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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A minha lista de 10 (sobre cultura geral)

Medicina era o objectivo desde sempre. Mas não tive o comprometimento e dedicação exclusiva que as notas necessárias para a entrada no curso, à época, exigiam. Então, no secundário, percebi, muito cedo, que não seria uma candidata à altura. E em vez de me tornar uma sonhadora frustrada, desisti à partida e não à chegada. Fiquei sem segundo plano. E tornei-me uma aluna universitária medíocre. Com a permanente ideia de desistir. Entrei no que deu. E ao contrário de muitos, apesar das constantes ideias de desistência, consegui terminar o curso. Deve ser algo genético a capacidade de não ter desistido. Não atribuo a qualquer mérito meu, que dependesse da minha acção voluntária. Então, entre ser médica, ou qualquer outra profissão que incluísse os meus gostos pessoais, sobravam coisas que não davam para viver nem ter qualquer profissão que os pais sonham para os filhos. Esses gostos incluíam muita coisa, de temáticas muito diferentes umas das outras, muitas vezes até indefiníveis e até pouco coincidentes entre si. Então como isso não dava dinheiro, tornei-me cientista (que é uma profissão que inclui segurança, emprego para a vida e total realização pessoal... Not). Tornei-me cientista por obra total do acaso. Por causa apenas de um professor, do seu entusiasmo, da sua juventude e do seu grupo de investigação, e a uma das poucas aulas teóricas a que fui assistir numa tarde de sexta feira (manhãs não eram para mim). Descobri no decorrer destes anos que em vez de me ter tornado numa pessoa frustrada, aprendi o lado bom da investigação. Permitiu-me viajar, conhecer pessoas incríveis, mundos novos, pessoas que tratam de pessoas, doentes que são curados, outros que morrem mas não em vão, museus, restaurantes, arquitectura, paisagens, livros, escritores, cientistas, comidas, artistas, prémios Nobel, malucos, nerds, e as melhores universidades do mundo. Baseado no supra referido, segue-se a minha lista (por ordem cronológica):

1- Lisboa, a cidade mais bonita do mundo. Apaixonei-me por esta cidade quando a visitei pela primeira vez aos 3 anos. Nunca mais me esqueci de como tudo era alto e grande. Foi o impacto da diferença entre Lisboa e Braga (cidade onde nasci) à época. O sol não brilha em nenhuma cidade do mundo como aqui. A luz e as cores de Lisboa dos telhados e janelas dos quadros de Maluda. O clima perfeito. O Tejo, com dimensão de mar. As colinas. A baixa pombalina. As avenidas novas. A Gulbenkian. A cidade do meu querido António Lobo Antunes. Dos caracóis. Da bica. Do Lux. Das intermináveis e loucas noites do Bairro Alto. De Belém, de onde os portugueses saíram à descoberta do novo mundo.

2 - Na adolescência li a obra completa do Eça de Queirós, à qual volto repetidamente de tempos a tempos, e que continua a ser um dos escritores da minha vida.

3 - Amália intérprete/letrista/poeta dos seus poemas e dos grandes poetas de língua portuguesa (Camões, O’Neill, Homem de Melo, Mourão Ferreira, Régio). Amália é talvez a pessoa que mais lamento não ter conhecido pessoalmente. Talvez a mais importante figura da cultura pop  portuguesa do séc XX e mais conhecida no mundo (esta sim, verdadeiramente, em todos os lugares por onde passei). Sou fascinada pela vida dela. Uma menina que nasceu pobre, que não passou da 3ª classe, que tinha um dom “que Deus lhe deu”, que se alimentava das palmas do público, que se instruiu, que ousou cantar grandes poetas, apreciadora de arte, que escolheu um dia morrer em NY (como uma diva, e bem ao jeito da catarse da tragédia grega, felizmente arrependeu-se a tempo), que amava flores (como a minha mãe). Verdadeira autodidacta.

4 - Clara Ferreira Alves que leio desde 95 no Expresso. Com ela tive verdadeiras aulas de cultura geral. Descobri e apaixonei-me por Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Susan Sontag, Graham Green. Fascinei-me pelo Médio Oriente e por desertos. Interessei-me por política e por muitas outras coisas que não cabem nestas linhas. Faz-me sentir que nunca conseguirei ler à velocidade do que (ainda) gostaria de ler e reler. Mas faz-me ter essa meta e, sobretudo, não desistir.

5 - Maria de Sousa, talvez das poucas pessoas que não conheço pessoalmente, mas que mudou a minha vida. Ela que é uma médica que se tornou bióloga e eu que sou uma bióloga que queria ser médica (mas a vida não é tão fácil assim e não deu, lamento). Com ela aprendi que é possível ser-se cientista e gostar de coisas que não têm nada que ver com ciência. Senti-me muito menos só no mundo quando soube que ela gostava de poesia, de tocar piano, de escrever na parte de trás das folhas em que só um lado estava usado. Através dela cheguei a Garcia de Orta, Abel Salazar, António Damásio, Espinoza, Auden, Cummings e por aí vai.

6 – Adriana Calcanhotto – Quase não oiço música porque não consigo fazer mais do que uma coisa ao mesmo tempo. Mas tal como Vinícius e Caetano, Adriana, é muito mais do que uma intérprete. Preferi dá-la como exemplo por ser uma mulher e a mais nova dos três, mais perto, portanto, da minha geração. O que não quer dizer que me interesse menos pelos outros dois. A autobiografia de Caetano é um livro que já li 4 vezes. Aprendi muito sobre o Brasil, sobre a cultura brasileira e sobre o tropicalismo. Quem mais do que Caetano teria a bagagem cultural, o dom e a capacidade para escrever uma canção como Alexandre?”. Uma autêntica lição sobre o Rei da Grécia Antiga.
Adriana, reúne muitos talentos. É uma autodidacta, curiosa, conhecedora, intelectual, moderna e sofisticada. É uma artista multifacetada que desenha e pinta bem, escreve, fala e canta melhor, e dizem que toca bem mais do que melhor. Depois, partilha o mesmo interesse que eu por livros e livrarias.Tal como outros antes, incluíndo Amália, pegou em grandes nomes da poesia brasileira e portuguesa, musicou os seus poemas e deu-os a conhecer através da música (Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Bandeira, António Cicero, Mário de Sá-Carneiro, entre outros). Musicou até uma resposta de Joaquim Pedro de Andrade ao Liberation à pergunta Pourquoi filmez-vous? Há uns anos fiz-lhe a seguinte pergunta: “Apesar das sucessivas comparações a que tem sido sujeita, principalmente com Elis Regina, eu diria que a sua trajectória como excelente compositora assemelha-se muito mais a Vinícius de Moraes pela erudição do vocabulário, pela forma extraordinária como escreve poesia em língua portuguesa e pelo veículo das palavras ser a música. Será que daqui a alguns anos a Adriana será definida como uma grande poeta que fez canções maravilhosas? Era assim que gostaria de ser definida?” Ao que ela respondeu: “Ana, eu detesto comparações (como qualquer artista).  Mas considero um grande elogio a analogia que você faz com Vinícius, a quem amo muito. Na verdade, eu gostaria de ser indefinível, inclassificável, hoje ou daqui a alguns anos”. Interessa-me muito mais o que ela tem a dizer e o que o que escreve do que a melodia das canções, que quase nada entendo. Talvez por achar que a música seja o tipo de arte que menos me interessa.

7 - Houston, a cidade onde fiz quase toda a minha investigação de doutoramento. A cidade improvável. No sul dos Estados Unidos. Perto do México, recheada de mexicanos ilegais, republicana convicta, conservadora, perto da praia mais feia do mundo (Galveston), do centro espacial da NASA onde nasceu a frase "Houston, we have a problem", do maior centro médico do mundo, do mais importante hospital para o tratamento de cancro do mundo (MD Anderson Cancer Center), onde tudo é gigante (principalmente as distâncias e as doses de comida) e onde é impossível andar a pé. No entanto, foi a maior e mais feliz surpresa da minha vida. Andei kms de bicicleta que era o meu meio de transporte, apesar de ter arriscado a vida muitas vezes. E foi lá pela primeira vez que descobri o verdadeiro significado de saudade. Percebi e dei valor a coisas que até aí relativizava: que gostar de flores e apreciar comida bem feita são também formas de arte. Estas duas aprendi com a minha mãe e só à distância é que as compreendi. Descobri a Rothko Chapel e o The crab do Calder. Para atirar mais lenha para a fogueira, descobri o bairro de Montrose, o denominado bairro estranho, um verdadeiro oásis naquela cidade, onde tudo é possível e onde tudo pode acontecer. Durante quase estes 2 anos, a música do ipod e a bicicleta foram as minhas mais presentes companhias. O grande exemplo de como é possível ser-se muito feliz numa cidade feia e com um calor infernal.

8 - Nova Iorque, a cidade que eu escolhi para viver. A cidade onde se pode fazer tudo. A cidade onde tudo é possível. A melhor cidade do mundo para se andar a pé. Onde realizei os sonhos inimagináveis de ver Black Swan pela New York City Ballet, de ver Placido Domingo como maestro de Madama Butterfly no Metropolitan Opera e os vitrais de Chagall. Onde vi a exposição inesquecível Savage Beauty de Alexander Mcqueen  e o quadro The great wave de Hokusai no The Met Museum of Art, onde morei a poucos metros da primeira casa de Susan Sontag e frequentei os lugares que ela frequentou, onde fui ao lançamento de Just Kids e Banga de Patti Smith, onde eu li muito no metro, do maior numero de livrarias por metro quadrado, das inúmeras galerias em Chelsea. Dos fabulosos estúdios do Soho. Ia a Times Square quando me sentia sozinha. Onde vi quase todos os quadros que tinha visto nos livros, onde me apaixonei mais ainda por Hopper. Onde vi as fotos de Annie Leibovitz. E onde assisti duas vezes a Wit, o monólogo magnificamente interpretado por Cinthia Nixon sobre uma professora de literatura inglesa, especialista em Donne, que está com um cancro terminal. Aqui também li quase todas as biografias que encontrei de Marie Curie, a cientista que ganhou dois prémios Nobel de Física (pela descoberta da radiação) e Química (pela descoberta dos elementos químicos radio e polónio) e que se apaixonou por um discípulo que era casado e foi um escândalo. Da tardia descoberta de Brooklyn.

9 - Um eléctrico chamado desejo no Teatro Nacional D. Maria II, encenado por Diogo Infante com a brilhante interpretação de Alexandra Lencastre (de volta ao teatro tantos anos depois) no papel de Blanche DuBois (a mais bela representação desta personagem, de todas as que vi) e Albano Jerónimo no papel de Stanley.

10 – Fundação de Serralves – Não sou grande admiradora do Porto como cidade. Não gosto da cor (permanente) cinza nem da temperatura. Não gosto do interminável síndrome de inferioridade, do bairrismo da cidade pequena e/ou das sucessivas comparações com a capital. No entanto, acho que uma cidade que tem um museu como Serralves e viu nascer Sophia, não precisa de mais nada. Já valeria a pena só por isto.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

João Lobo Antunes

João Lobo Antunes, como diria Pessoa, “tinha o mundo dentro dele”. Foi o primeiro Lobo Antunes que conheci e li. Li “Um modo de ser” no ano em que foi galardoado com o Prémio Pessoa, em 1996. Depois desse, quase todos os livros. Conheci a realidade de NY através dele, e Washington Heights, muito antes de achar que algum dia frequentaria aquelas ruas. Foi com ele que descobri o meu amor por NY. Foi assim que escolhi a universidade de sonho em NY e que achei que seria apenas isso: um sonho. E foi através dele que quis ir viver para lá. Através dele aprendi antes de ser uma new yorker “emprestada” a differença entre a opera e o museu. The Metropolitam Opera e The Metropolitan Museum of Art. A sigla Met. Quando finalmente fui para NY, para Columbia, mostraram-me  a cadeira com o nome dele no Neurological Institute of NY. Através dele apaixonei-me por Edward Hopper, principalmente aquele homem numa noite sob a sombra da luz (Night shadows). E depois disso fui a todos os museus de NY que têm obras do Hopper: Met, Whitney, MoMa e Brooklyn Museum. O americano que mais pintou o quotidiano. Com ele descobri a humanidade que deve existir em todas as profissões tão bem descrita na “Morte de Ivan Ilitch” de Tolstoi. O livro que talvez ele mais citava. O livro que todos os médicos deveriam ler. E o livro que eu mais li e ao qual volto sempre. Com o Professor aprendi que as mãos são a marca do ser humano. Aquilo que talvez mais nos distingue das outras espécies. As mãos, essa parte anatómica que denuncia a nossa idade. Aquela que ninguém consegue fazer regredir os anos. A mão que é o instrumento de trabalho mas que também afaga e consola. O peso da mão. E a beleza e delicadeza que as mãos cirúrgicas têm. Já apreciaram a beleza e a dança das mãos numa neurocirurgia. Os gestos delicados, o detalhe, a leveza? Já apreciaram as mãos de um neurocirurgião? Já pararam para apreciar o quanto umas mãos bonitas são talvez das mais belas partes do corpo humano?

João Lobo Antunes foi sempre um aluno brilhante. Dizem que fazia tudo bem. Tinha qualidades invulgares para um homem só. Escrevia exemplarmente bem, era um acérrimo leitor, apreciador de todas as artes e tinha uma cultura invulgar. Para além de tudo isso, foi o mais brilhante neurocirurgião da sua geração. Como ele disse um dia, aqui é famoso mas foi para NY onde era um “small fish in a little pond”. Há maior banho de humildade do que este? Exaltava como maiores virtudes do ser humano a compaixão, decência e carácter. Conheci, não pessoalmente a sua fama como neurocirurgião. Mas sobre o que posso opinirar é sobre a escrita. Que bem que ele escrevia. Ensaios e memórias, sobretudo. Espero ansiosa pelo registo  das suas memórias a que se dedicou nos últimos tempos.
Morreu em casa como Ivan Ilitch, mas não como ele. Com toda a certeza que rodeado da família, com compaixão, respeito e amor.

Nenhum dos livros que tenho dele estão por ele assinados. Não por falta de oportunidade mas por falta de coragem. Ele para mim estava num pedestal. Transparecia ser tímido, de poucas palavras, reservado, cerimonioso, educadíssimo. Aquilo que se dominaria de um “homem à antiga”. Daqueles que ainda beijam a mão. Um príncipe.

Era sabido que estava doente. Não sabia o quanto nem que fosse tão rápido. Se é verdade que na morte, todos são bons, a gigantesca quantidade de mensagens de pesar e a unanimidade no elogio, emoção  e na  admiração pelo médico e pelo homem é de ressaltar.

A Medicina, a Ciência e a Cultura portuguesa ficam mais pobres. Foi-se um dos grandes intelectuais do país.

Copyright: Correio da manhã
Copyright: The Metropolitan Museum of NY

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O meu problema com Bob Dylan

O meu problema com o Bob Dylan é quase o mesmo que os outros galardoados com o Nobel da Literatura. Não o conheço (bem). Sei que é um grande (e conhecido cantor, para muitos) e um grande compositor. Não sei apreciar a sua qualidade musical. Mas sei dizer que detesto a voz fanhosa e aguda dele com aquele sotaque do sul (Minnesota). Aquele ar superior, de estar a “cagar-se para o mundo”, enerva-me. E achei espectacular o facto de ele não ter falado (ainda) com a Academia Sueca. Ele não rejeitou o galardão. Pura e simplesmente ignorou-o, que é muito pior. A justificação da Academia Sueca para atribuir o Nobel da Literaura a Bob Dylan baseou-se no facto de ele “ter criado um novo modo de expressão poética na grande tradição da música americana”.

A minha questão é mais: Não havia quem mais merecesse nessa categoria. A tradição de premiarem poetas é quase inexistente. Se a ideia foi premiar “escritores de letras de músicas” acho muito bem. Não distingo poetas de “escritores de letras de músicas”. Retiremos a melodia desses poemas e veremos que o poema resisterá sem música e será igualmente grande. Mas nessa categoria podemos questionar-nos: Vinícius de Moraes não mereceria muito mais? Um grande poeta que escreveu músicas extraodinárias. Um menino que sonhava ser poeta. Nunca sonhou ser outra coisa. Foi um dos grandes percursores de um revolucionário estilo musical: a bossa nova. Ok, mas está morto e a Academia não premeia mortos. O mesmo poder-se-á dizer sobre David Bowie. Mas, e sobre Leonard Cohen ou Patti Smith? Esta pergunta não tem resposta certa. Gosto, apenas, da pergunta. Serve, apenas, para pensar.

A coisa mais improvável que me aconteceu em relação ao Bob Dylan foi que conheci primeiro quem era Dylan Thomas antes do Bob Dylan... E eu gosto tanto do Dylan Thomas que até já fui a todos os loscais e ruas que ele frequentou em NY. As únicas duas músicas que coheço de Bob Dylan são. “Knocking on heaven’s door” e “Mr tamborine man”. A primeira um hit da minha geração popularizada pelos Guns N’ Roses.

Depois, outra coisa, o mercado livreiro está de tão boa saúde que atribuir o prémio de literatura a alguém que vive da música, parece-me injusto. Mas provavelmente eu não consigo esboçar uma opinião neutra porque não gosto, especialmente, do Bob Dylan. Alguém que nem o próprio nome assina...o tal “bardo romântico judeu do Minnesota”, como escreveu Caetano Veloso.


Senhores, desculpem-me, mas eu nunca fui de concordar com a maioria. Esta é a minha opinião. Não pretendo convencer ninguém.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos 2016

Ponham os olhinhos no FOLIO, senhores! Ainda dizem que a cultura de alta qualidade não vende.Um evento de 10 dias à volta dos livros. Uma vila, no interior de Portugal, num país que se diz ler pouco e todas as sessões estão cheias e os eventos, mesmo os pagos, estão esgotados. O povo é aquilo que se lhes dá. Eu e a maioria das pessoas presentes no Folio foram propositadamente. Qual a receita do sucesso?

Fico a saber que o Presidente da Câmara Municipal de Óbidos é do PSD. O partido que muitas vezes nos seus governos aboliu o Ministério da Cultura. Incluindo o último, de Passos Coelho, que foi só tiros nos pés. Até o acervo do Miró queriam leiloar. Ou seja, as decisões culturais dos políticos não são ideológicas. Há por aí muito boa gente que diz que não precisa de estudar nem ler nada para além do seu trabalho porque já aprenderam tudo o que deviam quando foram alunos na Faculdade. Que visão mais redutora do mundo. Que pequeno o mundo que lhes vai na cabeça. Que falta de pensamento. Mas, isso, são outros quinhentos.

 O que me fez ir, não vou mentir, foi o programa. Primeiro o Salman Rushdie com a Clara Ferreira Alves. E depois, o Camané a cantar Jobim. Apesar de, para este último, já não ter conseguido bilhetes. Tirei o meu último dia de férias para ir e conseguir chegar a Óbidos às 9. A conversa de Rushdie com Clara Ferreira Alves teve que ser mudado de lugar. Da tenda de autores para a tenda de concertos. Acho que a conversa não poderia ser conduzida por ninguém mais habilitada. Quem melhor do que Clara Ferreira Alves para conversar com Salman Rushdie? Ela que é uma enciclopédia ambulante. Que domina e conhece o islão, o Médio Oriente, a fatwa, terrorismo, EUA, NY, Londres. Sobre isto e muito mais se falou nesta noite. E que escreveu um livro magnífico sobre estes assuntos. Eu diria que o humor e a ironia são as características deste escritor. Ao contrário de muitas outras vedetas do seu calibre, este não é tímido, é solícito e ri-se de si próprio. É talvez a única pessoa de origem indiana que conheci simpática, não querendo generalizar. Apelidou a religião de non sense. Referiu-se a Madre Teresa de Calcutá sobre ser o oposto de uma santa. E apelida o ex-Papa de “Eggs Benedict” Falou-se da sigla ISIS que há uns tempos ninguém conhecia: “era apenas o nome de uma deusa egípcia, ou de uma mercearia na rua onde vivo, em Nova Iorque. Falou de quanto é feliz por viver em NY. Clara perguntou-lhe onde se sentia em casa ou aonde é que ele pertencia. Ao que respondeu que sempre se sentiu pertencer muito mais a cidades do que a países. Gosta de livros que o façam pensar. Falou que grandes livros não mudam necessariamente o mundo. Deu como exemplo o “Moby Dick”, um colosso que segundo ele nem a pesca mudou.
No dia seguinte acordei relativamente cedo, para ser sábado. Fui comprar o “Expresso” em frente ao hotel e cruzo-me com o grande Luís Miguel Cintra. Nunca o tinha visto fora do palco. Passei a manhã a ver todas as livrarias de Óbidos: Mercado, Adega...O saco de pano que muitas pessoas usavam era ridiculamente caro. Nem um saco destes na Strand custa o mesmo.Almocei num dos restaurantes na rua principal. Comi muito bem, bebi melhor.


Copyright: Folio
Copyright: Folio
Copyright: Folio

Ao fim da tarde tive uma das grandes surpresas, talvez pela ausência de expectativa: a “Casa Cais”. Luana Carvalho (que eu não conhecia, como é possível), Alice Sant’Anna (que eu conhecia do livro “Rabo de Baleia” que trouxe de São Paulo), Pedro Sá (o grande músico da banda Cê e um dos grandes responsáveis pela modernidade dos últimos discos de Caetano) e Rafael Rocha. Pedro Luís, na plateia fez uma participação especial. Anabela Mota ribeiro apresentou-os, lendo “excertos” do grande livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas do não menos grande Machado de Assis. A delicadeza de Alice Sant’Anna a ler excertos do seu livro “Rabo de baleia” cujas palavras mais repetidas foram: baleia e Japão. E os variadíssimos nomes para a mesma cor usados no Japão. Mostrou ainda talento para cantar. Luana Carvalho, filha da mãe Beth, mostrou que o talento é genético. Até o cenário era inspirador. Uma laranjeira em que se viam as folhas a cair. O passar do tempo, como a vida. Que acontecimento este. Foi tão bom mas tão bom. Ficou a memória e a vontade de ver de novo. “Que lindeza tamanha”, como nas palavras de Régio.

Copyright: Anabela Mota Ribeiro


À noite, o grande concerto de Camané a cantar Tom Jobim. Uma verdadeira utopia neste registo. Indescritível de tão lindo e emocionante.

Copyright: Anabela Mota Ribeiro
No último dia houve ainda uma leitura encenada dos solilóquios de Hamlet — “como queiram de William Shakespeare” , coordenada por Beatriz Batarda e e por alunos e ex-alunos dela. Este para mim, foi o outro grande momento do festival. De uma delicadeza, força, verdade e excelentes interpretações. De encher a alma e o coração. Beatriz Batarda, uma excelente professora e uma das maiores encenadores e actrizes da sua geração. Que para além de tudo, é muito gira. Palamas para ela, muitas e para os alunos que ajuda a formar. Enquanto houver actores desta qualidade existirá sempre público.

Copyright: Folio
Copyright: Folio
Copyright: Folio
Copyright: Folio

Dos dois curadores só conhecia a Anabela Mota Ribeiro e José Eduardo Agualusa. O último não vi. A Anabela estava omnipresente. Todos os eventos que fui, lá estava ela. Sorriso aberto e abraços e beijinhos para todos os conhecidos. A felicidade era visível. Foi através dela que conheci o festival e não poderia haver melhor divulgadora. O seu entusiasmo e alegria foram contagiantes. Que qualidade de programa e que orgulho. Palmas e elogio, por isso, para ela.


Há coisas a melhorar, claro. Como as acessibilidades. O Comboio Literário foi uma excelente iniciativa. Falta melhorar os transfers da estação de comboios para a vila e criar um Comboio Literário desde o Porto (o norte também existe, e passar o dia entre aviões e comboios só com muita vontade mesmo). Mas não me arrependi. Tudo valeu muito a pena. Superou todas as minhas expectativas. O tempo ajudou. A organização magnífica, o cenário condizente. Tudo beirou a perfeição. Memórias muitas e já penso na vontade de voltar para o ano. Para mim, foi um verdadeiro acontecimento. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Noite branca

Mesmo sem ter estado pessoalmente em nenhum dos 3 dias,  as opiniões e repercussões são as melhores possíveis. Aquilo que há uns anos era apenas uma noite, este ano foi um fim de semana. E desta vez, acho que nem os críticos têm muito a apontar.Sexta-feira à tarde disseram-me que a cidade estava inundada de gente. Durante o fim de semana, os autocarros circularam em horário extraordinário e de frequência regular. Os grandes concertos incluíram nomes como Carminho, Miguel Araújo, The Gift e Sérgio Godinho + Jorge Palma.  Houve actividades para os mais pequenos que incluía actividades como contar histórias, desenhar em paredes, construir a própria máscara, ofertas de algodão doce. Os museus estavam abertos e de entrada livre. As ofertas gastronómicas eram muitas. Orquestras sinfónicas e música clássica no Theatro Circo, assim como, DJ’s.  Cenas alternativas no GNRation. Danças no Largo São Paulo. Instalações espalhadas pela cidade. Performances. Bandas. Desta vez, parece que não há do que nos queixar. Ofertas para todos os gostos. Gente, muita gente a percorrer a cidade a pé. Uma cidade que foi para os pedestres. Não podemos deixar de aplaudir. O tempo também ajudou. É com estas dinâmicas que Braga se deve transformar. Uma cidade com diferentes ofertas culturais. Uma cidade pedestre, voltada para a rua e para o seu património e mostrar o que de melhor há. Havendo eventos, as pessoas saem à rua. Por isso, os organizadores, estão de parabéns.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Paulo Cunha e Silva (1962-2015)

Passava pouco das 9 da manhã quando ouvi na Antena 1 a notícia da morte de Paulo Cunha e Silva. Morreu, subitamente, aos 53 anos de enfarte agudo do miocárdio. Saiu inesperadamente de cena. Uma árvore que morreu de pé. Uma grande pena. Deixa um enorme vazio. A perplexidade de todas as pessoas pelo desaparecimento de quem parte tão jovem. Um choque profundo. Angústia e dor. A vida, sempre imprevisível. Tão breve, neste caso. Mas com certeza que viveu cada segundo como nunca mais e a uma velocidade impressionante e difícil de acompanhar.

Médico (que nunca exerceu), Doutor pela Universidade do Porto, professor universitário, adido cultural, crítico de arte, programador cultural, Vereador da Câmara do Porto, amigo, irmão, tio, inesquecível. Passou a vida a cruzar as artes com todas as ciências. Sabia fazer ligações, sabia unir as pessoas em torno das causas em que se envolvia. Tinha uma grande capacidade de gerar consensos.

A unanimidade da descrição, de quem e como era, é reveladora: “um génio bom e generoso”, orgulhoso, lutador, criativo, empenhado, caustico, humano, conhecedor,  profundo, interior, sábio, feliz, confiante. Amigo, simpático, optimista. Único,  genial, ímpar, provocador, entusiasta, vibrante, insubstituível.

Tal como na vida, na morte, a estética não foi esquecida. O velório no Teatro Rivoli que ele devolveu à cidade e ao povo. Com a urna no centro do palco, iluminada apenas por uma luz ténue, e um piano. Ao fundo, uma fotografia gigante, recente de há duas semanas quando acabara de ser condecorado pelo governo francês.

Milhares de pessoas participaram nas cerimónias fúnebres. O funeral de Paulo Cunha e Silva reuniu uma massa impressionante de pessoas, que acompanhou o cortejo fúnebre entre o Teatro Municipal Rivoli e a igreja da Lapa. Uma dose extra de emoção, ao ser ovacionado longamente, em frente à Câmara Municipal. Os elogios fúnebres foram feitos por Rui Moreira, pelos sobrinhos e pelo companheiro Miguel.

Muitos recordam o muito que fez mas sobretudo têm pena daquilo que não teve tempo de fazer. É uma perda irreparável para o Porto e para o país. A cultura da cidade do Porto perde uma peça fundamental. Deixou uma cidade completamente diferente daquela que encontrou quando assumiu a Vereação da Cultura, com uma dinâmica incontrolável, esperemos que impossível de parar. As suas flores plantadas permanecerão. Como o próprio disse: “A maior forma de homenagearmos os autores e os artistas é mostrarmos a obra”.



segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Segundo dia do encontro “Portugal europeu. E agora?

Cheguei atrasada para a conversa com o Prof. Adriano Moreira. Como a sala era muito pequena já não pude entrar...Contentei-me no fim de trocar umas breves palavras com tão ilustre pessoa, que apesar de atrasado para outro evento, ainda aceitou simpaticamente assinar o livro autobiográfico. Directamente para o coffee break ainda me cruzei com o Prof. João Lobo Antunes, bastante mais magro e com o look da moda entre os homens, de barba.

Fiquei-me pelos sofás a ler o DN até à hora de almoço.  Entrei no imenso pavilhão e encontrei o Ruben Alves a falar com a Fernanda Freitas. Sentei-me ao lado dele. E almoçamos com conversas de Braga a NY, de Paris à Costa da Caparica, da noite lisboeta, do inverno húmido de Portugal... A sintonia decorreu “regada” do tão americanizado hábito de coca-cola com gelo, partilhado por ambos!

Seguimos para a conversa entre o maestro Rui Massena e José Alberto de Carvalho. Este encontro foi para mim o mais imprevisível e o mais adorado! Uma conversa com muita música, onde se falar de arte, de compositores, de silêncio, de vozes. Ver o Rui Massena tocar piano como se de uma guitarra portuguesa se tratasse foi emocionante.  Assistir José Alberto de Carvalho tocar “Let it be” foi surpreendente. E depois vê-los tocar juntos um compositor francês, do qual não me lembro do nome, foi para mim que sou de lágrima fácil, a cereja no topo do bolo. Os momentos imprevistos são sempre os melhores!








A última palestra que assisti foi “Café das artes” com Ruben Alves, Bárbara Coutinho, Rui Massena e moderado por Fernanda Freitas. Quando se lhes pediu para definirem o “seu café” Rui Massena disse que era o café de casa, onde gostava de receber e estar com os amigos. Fartei-me de rir quando disse que como é que as crianças podem gostar de música quando lhes espetam com a flauta no ciclo? “A flauta tira logo a vontade para a música”.
Bárbara Coutinho disse que o “seu” café era o oposto ao turismo cultural por onde passaram grandes nomes. Gostava de um café da Caparica – Costa Nova e do Luso no Porto. Gosta do Martinho d’Arcada e de cafés onde é conhecida.
Ruben Alves destacou o café de bairro de Lisboa, onde diariamente, quando está cá toma o pequeno-almoço.  Não o faz em Paris. Em Lisboa ainda há a conversa e a partilha, coisa que não acontece nos cafés de Paris.
Discutiu-se a cultura. Se quando as massas aderem à cultura diminui a qualidade.  Que não nascemos apenas para sobreviver. E que isso passa muito pela cultura, pela arte e pela educação. Estamos apenas a dar pão e circo? É preferível ler má literatura a não ler de todo? Ou ouvir má música do que não ouvir nenhuma?




À noite tinha que optar pelo concerto do Rodrigo Leão no Jardim da Estrela exclusivo para 400 pessoas ou pela peça de teatro “Preço” de Artur Miller no Teatro Aberto...Difícil escolha. Nunca escolho, quero sempre tudo!







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