sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Para a minha querida amiga Luisinha (em forma de carta)

A primeira vez que vi a chef Luisinha foi na inauguração do City Sandwich e no Portugal Day no Central Park (em que estava com a Catarina Portas e o Tiago Mexia). O sorriso da Luisinha é a marca da sua personalidade. Quando a vemos, tão pequenina, não imaginamos o mundo que tem lá dentro. Semanas depois fomos ao Robert beber um cocktail. De conhece-la apenas de vista, a conhecê-la mesmo, foi nesse dia que começou a nossa amizade. Senti-me em casa, em família, aquilo que mais falta nos faz em NY: o conforto de uma família. Nunca mais me esqueço que nesse dia nos presenteou com uma panna cotta e bambolinis. Depois desse dia, muitos jantares se seguiram. Ofereceu-nos tanta coisa sem preço. Tratou-nos tão bem. Levei lá toda a gente que conhecia, recomendei muita gente e inclusive o Ruben Alves ainda hoje me fala do jantar memorável que lá teve.

A chef Luisinha é o exemplo que nenhum sonho é impossível. Quando nos faltarem as forças, lembremo-nos dela. Foi enfermeira chefe muitos anos, perdeu um grande amor, e há mais de 10 anos reformou-se e veio para NY lutar pela sua outra paixão: a cozinha. Começar uma vida de novo, depois do meio século de vida, longe de casa, do outro lado do Atlântico, não é fácil, nem é para todos! [Ainda hoje me lembro da história da “morte do Bono!!!]. Não são só sorrisos nem alegrias. Mas a força da Luisinha venceu tudo e tornou-se uma chef reconhecidíssima.

Não me esqueço de todas as histórias fenomenais que a Luisinha contava do hospital, de muitas aventuras de NY, do jantar que tivemos no LOURO (em que a Luisinha pagou a maior parte porque nós, coitadinhos, éramos investigadores - nas palavras dela), dos jantares memoráveis no Robert em que a Luisinha se sentava à nossa mesa e bebia apenas uma água com gás, de como éramos tratados com verdadeiras honras.

A Luisinha, apesar de ter viajado muito, antes de ter mudado para NY nunca aqui tinha estado. Sempre disse que quando viesse a primeira vez ficaria aqui para sempre. É de perder a conta quantas pessoas ajudou. E este exemplo da Luisinha é fundamental, também, para percebermos como a cozinha é uma forma de arte. Para além disso, adora flores como ninguém. E tem a neta uma das suas maiores admiradoras.Tal como a avó, ama NY intensamente.[ Queria há uns anos ter uma banca na Quinta Avenida].

PAPS, Portuguese Circle, principalmente em cidades difíceis como NY, continuem com este excelente trabalho de aproximar os portugueses. Usem sempre o exemplo da Luisinha e nunca estarão sós.
Luisinha, até muito breve, pessoalmente. A vida sorri sempre a pessoas tão boas e com o coração tão grande. Muito obrigada por nos fazer sentir tão perto de casa e por nos ter mimado tanto.
Com um beijo meu,

A. (M)








sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A minha lista de 10 (sobre cultura geral)

Medicina era o objectivo desde sempre. Mas não tive o comprometimento e dedicação exclusiva que as notas necessárias para a entrada no curso, à época, exigiam. Então, no secundário, percebi, muito cedo, que não seria uma candidata à altura. E em vez de me tornar uma sonhadora frustrada, desisti à partida e não à chegada. Fiquei sem segundo plano. E tornei-me uma aluna universitária medíocre. Com a permanente ideia de desistir. Entrei no que deu. E ao contrário de muitos, apesar das constantes ideias de desistência, consegui terminar o curso. Deve ser algo genético a capacidade de não ter desistido. Não atribuo a qualquer mérito meu, que dependesse da minha acção voluntária. Então, entre ser médica, ou qualquer outra profissão que incluísse os meus gostos pessoais, sobravam coisas que não davam para viver nem ter qualquer profissão que os pais sonham para os filhos. Esses gostos incluíam muita coisa, de temáticas muito diferentes umas das outras, muitas vezes até indefiníveis e até pouco coincidentes entre si. Então como isso não dava dinheiro, tornei-me cientista (que é uma profissão que inclui segurança, emprego para a vida e total realização pessoal... Not). Tornei-me cientista por obra total do acaso. Por causa apenas de um professor, do seu entusiasmo, da sua juventude e do seu grupo de investigação, e a uma das poucas aulas teóricas a que fui assistir numa tarde de sexta feira (manhãs não eram para mim). Descobri no decorrer destes anos que em vez de me ter tornado numa pessoa frustrada, aprendi o lado bom da investigação. Permitiu-me viajar, conhecer pessoas incríveis, mundos novos, pessoas que tratam de pessoas, doentes que são curados, outros que morrem mas não em vão, museus, restaurantes, arquitectura, paisagens, livros, escritores, cientistas, comidas, artistas, prémios Nobel, malucos, nerds, e as melhores universidades do mundo. Baseado no supra referido, segue-se a minha lista (por ordem cronológica):

1- Lisboa, a cidade mais bonita do mundo. Apaixonei-me por esta cidade quando a visitei pela primeira vez aos 3 anos. Nunca mais me esqueci de como tudo era alto e grande. Foi o impacto da diferença entre Lisboa e Braga (cidade onde nasci) à época. O sol não brilha em nenhuma cidade do mundo como aqui. A luz e as cores de Lisboa dos telhados e janelas dos quadros de Maluda. O clima perfeito. O Tejo, com dimensão de mar. As colinas. A baixa pombalina. As avenidas novas. A Gulbenkian. A cidade do meu querido António Lobo Antunes. Dos caracóis. Da bica. Do Lux. Das intermináveis e loucas noites do Bairro Alto. De Belém, de onde os portugueses saíram à descoberta do novo mundo.

2 - Na adolescência li a obra completa do Eça de Queirós, à qual volto repetidamente de tempos a tempos, e que continua a ser um dos escritores da minha vida.

3 - Amália intérprete/letrista/poeta dos seus poemas e dos grandes poetas de língua portuguesa (Camões, O’Neill, Homem de Melo, Mourão Ferreira, Régio). Amália é talvez a pessoa que mais lamento não ter conhecido pessoalmente. Talvez a mais importante figura da cultura pop  portuguesa do séc XX e mais conhecida no mundo (esta sim, verdadeiramente, em todos os lugares por onde passei). Sou fascinada pela vida dela. Uma menina que nasceu pobre, que não passou da 3ª classe, que tinha um dom “que Deus lhe deu”, que se alimentava das palmas do público, que se instruiu, que ousou cantar grandes poetas, apreciadora de arte, que escolheu um dia morrer em NY (como uma diva, e bem ao jeito da catarse da tragédia grega, felizmente arrependeu-se a tempo), que amava flores (como a minha mãe). Verdadeira autodidacta.

4 - Clara Ferreira Alves que leio desde 95 no Expresso. Com ela tive verdadeiras aulas de cultura geral. Descobri e apaixonei-me por Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Susan Sontag, Graham Green. Fascinei-me pelo Médio Oriente e por desertos. Interessei-me por política e por muitas outras coisas que não cabem nestas linhas. Faz-me sentir que nunca conseguirei ler à velocidade do que (ainda) gostaria de ler e reler. Mas faz-me ter essa meta e, sobretudo, não desistir.

5 - Maria de Sousa, talvez das poucas pessoas que não conheço pessoalmente, mas que mudou a minha vida. Ela que é uma médica que se tornou bióloga e eu que sou uma bióloga que queria ser médica (mas a vida não é tão fácil assim e não deu, lamento). Com ela aprendi que é possível ser-se cientista e gostar de coisas que não têm nada que ver com ciência. Senti-me muito menos só no mundo quando soube que ela gostava de poesia, de tocar piano, de escrever na parte de trás das folhas em que só um lado estava usado. Através dela cheguei a Garcia de Orta, Abel Salazar, António Damásio, Espinoza, Auden, Cummings e por aí vai.

6 – Adriana Calcanhotto – Quase não oiço música porque não consigo fazer mais do que uma coisa ao mesmo tempo. Mas tal como Vinícius e Caetano, Adriana, é muito mais do que uma intérprete. Preferi dá-la como exemplo por ser uma mulher e a mais nova dos três, mais perto, portanto, da minha geração. O que não quer dizer que me interesse menos pelos outros dois. A autobiografia de Caetano é um livro que já li 4 vezes. Aprendi muito sobre o Brasil, sobre a cultura brasileira e sobre o tropicalismo. Quem mais do que Caetano teria a bagagem cultural, o dom e a capacidade para escrever uma canção como Alexandre?”. Uma autêntica lição sobre o Rei da Grécia Antiga.
Adriana, reúne muitos talentos. É uma autodidacta, curiosa, conhecedora, intelectual, moderna e sofisticada. É uma artista multifacetada que desenha e pinta bem, escreve, fala e canta melhor, e dizem que toca bem mais do que melhor. Depois, partilha o mesmo interesse que eu por livros e livrarias.Tal como outros antes, incluíndo Amália, pegou em grandes nomes da poesia brasileira e portuguesa, musicou os seus poemas e deu-os a conhecer através da música (Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Bandeira, António Cicero, Mário de Sá-Carneiro, entre outros). Musicou até uma resposta de Joaquim Pedro de Andrade ao Liberation à pergunta Pourquoi filmez-vous? Há uns anos fiz-lhe a seguinte pergunta: “Apesar das sucessivas comparações a que tem sido sujeita, principalmente com Elis Regina, eu diria que a sua trajectória como excelente compositora assemelha-se muito mais a Vinícius de Moraes pela erudição do vocabulário, pela forma extraordinária como escreve poesia em língua portuguesa e pelo veículo das palavras ser a música. Será que daqui a alguns anos a Adriana será definida como uma grande poeta que fez canções maravilhosas? Era assim que gostaria de ser definida?” Ao que ela respondeu: “Ana, eu detesto comparações (como qualquer artista).  Mas considero um grande elogio a analogia que você faz com Vinícius, a quem amo muito. Na verdade, eu gostaria de ser indefinível, inclassificável, hoje ou daqui a alguns anos”. Interessa-me muito mais o que ela tem a dizer e o que o que escreve do que a melodia das canções, que quase nada entendo. Talvez por achar que a música seja o tipo de arte que menos me interessa.

7 - Houston, a cidade onde fiz quase toda a minha investigação de doutoramento. A cidade improvável. No sul dos Estados Unidos. Perto do México, recheada de mexicanos ilegais, republicana convicta, conservadora, perto da praia mais feia do mundo (Galveston), do centro espacial da NASA onde nasceu a frase "Houston, we have a problem", do maior centro médico do mundo, do mais importante hospital para o tratamento de cancro do mundo (MD Anderson Cancer Center), onde tudo é gigante (principalmente as distâncias e as doses de comida) e onde é impossível andar a pé. No entanto, foi a maior e mais feliz surpresa da minha vida. Andei kms de bicicleta que era o meu meio de transporte, apesar de ter arriscado a vida muitas vezes. E foi lá pela primeira vez que descobri o verdadeiro significado de saudade. Percebi e dei valor a coisas que até aí relativizava: que gostar de flores e apreciar comida bem feita são também formas de arte. Estas duas aprendi com a minha mãe e só à distância é que as compreendi. Descobri a Rothko Chapel e o The crab do Calder. Para atirar mais lenha para a fogueira, descobri o bairro de Montrose, o denominado bairro estranho, um verdadeiro oásis naquela cidade, onde tudo é possível e onde tudo pode acontecer. Durante quase estes 2 anos, a música do ipod e a bicicleta foram as minhas mais presentes companhias. O grande exemplo de como é possível ser-se muito feliz numa cidade feia e com um calor infernal.

8 - Nova Iorque, a cidade que eu escolhi para viver. A cidade onde se pode fazer tudo. A cidade onde tudo é possível. A melhor cidade do mundo para se andar a pé. Onde realizei os sonhos inimagináveis de ver Black Swan pela New York City Ballet, de ver Placido Domingo como maestro de Madama Butterfly no Metropolitan Opera e os vitrais de Chagall. Onde vi a exposição inesquecível Savage Beauty de Alexander Mcqueen  e o quadro The great wave de Hokusai no The Met Museum of Art, onde morei a poucos metros da primeira casa de Susan Sontag e frequentei os lugares que ela frequentou, onde fui ao lançamento de Just Kids e Banga de Patti Smith, onde eu li muito no metro, do maior numero de livrarias por metro quadrado, das inúmeras galerias em Chelsea. Dos fabulosos estúdios do Soho. Ia a Times Square quando me sentia sozinha. Onde vi quase todos os quadros que tinha visto nos livros, onde me apaixonei mais ainda por Hopper. Onde vi as fotos de Annie Leibovitz. E onde assisti duas vezes a Wit, o monólogo magnificamente interpretado por Cinthia Nixon sobre uma professora de literatura inglesa, especialista em Donne, que está com um cancro terminal. Aqui também li quase todas as biografias que encontrei de Marie Curie, a cientista que ganhou dois prémios Nobel de Física (pela descoberta da radiação) e Química (pela descoberta dos elementos químicos radio e polónio) e que se apaixonou por um discípulo que era casado e foi um escândalo. Da tardia descoberta de Brooklyn.

9 - Um eléctrico chamado desejo no Teatro Nacional D. Maria II, encenado por Diogo Infante com a brilhante interpretação de Alexandra Lencastre (de volta ao teatro tantos anos depois) no papel de Blanche DuBois (a mais bela representação desta personagem, de todas as que vi) e Albano Jerónimo no papel de Stanley.

10 – Fundação de Serralves – Não sou grande admiradora do Porto como cidade. Não gosto da cor (permanente) cinza nem da temperatura. Não gosto do interminável síndrome de inferioridade, do bairrismo da cidade pequena e/ou das sucessivas comparações com a capital. No entanto, acho que uma cidade que tem um museu como Serralves e viu nascer Sophia, não precisa de mais nada. Já valeria a pena só por isto.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Variações, de António

Teatro Garrett, 21 de Janeiro de 2017

A peça começa ainda com as pessoas a entrarem na sala e acompanhada pelos burburinhos e conversas que não se percebem. No palco está já António Variações que verifica as cortinas. Sai e entra novamente. Coloca-se junto ao microfone. Corpo ligeiramente de lado. Sussurra. Imperceptível o que diz, de olhos fechados. Compenetrado. Quando as luzes se apagam e um foco o ilumina, ouve-se Variações a rezar”Ave Maria”. Prepara-se e ensaia para o espectáculo com Amália, que ele venera. Este será um dos momentos mais importantes da sua vida. 

Um incompreendido, um ET que nasceu antes do tempo e numa terra onde não o entendiam. Um insatisfeito sempre em busca da perfeição. Um sofredor. O excêntrico que nasceu numa terra chamada Fiscal, uma aldeia perto de Braga. Uma terra de uma lonjura infinita até chegar à Feira Nova e depois a Campanhã e só no dia seguinte chegar a noitinha a Alcântara. Este menino que levou o Minho e a sua música para sempre dentro da cabeça. Este menino que nasceu diferente, a querer mais, que conseguiu fazer aquilo com que sempre sonhara. Aquele menino da província que não aceitou a sua sorte de ser marceneiro “e andar todo sujo, de ter uma vida normal, casar com uma mulher e ter filhos”. Este menino que tinha saudades de casa e queria gravar a voz da mãe no gravador.

Que interpretação magnífica do Sérgio Praia. Não conhecia o actor. Fiquei impressionada com as parecenças físicas entre ele e António Variações. A forma física incluída. Quando vi quem era o actor na realidade percebi a transformação. Que trabalho magnífico. Foi também esta magia da transfiguração que deu realismo à peça. Sérgio Praia interpreta excertos de algumas canções de Variações, à capela, no decorrer do espectáculo.

Um monólogo de pouco mais de uma hora em que se chora e e se ri. Uma interpretação magnífica que muitas vezes nos leva a pensar que Variações ressuscitou. Os gestos, a dança, a voz, o timbre, o sotaque. Todo ele é António. Um homem de estatura pequena, musculado que fazia exercício todos os dias, que não fumava nem bebia, que comia saudável e que era considerado por quem ele passava “o maluco”. Nunca teve vergonha da sua origem e nunca renegou a sua identidade. Este homem da província que chegou a Lisboa aos 12 anos para trabalhar como marçano a carregar os cabazes das compras das senhoras finas das Avenidas. Nunca se resignou e lutou sempre por mais, pelo sonho, por aquilo que um dia queria ou poderia ser. Percebe-se o amor visceral à sua terra, ao pai e à mãe. E a Amália.   Em Fiscal dizem que Amália foi uma das poucas pessoas públicas que nunca o abandonou, nem mesmo na morte.

Variações, por ser quem foi, apesar de ter tido uma carreira fugaz e muito curta, como a sua própria vida, ainda hoje é lembrado,  após 35 anos da sua morte. Quando o vemos no palco com aquelas roupas, aquela performance, aquele brinco e a barba descolorada,  percebemos que ainda hoje seria revolucionário. Os mitos morrem (sempre) cedo.





P.S. O que é inadmissível é António Variações ter nascido no distrito de Braga e a sua casa mais emblemática de espectáculos, Theatro Circo, não ter estreado esta peça ou a ter na sua programação...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Luana Carvalho

As pessoas que me conhecem bem sabem o quanto a música está ausente na minha vida e o quanto sou ignorante neste tema. Ouço cada vez menos, menos, menos música. E acho que há cada vez mais música desnecessária e que só polui o mundo. E com o passar dos anos, não me consigo concentrar na presença dela. Uso-a apenas para “mascarar” o barulho quando me incomoda, no ginásio (que vou com muita pouca frequência) e a andar de bicicleta (que era o meu meio de transporte em Houston). Para piorar os meus conhecimentos musicais, saio cada vez menos à noite e a pouca música nova que vou conhecendo limita-se à obra do acaso. Ou à grande transposição de resistência que às vezes concedo às músicas que os meus amigos me enviam.

A Luana foi uma das grandes surpresas do último ano. Conheci-a, e a sua voz, num fim de tarde lindo em Óbidos. Fiquei encantada. Falou bem, cantou bem e vim a saber que escreve (ainda) melhor. Acompanhada da poeta Alice Sant’Anna, do baterista e baixista da banda Tono. Foi daqueles encontros memoráveis e irrepetíveis que ficam apenas gravados na memória, em que tudo parece ser perfeito. Ali era apenas a Luana. Com as letras, as canções, a voz, a música, os óculos e o violão. Lembro-me, para sempre, que se falou de Machado de Assis, de baleias, de mar, de Moby Dick, da Mangueira...

Em Outubro foi convidada especial do Moreno Veloso no S. Luiz. Cantou “Deusa do amor” e “Invente-me” que serão para sempre a imagem dela, para mim. E no final do concerto foi-me apresentada pela Anabela Mota Ribeiro. Pessoalmente Luana é tal e qual como a cantora que se revelara no palco, como leitora de poesia dela e dos outros, como compositora, como instrumentista: gentil e delicada. Disse-me que os discos seriam lançados em Janeiro, e assim foi. Cumpriu-se.

“Sul” saiu saiu primeiro em todas as plataformas digitais. Ouvi do princípio ao fim, repetidamente, sem me cansar. Tem sido a minha companhia, como barulho (bom) de fundo. A capa, na primeira vez que a vi, lembrou-me “Moby Dick”. Não sei se era essa a intenção. E estão lá, tão perceptíveis a guitarra de Pedro Sá e o violoncelo de Moreno Veloso. “Invente-me” é de morrer de amores. E já sei o significado de “cabrocha”.

“Branco” é diferente. Parece-me um trabalho muito mais experimental e autoral, muito decantado. Um conjunto de sons e palavras cuidadas que não se parece com nada. Talvez daí o nome branco. Ou um zero (não absoluto). Algo no disco me fez (re)lembrar da sonoridade de “Cantada” de Calcanhotto. Sou só eu que achei?

Este trabalho duplo da Luana não é só música, nem canção, nem interpretação. É muito mais. Mais além. Para lá. Muitas expressões artísticas numa só. O muito que se transforma em pouco. A simplicidade tão difícil de conseguir, atingida. A beleza da arte como uma coisa só.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Mário Soares,1924-2017

(Escrito no dia em que morreu: 7/01/2017)


Nunca votei Soares. Quando andava na primária usei e abusei do "Soares é fixe e o resto que se lixe", mal sabia eu o que era política. Mas ninguém pode negar a importância dele na política portuguesa. Depois, sempre respeitou muito Sá Carneiro e reconciliou Amália com Portugal,conseguindo prestar-lhe a homenagem que ainda viu em vida. Um homem culto, moderno, visionário, leitor voraz.Um conhecedor e admirador de arte, admirava as coisas belas. Um defensor da ciência e dos cientistas. O político português mais conhecido no mundo. Errou Ao candidatar-se ao Parlamento Europeu e ao recandidatar-se a PR, contra a vontade até dos seus amigos e familiares. Numa época em que a política é inundada de gente sem qualidades, Soares é um exemplo. Fui a maior das críticas da Fundação Mário Soares, ainda em vida. Não é porque na morte toda a gente é boa mas porque é merecido. Abomino as destilações viscerais de muita gente com pouco o que fazer no anonimato das redes sociais.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

E para isto fomos feitos

Em jeito de balanço, como todos os finais e/ou inícios de ano. Para mim, pessoalmente, 2016 foi um ano (muito) bom. Com muita saúde, alegrias, conquistas, descobrimentos e a maior das alegrias na minha vida que custou muitas lágrimas e muitas tristezas nos últimos 4 anos. Mas felizmente, a razão ganhou e a justiça fez-se. Ninguém vai conseguir tirar-me esta alegria, este sentimento de plenitude e sorriso na cara. Duas mortes de pessoas muito próximas tocaram-me muito. E embora a morte seja para mim (ainda) incompreensível, é a única inevitabilidade na vida. No entanto, a forma como viveram e a sua dignidade perante a morte e a forma como a família se lhes dedicou foram uma lição de vida para mim.

Quanto a mortes mediáticas foi o annus horribilis actores: Alan Rickman,  Carrie Fischer, David Bowie, Prince, Leonard Cohen, George Michael, Ivo Pitanguy, Umberto Eco, Ferreira Gullar, Muhammad Ali, Fidel Castro, só para citar alguns.

Costa conseguiu o que ninguém acreditou. Nem os mais optimistas ousaram acreditar. E por mim, tem o meu aplauso. Esta capacidade de diálogo e conseguir consensos entre partidos fora do arco da governação é um feito. Costa, se não conseguir mais nada, ficará na história por isto. Quanto a números, economias e finanças, não percebo nada. Mas tenho muitas dúvidas que o país se tivesse tornado, de repente, num caso de sucesso, dando tudo a todos.

No entanto, acho que o tempo de Passos Coelho terminou. Passos Coelho foi a pessoa errada na hora errada. Ganhou as eleições mas não foi Primeiro-Ministro por muito tempo. Esta nova táctica de jogar está a ser pela primeira vez testada na nossa democracia. Como ganhou mas o parlamento nomeou outro Primeiro-Ministro, mesmo sem culpa alguma, Passos deveria ter feito o que Portas fez: dar o lugar a outro. Teria uma saída pelo seu pé e (pelo menos) aplaudido pelos seus. Mas não, à boa maneira dos teimosos, preferiu acreditar que os ventos soprariam a seu favor e que a história não demoraria muito a dar-lhe razão. Puro engano. Os ventos não sopraram a seu favor, o Presidente Rebelo de Sousa tornou-se (se não) um aliado não se tornou um obstáculo para o governo, o défice parece ter-se cumprido, os feriados voltaram, as pensões aumentaram, os ordenados descongelaram. Tudo para todos. E a hora de Passos sair pela Porta pequena e empurrado não tardará a chegar. Esta é uma lição para quem acha que existe justiça na política. A política, tal como a vida, não é feita de justiça mas de jogadores mais aptos.

Frederico Lourenço ganhou o Prémio Pessoa. Admiro-o principalmente pela suas crónicas. Os homens em maioria , sempre. Mas esta premiação tem um valor especial. É um homem especial, bonito, professor (na mais Clássica e antiga das nossas Universidades, Coimbra), homossexual assumido e casado. Numa altura em que ainda existe gente a ser morta pela sua orientação sexual, exemplos destes contam. E fazem a diferença. O casamento entre todas as pessoas é legal. A co-adopção é legal. As crianças já podem ter dois pais, ou duas mães, ou um pai e uma mãe. A adopção é legal para toda a gente, independentemente do género e estado civil. Há, pois, que mostrá-los, falá-los, generalizá-los. Existe, é comum, é normal.

2017. Olhar em frente. De cabeça erguida. Sem arrependimentos. Sem olhar para trás. Sem palavras que ficam por dizer. Optimismo. Sempre um copo meio cheio. Tudo é um recomeço e não um fim. Sem mágoas e sem rancores. Alegria agora. Agora e amanhã. E depois e depois de amanhã. À espera do melhor que ainda está por vir! (Re)inventar(-me)! Paz no mundo!


“Para isso fomos feitos
Para lembrar e sermos lembrados
Para chorar e fazer chorar (...)”

Vinícius de Moraes

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Dan's Finger Food and Drinks

10.12.2016

Foi a nossa segunda vez. Noite de sábado. Fria, como todas, no inverno do Minho. Mas, felizmente, sem chuva. Não existem reservas. Quando chegamos por volta das 8 a fila de espera era considerável. E o nosso desafio era grande: 10 pessoas (3 crianças, 6 adultos e uma bebé no carrinho). Esperamos aproximadamente uma hora.

A primeira vez que experimentamos foi há mais de 6 meses e ficamos com óptima impressão e com vontade de voltar. Fomos menos mas também levamos uma criança. Pode dizer-se que é um restaurante completamente kids friendly. Existe um menu especificamente para crianças. E os nuggets ( que não são mais do pequenos panadinhos muito bem feitos). Da primeira vez bebemos sangria de frutos vermelhos. A cerveja que existia era de uma marca espanhola da qual não me recordo o nome.

Desta vez, a lista de cervejas era muito maior e incluía as artesanais, nas quais recaiu a nossa escolha. Pedimos 3 tipos diferentes e duas delas em tamanhos familiares e que foram trazidas numa taça de gelo. Pedimos várias entradas. Levamos um bolo de aniversário e foi-nos trazido pratos e talheres (o que muitas vezes não acontece em muitos restaurantes). Apesar de Guimarães ser uma cidade reconhecida pela sua tradicional comida minhota, este Dan’s merece uma visita. De vez em quando os adultos anseiam por um hamburguer de qualidade e uma boas batatas fritas e os miúdos adoram. Pedimos várias doses de de entradas de nuggets e camarão enrolado em bacon. Os adultos escolheram entre os 13 hamburgueres disponíveis e as crianças os respectivos menus mais pequenos.


O melhor: A luz e a iluminação. A meia-luz. E o ambiente a fazer lembrar um típico bar americano. Um dos funcionários que tem um humor que merece ser falado. Dois dos molhos que acompanham o hamburguer: caril e maionese com alho . As batatas fritas

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Não me deixes só, Jesus

Foi esta a sua primeira prece. Dois dias antes do Natal. Já havia passado a maior das provações há 13 anos. Pensou que morreria. Mas sobreviveu. E agradeceu sempre, por isso. Treze anos depois, a tragédia volta a bater à porta. Este número santo. Só que desta vez, pior. Como as espadas do coração de Nossa Senhora das Dores. Sem nenhum analgésico químico que o pudesse acalmar. Vivia a maior das alegrias. O maior dos descobrimentos. Voltara a acreditar no (verdadeiro) amor. Encontrou o amor. Soube o seu verdadeiro significado. O que era realmente. Soube que existia. Sentiu-se abençoado.

Tinha uns olhos cheios de vida. Reflectiam a alegria e sede de viver no alto dos seus tão jovens e tão poucos anos. A juventude no seu esplendor. Curta, muito curta, como a vida. Subtil. Delicado. O maior encontro de bons adjectivos reunidos numa pessoa só. Tão raro. Quase impossível. Mas o improvável aconteceu.

Há um mês dançara, como se não houvesse amanhã entre o seu amor e amigos, na festa "Dança com ela". A dançar junto. Muito. Solto. Lindo. Muito contente. Com toda a gente. Alegria. Muita alegria. Para dar e vender. Alegria agora e amanhã e depois e depois de amanhã. Como uma espécie de celebração. É disso que muitos se lembram e lembrarão. Aquele rapazinho de 20 anos com uma vida cheia de sonhos pela frente. Como se espera  de uma vida com uma idade que não se espera ter um fim.

Um episódio agudo de asma. Tudo parou. Abruptamente. A vida por um fio. Na corda bamba. Primeiro o sufoco, como um peixe fora de água. A agonia. O desespero. Os braços a debaterem-se. A tentar agarrar qualquer coisa (palpável). Ar. A dor. A perda. O silêncio. A falta de movimento. E por fim, o grito aterrorizador de quem assistia sem nada poder fazer. A inércia. A  impossibilidade. As lágrimas. Quem habilitado estava, tudo fez. Rápido. Certeiro. Sem erros. Mas a natureza é assim. A vida é assim. (Im)perfeita. E as dúvidas são sempre maiores que as certezas.E a maioria das perguntas  (nunca) tem resposta. Mesmo quando tudo é feito, pode não ser o suficiente. E foi o que aconteceu. Paragem respiratória. Seguida de paragem cardiorespiratória. Reanimação. Demasiado tempo de manobras. O corpo (demasiado) jovem foi velado horas a fio como se as preces, o tempo, a energia positiva pudessem modificar o tempo e a natureza. O desfecho definitivo. O ponto final. Uma morte trágica à (boa) maneira grega. Num palco cercado de expectadores e luzes, perante a inércia da medicina, da ciência e da humanidade. Nada foi suficiente. Afinal, não somos nós que decidimos (nada). Nada mandamos. Assistimos inertes a um acontecimento inesperado com uma solução irreversível. O que falhou? O que se poderia (mais) ter feito? Para onde vão as palavras que não são ditas? O maior dos mistérios.

Acabara de descobriu o amor. Soube que essa verdade que apregoam, existe. Levou-lhe o coração. Não deixou (quase) nada. A não ser memórias. Tantas. Tão boas. Duvidaram deste amor sem idade. Uma diferença de mais de 20 anos. Adeus. Esta palavra tão definitiva.Tem o coração despedaçado. Sem conforto. Tem a dor como companhia. Encontra-se prostrado. Sente-se sem forças. Ouvem-no chorar. Mas sente-se abençoado, apesar de tudo. Tocado por um anjo. A juventude é (quase) incompatível com a morte. Todas as mortes são injustas quando amamos. Mas, tem o consolo ténue que a vida do seu amor fará "renascer" muitas outras. Por isso, a sua morte nunca será em vão.

Mas, o que aprenderá com esta dor dilacerante? O que se aprende com a tragédia?

Tentará (re)inventar-se. Com o tempo. Só o tempo.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Os meus amigos dizem que acredito muito

Acredito cegamente. Confio sem provas. Acredito sem ver. Confio nas pessoas. Nas suas bondades e nas suas verdades. Acredito em promessas. Acredito na justiça mesmo que ela teime em tardar. Foi um dia difícil. Não mudo uma palavra em relação a ontem. Não questiono quando acredito. Acredito e isso basta-me. Acredito na humanidade. Acredito na palavra. Acredito, pronto. Acredito, ponto. Até que se é apanhada de surpresa e o castelo desmorona como um castelo de cartas de baralho. Ou de dominó. Peça por peça. Até à última. Apanho-as uma a uma e recontruo. Uma a uma.  Até ficar de pé, outra vez. Não mata mas magoa. Sobrevive-se. Não se fica igual. Mas aprende-se. Tempo. E volta-se a acreditar como um (re)começo. Nada é um fim. Tudo é uma oportunidade. Ganha-se coragem. Arrisca-se. Um tiro no escuro. Dúvidas. Lágrimas. Incertezas. Futuros. Cenários. Conjunções. Riscos. Opiniões. Impulsos. Forças. Confrontos. Conforto. Mudanças. Talentos. Justiças. Sinais. Dons. (Re)começar. De novo, de novo, de novo, de novo. Até ao fim. Apenas final. Quando a morte chegar. Nunca é tarde para mudar. Nunca é tarde para (re)começar.

Sou uma crente por definição. Sem razão.

No dia que deixar de acreditar prefiro morrer.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O triunfo das mulheres

Sou suspeita para falar de Madonna. Acho que é o verdadeiro icon pop. Transgressora. Revolucionária. Autora de uma grande música chamada Music que tem apenas um acorde (o máximo da simplicidade na linguagem musical). Autora de várias músicas que são verdadeiros hinos. E autora de músicas, que de alguma forma, toda a gente conhece. E é, nas suas próprias palavras “uma má feminista”. Madonna está a dois anos de fazer 60 e acaba de ganhar, esta semana, o prémio de “Mulher do ano”. Destaco o seu discurso de aceitação e agradecimento. Um discurso emocionante, verdadeiro, íntimo, revelador, sincero, cru e doloroso.

Com o seu conhecido humor começou o seu discurso centrado, principalmente, no facto de ser mulher. Começou por referir que hoje, com as novas tecnologias, as pessoas não precisam de ter coragem de insultá-la “cara-a-cara”. Falou da sua experiência de se mudar para NY, ainda adolescente, em 1979, ano em que eu nasci. Ao contrário de hoje, NY era uma cidade assustadora. No primeiro ano, apontaram-lhe uma arma, foi violada num terraço com uma faca na garganta e o apartamento foi tantas vezes assaltado que deixou de fechar a porta. Nos anos que se seguiram, perdeu quase todos os amigos com SIDA, drogas, ou tiros. Estes acontecimentos avassaladores, não só a tornaram na mulher que é hoje, mas também lhe relembra o quanto é vulnerável. Afirmou, claramente, que não é dona dos seus talentos, que não é dona de nada. Tudo o que tem é um presente de Deus. Para os crentes, esta é a maior das humildades. Depois falou especificamente na questão de género, no facto de ser mulher. Quando começou a escrever não pensava nisso. Mas depois começou a sentir como isso era importante. Se se é mulher é permitido ser-se bonita, gira, sexy. Mas não se pode ser muito inteligente. Não é permitido que se tenha uma opinião diferente do status quo. Não é permitido envelhecer. Envelhecer é um pecado. Falou de quando o álbum Erotica e o livro Sex foram lançados. E o que escreveram sobre ela. Uma das manchetes comparou-a ao Diabo. E nessa mesma época, o Prince andava de saltos altos, baton e mostrava o rabo... mas era homem. Falou de como se conseguiu recompor de todas as críticas e de todos os insultos, encontrando força na poesia de Maya Angelou, na escrita de James Baldwin e na música de Nina Simone. Deu como exemplo a Camille Paglia uma escritora feminista, que em vez de a apoiar a criticou. E terminou a dizer o mais importante: que as mulheres devem apoiar-se mutuamente.

E nesta semana, este discurso é especialmente importante, porque coincide com a atribuição de um pretigiadíssimo prémio a duas colegas do meu laboratório em Portugal. O que é de destacar é que não foi apenas um prémio mas dois prémios atribuídos a duas mulheres do mesmo grupo de investigação, e consequentemente, da mesma universidade. Estes prémios foram especificamente duas bolsas ERC Consolidator Grants de quase 2 milhões de euros para cada uma e é  um dos maiores reconhecimentos científicos a nível monetário e de mérito. Duas mulheres. Esta é a parte importante. Não sou amiga nem íntima de nenhuma delas. Somos mais de 100 pessoas no mesmo edifício. Uma delas conheço-a desde o dia que entrei no lab, há mais de 13 anos. Como mulheres que são, com toda a certeza, já as acusaram de tudo. E o facto de não ter nenhuma ligação a não ser profissional, faz este comentário ser (ainda) mais legítimo e verdadeiro. Tiveram e têm um director que é sábio, visionário, que acreditou nelas e que apostou nelas. Sem isso não seria possível. E não só nelas mas noutras tantas que compõem o seu grupo. É um director que aposta em mulheres e que acredita, sobretudo, nelas. Os números do seu grupo não enganam. Quem sabe esse seja talvez a razão do sucesso deste laboratório? Tal como no discurso da Madonna, nós mulheres, deveríamos sempre ficar contentes com o sucesso de outras mulheres e saber reconhecer-lhes isso. Não porque são mulheres mas pelo difícil que é conquistar o sucesso em igualdade de competição com os homens.

Não podemos esquecer-nos que em quase 30 anos de Prémio Pessoa somente 5 mulheres, num universo de 29 premiados foram mulheres: Maria João Pires, Menez, Irene Flunser Pimentel, Maria do Carmo Fonseca e Maria Manuel Mota.

No entanto, os  números  são animadores e mostram-nos que as mulheres são as que entram em maior número nas universidades, as que têm melhores notas e as que concluem os cursos com sucesso. Mostram-nos um presente brilhante e um futuro muito promissor.

Na política, uma vergonha. Um parlamento que tem que ter cotas para que haja um número mínimo de mulheres. O antigo governo com 14 ministros, apenas 4 eram mulheres: Maria Luís Albuquerque, Anabela Rodrigues, Paula Teixeira da Cruz e Assunção Cristas No actual governo o cenário piora, num universo de 17 ministros, 4 são mulheres: Maria Manuel Leitão Marques, Constança Urbano de Sousa, Francisca Van Dunem e Ana Paula Vitorino. No entanto, a Fundação Champalimaud tem como presidente uma mulher, Leonor Beleza e a Fundação Calouste Gulbenkian terá como próxima presidente Isabel Mota. Nem tudo é mau, portanto. Temos, também, na ciência e na academia grandes mulheres que lideram instituições como Maria do Carmo Fonseca e Maria Manuel Mota. Como diria Madonna, o importante é não desistir continuar a persistir. Um dia, as coisas mudarão.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Deus-dará de Alexandra Lucas Coelho

Este livro é uma exaltação sobre uma cidade. São Sebastião do Rio de Janeiro. A “melhor cidade da Via Láctea”. Sete dias nesta cidade, na semana do carnaval. Este livro faz-nos ter muita vontade de a conhecer. Essa cidade tão tudo: exagerada, diferente, insegura, tão cheia de contrastes, cheiros e cores. Uma cidade que exalta a força da natureza e a forma inatingível dessa beleza que não foi feita pelo Homem. Como os livros de Jorge Amado que nos mostraram a Baía, este mostra-nos o Rio real. Nu e cru. Como diz a personagem portuguesa, Inês: “Incrível, é como chegar a Nova Iorque (...) Nunca aqui estive, mas estive. Porque a gente cresce com isto, estas imagens”.

O livro tem exactamente 551 páginas e é viciante. Não sei como o classificar. Já que as pessoas gostam tanto de dar um nome às coisas: é ficção, mas também é memória e ensaio e deve ter muito de autobiográfico. O que sei (bem) é o trabalho de pesquisa contido nele. É um cruzamento de histórias dos sete personagens principais no presente (não necessariamente por ordem cronológica  nem no mesmo espaço temporal) com o passado da descoberta do Novo Mundo, com a independência e respectiva abolição da escravatura, com o Brasil presente, com a escravatura mascarada.

Gabriel Rocha “pirata crioulo”, tem uma pala no olho esquerdo. “O olho se foi num estilhaço, briga de facções carioca”s. É o mais cortejado sociólogo do IFCS, bastião da Universidade pública. Tem um filho adolescente de 14 anos, viciado em laptop, celular e playstation.

Judite Souza Farah, 1,80 m, um arraso, irmã de Karim e Zaca, faz parte da elite carioca Não conduz. Está prestes a ser sócia do maior escritório de advogados do Rio de Janeiro. Ficou com Gabriel que a deixou em poucos dias. Casar-se-á com o rico Rosso de quem ficará viúva. Largará a advocacia.

Zaca, irmão de Judite. Fez a biografia do maior sambista brasileiro e ficou famoso aos trinta. Descobre-se homossexual.

Lucas 90 kg, 1.97 m. Nasceu em 91,índio arraçado de negro e de branco. Entrou em História na UERJ. Orfão e mudo. Ficou assim depois do trauma de encontrar a mãe pendurada numa árvore e depois de quase ter sido sufocado pelo assassino dela. Trabalha num elevador enjaulado por horas como o da estação 168 em NY  (Columbia Medical Center). Volta a falar graças ao amor de Noé e depois da experiência psicadélica com ayahuasca.

Noé “carapinha black power”, universitária bolsista da favela, finalista de Ciência Política na PUC. Engravida de Lucas.

Tristão nascido em 83. Português, antropólogo e católico. O seu nome vem do navegador Tristão da Cunha. Está nos antípodas do carioca: sem músculo e a perder cabelo antes dos 30.

Inês, portuguesa, sozinha na vida, franja curta, sobrancelhas separadas, boca bem vermelha, pele bem branca. Fuma. Veio de Beirute onde foi deixada pela namorada Yasmine. Tem a cabeça no Líbano. Yasmine saiu de Beirute e foi para a Tasmânia onde abriu uma pousada.

Li o livro em pouquíssimo tempo, apenas 5 dias (antes de dormir). Este texto demorou-me bem mais. Só sei que sou mais rápida a ler do que a escrever. A palavra que me ocorre é epopeia. Talvez um romance épico recheado pela “crueza” da verdade. A verdade é uma coisa difícil de se falar e difícil de se ouvir. Há factos, que talvez soubéssemos, mas que nos foram escondidos ou diminuídos, e quando sabemos deles neste livro temos um grito de revolta. Talvez a interiorização da verdade contida neste livro me choque tanto. Ocorre lembrar-me dos livros de António Lobo Antunes e da guerra colonial tão pouco explorada na nossa literatura. Os africanos que combatemos em África, das barbaridades que lá cometemos e que a culpa, por mais que até a queiramos assumir, não consigo dizer quem tem. Não sei a quem apontar o dedo. É de quem está ao longe a mandar? Quem dava a ordem? Quem tão jovem e ingénuo, tirado do país sem querer, e lá longe num país distante, sob o efeito daquela adrenalina do momento desata a matar, pela catarse de sentir-se muito grande no meio da multidão? Aquilo que António Lobo Antunes exalta sempre da coragem dos homens com quem esteve em África, que são os que menos culpa têm e que tão marcados ficaram.

O narrador, que é um brasileiro, é a voz de Alexandra Lucas Coelho. É um narrador que olha de fora, exterior a cada personagem. Não sei o que os brasileiros acharão mas eu acho que o narrador é bem brasileiro. Alexandra, parece conhecer o Rio como os cariocas que são “bonitos, bacanas, sacanas, dourados, espertos e que não gostam de sinal fechado, nem de dias nublados”. E só alguém com muito mundo, com muita experiência do Brasil, uma quase carioca (que não nasceu no Rio) podia ter escrito um livro destes sem “apanhar dos dois lados”. O lado do colonizador e o lado do colonizado, se é que existe um lado, se é que as coisas se dividem (tão simplesmente) em preto e branco. O lado da culpa ou a total ausência dela. E o melhor de tudo: o que aprendemos com este livro. Uma verdadeira lição histórica. E as referências bibliográficas. Obriga-nos, pelo menos, a pensar. E depois, uma lição literária e musical: Nelson Rodrigues (esse grande cronista que eu já li há algum tempo porque comprei alguns dos seus livros e biografia em São Paulo), Machado de Assis esse mulato órfão de mãe desde criança, que era disléxico, epiléptico, doente dos olhos, casado com uma portuguesa, fundador da ABL e não tinha filhos), Carlos Drummond de Andrade, Caetano...

Este romance mistura muito bem o presente com o passado. Para além de ficção inclui factos históricos. Aprende-se muito com este livro. Os portugueses, que poderiam nem pensar nisso, ou sentirem-se redimidos com o passado histórico, da descrição d’Os Lusíadas’ de Camões que exalta a epopeia portuguesa pelos mares. Um nobre povo, quase à semelhança do povo judeu, o escolhido, põe a descoberto o lado negro do “achamento” do Brasil. Coloca o dedo na ferida e coloca sal em vez de bálsamo. Esta visão fria e crua do nosso passado colonial, de um país colonizador à força, é muito pouco comum quando é uma portuguesa a fazê-lo. Alexandra, é por isso, uma das poucas.  Faz-nos (re)lembrar os índios que nós matámos e os milhões de africanos que tirámos de África e que escravizámos e que estão apagados da maioria dos manuais escolares.  Nós que exaltamos os nossos descobridores e navegadores mundo desconhecido adentro, aprendemos (apenas) que a História de Portugal é só triunfo, ousadia e audácia. E este livro traz, relatos verdadeiros. Eu que sou cientista, que leio muitos ensaios, romances e biografias mas que não leio muito sobre história, fiquei chocada com o que li do Vasco da Gama que está ao lado de Camões nos Jerónimos. Nós que aprendemos desde sempre que a nossa colonização tinha sido a melhor, que nos misturamos, que criamos a miscigenação, que criamos uma nova raça, os mulatos, não foi isso. Pouco nos questionamos que essa mistura foi com toda a certeza feita à força assim como os militares da Guerra Colonial no Ultramar abusavam e violavam nativas (obviamente) sem o seu consentimento. Isso são os factos que ninguém quer falar. Aquilo que ficou morto e enterrado e que ninguém quer trazer à luz do presente com a desculpa que ninguém tem culpa dos erros dos nossos antepassados.

Este romance mostra que há sempre novas possibilidades de se olhar o mundo. As múltiplas possibilidades. O que me surpreende é a base teórica, bibliográfica e factual deste livro. Não se trata de um romance que se limita à voz da imaginação mas aos factos históricos negros e crus. Faz-nos pensar (tanto). Quem sabe redimir dos nossos pecados, tão judaico-cristãos?

Para quem como eu, não conhece o Rio e apenas o imagina, fica ainda com mais vontade. Parece uma cidade imprevisível, caótica, inesperada onde a alegria está (sempre) à espera de acontecer.

E este romance que insinua um apocalipse, e uma das personagens diz “que nunca acontecerá aqui”, mesmo quando tudo parece perdido, quando se elege um Prefeito evangélico que acredita no criacionismo, achamos que tudo está (mesmo) perdido e que não terá solução. Mas é o contrário, esta cidade (Rio) e este país (Brasil), são sobreviventes, reaprendem e renascem sempre reinventando-se. E agora, que escrevo numa altura em que a eleição Trump parece ser o apocalipse temos a esperança que ao contrário da música que diz “anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar”, o mundo não acabe (de vez).


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Infelizmente, não estivemos prontos para Hillary

Não nos esqueçamos nunca que Hillary Clinton teve a maioria dos votos populares. Richard Zimler, que eu muito aprecio e que é um cidadão americano e um profundo conhecedor da realidade americana, dizia-se com “uma sensação física de dor”.

Ao ouvir, ver e ler os dois discursos de Tim kaine e Hillary Clinton chorei ontem pela segunda vez. Talvez pela sensação profunda de uma grande oportunidade perdida. Há muito que sou uma ferverosa apoiante de Hillary. Li muito, talvez (quase) tudo sobre ela, o bom o mau, o feio e o bonito. As biografias autorizadas, as não autorizadas as autobiografias. E foi, talvez depois disso, que a minha convicção se consolidou. Hillary Clinton é uma pessoa inteligente, bem preparada, grande política, foi uma competente advogada, Primeira-Dama do Arkansas e dos EUA, Secretária de Estado, Senadora de NY e que podia ter sido a próxima Presidente dos Estados Unidos da América.

Uma das minhas amigas dizia-me que o discurso da “derrota” tinha sido tão bom e muito melhor do que todos os que tinha feito durante a campanha. Outro dos meus amigos dizia-me que eu escusava de a endeusar porque Hillary não era tudo isso. O que eu refiro em cima não são louvores, são factos! Ela foi e é isso tudo. Custa acreditar, eu sei.

Quem não  gosta ou não simpatiza (como diz o meu pai quando não gosta mas quer usar um eufemismo) não aprecia Hillary Clinton diz para desclassificar e terminar a discussão que ela é uma burocrata, betinha, nerd, sem um pingo de carisma, que aceitou as infidelidades do marido e que tem telhados de vidro (ou aparenta ter). Outras opiniões ainda piores consideram-na uma imperialista, criminosa, oportunista e cínica .Há também quem diga que Trump e Clinton representam os mesmos interesses políticos e económicos, estando ao serviço de uma elite gananciosa e acumuladora que quer a cada dia mais poder. Para esses, não demorará muito a perceberem o quão errados estavam. Oiçam e leiam o discurso de Hillary Clinton e imaginem o quão bom poderia ter sido tê-la como próxima Presidente.

Tim Kaine fez um discurso improvisado, sincero, emocional e lindo. terminou com uma frase do William Faulkner: “"They killed us, but they ain't whopped us yet." Quem cita um escritor num final de um discurso de derrota só pode ser um intelectual e alguém que tem muito para dar.

Hillary fez um discurso carregado de emoções, grato mas ao mesmo tempo triste. Que pena não ver esta mulher e esta equipa de gente na Presidência dos Estados Unidos. Começou por dizer, de forma honesta, que este não era o resultado que esperava e que tinha muita pena de não ter vencido principalmente por causa dos valores que partilhava com os seus eleitores e pela visão que tinha para o país.  Que sabia o quanto estávamos desapontados porque ela sentia o mesmo. E que 10 milhões de americanos investiram as suas esperanças e sonhos nestas eleições: “Isto é doloroso e se-lo-á por muito tempo”. Fez um apelo, dirigido especialmente aos jovens, ressaltando que durante a sua vida adulta tinha tido sucessos mas também contratempos, alguns deles muito dolorosos e que isso faz parte da vida, que estas perdas magoam muito. Terminou com palavras de esperança e de força para que os americanos não abandonassem aquilo em que acreditam.

Não sei se o violeta foi propositado. Hillary apareceu com um fato com apontamentos roxos e Bill com uma gravata da mesma cor. Era assim que eu me sentia, de luto.

Depois de uma directa a acompanhar minuto a minuto os resultados das eleições americanas passei um dia mau. Triste, inconformada, chocada, descrente. Como se fosse um sonho mau. Sem acreditar na realidade. Mas foi o que foi. Como disse Hillary: “vai doer por muito tempo”. Resta-nos conformar. E o que seria, nunca o saberemos.


quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O dia em que o mundo mudou

Estava com medo.  Havia um infinitésimo receio. Mas nunca, nos meus piores pesadelos, imaginei que Trump ganhasse. Não achava essa hipótese possível. Arrogância. Excesso de confiança. Chamem-lhe o que quiserem. Mas o povo americano quis pagar para ver. Mantive quase toda a noite a esperança numa vitória de Hillary Clinton, ou quis acreditar. Tudo por puro medo do detestável, arrogante, malcriado, imprevisível e perigoso Donald Trump. Mas a realidade não quis nada comigo, e pouco passava das 4, já a desgraça se anunciava. Apenas os estados ditos “letrados” da costa leste e oeste, onde a América é uma excepção, ex. como Califórnia, NY, Washington D.C. ou Massachussets, foram ganhos. E perdeu inexplicavelmente na Florida, na Carolina do Norte, na Pensilvânia e em estados há muito democratas como Michigan ou Wisconsin.

O dia da queda do muro de Berlim. O dia escrito igual ao que os americanos usam para o 11 de Setembro (9/11, o mês seguido do dia) igual ao que usamos em Portugal (9/11, o dia seguido do mês).

Hoje, para quem não conhece a realidade americana, ficou a conhecer-se a verdadeira América. Os EUA não são NYC nem Boston. A América na sua maioria é conservadora, racista, que até à metade do século passado distinguia as pessoas com base na sua cor de pele. O país que não permitia a Rosa Parks sentar-se no autocarro. O país do Ku Klux Klan. O país que permitiu a imortalização das células HeLa retiradas, sem autorização, sem consentimento prévio, as células de uma neoplasia cervical de uma mulher negra chamada Henrietta Lacks.

Muitos dizem que a América se revoltou. Que foi um voto de protesto. Que não foi Trump que ganhou mas Hillary que perdeu. Mas eu acho que é muito pior do que isso. O resultado destas eleições são o fruto de gente desinteressada que acha que a política tem uma varinha mágica que lhes resolva a vida. Trump disse coisas tão absurdas como: “vamos acabar com a guerra na Síria”, “Vamos irradicar o ISIS”, “Vamos expulsar os imigrantes”,  “não vamos permitir a entrada de muçulmanos”, “vamos construir um muro na fronteira com o México”, “Vamos tornar a América grande outra vez”.... E estes eleitores acreditaram que ele é o salvador. E quem são estas pessoas que votaram Trump? Não me venham dizer que são apenas red necks, a classe média caucasiana, o comum trabalhador que se sente ameaçado pelos imigrantes ilegais que ganham menos e trabalham mais.  O voto branco pobre. O voto menos letrado. Não é só. São também os pobres de espírito. Os frutos do séc XXI que vivem nas redes sociais e só lêem frases feitas com 150 caracteres e ouvem (apenas) sound bytes. Os filhos de uma segunda geração de imigrantes que vive (bem) melhor que os pais, que se esqueceu e finge que não sabe como os pais viveram enquanto foram ilegais. Que dizem que são americanos e não imigrantes. Que são filhos de imigrantes, não imigrantes. E o que mais me envergonhou hoje foi ver na plateia do Trump muitas mulheres, negros e hispânicos a exibirem a sua alegria. Aqueles por quem Trump destila o seu ódio de estimação.

Foi a vitória do populismo, do racismo, da misoginia, da xenofobia, da homofobia, da estupidez, da ignorância, do deboche e da piada. A capacidade de se dizer aquilo que as pessoas querem ouvir. Nada motiva tanto as pessoas como o ódio, o medo e o desespero. Outra da lição que poderemos retirar é que a ignorância, a inconsequência e a falta de instrução têm efeitos devastadores para um país. O partido Republicano manteve a maioria no Senado e no Congresso.

E isto é o pronúncio do que (ainda) está para vir. Provavelmente daqui a uns tempos teremos a Marine Le Pen no poder em França e isto é só espalhar e começar a cair como um desmantelar de um baralho de castelo de cartas.

Até há pouco ria da Venezuela e da ascenção democrática de Chavez e do seu fato de treino à la Republica Boliveriana. Ficava perplexa pela hegemonia dos bispos da  IURD e seitas evangélicas no Brasil. E o poder de ditadores como Putin ou Erdogan. Não dá para rir mais. "It's not funny anymore".

Outra coisa que me irrita profundamente é dizerem que a Hillary era fraca e que a derrota se deve a ela. Que o Bernie Sanders é que devia ter sido escolhido. O Bernie Sanders, o revolucionário lá do sítio? Um homem, cuja competência não duvido, mas cujas ideias são ultra revolucionárias para a América conservadora. E não, a Hillary não é fraca. É talvez das mulheres mais bem preparadas da sua geração para Presidente dos EUA. A América perdeu, perdemos todos, por consequência. Que pena a América desperdiçar Hillary assim. O tempo, com toda a certeza, vai mostrar tudo.

Os votos valem o mesmo. São todos iguais. Tal como no nascimento e na morte.“Democracy is a bitch”. Os grandes ditadores foram eleitos democraticamente. Olhemos para trás. O mundo, tal como o conhecemos, acabou hoje. Só espero que não termine como a canção “Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar...”.


Copyrignt: The New York Times



terça-feira, 8 de novembro de 2016

Go, go Hillary

Eu acompanhei e estive na campanha para as eleições  americanas em 2008 que elegeram Barack Obama como o primeiro presidente afroamericano (afrodescendente, preto, negro, como lhe queiram chamar). Vi o concerto com a G. que Bruce Springsteen fez de surpresa em Philly de apoio a Obama. Fez há pouco exactamente 8 anos. Nesse ano os democratas escolheram Obama em vez de Hillary por uma unha negra. 

Adriana Calcanhotto, que é nora de Vinícius de Moraes, conta a história que Obama descreve na sua autobiografia sobre quando a sua mãe viu o filme “Orfeu” de Marcel Camus baseado no Orfeu da Conceição de Vinícius. Nos anos 50, a mãe de Obama, uma caucasiana da classe média americana percebeu as possibilidades daquele filme. E, também influenciada pelo filme, ela, uma mulher branca, apaixonou-se por um homem negro do Quénia (muito parecidos com o actor que vive o protagonista no filme). E desse amor improvável, na América conservadora e racista dos anos 50, em que os negros não tinham os mesmos direitos que os brancos, nasceu aquele que viria a ser o primeiro presidente americano mulato da História.

Eu desde sempre sou uma apoiante de Hillary. Li todas as biografias dela. Sei a força daquela mulher. A vida académica dela desde o famoso Wellesley College até Yale. Foi uma bem sucedida jurista em Washington na comissão do impeachment do Nixon. Soube o sabor da derrota quando reprovou no exame à ordem para exercer advocacia em NY. Mudou-se para o cu de Judas do Arkansas, a América profunda para ser o suporte do marido como governador desse estado. Foi uma das mais bem sucedidas advogadas da sua geração. Todas as biografias são unânimes em considerá-la uma grande profissional e todas destacam que era muito mais bem sucedida economicamente do que o marido. O resto, já toda a gente sabe. Tornou-se Primeira-Dama. Passou o inferno que se conhece pelo marido. Foi secretária de Estado de Obama e ultimamente Senadora pelo estado de NY. 

Podia escrever imenso sobre o que me leva a apoiá-la. Mas neste momento, estou mesmo preocupada e apreensiva sobre a possibilidade de Trump ganhar. Ainda não estou refeita da surpresa do BREXIT. E a possibilidade de Trump ganhar inquieta-me. Manter os Estados Unidos como a terra de todas as possibilidades, da liberdade é crucial para a paz no mundo. Uma mulher presidente que não descrimine nenhuma raça, a comunidade LGBT e especialmente as mulheres, como ela. Uma mulher que não quer nem apoia a construção de um muro. Uma mulher que não é uma palhaça nem diz barbaridades do nível do seu opositor. Só não percebo como Donald Trump chegou até aqui. Essa sim, deveria ser a maior das reflexões a partir de amanhã.

Tenho um autocolante no meu computador  “I’m ready for Hillary” que me deram no Pride de NY. E outro que me deram umas meninas que vendiam laranjada à porta do meu prédio de NY em apoio a Hillary.

Daqui a uma horas só quero ler: “Hillary won. Hillary is the next President of United States”.




segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O ego(centrismo)

Ego em demasia deve ser dos piores defeitos que se pode ter. Tal como, paciência, é uma das melhores virtudes que se deve ter. Os egocêntricos não sabem que o são, na sua maioria. E tendem a achar que até são modestos. Mas, o auto-elogio fica mal. É feio. É saloio. Há coisa (muito) melhor do que ser elogiado pelos outros? Os egocêntricos são muito vaidosos, superiormente vaidosos. No fundo, são uns deslumbrados. Nunca pedem desculpa porque nunca erram. Ou se erram, não admitem. São incapazes de admitir erros, a coisa mais humana de todas. Pessoas que se acham. Homens que até são bonitos mas na sua crença acham-se a última coca-cola do deserto. Pessoas que são banais mas acham-se Deus. Pessoas medianas mas que acham que são o Einstein. Pessoas que até lêem mas... Pedro Chagas Freitas e Margarida Rebelo Pinto. Pessoas que acham que a literatura brasileira é Paulo Coelho. Pessoas que não conhecem Clarice Lispector, nem Annie Leibovitz. Pessoas que se acham mas não sabem quem foi João XXI nem que António Gedeão era um pseudónimo. Que não sabem que Torga era médico nem que José Afonso morreu de esclerose lateral amiotrófica. Cientistas que não sabem as razões pelas quais Marie Curie recebeu os prémios Nobel de Química e Física. Nem que a angiografia não foi o motivo de Egas Moniz ser galardoado com o Nobel de Medicina. Como dizia Abel Salazar: “um médico que só sabe de Medicina nem de Medicina sabe”. Cientistas que nunca leram a biografia de Henrietta Lacks, nem a origem do nome HeLa, com as quais trabalham todos os dias. Psiquiatras que não sabem que quem descobriu o lítio foi um português. Doutorados que não sabem escrever, sem dar erros, na sua língua nativa. Com o passar dos anos fico boquiaberta com a quantidade de exponencial de pessoas desinteressantes que conheço. Nunca conheci tanta gente limitada cultural e intelectualmente. O Cruzeiro Seixas, um grande artista plástico surrealista, de 95 anos, vivo, dizia estes dias que tinha ido a um jantar “em que estavam pessoas muito simpáticas, imensa gente, a comida era muito boa, tudo muito bom, e não havia ninguém que falasse de um livro, de um quadro, do futuro a um nível superior. As pessoas contam as suas histórias pequeninas, do dia-a-dia, e nisso se completam, não tem mais ânsia do que essa”. Gente com quem não é possível conversar sobre nada. Gente que não se sabe rir de si própria. Gente sem humor. E quando não é possível rir, o que resta? Respirar? 

Claro que existe o outro lado.  Tendemos, nesta sociedade de parecer mais do que ser, a sobrevalorizar em demasia a inteligência (desculpem-me o pleonasmo). Existem tantas pessoas (superiormente) inteligentes mas profundamente estúpidas e incapazes de compreender coisas tão (insignificantemente) elementares, com uma falta de talento inato para as emoções, para a vida, para a bondade, entre outras.

Como acredito no humor (quase acima) de todas as coisas e tento a cada dia, mais e mais não levar-me a sério, fica a reflexão. Cada um de nós, mais ou menos importantes, com mais ou menos pessoas dependentes no mundo, somos uma peça da engrenagem, não a máquina. Não somos autosuficientes nem podemos viver isolados. Se não houver os outros, nós não existimos.

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