quinta-feira, 21 de junho de 2018

Cinque Terre

Domingo de Páscoa. Sol. Temperatura primaveril. Visitas. Nada planeado. Destino: Cinque Terre. Directo a La Spezia. Escolhemos apenas o meio de transporte: comboio. Dormi o caminho todo. Antes ainda de adormecer tive que ver um homem  a cortar as unhas e outro a coser um botão do casaco. Chegados a La Spezia percebemos o que nos esperaria: gente, muita gente. Um mar de turistas. Em La Spezia apanhamos o comboio regional que pára em cada uma das aldeias de Cinque Terre. Saímos na primeira no sentido sul para norte: Riomaggiore. Tinha lido que era a maior e onde havia o "cammino dell'amore" que ligava à próxima aldeia. Foi aqui que passamos mais tempo. Saídos dos comboio avista-se o mar e as escarpas. Começamos a descer por caminhos de terra e escadas estreitas. Nas falésias veem-se pessoas nas podes mais improváveis.  Muita gente parece arriscar a vida a troco da melhor foto. Esplanadas com vista privilegiada. Uma turista com uma mala a descer escadas sem fim com tacões. Carrinhos de bebés. Crianças com menos de quatro anos. Começam a perceber-se as primeiras queimaduras solares. Gente muito branca que não se protegeu devidamente. Chegados ao centro da aldeia há uma estrutura preparada para a avalanche de turistas. Cafés, lojas, restaurantes, casas de banho que cobram um euro, esplanadas, comidas take away, mercearias, supermercados, gelatarias...chegados ao pé do mar olhamos para trás e percebemos q este é o cenário que conhecemos há muito das Cinque Terre. Casas construídas nas falésias de cores diferentes. Impressionante, sim. Maravilhoso, com menos gente. Almoçamos sentados num as escadas fritura misti. Vários peixes que escolhemos num cartucho de papel com um palito grande. Fish sem chips. Depois de almoçarmos ficamos a saber que o caminho dela ore está fechado. Decidimos n sair na próxima aldeia mas em Vernazza. Talvez a mais pequena e menos preparada aldeia. As pessoas eram tantas que a única forma de locomoção era andar ao ritmo e no sentido da multidão. Quando finalmente chegamos ao pé do mar há um pequeno areal e alguns barcos. As esplanadas não tem um lugar vago. Não existe chão visível. Caminhamos na direcção inversa em direcção à estação de comboios. Esperamos impacientemente na fila para chegar estação. Caótico, sem organização, turistas rudes, gente que dispensávamos encontrar pelo caminho. Depois do infernal teste à paciência, tomo a decisão difícil, de não sair em mais nenhuma aldeia a não ser na última: al mare. Estava tão cansada que a primeira esplanada que avistei nem pensei, sentei-me. A vista não podia ser melhor. O Mediterrâneo imenso com a cor do mar que começa a aquecer. Numa das mesas ao meu lado vejo uma desarrumação de papéis, cadernos e livros espalhados sobre a mesa. Ao contrário de mim, escreve num computador que é uma maçã trincada. Tem como vista um mar azul imenso. Tem olhos claros, cabelo claro, pele nórdica e muitas sardas. Vive de escrever. Escreve coisas das quais gosta menos para patrocinar o grande projecto de vida, um romance. Invejo a coragem e a sinceridade.









segunda-feira, 4 de junho de 2018

O chefe

Pastelaria mais antiga da cidade. Agora, um misto de bar, restaurante. Fim da tarde. A disputa de mesas é grande. Vejo várias pessoas que desistem de esperar por uma mesa e pessoas que depois de terem uma mesa desist porque a espera é muita. Os funcionários são muitos e têm o medo estampado na cara. Parecem não poder estar parados. Falta-lhes cor. Mas a maioria dos clientes tem uma cor que eu não consigo nem depois de um mês na praia. As bebidas mais pedidas são negroni e aperol spritz. Percebo o temor dos funcionários com uma pessoa que foi muito simpática comigo e me sentou. O homem só é simpático com os clientes porque para os funcionários só grita e gesticula. Mas para os clientes transforma-se. É o chefe. Sempre ele. Austero. Cara fechada. Fato impecável. Alto. Hirto. Os funcionários temem-no. Passei uma hora aqui a apreciar. Até me distraí de ler. Apesar de toda a gente ter sido mais do que amável comigo, dificilmente voltarei.  Trabalhar não é isto. O medo não deve fazer parte da nossa vida em tempos de paz. Nada o justifica. E os chefes não podem ser ser isto.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

O mal menor


Há uns anos, quando Cavaco Silva foi pela primeira vez candidato a Presidente da República contra Jorge Sampaio, Paulo Portas subira ao púlpito da Assembleia da República para apoiar o “mal menor”. Ele que tinha sido um dos principais alvos e manchetes d´O Independente no período político conhecido como “cavaquismo.  É esta a analogia que faço com Lula da Silva.

Nunca gostei do estilo. Nem das amizades. Nem de quem se rodeou. Nem dos silêncios. Nem dos desconhecimentos. Nem do mau-gosto. Nem do apoio a Chavez. Nem da apresentação do livro de Sócrates. No entanto, com tanto anti-Luluismo, até eu me rendi. Lula da Silva é o mal menor. Não vou dizer, como li muito, que “roubou mas fez”. Não sei se roubou. Não sei se foi corrompido. Cabe à justiça esse papel. O(s) crime(s) de que é acusado já foram confirmados em duas instâncias,  mas não transitou em julgado. O principal crime de que é acusado é um triplex no Guarujá. Ou seja, o equivalente em Portugal a ter um apartamento no Barreiro. Não é um apartamento em Ipanema ou no Leblon ou uma mansão em Trancoso ou Fernando de Noronha. Mas se é verdade, demonstra um imenso mau gosto e a aptidão para “vender-se” por pouca coisa. No entanto, até hoje, não vi prova nenhuma que demonstre que o apartamento era realmente seu. Mais, a ser verdade, 12 anos? É inegável que Lula da Silva tem imensos opositores, principalmente a alta burguesia e alta sociedade brasileira que vive no século XXI mas com tiques de século XVIII. Esta elite branca, de direita, milionária, priviligiada, que vive como (quase) nenhum lugar do mundo. Talvez algo comparado a alguns países de África em que só há miséria e fome e do outro lado esbanjamento. Esta elite perdeu direitos com a subida de Lula ao poder. Em vez de 5 a 7 seres humanos para tarefas domésticas correntes que incluiam: motorista, jardineiro, porteiro, faxineira, diarista, cozinheira, babá pagos a preços abaixo de electrodomésticos, começaram a ter que diminuir os seus luxos. Estas pessoas começaram a ter direitos e a não serem tratados como antes da abolição da escravatura.

Agora façamos o exercício de ser verdade que Lula da Silva é corrupto. Outros políticos como Aécio Neves que tem uma ligação difícil de explicar com um helicóptero com 500 kg de cocaína e que foi apanhado em escutas telefónicas a sugerir matar alguém que sabia muito. Temer que é Presidente sem ter sido eleito e suspeito de muitos crimes mas não foi a julgamento porque a política, nomeadamente o Congresso brasileiro permitiu que assim fosse. Aquele Congresso eleito pelos brasileiros, em eleições livres e democráticas, votou pelo impeachment de Dilma e não permitiu que Temer fosse julgado. Não sei quem naquele congresso brasileiro é isento de mácula.

A Isabel de Moreira que se intitula como Constitucionalista ter com cartazes “Lula livre” é uma anedota. Aliás, acho que a Isabel Moreira está no partido errado. De facto, ela deveria ser coerente e filiar-se no Bloco de Esquerda.

Ter visto José Sócrates, acusado de crimes semelhantes em Portugal em muito maior, comentar a prisão “política” de Lula da Silva foi lindo. Não conhecesse a excelente capacidade de argumentação combinada com a mentira compulsiva e eu acharia que estava a ouvir um dos mais brilhantes pensadores do séc XXI.

O mais curioso é que as pessoas que usam os argumentos anti-direita, que eu corroboro na íntegra, se esqueçam das situações políticas em Cuba e Venezuela. Os eternos mitos que estampam t-shirts por todo o mundo com as caras de Fidel e Che. Uma ditadura de quase 60  anos que fez milhares de exilados políticos e causou milhares de mortes no mar em fugas clandestinas. Nunca nos esqueçamos de Reinaldo Arenas. E a Venezuela, senhores? Primeiro Chavez, depois Maduro. Preciso de descrever a situação que lá se vive e que a comunidade internacional insiste em ignorar e a esquerda não aborda deliberadamente?

sexta-feira, 30 de março de 2018

Seremos todos (algum dia) Marielle


O EUA é esse país capaz do melhor e do pior. A mais antiga e mais usada linha celular foi criada sem consentimento da sua dadora, Henrietta Lacks, uma mulher negra, pobre, nos anos 50 que sofria de cancro. O país da Rosa Parks que se recusou dar o lugar a um branco mas que ainda existe o Klu Klux Klan. O país que viu nascer e morrer assassinados John F. Kennedy, Martin Luther King e Malcolm X. O país que foi capaz de eleger o primeiro Presidente negro mas foi também o país que preferiu um louco para Presidente em vez de escolher uma mulher. O país onde na semana passada o The New York Times reconstruiu, baseado em imagens de comeras de hotel, os dias do atirador que matou dezenas de pessoas em Las Vegas. Carregou várias dezenas de malas, durante vários dias, com tudo planeado, alugou dois quartos e foi o responsável pelo maior número de mortes resultante de um tiroteio. Um país onde entre 2006 e 2009 me era pedida identificação para comprar cigarros mas onde comprar uma arma ou várias era (mais) fácil. O país onde várias pessoas mataram outras pessoas em tiroteios só porque sim, por razões políticas, por ódio, por racismo ou sem se saber a razão e porque qualquer pessoa pode ter acesso a uma arma. Um país cuja capital parou para dizer não às armas. Um país que tem adolescentes capazes de se mobilizarem e de discursos como os que se fizeram na semana passada em Washington é um país com futuro e onde a esperança não está (de todo) perdida.

Depois, na América do Sul, temos o Brasil. Há anos que se morre por nada. A vida (lá) vale muito pouco. Tenho um amigo que é um acérrimo defensor de Lula. Por causa dele, diz ter conseguido estudar e chegar a um dos mais altos graus académicos. Ele que é, como se apresenta, por desordem alfabética: brasileiro, pobre e preto. Pior, no Brasil, só se fosse mulher, favelado e homossexual. Há umas semanas foi executada uma vereadora Câmara do Rio de Janeiro, do partido político PSOL. Ainda não se sabe quem foi nem a razão. Sabe-se (apenas) que foi uma execução política. Nunca tinha ouvido falar dela. Mas conhecia Marcelo Freixo o candidato a Perfeito do Rio de Janeiro e o deputado federal Jean Wyllys. Marielle que reunia tudo o que uma pessoa no Brasil de agora não pode ser: nasceu pobre, na favela da Maré, era preta, mulher e lésbica mas estudou e chegou a vereadora. Era uma activista, uma voz incomoda, (quase) sem medo. Ousou denunciar a extrema violência da polícia militar nas zonas pobres e era a personificação de que estudar vale a pena.  Mas quando pessoas que apesar de estereotipadas têm voz são silenciadas, já não basta só ter medo nem vir para as ruas. Nunca gostei de Lula mas tenho que aceitar que de tudo o que aconteceu nos últimos anos foi o melhor. Quando no Brasil existem políticos com o baixíssimo nível que vemos na televisão todos os dias, quando o Perfeito do Rio é um Bispo da IURD cheio de cirurgias plásticas e cabelo pintado que quer tornar a cidade mais bonita pintando as fachadas das casas das favelas, quando se ausenta da cidade no Carnaval, a época mais crítica da cidade, e quando insiste num estado sem ser laico; quando um dos possíveis candidatos à Presidência do Brasil é um reaccionário, apoiante da ditadura militar, que numa discussão pública afirmou que uma deputada merecia ser violada, que acha que a solução da violência no Rio está em bombardear as favelas; Quando os maiores intelectuais brasileiros dizem que os alunos saem das escolas analfabetos funcionais. Quando quem não está a favor, está contra. Quando não existe meio termo. Quando as pessoas destilam ódio e ameaças nas redes sociais. Quando se é julgado e seleccionado pela cor de pele... resta perguntar: o Brasil (ainda) tem solução? É  por isso que eu sendo branca, não sendo de esquerda, muito menos caviar, de não ser burguesa, digo: devemos ser todos Marielle!

quarta-feira, 28 de março de 2018

Uma volta de 180 graus


Tenho 38 anos. Um emprego pela primeira vez na vida. Um contrato por 2 anos, com tudo a que um trabalhador tem direito. Mas, para isso, tive que mudar a minha vida toda. Deixei a minha casa com tudo o que de confortável e conhecido tem. Os hábitos. Uma cadela que encontrei quando ela tinha 4 meses e da qual achei que nunca me iria separar. A família, Os amigos.

Não é a primeira vez que mudo na vida. Já vivi em 3 cidades diferentes. Esta é a quarta. Braga, Houston, NY, Genova. Durante anos, com tantas mudanças de casa e 3 cidades, não me sentia em casa em parte nenhuma. Mas depois de alguns anos seguidos em Braga comecei a sentir que pelo menos aquele apartamento fora sido preenchido à minha imagem. Começar de novo com uma mala de 32 kgs, uma mala de mão e uma mochila. Tudo o resto ficou para trás. Desenhei um cenário catastrófico. Pensei que não ia gostar de nada e criticar tudo. Está a ser mais fácil do que pensava. Diria que são duas coisas muito importantes: o tempo e as pessoas. As pessoas são o melhor. Acolhedoras. Simpáticas. Mesmo sem partilharmos a mesma língua conseguimos perceber-nos. Falam muito com as mãos. Falam alto. Riem muito. São parecidas, nas qualidades com os portugueses. Felizmente, como diria o Eça não têm o aspecto desconsolado dos doentes dos intestinos. Vivo pela primeira vez na vida em frente ao mar. Mas não há a angústia do mar. Apesar de haver dias com ou sem chuva, cinzentos, o mar nao adquire aquela cor depressiva cinza chumbo. Não tenho elevador. Vivo num quarto andar. O local de trabalho é bom. Deram-me um computador, 3 batas brancas e duas azuis. Tenho 2 cacifos e uma secretária. A cantina e o bar são óptimos. Bom, bonito e barato. Comida boa a preço de cantina. Estou viciada em cappuccinos. E na simpatia das senhoras do bar. Sinto-me acolhida. Aqui não tenho carro. Felizmente, dizem os meus amigos. Com as ultrapassagens  que fazem pela direita e esquerda, não demoraria muito a causar uma tragédia com as milhares de scooters. Um destes dias deixaram-me em frente a casa, e apesar do aviso  para ter cuidado com a porta e com as scooters, causei estragos. Ando a pé, de metro e de autocarro. Acho os transportes eficientes, embora o metro feche às 9 da noite, ridiculamente. Os táxis são caros mas muitas vezes, por preguiça, não lhes resisto. Ainda tenho uma casa praticamente vazia, só com o indispensável. Mas dizem-me que agradável, parece uma casa de praia. Ainda não tenho internet ilimitada nem telemóvel italiano. Foi este o grande problema encontrado e que mais demorei a resolver. Todos os outros foram rapidamente solucionáveis. Não tenho televisão nem vou ter, eu que não adormecia sem ela. Não tenho fotografias. Trouxe 10 livros. Ainda me custa olhar para os cães e para crianças e não ter saudades. Falo todos os dias com as mesmas pessoas que falava em Portugal, até mais. Saudade é a palavra que mais me ocorre desde que me mudei. Quem, quando está sozinho, não se intimida com o silencio? Planos, ao contrário do que esperava, não faço a longo prazo. Só (ainda) não consigo conjugar os verbos no futuro. No presente, sempre no presente. Sobre o texto da mudança, uma das minhas amigas achou-o triste. Falhei o objectivo porque nada nele é triste.
Tenho dinheiro, mais do que algum dia. Mas quero coisas que ele não compra.




domingo, 25 de março de 2018

O Feliciano


Se eu quisesse ser má diria que alguém com este nome não augura nada de bom. O Feliciano, tal como o Relvas, o Vara, o Sócrates, mais outros tantos políticos menos conhecidos, e assessores  dos aparelhos partidários são o resultado do “chico-espertismo” português. Um país onde o tratamento por “doutor” e “engenheiro” chegou (quase) ao nível do Brasil. As universidades privadas proliferaram como fungos nos anos 90. Venderam licenciaturas aos betos jotas dos partidos que não tinham notas para entrar nas universidades públicas, aos betos que não conseguiam terminar os cursos nas universidades públicas, aos trintões que queriam uma licenciatura que lhes concedesse o tratamento pelo grau e/ou lhes legitimasse a desempenho profissional. Para melhorar tudo, esta semana, ficamos a saber que os licenciados pré-Bolonha vão ter equivalência a Mestrado. Estamos conversados quanto a facilitismos.

Voltando ao Feliciano, é outro dos casos que envolve a dupla maravilha de combinar um curso tirado numa universidade privada com a demora da obtenção do curso. Dir-me-ão que a conclusão desta combinação é uma generalização e um preconceito. Pode ser, mas convido quem tiver tempo e paciência a analisar os políticos e os seus boys que tiraram os cursos em universidades privadas. Infelizmente, a política portuguesa está cheia destas ervas daninhas que ajudam a sustentar os partidos e os governos.

Não é preciso ter tirado um doutoramento numa universidade americana ou em colaboração com uma universidade americana para saber que quando se é aluno de doutoramento ou aluno de doutoramento visitante, o processo começa com uma carta/convite da universidade americana em inglês, nunca em português. Juntamente com isso vem a obtenção do DS e do visto J1. O esperto do Feliciano não só demorou o dobro dos anos da duração da licenciatura numa universidade privada como se aproveitou de uma carta de uma Professora de Berkeley em português a dizer que orientaria o seu doutoramento. Como todos os espertos, aproveita-se de tudo o que pode. Dizem à boca pequena que mal fala inglês e que, quando contrariado, diz mal de toda a gente e que queria chegar a Ministro, coisa que nunca aconteceu. Mas, pasme-se, chegou a Secretário de Estado em dois governos e foi chefe de gabinete de Passos Coelho (que não gostava dele... imaginem se gostasse). Li das coisas mais anedóticas sobre este senhor desde ter publicado mais de 20 livros a fazer-se anunciar no Bombarral à sua chegada com buzinadelas do motorista oficial.

Mas onde eu quero chegar é que Felicianos há muitos. E o exemplo do Feliciano é um dos exemplos de como se ascende na vida. Depois, também há os que sem mácula e sem nada que se lhes aponte têm uma biografia irrepreensível e repleta de graus mas subiram na vida porque se encostaram às pessoas certas. Porque se é verdade que há muita gente que não consegue tirar uma licenciatura sem ter sido paga, há muita gente que não se pode gabar de grande inteligência mas ter conseguido tirar um doutoramento. É célebre a frase: “um burro com livros é sempre um burro”. Há muitos anos uma pessoa que era respeitadíssima, e que caiu anos depois em desgraça, dizia uma coisa que nunca esqueci: “ não interessa o que diz a tua tese mas quem é o teu orientador”. De facto, a vida depois de 38 anos ensinou-me que é (quase) uma verdade absoluta.  Com raras excepções, nunca chegaremos a lado nenhum  sem um telefonema ou sem uma (boa) carta de recomendação.

Pedro Passos Coelho chegar ao topo da hierarquia académica pelo simples facto de ter sido Primeiro-Ministro causou grande indignação.  Um licenciado por uma universidade privada, depois dos 30, leccionar numa Universidade pública com a equiparação a Professor Catedrático Convidado? Que sacrilégio! Concordemos ou não, não é ilegal. Podemos lembrar-nos de outros como Vitor Constâncio e Guilherme de Oliveira Martins.  O que a mim me causa perplexidade e azia não é ele ser professor catedrático convidado numa universidade pública, que é legal,  mas eu não poder fazer o mesmo. E nunca me esqueço do comentário infeliz que fez sobre aconselhar os melhores qualificados a emigrar. Foi o que fiz. Na inevitabilidade de não conseguir no meu país um emprego, conseguiu-o no estrangeiro, aos 38 anos pela primeira vez. O que me faltava?

quinta-feira, 22 de março de 2018

Mudança

Munida de uma mala grande, uma mala de mão e uma mochila tenho a sensação de que faltará sempre alguma coisa. Desta vez, como sempre, não será excepção. Combinara com o meu irmão duas horas e quarenta minutos antes, como pessoa prevenida que sou. Uma amiga iria ter comigo ao aeroporto. Na última confirmação do voo percebo que confundi 16 com 5 da tarde. As horas em 24 números em vez de doze (diferenciadas apenas pela terminologia de manhã ou de tarde) sempre foram uma dor de cabeça, como distinguir a esquerda e a direita. Percebo que estou atrasada e nenhum dos elevadores funcionava de manhã. Entro em pânico. Ligo ao meu irmão se há alguma possibilidade de me ir buscar imediatamente. Ligo à minha amiga para desistir de ir ter comigo ao aeroporto. Como detesto despedidas até o universo ajudou. A viagem até ao aeroporto parece um voo. Sem tempo nem para olhar para trás, o meu foco é entregar a bagagem. Descubro que a mala tem 12 kgs a mais. Finjo não reparar e a pessoa da companhia aérea decide ajudar e finge comigo. Não tenho tempo de pensar em nada. Tudo em mim é calor. Voo para Munique, sem sobressaltos, respirando fundo. Descubro, mais rápido do que esperava, que me esqueci do caderno onde tomo notas. Nada de muito dramático. Mas como gosto sempre de encontrar qualquer coisa, agarro-me ao que há. A espera em Munique é rápida. Sigo para Génova num avião assustadoramente pequeno. Finjo ignorar. Passados uns minutos, sentada no lugar que me foi atribuído (junto à janela e sem ninguém ao lado), começo a transpirar (coisa nada comum). Estou gelada, tremo, os dentes batem, as gotas de água escorrem-me pela testa e pescoço, a minha palidez denuncia-me porque tenho olhares a seguir-me. Tenho falta de ar. Estou em pânico mas tento não perder a pose. Demorada e disfarçadamente tiro as bombas de asma e finjo que tudo está controlado. Minutos depois estou bem, só o cabelo molhado mostra o que se passara. Tenho o R. à minha espera no aeroporto de sorriso aberto. Sinto-me em casa com ele. Saímos do aeroporto e o que mais me choca são as ruas cheias de prostitutas. Contrariamente ao que seria de esperar, são caucasianas, não têm aspecto de cadente, são jovens e são muitas. O R. deixou-me no hotel que eu escolhi pela proximidade do meu apartamento. Nunca mais voltarei a este hotel e desaconselho-o a toda a gente. Supostamente era um hotel quatro estrelas. Mas disso nem a decadência lhe restava. O recepcionista era antipático, ainda existia chave, as alcatifas estavam sem cor e em mau estado, o quarto era pequeno e desconfortável, a tv era do tamanho de um ecrã 15’’ e a limpeza deixava a desejar. Lembro-me de ter comentado com uma amiga o quão mau era o hotel e respondeu-me que era um bom sinal porque sentir-me-ia muito mais confortável no novo apartamento. Não vou alongar-me nos comentários sobre o pequeno-almoço porque nem nos motéis dos Estados Unidos é tão fraco. A segunda pessoa antipática que me apareceu foi o taxista que mostrou o seu desagrado quando lhe disse que o meu apartamento era a menos de 1 Km. Cheguei à hora marcada para assinar contrato e o apartamento pareceu-me bem melhor do que nas fotos. Na opinião dos locais, a localização não é das melhores mas eu acho conveniente. Fica a 2 minutos da entrada do metro, em frente ao porto de Génova, tem mercearia e quiosque e outras lojas de conveniência. As ofertas de cafés e restaurantes são poucas. E o bairro é multicultural e multi-étnico. Tal como no primeiro apartamento que vivi em NY, o prédio não tem elevador e vivo num quarto andar.

Passada a fase de tudo parecer fácil, como receber o ordenado numa conta portuguesa e o pagamento do depósito e renda através de transferência bancária de uma conta portuguesa para uma conta italiana, começou a aventura: ter internet e telemóvel. Fui a um centro comercial para encontrar várias  empresas possíveis. Logo na primeira, praticamente desisti. Não poderiam ter sido mais simpáticos comigo e falavam inglês.  Depois mais de uma hora, de várias explicações, tentativas de pagamento com cartão de crédito português chegaram a um veredicto: só poderia fazer contrato de internet com um cartão de crédito italiano ou um cartão especial que se adquire nos correios chamado POSTPAID EVOLUTION. Os simpáticos disseram-me para ir aos correios italianos (Poste Italiane). Depois de andar 15 minutos a pé, disseram-me que para ter este cartão só com o código fiscal original (eu só tinha uma cópia) e o “attestato di soggiorno”. Regresso à loja e informo os simpáticos que não é possível. Como estou num centro comercial, aproveito e compro um microondas e improvisei o transporte com um carrinho de ir às compras. Chegada a casa subo quatro andares com o microondas. Volto ao hotel, onde deixei a mala com 35 kgs e regresso a casa de táxi. Demorou exactamente 25 minutos entre paragens entre degraus, vãos de escada e vontade de deixar (simplesmente) cair a mala no sentido da gravidade... O resultado foi bolhas nas mãos idênticas a quem levanta ferro nos ginásios, obras e afins.





domingo, 31 de dezembro de 2017

"Tudo o que ganhei e tudo o que perdi"

Perdi o meu Blackberry com tudo o que tinha lá guardado. Tantas coisas insubstituíveis. Só me resta a memória. Perdi uma caneta de prata com a qual escrevia diariamente. Perdi quase uma dezena de livros que tanto lutei por eles mas alguém julgou tratar-se de lixo.Uma camisa que adorava.  As chaves do carro, duas vezes. Reencontrei-as.Como perder pode ser difícil. Resta aceitar. Há alguma coisa que não se perca ou que não se possa perder?

Felizmente, não perdi ninguém. É o melhor de tudo.

Um ano bom. Grande. Intenso. Longo. Mudanças. Um ciclo que termina. Ensinamentos, tantos. Aprendizagem. Novos caminhos. Novos primas. Buscas.

Passado. Presente. Futuro. Medo. Esperança. Conseguir perceber, finalmente. Aceitar. Não sem dor. Mas espera-se, sem mágoa. Crescer é isto. Ultrapassar.

Do que temos medo, afinal?  O que receamos que aconteça?
Será que o melhor (ainda) vem?
O que será, será.
“Existirmos, a que será que se destina?”





quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Até que as pedras se tornem mais leves do que a água

Mais uma vez, António Lobo Antunes (ALA), não escolheu o livro que escreveu. O livro é que o escolheu. Não esperava voltar a África, mas não conseguiu. Estava mais interessado na relação pai-filho. No entanto, (mais) um regresso a Angola, à guerra colonial, que nunca poderá ser esquecido. Tudo o que está no livro é verdade, nada foi inventado.Limitou-se a contar o que tinha vivido na guerra. Como o próprio assume, foi um livro muito difícil e complicado de escrever. Passou noites horríveis, ele que normalmente dorme bem, não tem pecados. Com sonhos maus e uma angústia enorme. Tudo isso voltou. O sofrimento continua presente.O sofrimento nunca mais acaba. “Ninguém desce vivo de uma cruz”. A guerra “deu cabo da juventude, da nossa idade madura e da nossa velhice”. Uma crueldade imensa. Ninguém ganhou esta guerra.

 “Ajuda-me a esquecer”.
Neste livro, tudo parece repetir-se. Mas tudo parece novo, ao mesmo tempo. Como se estivessemos a ler estas histórias do mal que a guerra fez a tantos, pela primeira vez. Parece um louvor à memória dos que morreram e dos que sobreviveram mas que parecem continuar lá. O que a guerra lhes roubou, senhores. Não saíram da guerra. Quem voltou de lá não voltou igual. Diferentes dos que cá ficaram. “Fugidios, bruscos, quase todos estranhos...”. As marcas permanentes que a guerra lhes deixou. A miséria da guerra. Sonhos permanentes com África que se repetem. Os medos e os pavores. Os insultos velados e explícitos. As imagens horríveis. A loucura. Os suicidas que se mataram sem explicação. A vergonha de expressar sentimentos. Violência atroz. Pessoas sem cabeça e sem orelhas. A ocultação da verdade inconveniente. Nunca contam o que se passou na guerra. A mentira piedosa. Sonhos de guerra onde acordam suados e exaustos.O medo, a vergonha e a ignorância de mostrar afecto, consolo e carinho. Sempre a viverem no passado e da memória que lhes ficou. Culpa e mágoa. A pena. A cabeça que não pára. Racismo. Machismo. Homofobia. Homossexualidade. Sexo. Violações. Infidelidade. A consciência ou a falta dela. Desânimo. Destruição.

Conta a história de um alferes que trouxe uma criança da guerra de Angola. Tudo gira à volta da matança do porco. Como em todos os livros de ALA, não é o argumento que importa, este sempre simples, mas a narrativa e a forma. Este é o segredo. Vários narradores, Prolepses e analepses. Espirais. Polifonias. Narradores vários. Descrições cinematográficas.

Os personagens raramente são bonitos. Os personagens quase todos sem nome: a filha, o filho preto, o alferes, Sua Excelência, a viúva, a prima, Fernandinho. Na sua maioria tristes, infelizes, melancólicos, mas todos com uma sensibilidade acima da média.

O filho preto que trouxe de Angola depois de lhe matar a mãe e o pai. Todos o avisam que quando crescer se vingará. Foi trazido por solidão ou remorso? Por amor ou como um troféu? Casou-se, num casamento infeliz, com Sua Excelência, uma branca que o despreza e o troça. Humilde. Subsidiário. Obediente.Desde o início há um presságio que o filho matará o pai no dia da matança do porco: “Lembro-me da minha mãe sem orelhas...Lembro-me do meu pai de bruços no chão... Lembro-me que você os matou... matou a minha mãe, matou o meu pai, destruiu tudo o que pôde e no entanto passou-lhe uma coisa qualquer por dentro que o obrigou a impedir que me matassem... juro que não me apetecia matá-lo, gostava dele...”.

A filha “sempre zangada, amarga, fala-se-lhe e não responde, sorrimos-lhe e permanece séria”. Sempre sozinha. Indiferente. Mais esquiva do que os gatos. Largou os estudos. Ninguém nunca a questionou, obrigou, aborreceu. Quis largar os estudos, largou. Aceitaram sempre. Nunca lhe ralharam. “acho que não gosto seja de quem for, de que criaturas podia gostar e de que serve gostar, o que se faz com gostar, o que se ganha em gostar...”. Drogada. Ressacada. Descuidada.

A mulher sempre discreta em tudo desde o primeiro dia. Tímida. Educada. Sem aborrecer ou incomodar ninguém. Começou a sofrer de guinadas no rim. Descreve tão bem a dor com imagens. Descrições cinematográficas. “pedras no rim a comerem-na sem descanso com aqueles dentinhos horríveis, a alcançarem-lhe o fígado...é o sangue a apodrecer, é o corpo que desiste... As pedras no rim que se tornavam a pouco e pouco mais leves do que a água.  Um cancro no rim que lhe invadiu o corpo inteiro..A degradação com a doença. O sofrimento. O declínio. A agonia. A morte a chegar.

Todos os personagens partilham desta falta de amor, uns porque têm medo de o mostrar, outros porque não o sabem fazer, outros porque não foram ensinados, outros porque acham que não foram (de todo) amados. Quem sabe um livro sobre este medo?





quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Orfãos

Numa mesa estão sentados Helen e Danny (Isabel Abreu e Tónan Quito). Parecem estar a celebrar alguma coisa. Entra Liam (Romeu Costa), irmão de Helen, coberto de sangue. Liam começa por contar uma história incongruente e depois percebemos que é muito pior. A descida ao inferno. A violência gratuita. O racismo. O preconceito. O acaso. A escolha entre o bem e o mal. A violência a troco de nada. As marcas profundas da infância. Família. Valores. O que faremos nós perante situações limite? Até onde estaremos dispostos a ir? Há limites para defender os nossos? O limite do amor. Desilusão.

Este jantar, dividido em quatro actos, que se separam com luzes psicadélicas e um som ensurdecedor a lembrar o filme “Irreversible” . Descobrimos nesta hora e quarenta segredos, omissões, mentiras, encobrimentos de quem se ama. Qual a fronteira ética e moral? O que são os valores? O que uns fazem pelos outros, o que têm que mostrar para serem aceites e não se desiludirem. Até onde se pode ir? Onde está o limite?

Poderíamos reduzir Liam como psicopata, Helen como má que faz de tudo para proteger o irmão e Danny como o bom, cheio de valores. Mas perceberemos que nada é estático e que o mundo não se divide entre bons e maus. Tudo muda, de repente.

Saímos a pensar no que, por amor, seremos capazes de fazer por alguém.Até que ponto estamos dispostos a ir para proteger ou salvar outra pessoa? Mesmo que não haja salvação possível nem do que fugir.  

Encenação de Tiago Guedes
Texto de Dennis Kelly.
Tradução de Francisco Frazão.





sábado, 23 de dezembro de 2017

Sete anos sem ele

Estou sentada à espera de ser chamada. Falta de ar. Dia de crise. Bronquite. Bronquite asmática. Asma brônquica. Asma alérgica. Mas, de facto, não sou alérgica a muita coisa. Tenho (apenas) as imunoglobulinas aumentadas 1000 vezes. Corticoides. Cortisona. Optam pelos anti-inflamatórios que não sejam não-esteróides. Brometo de ipratrópio. Salbutamol. Budesonida. Flixotaide. Cansaço. Pieira. Gatinhos. Panela de pressão. Borbulhar. Esponja. Hiperventilação. Peixe fora de água. Insónia. Mal-estar. Cetirizina. Bilaxten. Descanso.

Hoje ela disse-me que a imagem mais remota que tem de mim é de num dia de verão muito quente, dia de tudo a arder em volta, eu a caminhar calmamente, parar e dizer: “não entres em pânico, está a começar uma crise de asma. Eu não tenho a bomba e preciso de oxigénio. Liga por favor para o INEM”. Nesse dia, o INEM chegou rapidamente mas não tinham oxigénio. Lembro-me da médica me dar a mão e pedir-me calma, apesar de eu estar deitada mais do que calma. Nesse dia uma amiga que eu não sabia grávida foi comigo na ambulância a alta velocidade para o hospital. Ela não teve medo. Eu não sabia. 

O meu avô morreu há 7 anos. Passava pouco das 8 e recebemos um telefonema. Nesse dia, eu dormi em casa dos meus pais. A minha mãe foi acordar-me porque uma das minhas tias queria falar comigo. Disse-me ao telefone a chorar: “O avô morreu”. O mundo parou. Não consegui dizer nada. Petrifiquei. Como é que podia ter morrido se estava, apesar de internado, tão bem na noite anterior? Ele que sobrevivera a dois enfartes num mês. Ele que nunca estivera gravemente doente na vida. Ele que nunca estivera internado. Um enfarte atirou-o para a cama de um hospital e nunca mais de lá saiu. Perdeu o apetite. Perdeu peso. Perdeu a função renal. Perdeu quase tudo. Mas nunca perdeu a consciência. Que saudades que tenho do humor dele. Do riso dele. E conversava tanto. Que saudades do “minha neta”.

Há um ano, exactamente neste dia, entrei com a maior das confianças numa sala. E saí de lá cega de desânimo. Acho que nunca me recuperei. Ainda hoje não consigo lembrar-me do que foi dito. Vou aprendendo devagarinho a não acreditar.

Ontem mandaram dizer-me que a minha pressa não era urgente. A minha esperança morre, a cada dia, um pouco mais. Tudo é espera e incógnita. A resposta chegará algum dia. É uma questão de tempo e paciência.

E depois penso naquele senhor de 91 anos, a idade que o meu avô tinha quando morreu, que está desesperado, nota-se no tom de voz. Quer uma receita e não pode esperar porque tem muito que fazer. Tem a filha no hospital. A filha tem 59 anos e tem um cancro no rim. Já foi operada quatro vezes. E naquela casa onde eram dois, agora resta um. Está sozinho, nesta época do ano. Há sempre pior.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A B.

Adio este texto desde Agosto. Desde o dia que soube. Visivelmente impassível. Mas as forças pareceram faltar-me nas pernas. Um leve desiquilíbrio. Uma momentânea tontura. Um dia quentíssimo. Lindo. Longo. Imenso. O meu sinal externo de desespero é sempre a nausea. Um dia sentiu uma dor no peito.  Era um cancro na mama. Uma história tantas vezes ouvida e lida. A não ser que a morte nos chegue fulminante, e sem aviso, acontecer-nos-á a todos, um dia.

A B., como se diz tecnicamente, tem um bom prognóstico. Foi operada em tempo record e tem a sorte de ter um pai e um irmão médicos. E uma prima oncologista no hospital onde é tratada. Tem, felizmente, o que falta a muitos: uma roda de gente a ajudá-la neste momento difícil. Nada lhe falta. Tem amigos de fazer inveja.Nas horas piores, o irmão tratou-lhe dos efeitos secundários dos tratamentos.  Primeiro cortou o cabelo, pelos ombros, depois curto e depois rapou-o.

A B. tem mais 4 anos do que eu. Convivemos muito em crianças. Foi sempre grande. Ou eu que sempre a vi assim. Bebemos muita groselha. Jantamos tantas vezes naquela mesa redonda na sala da avó C. com um braseiro no meio. A mesa das crianças. Na semana passada fez 30 anos que a avó C. morreu. Como na morte dos meus avós foi ela que recebeu o aviso da morte pelo telefone. Lembro-me desse dia. Apesar de terem passado 30 anos.

A B. foi quem andou comigo ao colo quando entrei no curso que não queria. No tempo em que a internet era rudimentar. Foi ela que me apareceu à frente na universidade e me salvou o dia e a vida. Foi ela que me mostrou tudo. Um dia inteiro comigo. A B. não sabe o significado que teve na minha vida por causa deste dia. Foi ela que me fez ver o futuro com optimismo.  (Como a mãe dela me diz, até hoje, foi quem levou a minha mãe para o hospital naquele dia quente, 21 de maio de 1979).

Quando nos dias piores, de desânimo, sem razão, sem explicação, que não devíamos dar o significado exacerbado que não têm, é disto que nos devemos lembrar. Há sempre melhor e pior. E vivo, por opção, sempre como se o mundo fosse acabar amanhã. Quem gostamos pode faltar-nos a qualquer momento, sem aviso, de surpresa. E eu não quero deixar nada por dizer nem por fazer. Não vivo no futuro nem no passado. Vivo no presente. A aproveitá-lo e sem grandes questionamentos ou arrependimentos. Sem certezas, com muitas dúvidas. Mas sem nunca evitar nada. A aproveitar tudo. Na corda bamba. No precipício. 

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Quais as tristezas que escondemos?

Quais são as tristezas que escondemos? Quantas? Qual o tamanho? Como se mede? Alguém consegue ver? O que provocam? Como influenciam? Vale a pena? Qual o sentido? Será necessário? Depende-se dos outros? Perde-se a cabeça? Atira-se tudo pelos ares? Qual o caminho? Justifica-se? Não causa estragos? Desmorona-se? Sobrevive-se? Será bom? Será mau? Um recomeço? Uma oportunidade? Um sinal? O mundo acabará? Fim? 
Qual será a resposta (certa)?
Dias arrastados. Noites imensas.
A espera.
Não parece ter fim. 

Em que se traduz o medo?

Cidade gelada. Os primeiros flocos de neve ameaçam cair. Tudo visto da janela. Não se experimenta a temperatura real. Tudo é espera. O tempo que não passa. Pessoas apressadas. Filas. Bebés que choram. Olhos vermelhos de quem não dormiu e atravessou vários fusos horários. Roupas amassadas de quem viaja. Sítio de pouca permanência. Tudo é volátil. A escolha, para enganar o tempo, não é difícil entre escadas rolantes, elevadores ou escadas. O tempo não importa. A noite começa a aparecer. A tristeza de um fim de tarde de domingo. Tudo é impessoal. Ninguém se conhece. Sala enorme. Suposto conforto. Cadeiras de vários formatos. Sofás que parecem camas. Mesas de trabalho. Televisões várias e imensas. Música ambiente que não se percebe o objectivo. Comida à descrição. Nada apetece. Olho para tudo e nada me entusiama. Só suspiros. Inspirações e expirações longas. Leve dor de cabeça. Saberei (mais tarde) que no meio daquelas pessoas está uma que conheço (bem). Mas a coincidência hoje não funciona. Probabilidade. Acaso. Não nos cruzamos apesar de partilharmos, a mesma hora, os mesmos metros quadrados. Olhar sem ver. Tenho um nó no estômago. Não é pânico nem desespero. Tento desculpas para sentimentos piores. Tento convencer-me que é assim que deve ser. O medo de falhar, sempre ele. Há pior sentimento? A expectativa. Experimento a pior das solidões embora rodeada de pessoas. Poucas vezes na vida me senti tão apoiada. E mesmo assim, só. Conto os minutos que passam. Só quero que a hora chegue.Podia aproveitar o privilégio. A sensação de ser um momento único e talvez irrepetível.Não consigo. Sou apenas uma criança com medo.Todos tentam convencer-me que estou preparada. Só eu não consigo acreditar. Não me deixam só. Tento comer. Nada me apetece. Apetece-me coisas que não consigo comer. Horas assim.Tenho momentos. Só penso nas palavras “depois” e “sobrevivi”. Não tenho vida depois. Só antes. O meu olhar deve denunciar-me. Imagens que passam pelos meus olhos que sei de cor. Perguntas que posso não saber responder. Conversas. Telefonemas. Vozes que sossegam. Depois de cinco horas de pensamentos e hipóteses, levanto-me. Exausta. Arrasto-me. Destino seguinte. Náusea. Atraso. Neve que cai. Experimento a temperatura real. Não me protejo. Podia ter sido a primeira a subir para o avião. Troco o privilégio por sentir a neve a cair. Deixo-me estar. Sinto-me gelar. Vejo o casaco e sinto o cabelo cobrirem-se de neve.Quando não posso adiar mais, subo lentamente. Sou a última a entrar.Não podia ser mais adequada a imagem: o avião cheio e eu sozinha na executiva. Já nem medo tenho de andar de avião.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O ano em que morri em NY

Milly Lacombe começa por falar de NY. Uma descrição cinematográfica de quem viveu perto de Union Square, entre a 1st Avenue e a 14th Street, entre o East Village e o Soho. Do pequeno almoço no Jack’s Wife Freda, uma instituição. Das idas a St Mark’s Bookstore. Da sua vida de procrastinação e de proper wife “cuidava dela, da casa e escrevia, e ela completava a nossa renda”. De como era movida pela “felicidade dos ignorantes”. Da rotina de uma new yorker que era freelancer. A vida perfeita que teve um fim. Este é o mote.

O livro divide-se em duas partes: morte e renascimento. A morte chegou “em NY numa manhã ensolarada de sábado”. A pergunta das perguntas, “a mãe de todos os questionamentos: “por que existe alguma coisa em vez de nada?”,  que Caetano adaptou a: “Existirmos: a que será que se destina?”. E o livro é o desenrolar do novelo do nada em que a autora se encontra até à sua reconstrução.

Ficamos a saber que o grande problema da autora era a arrogância e que era a pessoa que deixava e que nunca a que era deixada. Nasceu para ser conquistada e amada: “eu era a mais amada, a mais desejada, a mais cortejada, a mais segura, a que não sentia ciúmes”. Que emendava relacionamentos. E percebe-se  (tão bem) como é que as relações dela duravam tanto. A pessoa que traía e que nunca a que foi traída e provou a dor que isso provoca.

“Evite ter certeza daquilo que você desconfia”. A ficção e os delírios surgem com a ida da mulher para Berlim. Sozinha em casa. Começou a questionar tudo. Perturbada. Maníaca. Chorava muito durante o dia. Angustiada. Começou a ser questionada pela inércia, pela falta de socialização. Estranha. Distante. Sentia alguma coisa diferente.Estava a ficar maluca. Não conseguia (mais) trabalhar.  A desconfiança de estar sempre a olhar para o telefone, o grande inimigo dos tempos modernos, o aparelho que mais lares estraga “deixava o aparelho com a tela sempre para baixo”. A suspeita. Sempre a dúvida. Até ao fim. Passou de uma mulher segura ao oposto. “Você me olha como se eu tivesse morrido”. De pessoa segura, madura e confiante passou a obsessiva. Carente. Sombria. Em simultâneo a ex e melhor amiga foi diagnosticada com cancro.

“Não há amor que sobreviva ao sufocamento... assim como o fogo, o amor precisa de oxigénio para arder”. Transformou-se numa pessoa “sem graça, chata e pobre”. A companheira não a reconhece, não sabe o que quer, não está feliz, está sufocada: “você mudou demais, se trancou nesse apartamento e em sua dor, em seus medos. Sinto saudade de você, da versão de antes, que era alegre, não tinha medos..”.  O que parecia ser uma suspeita, parece transformar-se num facto consumado. Aliado ao problema prático de ter 44 anos, ser incapaz de se sustentar sozinha, sem nenhum dinheiro guardado e “um salário de merda” que se podia resumir em “uma pessoa financeiramente fracassada, moralmente falida e irremediavelmente sozinha”. É assim a primeira parte do livro:“Meus dias se resumiam em esperá-la voltar para casa e imaginar a traição”. Angustiante. Doloroso. Deprimente. Fim.

“Morrer dói, mas renascer é lindo”
A segunda parte do livro é o renascimento. A aventura do descobrimento.  Um retiro, longe da civilização, no meio da Amazónia, na margem do Tapajós, um rio que parece um mar, com um grupo de pessoas (desconhecidas) da esquerda caviar, a comerem  grãos, acaí e tapioca. Agora uma pessoa que não era mais amada, desejada nem cortejada.”Uma pessoa vazia de sentimento”. Havia-se transformado numa pedra. A pessoa que não conseguia ficar longe do telemóvel 10 minutos.  A pessoa que nasceu “para brilhar, ser protagonista, feliz e amada” a dormir numa rede. Todas as pessoas do grupo a incomodavam, principalmente, as que se riam muito sem motivo. Inicia-se no ritual do rapé (planta medicinal dos índios), ela que nunca tinha usado nenhum tipo de droga ilegal. “somente quando experimentamos o nada é que estamos prontos para tudo". Não há nada como bater no fundo para subir às alturas. Ou a frase: “Não há mal que dure sempre nem bem que nunca acabe”. Munida dos dois volumes de Os irmãos Karamazov de Dostoiévski e de uma atitude fechada, arrogante, preconceituosa e julgadora foi baixando a guarda ao longo dos dias. E nesta semana descobre-se e renasce. A pessoa que estava num relacionamento que repetia a dinâmica dos pais. No retiro falam muito de sexo, de relações que não resultaram, de medos, de novos amores, de (in)felicidade, de fraquezas, de inseguranças. Com o passar dos dias foram despindo-se de máscaras e muros, começaram a expor-se em público e a assumir fraquezas. Começaram a permitir-se admitir que sentirem-se amedrontrados, indefesos e desprotegidos não é um defeito. Todos precisamos de afecto, carinho e um colo. Não somos autosuficientes o tempo todo. Afinal, somos algum dia, “apenas crianças que tentam sobreviver e ser felizes neste mundo tão cruel e cheio de expectativas”. E sai do retiro não com mágoa nem raiva da ex (que não abandonou e não foi culpada sozinha) mas com a visão positiva de uma história linda que construíram. Aquilo que se chama reciprocidade e simbiose: amar alguém que a amou de volta.

Só a autora poderá dizer o que é de facto verdade ou não. Aqui tudo parece verdade com um pouco de ficção que não irá além da troca de nomes, número e nome de irmãos e sobrinhos e a morte da mãe. O resto, só ela e as (os) intervenientes directas (os) poderão atestar. Sozinha, pegou em algumas garrafas de vinho, alguns livros e o computador e isolou-se na montanha para escrever. O livro é o resultado da fórmula que a autora encontrou para superar a dor. O melhor do livro é talvez o sentido de humor no meio de tanta dor. Partes do livro são crónicas já publicadas. Textos conhecidos. Não faz diferença para não os conhece.

Como leitora inclui alguns dos grandes que vão de David Foster Wallace, Virginia Woolf, Dostoiévski, Eça de Queirós, Machado de Assis, Proust, Camus, Chomsky, Guimarães Rosa e cita até alguns deles. Para além dos autores que cita e lê, fala de Hopper e do Nighthawks (que é a capa do livro Cenas da vida americana da Clara Ferreira Alves). Hopper que pinta a solidão como ninguém.

Tempos antes de publicar o livro, Milly disse tratar-se de “um romance auto-biográfico, género chamado auto-ficção”.  O começo é difícil, amargo, angustiante, sentimos pena da protagonista (eu incluo ainda a solidariedade com a pessoa que supostamente trai) mas depois tudo acaba em bem, como se de um exorcismo se tratasse. Sem dizer nada de novo, a história não ser original e o argumento ser (apenas) o quotidiano que é a vida, leva-se (sempre) alguma coisa e não causa dano algum.



terça-feira, 21 de novembro de 2017

Sopro de Tiago Rodrigues

A vida é feita de improvisos, sem guião.

Parte de quem está na sombra, o ponto, de quem (quase) tudo depende. Cristina Vidal, ponto no Teatro D. Maria II há 39 anos, sai da sombra e do anonimato e junta-se a cinco actores em palco para narrar (também) 28 minutos de “brancas”, histórias reais e inventadas. Pela primeira vez, sobe ao palco e sai da penumbra que é ajudar os actores, soprando-lhes o texto. A diferença entre uma pausa dramática, um silêncio, uma falha de texto. Ela que vive nas sombras, na invisibilidade, escondida nos bastidores: “A discrição do ponto deve ser proporcional à indiscrição do actor”. A Cristina Vidal juntam-se Beatriz Brás, Isabel Abreu, João Pedro Vaz, Sofia Dias e Vitor Roriz.

A peça tem ritmos diferentes. Dá para rir e para chorar. Sabe-se que partes são tragédias antigas, histórias friccionadas, outras, provavelmente, verdadeiras. Nunca saberemos. O tempo passa como um temporal e como o vento.

Há uma cena de uma despedida que é tão física e tão bem feita que é talvez, para mim, o melhor momento da peça. Um abraço desesperado. Quem nunca o vivenciou e sentiu?

A voz alta de Cristina Vidal só se ouve no final para dizer os versos finais de Berenice, os mesmos que foram a primeira branca, o primeiro esquecimento, a primeira falha de texto de uma infalível grande actriz. Termina a ler, com a voz suave e soletrada de quem fuma, a branca e o silêncio que também teve quando não conseguiu ajudar uma actriz. Porque o silêncio lhe pareceu tudo.

Qual o propósito do teatro se não questionarmo-nos e provocar-nos emoções?

É preciso preservar os momentos em que nos dedicamos aos mistérios, em que nos encontramos e dizemos: aqui estamos, talvez poucos, mas certos de que, perante a perspectiva da morte, escolhemos ficar na vida. E sussurrar em vez de gritar, recusar o ruído do mundo, escutar a respiração que emerge do silêncio e que sempre esteve lá, mesmo quando não a queríamos ouvir. Preservar os lugares onde podemos ouvir o vento, o sopro do pensamento, o espírito do lugar, o momento breve e irrepetível em que nos vemos pela primeira vez. E, sobretudo, não morrer".

Desta vez, o ponto, para além de ouvir, sai para receber as merecidas palmas.

Para mim, maravilhoso. Que comoção. Há muito tempo que não me sentia tocada assim.



quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A(s) verdade(s) inconveniente(s)

Este é o tema que qualquer que seja a opinião (quase) toda a gente tem razão.

Devemos ser dos poucos países civilizados em que um investigador doutorado não tem (obrigatoriedade) de ter um contrato de trabalho. Para quem não sabe, vou repetir ad nauseum, um aluno que acabe o doutoramento, até há (bem) pouco tempo, o máximo que poderia ambicionar era uma bolsa de postdoc (1495 €/mês x 12 meses, sem subsídios de férias e de Natal e os descontos para a Segurança Social resumem-se ao Seguro social voluntário (opcional) no valor de aproximadamente 125€/mês. Bolsa esta que não é actualizada há mais de 10 anos.

Há uns anos, começaram os contratos para doutorados da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), a que foram dados diferentes nomes pelos diferentes governos. Estes eram poucos mas garantiam estabilidade e valores variáveis consoante idade e experiência durante 3 a 5 anos. Entre avanços e recuos, estes concursos que este governo sugeriu que iam acabar, pelos vistos, irão continuar.

Depois existe a possibilidade, através de projectos (Europeus ou não) de as Universidades contratarem investigadores doutorados por determinado número de anos. Neste caso, não são sujeitos ao regulamento rígido da FCT que só permite que doutorados com 3 ou mais anos sejam elegíveis. Nestes casos, apesar do concurso ser público, e da meritocracia ser alegada, os critérios de selecção são mais discutíveis.

Este governo teve a pertinente ideia de considerar que todos os bolseiros doutorados que eram financiados directa ou indirectamente pela FCT, há mais de três anos, que desempenhem funções em instituições públicas têm direito a um contrato. Quem pode não achar? Para isso propôs que todas as universidades abram concursos para os candidatos elegíveis. O Ministro da Ciência anunciou hoje o princípio de 2018 para iniciar o processo de contratação, a termo, de três mil investigadores doutorados. O diploma, que aguarda publicação em Diário da República, define que a FCT suportará os custos da contratação de doutorados. E aqui começa o eterno problema. Não parece um cenário utópico? Eu acho óptimo. Aplaudo de pé. Mas é (mesmo) verdade? As universidades, nomeadamente de Lisboa e Coimbra, têm alegado constrangimentos orçamentais para a contratação de investigadores doutorados. Eu, só acredito, vendo.

No Domingo, o grande cientista António Coutinho (ex-director do Instituto Gulbenkian de Ciência e actual Presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa) escreveu um texto no Observador que dá que pensar. Começa por escrever que "Os dados oficiais da FCT mostram que o orçamento realizado em 2016 (367M€) foi inferior ao do ano anterior (372M€). O investimento na ciência é propaganda política". Quem diz isto é o insuspeito Prof António Coutinho. Faltou ainda dizer que os resultados do concurso dos projectos FCT não estão previstos para antes do início do próximo ano. Este governo vai acabar a legislatura com 2 concursos de projectos atribuído em 4 anos...

Também, no início da semana, a excelsa cientista Maria de Sousa foi galardoada com o prémio da Universidade de Lisboa. Na nota biográfica disponibilizada estava escrito: "Profundamente estimada e muito respeitada na comunidade científica, Maria de Sousa é também uma humanista que cultiva o gosto pelas artes, pela história e pela poesia”. É que tal como dizia Abel Salazar: “Um médico que só sabe de Medicina nem de Medicina sabe”. E esta mulher, intelectual, médica, cientista com a idade que tem é um orgulho. Também, mas principalmente, por ser mulher. Elogiou publicamente os alunos de doutoramento: “Permitam-me um parêntesis de reconhecimento dos nossos estudantes GABBA”. A cientista a não esquecer quem ajudou e quem a ajudou. Diz muito da pessoa que é. E destacou dois momentos: explosão do número de bolsas de doutoramento da responsabilidade do Ministro Mariano Gago e de investigadores da FCT.  Destes últimos, já mais seniores, e que se tornaram directores de grupo (entre os 40 e 50 anos), e que são “ os recipientes de grandes bolsas internacionais” mas “a universidade parece não querer ou não poder integrá-los e o Governo vai implementar um decreto-lei que vai empregar milhares de postdocs com 6 anos de doutoramento”.

Quando dois dos maiores cientistas (jubilados) do nosso país, que podiam estar no conforto do silêncio sobre um problema que não os afecta directamente, falam na mesma semana dos mesmos (e mais) problemas na ciência em Portugal, algo vai muito mal.


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

A minha lista de música, hoje

 “Canção do engate”, António Variações. A minha mãe deve ser uma das maiores fãs do António Variações.  Lembro-me do dia da morte dele, no dia 13 de Junho, dia de Santo António. Tinha 5 anos. Acho que foi a primeira vez que soube o significado de morte: nunca mais voltar, para sempre. E a minha pergunta foi: “Como morreu se está a a cantar?”. Admito muito a história de vida deste homem. Um rural de uma aldeia recôndita perto de Braga, chamada Fiscal. Um incompreendido, um excêntrico, um ET que nasceu antes do tempo e numa terra onde não o entendiam. Um menino da província que não aceitou a sua sorte de ser marceneiro “e andar todo sujo, de ter uma vida normal, casar com uma mulher e ter filhos”. Era, também, homossexual e uma uma das primeiras figuras públicas a morrer de SIDA e que a família,  até hoje 33 anos depois da sua morte, insiste em ocultar e/ou desmentir.

“The man who sold the world”, David Bowie. Podia ser qualquer uma do Bowie mas esta é também uma das versões dos Nirvana que foi outra das bandas da minha adolescência.

“It´s no good”, Depeche Mode e “Sub-16”, GNR .Não sei como é que os CDs ainda existem. Foram os que mais ouvi na minha pré/adolescência.

“Miracle of love”, Eurythmics e “Whiter shade of pale”, Annie Lenox.  É a imagem do fecho das matinees no Club 84 em Braga com aquelas bolas gigantes das discotecas nos anos 80/90.

 “Vapor barato”, Gal Costa com Zeca Baleiro. A letra é de Wally Salomão. Consta-se que Wally Salomão disse a Gal (que acrescentou “Graças a Deus”que não estava no poema): “Gal, dinheiro não rima com Deus”.


"Neighborhood #2 (Laika), Arcade Fire. A primeira vez que os vi em palco, com as cabeças cobertas com capacetes a servirem de bateria, nunca esquecerei.

“The greatest”, Cat Power. Esta música foi-me enviada de madrugada por uma das minhas grandes amigas numa altura que eu estava a panicar para uma apresentação oral que faria em Memphis. (Ainda) achava que havia coisas (profissionais)  pelas quais valia a pena chorar. Hoje não acho. Mas esta música ficou-me para sempre. E ainda hoje a ouço quando preciso de força.

“Fix you”, Coldplay. Num hotel em Shanghai com duas das minhas grandes amigas, no escuro do quarto, iluminado apenas pelas luzes da cidade a panicar antes de uma apresentação oral.


“True faith”, New Order. Ouvi-a muito quando era criança e depois levei-a comigo para Houston. A imagem desta música é o campus de Rice University a alta velocidade de bicicleta.

“Grito”, Amália. Uma pessoa com a 3ª classe foi capaz de escrever: “Sou sombra triste encostada a uma parede”. Eu sou daquelas pessoas que dizia que não gosta de Fado, gosta da Amália. Quando fui fazer o meu doutoramento para Houston uma das minhas playlists no ipod era Amália, que incluía a Amália da voz madura, que muitos acham a pior fase dela mas que para mim é que eu mais gosto.


“Unfinished sympathy”, Massive attack A primeira vez que ouvi esta música ao vivo, num dos maiores festivais de música dos Estados Unidos (Austin City Limits Festival), chorei copiosamente. Fui com um colega e mais quatro desconhecidos a esse festival. Foi dos fins de semana mais felizes da minha vida.  “How can I have a day without a night/ You’re the book the book that I have opened/ And now I´ve got to know I’ve got to know much more (…) The curiousness of your potential kiss/ Has got my mind and body aching (…) Like a soul without a mind/ In a body without a heart/ I’m missing every part”.


“Girl, you’ll be a woman soon”, Urge Overkill. Faz parte da banda sonora de um dos filmes que mais gosto do Tarantino. Nesta música é a voz.

“Tribulations”, LCD Soundsystem. Já fui muito feliz ao som desta música.

“Roads”, Portishead, “Into my arms”, Nick Cave e “Hope there’s someone”, Antony and Jonhsons. Quando quero “curtir uma fossa” e sangrar tudo é o que oiço. Depois, tudo passa.

 “Hung up”, Madonna. Foi-me oferecido num Natal. Perdi as vezes que ouvi o disco e as vezes que dancei esta música. “Time goes by so slowly for those who wait”

“Beijo sem” Adriana Calcanhotto. Hoje escolho esta, outro dia seria outra. Mas a música que mais gosto dela, apesar de a letra ser do Antonio Cicero, é “Inverno”. Qualquer lista que fizesse tinha que ter Adriana Calcanhotto. Não pela qualidade vocal. De facto, a voz dela não é o melhor. Interessa-me muito mais o que se aprende com as letras dela e onde nos leva. As descobertas que se fazem, tal como com o Caetano.

“Nessum Dorma”. Quando escrevo faço-o maioriatariamente em silêncio total. Nas raras excepções só consigo ouvir música clássica e ópera. Todas as óperas que assisti fi-lo porque conhecia as árias. E Nessum dorma que é o final de Turandot de Puccini, de todas as árias, é a minha favorita. 

“Oceano” na versão do Caetano. “Longe de ti  tudo parou/ Ninguém sabe o qu sofri/ Amar é seus deserto e seus temores”(...)”Vem me fazer feliz porque eu te amo” (...)“Esqueço que amar é quase uma dor só”.

“Cajuína”, Caetano Veloso. Caetano sempre. Tem uma música para qualquer estado de espírito. Para mim Caetano é o brasileiro. Pensa bem, escreve bem, fala bem, canta bem. Tanta qualidade num homem só. Podia ser qualquer outra mas hoje escolhi esta “Existirmos: a que será que se destina?” , uma versão da pergunta existencial de Heidegger. Convenhamos que um autor que é capaz de fazer uma canção com a pergunta das perguntas não é pouca coisa. A cena da canção remete para o encontro de Caetano Veloso com o pai de Toquato Neto (amigo e parceiro de Caetano na época da Tropicália que se suicidou no dia seguinte ao seu aniversário) em Teresina, capital do Piauí.

"La chanson d´Hélène", Mísia e Iggy Pop. Sou muito susceptível a vozes, para o bem e para o mal. Esta combinação de duas vozes, tão diferentes, o cantar e o dizer, a melodia e a língua francesa.

 “Hallelujah”, Rufus Wainwright. Apesar de o original ser do Leonard Cohen, prefiro a versão do  Rufus Wainwright. No ano passado fiquei chateada pelo prémio Nobel da Literatura ter sido atribuído ao Bob Dylan. Não por não lhe reconhecer valor literário, isso acho que tem muito. Mas acho que teria sido muito mais justo para o Leonard Cohen. (Mas eu tenho um problema de fundo com o Bob Dylan que é a voz. Não consigo, até hoje, ter aprendido a gostar da voz fanhosa, anasalada, com o sotaque arrastado do Minnesota).

“Lisboa que amanhece” Sérgio Godinho com Caetano Veloso. Um portuense escrever tão bem sobre Lisboa só pode ser amor: “..E já tudo pode ser/Tudo aquilo que parece/ Na Lisboa que amanhece/ O Tejo que reflecte o dia à solta...”. Prefiro a versão com o Caetano. Torna ainda a canção mais bonita. Existe cidade mais bonita no mundo?
“Deusa do amor”, Moreno +2. Depois dos livros de Jorge Amado, esta é a imagem que tenho da Bahia.
 “Perfect day”, Lou Reed Embora a história da canção não seja (tão só) um dia em NY é é esta a visão romântica de um dia de outono em NY.

“Dreamer”, Uh Huh Her. Descobri esta banda em NY que vi ao vivo e ouvi as músicas todas em contínuo durante meses.


“Consegui”, Arthur Nogueira com Fafá de Belém. Uma letra do António Cicero dedicada a Wally Salomão. Ouço em loop há semanas. 

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