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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O que amar tem de errado?

Há 20 anos fiquei muito chocada quando um grande amigo não teve coragem de me dizer que era gay e optou por me dizer por carta. Eu sabia, sempre soube mas fiquei tristíssima por ele não ter tido coragem de me dizer olhos nos olhos e por ter demorado tanto tempo.  Eu tinha 18 anos e ele também. Essa verdade que eu sempre soubera, era e sempre foi, clara para mim. E nada mudou. A importância que dei ao tempo que demorou e a forma de me dizer relativizou-se. Tudo é tão relativo, veio o tempo a mostrar-me, depois.

Hoje, passados 20 anos, a história repete-se. Soube ontem, abertamente, por mensagem o que sempre achei que se sabia mas que nunca me disse. Mas teria que dizer? Conheço-o desde sempre. É mais velho do que eu. É a pessoa mais delicada, educada, física, amorosa, que conheço. Um doce de pessoa. Sempre com coisas bonitas para dizer. Um esteta. Tem uma biblioteca que me faz ter inveja. E uma casa linda de morrer. Tem sempre flores frescas. Estamos pouco mas quando estamos é uma alegria. Acabo de saber que tinha uma relação há 18 anos. Vividos em silêncio. Viveu aprisionado tempo demais. Viveu com as verdades que ninguém quis ver. Em segredo. Pergunta-nos se sabemos o que é calar. Esconder. Passar uma vida assim. Como se a outra pessoa não existisse. Como ninguém. Estou tão feliz por ele. Por amar abertamente. Tantas pessoas que passam pelo mundo e não sabem o que isso é. E ele permitir-se, dar-se a essa oportunidade que pode não ser repetível, é o que me faz sorrir e festejar por ele. Assumiu o seu segredo.

Decidiu chegar de novo. Começar de novo. Permitiu-se assumir o que sente. Abriu o coração. Sem pensar. Sem medo. Sentir o amor. (Apenas) para ser feliz. A vida é curta. Muito curta. Porque sonhar (só) não adianta nada.  Mas (ainda) está a tempo. Sempre a tempo. Porque o tempo não volta atrás. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A despedida profissional de uma grande pessoa

Fomos colegas de curso. Não privamos muito. Via-a mais na noite do que nas aulas porque eu vivia de noite e ela de dia e de noite. Tínhamos amigos comuns. Ela foi sempre boa aluna, eu não. Ela era beta e eu também. 

No dia que entrou no lab, lembro-me muito bem, os poucos homens que havia no grupo pararam como se de um filme em slow motion se tratasse. Não me lembro como nos aproximamos. Mas lembro-me do jantar de doutoramento do T. em que ficamos juntas. E do jantar de doutoramento da X. E do jantar de doutoramento da M. Jantares que bebíamos muito e que não nos lembramos de metade. Era o tempo em que não passávamos dos 20. Nesse tempo, não tínhamos hora certa de chegar ao lab nem hora de sair. Vivíamos uma vida errante de almoços e jantares na cantina da universidade e voltávamos para o lab sem hora de sair. Um tempo em que se fumava em todo o lado. Perdemos a conta e a noção das vezes que choramos de desespero antes de conferências. Mas havia sempre alguma alma caridosa que nos desse a mão. Tempos em que não havia diferenças hierárquicas entre estagiários, alunos de doutoramento e Postdocs. Tempos em que éramos todos iguais. Tempos em que me lembro que havia momentos muito maus mas os bons compensavam tudo. Tempos em que íamos buscar amostras de medula e cordão ao hospital. Com ela comecei a aprender a ser organizada e a ter uma inveja boa de quem tinha uma letra legível e que toda a gente entendia. A nossa amizade foi sempre improvável. E com ela aprendi que a característica essencial de todos os meus amigos é terem um coração grande. Nunca tive uma amiga tão diferente de mim.

Quem a vê parece uma pessoa fútil mas nunca foi. Ela é o exemplo que beleza e inteligência são compatíveis. Ela ensinou-me sobre tendências e sempre me ajudou a escolher o outfit para ir a casamentos. Eu sempre lhe mostrei o que ela poderia gostar de ler, apesar de ser cegueta, como eu carinhosamente lhe digo até hoje. Partilhamos o gosto por Madonna.

Passamos tanta coisa juntas. Fomos para Shanghai, talvez a viagem mais revolucionária da minha vida. Partilhamos sempre o quarto, em todas as viagens juntas. Tal como eu, nunca teve muito amor ao dinheiro. Gostamos de bons jantares demorados. Foi ela que me ensinou a gostar de vinho branco. E quem mais me ensinou sobre vinhos. Fomos para Pittsburgh juntas, outra das minhas grandes viagens. Para ela, menos boa. Foi com ela ela que fui pela primeira e única vez ao Pinheiro. E foi nessa noite que soubemos pela primeira vez, e para sempre, o verdadeiro significado de sorte. As horas incontáveis que passamos na noite. Bebedeiras, jantares, descobertas de restaurantes, Lisboa, Bairro Alto. Sempre próximas, sempre íntimas.

Foi com ela que vivi a história mais surreal de sempre, que hoje é um menino e tem quase 10 anos. Entretanto, descobriu a diabetes. Durante o meu doutoramento estivemos sempre próximas, mesmo com um oceano a separar-nos. Não estive no dia em que se doutorou mas lembro-me do que lhe escrevi sentada num café em Cambridge, de frente para Harvard. Já nos afastamos muito tempo por motivos nunca esclarecidos. Mas, como todas as verdadeiras amizades, voltamos ao sítio onde fomos felizes. E recomeçamos, não do zero, mas do ponto onde terminamos.


Já nos carregamos para a cama. Já fomos o anjo da guarda uma da outra. É talvez uma das pessoas que melhor me conhece. É das pessoas com quem menos uso filtros. Das pessoas que melhor me conhece só de olhar. É um vulcão em erupção. Mas o que mais vou sentir falta e de vê-la todos os dias, da intempestividade dela que tanto nos faz rir e de ser a maior alegria naquela sala. Boa sorte, gaja boa! Sempre em frente, sem olhar para trás!

terça-feira, 13 de setembro de 2016

As verdadeiras vítimas de violência doméstica que me perdoem

Tenho 37 anos, e felizmente, na minha vida entre este país à beira mar plantado e o outro do lado oposto do Atlântico não conheci nas minhas relações violência doméstica. Sou filha de pais casados há quase 41 anos (fazem em Dezembro). O meu pai continua a oferecer flores semanalmente à minha mãe e nunca lhes assisti a uma discussão. Claro que as deviam ter, como todos os casais, mas nunca à nossa frente, nem nunca envolveram vozes altas nem gritos.

Nos últimos tempos, e bem, as denúncias de violência doméstica têm disparado. Obviamente, que nem homens nem mulheres se tornaram mais violentos. A coragem, a divulgação e as consequência é que aumentaram. Seja por que motivo for, a violência, verbal e/ou física, são condenáveis. Quando se chega a este ponto, o sentimento que é o pilar das relações humanas, o respeito, terminou e não há volta a dar. Há limites que nunca se podem ultrapassar.

A minha experiência é outra. A violência por parte das mulheres. Conheço três casos concretos. O primeiro soube-o há alguns anos, ainda era aluna de doutoramento em Houston. Quando me contaram e me mostraram as marcas fiquei tão petrificada que só acreditei na evidência, vendo. Porque os olhos não mentem. Perante aquele absurdo só disse que era inadmissível e como era possível se sujeitar aqueles maus tratos. Na minha inocência de quem nunca vivenciou uma cena de violência perguntei porque não se defendia. Foi-me respondido: “Se reagir posso matá-la”. Aconselhei a pessoa em causa a não dar mais nenhuma oportunidade e revoltei-me, obviamente, com a agressora com quem não falo até hoje. Independentemente dos motivos, ninguém tem o direito de levantar a mão a ninguém. Nada se resolve assim. E nada disto se justifica.

Mais tarde, outro amigo disse-me que um homem com filhos quando terminava uma relação tinha uma coisa a fazer quando quisesse sair de casa e não ser privado dos filhos: fazer queixa à polícia de violência doméstica. Não entendi. Mas percebi com a experiência que era a única forma da justiça não optar pelo lado errado.

Façam um estudo e mostrem as estatísticas. A maioria das mulheres perante a iminência da separação, que aceitam ou não, usam os filhos como arma de arremesso. Primeiro, quando os filhos são pequenos, dominadas pelo instinto de vingança e aconselhadas perversamente por maus advogados, acusam-nos de violência doméstica contra si e os seus filhos e em simultâneo, para acabar de vez com a dignidade de uma pessoa de bem e reduzi-lo aquilo que ninguém aceita, a machadada final é dada com a acusação de abuso sexual dos filhos. Investiguem as falsas denúncias. Ouçam e leiam grandes peritos neste tema como o Prof. Daniel Sampaio e Dra Maria Saldanha Pinto Ribeiro. Imaginem, por um instante, ser acusado de uma coisa tão idionda que não se cometeu. Imaginem o que essa mentira provocará na vossa vida. E os efeitos dela. O pai que me contou ser vítima desta situação era um homem destruído, cansado, choroso, privado da sua filha de dois anos e quem eu dizia que a primeira coisa a fazer era apoiar-se na família, fortalecer-se psicologicamente e acreditar que a justiça dos homens funcionasse. Isto foi há 3 anos. Pelo menos já conseguiu provar que a mãe da filha mentia. Está outro homem. Melhor. Mas os estragos provocados ficarão lá para sempre.

O último e não menos importante caso tem 4 anos. O casamento nunca correu bem. Ele era pai, mãe, sustento da casa, quem tratava dos filhos, quem cozinhava, quem acordava de noite. Para além dos 2 filhos tinha a mulher que parecia ser mais um. Toda a gente conhecia a situação. Era visível demais. Ele era o pilar. E ia aguentando como podia para bem dos filhos. Os problemas começaram quando começou por não deixar os filhos ao fim de semana na casa dos pais. Continuaram porque ela deixou de trabalhar e pioraram com um facto grave que foi o fim. Os pais dela que sabiam de toda a situação gostavam dele e apoiavam-no. Quando se separaram fizeram um acordo escrito, acordado e tratado pelos respectivos advogados, e assinado pelas partes que incluía a permanência dos filhos em determinado colégio. Antes de dar entrada no registo, a mãe rasgou o acordo e andou com os filhos em parte incerta e o pai não os viu durante dois meses. Espalhou um sem número de mentiras. Dizia-se vítima de espancamentos sucessivos, vítima de violência e até de atropelamentos.O mesmo aplicado aos filhos. Factos zero. Provas zero. Relatos dos vizinhos zero. Chamada para a perícia médico-legal não compareceu. Na primeira avaliação psicológica a única coisa que demonstra é querer, sem razão, é não permitir a convivência dos filhos com o pai. Os pais dela desmentem a versão. Não vou entrar em pormenores sórdidos que incluem medicações perigosas para os filhos, mudanças várias de escolas e de casas, retirada dos filhos à mãe... O que mudou: quase nada. Apenas os pais dela, que inexplicavelmente, em vez de defenderem os netos preferem defender as loucuras da filha. Apesar de este pai ser um bom pai, de ter emprego fixo e estável, avaliação psicológica e social mais do que positiva, nenhum juíz (e já lá vão 3) lhe atribuiu a guarda (ainda). Tem tido azar em tudo. Juízes demasiado jovens, sem coragem, médicos incompetentes, psicólogos maus,técnicos pouco aplicados. Vítima de funcionários do Estado que se demitem do seu papel e que não acham este caso (demasiado) grave nem urgente. Este é o perigo dos casos que os outros não consideram graves. Há outros com maior prioridade e (realmente) graves. Gente que faz pouco ou nenhum trabalho de casa e que mal sabe investigar. E gente que dorme bem à noite, sem qualquer remorso. Até lá, espera-se com uma paciência estoica e com um fé que se pede que não desvaneça. Este pai sente-se inútil e impotente por não poder fazer mais do que lutar pelo melhor para os seus filhos e esperar que a justiça dos homens seja feita. Responsabiliza os juízes que optam sempre pela solução mais fácil que é não decidir. Que é passar a responsabilidade para o outro. Isto é o que mais se tem visto. Gente de verdade com muita coragem. Justiceiros. Juízes como Joaquim Silva a quem chamam “defensor dos filhos com pais em guerra”.

E por último, coloquemos na ordem do dia, tal como a violência doméstica, o síndrome de alienação parental.  Pessoas que acham que os filhos são propriedade sua, pais que querem que os filhos escolham e/ou gostem de apenas um dos progenitores e da sua família. Isto é uma calamidade social. E é preciso vive-la de perto. Passar por ela para que saibamos a sua dimensão.

E como me disse uma grande amiga é “ser confiante que as coisas só podem melhorar”. É essa a fé no futuro. E confiar que as pessoas más não triunfarão e que a maldade tem que ser punida.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A amizade

A amizade, como o amor, não se explica. Há quem diga que tem muitos amigos. Eu não. Há quem diga que as amizades não acabam. A minha experiência também me diz que pode, sim,  acabar. O que é verdade numa amizade, ao contrário do amor, é que nunca se fica a odiar a outra pessoa, apesar de tudo. Mas eu também não odeio ninguém, seja porque motivo for. Esse sentimento nunca tive por ninguém. Nunca tive muitos amigos. Dizem que não gosto de quase ninguém, a esse ponto. Dizem que gosto pouco de pessoas. Gosto muito de algumas pessoas.  E os meus amigos são aqueles a quem eu dei uma oportunidade. Às vezes em situações difíceis, que não me envolviam, tentei ajudar usando o meu humor judeu. Isso já me valeu o afastamento de algumas pessoas por quem eu tive que lutar. O que é uma verdadeira amizade? Quando damos conta que o tempo passou, e que apesar da distância e da rara convivência, a intimidade permaneceu. É não ter capas. É falar verdade. É ser transparente. Mas não há regras nem fórmulas.

Durante muitos anos, os amigos que me acompanharam e partilharam a vida, vivíamos como se não houvesse amanhã. Dançávamos, coisa que nunca fiz em público a não ser que a concentração alcoólica fosse alta. Fumávamos sem conta e sem limite. Fizemos muitas loucuras. Nunca nos cansávamos. Tínhamos asas muito grandes. Fizemos interventions uns aos outros. Testámos os nossos limites. E isso passou. Há um tempo para tudo. Hoje, alguns, permanecem.

Tenho amigos de cá e de além-mar. Amigos malucos, neuróticos, chatos. Amigos com pinta. Amigos que não gostam de ler e que gostam de ler. Amigos que tocam piano.  Amigos de todas as horas. Amigos que choram no meu ombro e no meu colo. Amigos que já me viram chorar e com quem chorei ao telefone. Amigos que me ampararam as quedas e os tombos. Amigos que me salvaram a vida mais do que uma vez. Amigos que são irmãos. Amigos que me dão sobrinhos. Amigos que se riem do meu humor judeu. Amigos que se desfazem e que “estão tão à flor da pele que qualquer beijo de novela os faz chorar”. Amigos que perdoam. Amigos que pedem desculpa. Amigos que se esquecem. Amigos que contam e guardam segredos. Amigos que se expõem e que não fingem. Amigos que não se fazem de fortes. Amigos sinceros e honestos. Amigos com corações muito grandes. Amigos com coração sem tamanho. Amigos que me dizem que me adoram. Amigos que eu reconheço as mãos no escuro.  Amigos que nunca me abandonam e que já me abandonaram. Amigos que vão e que ficam. Amigos mega, tera, giga bons. Amigos que acreditam. Amigos que respeitam. Amigos que se fazem de fortes. Amigos que cantam e que pintam. Amigos que ouvem e que falam. Amigos de todas as horas e de todos os dias. Amigos íntimos e mais afastados. Amigos sem definição.

É assim que eu queria que os outros me descrevessem quando morresse: uma boa pessoa, uma grande amiga que sempre fez bem. Este é o meu objectivo maior.


terça-feira, 14 de junho de 2016

Uma carta para os pais, para os homens, e para a família deles:

- Quando se casarem, mesmo que descubram que se enganaram, que a pessoa com quem se casaram não existe mais, que tudo não passou de uma ilusão, que as pessoas de facto não mudam (só se for para pior), não coloquem a hipótese de se divorciarem;

- Se por acaso tiverem filhos, o problema (só) aumenta exponencialmente, e em vez de “não colocarem a  hipótese de se divorciarem” mudem para “nunca se divorciem;

- Leiam as estatísticas de quantas mudanças, guardas, e responsabilidades parentais foram atribuídas aos pais (homens) desde a última mudança da lei. Acreditem nelas (porque existe a tendência para achar que é mentira e que os direitos são iguais, afinal estamos no séc. XXI);

- Quando vos disserem que os direitos de pais e mães em relação aos filhos são iguais, riam-se e relativizem. Nem sempre o que está escrito corresponde à verdade. O Direito não é uma ciência e muito menos exacta;

- Quando vos disserem que os magistrados são a classe mais bem preparada do país, esqueçam. A quantidade de juízes e procuradores aplicados, estudiosos, competentes, progressistas e que não sejam tendenciosos é como encontrar um grão de areia branca num areal preto (Eu que nunca mais oiça dizer que os médicos portugueses são maus porque me vai dar um ataque);

- O máximo que poderão esperar da decisão do tribunal é a “chapa 5”: um jantar todas as quartas-feiras, um fim-de-semana de 15 dias, Natal, Páscoa e aniversários à vez e uma via sacra de martírios, de vergonhas, de cenas, de espectáculos, de insultos, de mentiras e gastos de rios de dinheiro em Psiquiatria;

- Pelas experiências empíricas que conheço, em 4 anos, zero sessões de julgamento para alterações da guarda. Apenas, conferências de pais, requerimento para aqui e para ali, relatórios de psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, CPCJ, hospitais, papéis, tinta, muita tinta, resmas e resmas que ninguém lê, árvores abatidas;

- Encontrem conforto nas palavras dos poucos que ainda defendem  as crianças, não ligando ao género dos pais, mas aquele que é mais competente. A anotar: Dr. Maria Saldanha Pinto Ribeiro e Prof. Daniel Sampaio;

- E para aqueles que acham que as mulheres são todas iguais, não generalizem. De facto, as grandes mulheres existem e andam aí: “Vou dizer uma coisa que muitas mulheres detestam que eu diga, mas, hoje em dia, há muitas situações em que os homens são prejudicados e são discriminados. Dou como exemplo o que acontece na regulação do poder paternal. Normalmente o que acontece é que as mulheres, por serem mulheres, são beneficiadas judicialmente em detrimento dos homens. Não estou a dizer que não haja casos em que isto faça sentido. Agora não pode ser um princípio geral de que as mulheres serão sempre melhores como mães. Isto é uma questão de igualdade e mais, é de bem-estar das crianças. Não podemos defender a igualdade dizendo que nós somos mais iguais que eles. Não. O que temos de discutir hoje é a igualdade em tudo, quer nos casos em que as mulheres são discriminadas quer nos casos em que os homens são”-Doutora Graça Fonseca, actual Secretária de Estado Adjunta e da Modernização Administrativa, Jornal Público, 01/02/15.

- Ser crente ajuda. Para quem tem fé, acredita que se a justiça dos homens não funcionar, a justiça de Deus funcionará. E mesmo quando tudo parecer perdido, há sempre um milagre à espreita. Para quem não acredita, para além de não encontrar conforto terreno, passará acreditar que existe sempre mais fundo;


- Termino a sugerir a todos os licenciados e mestres em Direito: escolham como tema de doutoramento uma análise de decisões dos Tribunais de Família e Menores do norte do país (tradicionalmente mais conservador) e comparação das decisões da guarda dos filhos por género.

domingo, 12 de junho de 2016

O elogio a uma vida boa e longa

Hoje vamos exaltar apenas as virtudes e a qualidades de um homem de família. Marido. Pai. Irmão. Amigo. Um homem austero. Sério. Duro. Forte. Conservador. Tradicional. De bom gosto. Antecipava cenários e crises. Por vezes, exagerado. Trabalhador. Crente. Defensor das mulheres. Sempre defendeu a sua emancipação e a sua independência, sobretudo profissional. Conversador nato. Recto.

Teve uma vida boa. E quando a doença apareceu não houve muito que a Medicina pudesse fazer para o curar. Aceitou a doença e foi um bom doente. A voz, que era a sua característica e identidade, modificou-se, mas não se perdeu.

A última vez que o vi, tinha já sido diagnosticado. Uma semana antes da Páscoa. Se eu não soubesse não acreditaria. Estava igual ao que sempre foi. Crítico da política. Elogiou grandes homens. Criticou maus exemplos. Propunha soluções. Acompanhado, como sempre, pelo seu vinho branco que tanto orgulho tinha. Como sempre à volta da mesa e do famoso lanche. O que eu vi naquele dia foi um homem (ainda) cheio de energia e optimismo que me mostrou como se via mensagens no telemóvel e um cartão pré-pago especial para falar quando quisesse com a minha madrinha na Austrália. Nesse dia, levei duas garrafas de jeropiga, que lhe disseram que eu gostava. De facto, a melhor jeropiga do mundo. 

Como no salmo, o Senhor foi sempre o seu Pastor e por isso nada lhe faltou. Nos últimos dias, quando as forças lhe começaram a faltar, nos limites da condição humana, viveu uma vida de qualidade, apesar de difícil. As noites eram longas e silenciosas. Sempre contou com a melhor das ciências dos homens e com a Graça de Deus para não ter medo. Aceitou e soube viver com isso. Não se revoltou nem desistiu.

Nunca é fácil perdermos uma pessoa que gostámos. E sobretudo, achamos (sempre) que foi cedo demais e que tinha (ainda) tanto para dar. Mas a parte boa é que teve 79 anos de vida saudável e sem limitações.Teve o fim da vida ideal e que todos desejam. Rodeado e assistido pela família, que tudo fizeram. Nunca esteve só. Suportado pelo amor. Em casa. Em paz. Preparou tudo. Esteve lúcido, quase até ao fim. 

Em especial, para a família, sintam-se orgulhosos deste homem e do que por ele fizeram. A forma como o acompanharam e se apoiaram na doença é um exemplo. Sintam-se abraçados e confortados pelo vosso exemplo. Bem-hajam.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A celebração da vida

Acordo às 5 da manhã sem motivo aparente. Pego no iPAD e vejo a inesperada notícia. Congelei. Não percebi. Reli várias vezes. “Escrevo com esperança... E chegou a hora em que teria que me despedir...... Estás por uns segundos... Entre mim e ti todos os fios se desprendem... Tão grande a vida que fizeste, atravessaste o século 20, até agora... 91 é um número supremo... Sei que não ouvirei a tua voz mais... Só dentro de mim... E com o tempo, até essa ficará esbatida e eu infeliz tentarei compor para meu consolo outra. Olharei as tuas fotos de vedeta de cinema americano... Que eras, de parar o trânsito... Esquecendo os outros que para além da casca eras de fibra da melhor proveniência... Grande, imensa, forte, suave, apaziguadora, de humor irresistível... Lutaste, construíste, nunca viraste a cara a adversidade, Foste a minha heroína.. Tinhas pinta, classe... Poucas ou nenhumas sabiam estar como tudo em todo o lado... Se quisesses serias a dona do mundo, mas não, escolheste o trabalho e a família e com isto deste-me tudo o que alguma vez alguém teve...”. Não dormi mais. E essa parte já falei aqui.


O funeral foi em Cepães. Terra Natal.Uma capelinha pequenina. Nossa Senhora da Guadalupe. Chovia torrencialmente. Chegámos uma hora mais cedo da hora marcada para o início da missa de corpo presente. Lá estava o R. Sempre com aquele sorriso lindo. A cara da mãe. E o grande amor da tia. Foi o último a vê-la com vida. Ainda o reconheceu. Que despedida boa foi, imagino eu. Partir com 91 anos com total independência. E não morreu sozinha. Teve até ao fim qualidade de vida. O que mais se pode pedir e desejar para os que amamos. O caixão estava fechado e em cima uma fotografia linda de quem foi a L. Tão bem. O instante captado no seu melhor, pela máquina fotográfica. Ao lado, uma jarra de rosas pérola. Adorava flores. A capela, com o aproximar da hora foi-se enchendo. Chegou a C. e o P. com os filhos (M., C., J. e A.). Vi a tia L. com tantas tantas flores. Um ramo por cada sobrinho e família. Depois vi também o M. e a J. com os filhos (M., A., A. e L.). Ao meu lado ficaram as pequeninas A . e T. Portavam-se exemplarmente. Perguntavam porque não podiam ver a L. No decorrer da missa vi muitas lágrimas a correr nas caras dos meninos. Mas também dos grandes. Mas as lágrimas eram acompanhadas de muitos abraços e de muitos sorrisos. A M. e o P. Fizeram as leituras. Nunca vi um funeral com tantas crianças. O que se podia esperar triste, transformou-se numa celebração. As crianças que a L. tanto gostava e que ajudou a criar. Duas gerações de pais e filhos gratos a esta grande mulher. A família emprestada em peso. A L. deveria ficar orgulhosa. Tinha um dom intrínseco para a alegria e felicidade. Quando vi todas estas pessoas juntas, reunidas na celebração da vida da L. comovi-me até às lágrimas. Mas o momento alto foi quando a C. foi ler um texto. Aí não me aguentei. Um texto tão lindo, tão bem escrito e tudo o que a L. era. Todos choraram dos grandes aos pequenos. A C. lia alto e bem, avoz trémula e com as lágrimas a escorrerem mas ao mesmo tempo, a cara, como a L. queria era alegre. No final da missa a M. tocou viola e todos (quem sabia) cantaram juntos. Mais lágrimas e mais sorrisos e mais soluços. A capela foi-se esvaziando e a C. despediu-se da L. com tantas festas e beijos. O bilhete do elogio fúnebre foi colocado junto à cara.  Como é bom terminar a vida rodeada de amor. Saudade, falta e memórias. É isto que fica. É assim que me lembro da L., bem disposta,  doce, carinhosa, amiga, alegre, sorridente, optimista, festeira. Com uma vida e uma alegria de viver que fazia inveja aos novos. A L. teve, tudo balançado, uma vida boa e uma boa vida. Viveu os últimos 40 anos com a família que não era de sangue mas que foi a família do coração. Todos os meninos e meninas dela, com um raminho na mão acompanharam-na debaixo de um dilúvio. As lágrimas confundiam-se com a chuva. As flores da minha madrinha P., ZL, C. e A. também não foram esquecidas. Estes pais e estes filhos que eram a perdição da L. Também eles estiveram lá em pensamento. A nossa L. vai fazer muita falta e deixa uma saudade tão boa. Mas o exemplo dela, aquela jovialidade, as palavras e a força vão ser para sempre admiradas. E enquanto cada um de nós que conheceu a L. viver, ela não morrerá nunca.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Lilau

Tudo em mim, hoje, é arrependimento. Tenho falhado muito na vida mas não em coisas maiores. Desta vez, talvez a primeira, falhei naquilo que procurei nunca falhar. Soube há pouco tempo o quão doente estava. Um segredo bem guardado. Nada nela transparecia o quão perto estava do fim. Ela não imaginava. Queria muito ver-me. Tinha saudades minhas, disseram-me. E eu, tão consciente que o fim estava próximo, fiz (quase) tudo para ir vê-la. O meu irmão e sobrinhos ainda foram a tempo. Foi um dia lindo, disseram-me. Eu nesse dia não fui porque queria que tivesse alegrias repartidas. Sabia que o fim estava próximo. Nunca imaginei que tanto. Há duas semanas tentei mas tinha ido à terra tratar das coisas dela e estar com as amigas. Deste fim de semana não passaria. Se não estivesse cá iria onde estivesse. Disse isso à minha mãe. Apareceríamos domingo de surpresa na casa dela. Eu sabia da urgência. Sabia que o tempo não parava e que a doença estava a evoluir. Ela estava bem mas eu, no fundo, sabia que a minha visita era inadiável. De domingo não passaria. Seria abraçada e beijada com aquele entusiasmo tão dela. Ficaria contentíssima por me ver. Eu elogiaria o quão bem estava no alto dos seus 91 anos. Entrelaçaríamos as quatro mãos. Ficaríamos assim muito tempo. Não aparentaria o quão doente estava nem tão pouco a idade que tinha. Veria-a magrinha como fora a vida toda. Sairia de lá muito feliz. Cheguei tarde demais. Ou antes, não cheguei. Afinal, não é verdade que chegamos sempre ao lugar que nos esperam.



quinta-feira, 16 de julho de 2015

Para a M., um abraço apertado e gigante

Quando conheci uma das minhas melhores amigas detestei-a. Tínhamos amigas em comum. Uns meses mais tarde, as circunstâncias da vida  juntaram-nos. Sozinhas, do outro lado do mundo, ajudei-a, ouvindo-a. E nunca mais nos largamos. Uns anos mais tarde, do lado oposto do mundo, salvou-me a vida duas vezes. Estes milagres não acontecem sempre mas estão sempre à espreita para acontecerem.  Quero com este exemplo dizer que tenho amigos improváveis. Sendo eu uma pessoa difícil, e que gosta pouco de muitas pessoas, os amigos são aqueles a quem eu dei uma hipótese.

Esta amiga é mais distante. Falamos poucas vezes. Geralmente por emails sucintos, resumidos, bem escritos e curtos, como a vida.  Esta minha amiga tem duas das coisas que mais admiro: escreve maravilhosamente bem e tem um amor imensurável pelos sobrinhos. Acho que foi isso que me aproximou dela. Para além de outras coisas, isso é o que mais admiro nela. No resto, partilhamos a timidez. Chegada a casa de mais uma viagem, leio a confirmação daquilo que andava desconfiada há uns tempos mas não tive coragem de abordar. A minha cobardia de sempre. A má notícia vinha em forma de um texto lindíssimo em que fazia a incrível analogia da morte de uma estrela com o término de uma relação longa. E só ela para escrever sobre qualquer coisa de forma tão sublime.

M., desculpa expor-te assim, mas se um amor como o vosso sucumbiu após 10 anos... a esperança fica curta... Dizem que a melhor literatura nasce na dor. E nem imagino o sofrimento ao escreveres estas palavras que são um soco no estômago, de tão reais: “...Que morte linda a nossa, meu amor. Que história mais sublime essa que escrevemos. Quantas coisas e casas e pessoas e dores e amores dividimos. Como fomos felizes e como existimos (...) Tudo o que sei é que foram os melhores anos da minha vida...”.

E eu, especialmente hoje, não consigo não estar triste. Tens-me aqui para te ajudar a levantar, quando conseguires. Espero que te consigas encontrar, no menor espaço de tempo possível, sem o teu amor. A questão chave é: como se renasce depois da chama apagar? Mas depois penso: a humanidade tem futuro. Porque existem pessoas que se respeitam e admiram mesmo depois que uma relação acaba. Que não esquecem um minuto, que não apagam, que se reconstroem e reinventam. Não como um fim. Mas como um renascimento. Um dia olharão para trás e conseguirão sorrir, quem sabe, sem chorar.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

A força na sua verdadeira dimensão

Naquela semana tirei uns dias para me afastar de tudo. Para estar longe. Para sentir falta. Para organizar ideias. Desço do quarto para comer qualquer coisa. Já é noite. Mas não passa das 7. A poucos metros de mim vejo-a entrar pela porta do hotel. Cabelo solto. Óculos graduados. Anda devagar. Lentamente. Está de luto há um mês. Foi-se o amor da vida dela. Morreu de mãos dadas com ela. E mesmo assim, segue com a vida. Eu que sei, percebo-lhe a tristeza. Talvez para os outros seja imperceptível. Penso na perda e comparo-a com o balanço que faço à minha vida. Afinal, não tenho do que me queixar, comparativamente. No dia seguinte vejo-a outra vez. De manhã. Poderia deixar-se ficar. Resignar-se à tristeza. Não lutar. Não reagir. Optar por não viver. Não levantar-se da cama. Não viajar. Mas é o contrário. Faz o que esperam dela. Não desilude.  Cumpre. Luta. Reage. Alimenta-se. Vive. Ri. Até lhe ouço uma gargalhada. Conversa. E vendo este exemplo, envergonho-me da minha inércia. Relativizo. Dou-lhe valor. E desvalorizo-me. Obrigo-me a olhar em frente. Umas horas mais tarde vejo-a sair. Já não parece tão pequenina como há uns anos achei. Parece poderosa. Cheia de força.

Nessa noite mágica tudo é mudança. Como se houvesse um obstáculo a ultrapassar. Se isso acontecesse estava feito. No exercício da sua arte ouço-a vacilar. Mas ultrapassa com elegância, arte, profissionalismo e delicadeza. A prova de fogo foi ultrapassada. E o sacrifício mostrou valer a pena. Uma noite catártica, portanto. Heráclito, como todas, dito por ela. Mais tarde, sem contar, encontro-a. Quero solidarizar-me com a dor dela mas sem tocar nisso. Não tenho palavras. Nem eufemismos. Quero felicitá-la e dar-lhe uma palavra de reconhecimento de quão boa foi a noite. Limito-me a agradecer e a elogiar. O sorriso abre-se e estende-me as duas mãos.

No dia seguinte fui almoçar com uma grande amiga no restaurante ao lado do hotel, o mais antigo vegetariano de Lisboa. Chego primeiro, coisa pouco habitual. Ela chega depois. Eu estou sentada. Apesar de já não a ver há um ano, está igual, para mim. Apesar de estarmos num vegetariano pergunto-lhe se vai beber vinho. Diz-me que não. E eu, como devo ser a lentidão das lentidões, não percebo a deixa que deveria ser claríssima. Para quem bebe diariamente, não beber, não restam muitas hipóteses. Já que não consegui perceber, ela foi clara. Estava grávida. E eu entre a surpresa da notícia e a falta de percepção de sinais subliminares e físicos não me restou muito tempo até que me dissesse que o bebé tinha Trissomia 22. Eu que nos últimos tempos, profissionalmente, só tenho escrito e lido sobre doenças raras. Isso poderia ter feito de mim a ouvinte ideal. Mas não. O meu cérebro parou. Queria dizer qualquer coisa. Uma palavra de conforto, de esperança, de ânimo. Nada disso. E só piorou com a descrição das anomalias possíveis.  Esse era o último dia que poderia optar pelo aborto terapêutico. Percebi que não o faria. Não me disse explicitamente mas percebi que a decisão por terminar uma vida não dependia dela. Ia deixar a natureza desempenhar o seu papel. Quando o nosso almoço terminou já era hora do lanche. Dei por mim sem forças para dizer nada de bom. E quando não temos nada de bom a dizer o melhor  é o silêncio. E eu que lido com números, estatísticas, casos, tendências, casos raros. Fiquei prostrada. Não sabia dizer nada que confortasse. E arrastei-me por Lisboa. Nesses dias percebi, finalmente, a relatividade das nossas tristezas.

Há um mês voltei a Lisboa e vi-a já numa gravidez avançada. Feliz como todas as mães. Como a canção “Só as mães são felizes”. Almoçamos, tardiamente, um peixe escalado que me ficou na memória.  Transbordava felicidade. Nada de azedumes, nem queixas, nem mágoas, nem culpas por carregar um bebé diferente. O M. já tinha nome. E aí percebi a grandeza que só algumas pessoas são capazes de ter. O medo que assola todas as mulheres numa gravidez. Não importa o sexo. Importa que seja perfeitinho. Essa ânsia e esse desejo. E depois o muro desmorona como um castelo de cartas de baralho. Como se reage? Como se enfrenta? Como se continua? E acima de tudo como se renasce?  Como se convive com um cenário tão limitado? Sabe-se o hoje. Amanhã logo se verá. Passámos um dia fantástico. Tudo de muito bom.

Desde esse dia não falei mais com ela. Por culpa minha. Aquelas coisas pequeninas da vida. De nunca ter tempo para o mais importante. E sobretudo, aquilo que mais me queixo, não estar quando deveria estar. Todos os dias me lembrava dela. Mas não o manifestei. E falhei, mais uma vez, como todos os humanos. Essa culpa que me acompanha desde que nasci. E eu, que nasci especialmente, para ser culpada.

Ontem acordei com a mensagem que mais temo na vida: “...O M. ficou duas horas connosco e partiu serenamente dos nossos braços...”. Chorei o dia inteiro, por dentro. Pensei o dia todo no que poderia dizer. Só no fim da tarde consegui.

E hoje, recebo a maior mensagem de força da mãe que perdeu o filho há dias, que entre coisas tão bonitas que escreveu, destaco: “Passou duas horas ao nosso colo e morreu serenamente nos nossos braços. No meio de toda a dor, revelou-se uma doçura, uma beleza que nos deixou de coração cheio (...). A sua vida, as nossas vidas, jamais se podem medir pelo tempo, mas pelo Amor”. E partiu, não cedo demais, mas porque a vida é uma passagem”. Pronto e é isto. Quando não estamos à altura dos nossos amigos, eles encarregam-se de nos mostrar o quão bem rodeados estamos. A força na sua verdadeira dimensão.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

O dia mais esperado chegou

Antes de conhecer o L. pessoalmente já ouvia falar dele. Quando o conheci pessoalmente em NY estava um dia de inverno fortíssimo, nevava e a neve acumulava-se  na ruas. Emocionalmente eu estava um caco, tal como esse dia de inverno. Nessa noite fomos jantar a um restaurante chique em Upper East Side, Le Perigord. O restaurante foi uma péssima escolha, bem ao jeito de quem o escolheu. Quem lá trabalhava falava em francês. Eu acabara de chegar a NY, estava numa casa que detestava, com uma roommate cujo santo não se cruzava com o meu, sem amigos, sozinha para dizer o mínimo. A C. eu já tinha conhecido há dias, a N. acho que também, o F. ainda não. Nesse jantar eram só portugueses com a excepção da minha roommate. Todos na sua melhor roupa já que o restaurante assim o exigia. Eu e o L. mal nos falamos nessa noite. Ele achou-me, mais do que calada, antipática. Mas essa noite foi o princípio de tudo. Depois dessa noite nunca mais jantei sozinha, a não ser por opção. Com o L. jantei em quase todos os restaurantes perto do main campus de Columbia University, bem como todos os asseados de Washington Heights. O L. tem um problema com limpezas. Então, no critério dele não entram os "carros de comida" em frente ao Presbyterian (com os deliciosos chicken over rice e os gyros), nem o Las Palmas ( que mais parecia um supermercado e atrás tinha uma espécie de tasco mexicano), nem o El Presidente. Estes tipos de comida, na sua opinião, faziam-lhe mal. Com ele era mais os peça-lhe Strokos, Jou Jou, Tamaya, Coogan's em Washinton Heights e o nosso preferido do patinho (Ollie's) e o Symposium. Foi com ele que depois de termos assistido a uma conferência da NYSCF no edifício emblemático do the New York Times, onde conheci o cientista mais sexy do mundo (Kevin Eggan), fomos ao Ipanema em Midtown.

O L., quando o conheci, parecia um adulto. Não parecia um jovem aluno de doutoramento. Parecia ter muitas mais certezas do que dúvidas. Foi com ele que aprendi quase tudo o que precisava sobre Columbia University. Conheci os Nobel Eric Kandel e Richard Axel. Conheci o eterno candidato a Nobel, Thomas Jessel, que parece o Hannibal Lecter. Foi ele que me deu a conhecer outro sex symbol de Columbia, meio pop star, meio cientista, meio médico, Sid Mukherjee (autor do livro vencedor do Pulitzer Prize "The Emperor of all Maladies"). E depois dele conheci a mulher dele, Sarah Sze. Com o L. só se falava de ciência. E ele conhecia tudo, todos e todas. Sabia ao detalhe todos os papers da área publicados nas melhores revistas. Como eu não o podia acompanhar e considerava-me uma ignorante, já que a minha temática preferida fora do lab nunca fora o trabalho, resolvemos falar de outros assuntos. Assim, eu tornei-me uma especialista em Benfica, clube que somos adeptos. A outra temática era a política. Ele um fervoroso apoiante do PS e do governo Sócrates e eu (quase) sempre do contra. Para além de tudo isto, o L. sempre teve uma característica que me arrebatou desde que o conhecei: um coração grande. Nunca me faltou. Sempre esteve presente nos bons e nos maus momentos. Sempre telefonou. Nem que fosse para se queixar ou para fazer os seus longos monólogos. Mas ausente foi uma coisa que nunca esteve. No funeral da minha avó, numa tarde quente de férias, em Agosto, ele estava lá. Foi ele que passou a noite comigo no Presbyterian Hospital quando a C. esteve doente. Entrou connosco às 4 da tarde e esteve lá o resto do dia e noite com idas e vindas ao lab. Às 4 da manha estávamos no Jou Jou a fazer tempo para um diagnóstico mais definitivo. Às 7 mandaram-nos para casa. E sei que eu ainda dormia e ele já estava no Hospital com a C. Antes da C. ter alta ainda bebemos uns sumos de maçã do hospital, experimentamos a cama que registava  o peso e ainda experimentamos a casa de banho fio quarto todo xpto do mesmo hospital em que a Hillary Clinton esteve internada. Para além de tudo isto, o L. ainda foi a minha companhia das terças-feiras no Cubby Hole. Das míticas margaridas a $2. E da mítica irmã Lúcia.
Isto foi o bom.

Mas o percurso do L. foi penoso. Escolheu o lab errado quando foi para Columbia. Trocou de lab e de orientadores contra tudo e contra todos. E sofreu pesadamente por isso. O L. Sempre foi ambicioso. Sempre trabalhou muito. Mais. Para que nada falhasse. Tinha objectivos. Metas. Planos. Tudo muito bem planeado. Não vou contar pormenores. Só vou dizer que passou por tudo com muita perseverança e coragem. Nunca desistiu. Nunca desanimou. Nunca baixou os braços.
Acho, hoje, que o que poderia provocar na maioria dos humanos revolta e amargura, no L.  ajudou-o a amadurecer e a encontrar o norte. A dar o devido valor às coisas e definir prioridades. O L. tornou-se (ainda) uma melhor pessoa. Aprendeu a ouvir. E aprendeu que a opinião dos outros nem sempre é a mais importante.

Hoje, passados 4 anos do que deveria ter sido a defesa do seu doutoramento, finalmente esse grande dia chegou. E foi um dia feliz. Esperado e emocionante. Estou a escrever este texto e as lágrimas correm-me pela cara. Nunca conheci ninguém que esperasse com tanta expectativa este dia. E foi brilhante, como só poderia ter sido. E pela primeira vez na vida, em todos os doutoramentos que assisti, vi na cara do mais recente Doutor lágrimas nos olhos.

O orientador dele fez das intervenções mais sensíveis e inteligentes que vi na vida. Falou sobretudo de tempo. Começou por lhe perguntar se sabia, sem olhar para o relógio, que horas eram. E falou numa coisa importantíssima que é: não importa o tempo que as coisas demoram a acontecer mas que provavelmente existe um tempo certo para que elas aconteçam. Muitos parabéns, meu grande amigo! Let's party!

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Ser anónimo em NYC

Acabo de ler o último texto da Milly Lacombe aqui. Hoje não vou falar no quanto admiro a escrita dela e a forma como escreve. Também não vou discutir o quanto discordo de muitas coisas que escreve. Nem das outras que eu subscrevo na íntegra. Hoje não vou falar do quanto o nosso amor pela cidade em que vivemos é tão diferente como o tamanho imenso do oceano que nos separa. 

No tempo que vivi em NY quase nunca fiz as refeições em casa. Nos primeiros 6 meses por intolerância à casa, ou antes, por intolerância total à pessoa com quem partilhei casa. Nesses 6 meses conheci NY como nunca mais. Fazia de tudo para nunca chegar a casa antes da meia-noite. Tudo para não me cruzar com aquela pessoa. Reconheço que provavelmente o defeito é meu. Mas o facto é que o meu santo não se cruza com o da maioria das pessoas. Como o defeito é meu, eu é que tinha que evitar os encontros. Por causa disso, conheci todos os restaurantes/ bares/ cafés da Broadway desde a 116 à 95. E quase todos na Amsterdam da 116 à 110. Mas dois deles fui mesmo habitual. O Metro Diner ia porque me parecia familiar. A comida não era grande coisa, como quase todos os diners, mas o que eu escolhia para comer seria exactamente igual em qualquer lado. Ficava sempre ao balcão. De toda a gente que trabalhava lá, de todas as caras conhecidas, que eu consigo reconhecer até hoje, apenas um me reconhecia. Nunca lhe perguntei o nome, mas aquela falsa familiaridade, dava-me conforto. O facto de ele saber, antes de eu pedir, o que queria e o sorriso dele, faziam-me sempre querer voltar. 

Panquecas no Metro Diner

O outro chamava-se SIP, entre a Broadway e Amsterdam (109&110) acabo de saber que fechou. Aí a comida já era bem melhor e o preço proporcional. Aí já havia vinho a copo. Tinha uma compota de apricot (que fiquei a saber na altura que era alperce) que nunca comi igual. E um pão que era muito semelhante ao europeu. Esse pão que é a primeira coisa que muitos de nós tem saudades. Mas apesar das minhas visitas sem fim, acho que ninguém me reconhecia. Se há cidade anónima é esta. A frieza do anonimato e do desprezo. 

Lembro-me também do Coogan's em Washington Heights, mesmo ao lado de Columbia Medical Center, poiso habitual com o L. Acho que a ele o reconheciam mas por motivos diferentes. Sempre me queixei disso. Porque ele era homem. Já na cafetaria do hospital, à qual eu ia pelo menos 3 vezes ao dia, as meninas que eram quase sempre as mesmas, insistiram em não me passar cartão até às últimas semanas do meu regresso. Mas com o L. desfaziam-se em simpatias. Podem chamar-me preconceituosa. 

Brunch no Coogan's ao Domingo antes de ir trabalhar para o lab
As quatro únicas excepções vão para emigrantes, como nós. O primeiro da lista: Tamaya que já não existe. Um restaurante japonês bom, bonito e barato, Incendiou -se na semana que os meus pais foram a NY. No Tamaya, a Sandy reconhecia-nos. Era uma chinesinha que falava mal inglês e que até se atrevia às mirabolantes hipóteses de eu e a C. sermos, respectivamente, amante e mulher do L. Quem diria, ah?
Bento Box no Tamaya
O segundo da lista era o Marcos do Meal Plan (cantina dos MD/PhD) que eu frequentava à socapa. Bastou-me dizer no registo que era estudante. As mentiras piedosas, com os americanos, funcionam sempre. E o pior é que acreditam sempre nelas. Esta, foi por um bom motivo. O Marcos, cuja história pode ser conhecida em pormenor aqui, era um brasileiro que nos tratava por "doutora dos olhos" e "pê agá dê inteligentchii" (com sotaque carioca). Naquele minutos rápidos tinha sempre uma palavra de simpatia que nos confortava.

O terceiro era quase a minha segunda casa: Zigolinis em Hells Kitchen. Tinha as melhores pizzas de massa fina que conhecia. Tinha vinho português Vinha do Monte a preços que não eram proibitivos para restaurantes. O dono e quase todo o staff eram portugueses. Passado uns tempos o "pizzeiro" mudou e com ele a qualidade inicial foi-se. Passados uns tempos fechou.

Zigolinis
O Chavalinho no Zigolinis
@Zigolinis
@Zigolinis
O último era (já não é assim) o 11th Street Cafe em West Village. Um cubículo, com meia dúzia de lugares sentados.Tinha uma omelete de espinafres espectacular. Passava lá horas. Foi lá que vi a irreconhecível Nicole Kidman de Birkenstock e meias brancas. E era passagem habitual da Julianne Moore e do Hugh Jackman. Tudo mudou, pelo menos as pessoas que estavam por trás do balcão. Quando passado um ano regressei, estava irreconhecível. A simpatia e a proximidade tinham desaparecido.

NY, essa cidade tão impessoal e anónima, que quem sobreviver, sobrevive a tudo e está preparado para tudo, caracteriza-se pela inexistência de relações pessoais. A minha experiência e estatísticas dizem-me que estas existem entre iguais. Deslocados, compatriotas e emigrantes são as únicas amizades que se conseguem fazer. O resto são falsas simpatias, aparências, brevidade, conveniências, efémero, a prazo. Realmente NY não é para sentimentais nem para pessoas que não sejam autosuficientes. Este é o principal lado negro de NY. E obviamente NY não é a representação da América. No mais, NY é uma cidade para aprender, aproveitar, descobrir e viver temporariamente. NY marca-nos para sempre.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Finalmente, a defesa do doutoramento

O RP começou oficialmente o doutoramento em 2007 e defendeu-o no passado dia 11 de Março. Passaram-se exactamente 8 anos. Camadas de tempo. Dizem que para evoluirmos não há atalhos. Só o tempo. E o tempo ensina tudo.

No dia antes da defesa o RP treinou todo o dia sozinho no auditório do 3B’s. Sozinho, como queria. Há momentos assim solitários. Passei por lá várias vezes durante o dia, rapidamente, para ver se precisava de alguma coisa. No fim do dia foi o ensaio geral. O tempo de apresentação deveria ser 20 minutos. Ele não conseguia fazer em menos de 25. Depois de ver uma apresentação completa precisava de deixar o Rui em qualquer lado enquanto eu compraria a prenda dele que me estava destinada. Não consegui nenhuma desculpa. Como não tínhamos lanchado, fomos jantar relativamente cedo, antes das 8. Fomos à Sagres e preferi o balcão, onde quase sempre fico, e onde se está mais resguardado de olhares alheios. O Porto jogava na TV. Eu não dava muita importância. O RP estava meio distraído. Apanhava-o a falar baixinho. Falamos sobre a defesa e do que lhe poderiam perguntar. A hipótese de perguntas era infinita. Mas eu sabia que ia correr bem. Não bebemos álcool. O RP bebeu uma água e eu uma coca-cola. Comemos caldo verde, queijo e salpicão de entradas. E depois um bife grelhado cada um. Fiz-lhe algumas das perguntas que acharia que lhe pudessem fazer. Verificamos, no dia seguinte que três delas coincidiram. Falamos em inglês. Os cozinheiros e os funcionários, que me conhecem, olhavam espantados. E depois sorriam. Acho que o nervosismo era visível. O RP não conseguiu acabar o prato principal dele. Sintomas admissíveis pré-defesa. O jogo ainda não tinha acabado quando saímos. Subimos para minha casa e o RP continuou a treinar. Eu fui levar a Bu à rua. O que deveria ter demorado não mais do que 10 minutos transformou-se em mais de uma hora porque encontramos a Becky e a Zara e os donos. Assim, o RP também esteve sozinho. Esta solidão que antecede uma tese, uma cirurgia, um exame, uma corrida, um parto, um concerto, um espectáculo, um desempenho, não pode ser ajudada nem partilhada. Imprevisível e só como a vida e a morte.

No dia seguinte fui de manhã comprar a prenda com o dinheiro que reunimos. O A. teve a ideia dos livros. Tinha como títulos possíveis: “Despertares” Oliver Sacks, “O imperador de todos os males” Siddhartha Mukherjee e “A vida imortal de Henrietta Lacks” Rebecca Skloot. Não encontrei nenhum destes. Comprei 4 livros: um do Calvin and Hobbes (que o RP gosta muito e cuja frase “sandes de atum” tem como email), e as biografias de Egas Moniz, Einstein e Stephen Hawking. Como agora os sacos de plástico são pagos resolvi també,m comprar-lhe um saco (daqueles que dá para ir às compras) com a frase: “Diz-me o que lês dir-te-ei quem és”.


À hora de almoço o RP e a irmã passaram em minha casa. O RP conduzia. Disse que preferia assim porque assim distraía-se. Enquanto eu e a irmã dele falávamos de trivialidades, ele ia compenetradíssimo a “rezar” (como eu chamo ao discurso baixinho dele). Só nos dizia que não se lembrava de nada e que não conseguia apresentar em 20 minutos. Mas eu sabia que ia correr bem. Só podia correr bem. O RP não é o mesmo que eu conheci no início da licenciatura. Se há exemplo de evolução que conheço é este. O RP não é o típico nerd. É um curioso. É um apaixonado pelo trabalho de laboratório. E para além disso, gosta de ler. Foi ele que me mostrou os livros controversos do Kerry Mullis e do Dulsberg. Foi com ele que falei do George Orwell. Falamos de Herberto Helder. Só (ainda) não me convenceu a gostar de banda desenhada. E para além disto tudo, fala apaixonadamente sobre o seu objecto de estudo. É um encanto ouvi-lo falar daquilo que gosta. E a defesa dele foi assim. Uma conversa fluída cheia de histórias, exemplos e até humor. E concordo com o RLR que o RP argumentou com sabedoria e citou o estado da arte actual. Defendeu a sua causa e arrasou, delicadamente e sofisticadamente, de quase todos. Deu gosto ver. Foi uma defesa com classe. A cereja no topo do bolo. Pouco ajudado nos últimos tempos mas apoiado pelo orientador que o empurrou para este dia. Se não tivesse sido assim, "de repente, não mais do que de repente", provavelmente este dia não chegasse tão cedo. E o RP não desiludiu. Orgulhosa por ter um amigo apaixonado assim por aquilo que faz e que o mostrou publicamente de uma forma tão sublime. Parabéns R, já está! O simples tão difícil!


quinta-feira, 26 de março de 2015

Tarde e noite em Braga

Braga. Tarde de sábado. Tarde primaveril. Tarde amena. Subo a Avenida da Liberdade. Vejo os canteiros de flores em frente ao Theatro Circo. A arquitectura antiga e nova. Contrastes. Passo no Largo Carlos Amarante. Muitos turistas sentados nas escadarias da igreja de Santa Cruz. Uma feira no Largo de São João do Souto. Compro um colar de missangas. Não discuto o preço. Lembro-me da Bahia. Sigo pela Rua D. Afonso Henriques. Reparo no número de lojas e restaurantes novos abertos. Paro na Mercearia Dom Casmurro. Um género de Vida Portuguesa com preços mais acessíveis. Turistas entram e saem. Um pouco de tudo mas principalmente comidas e bebidas. Tudo biológico e de excelente qualidade. Vale a visita. Passamos a tarde entre cerveja Letra, vinho branco, azeitonas, tostas e conservas. Saio de lá com uma pandeireta artesanal, uma lousa pequenina para escrever recados e um patê de ovas de pescada.

Próxima paragem:  Retrokitchen, Rua do Anjo. Desta vez conseguimos mesa. Havia tentado há umas semanas atrás. Cedo. Também no sábado, antes do concerto da Adriana Calcanhotto. Tudo cheio. Lembro-me do cheiro bom. Massada de peixe. Gostei imediatamente do restaurante e da simpatia do dono. Aconselhou-nos a Casa de Pasto das Carvalheiras como alternativa e foi lá que fomos parar.
No Retrokitchen regressamos aos anos 70. Cadeiras e mesas de fórmica. Garrafas antigas de Sumol, 7UP e Pepsi a servir de jarras. Um quadro de escola. Um cão de louça. Copos diferentes. Tudo retro. Não achei kitch. Uma mesa para 8 pessoas às 8:30. Não chegamos a horas, como sempre. Mas aqui a velocidade não é tudo. Não nos dão o menu nem uma lista. Pedimos o vinho. Aconselham-nos um verde da casa. Recuso amavelmente o vinho verde. Mas dizem-me que este é mesmo bom, que devo experimentar e só depois, se não gostar pedir outro. Assim fiz. Provei e não é que era mesmo bom? Não me lembro do nome mas vou saber. Trazem-nos um rolos de massa filo com carne, uma tábuas com fatias de pão e ameijoas à Bulhão Pato. O melhor de tudo não são as ameijoas, mas o molho delas! Fumam-se uns cigarros no pátio e levam-se os copos de vinho. O ambiente é mais do que amigável. Nos entretantos o dono, de seu nome Rui, junta-se a nós. Parece que estamos num jantar em casa. Tudo muito informal. Trocamos muitas vezes entre o pátio e a mesa. Vê-se no pátio a Abelha Maia que esteve muitos anos à entrada de um café na Rua do Souto. Quem viveu em Braga reconhecerá. Começo a chatear a cabeça ao Rui para me dar uma garrafa de 7UP retro. Às 11:00 estamos a começar a jantar. Posta à Mirandesa com umas batatas fritas cortadas às rodelas com casca, acompanhadas de couve branca salteada em azeite. Outros comem salmão. E as vegetarianas comem uma frittata com bom aspecto. As garrafas de vinho multiplicaram-se durante estas horas. Sei que havia sobremesas. Mas não consegui ter estômago para mais. O café, que nunca tomo, foi-me dado no pátio. Que serviço tão bom. Ainda ouvi Tribulations dos LCD Sound System. Quase chorei! Palmas para o Rui e Cláudia que nos fazem sentir em casa e querer voltar. O Rui, no final, foi buscar a garrafa e ofereceu-ma. Está em minha casa numa secretária a servir de jarra e já começou a fazer sucesso.






Copyright: Retrokitchen
Copyright: Retrokitchen
Copyright: Retrokitchen

Próximas paragens: Juno, Latino e Convento do Carmo. Quando saio à noite,  que é cada vez mais raro, não fico num sítio só. Percorremos todas as capelinhas. No Juno, encontra-se sempre alguém conhecido. As caras que fui conhecendo em muitos anos de Insólito. No Latino acontece o mesmo. O espaço está ligeiramente diferente, sem o bilhar no centro da sala. O Convento do Carmo é um edifício lindíssimo mas falta ali qualquer coisa que não sei explicar. Talvez as pessoas. Tem dois espaços com músicas diferentes. Paga-se para entrar.


Braga está bem e recomenda-se. Acho que começamos a voltar aos saudosos finais dos anos 80 em que Braga foi o centro da movida. O que vi, surpreendeu-me pela positiva. Aproveitemos o momento!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A tese de doutoramento do RP

[escrito no dia 06/02/2015]
O RP é meu amigo há muitos anos. Fomos colegas de curso e no fim veio pedir-me para lhe arranjar o estágio. Desde o início que é um grande investigador. E desde sempre que é uma grande pessoa. Para o bem e para o mal é muito parecido com o meu irmão. É assim que o sinto, quase um irmão. Uma grande pessoa, um grande amigo, culto, amigo dos seus amigos, interessante. Tem dois grandes defeitos: adia sempre decisões importantes e nunca quer enfrentar os problemas. Como se fosse uma solução, resolve os problemas sem os enfrentar. Aí, desaparece e não responde. É um eterno Peter Pan. Começou o doutoramento oficialmente um ano depois de mim.  Tal como eu, teve a felicidade de crescer e de aprender muito fora de Portugal. Mas ao contrário de mim, trocou Portugal por Itália há 8 anos. Deveria ter acabado o doutoramento em 2010 , um ano depois de mim. Mas arrastou-se. Neste tempo tornou-se ainda melhor investigador. Percebe de cartilagem como eu percebo de livros. Fala disso com uma alegria imensa. Mas tem um problema: detesta escrever. A vida dele é o lab. A vida dele é ter grandes questões e hipóteses e encontrar-lhes soluções. Entretanto, para além de ter plantado árvores, teve dois filhos gémeos lindos. São a razão da vida dele. Eu nunca imaginei o RP pai de filhos, quanto mais de dois, antes de acabar o doutoramento. Esta semana, o RP tinha de entregar a tese. A coisa, talvez, mais difícil da vida dele. Veio para Braga uma semana e trabalhou para esse objectivo. Ficou em minha casa e todos os dias o vi desesperado com saudades dos filhos. O cansaço de não saber o que era dormir mais de 5 horas seguidas há quase um ano não melhorou. Realmente, poderia ter dormido sem interrupções mas os dias e noites longas de trabalho não permitiram. Nunca achei que não seria possível terminar tudo em 5 dias. Afinal, como diz o ditado, a esperança é sempre a última a morrer. Nestes 5 dias trabalhamos como se não houvesse amanhã. Jantamos quase todos os dias em cada do A e da L. Sem a ajuda deles não teria sido possível. O R nunca se queixou do cansaço mas fez todos os dias a pergunta que acompanha os desesperados: "Para que me meti nisto?". O outro queixume era as saudades dos filhos. Em 5 dias, a obra do R, para além de ter tido filhos e ter plantado árvores, saiu. Mas sem antes pregar alguns sustos. Nada pode terminar bem sem a sua dose de suspense. A sua " maçã" não aguentou a pressão e resolveu entrar em coma no último dia. Como se não bastasse, descobrimos que a tese estava escrito num estilode letra que não era o correcto. A L deu conta da bomba. O A. com a imensa paciência dos monges budistas não se questionou e apenas agiu. Formatou a tese toda, conferiu páginas, números, figuras e tabelas. Modificou letras. Conseguiu-o em tempo record. E como última emoção, como o melhor acontece sempre no fim, o RP descobriu hoje, já depois de ter entregue a tese, dois erros no título.... Tudo acaba bem. Se não acabasse bem é porque ainda não tinha acabado. Depois de uma semana de cansaço acumulado em que tivemos de conciliar trabalho e tese, é um enorme alívio chegar a sexta à tarde com tudo pronto. Agora falta a defesa. Uma grande parte do pior está feita. Não falta muito para termos um novo Doutor. 


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Correr atrás do amor

Uma grande amiga disse-me estes dias que vai correr atrás do amor dela. Não o desperdiçou nem lhe virou as costas! Às vezes tenho orgulho das opiniões que dou e de como elas influenciam positivamente a vida dos meus amigos! Parabéns, A! Vai correr tudo muito bem! E lá vou eu conhecer mais duas cidades deste mundo!

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A despedida da menina da "Medeira"

Conheci a A. há alguns anos, não me lembro bem quantos... sou péssima para datas e para nomes, toda a gente sabe. Chegou ao lab e eu fiquei responsável por mostrá-lo. Eu acredito na A. mas não me lembro deste dia. Tempos depois aparece para fazer o Mestrado e por ali ficou montes de tempo. Esse tempo que é sábio e que ensina tudo, neste caso foi bem agreste. Acredito que nem tudo tenha sido mau para a A. mas sei que foi penoso. A A. tornou-se uma grande amiga, essa pessoa que gosta de pessoas! Fiquei fã dos jantares dela, era a minha companheira para os filmes que mais ninguém queria ver, adorávamos a “nossa” picanha a horas tardias, chegávamos sempre atrasadas ao cinema, passamos muitas peripécias, acompanhou-me a concertos e leituras muitas vezes. Agora, passados estes anos todos, muda do “Contenente” para a ilha das baleias!

Não gosto de despedidas, mas não podia faltar à “Despedida do Contenente”. Estava um dia daqueles de derreter. Já passava das oito da noite mas a temperatura parecia de 4 da tarde... Cheguei à mesa e estavam todas a beber o “cocktail da Su”. Pela cor (rosa) não dava nada por aquilo. Mas como pago sempre para ver, depois de provar, delirei! Eu que estava a tomar antibiótico, não resisti, e mandei o bom senso às urtigas. Não me lembro de tão bom cocktail na minha vida! A C. e o F. (meus queridos companheiros de NY) iam adorar. Depois veio a sangria e o vinho branco... e as tapas que valeram a pena. Os anos da J., apesar de esquecidos no dia, foram festejados com pompa e circunstância com direito a um muito bom bolo.  Os grandes Pumbas, que mostram em todas as ocasiões serem uns amigos dignos do nome, desta vez, não desiludiram e superaram-se. Nem tenho palavras para descrever o filme que fizeram. Foram 17 minutos lindos que deu para tudo. Chorei, ri, gargalhei, arrepiei-me e fiquei sem palavras. Que coisa magnífica. Que surpresa tão boa. E é nestas alturas que acho que os amigos são muito grandes. E que feliz que me senti por comprovar, mais uma vez, que a A. tem estes amigos tão dignos dela. Até já A.! Queremos ver as baleias! Eu estarei aí para o ano para cantar contigo: “Seus netos vão lhe perguntar em poucos anos/ Pelas baleias que cruzaram oceanos”!!! 




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