segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Dia 2 - Museu Vaticano, Capela Sistina, Catedral S. Pedro, Trastevere

Como só tinha dois dias para visitar a cidade comprei um voucher na empresa citysightseeing para andar 48h sem limitaçoes no autocarro turístico (das 9 da manhã às 11 da noite), comprei o bilhete para o Museu Vaticano e Capela Sistina que incluia não esperar na fila (“skip the line”) e também para visitar o Coliseu e o Palatino (explicarei mais à frente que esta historia de evitar as filas é a verdadeira história “para bói dormir”). Acho que paguei 86 euros.  Uma das paragens do autocarro ficava perto do meu hotel, uns cinco minutos a pé, perto da igreja de Santa Maria Maggiore. Estava previsto ser um dos fins de semana mais quentes do verão. Em todas as paragens que do autocarro era um sem número de vendedores munidos de tudo, incluíndo garrafas de água fresca. Passei de autocarro pelo Coliseu e Palatino e a minha primeira paragem foi perto do Vaticano, do outro lado do rio Tevere. Atravessei a ponte. E aí começa a minha saga da trafulhice romana. A caminho da Praça de S. Pedro vêem-se alguns vendedores e parei no olhar de um rapaz queimado pelo sol. Ar envergonhado, acanhado, com umas pinturas expostas. Não fala nem percebe uma palavra de inglês. Não foi a beleza dos quadros que me fez parar foi o olhar triste dele. Mostra-me mais pinturas, umas maiores e outras mais pequenas. Os pormenores das mais pequenas fazem-me desconfiar. Olho os pincéis, as tintas, as aguarelas. Começo a negociar. Acho que me pedia 40 euros por uma pintura A4 mais duas pequenas. Ofereci 30. Não aceitou. Quando não aceitou, deitou os olhos ao chão, e com um ar de desânimo disse que aceitava. Fui levantar dinheiro a um banco perto. Continuei desconfiada. Quando regressei para pagar, a minha desconfiança até se dessipou com o cuidado que ele teve a acondicionar as pinturas para não se estragarem. Reparo mais uma vez que os pincéis e as tintas estão lá mas estão secas. Quando saio do pé dele faço a prova dos nove: molho o dedo e passo na pintura… Uma impressão a cores num papel de espessura especial… Repararei em todos os cantos, esquinas e ruas de Roma em pinturas iguais às minhas, sobretudo vendidas por migrantes que falam muito pouco italiano e quase nada de inglês. Aprendi a lição.  







Antes de ir para o Museu Vaticano, deparo-me com uma fila de mais de meia hora para trocar o voucher que havia comprado na internet da citysightseein. Nestes mais de trinta minutos ouço um disfarçado engate atrás de mim. Só lhes ouço as vozes masculinas. Muito graves. Arrastadas. Roucas. Olho discretamente para trás e  as vozes coincidem (quase) com a beleza física. A beleza física de um é visivelmente maior. Um é argentino, não terá mais do que 30 anos, tem barba e um porte atlético. O outro já passará dos 50, é grisalho, polaco mas vive na Austrália há 30 anos. Um está sozinho em Roma e o outro (ainda) não consigo perceber. O argentino já viveu em LA. O outro diz que adorou Buenos Aires. Falam de locais que não conheço. Reconheço um nome Santo Inácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus (Jesuítas). O mais velho disse que ficou impressionadíssimo com as missões. O outro diz nunca as ter visitado. Os dois dizem ter visto o filme “The mission”. Um fala muito mais do que o outro. Fico a saber muito da sua vida. É engenheiro, de origem polaca, com dupla nacionalidade, vive em Sidney. Diz que a  Austrália é um país muito diferente do que era há 30 anos. Era um país de sonho em que era suficiente apenas um trabalhar. Ter uma casa de sonho. Carro. Família. Agora tudo mudou. Tudo se tornou caro. Não é possível apenas um membro do casal trabalhar. Nenhum dos dois revela o que os trouxe aqui. Percebo em poucos minutos que chega a mulher do mais velho. Infelizmente para a mulher, trocaram e-mails há pouco. À minha frente está um casal de americanos com um bebé no carrinho. O bebé, que tem dois dentes mas mal se senta, já come dos dois gelados dos pais. Pouco passa das 11 da manhã. 


Roma é um negócio ao ar livre. Tem quase tantos vendedores como turistas.O Vaticano é onde tudo começa, para mim. Para se chegar ao Museu Vaticano é preciso circular a parte externa da Praça de S. Pedro. Debaixo de um sol abrasador e de uma temperatura de 40 graus e muita humidade, tudo parece penoso. Começo por perceber que vendem bilhetes para o Museu Vaticano e para a Capela Sistina como se fossem coisas diferentes. Ora bem, não se pode ir ao Museu Vaticano e não passar pela Capela Sistina… E vendem o “não esperar na fila” como se não as houvesse. Se eu tiver que aconselhar alguma coisa com a minha experiência é: evitem Roma no verão. O calor é insuportável e os turistas são mais do que muitos. A memória que guardo do Museu Vaticano é um mar de gente, calor insuportável, corredores sem fim, andar empurrada pela multidão. Houve uma altura que eu só me concentrava para não entrar em pânico, principalmente nas escadas apertadas. E tentar abstrair-me.  Lutar contra o movimento era impossível. A entrada de tão grande número de pessoas deveria ser controlada. Visitar nestas condições alguma coisa é apenas um negócio e torna-se uma tortura. Não aproveitei nada. Tentei apenas sobreviver. Na Capela Sistina, que ate estava bastante fresca, tinha centenas de pessoas sentadas nos bancos laterais. Como é um local sagrado, pedia-se silencio mas as pessoas ignoravam. Depois do martírio do quase esmagamento, chega-se a um lugar iluminado e fresco. Não estive lá mais de 5 minutos. Nao foi nada daquilo que sonhei quando olhei para o tecto pintado por Michelangelo, Botichelli entre outros. Nao desmaiei perante tanta beleza. Tudo o que me lembro é de ter respirado de alívio por ter sobrevivido até ali. Toda a minha memória visual da Capela Sistina mantém-se com o conhecimento que adquiri nos livros. Não vale o sufoco de quase morrer esmagada, desculpem-me. So queria encontrar a saída e ar livre. Desci a pé as famosas escadas em forma de caracol do Museu Vaticano e nem me ocorreu fotografá-las, tal era a pressa de sair. Fez lembrar-me o Museu Gugghneim em NY.



Finalmente no exterior caminho de regresso à praça S. Pedro. Quero sentar-me em alguma esplanada. Qualquer uma que nao pareça turistica. Quanto mais escolho menos acerto. Depois de almoçar e descansar os pés vou visitar a Catedral de S. Pedro. Há uma fila grande mas bastante rápida porque há vários postos de verificação de segurança. Até na praça de S. Pedro há vendedores. Aqui o negócio são os lenços para cobrir os ombros e as pernas já que é um local sagrado. A Praça de S. Pedro parece-me bem mais pequena do que na televisão. Entro e vou, não a correr (porque há que caminhar com elegância e trata-se de um dos lugares mais sagrados do mundo para mim que tenho fé), directamente à Pietà. Por incrivel que pareça, não estava rodeada de gente. Pude chegar perto. E aí sim, desfiz-me. Não sei se foi o cansaço, se aquela beleza tão perfeita em mármore trabalhada numa só peça, se a imagem de Jesus depois de cruxificado no colo de Maria, se apenas um filho morto no colo da sua mãe dilacerada pelo sofrimento. As lágrimas começaram a cair e eu não as evitei. Coloquei-me em frente, num lugar priviligiado, com o queixo pousado nas mãos  somente a olhar. Não sei quanto tempo fiquei assim mas dei-me esse privilégio. A minha volta, percebi depois, as pessoas so estavam interessadas em tirar selfies. Nunca percebi esta moda de as pessoas visitarem só para tirar uma foto. Não têm curiosidade alguma de olhar, de se emocionarem, de se sentirem tocadas. Chegam e tiram fotos e é tudo. Deixei-me ir. Havia outras três coisas que queria ver: os túmulos dos Papas João Paulo II e João XXI (único papa português, de nome verdadeiro Pedro Hispano) e a estátua de S. Pedro. A estátua de S. Pedro já não se pode tocar mas era visível que o seu pé está rompido de tanto as pessoas passarem a mão.Os túmulos dos Papas foi o mais difícil de encontrar. Acabei por desistir do Papa João XXI depois de várias informações erradas que os diferentes guardas me davam. Finalmente encontrei. Sóbrio, simples um altar com o nome de Sanctus Joannes Paulus II. Já na Praça de S. Pedro, o calor continuava a não dar tréguas. Hora de comprar água. Dois euros a garrafa. Queria ter subido ao topo do castelo de Sant’Angelo mas faltaram-me as forças. Fiquei-me pelo parque e caminhei pelas margens do Tevere.






terça-feira, 31 de julho de 2018

O amor no meio da multidão

No final do concerto, a sair do Parco della Musica vejo-as mesmo à minha frente. São da mesma altura. De costas são parecidas. Altas, magras, muito bronzeadas, cabelos curtos. Os braços das duas cruzam-se no fundo das costas. Caminham elegantemente mas em passo apressado. Uma tem cabelo curto, calças largas de linho, uma t-shirt sem mangas colada ao corpo e umas havaianas. A outra tem cabelo rapado à Sinead O’Connor, um vestido preto comprido e é a mais nova das duas. Dez anos devem separá-las. Uma deve passar dos 50 e a outro deve estar a chegar aos 40. Devem estar no início da relação. O entusiasmo do começo. O desejo dos principiantes. A sede da descoberta. Têm a cara e o sorriso de quem começa de novo. Sente-se a admiração mútua. Vê-se ali inteligência. Arrisco-me a adivinhar o que as aproxima e o que lhes interessa. A mais velha não exibe a mais nova como um troféu que acaba de ganhar. Nem displicência. A mais nova não venera a mais velha nem a idolatra. Tratam-se de forma igual. Riem e inclinam levemente a cabeça para trás e desfazem o abraço. Dão as mãos. Continuam no ritmo apressado. São italianas, ouço-as. Abrandam o passo e beijam-se. Retomam o passo apressado e perco-as no meio da multidão.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Caetano em Roma

Na verdade eu fui a Roma para ver Caetano. Disseram-me que não tenho independência para julgar livremente a qualidade dos concertos de Caetano porque para mim ele é um Deus. Não desminto. Provavelmente ele até poderia só gritar, como vi um dia Yoko Ono fazer em NY e que alguns acharam aquilo arte, e eu acharia magnífico. Mas quando leio de algumas pessoas que considero que Caetano é um milagre e que sempre se surpreendem a cada concerto, não me parece que seja apenas “endeusamento”. E devo a Caetano muito do que aprendi sobre os mais variados assuntos. Todos os concertos que vi de Caetano foram no Coliseu de Lisboa. Todos eles foram especiais. Com banda, sem banda, sozinho ou em dueto. A relação com o público foi sempre cúmplice. Mas em Roma foi mesmo especial.

Antes do concerto leio que morreu Hélio Eichbauer, o cenógrafo responsável por muitos dos cenários de Caetano, incluíndo este. Para além deste facto, Moreno foi enteado de Hélio, com quem Dedé Gadelha (mãe de Moreno) fora casada durante 30 anos. Moreno, depois de Caetano falar da perda de Hélio, com a voz embargada acrescentou: "Dedicamos este show a ele". Ninguém á minha volta era brasileiro ou português mas conheciam profundamente o trabalho de Caetano. Durante o concerto muitos deles balançaram o pé, bateram muitas palmas, acompanharam o ritmo, tentavam acompanhar as canções. Percebi que Caetano não é um desconhecido em Roma. E gentilíssimo dirigiu-se sempre ao público em italiano. Não quis ouvir “Ofertório” para tudo ser surpresa.  Passavam 9 minutos da hora marcada e Caetano, juntamente com os (seus) meninos, entrou no palco. “Todo o homem” foi para mim a grande surpresa e a música da noite. Zeca Veloso, que Caetano disse que nunca quisera fazer musica, escreveu esta canção tão comovente com voz em falsete, cujo verso "todo o homem precisa de uma mãe” ficou no ouvido. A palavra que resume este concerto é intimidade. Os quatro não parecem estar em frente a uma plateia de milhares de pessoas mas em casa a cantar para uns amigos. Outra das surpresas é uma espécie de rap/funk, no qual todos participam com o piano, com a voz fazendo a batida, a contagem crescente até 12 de Caetano e a dança de pés descalços de Tom. A música que dá o nome ao concerto foi escrita para Dona Canô como se fosse ela a narradora. Na introduçao a esta música, Caetano explica que não é religioso mas que todos os seus filhos são. Os dois mais novos sao cristãos e Moreno é um curioso pelas religioes orientais e afro-brasileiras. Moreno acrescenta:“sou macumbeiro”. A outra que me ficou na memória foi a filosófica da autoria de Moreno “How beautiful could a being be" onde mostrou como sambar bem com ginga e rebolado e levou também Caetano para a frente do palco para uma dança ensaiada. Vozes e instrumentos numa sintonia perfeita. Não faltaram as mais conhecidas "Força estranha”, “Reconvexo” e“Leãozinho”. No primeiro encore, já com o público da plateia todo em pé e encostado ao palco, cantaram a minha preferida “Deusa do amor”. Voltariam mais duas vezes, mesmo depois das luzes acesas e terminaram com “A luz de Tieta”.

Caetano, nesta noite tropical, no anfiteatro ao ar livre de Renzo Piano que não chegou a encher, rodeado das pedras aquecidas pelo sol de Roma entrou em fusão com o público. A noite em que Caetano foi “a chuva que lançou a areia do Saara sobre os automóveis de Roma”.

Aprendi que ninguém no seu perfeito juízo deve esperar o verão para ir a Roma. Mas depois de aqui estar como dizer que não a uma cidade  que chama por nós?

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terça-feira, 17 de julho de 2018

Bagni Santa Chiara

Domingo, 15 de Junho 2018
Ontem à noite dizia a um amigo que estes 4 meses em Itália tem sido muito bons. Ao contrário do que muitos temiam, voltar (só) a trabalhar no laboratório revelou-se ser o meu mundo. Apesar das muitas horas de trabalho, dos muitos stresses, de muitas noites de pouco sono e mal dormidas, dos fins de semana a trabalhar, das horas tardias já noite cerrada que saio do lab, das poucas horas em casa, das inexistentes palmadas nas costas, das crescentes contas de táxi, da pouca frequência das praias de Génova, tenho-me sentido muito bem. Gosto de quase tudo. Hoje, pela primeira vez, vim à praia. Quer dizer, se isto se pode chamar de praia. Tem mar mas não tem areia nem sequer pequenas pedras. Apenas não mais do que 100 m de cimento dividido por duas zonas onde se pode estender uma toalha por 5 euros, numa descida. Ou uma zona com esteiras (sem chapéu de sol) onde se paga 15 euros. Nem o taxista conhecia a praia. Deixou-me no cabo de Santa Chiara. Depois foi confiar nas indicações do Google Maps. Primeiro passei pela praia do cabo de Santa Chiara. Cheia mas agradável e com muitas esplanadas. Comecei uma subida íngreme. O Google maps começa a dar-me a indicação de virar às direita mas achei o caminho estreito demais e resolvi virar mais à frente com a ténue esperança  que as várias praias fossem ligadas. Comecei a descer e à medida que me ia aproximando da praia mais o barulho aumentava. Vou dar a uma pseudo praia que era a visão do inferno. Muita gente. Muita confusão. Espaço nenhum. Tudo mau. Volto para trás. Subir as escadas íngremes. Volto ao mesmo sítio. Digo mal da minha vida. Penso em desistir e voltar para casa. É nestas alturas que acho que parar de fumar não melhorou em nada a minha resistência física. Tenho quase 40 anos, mas  quem me vê neste estado de hiperventilação, não dá nada pelos meus pulmões. Páro para recuperar algum fôlego. Já no topo do caminho cruzo-me com uma simpática senhora de nome Paola. Fala-me em todas as línguas menos inglês. Mesmo assim conseguimos comunicar. É uma daquelas italianas que não se consegue adivinhar a idade, disfarçada por algumas cirurgias plásticas. Como todas as italianas deste género é magra e tem uma cor à la Valentino, de quem apanha sol desde Abril. Acompanha-me até ao bar por cima do mar e diz-me que é a única praia a que ainda se pode vir. Este é um dos segredos mais bem guardados de Genova. É uma praia que não chega a ser.  A “praia” não são mais do que 50 m. Existe uma descida de cimento que alugam por 5 euros onde se pode estender toalhas e uma zona plana de cimento com camas sem chapéu de sol por 15 euros. As pessoas estão ali a fritar o dia todo. No bar vejo o que os italianos têm de pior. São exactamente iguais aos portugueses nisto. A mesma “esperteza saloia”. Uma família de 3 gerações ocupa todas as camas que há como se o bar fosse todo deles. Mais ninguém as pode usar. Dizem que hoje é o dia mais quente do ano. Provável. Senti-o de noite. Pela primeira vez dormi de janela aberta. 

Passo aqui o dia. Olho o Mediterrâneo. Não tem a cor que imaginava, apesar da água transparente. Leio. Escrevo. Como dizia Sophia “viajar é olhar”. Comer, beber, conversar, viajar. As quatro coisas mais importantes do mundo. 










segunda-feira, 9 de julho de 2018

You need to push (more)

Fim de semana em casa. Dias cansativos e de pouco sono. Horas de viagem. Horas entre aeroportos e aviões. Atrasos. Esperas. Barulho. Muita gente. Mas vale sempre a pena. Muitas horas de cansaço em troca de prazeres. Pequenos luxos. Contacto físico. E como sabe bem depois de semanas desgastantes de trabalho. Após fins de semana em clausura sem ver a luz do dia e sem sentir a temperatura real. Lá fora o Mediterrâneo quente e azul. Sonos trocados. Expectativas defraudadas. Críticas injustas. Muito trabalho sem reconhecimento. Palavras desmotivadoras. Pressão. Reuniões semanais. Necessidade de resultados. Updates. Analogias de guerra. Hierarquias militares. General vs soldados. Touros e cornos. Chef vs descascadores de batatas. Ausência de palmadas nas costas. Tarefeiros. Executantes. Falta de espírito crítico. Faz isto, faz aquilo. E, finalmente, chegar a casa. Massagem. Mimo. Festas na cabeça. Vinhos bons. Comidas predilectas. Conforto. Baterias recarregadas. Amigos. Conversas. E o sobrinho mais velho que diz: “a avó tem um coração sensível. Ela perdoa-nos tudo. Não grita com ninguém. Eu peço-lhe para gritar com o pai e ela não tem coragem”. Como não adorar? E uma carteira com toda a vida lá dentro que se perde. Procuras infindáveis. Desespero. Perspectiva. Assunto arrumado. Nova etapa. E tudo começa de novo. Naturalmente. Outra vez. Riso

domingo, 24 de junho de 2018

Génova - Milão - Verona - Trento

Viagem de 5 horas pela frente. Duas mudanças de comboio. Dia escaldante. Verão (quase) tropical. Tudo brilha de tão húmido. Passa pouco das 8 da manhã e já tudo parece derreter. No comboio para Milão, quase cheio, são sobretudo turistas. A temperatura é quase glacial e obriga-me a vestir uma camisola. Ao meu lado está um senhor, que parece meu avô, impecavelmente vestido. Lê o jornal "La Repubblica" e tem uma pasta. Em frente e ao lado dele estão duas mulheres que falam espanhol. Não lhes presto muita atenção mas uma delas tem uma voz linda. Grave, quase rouca. Quando a vejo levantar, para dar lugar a outra pessoa, reparo como é alta. Num olhar mais atento reparo no excesso de silicone na cara e no nariz cirurgicamente desenhado.   Tem umas mãos lindas, grandes e magras e uns dedos compridos, proporcionais ao seu tamanho. Milão, mudança de comboio para Verona. O cenário muda completamente. O comboio é regional. A temperatura é infernal que só piora com o cheiro a gente. Não existe lugar para todos. Há mais bilhetes vendidos do que lugares. É "tudo ao molho e fé em Deus". Mais de uma hora de viagem pela frente nestas condições. Eu, pelo menos, estou sentada. Ouço  um murmúrio de duas jovens americanas que se questionam como é possível venderem mais bilhetes se não existem condições. Um olhar rápido em volta percebo a presença das pessoas non grata do actual governo italiano. Mulheres grávidas a pedir. Uma jovem com um bebé ao colo e outra pela mão que não devem ver água do banho há muito tempo. A criança pela mão parece uma pena, caminha à velocidade da mãe e mal pousa os pés no chão. Parece voar. Os meus olhos prendem-se nos dela. Apetece-me dar-lhe tudo o que tenho mas sinto-me tão incapaz e impotente. O que ajudá-la hoje mudará na vida dela? E depois lembro-me do actual governo italiano composto por gente da extrema direita, racista e nacionalista. A última do Ministro do Interior, depois de proibir um barco cheio de refugiados de atracar num porto italiano, foi querer expulsar albaneses, romenos e tunisinos. Este já é o Trump europeu. Mas o mais escandaloso é que é aplaudido pelos italianos a qualquer lado que vá. Lembro-me que do outro lado do oceano Atlântico está um presidente eleito democraticamente que separa pais e crianças que tentam a sua sorte ao atravessar ilegalmente a fronteira dos  Estados Unidos. Eu que não tinha televisão até há uma semana atrás e não via notícias que não fosse em jornais ou o que ouvia falar. Comecei a ver as imagens e a ouvir os lamentos das crianças em gaiolas. E não consegui. Não consigo ver aquilo. Isto passa-se no séc XXI. No país que foi um dia a terra das oportunidades, que acolheu refugiados e alguns dos quais se tornaram grandes nomes americanos. O que representava ser americano está a morrer. Não percebo como é possível acontecer esta monstruosidade em pleno ano de 2018. A maldade do ser humano não tem limites.

Verona é a próxima mudança de comboio. Como uma focaccia alta e bebo uma Don Pellegrino. O comboio, apesar de regional, não vai cheio, a temperatura é baixa e a limpeza faz-me pensar que entrei noutro país. A paisagem muda. Os vales e planícies dão lugar às montanhas. As casas fazem lembrar-me a Áustria e a Suiça. Lembro-me que estou a caminho do Tirol. Os Alpes do Marco. Próxima e última paragem: Trento. O calor é abrasador. Tarde nublada. Humidade quase insuportável. A pele brilha. No parque junto à estação, pelo qual passo a caminho de uma das faculdades, tem a estátua de Dante. O tamanho do parque mostra o quão pequena é a cidade. Não parece que estou em Itália. Os carros param nas passadeiras. As tuas estão limpas. As pessoas falam baixo. Até fenotipicamente são diferentes. Começo a ver sandálias com meias. O outfit diz (quase) tudo. Paro numa gelataria. Depois de uma bola de gelado de limão e outra de pistachio faz-me achar que foi uma das melhores gelatarias onde estive. A cidade está rodeada de montanhas e sinto-me como num caldeirão. A sensação é que não há para onde fugir. Antes da hora combinada chego ao destino. Espero, como sempre. Não me importo porque tenho um livro. Uma hora depois estamos a caminho do que deve ser uma das praças mas famosas da cidade, em frente ao Duomo. Na uma hora e meia seguinte beberemos 2 copos de vinho branco e 2 aperol spritz. Quero provar a famosa bebida Hugo mas não servem. O que me trouxe aqui vale bem esta hora e meia e as dez horas de viagem. E tudo o que eu queria, consegui. Há melhor sensação? A caminho do hotel ainda me sento noutra esplanada a beber outro aperol spritz. Decido apanhar um táxi. Fico num bom hotel da cidade porque depois de cinco horas de viagem acho que mereço. São 8 da noite e o quarto está frio. Tudo o que queria. Bebo água e deito-me. Adormeço, não antes de pedir que me acordem às 7. Acordarei por volta da meia-noite e voltarei a adormecer. Tomarei o pequeno-almoço, o mesmo de sempre. E reclamarei, como sempre, desta nova moda de leite em pó. Que saudades das antigas cafeteiras de leite e café. Às 8 um táxi espera-me. Cinco minutos depois estarei na estação. Vinte e sete minutos depois apanharei o comboio que me levará a Verona. Aí mudarei para outro para Milão, onde farei uma mudança para Génova. Viagem sem percalços. Estarei em Génova antes das duas da tarde. O taxista, simpático, coisa rara em Génova, dir-me-á que devo ser muito inteligente quando lhe digo o meu destino: Instituto Italiano de Tecnologia. Ainda chegarei a tempo de almoçar na cantina. E 30 minutos depois estarei a tirar fotos no "meu" microscópio. Apesar de muitas imagens de merda, não perco o entusiasmo. Será este mar e esta temperatura que me fazem ser optimista?







quinta-feira, 21 de junho de 2018

Cinque Terre

Domingo de Páscoa. Sol. Temperatura primaveril. Visitas. Nada planeado. Destino: Cinque Terre. Directo a La Spezia. Escolhemos apenas o meio de transporte: comboio. Dormi o caminho todo. Antes ainda de adormecer tive que ver um homem  a cortar as unhas e outro a coser um botão do casaco. Chegados a La Spezia percebemos o que nos esperaria: gente, muita gente. Um mar de turistas. Em La Spezia apanhamos o comboio regional que pára em cada uma das aldeias de Cinque Terre. Saímos na primeira no sentido sul para norte: Riomaggiore. Tinha lido que era a maior e onde havia o "cammino dell'amore" que ligava à próxima aldeia. Foi aqui que passamos mais tempo. Saídos dos comboio avista-se o mar e as escarpas. Começamos a descer por caminhos de terra e escadas estreitas. Nas falésias veem-se pessoas nas podes mais improváveis.  Muita gente parece arriscar a vida a troco da melhor foto. Esplanadas com vista privilegiada. Uma turista com uma mala a descer escadas sem fim com tacões. Carrinhos de bebés. Crianças com menos de quatro anos. Começam a perceber-se as primeiras queimaduras solares. Gente muito branca que não se protegeu devidamente. Chegados ao centro da aldeia há uma estrutura preparada para a avalanche de turistas. Cafés, lojas, restaurantes, casas de banho que cobram um euro, esplanadas, comidas take away, mercearias, supermercados, gelatarias...chegados ao pé do mar olhamos para trás e percebemos q este é o cenário que conhecemos há muito das Cinque Terre. Casas construídas nas falésias de cores diferentes. Impressionante, sim. Maravilhoso, com menos gente. Almoçamos sentados num as escadas fritura misti. Vários peixes que escolhemos num cartucho de papel com um palito grande. Fish sem chips. Depois de almoçarmos ficamos a saber que o caminho dela ore está fechado. Decidimos n sair na próxima aldeia mas em Vernazza. Talvez a mais pequena e menos preparada aldeia. As pessoas eram tantas que a única forma de locomoção era andar ao ritmo e no sentido da multidão. Quando finalmente chegamos ao pé do mar há um pequeno areal e alguns barcos. As esplanadas não tem um lugar vago. Não existe chão visível. Caminhamos na direcção inversa em direcção à estação de comboios. Esperamos impacientemente na fila para chegar estação. Caótico, sem organização, turistas rudes, gente que dispensávamos encontrar pelo caminho. Depois do infernal teste à paciência, tomo a decisão difícil, de não sair em mais nenhuma aldeia a não ser na última: al mare. Estava tão cansada que a primeira esplanada que avistei nem pensei, sentei-me. A vista não podia ser melhor. O Mediterrâneo imenso com a cor do mar que começa a aquecer. Numa das mesas ao meu lado vejo uma desarrumação de papéis, cadernos e livros espalhados sobre a mesa. Ao contrário de mim, escreve num computador que é uma maçã trincada. Tem como vista um mar azul imenso. Tem olhos claros, cabelo claro, pele nórdica e muitas sardas. Vive de escrever. Escreve coisas das quais gosta menos para patrocinar o grande projecto de vida, um romance. Invejo a coragem e a sinceridade.









segunda-feira, 4 de junho de 2018

O chefe

Pastelaria mais antiga da cidade. Agora, um misto de bar, restaurante. Fim da tarde. A disputa de mesas é grande. Vejo várias pessoas que desistem de esperar por uma mesa e pessoas que depois de terem uma mesa desist porque a espera é muita. Os funcionários são muitos e têm o medo estampado na cara. Parecem não poder estar parados. Falta-lhes cor. Mas a maioria dos clientes tem uma cor que eu não consigo nem depois de um mês na praia. As bebidas mais pedidas são negroni e aperol spritz. Percebo o temor dos funcionários com uma pessoa que foi muito simpática comigo e me sentou. O homem só é simpático com os clientes porque para os funcionários só grita e gesticula. Mas para os clientes transforma-se. É o chefe. Sempre ele. Austero. Cara fechada. Fato impecável. Alto. Hirto. Os funcionários temem-no. Passei uma hora aqui a apreciar. Até me distraí de ler. Apesar de toda a gente ter sido mais do que amável comigo, dificilmente voltarei.  Trabalhar não é isto. O medo não deve fazer parte da nossa vida em tempos de paz. Nada o justifica. E os chefes não podem ser ser isto.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

O mal menor


Há uns anos, quando Cavaco Silva foi pela primeira vez candidato a Presidente da República contra Jorge Sampaio, Paulo Portas subira ao púlpito da Assembleia da República para apoiar o “mal menor”. Ele que tinha sido um dos principais alvos e manchetes d´O Independente no período político conhecido como “cavaquismo.  É esta a analogia que faço com Lula da Silva.

Nunca gostei do estilo. Nem das amizades. Nem de quem se rodeou. Nem dos silêncios. Nem dos desconhecimentos. Nem do mau-gosto. Nem do apoio a Chavez. Nem da apresentação do livro de Sócrates. No entanto, com tanto anti-Luluismo, até eu me rendi. Lula da Silva é o mal menor. Não vou dizer, como li muito, que “roubou mas fez”. Não sei se roubou. Não sei se foi corrompido. Cabe à justiça esse papel. O(s) crime(s) de que é acusado já foram confirmados em duas instâncias,  mas não transitou em julgado. O principal crime de que é acusado é um triplex no Guarujá. Ou seja, o equivalente em Portugal a ter um apartamento no Barreiro. Não é um apartamento em Ipanema ou no Leblon ou uma mansão em Trancoso ou Fernando de Noronha. Mas se é verdade, demonstra um imenso mau gosto e a aptidão para “vender-se” por pouca coisa. No entanto, até hoje, não vi prova nenhuma que demonstre que o apartamento era realmente seu. Mais, a ser verdade, 12 anos? É inegável que Lula da Silva tem imensos opositores, principalmente a alta burguesia e alta sociedade brasileira que vive no século XXI mas com tiques de século XVIII. Esta elite branca, de direita, milionária, priviligiada, que vive como (quase) nenhum lugar do mundo. Talvez algo comparado a alguns países de África em que só há miséria e fome e do outro lado esbanjamento. Esta elite perdeu direitos com a subida de Lula ao poder. Em vez de 5 a 7 seres humanos para tarefas domésticas correntes que incluiam: motorista, jardineiro, porteiro, faxineira, diarista, cozinheira, babá pagos a preços abaixo de electrodomésticos, começaram a ter que diminuir os seus luxos. Estas pessoas começaram a ter direitos e a não serem tratados como antes da abolição da escravatura.

Agora façamos o exercício de ser verdade que Lula da Silva é corrupto. Outros políticos como Aécio Neves que tem uma ligação difícil de explicar com um helicóptero com 500 kg de cocaína e que foi apanhado em escutas telefónicas a sugerir matar alguém que sabia muito. Temer que é Presidente sem ter sido eleito e suspeito de muitos crimes mas não foi a julgamento porque a política, nomeadamente o Congresso brasileiro permitiu que assim fosse. Aquele Congresso eleito pelos brasileiros, em eleições livres e democráticas, votou pelo impeachment de Dilma e não permitiu que Temer fosse julgado. Não sei quem naquele congresso brasileiro é isento de mácula.

A Isabel de Moreira que se intitula como Constitucionalista ter com cartazes “Lula livre” é uma anedota. Aliás, acho que a Isabel Moreira está no partido errado. De facto, ela deveria ser coerente e filiar-se no Bloco de Esquerda.

Ter visto José Sócrates, acusado de crimes semelhantes em Portugal em muito maior, comentar a prisão “política” de Lula da Silva foi lindo. Não conhecesse a excelente capacidade de argumentação combinada com a mentira compulsiva e eu acharia que estava a ouvir um dos mais brilhantes pensadores do séc XXI.

O mais curioso é que as pessoas que usam os argumentos anti-direita, que eu corroboro na íntegra, se esqueçam das situações políticas em Cuba e Venezuela. Os eternos mitos que estampam t-shirts por todo o mundo com as caras de Fidel e Che. Uma ditadura de quase 60  anos que fez milhares de exilados políticos e causou milhares de mortes no mar em fugas clandestinas. Nunca nos esqueçamos de Reinaldo Arenas. E a Venezuela, senhores? Primeiro Chavez, depois Maduro. Preciso de descrever a situação que lá se vive e que a comunidade internacional insiste em ignorar e a esquerda não aborda deliberadamente?

sexta-feira, 30 de março de 2018

Seremos todos (algum dia) Marielle


O EUA é esse país capaz do melhor e do pior. A mais antiga e mais usada linha celular foi criada sem consentimento da sua dadora, Henrietta Lacks, uma mulher negra, pobre, nos anos 50 que sofria de cancro. O país da Rosa Parks que se recusou dar o lugar a um branco mas que ainda existe o Klu Klux Klan. O país que viu nascer e morrer assassinados John F. Kennedy, Martin Luther King e Malcolm X. O país que foi capaz de eleger o primeiro Presidente negro mas foi também o país que preferiu um louco para Presidente em vez de escolher uma mulher. O país onde na semana passada o The New York Times reconstruiu, baseado em imagens de comeras de hotel, os dias do atirador que matou dezenas de pessoas em Las Vegas. Carregou várias dezenas de malas, durante vários dias, com tudo planeado, alugou dois quartos e foi o responsável pelo maior número de mortes resultante de um tiroteio. Um país onde entre 2006 e 2009 me era pedida identificação para comprar cigarros mas onde comprar uma arma ou várias era (mais) fácil. O país onde várias pessoas mataram outras pessoas em tiroteios só porque sim, por razões políticas, por ódio, por racismo ou sem se saber a razão e porque qualquer pessoa pode ter acesso a uma arma. Um país cuja capital parou para dizer não às armas. Um país que tem adolescentes capazes de se mobilizarem e de discursos como os que se fizeram na semana passada em Washington é um país com futuro e onde a esperança não está (de todo) perdida.

Depois, na América do Sul, temos o Brasil. Há anos que se morre por nada. A vida (lá) vale muito pouco. Tenho um amigo que é um acérrimo defensor de Lula. Por causa dele, diz ter conseguido estudar e chegar a um dos mais altos graus académicos. Ele que é, como se apresenta, por desordem alfabética: brasileiro, pobre e preto. Pior, no Brasil, só se fosse mulher, favelado e homossexual. Há umas semanas foi executada uma vereadora Câmara do Rio de Janeiro, do partido político PSOL. Ainda não se sabe quem foi nem a razão. Sabe-se (apenas) que foi uma execução política. Nunca tinha ouvido falar dela. Mas conhecia Marcelo Freixo o candidato a Perfeito do Rio de Janeiro e o deputado federal Jean Wyllys. Marielle que reunia tudo o que uma pessoa no Brasil de agora não pode ser: nasceu pobre, na favela da Maré, era preta, mulher e lésbica mas estudou e chegou a vereadora. Era uma activista, uma voz incomoda, (quase) sem medo. Ousou denunciar a extrema violência da polícia militar nas zonas pobres e era a personificação de que estudar vale a pena.  Mas quando pessoas que apesar de estereotipadas têm voz são silenciadas, já não basta só ter medo nem vir para as ruas. Nunca gostei de Lula mas tenho que aceitar que de tudo o que aconteceu nos últimos anos foi o melhor. Quando no Brasil existem políticos com o baixíssimo nível que vemos na televisão todos os dias, quando o Perfeito do Rio é um Bispo da IURD cheio de cirurgias plásticas e cabelo pintado que quer tornar a cidade mais bonita pintando as fachadas das casas das favelas, quando se ausenta da cidade no Carnaval, a época mais crítica da cidade, e quando insiste num estado sem ser laico; quando um dos possíveis candidatos à Presidência do Brasil é um reaccionário, apoiante da ditadura militar, que numa discussão pública afirmou que uma deputada merecia ser violada, que acha que a solução da violência no Rio está em bombardear as favelas; Quando os maiores intelectuais brasileiros dizem que os alunos saem das escolas analfabetos funcionais. Quando quem não está a favor, está contra. Quando não existe meio termo. Quando as pessoas destilam ódio e ameaças nas redes sociais. Quando se é julgado e seleccionado pela cor de pele... resta perguntar: o Brasil (ainda) tem solução? É  por isso que eu sendo branca, não sendo de esquerda, muito menos caviar, de não ser burguesa, digo: devemos ser todos Marielle!

quarta-feira, 28 de março de 2018

Uma volta de 180 graus


Tenho 38 anos. Um emprego pela primeira vez na vida. Um contrato por 2 anos, com tudo a que um trabalhador tem direito. Mas, para isso, tive que mudar a minha vida toda. Deixei a minha casa com tudo o que de confortável e conhecido tem. Os hábitos. Uma cadela que encontrei quando ela tinha 4 meses e da qual achei que nunca me iria separar. A família, Os amigos.

Não é a primeira vez que mudo na vida. Já vivi em 3 cidades diferentes. Esta é a quarta. Braga, Houston, NY, Genova. Durante anos, com tantas mudanças de casa e 3 cidades, não me sentia em casa em parte nenhuma. Mas depois de alguns anos seguidos em Braga comecei a sentir que pelo menos aquele apartamento fora sido preenchido à minha imagem. Começar de novo com uma mala de 32 kgs, uma mala de mão e uma mochila. Tudo o resto ficou para trás. Desenhei um cenário catastrófico. Pensei que não ia gostar de nada e criticar tudo. Está a ser mais fácil do que pensava. Diria que são duas coisas muito importantes: o tempo e as pessoas. As pessoas são o melhor. Acolhedoras. Simpáticas. Mesmo sem partilharmos a mesma língua conseguimos perceber-nos. Falam muito com as mãos. Falam alto. Riem muito. São parecidas, nas qualidades com os portugueses. Felizmente, como diria o Eça não têm o aspecto desconsolado dos doentes dos intestinos. Vivo pela primeira vez na vida em frente ao mar. Mas não há a angústia do mar. Apesar de haver dias com ou sem chuva, cinzentos, o mar nao adquire aquela cor depressiva cinza chumbo. Não tenho elevador. Vivo num quarto andar. O local de trabalho é bom. Deram-me um computador, 3 batas brancas e duas azuis. Tenho 2 cacifos e uma secretária. A cantina e o bar são óptimos. Bom, bonito e barato. Comida boa a preço de cantina. Estou viciada em cappuccinos. E na simpatia das senhoras do bar. Sinto-me acolhida. Aqui não tenho carro. Felizmente, dizem os meus amigos. Com as ultrapassagens  que fazem pela direita e esquerda, não demoraria muito a causar uma tragédia com as milhares de scooters. Um destes dias deixaram-me em frente a casa, e apesar do aviso  para ter cuidado com a porta e com as scooters, causei estragos. Ando a pé, de metro e de autocarro. Acho os transportes eficientes, embora o metro feche às 9 da noite, ridiculamente. Os táxis são caros mas muitas vezes, por preguiça, não lhes resisto. Ainda tenho uma casa praticamente vazia, só com o indispensável. Mas dizem-me que agradável, parece uma casa de praia. Ainda não tenho internet ilimitada nem telemóvel italiano. Foi este o grande problema encontrado e que mais demorei a resolver. Todos os outros foram rapidamente solucionáveis. Não tenho televisão nem vou ter, eu que não adormecia sem ela. Não tenho fotografias. Trouxe 10 livros. Ainda me custa olhar para os cães e para crianças e não ter saudades. Falo todos os dias com as mesmas pessoas que falava em Portugal, até mais. Saudade é a palavra que mais me ocorre desde que me mudei. Quem, quando está sozinho, não se intimida com o silencio? Planos, ao contrário do que esperava, não faço a longo prazo. Só (ainda) não consigo conjugar os verbos no futuro. No presente, sempre no presente. Sobre o texto da mudança, uma das minhas amigas achou-o triste. Falhei o objectivo porque nada nele é triste.
Tenho dinheiro, mais do que algum dia. Mas quero coisas que ele não compra.




domingo, 25 de março de 2018

O Feliciano


Se eu quisesse ser má diria que alguém com este nome não augura nada de bom. O Feliciano, tal como o Relvas, o Vara, o Sócrates, mais outros tantos políticos menos conhecidos, e assessores  dos aparelhos partidários são o resultado do “chico-espertismo” português. Um país onde o tratamento por “doutor” e “engenheiro” chegou (quase) ao nível do Brasil. As universidades privadas proliferaram como fungos nos anos 90. Venderam licenciaturas aos betos jotas dos partidos que não tinham notas para entrar nas universidades públicas, aos betos que não conseguiam terminar os cursos nas universidades públicas, aos trintões que queriam uma licenciatura que lhes concedesse o tratamento pelo grau e/ou lhes legitimasse a desempenho profissional. Para melhorar tudo, esta semana, ficamos a saber que os licenciados pré-Bolonha vão ter equivalência a Mestrado. Estamos conversados quanto a facilitismos.

Voltando ao Feliciano, é outro dos casos que envolve a dupla maravilha de combinar um curso tirado numa universidade privada com a demora da obtenção do curso. Dir-me-ão que a conclusão desta combinação é uma generalização e um preconceito. Pode ser, mas convido quem tiver tempo e paciência a analisar os políticos e os seus boys que tiraram os cursos em universidades privadas. Infelizmente, a política portuguesa está cheia destas ervas daninhas que ajudam a sustentar os partidos e os governos.

Não é preciso ter tirado um doutoramento numa universidade americana ou em colaboração com uma universidade americana para saber que quando se é aluno de doutoramento ou aluno de doutoramento visitante, o processo começa com uma carta/convite da universidade americana em inglês, nunca em português. Juntamente com isso vem a obtenção do DS e do visto J1. O esperto do Feliciano não só demorou o dobro dos anos da duração da licenciatura numa universidade privada como se aproveitou de uma carta de uma Professora de Berkeley em português a dizer que orientaria o seu doutoramento. Como todos os espertos, aproveita-se de tudo o que pode. Dizem à boca pequena que mal fala inglês e que, quando contrariado, diz mal de toda a gente e que queria chegar a Ministro, coisa que nunca aconteceu. Mas, pasme-se, chegou a Secretário de Estado em dois governos e foi chefe de gabinete de Passos Coelho (que não gostava dele... imaginem se gostasse). Li das coisas mais anedóticas sobre este senhor desde ter publicado mais de 20 livros a fazer-se anunciar no Bombarral à sua chegada com buzinadelas do motorista oficial.

Mas onde eu quero chegar é que Felicianos há muitos. E o exemplo do Feliciano é um dos exemplos de como se ascende na vida. Depois, também há os que sem mácula e sem nada que se lhes aponte têm uma biografia irrepreensível e repleta de graus mas subiram na vida porque se encostaram às pessoas certas. Porque se é verdade que há muita gente que não consegue tirar uma licenciatura sem ter sido paga, há muita gente que não se pode gabar de grande inteligência mas ter conseguido tirar um doutoramento. É célebre a frase: “um burro com livros é sempre um burro”. Há muitos anos uma pessoa que era respeitadíssima, e que caiu anos depois em desgraça, dizia uma coisa que nunca esqueci: “ não interessa o que diz a tua tese mas quem é o teu orientador”. De facto, a vida depois de 38 anos ensinou-me que é (quase) uma verdade absoluta.  Com raras excepções, nunca chegaremos a lado nenhum  sem um telefonema ou sem uma (boa) carta de recomendação.

Pedro Passos Coelho chegar ao topo da hierarquia académica pelo simples facto de ter sido Primeiro-Ministro causou grande indignação.  Um licenciado por uma universidade privada, depois dos 30, leccionar numa Universidade pública com a equiparação a Professor Catedrático Convidado? Que sacrilégio! Concordemos ou não, não é ilegal. Podemos lembrar-nos de outros como Vitor Constâncio e Guilherme de Oliveira Martins.  O que a mim me causa perplexidade e azia não é ele ser professor catedrático convidado numa universidade pública, que é legal,  mas eu não poder fazer o mesmo. E nunca me esqueço do comentário infeliz que fez sobre aconselhar os melhores qualificados a emigrar. Foi o que fiz. Na inevitabilidade de não conseguir no meu país um emprego, conseguiu-o no estrangeiro, aos 38 anos pela primeira vez. O que me faltava?

quinta-feira, 22 de março de 2018

Mudança

Munida de uma mala grande, uma mala de mão e uma mochila tenho a sensação de que faltará sempre alguma coisa. Desta vez, como sempre, não será excepção. Combinara com o meu irmão duas horas e quarenta minutos antes, como pessoa prevenida que sou. Uma amiga iria ter comigo ao aeroporto. Na última confirmação do voo percebo que confundi 16 com 5 da tarde. As horas em 24 números em vez de doze (diferenciadas apenas pela terminologia de manhã ou de tarde) sempre foram uma dor de cabeça, como distinguir a esquerda e a direita. Percebo que estou atrasada e nenhum dos elevadores funcionava de manhã. Entro em pânico. Ligo ao meu irmão se há alguma possibilidade de me ir buscar imediatamente. Ligo à minha amiga para desistir de ir ter comigo ao aeroporto. Como detesto despedidas até o universo ajudou. A viagem até ao aeroporto parece um voo. Sem tempo nem para olhar para trás, o meu foco é entregar a bagagem. Descubro que a mala tem 12 kgs a mais. Finjo não reparar e a pessoa da companhia aérea decide ajudar e finge comigo. Não tenho tempo de pensar em nada. Tudo em mim é calor. Voo para Munique, sem sobressaltos, respirando fundo. Descubro, mais rápido do que esperava, que me esqueci do caderno onde tomo notas. Nada de muito dramático. Mas como gosto sempre de encontrar qualquer coisa, agarro-me ao que há. A espera em Munique é rápida. Sigo para Génova num avião assustadoramente pequeno. Finjo ignorar. Passados uns minutos, sentada no lugar que me foi atribuído (junto à janela e sem ninguém ao lado), começo a transpirar (coisa nada comum). Estou gelada, tremo, os dentes batem, as gotas de água escorrem-me pela testa e pescoço, a minha palidez denuncia-me porque tenho olhares a seguir-me. Tenho falta de ar. Estou em pânico mas tento não perder a pose. Demorada e disfarçadamente tiro as bombas de asma e finjo que tudo está controlado. Minutos depois estou bem, só o cabelo molhado mostra o que se passara. Tenho o R. à minha espera no aeroporto de sorriso aberto. Sinto-me em casa com ele. Saímos do aeroporto e o que mais me choca são as ruas cheias de prostitutas. Contrariamente ao que seria de esperar, são caucasianas, não têm aspecto de cadente, são jovens e são muitas. O R. deixou-me no hotel que eu escolhi pela proximidade do meu apartamento. Nunca mais voltarei a este hotel e desaconselho-o a toda a gente. Supostamente era um hotel quatro estrelas. Mas disso nem a decadência lhe restava. O recepcionista era antipático, ainda existia chave, as alcatifas estavam sem cor e em mau estado, o quarto era pequeno e desconfortável, a tv era do tamanho de um ecrã 15’’ e a limpeza deixava a desejar. Lembro-me de ter comentado com uma amiga o quão mau era o hotel e respondeu-me que era um bom sinal porque sentir-me-ia muito mais confortável no novo apartamento. Não vou alongar-me nos comentários sobre o pequeno-almoço porque nem nos motéis dos Estados Unidos é tão fraco. A segunda pessoa antipática que me apareceu foi o taxista que mostrou o seu desagrado quando lhe disse que o meu apartamento era a menos de 1 Km. Cheguei à hora marcada para assinar contrato e o apartamento pareceu-me bem melhor do que nas fotos. Na opinião dos locais, a localização não é das melhores mas eu acho conveniente. Fica a 2 minutos da entrada do metro, em frente ao porto de Génova, tem mercearia e quiosque e outras lojas de conveniência. As ofertas de cafés e restaurantes são poucas. E o bairro é multicultural e multi-étnico. Tal como no primeiro apartamento que vivi em NY, o prédio não tem elevador e vivo num quarto andar.

Passada a fase de tudo parecer fácil, como receber o ordenado numa conta portuguesa e o pagamento do depósito e renda através de transferência bancária de uma conta portuguesa para uma conta italiana, começou a aventura: ter internet e telemóvel. Fui a um centro comercial para encontrar várias  empresas possíveis. Logo na primeira, praticamente desisti. Não poderiam ter sido mais simpáticos comigo e falavam inglês.  Depois mais de uma hora, de várias explicações, tentativas de pagamento com cartão de crédito português chegaram a um veredicto: só poderia fazer contrato de internet com um cartão de crédito italiano ou um cartão especial que se adquire nos correios chamado POSTPAID EVOLUTION. Os simpáticos disseram-me para ir aos correios italianos (Poste Italiane). Depois de andar 15 minutos a pé, disseram-me que para ter este cartão só com o código fiscal original (eu só tinha uma cópia) e o “attestato di soggiorno”. Regresso à loja e informo os simpáticos que não é possível. Como estou num centro comercial, aproveito e compro um microondas e improvisei o transporte com um carrinho de ir às compras. Chegada a casa subo quatro andares com o microondas. Volto ao hotel, onde deixei a mala com 35 kgs e regresso a casa de táxi. Demorou exactamente 25 minutos entre paragens entre degraus, vãos de escada e vontade de deixar (simplesmente) cair a mala no sentido da gravidade... O resultado foi bolhas nas mãos idênticas a quem levanta ferro nos ginásios, obras e afins.





domingo, 31 de dezembro de 2017

"Tudo o que ganhei e tudo o que perdi"

Perdi o meu Blackberry com tudo o que tinha lá guardado. Tantas coisas insubstituíveis. Só me resta a memória. Perdi uma caneta de prata com a qual escrevia diariamente. Perdi quase uma dezena de livros que tanto lutei por eles mas alguém julgou tratar-se de lixo.Uma camisa que adorava.  As chaves do carro, duas vezes. Reencontrei-as.Como perder pode ser difícil. Resta aceitar. Há alguma coisa que não se perca ou que não se possa perder?

Felizmente, não perdi ninguém. É o melhor de tudo.

Um ano bom. Grande. Intenso. Longo. Mudanças. Um ciclo que termina. Ensinamentos, tantos. Aprendizagem. Novos caminhos. Novos primas. Buscas.

Passado. Presente. Futuro. Medo. Esperança. Conseguir perceber, finalmente. Aceitar. Não sem dor. Mas espera-se, sem mágoa. Crescer é isto. Ultrapassar.

Do que temos medo, afinal?  O que receamos que aconteça?
Será que o melhor (ainda) vem?
O que será, será.
“Existirmos, a que será que se destina?”





quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Até que as pedras se tornem mais leves do que a água

Mais uma vez, António Lobo Antunes (ALA), não escolheu o livro que escreveu. O livro é que o escolheu. Não esperava voltar a África, mas não conseguiu. Estava mais interessado na relação pai-filho. No entanto, (mais) um regresso a Angola, à guerra colonial, que nunca poderá ser esquecido. Tudo o que está no livro é verdade, nada foi inventado.Limitou-se a contar o que tinha vivido na guerra. Como o próprio assume, foi um livro muito difícil e complicado de escrever. Passou noites horríveis, ele que normalmente dorme bem, não tem pecados. Com sonhos maus e uma angústia enorme. Tudo isso voltou. O sofrimento continua presente.O sofrimento nunca mais acaba. “Ninguém desce vivo de uma cruz”. A guerra “deu cabo da juventude, da nossa idade madura e da nossa velhice”. Uma crueldade imensa. Ninguém ganhou esta guerra.

 “Ajuda-me a esquecer”.
Neste livro, tudo parece repetir-se. Mas tudo parece novo, ao mesmo tempo. Como se estivessemos a ler estas histórias do mal que a guerra fez a tantos, pela primeira vez. Parece um louvor à memória dos que morreram e dos que sobreviveram mas que parecem continuar lá. O que a guerra lhes roubou, senhores. Não saíram da guerra. Quem voltou de lá não voltou igual. Diferentes dos que cá ficaram. “Fugidios, bruscos, quase todos estranhos...”. As marcas permanentes que a guerra lhes deixou. A miséria da guerra. Sonhos permanentes com África que se repetem. Os medos e os pavores. Os insultos velados e explícitos. As imagens horríveis. A loucura. Os suicidas que se mataram sem explicação. A vergonha de expressar sentimentos. Violência atroz. Pessoas sem cabeça e sem orelhas. A ocultação da verdade inconveniente. Nunca contam o que se passou na guerra. A mentira piedosa. Sonhos de guerra onde acordam suados e exaustos.O medo, a vergonha e a ignorância de mostrar afecto, consolo e carinho. Sempre a viverem no passado e da memória que lhes ficou. Culpa e mágoa. A pena. A cabeça que não pára. Racismo. Machismo. Homofobia. Homossexualidade. Sexo. Violações. Infidelidade. A consciência ou a falta dela. Desânimo. Destruição.

Conta a história de um alferes que trouxe uma criança da guerra de Angola. Tudo gira à volta da matança do porco. Como em todos os livros de ALA, não é o argumento que importa, este sempre simples, mas a narrativa e a forma. Este é o segredo. Vários narradores, Prolepses e analepses. Espirais. Polifonias. Narradores vários. Descrições cinematográficas.

Os personagens raramente são bonitos. Os personagens quase todos sem nome: a filha, o filho preto, o alferes, Sua Excelência, a viúva, a prima, Fernandinho. Na sua maioria tristes, infelizes, melancólicos, mas todos com uma sensibilidade acima da média.

O filho preto que trouxe de Angola depois de lhe matar a mãe e o pai. Todos o avisam que quando crescer se vingará. Foi trazido por solidão ou remorso? Por amor ou como um troféu? Casou-se, num casamento infeliz, com Sua Excelência, uma branca que o despreza e o troça. Humilde. Subsidiário. Obediente.Desde o início há um presságio que o filho matará o pai no dia da matança do porco: “Lembro-me da minha mãe sem orelhas...Lembro-me do meu pai de bruços no chão... Lembro-me que você os matou... matou a minha mãe, matou o meu pai, destruiu tudo o que pôde e no entanto passou-lhe uma coisa qualquer por dentro que o obrigou a impedir que me matassem... juro que não me apetecia matá-lo, gostava dele...”.

A filha “sempre zangada, amarga, fala-se-lhe e não responde, sorrimos-lhe e permanece séria”. Sempre sozinha. Indiferente. Mais esquiva do que os gatos. Largou os estudos. Ninguém nunca a questionou, obrigou, aborreceu. Quis largar os estudos, largou. Aceitaram sempre. Nunca lhe ralharam. “acho que não gosto seja de quem for, de que criaturas podia gostar e de que serve gostar, o que se faz com gostar, o que se ganha em gostar...”. Drogada. Ressacada. Descuidada.

A mulher sempre discreta em tudo desde o primeiro dia. Tímida. Educada. Sem aborrecer ou incomodar ninguém. Começou a sofrer de guinadas no rim. Descreve tão bem a dor com imagens. Descrições cinematográficas. “pedras no rim a comerem-na sem descanso com aqueles dentinhos horríveis, a alcançarem-lhe o fígado...é o sangue a apodrecer, é o corpo que desiste... As pedras no rim que se tornavam a pouco e pouco mais leves do que a água.  Um cancro no rim que lhe invadiu o corpo inteiro..A degradação com a doença. O sofrimento. O declínio. A agonia. A morte a chegar.

Todos os personagens partilham desta falta de amor, uns porque têm medo de o mostrar, outros porque não o sabem fazer, outros porque não foram ensinados, outros porque acham que não foram (de todo) amados. Quem sabe um livro sobre este medo?





quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Orfãos

Numa mesa estão sentados Helen e Danny (Isabel Abreu e Tónan Quito). Parecem estar a celebrar alguma coisa. Entra Liam (Romeu Costa), irmão de Helen, coberto de sangue. Liam começa por contar uma história incongruente e depois percebemos que é muito pior. A descida ao inferno. A violência gratuita. O racismo. O preconceito. O acaso. A escolha entre o bem e o mal. A violência a troco de nada. As marcas profundas da infância. Família. Valores. O que faremos nós perante situações limite? Até onde estaremos dispostos a ir? Há limites para defender os nossos? O limite do amor. Desilusão.

Este jantar, dividido em quatro actos, que se separam com luzes psicadélicas e um som ensurdecedor a lembrar o filme “Irreversible” . Descobrimos nesta hora e quarenta segredos, omissões, mentiras, encobrimentos de quem se ama. Qual a fronteira ética e moral? O que são os valores? O que uns fazem pelos outros, o que têm que mostrar para serem aceites e não se desiludirem. Até onde se pode ir? Onde está o limite?

Poderíamos reduzir Liam como psicopata, Helen como má que faz de tudo para proteger o irmão e Danny como o bom, cheio de valores. Mas perceberemos que nada é estático e que o mundo não se divide entre bons e maus. Tudo muda, de repente.

Saímos a pensar no que, por amor, seremos capazes de fazer por alguém.Até que ponto estamos dispostos a ir para proteger ou salvar outra pessoa? Mesmo que não haja salvação possível nem do que fugir.  

Encenação de Tiago Guedes
Texto de Dennis Kelly.
Tradução de Francisco Frazão.





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