Domingo de Páscoa. Sol. Temperatura primaveril. Visitas. Nada planeado. Destino: Cinque Terre. Directo a La Spezia. Escolhemos apenas o meio de transporte: comboio. Dormi o caminho todo. Antes ainda de adormecer tive que ver um homem a cortar as unhas e outro a coser um botão do casaco. Chegados a La Spezia percebemos o que nos esperaria: gente, muita gente. Um mar de turistas. Em La Spezia apanhamos o comboio regional que pára em cada uma das aldeias de Cinque Terre. Saímos na primeira no sentido sul para norte: Riomaggiore. Tinha lido que era a maior e onde havia o "cammino dell'amore" que ligava à próxima aldeia. Foi aqui que passamos mais tempo. Saídos dos comboio avista-se o mar e as escarpas. Começamos a descer por caminhos de terra e escadas estreitas. Nas falésias veem-se pessoas nas podes mais improváveis. Muita gente parece arriscar a vida a troco da melhor foto. Esplanadas com vista privilegiada. Uma turista com uma mala a descer escadas sem fim com tacões. Carrinhos de bebés. Crianças com menos de quatro anos. Começam a perceber-se as primeiras queimaduras solares. Gente muito branca que não se protegeu devidamente. Chegados ao centro da aldeia há uma estrutura preparada para a avalanche de turistas. Cafés, lojas, restaurantes, casas de banho que cobram um euro, esplanadas, comidas take away, mercearias, supermercados, gelatarias...chegados ao pé do mar olhamos para trás e percebemos q este é o cenário que conhecemos há muito das Cinque Terre. Casas construídas nas falésias de cores diferentes. Impressionante, sim. Maravilhoso, com menos gente. Almoçamos sentados num as escadas fritura misti. Vários peixes que escolhemos num cartucho de papel com um palito grande. Fish sem chips. Depois de almoçarmos ficamos a saber que o caminho dela ore está fechado. Decidimos n sair na próxima aldeia mas em Vernazza. Talvez a mais pequena e menos preparada aldeia. As pessoas eram tantas que a única forma de locomoção era andar ao ritmo e no sentido da multidão. Quando finalmente chegamos ao pé do mar há um pequeno areal e alguns barcos. As esplanadas não tem um lugar vago. Não existe chão visível. Caminhamos na direcção inversa em direcção à estação de comboios. Esperamos impacientemente na fila para chegar estação. Caótico, sem organização, turistas rudes, gente que dispensávamos encontrar pelo caminho. Depois do infernal teste à paciência, tomo a decisão difícil, de não sair em mais nenhuma aldeia a não ser na última: al mare. Estava tão cansada que a primeira esplanada que avistei nem pensei, sentei-me. A vista não podia ser melhor. O Mediterrâneo imenso com a cor do mar que começa a aquecer. Numa das mesas ao meu lado vejo uma desarrumação de papéis, cadernos e livros espalhados sobre a mesa. Ao contrário de mim, escreve num computador que é uma maçã trincada. Tem como vista um mar azul imenso. Tem olhos claros, cabelo claro, pele nórdica e muitas sardas. Vive de escrever. Escreve coisas das quais gosta menos para patrocinar o grande projecto de vida, um romance. Invejo a coragem e a sinceridade.
quinta-feira, 21 de junho de 2018
segunda-feira, 4 de junho de 2018
O chefe
Pastelaria mais antiga da cidade. Agora, um misto de bar, restaurante. Fim da tarde. A disputa de mesas é grande. Vejo várias pessoas que desistem de esperar por uma mesa e pessoas que depois de terem uma mesa desist porque a espera é muita. Os funcionários são muitos e têm o medo estampado na cara. Parecem não poder estar parados. Falta-lhes cor. Mas a maioria dos clientes tem uma cor que eu não consigo nem depois de um mês na praia. As bebidas mais pedidas são negroni e aperol spritz. Percebo o temor dos funcionários com uma pessoa que foi muito simpática comigo e me sentou. O homem só é simpático com os clientes porque para os funcionários só grita e gesticula. Mas para os clientes transforma-se. É o chefe. Sempre ele. Austero. Cara fechada. Fato impecável. Alto. Hirto. Os funcionários temem-no. Passei uma hora aqui a apreciar. Até me distraí de ler. Apesar de toda a gente ter sido mais do que amável comigo, dificilmente voltarei. Trabalhar não é isto. O medo não deve fazer parte da nossa vida em tempos de paz. Nada o justifica. E os chefes não podem ser ser isto.
quinta-feira, 10 de maio de 2018
O mal menor
Há uns anos, quando Cavaco Silva foi pela primeira vez
candidato a Presidente da República contra Jorge Sampaio, Paulo Portas subira
ao púlpito da Assembleia da República para apoiar o “mal menor”. Ele que tinha
sido um dos principais alvos e manchetes d´O Independente no período político
conhecido como “cavaquismo. É esta a
analogia que faço com Lula da Silva.
Nunca gostei do estilo. Nem das amizades. Nem de quem se
rodeou. Nem dos silêncios. Nem dos desconhecimentos. Nem do mau-gosto. Nem do
apoio a Chavez. Nem da apresentação do livro de Sócrates. No entanto, com tanto
anti-Luluismo, até eu me rendi. Lula da Silva é o mal menor. Não vou dizer,
como li muito, que “roubou mas fez”. Não sei se roubou. Não sei se foi
corrompido. Cabe à justiça esse papel. O(s) crime(s) de que é acusado já foram
confirmados em duas instâncias, mas não
transitou em julgado. O principal crime de que é acusado é um triplex no
Guarujá. Ou seja, o equivalente em Portugal a ter um apartamento no Barreiro.
Não é um apartamento em Ipanema ou no Leblon ou uma mansão em Trancoso ou
Fernando de Noronha. Mas se é verdade, demonstra um imenso mau gosto e a
aptidão para “vender-se” por pouca coisa. No entanto, até hoje, não vi prova
nenhuma que demonstre que o apartamento era realmente seu. Mais, a ser verdade,
12 anos? É inegável que Lula da Silva tem imensos opositores, principalmente a
alta burguesia e alta sociedade brasileira que vive no século XXI mas com
tiques de século XVIII. Esta elite branca, de direita, milionária,
priviligiada, que vive como (quase) nenhum lugar do mundo. Talvez algo
comparado a alguns países de África em que só há miséria e fome e do outro lado
esbanjamento. Esta elite perdeu direitos com a subida de Lula ao poder. Em vez
de 5 a 7 seres humanos para tarefas domésticas correntes que incluiam:
motorista, jardineiro, porteiro, faxineira, diarista, cozinheira, babá pagos a
preços abaixo de electrodomésticos, começaram a ter que diminuir os seus luxos.
Estas pessoas começaram a ter direitos e a não serem tratados como antes da
abolição da escravatura.
Agora façamos o exercício de ser verdade que Lula da Silva é
corrupto. Outros políticos como Aécio Neves que tem uma ligação difícil de
explicar com um helicóptero com 500 kg de cocaína e que foi apanhado em escutas
telefónicas a sugerir matar alguém que sabia muito. Temer que é Presidente sem
ter sido eleito e suspeito de muitos crimes mas não foi a julgamento porque a
política, nomeadamente o Congresso brasileiro permitiu que assim fosse. Aquele
Congresso eleito pelos brasileiros, em eleições livres e democráticas, votou
pelo impeachment de Dilma e não permitiu que Temer fosse julgado. Não sei quem
naquele congresso brasileiro é isento de mácula.
A Isabel de Moreira que se
intitula como Constitucionalista ter com cartazes “Lula livre” é uma
anedota. Aliás, acho que a Isabel Moreira está no partido errado. De facto, ela
deveria ser coerente e filiar-se no Bloco de Esquerda.
Ter visto José
Sócrates, acusado de crimes semelhantes em Portugal em muito maior, comentar a
prisão “política” de Lula da Silva foi lindo. Não conhecesse a excelente
capacidade de argumentação combinada com a mentira compulsiva e eu acharia que
estava a ouvir um dos mais brilhantes pensadores do séc XXI.
O mais curioso é que as pessoas que usam os argumentos
anti-direita, que eu corroboro na íntegra, se esqueçam das situações políticas
em Cuba e Venezuela. Os eternos mitos que estampam t-shirts por todo o mundo
com as caras de Fidel e Che. Uma ditadura de quase 60 anos que fez milhares de exilados políticos e
causou milhares de mortes no mar em fugas clandestinas. Nunca nos esqueçamos de
Reinaldo Arenas. E a Venezuela, senhores? Primeiro Chavez, depois Maduro.
Preciso de descrever a situação que lá se vive e que a comunidade internacional
insiste em ignorar e a esquerda não aborda deliberadamente?
sexta-feira, 30 de março de 2018
Seremos todos (algum dia) Marielle
O EUA é esse país capaz do melhor e do pior. A mais antiga e
mais usada linha celular foi criada sem consentimento da sua dadora, Henrietta
Lacks, uma mulher negra, pobre, nos anos 50 que sofria de cancro. O país da
Rosa Parks que se recusou dar o lugar a um branco mas que ainda existe o Klu
Klux Klan. O país que viu nascer e morrer assassinados John F. Kennedy, Martin
Luther King e Malcolm X. O país que foi capaz de eleger o primeiro Presidente
negro mas foi também o país que preferiu um louco para Presidente em vez de
escolher uma mulher. O país onde na semana passada o The New York Times
reconstruiu, baseado em imagens de comeras de hotel, os dias do atirador que
matou dezenas de pessoas em Las Vegas. Carregou várias dezenas de malas,
durante vários dias, com tudo planeado, alugou dois quartos e foi o responsável
pelo maior número de mortes resultante de um tiroteio. Um país onde entre 2006
e 2009 me era pedida identificação para comprar cigarros mas onde comprar uma
arma ou várias era (mais) fácil. O país onde várias pessoas mataram outras
pessoas em tiroteios só porque sim, por razões políticas, por ódio, por racismo
ou sem se saber a razão e porque qualquer pessoa pode ter acesso a uma arma. Um
país cuja capital parou para dizer não às armas. Um país que tem adolescentes
capazes de se mobilizarem e de discursos como os que se fizeram na semana
passada em Washington é um país com futuro e onde a esperança não está (de
todo) perdida.
Depois, na América do Sul, temos o Brasil. Há anos que se
morre por nada. A vida (lá) vale muito pouco. Tenho um amigo que é um acérrimo
defensor de Lula. Por causa dele, diz ter conseguido estudar e chegar a um dos
mais altos graus académicos. Ele que é, como se apresenta, por desordem
alfabética: brasileiro, pobre e preto. Pior, no Brasil, só se fosse mulher, favelado
e homossexual. Há umas semanas foi executada uma vereadora Câmara do Rio de
Janeiro, do partido político PSOL. Ainda não se sabe quem foi nem a razão.
Sabe-se (apenas) que foi uma execução política. Nunca tinha ouvido falar dela.
Mas conhecia Marcelo Freixo o candidato a Perfeito do Rio de Janeiro e o
deputado federal Jean Wyllys. Marielle que reunia tudo o que uma pessoa no Brasil
de agora não pode ser: nasceu pobre, na favela da Maré, era preta, mulher e
lésbica mas estudou e chegou a vereadora. Era uma activista, uma voz incomoda, (quase)
sem medo. Ousou denunciar a extrema violência da polícia militar nas zonas
pobres e era a personificação de que estudar vale a pena. Mas quando pessoas que apesar de estereotipadas
têm voz são silenciadas, já não basta só ter medo nem vir para as ruas. Nunca
gostei de Lula mas tenho que aceitar que de tudo o que aconteceu nos últimos
anos foi o melhor. Quando no Brasil existem políticos com o baixíssimo nível
que vemos na televisão todos os dias, quando o Perfeito do Rio é um Bispo da
IURD cheio de cirurgias plásticas e cabelo pintado que quer tornar a cidade
mais bonita pintando as fachadas das casas das favelas, quando se ausenta da
cidade no Carnaval, a época mais crítica da cidade, e quando insiste num estado
sem ser laico; quando um dos possíveis candidatos à Presidência do Brasil é um
reaccionário, apoiante da ditadura militar, que numa discussão pública afirmou
que uma deputada merecia ser violada, que acha que a solução da violência no
Rio está em bombardear as favelas; Quando os maiores intelectuais brasileiros
dizem que os alunos saem das escolas analfabetos funcionais. Quando quem não
está a favor, está contra. Quando não existe meio termo. Quando as pessoas
destilam ódio e ameaças nas redes sociais. Quando se é julgado e seleccionado
pela cor de pele... resta perguntar: o Brasil (ainda) tem solução? É por isso que eu sendo branca, não sendo de
esquerda, muito menos caviar, de não ser burguesa, digo: devemos ser todos
Marielle!
quarta-feira, 28 de março de 2018
Uma volta de 180 graus
Tenho
38 anos. Um emprego pela primeira vez na vida. Um contrato por 2 anos, com tudo
a que um trabalhador tem direito. Mas, para isso, tive que mudar a minha vida
toda. Deixei a minha casa com tudo o que de confortável e conhecido tem. Os hábitos. Uma cadela que encontrei quando
ela tinha 4 meses e da qual achei que nunca me iria separar. A família, Os
amigos.
Não é
a primeira vez que mudo na vida. Já vivi em 3 cidades diferentes. Esta é a
quarta. Braga, Houston, NY, Genova. Durante
anos, com tantas mudanças de casa e 3 cidades, não me sentia em casa em parte
nenhuma. Mas depois de alguns anos seguidos em Braga comecei a sentir que pelo
menos aquele apartamento fora sido preenchido à minha imagem. Começar
de novo com uma mala de 32 kgs, uma mala de mão e uma mochila. Tudo o resto
ficou para trás. Desenhei um cenário catastrófico. Pensei que não ia gostar de
nada e criticar tudo. Está a ser mais fácil do que pensava. Diria que são duas
coisas muito importantes: o tempo e as pessoas. As pessoas são o melhor.
Acolhedoras. Simpáticas. Mesmo sem partilharmos a mesma língua conseguimos
perceber-nos. Falam muito com as mãos. Falam alto. Riem muito. São parecidas, nas qualidades com os portugueses.
Felizmente, como diria o Eça não têm o aspecto desconsolado dos doentes dos
intestinos. Vivo pela primeira vez na vida em frente ao mar. Mas não há a angústia do mar. Apesar de haver dias com
ou sem chuva, cinzentos, o mar nao adquire aquela cor depressiva cinza chumbo.
Não tenho elevador. Vivo num quarto andar. O local de trabalho é bom. Deram-me
um computador, 3 batas brancas e duas azuis. Tenho 2 cacifos e uma secretária.
A cantina e o bar são óptimos. Bom, bonito e barato. Comida boa a preço de
cantina. Estou viciada em cappuccinos. E na simpatia das senhoras do bar.
Sinto-me acolhida. Aqui não tenho carro. Felizmente, dizem os meus amigos. Com
as ultrapassagens que fazem pela direita
e esquerda, não demoraria muito a causar uma tragédia com as milhares de
scooters. Um destes dias deixaram-me em frente a casa, e apesar do aviso para ter cuidado com a porta e com as
scooters, causei estragos. Ando a pé, de metro e de autocarro. Acho os
transportes eficientes, embora o metro feche às 9 da noite, ridiculamente. Os
táxis são caros mas muitas vezes, por preguiça, não lhes resisto. Ainda tenho
uma casa praticamente vazia, só com o indispensável. Mas dizem-me que
agradável, parece uma casa de praia. Ainda não tenho internet ilimitada nem
telemóvel italiano. Foi este o grande problema encontrado e que mais demorei a
resolver. Todos os outros foram rapidamente solucionáveis. Não tenho televisão
nem vou ter, eu que não adormecia sem ela. Não tenho fotografias. Trouxe 10
livros. Ainda me custa olhar para os cães e para crianças e não ter saudades. Falo
todos os dias com as mesmas pessoas que falava em Portugal, até mais. Saudade é
a palavra que mais me ocorre desde que me mudei. Quem,
quando está sozinho, não se intimida com o silencio? Planos, ao
contrário do que esperava, não faço a longo prazo. Só (ainda) não consigo
conjugar os verbos no futuro. No presente, sempre no presente. Sobre o texto da
mudança, uma das minhas amigas achou-o triste. Falhei o objectivo porque nada
nele é triste.
Tenho
dinheiro, mais do que algum dia. Mas quero coisas que ele não compra.
domingo, 25 de março de 2018
O Feliciano
Se eu quisesse ser má diria que
alguém com este nome não augura nada de bom. O Feliciano, tal como o Relvas, o
Vara, o Sócrates, mais outros tantos políticos menos conhecidos, e
assessores dos aparelhos partidários são
o resultado do “chico-espertismo” português. Um país onde o tratamento por
“doutor” e “engenheiro” chegou (quase) ao nível do Brasil. As universidades
privadas proliferaram como fungos nos anos 90. Venderam licenciaturas aos betos
jotas dos partidos que não tinham notas para entrar nas universidades públicas,
aos betos que não conseguiam terminar os cursos nas universidades públicas, aos
trintões que queriam uma licenciatura que lhes concedesse o tratamento pelo
grau e/ou lhes legitimasse a desempenho profissional. Para melhorar tudo, esta
semana, ficamos a saber que os licenciados pré-Bolonha vão ter equivalência a
Mestrado. Estamos conversados quanto a facilitismos.
Voltando ao Feliciano, é outro dos
casos que envolve a dupla maravilha de combinar um curso tirado numa
universidade privada com a demora da obtenção do curso. Dir-me-ão que a conclusão
desta combinação é uma generalização e um preconceito. Pode ser, mas convido
quem tiver tempo e paciência a analisar os políticos e os seus boys que tiraram os cursos em
universidades privadas. Infelizmente, a política portuguesa está cheia destas
ervas daninhas que ajudam a sustentar os partidos e os governos.
Não é preciso ter tirado um
doutoramento numa universidade americana ou em colaboração com uma universidade
americana para saber que quando se é aluno de doutoramento ou aluno de
doutoramento visitante, o processo começa com uma carta/convite da universidade
americana em inglês, nunca em português. Juntamente com isso vem a obtenção do
DS e do visto J1. O esperto do Feliciano não só demorou o dobro dos anos da
duração da licenciatura numa universidade privada como se aproveitou de uma
carta de uma Professora de Berkeley em português a dizer que orientaria o seu
doutoramento. Como todos os espertos, aproveita-se de tudo o que pode. Dizem à
boca pequena que mal fala inglês e que, quando contrariado, diz mal de toda a
gente e que queria chegar a Ministro, coisa que nunca aconteceu. Mas, pasme-se,
chegou a Secretário de Estado em dois governos e foi chefe de gabinete de
Passos Coelho (que não gostava dele... imaginem se gostasse). Li das coisas
mais anedóticas sobre este senhor desde ter publicado mais de 20 livros a
fazer-se anunciar no Bombarral à sua chegada com buzinadelas do motorista
oficial.
Mas onde eu quero chegar é que
Felicianos há muitos. E o exemplo do Feliciano é um dos exemplos de como se
ascende na vida. Depois, também há os que sem mácula e sem nada que se lhes
aponte têm uma biografia irrepreensível e repleta de graus mas subiram na vida
porque se encostaram às pessoas certas. Porque se é verdade que há muita gente
que não consegue tirar uma licenciatura sem ter sido paga, há muita gente que
não se pode gabar de grande inteligência mas ter conseguido tirar um
doutoramento. É célebre a frase: “um burro com livros é sempre um burro”. Há
muitos anos uma pessoa que era respeitadíssima, e que caiu anos depois em
desgraça, dizia uma coisa que nunca esqueci: “ não interessa o que diz a tua
tese mas quem é o teu orientador”. De facto, a vida depois de 38 anos ensinou-me
que é (quase) uma verdade absoluta. Com
raras excepções, nunca chegaremos a lado nenhum
sem um telefonema ou sem uma (boa) carta de recomendação.
Pedro Passos Coelho chegar ao
topo da hierarquia académica pelo simples facto de ter sido Primeiro-Ministro causou
grande indignação. Um licenciado por uma
universidade privada, depois dos 30, leccionar numa Universidade pública com a
equiparação a Professor Catedrático Convidado? Que sacrilégio! Concordemos ou
não, não é ilegal. Podemos lembrar-nos de outros como Vitor Constâncio e Guilherme
de Oliveira Martins. O que a mim me
causa perplexidade e azia não é ele ser professor catedrático convidado numa
universidade pública, que é legal, mas
eu não poder fazer o mesmo. E nunca me esqueço do comentário infeliz que fez
sobre aconselhar os melhores qualificados a emigrar. Foi o que fiz. Na
inevitabilidade de não conseguir no meu país um emprego, conseguiu-o no
estrangeiro, aos 38 anos pela primeira vez. O que me faltava?
quinta-feira, 22 de março de 2018
Mudança
Munida de uma mala grande, uma mala de mão e uma mochila
tenho a sensação de que faltará sempre alguma coisa. Desta vez, como sempre,
não será excepção. Combinara com o meu irmão duas horas e quarenta minutos
antes, como pessoa prevenida que sou. Uma amiga iria ter comigo ao aeroporto.
Na última confirmação do voo percebo que confundi 16 com 5 da tarde. As horas
em 24 números em vez de doze (diferenciadas apenas pela terminologia de manhã
ou de tarde) sempre foram uma dor de cabeça, como distinguir a esquerda e a
direita. Percebo que estou atrasada e nenhum dos elevadores funcionava de
manhã. Entro em pânico. Ligo ao meu irmão se há alguma possibilidade de me ir
buscar imediatamente. Ligo à minha amiga para desistir de ir ter comigo ao
aeroporto. Como detesto despedidas até o universo ajudou. A viagem até ao
aeroporto parece um voo. Sem tempo nem para olhar para trás, o meu foco é
entregar a bagagem. Descubro que a mala tem 12 kgs a mais. Finjo não reparar e
a pessoa da companhia aérea decide ajudar e finge comigo. Não tenho tempo de
pensar em nada. Tudo em mim é calor. Voo para Munique, sem sobressaltos,
respirando fundo. Descubro, mais rápido do que esperava, que me esqueci do
caderno onde tomo notas. Nada de muito dramático. Mas como gosto sempre de
encontrar qualquer coisa, agarro-me ao que há. A espera em Munique é rápida.
Sigo para Génova num avião assustadoramente pequeno. Finjo ignorar. Passados
uns minutos, sentada no lugar que me foi atribuído (junto à janela e sem
ninguém ao lado), começo a transpirar (coisa nada comum). Estou gelada, tremo,
os dentes batem, as gotas de água escorrem-me pela testa e pescoço, a minha
palidez denuncia-me porque tenho olhares a seguir-me. Tenho falta de ar. Estou
em pânico mas tento não perder a pose. Demorada e disfarçadamente tiro as
bombas de asma e finjo que tudo está controlado. Minutos depois estou bem, só o
cabelo molhado mostra o que se passara. Tenho o R. à minha espera no aeroporto
de sorriso aberto. Sinto-me em casa com ele. Saímos do aeroporto e o que mais me
choca são as ruas cheias de prostitutas. Contrariamente ao que seria de
esperar, são caucasianas, não têm aspecto de cadente, são jovens e são muitas.
O R. deixou-me no hotel que eu escolhi pela proximidade do meu apartamento.
Nunca mais voltarei a este hotel e desaconselho-o a toda a gente. Supostamente
era um hotel quatro estrelas. Mas disso nem a decadência lhe restava. O
recepcionista era antipático, ainda existia chave, as alcatifas estavam sem cor
e em mau estado, o quarto era pequeno e desconfortável, a tv era do tamanho de
um ecrã 15’’ e a limpeza deixava a desejar. Lembro-me de ter comentado com uma
amiga o quão mau era o hotel e respondeu-me que era um bom sinal porque
sentir-me-ia muito mais confortável no novo apartamento. Não vou alongar-me nos
comentários sobre o pequeno-almoço porque nem nos motéis dos Estados Unidos é
tão fraco. A segunda pessoa antipática que me apareceu foi o taxista que
mostrou o seu desagrado quando lhe disse que o meu apartamento era a menos de 1
Km. Cheguei à hora marcada para assinar contrato e o apartamento pareceu-me bem
melhor do que nas fotos. Na opinião dos locais, a localização não é das
melhores mas eu acho conveniente. Fica a 2 minutos da entrada do metro, em
frente ao porto de Génova, tem mercearia e quiosque e outras lojas de
conveniência. As ofertas de cafés e restaurantes são poucas. E o bairro é
multicultural e multi-étnico. Tal como no primeiro apartamento que vivi em NY,
o prédio não tem elevador e vivo num quarto andar.
Passada a fase de tudo parecer fácil, como receber o
ordenado numa conta portuguesa e o pagamento do depósito e renda através de
transferência bancária de uma conta portuguesa para uma conta italiana, começou
a aventura: ter internet e telemóvel. Fui a um centro comercial para encontrar
várias empresas possíveis. Logo na
primeira, praticamente desisti. Não poderiam ter sido mais simpáticos comigo e
falavam inglês. Depois mais de uma hora,
de várias explicações, tentativas de pagamento com cartão de crédito português
chegaram a um veredicto: só poderia fazer contrato de internet com um cartão de
crédito italiano ou um cartão especial que se adquire nos correios chamado
POSTPAID EVOLUTION. Os simpáticos disseram-me para ir aos correios italianos
(Poste Italiane). Depois de andar 15 minutos a pé, disseram-me que para ter
este cartão só com o código fiscal original (eu só tinha uma cópia) e o “attestato
di soggiorno”. Regresso à loja e informo os simpáticos que não é possível. Como
estou num centro comercial, aproveito e compro um microondas e improvisei o
transporte com um carrinho de ir às compras. Chegada a casa subo quatro andares
com o microondas. Volto ao hotel, onde deixei a mala com 35 kgs e regresso a
casa de táxi. Demorou exactamente 25 minutos entre paragens entre degraus, vãos
de escada e vontade de deixar (simplesmente) cair a mala no sentido da
gravidade... O resultado foi bolhas nas mãos idênticas a quem levanta ferro nos
ginásios, obras e afins.
domingo, 31 de dezembro de 2017
"Tudo o que ganhei e tudo o que perdi"
Perdi o meu Blackberry com tudo o que tinha lá guardado.
Tantas coisas insubstituíveis. Só me resta a memória. Perdi uma caneta de prata
com a qual escrevia diariamente. Perdi quase uma dezena de livros que tanto
lutei por eles mas alguém julgou tratar-se de lixo.Uma
camisa que adorava. As chaves do carro,
duas vezes. Reencontrei-as.Como perder pode ser
difícil. Resta aceitar. Há alguma coisa que não se perca ou que não se possa
perder?
Felizmente, não perdi ninguém. É o melhor de tudo.
Um ano bom. Grande. Intenso. Longo. Mudanças. Um ciclo que
termina. Ensinamentos, tantos. Aprendizagem. Novos caminhos. Novos primas.
Buscas.
Passado. Presente. Futuro. Medo. Esperança. Conseguir perceber,
finalmente. Aceitar. Não sem dor. Mas espera-se, sem mágoa. Crescer é isto.
Ultrapassar.
Do que temos medo, afinal?
O que receamos que aconteça?
Será que o melhor (ainda) vem?
O que será, será.
“Existirmos, a que será que se destina?”
quinta-feira, 28 de dezembro de 2017
Até que as pedras se tornem mais leves do que a água
Mais uma vez, António
Lobo Antunes (ALA), não escolheu o livro que escreveu. O livro é que o
escolheu. Não esperava voltar a África, mas não conseguiu. Estava mais
interessado na relação pai-filho. No entanto, (mais) um regresso a Angola, à
guerra colonial, que nunca poderá ser esquecido. Tudo o que está no livro é
verdade, nada foi inventado.Limitou-se a contar o que tinha vivido na guerra.
Como o próprio assume, foi um livro muito difícil e complicado de escrever. Passou
noites horríveis, ele que normalmente dorme bem, não tem pecados. Com sonhos
maus e uma angústia enorme. Tudo isso voltou. O sofrimento continua presente.O
sofrimento nunca mais acaba. “Ninguém desce vivo de uma cruz”. A guerra “deu
cabo da juventude, da nossa idade madura e da nossa velhice”. Uma crueldade
imensa. Ninguém ganhou esta guerra.
“Ajuda-me a esquecer”.
Neste livro, tudo
parece repetir-se. Mas tudo parece novo, ao mesmo tempo. Como se estivessemos a
ler estas histórias do mal que a guerra fez a tantos, pela primeira vez. Parece
um louvor à memória dos que morreram e dos que sobreviveram mas que parecem
continuar lá. O que a guerra lhes roubou, senhores. Não saíram da guerra. Quem
voltou de lá não voltou igual. Diferentes dos que cá ficaram.
“Fugidios, bruscos, quase todos estranhos...”. As marcas permanentes que a
guerra lhes deixou. A miséria da guerra. Sonhos permanentes com África que se
repetem. Os medos e os pavores. Os insultos velados e
explícitos. As imagens horríveis. A loucura. Os suicidas que se mataram sem
explicação. A vergonha de expressar sentimentos. Violência atroz. Pessoas sem
cabeça e sem orelhas. A ocultação da verdade inconveniente. Nunca contam o que
se passou na guerra. A mentira piedosa. Sonhos de guerra onde acordam suados e
exaustos.O medo, a vergonha e a ignorância de mostrar afecto, consolo e
carinho. Sempre a viverem no passado e da memória que lhes ficou. Culpa e
mágoa. A pena. A cabeça que não pára. Racismo. Machismo. Homofobia.
Homossexualidade. Sexo. Violações. Infidelidade. A consciência ou a falta dela.
Desânimo. Destruição.
Conta a história de um
alferes que trouxe uma criança da guerra de Angola. Tudo gira à volta da
matança do porco. Como em todos os
livros de ALA, não é o argumento que importa, este sempre simples, mas a
narrativa e a forma. Este é o segredo. Vários narradores, Prolepses e analepses.
Espirais. Polifonias. Narradores vários. Descrições cinematográficas.
Os personagens
raramente são bonitos. Os personagens quase todos sem nome: a filha, o filho
preto, o alferes, Sua Excelência, a viúva, a prima, Fernandinho. Na sua maioria tristes,
infelizes, melancólicos, mas todos
com uma sensibilidade acima da média.
O filho preto que
trouxe de Angola depois de lhe matar a mãe e o pai. Todos o avisam que quando
crescer se vingará. Foi trazido por solidão ou remorso? Por amor ou como um
troféu? Casou-se, num casamento infeliz, com Sua Excelência, uma branca que o
despreza e o troça. Humilde.
Subsidiário. Obediente.Desde o início há um presságio que o filho matará o pai
no dia da matança do porco: “Lembro-me da minha mãe sem orelhas...Lembro-me do
meu pai de bruços no chão... Lembro-me que você os matou... matou a minha mãe,
matou o meu pai, destruiu tudo o que pôde e no entanto passou-lhe uma coisa
qualquer por dentro que o obrigou a impedir que me matassem... juro que não me
apetecia matá-lo, gostava dele...”.
A filha “sempre
zangada, amarga, fala-se-lhe e não responde, sorrimos-lhe e permanece séria”. Sempre
sozinha. Indiferente. Mais esquiva do que os gatos. Largou os estudos. Ninguém
nunca a questionou, obrigou, aborreceu. Quis largar os estudos, largou.
Aceitaram sempre. Nunca lhe ralharam. “acho que não gosto seja de quem for, de
que criaturas podia gostar e de que serve gostar, o que se faz com gostar, o
que se ganha em gostar...”. Drogada. Ressacada. Descuidada.
A mulher sempre discreta em tudo desde o primeiro dia.
Tímida. Educada. Sem aborrecer ou incomodar ninguém.
Começou a sofrer de guinadas no rim. Descreve tão bem a dor com imagens.
Descrições cinematográficas. “pedras no rim a comerem-na sem descanso com
aqueles dentinhos horríveis, a alcançarem-lhe o fígado...é o sangue a
apodrecer, é o corpo que desiste... As pedras no rim que se tornavam a pouco e
pouco mais leves do que a água. Um
cancro no rim que lhe invadiu o corpo inteiro..A degradação com a doença. O
sofrimento. O declínio. A agonia. A morte a chegar.
Todos os personagens
partilham desta falta de amor, uns porque têm medo de o mostrar, outros porque
não o sabem fazer, outros porque não foram ensinados, outros porque acham que
não foram (de todo) amados. Quem sabe um livro sobre este medo?
quarta-feira, 27 de dezembro de 2017
Orfãos
Numa mesa estão sentados
Helen e Danny (Isabel Abreu e Tónan Quito). Parecem estar a celebrar alguma
coisa. Entra Liam (Romeu Costa), irmão de Helen, coberto de sangue. Liam
começa por contar uma história incongruente e depois percebemos que é muito
pior. A descida ao inferno. A violência gratuita. O racismo. O preconceito. O
acaso. A escolha entre o bem e o mal. A violência a troco de nada. As marcas
profundas da infância. Família. Valores. O que faremos nós perante situações
limite? Até onde estaremos dispostos a ir? Há limites para defender os nossos?
O limite do amor. Desilusão.
Este jantar, dividido em quatro actos, que se separam com
luzes psicadélicas e um som ensurdecedor a lembrar o filme “Irreversible” .
Descobrimos nesta hora e quarenta segredos, omissões, mentiras, encobrimentos
de quem se ama. Qual a fronteira ética e moral? O que são os valores? O que uns
fazem pelos outros, o que têm que mostrar para serem aceites e não se
desiludirem. Até onde se pode ir? Onde está o limite?
Poderíamos reduzir Liam como psicopata, Helen como má que
faz de tudo para proteger o irmão e Danny como o bom, cheio de valores. Mas
perceberemos que nada é estático e que o mundo não se divide entre bons e maus.
Tudo muda, de repente.
Saímos a pensar no que, por amor, seremos capazes de
fazer por alguém.Até que ponto estamos dispostos a ir para proteger ou salvar
outra pessoa? Mesmo que não haja salvação possível nem do que fugir.
Encenação de Tiago
Guedes
Texto de Dennis Kelly.
Tradução de Francisco Frazão.
sábado, 23 de dezembro de 2017
Sete anos sem ele
Estou sentada à espera de ser chamada. Falta de ar. Dia de crise. Bronquite. Bronquite asmática. Asma brônquica. Asma alérgica. Mas, de facto, não sou alérgica a muita coisa. Tenho (apenas) as imunoglobulinas aumentadas 1000 vezes. Corticoides. Cortisona. Optam pelos anti-inflamatórios que não sejam não-esteróides. Brometo de ipratrópio. Salbutamol. Budesonida. Flixotaide. Cansaço. Pieira. Gatinhos. Panela de pressão. Borbulhar. Esponja. Hiperventilação. Peixe fora de água. Insónia. Mal-estar. Cetirizina. Bilaxten. Descanso.
Hoje ela disse-me que a imagem mais remota que tem de mim é de num dia de verão muito quente, dia de tudo a arder em volta, eu a caminhar calmamente, parar e dizer: “não entres em pânico, está a começar uma crise de asma. Eu não tenho a bomba e preciso de oxigénio. Liga por favor para o INEM”. Nesse dia, o INEM chegou rapidamente mas não tinham oxigénio. Lembro-me da médica me dar a mão e pedir-me calma, apesar de eu estar deitada mais do que calma. Nesse dia uma amiga que eu não sabia grávida foi comigo na ambulância a alta velocidade para o hospital. Ela não teve medo. Eu não sabia.
O meu avô morreu há 7 anos. Passava pouco das 8 e recebemos um telefonema. Nesse dia, eu dormi em casa dos meus pais. A minha mãe foi acordar-me porque uma das minhas tias queria falar comigo. Disse-me ao telefone a chorar: “O avô morreu”. O mundo parou. Não consegui dizer nada. Petrifiquei. Como é que podia ter morrido se estava, apesar de internado, tão bem na noite anterior? Ele que sobrevivera a dois enfartes num mês. Ele que nunca estivera gravemente doente na vida. Ele que nunca estivera internado. Um enfarte atirou-o para a cama de um hospital e nunca mais de lá saiu. Perdeu o apetite. Perdeu peso. Perdeu a função renal. Perdeu quase tudo. Mas nunca perdeu a consciência. Que saudades que tenho do humor dele. Do riso dele. E conversava tanto. Que saudades do “minha neta”.
Há um ano, exactamente neste dia, entrei com a maior das confianças numa sala. E saí de lá cega de desânimo. Acho que nunca me recuperei. Ainda hoje não consigo lembrar-me do que foi dito. Vou aprendendo devagarinho a não acreditar.
Ontem mandaram dizer-me que a minha pressa não era urgente. A minha esperança morre, a cada dia, um pouco mais. Tudo é espera e incógnita. A resposta chegará algum dia. É uma questão de tempo e paciência.
E depois penso naquele senhor de 91 anos, a idade que o meu avô tinha quando morreu, que está desesperado, nota-se no tom de voz. Quer uma receita e não pode esperar porque tem muito que fazer. Tem a filha no hospital. A filha tem 59 anos e tem um cancro no rim. Já foi operada quatro vezes. E naquela casa onde eram dois, agora resta um. Está sozinho, nesta época do ano. Há sempre pior.
terça-feira, 19 de dezembro de 2017
A B.
Adio este texto desde Agosto. Desde o dia que soube.
Visivelmente impassível. Mas as forças pareceram faltar-me nas pernas. Um leve
desiquilíbrio. Uma momentânea tontura. Um dia quentíssimo. Lindo. Longo.
Imenso. O meu sinal externo de desespero é sempre a nausea. Um dia sentiu uma
dor no peito. Era um cancro na mama. Uma
história tantas vezes ouvida e lida. A não ser que a morte nos chegue
fulminante, e sem aviso, acontecer-nos-á a todos, um dia.
A B., como se diz tecnicamente, tem um bom prognóstico. Foi
operada em tempo record e tem a sorte de ter um pai e um irmão médicos. E uma
prima oncologista no hospital onde é tratada. Tem, felizmente, o que falta a muitos:
uma roda de gente a ajudá-la neste momento difícil. Nada lhe falta. Tem amigos
de fazer inveja.Nas horas piores, o irmão tratou-lhe dos efeitos secundários
dos tratamentos. Primeiro cortou o
cabelo, pelos ombros, depois curto e depois rapou-o.
A B. tem mais 4 anos do que eu. Convivemos muito em
crianças. Foi sempre grande. Ou eu que sempre a vi assim. Bebemos muita
groselha. Jantamos tantas vezes naquela mesa redonda na sala da avó C. com um
braseiro no meio. A mesa das crianças. Na semana passada fez 30 anos que a avó
C. morreu. Como na morte dos meus avós foi ela que recebeu o aviso da morte
pelo telefone. Lembro-me desse dia. Apesar de terem passado 30 anos.
A B. foi quem andou comigo ao colo quando entrei no curso
que não queria. No tempo em que a internet era rudimentar. Foi ela que me
apareceu à frente na universidade e me salvou o dia e a vida. Foi ela que me
mostrou tudo. Um dia inteiro comigo. A B. não sabe o significado que teve na
minha vida por causa deste dia. Foi ela que me fez ver o futuro com optimismo. (Como a mãe dela me diz, até hoje, foi
quem levou a minha mãe para o hospital naquele dia quente, 21 de maio de 1979).
Quando nos dias piores, de desânimo, sem razão, sem
explicação, que não devíamos dar o significado exacerbado que não têm, é disto
que nos devemos lembrar. Há sempre melhor e pior. E vivo, por opção, sempre
como se o mundo fosse acabar amanhã. Quem gostamos pode faltar-nos a qualquer
momento, sem aviso, de surpresa. E eu não quero deixar nada por dizer nem por
fazer. Não vivo no futuro nem no passado. Vivo no presente. A aproveitá-lo e
sem grandes questionamentos ou arrependimentos. Sem certezas, com muitas
dúvidas. Mas sem nunca evitar nada. A aproveitar tudo. Na corda bamba. No
precipício.
sexta-feira, 15 de dezembro de 2017
Quais as tristezas que escondemos?
Quais são as tristezas que escondemos? Quantas? Qual o tamanho? Como se mede? Alguém consegue ver? O que provocam? Como influenciam? Vale a pena? Qual o sentido? Será necessário? Depende-se dos outros? Perde-se a cabeça? Atira-se tudo pelos ares? Qual o caminho? Justifica-se? Não causa estragos? Desmorona-se? Sobrevive-se? Será bom? Será mau? Um recomeço? Uma oportunidade? Um sinal? O mundo acabará? Fim?
Qual será a resposta (certa)?
Dias arrastados. Noites imensas.
A espera.
Não parece ter fim.
Em que se traduz o medo?
Cidade gelada. Os primeiros flocos de neve ameaçam cair.
Tudo visto da janela. Não se experimenta a temperatura real. Tudo é espera. O
tempo que não passa. Pessoas apressadas. Filas. Bebés que choram. Olhos
vermelhos de quem não dormiu e atravessou vários fusos horários. Roupas
amassadas de quem viaja. Sítio de pouca permanência. Tudo é volátil. A escolha,
para enganar o tempo, não é difícil entre escadas rolantes, elevadores ou
escadas. O tempo não importa. A noite começa a aparecer. A tristeza de um fim
de tarde de domingo. Tudo é impessoal. Ninguém se conhece. Sala enorme. Suposto
conforto. Cadeiras de vários formatos. Sofás que parecem camas. Mesas de trabalho.
Televisões várias e imensas. Música ambiente que não se percebe o objectivo.
Comida à descrição. Nada apetece. Olho para tudo e nada me entusiama. Só
suspiros. Inspirações e expirações longas. Leve dor de cabeça. Saberei (mais
tarde) que no meio daquelas pessoas está uma que conheço (bem). Mas a
coincidência hoje não funciona. Probabilidade. Acaso. Não nos cruzamos apesar
de partilharmos, a mesma hora, os mesmos metros quadrados. Olhar sem ver. Tenho
um nó no estômago. Não é pânico nem desespero. Tento desculpas para sentimentos
piores. Tento convencer-me que é assim que deve ser. O medo de falhar, sempre
ele. Há pior sentimento? A expectativa. Experimento a pior das solidões embora
rodeada de pessoas. Poucas vezes na vida me senti tão apoiada. E mesmo assim,
só. Conto os minutos que passam. Só quero que a hora chegue.Podia aproveitar o
privilégio. A sensação de ser um momento único e talvez irrepetível.Não
consigo. Sou apenas uma criança com medo.Todos tentam convencer-me que estou
preparada. Só eu não consigo acreditar. Não me deixam só. Tento comer. Nada me
apetece. Apetece-me coisas que não consigo comer. Horas assim.Tenho momentos.
Só penso nas palavras “depois” e “sobrevivi”. Não tenho vida depois. Só antes.
O meu olhar deve denunciar-me. Imagens que passam pelos meus olhos que sei de
cor. Perguntas que posso não saber responder. Conversas. Telefonemas. Vozes que
sossegam. Depois de cinco horas de pensamentos e hipóteses, levanto-me. Exausta.
Arrasto-me. Destino seguinte. Náusea. Atraso. Neve que cai. Experimento a
temperatura real. Não me protejo. Podia ter sido a primeira a subir para o
avião. Troco o privilégio por sentir a neve a cair. Deixo-me estar. Sinto-me gelar.
Vejo o casaco e sinto o cabelo cobrirem-se de neve.Quando não posso adiar mais,
subo lentamente. Sou a última a entrar.Não podia ser mais adequada a imagem: o
avião cheio e eu sozinha na executiva. Já nem medo tenho de andar de avião.
quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
O ano em que morri em NY
Milly
Lacombe começa por falar de NY. Uma descrição cinematográfica de quem viveu
perto de Union Square, entre a 1st Avenue e a 14th Street, entre o East Village
e o Soho. Do pequeno almoço no Jack’s
Wife Freda, uma instituição. Das idas a St
Mark’s Bookstore. Da sua vida de procrastinação e de proper wife “cuidava dela, da casa e escrevia, e ela completava a
nossa renda”. De como era movida pela
“felicidade dos ignorantes”. Da rotina de uma new yorker que era freelancer.
A vida perfeita que teve um fim. Este é o mote.
O
livro divide-se em duas partes: morte e renascimento. A morte chegou “em NY
numa manhã ensolarada de sábado”. A pergunta das perguntas, “a mãe de todos os
questionamentos: “por que existe alguma coisa em vez de nada?”, que Caetano adaptou a: “Existirmos: a que será
que se destina?”. E o livro é o desenrolar do novelo do nada em que a autora se
encontra até à sua reconstrução.
Ficamos a saber que o
grande problema da autora era a arrogância e que era a pessoa que deixava e que
nunca a que era deixada. Nasceu para ser
conquistada e amada: “eu era a mais amada, a mais desejada, a mais
cortejada, a mais segura, a que não sentia ciúmes”. Que emendava
relacionamentos. E percebe-se (tão bem) como é que as relações dela duravam
tanto. A pessoa que traía e que nunca a que foi traída e provou a dor que isso
provoca.
“Evite ter certeza
daquilo que você desconfia”. A ficção e os delírios surgem com a ida da mulher
para Berlim. Sozinha em casa. Começou a questionar tudo. Perturbada. Maníaca.
Chorava muito durante o dia. Angustiada. Começou a ser questionada pela
inércia, pela falta de socialização. Estranha. Distante. Sentia alguma
coisa diferente.Estava a ficar maluca. Não conseguia (mais) trabalhar. A desconfiança de estar sempre a olhar para o
telefone, o grande inimigo dos tempos modernos, o aparelho que mais lares
estraga “deixava o aparelho com a tela sempre para baixo”. A suspeita. Sempre a
dúvida. Até ao fim. Passou de uma mulher segura ao oposto. “Você me olha como
se eu tivesse morrido”. De pessoa segura, madura e confiante passou a
obsessiva. Carente. Sombria. Em simultâneo a ex e melhor amiga foi
diagnosticada com cancro.
“Não há amor que
sobreviva ao sufocamento... assim como o fogo, o amor precisa de oxigénio para
arder”. Transformou-se numa pessoa “sem graça, chata e pobre”. A companheira
não a reconhece, não sabe o que quer, não está feliz, está sufocada: “você
mudou demais, se trancou nesse apartamento e em sua dor, em seus medos. Sinto
saudade de você, da versão de antes, que era alegre, não tinha medos..”. O que parecia ser uma suspeita, parece transformar-se num facto consumado. Aliado ao problema
prático de ter 44 anos, ser incapaz de se sustentar sozinha, sem nenhum
dinheiro guardado e “um salário de merda” que se podia resumir em “uma pessoa
financeiramente fracassada, moralmente falida e irremediavelmente sozinha”. É
assim a primeira parte do livro:“Meus dias se resumiam em esperá-la voltar para
casa e imaginar a traição”. Angustiante. Doloroso. Deprimente. Fim.
“Morrer dói, mas
renascer é lindo”
A segunda parte do
livro é o renascimento. A aventura do descobrimento. Um retiro, longe da civilização, no meio da
Amazónia, na margem do Tapajós, um rio que parece um mar, com um grupo de
pessoas (desconhecidas) da esquerda
caviar, a comerem grãos, acaí e
tapioca. Agora uma pessoa que não era mais amada, desejada nem cortejada.”Uma
pessoa vazia de sentimento”. Havia-se transformado numa pedra. A pessoa que não
conseguia ficar longe do telemóvel 10 minutos. A pessoa que nasceu “para brilhar, ser
protagonista, feliz e amada” a dormir numa rede. Todas as pessoas do grupo a
incomodavam, principalmente, as que se riam muito sem motivo. Inicia-se no ritual do
rapé (planta medicinal dos índios), ela que nunca tinha usado nenhum tipo de
droga ilegal. “somente quando experimentamos o nada é que estamos prontos para
tudo". Não há nada como bater no fundo para subir às alturas. Ou a frase: “Não há
mal que dure sempre nem bem que nunca acabe”. Munida dos dois volumes de Os irmãos Karamazov de Dostoiévski e de
uma atitude fechada, arrogante, preconceituosa e julgadora foi baixando a
guarda ao longo dos dias. E nesta semana descobre-se e renasce. A pessoa que
estava num relacionamento que repetia a dinâmica dos pais. No retiro falam muito
de sexo, de relações que não resultaram, de medos, de novos amores, de
(in)felicidade, de fraquezas, de inseguranças. Com o passar dos dias foram
despindo-se de máscaras e muros, começaram a expor-se em público e a assumir
fraquezas. Começaram a permitir-se admitir que sentirem-se amedrontrados,
indefesos e desprotegidos não é um defeito. Todos precisamos de afecto, carinho
e um colo. Não somos autosuficientes o tempo todo. Afinal, somos algum dia, “apenas
crianças que tentam sobreviver e ser felizes neste mundo tão cruel e cheio de
expectativas”. E sai do retiro não com mágoa nem raiva da ex (que não abandonou
e não foi culpada sozinha) mas com a visão positiva de uma história linda que
construíram. Aquilo que se chama reciprocidade e simbiose: amar alguém que a
amou de volta.
Só a autora poderá
dizer o que é de facto verdade ou não. Aqui tudo parece verdade com um pouco de
ficção que não irá além da troca de nomes, número e nome de irmãos e sobrinhos
e a morte da mãe. O resto, só ela e as (os) intervenientes directas (os)
poderão atestar. Sozinha,
pegou em algumas garrafas de vinho, alguns livros e o computador e isolou-se na
montanha para escrever. O livro é o resultado da fórmula que a autora
encontrou para superar a dor. O melhor do livro é talvez o sentido de humor no
meio de tanta dor. Partes do livro são crónicas já publicadas. Textos
conhecidos. Não faz diferença para não os conhece.
Como
leitora inclui alguns dos grandes que vão de David Foster Wallace, Virginia
Woolf, Dostoiévski,
Eça de Queirós, Machado de Assis, Proust, Camus,
Chomsky, Guimarães Rosa e cita até alguns deles. Para além dos autores
que cita e lê, fala de Hopper e do Nighthawks
(que é a capa do livro Cenas da vida
americana da Clara Ferreira Alves). Hopper que pinta a solidão como ninguém.
Tempos antes de publicar
o livro, Milly disse tratar-se de “um romance auto-biográfico, género chamado
auto-ficção”. O começo é difícil, amargo,
angustiante, sentimos pena da protagonista (eu incluo ainda a solidariedade com
a pessoa que supostamente trai) mas depois tudo acaba em bem, como se de um exorcismo
se tratasse. Sem dizer nada de novo, a história não ser original e o argumento
ser (apenas) o quotidiano que é a vida, leva-se (sempre) alguma coisa e não
causa dano algum.
terça-feira, 21 de novembro de 2017
Sopro de Tiago Rodrigues
A vida é feita de improvisos, sem guião.
Parte de quem está na sombra, o ponto,
de quem (quase) tudo depende. Cristina Vidal, ponto no Teatro D. Maria
II há 39 anos, sai da sombra e do anonimato e junta-se a cinco actores em palco
para narrar (também) 28 minutos de “brancas”, histórias reais e inventadas.
Pela primeira vez, sobe ao palco e sai da penumbra que é ajudar os actores, soprando-lhes
o texto. A diferença entre uma pausa dramática, um silêncio, uma falha de texto.
Ela que vive nas sombras, na invisibilidade, escondida nos bastidores: “A
discrição do ponto deve ser proporcional à indiscrição do actor”. A Cristina
Vidal juntam-se Beatriz Brás, Isabel Abreu, João Pedro Vaz, Sofia Dias e Vitor
Roriz.
A peça tem ritmos diferentes. Dá para
rir e para chorar. Sabe-se que partes são tragédias antigas, histórias friccionadas, outras, provavelmente, verdadeiras. Nunca saberemos. O tempo passa
como um temporal e como o vento.
Há uma cena de uma despedida que é tão
física e tão bem feita que é talvez, para mim, o melhor momento da peça. Um abraço
desesperado. Quem nunca o vivenciou e sentiu?
A voz alta de Cristina Vidal só se ouve
no final para dizer os versos finais de Berenice, os mesmos que foram a
primeira branca, o primeiro esquecimento, a primeira falha de texto de uma
infalível grande actriz. Termina a ler, com a voz suave e soletrada de quem
fuma, a branca e o silêncio que também teve quando não conseguiu ajudar uma
actriz. Porque o silêncio lhe pareceu tudo.
Qual o propósito do teatro se não
questionarmo-nos e provocar-nos emoções?
“É
preciso preservar os momentos em que nos dedicamos aos mistérios, em que nos
encontramos e dizemos: aqui estamos, talvez poucos, mas certos de que, perante
a perspectiva da morte, escolhemos ficar na vida. E sussurrar em vez de gritar,
recusar o ruído do mundo, escutar a respiração que emerge do silêncio e que
sempre esteve lá, mesmo quando não a queríamos ouvir. Preservar os lugares onde
podemos ouvir o vento, o sopro do pensamento, o espírito do lugar, o momento
breve e irrepetível em que nos vemos pela primeira vez. E, sobretudo, não
morrer".
Desta vez, o ponto, para além de ouvir,
sai para receber as merecidas palmas.
quarta-feira, 15 de novembro de 2017
A(s) verdade(s) inconveniente(s)
Este é o tema que
qualquer que seja a opinião (quase) toda a gente tem razão.
Devemos ser dos poucos
países civilizados em que um investigador doutorado não tem (obrigatoriedade)
de ter um contrato de trabalho. Para quem não sabe, vou repetir ad nauseum, um aluno que acabe o
doutoramento, até há (bem) pouco tempo, o máximo que poderia ambicionar era uma
bolsa de postdoc (1495 €/mês x 12 meses, sem subsídios de férias e de Natal e os
descontos para a Segurança Social resumem-se ao Seguro social voluntário (opcional)
no valor de aproximadamente 125€/mês. Bolsa esta que não é actualizada há mais
de 10 anos.
Há uns anos, começaram
os contratos para doutorados da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), a
que foram dados diferentes nomes pelos diferentes governos. Estes eram poucos
mas garantiam estabilidade e valores variáveis consoante idade e experiência
durante 3 a 5 anos. Entre avanços e recuos, estes concursos que este governo
sugeriu que iam acabar, pelos vistos, irão continuar.
Depois existe a possibilidade,
através de projectos (Europeus ou não) de as Universidades contratarem
investigadores doutorados por determinado número de anos. Neste caso, não são
sujeitos ao regulamento rígido da FCT que só permite que doutorados com 3 ou
mais anos sejam elegíveis. Nestes casos, apesar do concurso ser público, e da
meritocracia ser alegada, os critérios de selecção são mais discutíveis.
Este governo teve a pertinente
ideia de considerar que todos os bolseiros
doutorados que eram financiados directa ou indirectamente pela FCT, há mais de três anos, que desempenhem funções em
instituições públicas têm direito a um contrato. Quem pode não achar? Para
isso propôs que todas as universidades abram concursos para os candidatos
elegíveis. O Ministro da Ciência anunciou hoje o princípio de 2018 para iniciar
o processo de contratação, a termo, de três mil investigadores doutorados. O
diploma, que aguarda publicação em Diário da República, define que a FCT suportará
os custos da contratação de doutorados. E aqui começa o eterno problema. Não
parece um cenário utópico? Eu acho óptimo. Aplaudo de pé. Mas é (mesmo)
verdade? As universidades, nomeadamente de Lisboa e Coimbra, têm alegado
constrangimentos orçamentais para a contratação de investigadores doutorados.
Eu, só acredito, vendo.
No Domingo, o grande
cientista António Coutinho (ex-director do Instituto Gulbenkian de Ciência e actual Presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa)
escreveu um texto no Observador que dá
que pensar. Começa por escrever que "Os
dados oficiais da FCT mostram que o orçamento realizado em 2016 (367M€) foi
inferior ao do ano anterior (372M€). O investimento na ciência é propaganda
política". Quem diz isto é o insuspeito Prof António
Coutinho. Faltou ainda dizer que os resultados do concurso dos projectos FCT
não estão previstos para antes do início do próximo ano. Este governo vai
acabar a legislatura com 2 concursos de projectos atribuído em 4 anos...
Também, no início da
semana, a excelsa cientista Maria de Sousa foi galardoada com o prémio da
Universidade de Lisboa. Na nota biográfica disponibilizada estava escrito: "Profundamente estimada e muito respeitada na comunidade
científica, Maria de Sousa é também uma humanista que cultiva o gosto pelas
artes, pela história e pela poesia”. É que tal como dizia Abel Salazar: “Um
médico que só sabe de Medicina nem de Medicina sabe”. E esta mulher,
intelectual, médica, cientista com a idade que tem é um orgulho. Também, mas
principalmente, por ser mulher. Elogiou
publicamente os alunos de doutoramento: “Permitam-me um parêntesis de
reconhecimento dos nossos estudantes GABBA”. A cientista a não esquecer
quem ajudou e quem a ajudou. Diz muito da pessoa que é. E destacou dois
momentos: explosão do número de bolsas de doutoramento da responsabilidade do
Ministro Mariano Gago e de investigadores da FCT. Destes últimos, já mais seniores, e que se
tornaram directores de grupo (entre os 40 e 50 anos), e que são “ os
recipientes de grandes bolsas internacionais” mas “a universidade parece não
querer ou não poder integrá-los e o Governo vai implementar um decreto-lei que
vai empregar milhares de postdocs com 6 anos de doutoramento”.
Quando
dois dos maiores cientistas (jubilados) do nosso país, que podiam estar no
conforto do silêncio sobre um problema que não os afecta directamente, falam na
mesma semana dos mesmos (e mais) problemas na ciência em Portugal, algo vai
muito mal.
quinta-feira, 9 de novembro de 2017
A minha lista de música, hoje
“Canção do
engate”, António Variações. A minha mãe deve ser uma das maiores fãs do António
Variações. Lembro-me do dia da morte
dele, no dia 13 de Junho, dia de Santo António. Tinha 5 anos. Acho que foi a
primeira vez que soube o significado de morte: nunca mais voltar, para sempre.
E a minha pergunta foi: “Como morreu se está a a cantar?”. Admito muito a
história de vida deste homem. Um rural de uma aldeia recôndita perto de Braga,
chamada Fiscal. Um incompreendido, um excêntrico, um ET que nasceu antes do
tempo e numa terra onde não o entendiam. Um menino da província que não aceitou
a sua sorte de ser marceneiro “e andar todo sujo, de ter uma vida normal, casar
com uma mulher e ter filhos”. Era, também, homossexual e uma uma das primeiras
figuras públicas a morrer de SIDA e que a família, até hoje 33 anos depois da sua morte, insiste
em ocultar e/ou desmentir.
“The man who sold the world”, David Bowie. Podia ser
qualquer uma do Bowie mas esta é também uma das versões dos Nirvana que foi
outra das bandas da minha adolescência.
“It´s no good”, Depeche
Mode e “Sub-16”, GNR .Não sei como é que os CDs ainda existem. Foram
os que mais ouvi na minha pré/adolescência.
“Miracle of love”, Eurythmics e “Whiter shade of
pale”, Annie Lenox. É a imagem do
fecho das matinees no Club 84 em Braga com aquelas bolas gigantes das
discotecas nos anos 80/90.
“Vapor barato”, Gal Costa com Zeca Baleiro. A letra é de Wally Salomão. Consta-se que Wally Salomão disse a Gal (que acrescentou “Graças a Deus”que não estava no poema): “Gal, dinheiro não rima com Deus”.
"Neighborhood #2 (Laika), Arcade Fire. A primeira vez que os vi em palco, com as cabeças cobertas com capacetes a servirem de bateria, nunca esquecerei.
“Fix you”, Coldplay. Num hotel em Shanghai com duas das minhas grandes amigas, no escuro do quarto, iluminado apenas pelas luzes da cidade a panicar antes de uma apresentação oral.
“Vapor barato”, Gal Costa com Zeca Baleiro. A letra é de Wally Salomão. Consta-se que Wally Salomão disse a Gal (que acrescentou “Graças a Deus”que não estava no poema): “Gal, dinheiro não rima com Deus”.
"Neighborhood #2 (Laika), Arcade Fire. A primeira vez que os vi em palco, com as cabeças cobertas com capacetes a servirem de bateria, nunca esquecerei.
“The greatest”, Cat Power. Esta música foi-me enviada de madrugada por uma das minhas grandes amigas numa altura que eu estava a panicar para uma apresentação oral que faria em Memphis. (Ainda) achava que havia coisas (profissionais) pelas quais valia a pena chorar. Hoje não acho. Mas esta música ficou-me para sempre. E ainda hoje a ouço quando preciso de força.
“Fix you”, Coldplay. Num hotel em Shanghai com duas das minhas grandes amigas, no escuro do quarto, iluminado apenas pelas luzes da cidade a panicar antes de uma apresentação oral.
“True faith”,
New Order. Ouvi-a muito quando era criança e depois levei-a comigo para
Houston. A imagem desta música é o campus de Rice University a alta velocidade de bicicleta.
“Grito”, Amália. Uma pessoa com a 3ª classe foi capaz de escrever: “Sou sombra triste encostada a uma parede”. Eu sou daquelas pessoas que dizia que não gosta de Fado, gosta da Amália. Quando fui fazer o meu doutoramento para Houston uma das minhas playlists no ipod era Amália, que incluía a Amália da voz madura, que muitos acham a pior fase dela mas que para mim é que eu mais gosto.
“Unfinished sympathy”, Massive attack A primeira vez que ouvi esta música ao vivo, num dos maiores festivais de música dos Estados Unidos (Austin City Limits Festival), chorei copiosamente. Fui com um colega e mais quatro desconhecidos a esse festival. Foi dos fins de semana mais felizes da minha vida. “How can I have a day without a night/ You’re the book the book that I have opened/ And now I´ve got to know I’ve got to know much more (…) The curiousness of your potential kiss/ Has got my mind and body aching (…) Like a soul without a mind/ In a body without a heart/ I’m missing every part”.
“Grito”, Amália. Uma pessoa com a 3ª classe foi capaz de escrever: “Sou sombra triste encostada a uma parede”. Eu sou daquelas pessoas que dizia que não gosta de Fado, gosta da Amália. Quando fui fazer o meu doutoramento para Houston uma das minhas playlists no ipod era Amália, que incluía a Amália da voz madura, que muitos acham a pior fase dela mas que para mim é que eu mais gosto.
“Unfinished sympathy”, Massive attack A primeira vez que ouvi esta música ao vivo, num dos maiores festivais de música dos Estados Unidos (Austin City Limits Festival), chorei copiosamente. Fui com um colega e mais quatro desconhecidos a esse festival. Foi dos fins de semana mais felizes da minha vida. “How can I have a day without a night/ You’re the book the book that I have opened/ And now I´ve got to know I’ve got to know much more (…) The curiousness of your potential kiss/ Has got my mind and body aching (…) Like a soul without a mind/ In a body without a heart/ I’m missing every part”.
“Girl, you’ll be a woman soon”, Urge Overkill. Faz parte da
banda sonora de um dos filmes que mais gosto do Tarantino. Nesta música é a
voz.
“Tribulations”, LCD
Soundsystem. Já fui muito feliz ao som desta música.
“Roads”, Portishead, “Into my arms”, Nick Cave e “Hope
there’s someone”, Antony and Jonhsons. Quando quero “curtir uma fossa” e
sangrar tudo é o que oiço. Depois, tudo passa.
“Hung up”, Madonna. Foi-me oferecido num
Natal. Perdi as vezes que ouvi o disco e as vezes que dancei esta música. “Time goes by so slowly for those who wait”
“Beijo sem”
Adriana Calcanhotto. Hoje escolho esta, outro dia seria outra. Mas a música que
mais gosto dela, apesar de a letra ser do Antonio Cicero, é “Inverno”. Qualquer
lista que fizesse tinha que ter Adriana Calcanhotto. Não pela qualidade vocal.
De facto, a voz dela não é o melhor. Interessa-me muito mais o que se aprende
com as letras dela e onde nos leva. As descobertas que se fazem, tal como com o
Caetano.
“Nessum Dorma”. Quando escrevo faço-o maioriatariamente em silêncio total. Nas raras excepções só consigo ouvir música clássica e ópera. Todas as óperas que assisti fi-lo porque conhecia as árias. E Nessum dorma que é o final de Turandot de Puccini, de todas as árias, é a minha favorita.
“Nessum Dorma”. Quando escrevo faço-o maioriatariamente em silêncio total. Nas raras excepções só consigo ouvir música clássica e ópera. Todas as óperas que assisti fi-lo porque conhecia as árias. E Nessum dorma que é o final de Turandot de Puccini, de todas as árias, é a minha favorita.
“Oceano” na
versão do Caetano. “Longe de ti tudo
parou/ Ninguém sabe o qu sofri/ Amar é seus deserto e seus temores”(...)”Vem me
fazer feliz porque eu te amo” (...)“Esqueço que amar é quase uma dor só”.
“Cajuína”,
Caetano Veloso. Caetano sempre. Tem uma música para qualquer estado de
espírito. Para mim Caetano é o brasileiro. Pensa bem, escreve bem, fala bem,
canta bem. Tanta qualidade num homem só. Podia ser qualquer outra mas hoje
escolhi esta “Existirmos: a que será que se
destina?” , uma versão da pergunta existencial de Heidegger. Convenhamos que um
autor que é capaz de fazer uma canção com a pergunta das perguntas não é pouca
coisa. A cena da canção remete para o encontro de Caetano Veloso com o pai de Toquato Neto (amigo e
parceiro de Caetano na época da Tropicália que se suicidou no dia seguinte ao seu aniversário) em Teresina, capital do Piauí.
"La chanson
d´Hélène", Mísia e Iggy Pop. Sou muito susceptível a vozes, para o bem e para o
mal. Esta combinação de duas vozes, tão diferentes, o cantar e o dizer, a
melodia e a língua francesa.
“Hallelujah”, Rufus Wainwright. Apesar de o
original ser do Leonard Cohen, prefiro a versão do Rufus Wainwright. No ano passado fiquei
chateada pelo prémio Nobel da Literatura ter sido atribuído ao Bob Dylan. Não
por não lhe reconhecer valor literário, isso acho que tem muito. Mas acho que
teria sido muito mais justo para o Leonard Cohen. (Mas eu tenho um problema de
fundo com o Bob Dylan que é a voz. Não consigo, até hoje, ter aprendido a
gostar da voz fanhosa, anasalada, com o sotaque arrastado do Minnesota).
“Lisboa que amanhece” Sérgio Godinho com Caetano
Veloso. Um portuense escrever tão bem sobre Lisboa só pode ser amor: “..E já
tudo pode ser/Tudo aquilo que parece/ Na Lisboa que amanhece/ O Tejo que
reflecte o dia à solta...”. Prefiro a versão com o Caetano. Torna ainda a
canção mais bonita. Existe cidade mais bonita no mundo?
“Deusa do amor”, Moreno +2. Depois dos livros de Jorge
Amado, esta é a imagem que tenho da Bahia.
“Perfect day”, Lou Reed Embora a história da
canção não seja (tão só) um dia em NY é é esta a visão romântica de um dia de
outono em NY.
“Dreamer”, Uh Huh
Her. Descobri esta banda em NY que vi ao vivo e ouvi as músicas todas em
contínuo durante meses.
“Consegui”, Arthur
Nogueira com Fafá de Belém. Uma letra do António Cicero dedicada a Wally
Salomão. Ouço em loop há semanas.
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