”. Prefiro a versão com o Caetano. Torna ainda a canção mais bonita. Existe cidade mais bonita no mundo?
“Deusa do amor”, Moreno +2. Depois dos livros de Jorge Amado, esta é a imagem que tenho da Bahia.
 “Perfect day”, Lou Reed Embora a história da canção não seja (tão só) um dia em NY é é esta a visão romântica de um dia de outono em NY.

“Dreamer”, Uh Huh Her. Descobri esta banda em NY que vi ao vivo e ouvi as músicas todas em contínuo durante meses.


“Consegui”, Arthur Nogueira com Fafá de Belém. Uma letra do António Cicero dedicada a Wally Salomão. Ouço em loop há semanas. 

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Web Summit

A coisa que mais sinto falta, no momento em que vivo numa cidade pequena e cuja característica não é ser propriamente ser académica/universitária, é ouvir pessoas com algo (realmente importante) para dizer. Discutir o mundo, a metafísica, os grandes problemas da humanidade, pensar. De preferência  que não seja na minha área. Lazer, dizem. (Definição de lazer: tempo de folga, de passatempo, de ócio, de descanso, distracção ou entretenimento, de uma pessoa). Em qualquer conversa com pessoas que pensam e falam bem aprendo qualquer coisa. E tenho gostado, particularmente, de ouvir falar sobre coisas que não domino.

Web Summit (re)lembra-me isto. De facto, o pior a apontar é o folclore e  a nova profissão de gente que não encaixa em lado nenhum mas que luta pela sua sobrevivência. Empreendedores, chamam-lhes. Pequenas empresa que abrem e fecham à velocidade do som ou da luz. Que não geram nada a não ser uma ideia cheia de ar. Eu sei que o conceito é bom a querer imitar o suposto sucesso das start up de Sillicon Valley em que um geek atrás de um computador é capaz de muita coisa. Ou a ideia revolucionária de alguém sem horário, nem lugar,  sentado num café em São Francisco ou em NY, como tantas vezes vi, gerir milhares de coisas, pessoas e ainda gerar muito dinheiro. Mas isso não é para todos e, muito menos, ao alcance de todos. Empreendedor, palavra que detesto, é uma palavra simpática para “vendedor da banha da cobra”. Eu ouço a palavra e apetece-me logo fugir. Não duvido nem quero comentar o encaixe financeiro para Lisboa de um evento como a Web Summit . A histeria dos preços proibitivos de/para Lisboa falam por si. Ou o êxtase colectivo da abertura que mais parece o festival da canção ou um mundial de futebol. O primeiro-ministro (PM) e o Presidente da Câmara de Lisboa, a abrir o evento e cada um a ler o seu discurso inglês foi de chorar. Se fosse de improviso, eu até admitiria o “bad english” (para citar o outro no discurso em Columbia University) mas a ler...  E o nosso PM até tem uma (boa) voz. O outro lado, pior, é lembrar-me as TED talks que só a palavra dá-me náuseas. Ainda se lembram daquele personagem que o Relvas foi buscar  porque o viu no YouTube? Este é o lado negro do empreendedorismo. As pessoas que se aproveitam da desgraça dos outros. Que se fazem pagar por um discurso vazio, carregado de soundbytes, de falso optimismo, de promessas de milagres mas que produz um efeito imediato que não se traduzirá em nada no futuro. A falsa sensação de felicidade momentânea.

Mas a Web Summit tem o outro lado que invejo muito. E só não estou lá porque i) não tenho (mais) férias para tirar, ii) os preços são tão absurdos que dava para ir uma semana para o Rio de Janeiro ou NY. Concordo com a definição do João Miguel Tavares no Público A Web Summit é a Igreja Universal do Reino da Tecnologia, e Cosgrave o seu pastor”. Só invejo o número (bom) de oradores de qualidade que ele consegue reunir num evento (a quem provavelmente paga ao preço do ouro). Mas, infelizmente, para mim, a província é isto. É não ter lançamentos semanais de grandes livros, nem lectures/talks de pessoas que têm algo de importante a dizer e ensinar, não nos cruzarmos com os melhores, não ter que optar porque não se pode estar em todo o lado ao mesmo tempo, a tal impossibilidade da ubiquidade e omnipresença. É isto que me faz falta. Quando estava em NY, o meu laboratório não era no Campus principal , onde vivia. Eu trabalhava no Columbia Medical Center onde estavam os hospitais e não (necessariamente) os intelectuais. Mas depois ia muitas vezes para a Low Library, ainda mais bonita para mim do que a New York Public Library em Bryant Park e sentava-me de braços cruzados só a olhar. Aquela ideia absurda mas romântica de que aqueles livros, que também são a história literária dos EUA, nos penetravam por osmose ou telepatia. Acontece-me muito isso, ir aos sítios onde pessoas que me interessam andaram, viveram, escreveram e morreram. Estar apenas e perceber o que poderiam ter sentido. E acontece-me isso, ainda, com pessoas que admiro. Partilharmos os mesmos metros quadrados e respirarmos o mesmo ar. Não precisamos falar. Precisamos apenas de estar juntos ali, e guardar isso na memória, não um filme ou uma foto no iphone. Um dia, numa conferência, ouvi o Siddhartha Mukherjee dizer que tinha ido à casa da Emily Dickinson em New England para perceber como é que aquela pessoa, apenas através daquela janela e naquele mundo tão recôndito, foi capaz de escrever aquela poesia. É assim que a minha vida é. De um nome vou para outro, conheço outro, um lugar, uma cidade, um hotel, uma memória, um pensamento, uma ideia, como um novelo que se desenrola num mar imenso, sem fim.


São momentos, instantes, interesses novos e diferentes que fazem a vida ter sentido. Se a Web Summit é o interesse alvo para muitos qual o problema? Há quem preferira Álvaro de Campos a Alberto Caeiro. Que bom, não?

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Insone

Acordo. Ainda é noite. Sinal que adormeci. Não consigo adivinhar as horas. Abro os olhos. Não acendo a luz. Sempre às escuras. Tudo me parece um sonho. Olho para o relógio e vejo que é agora. Percebo que esta é a realidade. E tudo volta. Uma elipse. A noite que que não acaba. O dia que tarda. A contagem decrescente. A espera. A dúvida. A incerteza. A angústia que parece não ter fim. Morro todos os dias um bocadinho mais. Na ironia do dia claro, o horóscopo na mesa do café: "Excelente momento para ter conversas esclarecedoras e chegar a pontos consensuais com pessoas que lhe interessem. Fase interessante para ajustar questões de relacionamentos, ter conversas importantes com pessoas que lhe são caras. O momento é de associação, favorecendo também contratos e uniões, ainda que temporárias, em prol de um objectivo em comum".
Será tarde?

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

“Ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar”

Morrem crianças de fome em África. Refugiados de todo o Médio Oriente fogem para onde não tem saída. Vivem miseravelmente em campos ( dizem que temporários). Portugueses que ficaram sem nada nos incêndios. O mundo anda ao contrário.  A chuva teima em não cair. A luz é de outono mas o calor é de verão. Nada combina. A noite chega mais cedo. Os dias são mais tristes e menores. As castanhas são o pronúncio outonal em “magoados fins de dia”.

É imune a (quase) tudo. Empedernece, cada dia, um pouco mais. Será a distância da imagem? Tudo longe via televisão.

O que a devia incomodar, desvaloriza. O que devia desvalorizar, derrota-a. Coisas insignificantes (ainda) a surpreendem.  As noites são mais demoradas. Tem mais horas que o comum dos mortais. Mas, infelizmente, “quem não dorme não sonha”.  

À frente, no aeroporto,  vai um menino de óculos, chupeta e fralda, guiado pela mão da mãe. Estão felizes, nota-se. Mas ela,  desfaz-se.  Vai embora. Chegou o inverno.

Pensou que estava curada, depois de ter vivido o inferno. Mas o esgar da realidade (re)lembra-lhe como o castelo de cartas pode desabar num segundo. Esta é a fronteira ténue do que parece estar bem. A tão escondida fragilidade. Apesar de parecer impassível. O que é que fez com o pouco que passou a nada? Dizem que tudo passa. Um princípio e um fim.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Que acordão é este?

Hoje ouvia que não há classe mais avaliada e escrutinada do que a dos juízes porque os acordãos são colocados à disposição de quem os quiser ler e consultar. E depois, esse trabalho está sob os holofotes das partes, do MP, dos advogados, das outras instâncias superiores, dos jornalistas... Tudo verdade.

O Conselho Superior da Magistratura reagiu timidamente ao acórdão do Tribunal da Relação do Porto em que dois magistrados declaram ser compreensível a punição violenta das “mulheres adúlteras”. No comunicado defendem que “nem todas as proclamações arcaicas, inadequadas ou infelizes constantes de sentenças assumem relevância disciplinar”. A questão pertinente que se coloca é quem pode agir contra o Juiz Desembargador Neto de Moura que é o autor do acordão inqualificável sobre um recurso do Tribunal de Felgueiras que  foi assinado, também, pela sua colega Maria Luísa Arantes (sim, uma mulher)?

Os argumentos do acordão para justificar a violência são tão arcaicos e medievais que parece impossível terem sido escritos no século XXI, numa cidade da Europa:  “O adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem. Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte. Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte. Ainda não foi há muito tempo que a lei penal [de 1886] punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando a sua mulher em adultério, nesse acto a matasse.” Um provinciano, misógino, preconceituoso, inculto que julga com base no divino em que acredita é péssimo mas  não censurar e não conseguir despir-se de todos os preconceitos de uma sociedade machista  é muito pior. Há argumentos no acordão que parecem ser ele o traído. De facto, os juízes também são humanos. O grande problema aqui foi a balança do sentimento lhe ter pendido para o lado errado. Acusou e julgou, parecendo, na minha opinião, colocar-se  no papel de traído, como se isso fosse o importante, e nunca por exemplo de pai ou irmão da “traidora”. É sempre interessante perceber para que lado pende a balança da nossa (cega) justiça.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Aestas horribilis

Vários países da Europa têm dimensões maiores e mais florestas do que Portugal. É um facto que este foi um verão longo, extremamente seco e com temperaturas altas. Mas a verdade é que tragédia de Pedrogão não nos ensinou nada. Morreram 66 pessoas, um incontável número de feridos, bens perdidos, casas, florestas irrecuperáveis nos próximos anos. A culpa não foi de ninguém. Aliás, culpa, é uma palavra proibida e associada a crenças religiosas judaico-cristãs. Troquemos então a palavra culpa por responsabilidade. Quem deve assumir? Em Pedrogão: ninguém até agora. Não se demitiu nem foram demitidas pessoas nesta tragédia que ceifou 66 vidas. Toda a gente nos atentados de Paris colocou “Je suis Charlie” mas 66 pessoas morrerem queimadas a fugir ou a proteger os seus bens não é tão mediático como ser morto por terroristas. Que medidas foram tomadas para que algo do género não se repetisse? Tudo se adia neste país.

Num outono pouco comum, com temperaturas de verão e chuva que teima em não cair, repete-se a tragédia. Portugal a norte do Tejo a arder. Quarenta e um (41) mortos. Um secretário de Estado da Administração Interna que acha que os cidadãos têm que ser proactivos. A sério? Um senhor com responsabilidades políticas achar que os civis podem ajudar em vez de atrapalhar numa tragédia? Quais as razões para se terem extinguido as vigias nas florestas, sabendo que as temperaturas continuariam altas? Qual a razão de os militares não terem sido convocados para ajudar na patrulha de estradas e/ou florestas para dar nem que fosse uma sensação ínfima de respeito e segurança e demover os supostos incendiários?  Relatos de estradas não cortadas por falta de efectivos? E declarações como “os bombeiros não podem estar em todo o lado”? Como é possível uma mata real, mandada plantar por Dom Dinis no séc. XIII,  que sobreviveu durante séculos e que é propriedade do Estado português ter 80% da sua área queimada num fim de semana? Como é possível uma das dirigentes da Protecção Civil ler (não falar de improviso) que Vieira do Minho e Guimarães são no distrito da Guarda. Como há margem para erros destes na leitura de comunicados? Tudo parece improvisado. Era como se me colocassem a mim a falar de microeconomia.

Eu vi em directo as declarações de  António Costa na madrugada de segunda nas instalações da Protecção Civil em Carnaxide: “não existem varinhas mágicas”. Foi inacreditável o que ouvi. Só lhe faltou dizer: “vamos esperar e sentar-nos à espera que tudo arda”. Alguém dizia, e bem, que a António Costa tem-lhe faltado sentimento, afecto, conforto. O homem parece um autómato insensível a tamanha tragédia. Ontem à noite, preferi manter a tv desligada, porque me bastava o cheiro e a visão que tenho de casa. Mas li que a postura de António Costa se manteve. Um discurso técnico, insensível, arrogante. Não é isto que se espera de um Primeiro-Ministro. Palavras de força e apoio, de energia, de alento. Esperávamos um homem mais sensível e mais humano. Um homem que se comovesse, que falasse mais com o coração e menos com a cabeça. Ele e a Ministra da Administração Interna suportada (apenas) por ele são pessoas sós no autismo dos seus gabinetes e na segurança das suas cosmopolitas casas.

Onde estão as consequências políticas do relatório de Pedrogão? Não é nos momentos adversos que se conhecem as pessoas? Como é possível nenhuma das deputadas das geringonça, sempre tão activas nas redes sociais a apontar erros aos outros, não fazerem um mea culpa e proporem alterações nas leis, como por ex,  aumentar drasticamente a moldura penal para quem deflagra incêndios que têm consequências que as três gerações futuras ainda poderão ver e sentir?

Hoje de manhã passei nos montes que rodeiam Braga e era um manto coberto de preto e fumo. Que tristeza que me deu. Impossível ficar indiferente a este cenário de devastação. E que inúteis nos sentimos quando a única ajuda que podemos pedir e clamar seja a universal natureza. Quando temos um Primeiro-Ministro que está mais preocupado em manter uma Ministra. E uma Ministra a dizer que seria mais fácil abandonar porque não teve férias. Estas atitudes de irresponsabilidade política fazem recuar-me uns anos e louvar quando tínhamos homens e políticos de verdade que assumiam politicamente erros que não tinham directamente intervenção deles, como foi o caso da demissão do então Ministro Jorge Coelho aquando da queda da ponte de Entre-os-Rios.

Que (mais) esta tragédia nos ensine alguma coisa. Que sejam nomeadas pessoas competentes para os cargos de chefia, gente com valor demonstrado na sociedade e na academia. Empreguem os boys dos partidos nos gabinetes e como putos de recados com bons salários e os seus fatos de bom corte, mas por favor, não coloquem (mais) gente incompetente a coordenar coisas para as quais não têm conhecimento.

O numero de mortos e feridos nestes incêndios foi uma tragédia. Pessoas que morreram na maior das aflições sem serem ajudadas. Como poderemos ficar indiferentes? Como poderemos não pedir responsabilidades? Como poderemos continuar com a nossa vidinha? Como podemos nos calar? E saber que uma Ministra com esta incompetência e esta falta de noção das suas limitações se mantenha no cargo, como uma lapa, repetindo “não me demito”, é de dar dó. Esta morte lenta na fogueira do poder não dignifica ninguém. Mas, de facto, já perdeu o tempo. Já nada do que fizer será uma atitude digna e sair de cabeça levantada.

Não estou a pedir a cabeça de ninguém. Somos todos humanos. Errar é humano. Mas errar duas vezes, no mesmo ano, separados apenas por meses, com consequências tão devastadoras é resignarmo-nos à nossa inutilidade. Informaram-me que 234 800 000 EUROS: é quanto o Estado prevê gastar em 2018 em combate a incêndios. Zero (0) EUROS: é quanto o Estado prevê gastar em 2018 em prevenção de incêndios. (Mais) palavras para quê? Deitemo-nos, pois, em posição fetal a chorar e acordemos quando já não restar mais nada para arder e mais nada para salvar.


Copyright: Pedro Remy

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Peixe na Avenida

O restaurante “Peixe na Avenida” foi inaugurado no início de Setembro e fica numa das ruas perpendiculares à Avenida Liberdade. Ali mesmo ao lado do David Rosas.Um restaurante claro, bem iluminado, moderno, clean, com uma oliveira e uma jarra de andorinhas à entrada. Um bar, ao estilo americano, ao fundo e as mesas não têm toalhas.




A cozinha é comandada pela chef Luísa Fernandes, a chef Luisinha, como é conhecida. Foi enfermeira durante 30 anos até render-se definitivamente à sua paixão pela arte culinária. Do “Tachos de São Bento” mudou-se para a cidade da sua vida, NY. Lá ganhou o concurso culinário Chopped, torna-se chef executiva de vários restaurantes até terminar a sua aventura americana no Robert, o renomado restaurante no topo do Museum of Arts and Design em  Columbus Circle. Para ler mais aqui, aqui e aqui.

Chef Luisa Fernandes

O conceito do "Peixe na Avenida" baseia-se na viagem dos navegadores Portugueses pelo Mundo, poderíamos dizer que uma viagem num transatlântico, mas seria redutor. É uma viagem pelos 7 mares, uma descoberta dos sabores do mundo que incluem influências marcantes dos sabores e ingredientes  portugueses. Aqui, como o nome indica, o peixe é o rei dos ingredientes. Múltiplas fusões de diversas culinárias e várias interpretações pensadas pela Chef Luisinha são o mote para a viagem gastronómica que não deixará, com toda a certeza, ninguém desapontado.


Chegam-nos à mesa diversas variedades de pão quente (tomate seco, escuro, milho e azeitona) . De entrada escolhemos sopa rica do mar e ceviche de atum. Os pratos principais foram diferentes para todos: caril de Goa, moqueca baiana, robalo do mar e polvo assado com vinho tinto da Quinda da Pacheca. Tudo regado com um vinho branco de Palmela. As sobremesas foram também (a)provadas: mil folhas, tarte tartin com gelado de violetas, trilogia de chocolate e mousse de chocolate. Gostava de ter o talento de Hemingway para descrever cheiros e paladares, sentidos não reproduzíveis, ainda. Ficam as fotos e os elogios, nunca suficientes, de competência, simpatia, frescura e qualidade dos produtos, saber receber, e no nosso caso, amizade. A Luisinha há alguns anos que nos conquistou pelo estômago, a sua arte de bem cozinhar e o coração enorme. A repetir, sempre.

Ceviche de atum

Atum do mar grelhado, favas com chouriço alentejano

Moqueca baiana com camarão, peixe do dia, leite de côco, óleo de palma e mandioca

Caril de Gôa com caranguejo, camarão e arroz de cardamomo
Polvo assado com vinho tinto da Quinda da Pacheca, batata doce, cebola roxa e puré de grelos


Mousse de chocolate

Mil folhas








quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Onze de Outubro de 2017

Ontem, onze de Outubro de 2017 foi o dia em que “o Ministério Público, do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, deduziu acusação contra 28 arguidos, 19 pessoas singulares e 9 pessoas colectivas, no âmbito da designada Operação Marquês”. José Sócrates foi acusado de 31 crimes (3 crimes de corrupção passiva de titular de cargo político, 16 crimes de branqueamento de capitais, 9 crimes de falsificação de documentos e 3 crimes de fraude fiscal qualificada). A ser verdade este enredo/tese, difícil de explicar e de perceber, e que os jornais e televisões (muito eficientemente) tentam explicar em esquemas simples, deve envergonhar-nos a todos. Há uma coisa que toda a gente sabe que é verdade: o Sócrates é um mentiroso compulsivo, se é ou não uma patologia só os psiquiatras poderão avaliar. Alguém se esqueceu da célebre entrevista à Clara Ferreira Alves, cuja capa é uma foto de Sócrates casual no Altis de Belém, de blazer, jeans e botins? Ainda ontem, a Clara Ferreira Alves dizia que não se considera mal informada (e até ela foi magistralmente enganada nesta entrevista) na qual Sócrates garantia que a única fonte de financiamento tinha sido um empréstimo bancário de 120 mil euros da CGD (que segundo as contas que fizeram acabaria em 4 meses pelo volume de despesas que tinha). Já nesta altura pensei como é que ele conseguia enganar toda a gente. Mas como diz o nosso Primeiro Ministro “há o tempo da política e o tempo da justiça”. E pelos vistos, não se compadecem um com o outro. Ofuscou, claro, o anúncio das candidaturas do “Menino guerreiro” e do “Barão de Azeitão”. Deixou de se falar dos fogos que queimam tudo o que aparece pela frente. E da qualificação de Portugal para o Mundial. Mais a Madonna que, coitadinha, não encontra casa em Lisboa.

Acho que o tempo é essencial para tudo. Há um tempo certo. Santana Lopes estava tão bem com Provedor da Santa Casa. Fez um óptimo trabalho e até criou os Prémios Santa Casa para a área das Ciências da Saúde. Acho que foi um ingénuo quando aceitou substituir o inqualificável Durão Barroso (que abandonou o barco em troca de trono melhor) sem sei eleito. Acabou a perder tudo, quando ganharia facilmente, se em vez de nomeado fosse eleito. Mas Sampaio, Durão e ele próprio não entenderam assim e Sócrates foi eleito por maioria absoluta. Lembram-se? Perdeu a liderança do PSD contra Ferreira Leite. Perdeu as eleições à Câmara de Lisboa contra António Costa. Volta a ser candidato à liderança do PSD. O que o motiva?

Rui Rio quase não o conheço para além de ter estado 12 anos à frente da Câmara do Porto. Dizem que é um homem sério, austero e granítico (como a cidade de onde é). Deixou as contas em ordem, toda a gente lhe reconhece o trabalho, mas fez do Porto uma cidade apagada, principalmente, culturalmente. É dele a célebre frase que não se podia gastar mais em cultura do que em acção social. Esquece-se, contudo, que a cultura e a educação não são frutos que se colhem no tempo de duração de um ou dois mandatos. No resto, tem alguns dos piores defeitos de um bairrista. Se tivermos que comparar, tem muitas semelhanças com Passos Coelho, é obstinado com números e contas, não é empático, não governa para a comunicação social, não é mobilizador. Tudo o que o PSD não precisa neste momento.

José Eduardo Martins, que participou na escrita do projecto político do PSD para a Câmara de Lisboa, lançou ontem um “Manifesto PSD 2017 Nós, Sociais-Democratas”.  É um nome a ter em conta para os próximos anos se o PSD não quer ficar agarrado aos mesmos do costume e se quer renovação que não inclua gente sem qualidades como Hugo Soares e Duarte Marques. Tudo me afasta desta gente. Vamos ver em quem agora esta canalha se vai pendurar.

O que os militantes do PSD deveriam querer saber é qual dos dois candidatos se rodeará de gente mais competente e afastará (de vez) os Hugo Soares, Duarte Marques, Miguel Relvas, Marco António Costa, José Manuel Fernandes, e os arguidos Miguel Macedo, António Vilela (faltar-me-ão muitos nomes, com certeza, mas ando desinformada politicamente) e outros tantos desta vida. Já não tenho paciência para aqueles Luís Filipe Arnaut, que estão sempre prontos para voltar aos lugares de poder e que são eternos “ministeriáveis”. Mas como eu não voto, a minha opinião, vale o que vale. 

Ontem, dia marcante para a justiça portuguesa, fez um ano que vi fazer-se justiça e a continuar a acreditar que não podemos deixar a esperança morrer. Nunca devemos esmorecer nem deixar de lutar por aquilo que acreditamos, leve o tempo que levar. 

terça-feira, 3 de outubro de 2017

O momento que (se) foi

Partiram, juntos, rumo a coisas diferentes. Eram amigos há muitos anos. Ele ia atrás de um (possível) amor. Ela ia fazer-lhe companhia. Dias antes da partida envolvera-se com uma pessoa. Não tinha sido nada (relevante). (Talvez) uma promessa de (algum) futuro. Na penúltima noite, antes do regresso, saíram. Na hora de irem embora do bar, alguém (re)conheceu-lhes o idioma. Ele era alto, loiro, o fenótipo nórdico. O típico homem bibelot. Mas entendia e falava (mal) português. Estivera um ano no Brasil. O tal do português com açucar. Um encontro casual. Apenas isso. Um desconhecido. Falaram muito e trocaram números de telefone e a promessa de um encontro no que seria o último dia.

Abriu-se com um desconhecido. Contou-lhe tudo. Sem medo de ser julgada e de se expor. Dos medos às paixões. Das fobias aos deslumbramentos. Da vida à ficção. Do que era e do que gostaria que fosse.

Passaram a noite juntos. Na maior intimidade. Mas não houve sexo. Como se aproveita o tempo que resta? Como se eterniza o momento?

Há pessoas que escolhem culparem-se por não ter acontecido, por não terem tido coragem de deixar acontecer, outras escolhem deitar fora o mau, outras fazem por esquecer, outras reprimem-se, outras não se permitem que aconteça, outras em dias menos maus preferem acreditar que guardaram o bom. Nunca perder o momento é tudo. O que é o fado e o destino? Como se os finta?

O que poderia ter sido? A resposta que nunca será respondida. A (in)certeza do nada que (não) existe. O nada não existe na natureza.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Adeus Passito

A derrota do PSD era expectável. Pedro Passos Coelho tinha a seu favor as baixas expectativas.  Mas uma hecatombe desta dimensão deixou muita gente surpreendida. A começar por mim. Ficar abaixo da CDU é uma catástrofe. Só uma visão deturpada e uma cegueira intratável justificam o mundo paralelo em que Passos vive desde o dia 4 de Outubro de 2015. Toda a gente sabe que foi Passos que ganhou as eleições legislativas. Toda a gente sabe que a formação da “geringonça” foi o golpe que Passos até hoje ainda não aceitou. Toda a gente sabe que o fim do mundo não chegou e que não haverá eleições legislativas antecipadas como Passos desde o primeiro dia da tomada de posse de António Costa ambicionou. Toda a gente sabe que o diabo não chegará. E como diz João Miguel Tavares: “Já várias vezes escrevi que o país muito lhe deve, e que a História lhe fará justiça. Mas agora é hora de pendurar o retrato na Rua de São Caetano à Lapa e dizer adeus”. Acrescento o que disse Manuel Ferreira Leite “atónita e chocada com os resultados demasiadamente maus”. José Miguel Júdice, que entregou o cartão de militante do PSD, disse que este não é o partido de Sá Carneiro e nem consegue perceber qual a actual ideologia.
Os candidatos do PSD em Lisboa e no Porto eram fraquíssimos e nascem de erros de avaliação, de segundas e tardias escolhas e teimosia do seu líder. Começou com o erro de não ter apresentado um candidato vencedor antes de Cristas e, depois, não ter reconhecido isso e errar pela segunda vez não apoiando Cristas em Lisboa e não ter apoiado Rui Moreira no Porto. Tenho muita pena que o José Eduardo Martins, crítico interno de Passos, aceitasse ter escrito um programa eleitoral que estava derrotado à partida. Tenho pena, também, da Teresa Leal Coelho que aceitou a tarefa ingrata de não ser a primeira escolha e ter-se sujeitado a este papel. Até admiro a frontalidade dela como deputada e as opiniões anti-racismo que expressou, sozinha, durante as eleições. Mas, não conseguiria pensar em candidata tão fraca e com tão pouco entusiasmo durante a campanha. No entanto, acho que ela é a menor das culpadas.
Braga continua completamente irrelevante sob o ponto de vista político nacional. Braga, que  tantos dizem estar no mapa e que é a terceira cidade do país, nunca o é nem nas eleições nem  nas previsões meteorológicas. Com a maioria, pela segunda vez consecutiva, vamos ver se Ricardo Rio saberá usar melhor depois de ter sido, segundo disse, condicionado pelo estado das contas que encontrou no município. Este era um resultado esperado. Primeiro porque uma governação jurássica do Partido Socialista já não acrescentava nada a Braga e a oposição pouco mais fez do que críticas avulsas. Acrescenta-se um PS totalmente descaracterizado, com os arguidos apoiantes de Mesquita Machado de um lado e um Miguel Corais orgulhosamente só do outro. No entanto, existem muitas coisas que têm que melhorar nos próximos anos. É indiscutível como a cidade ganhou vida nos últimos 4 anos. A relação com a Universidade é notória e de salutar. As actividades culturais são muitas e diversificadas. A procura e oferta turística tiveram um aumento exponencial. A revogação de alguns péssimos negócios como o edifício das convertidas é um grande exemplo. A decisão sobre o S. Geraldo depois de muita pressão pública foi outra das grandes decisões a mostrar que esta coligação não está de costas voltadas para a população. As reabilitações do Parque Exposições de Braga (PEB) e do mercado Municipal foram dois dos grandes investimentos desta coligação. No entanto, há coisas que não se percebem: como não se cria mais verde naqueles espaços à volta do parque da Ponte, mais ciclovias e passeios?Como é que aquele parque pode ter tão pouca vida? O que se fez nas margens do Rio Este nestes últimos 4 anos? Uma das promessas da coligação “Juntos por Braga” era a revogação do  aumento de ruas com estacionamento pago. A minha rua fazia parte das ruas acrescentadas cujo estacionamento é totalmente pago. Há uns tempos critiquei publicamente a forma como o actual Presidente da Câmara prometera revogar a decisão da ESSE no que respeita ao aumento do número de ruas com estacionamento pago. Fui corrigida, posteriormente, pela sua Chefe de Gabinete (pessoa que prezo e tenho consideração) que a acção teve parecer positivo do Tribunal mas que a ESSE recorreu. É neste ponto que estamos. O pagamento continua a ser cobrado. Eu sou residente numa rua cujo estacionamento é pago mas eu não tenho garagem. Ou seja, qual a justiça de se cobrar o estacionamento a residentes que não têm lugar de garagem. O que me sugerem é que pague a avença mensal? Tenho centenas de euros por pagar. O que proponho: devia ser criado um dístico isento de pagamento para residentes sem estacionamento. É o mínimo que se pede num país civilizado e cujo cidadão comum paga por tudo o que usufrui. Será pedir muito? Uma das promessas desta coligação é mudar a recolha dos lixos domésticos. Pois bem, para quem conhece a recolha do lixo em Braga é qualquer coisa que considero indescritível para o século XXI. O lixo é colocado nas calçadas à porta dos prédios. Será  que vai mudar em 4 anos?
O resultado de Isaltino em Oeiras  é anedótico. O concelho com maior percentagem de licenciados e doutorados do país elegeu, com um resultado esmagador, um senhor julgado, condenado e preso por crimes praticados no tempo em que era presidente da câmara. O exemplo de Oeiras faz-me lembrar a piada que conto muitas vezes que os maiores burros que conheci na vida são doutorados. A democracia (também) é isto?
Inês de Medeiros derrotar o bastião do PCP em Almada foi outra surpresa, para mim. Uma candidata sem nenhum peso político, como Inês de Medeiros, é a prova de que tudo corre bem ao PS. O estado de graça chegou para ficar.
A frase tantas vezes repetida, a mesma frase tantas vezes lida “não me demito” não é sinónimo de coragem nem inteligência. É sinónimo apenas de teimosia e não saber sair de cabeça erguida. Tomasse como bom exemplo o de Paulo Portas, e quem sabe, pudesse voltar um dia. Desta forma, ficará como o pior exemplo da história de agarrado ao poder. Nunca devemos ser nós a acharmos que somos (sempre) indispensáveis. Os outros é que devem opinar por nós e deverão fazer esse julgamento. Como tudo na vida devemos sair quando estamos a mais e não esperar que nos empurrem.O grande problema do PSD é quem quer ir para o lugar mais indesejável do país? Rui Rio é um homem provinciano, bairrista, dizem que  equilibrou as contas no Porto mas nunca a cidade esteve tão apagada e tão invisível como no seu tempo. Um homem sem visão é tudo o que o PSD não precisa. 

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Festa do Livro no Palácio de Belém

23 de Setembro de 2017

A Festa do livro de Belém, organizada pela Presidência da República, regressou pela segunda vez aos jardins do Palácio de Belém. Programa diversificado que incluiu debates, muitas editoras representadas em pequenos stands, música, concertos, sessões de autógrafos e comidas.

No dia em que fui, a meio da tarde, estava indecisa entre os petiscos portugueses que iam do camarão da costa aos percebes, de tostas com sapateira aos pregos no pão. Havia opções vegan e piadinas, gelados e sumos naturais. De tudo um pouco. Fiquei-me pelo prego no pão, da espessura de uma fatia grossa de fiambre, acho que nem de vaca era e até sal faltava. Pouco depois, um burburinho à volta, e vejo o PR rodeado de marceletes a treinar selfies. Parece uma romaria. Abraça-se. Abraçam-no. Pega em bebés ao colo.  Baixa-se à altura dos carrinhos de bebés. Baixa-se à altura das crianças. Distribui beijos e sorrisos. Ouve-se: “É o presidente do povo”. Segue para ver as bancas dos livros, compra alguns.

Copyright: PR

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Ás 5 da tarde começou a conversa sobre o futuro do jornalismo, na cascata. Moderado pelo Carlos Vaz Marques, a discussão teve a participação da Clara Ferreira Alves, Isabel Lucas e Paulo Moura.  A Clara Ferreira Alves (sempre) no seu tom irónico/sarcástico começou por dizer que a resposta a essa pergunta seria: “Não tem futuro e vamos todos embora para casa”. Falou dos tempos de redacção, de como era importante o contacto humano. Mas que as coisas mudaram e está tudo à mão de um e-mail ou de um smartphone. É do tempo do telelex e do satélite. Falou de como os actuais jornalistas das redacções são mal pagos e trabalhadores indiferenciados. Falou do mês que passou nas últimas férias na Birmânia para escrever o próximo livro que será sobre o sudoeste asiático. Falou da culpa da Fox News de termos um Presidente americano anedótico como Donald Trump. E falou que o futuro da literatura e dos livros não está em causa. Caso contrário, não teriam sobrevivido a esta era tecnológica, e já teriam acabado.

A Isabel Lucas falou especialmente da sua experiência pessoal na América da campanha eleitoral. Das terras no meio do nada. E da tecnologia que via nos seus colegas de grandes orgão de comunicação social americanos. E que dependia de wifi grátis do Starbucks para enviar os seus textos.

O Paulo Moura falou da sua experiência como repórter de guerra e freelance. Da quase impossibilidade de se ser reporter de guerra por conta própria sem suporte de uma grande cadeia. Dos custos diários que nunca saõ menos do que 500 euros.

Todos falaram, com um certo toque de nostalgia, do tempo que não regressará.

No meio de nós estava o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, tendo preferido o meio por oposição à primeira fila.

Ainda tive tempo de ouvir os ensaios da Lisbon Poetry Orchestra – Poetas Portugueses de Agora – e Orquestra Académica da Universidade de Lisboa 


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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

De Ana Hatherly a Tarkovski

Com Anastasia Lukovnikova, Mariano Marovatto, Matilde Campilho e Tomás Cunha Ferreira na Feira do Livro do Porto, mais precisamente, na Biblioteca Almeida Garrett. Uma sessão, como foi apresentado, com “palavras, imagens e um fio de música”. Foi (bem mais) do que isso.  Palavra dita, imagem, diversidade de idiomas e sotaque, som, música, real e passagem tempo.

Para os apresentar, Anabela Mota Ribeiro, leu o seguinte texto: “Um grande ecrã ao fundo, instrumentos, livros e quatro amigos no palco. Uma conversa de esquina a quatro vozes, um cordel que será desenrolado a oito mãos. Anastasia, Matilde, Mariano e Tomás são poetas, mesmo quando não são. Falarão da revolução e da memória, dos monumentos e do futuro, do silêncio, sem o ferir, e das estórias das ruínas. Com eles: Chris Marker e Chantal Akerman, Leonard Cohen e Susan Sontag, um canto tupi e as câmaras da NASA em direto do cosmos. Copacabana Mon Amour, Meredith Monk, as cores de Pancetti sobre o Tejo, o golo que Maradona marcou com a mão e outras impossibilidades. Maiakovski, James Bond e John Cage. Bashō, Darwin e os habitantes de todas as ilhas. São todos poetas, mesmo os que não são. Estão entre Ana Hatherly e Tarkovski, porque tudo sempre está”.

A primeira imagem (não sei bem se a primeira mas a que me lembro), na grande tela por trás dos quatro foi a de Philippe Petit (que atravessou as torres gémeas do Word Trade Center em 1974) a equilibrar-se num cabo, com a Harbor Bridge como cenário. Petit, o homem que desafiou as vertigens e que disse que nada é impossível. "O fio não tem medo".

De Helio Oiticica, o parangolé, que  Adriana Calcanhotto eternizou numa música como: “um rectângulo de pano de uma cor só/ E é só dançar/ E é só deixar a cor tomar conta do ar/ Verde Rosa/ Branco no branco no preto nu”. Haroldo de Campos referiu-se ao parangolé como uma “asa delta para o êxtase”.

Uma foto de Leonard Cohen, ao fundo. O dono daquela voz grave e sussurrada e cujo timbre nos cuidou tantas vezes. Aquele que viveu em Hydra, em Londres e no Chelsea Hotel em NY. Aquele que cantou Marianne e Suzanne. Aquele que disse que a resposta era sempre sim. Aquele que nos ensinou tanto sobre tanta coisa. Que escreveu para os introspectivos, para os amantes platónicos, para os amantes de todos os graus de sofrimento, para os que se autoflagelam, para os traídos, para os que querem chorar e para muitos mais. E eternizou-se, para todo o sempre, enquanto houver som.

Falaram também de Bashô, o famoso poeta japonês, (re)conhecido pelos haicai (poemas de três versos e dezassete sílabas) .

Exibiram a imagem de John Cage a apanhar cogumelos no seu livro Silence. Sobre os cogumelos, de se saber ou não distinguir entre os cogumelos venenosos ou não, “como a vida seria chata sem uma certa incerteza”. 

Foram exibidas imagens em tempo real do espaço, de onde estamos a ser permanentemente observados, à la Orwell.

Leram Tarkovski em russo e em português.

Falaram de nitrogénio (em inglês é nitrogen), que não sei se quiseram dizer em português do Brasil, mas que em português de Portugal é azoto.

Marovatto e Tomás cantaram uma música inédita e outra de Caetano Veloso “Enquanto seu lobo não vem” que cita a Mangueira e a Avenida Presidente Vargas.

A imagem final foi de cruzamento com passadeiras em forma de pentágono, em Tóquio. Tempo real, lá amanhecia.  O tempo no espaço e o instante que passa.

Li algures que a Matilde nunca foi a NY nem aos EUA. “Quem diria por aquilo que escreve? É aqui que ficção se confunde com o real e a imaginação para formar geografias privadas e imaginárias? Quem sabe?

O auditório da Biblioteca Almeida Garrett estava composto, mas não cheio nem a abarrotar, como parece ter sido tendência em todos os eventos da Feira do Livro do Porto. No entanto, parece que o concerto dos Mão Morta & Remix Ensemble roubou parte do público. Eles nunca saberão mas foi o que perderam. O momento que não se repete.

Copyright: Anabela Mota Ribeiro




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