Mostrar mensagens com a etiqueta António Lobo Antunes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Lobo Antunes. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Prémio Bottari Lattes


No sábado, 20 de Outubro, no Castelo Grinzane Cavour, numa cerimónia que começou às 4:30 da tarde foi entregue o prémio Bottari Lattes a António Lobo Antunes numa cerimónia pública. Vindos dos liceus de toda a Itália, a plateia estava repleta de jovens leitores.

No discurso de agradecimento do Prémio Bottari Lattes no valor de dez mil euros disse: “Quero agradecer este prémio que me deu muito prazer de o vir receber aqui e encontrar pessoas que foram, para mim, de uma delicadeza e de uma elegância que não vou esquecer. Se há coisa que eu admiro nas pessoas é a elegância da alma. E isso encontro aqui, até na beleza da vossa língua, que me faz imensa inveja, porque se eu escrevesse em italiano poderia, certamente, chegar mais longe. Quero, sobretudo, agradecer a forma como receberam, atrevo-me a dizer que com ternura e amizade. Como estava sempre a dizer um grande amigo, que tinha idade para ser me avô: “Olha miúdo, só há duas coisas no mundo que valem a pena: o amor e a amizade. O resto é uma merda”.

Ainda houve tempo para uma pergunta i: “A sua prosa tem uma força poética excepcional. Qual é a sua relação com a poesia? ”.“A mim parece-me que a distinção entre poesia e prosa está em vias de acabar. Não faz muito sentido. Lembre-se que às Almas mortas de Gogol se chamou de poema e Nabokov chamou ao seu poema romance. Toda a arte tende para a poesia. A poesia pode muito mais do que a prosa. Eu muitas vezes não sei o que estou a escrever nem a ler. Se pensar em Bashô, poeta japonês, tem um poema que é assim: “ Os quimonos secam ao sol/ Ai as mangas pequenas/ Da criança morta”.  Uma vida inteira está aqui em meia dúzia de palavras.

Quando Antonio Lobo Antunes recebe das mãos da mulher de Mario Lattes agradece-lhe, muito educadamente, e como um cavalheiro como poucos, faz-lhe uma pequena vénia com a cabeça e beija-lhe a mão.









copyright: Fondazione Bottari Lattes






copyright: Fondazione Bottari Lattes





terça-feira, 23 de outubro de 2018

Lectio Magistralis

Entro no Teatro Sociale  Giorgio Busca a poucos minutos da hora marcada. Sala bonita, parecida com o Teatro Nacional S. João. A plateia está cheia e como só restam lugares longe do palco opto por um dos camarotes. Muitos intelectuais, muitos jovens, muitos adolescentes. A mulher está sentada na segunda fila.

No palco está apenas uma cadeira e uma pequena mesa. António Lobo Antunes (ALA) entrará daí a poucos minutos para iniciar a Lectio Magistralis do prémio Bottari Lattes do qual foi o vencedor de 2018. A cerimónia de entrega será no dia seguinte no Castelo Grinzane Cavour, Património Mundial da Unesco.

Quem apresenta António Lobo Antunes descreve-o como "muito conhecido em Itália, na Europa e no mundo". O teatro repleto numa cidade pequena como Alba é o exemplo disso. Continua com a introdução da biografia de ALA, destacando a sua formação como médico psiquiatra, principalmente a sua experiência como médico na guerra em Angola "o Vietname português". Seguiu-se a bibliografia, com o apresentador a mostrar-se um conhecedor da obra, sem necessitar de ler para destacar cada um dos livros traduzidos. Elogia a ligação de ALA à literatura e ao cinema italiano e a narrativa inovadora. Destaca a imaginação de ALA, e os cenários dos seus livros, Lisboa e África ficcionadas, realidades que não existem. Há também uma pequena leitura do livro "Não é meia-noite quem quer", o último livro traduzido em Itália. 

António Lobo Antunes entra no palco debaixo de estrondosas palmas. Andar arrastado. Os anos têm visivelmente passado por ele e deixado marcas, fisicamente. Começa a falar com uma voz inaudível em português. Tem tradução simultânea. 

Começa por dizer que não fará nenhuma Lectio Magistralis. E o monólogo inicia-se pela sua relação com os livros aos 3/4 anos. Aprendeu a ler muito cedo. Divaga entre a morte, tratada como desconhecida, e os livros que começou a ler, desde Oscar Wilde a livros franceses. Fala dos irmãos, de como eram todos bons alunos, o contrário dele. Não estudava. Só lhe interessava escrever e ler e o hóquei. Passa para a relação com o pai que quando leu as primeiras coisas que escreveu foi muito encorajador: "Isto não presta para nada". Mas ele próprio tinha a certeza que ia escrever coisas extraordinárias. Aos 14/ 15 anos era hiperdotado e começou a enviar os textos, sob pseudónimo, para o jornal. Escrevia de tudo poesia, conto, novela. Estava convencido que era um génio. E como queria ser escritor, quando o pai perguntou qual o curso para o qual queria entrar, pensou em Letras. E o pai, como era muito democrata, disse: "Estás matriculado em Medicina". Então, mais precoce que a maioria, aos 16 anos entrou em Medicina. Nunca tinha visto um cadáver. Mas tudo nos primeiros anos envolvia cadáveres. Tinha medo. Essas aulas imensas de 4 horas provocavam-lhe terror. Mas continuou sempre a escrever e enviava coisas para a Casa dos Estudantes do Império (que defendia a libertação das colónias). E foi chamado à Polícia política. Como era um Lobo Antunes disseram-lhe: "O menino vá para casa e veja se não reincide de andar com comunistas". 

Fala da divisão social que existia na ditadura entre ricos e pobres. Das quatro ou cinco empregadas que tinham em casa. Das diferenças sociais que existiam. A missa das empregadas às 7 da manhã separada da missa dos patrões ao meio-dia, com direito a homilias mais longas é um dos exemplos dados. A igreja católica não é poupada, destacando os grandes almoços que havia em casa com padres e bispos que comiam e comiam: "essas santas criaturas".A ditadura também não é poupada. A existência da polícia política agressiva e temível, muito mais para os amigos do que para ele, que era um privilegiado.

Fala da sua viagem a Pádua de carro, ainda criança, e o pai a querer parar em todos os museus dos países por onde passavam. O pai queria ver todos os Tintoretto e ele achava uma chatice e que "gostava dos escarradores". Conta o episódio do escritor que perante As meninas de Velasquez no Prado ficou a olhá-lo muito tempo, calado e quando lhe perguntaram o que achava respondeu: "Onde está o quadro?", a mais bela crítica de arte q ouviu.

Fez o curso com várias reprovações mas no fim apaixonou-se pela Medicina. Escolheu Psiquiatria porque achava que dava menos trabalho. Foi para Londres fazer um estágio e quando volta é chamado para a guerra. Pensou em fugir. "A esquerda ia fazer a revolução para os cafés de Paris e voltava a votar na direita". Mas como podia fugir se escrevia em português? Tinha que estar em Portugal. E achava que a ditadura, que tinha começado em 1926, nunca iria acabar.

Exalta os militares, os seus soldados. Alguns deles nunca tinham visto o mar: "Que rio é este tão largo e com tanta espuma?". A maior parte dos soldados era muito pobre. Contou outro episódio que se passou há uns anos, no Porto, num sítio muito chique e os "seus" soldados apareceram para a apresentação do livro e o professor responsável pela apresentação disse: "O António gosta muito de pessoas humildes". Ao que ele respondeu, indignado: "Os meus soldados não são gente humilde. São príncipes. Está a ouvir? São príncipes!". E a partir daí começaram a aparecer com cartazes "Os príncipes de António Lobo Antunes. Quanto à guerra. propriamente, só falará de um dos intervenientes da revolução, Ernesto Melo Antunes, que no meio de um tiroteio à noite andava desprotegido e com uma lanterna: "Sabes, é que às vezes apetece-me morrer". Recordará a única vez que chorou na vida quando recebeu um telegrama a dizer que tinha uma filha. Foi chorar imenso tempo e outro oficial colocou-lhe a mão no ombro, sem dizer nada. E essa mão silenciosa e a sua importância, nunca mais esqueceu.

Recordou a dificuldade de voltar à vida real depois da guerra. E também a dificuldade de publicar o primeiro livro. Deu o manuscrito a ler a dois amigos: "um disse-me que devia tirar a primeira parte e o outro disse-me que devia tirar a segunda...". O livro foi recusado por todas as editoras em Portugal. Depois foi publicado por uma pequena editora e na sessão de lançamento "estava eu, o editor e a empregada da editora". E foi um acontecimento. Vendeu muito. O irmão Miguel até lhe disse: "Tens que tirar a fotografia da conta-capa porque ouvi dizer "deve ser uma porcaria mas ele é tão bonito". 

Falou do imenso orgulho que foi conseguir um agente em NY e ter sido publicado pela Random House e de ter boas críticas no The New York Times e todos os mais importantes jornais americanos. De como largou a Medicina para se dedicar em exclusivo à escrita. Continua a fazer o mesmo horário. Escreve das 8:30 até à uma e depois das 2:30 às 8 e depois mais um bocado à noite. Porque escrever, segundo ALA, é sobretudo trabalho.

Tem andado a reler Dickens. Cita de memória sobre um filho que vai ver a mãe que está muito doente:
"- Tens dores, mãezinha?
-  Tenho a impressão que há uma dor aqui no quarto mas não sei se sou eu que a tenho".
Deu este exemplo para explicar o quanto é preciso de trabalho e sofrimento para chegar a uma frase destas. 

Não se esqueceu de destacar o quanto estava orgulhoso por ver publicada toda a sua obra na colecção Pléiade, o único português, a par com Fernando Pessoa, a integrar esta lista. E junta-se aos 3 escritores vivos a integrá-la. 

Um monólogo, com argumento conhecido, sem qualquer novidade para os que acompanham de perto os poucos eventos públicos que aceita, usado como guião da sua Lectio Magistralis. Despediu-se com: "Só entre os homens e por  eles vale a pena viver".

O público não teve direito a perguntas mas os seus admiradores tiveram a oportunidade de ver os livros autografados. Teve direito a uma pausa para fazer desaparecer dois cigarros. Filas desorganizadas de mais novos e mais velhos, com a predominância dos mais novos. Auxiliado pela tradutora nos recados que os seus admiradores faziam questão que entendesse, parava de escrever, olhava-os nos olhos, com o sorriso lindo, apesar de contido e tímido. Quase não se lhe vêem os dentes,e aquele segundo de atenção com um sorriso inocente de quem não está a entender o que se lhe está a dizer, mais por causa da surdez do que outra coisa. E responde, delicadamente, com a mão estendida: "Grazie".









quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Até que as pedras se tornem mais leves do que a água

Mais uma vez, António Lobo Antunes (ALA), não escolheu o livro que escreveu. O livro é que o escolheu. Não esperava voltar a África, mas não conseguiu. Estava mais interessado na relação pai-filho. No entanto, (mais) um regresso a Angola, à guerra colonial, que nunca poderá ser esquecido. Tudo o que está no livro é verdade, nada foi inventado.Limitou-se a contar o que tinha vivido na guerra. Como o próprio assume, foi um livro muito difícil e complicado de escrever. Passou noites horríveis, ele que normalmente dorme bem, não tem pecados. Com sonhos maus e uma angústia enorme. Tudo isso voltou. O sofrimento continua presente.O sofrimento nunca mais acaba. “Ninguém desce vivo de uma cruz”. A guerra “deu cabo da juventude, da nossa idade madura e da nossa velhice”. Uma crueldade imensa. Ninguém ganhou esta guerra.

 “Ajuda-me a esquecer”.
Neste livro, tudo parece repetir-se. Mas tudo parece novo, ao mesmo tempo. Como se estivessemos a ler estas histórias do mal que a guerra fez a tantos, pela primeira vez. Parece um louvor à memória dos que morreram e dos que sobreviveram mas que parecem continuar lá. O que a guerra lhes roubou, senhores. Não saíram da guerra. Quem voltou de lá não voltou igual. Diferentes dos que cá ficaram. “Fugidios, bruscos, quase todos estranhos...”. As marcas permanentes que a guerra lhes deixou. A miséria da guerra. Sonhos permanentes com África que se repetem. Os medos e os pavores. Os insultos velados e explícitos. As imagens horríveis. A loucura. Os suicidas que se mataram sem explicação. A vergonha de expressar sentimentos. Violência atroz. Pessoas sem cabeça e sem orelhas. A ocultação da verdade inconveniente. Nunca contam o que se passou na guerra. A mentira piedosa. Sonhos de guerra onde acordam suados e exaustos.O medo, a vergonha e a ignorância de mostrar afecto, consolo e carinho. Sempre a viverem no passado e da memória que lhes ficou. Culpa e mágoa. A pena. A cabeça que não pára. Racismo. Machismo. Homofobia. Homossexualidade. Sexo. Violações. Infidelidade. A consciência ou a falta dela. Desânimo. Destruição.

Conta a história de um alferes que trouxe uma criança da guerra de Angola. Tudo gira à volta da matança do porco. Como em todos os livros de ALA, não é o argumento que importa, este sempre simples, mas a narrativa e a forma. Este é o segredo. Vários narradores, Prolepses e analepses. Espirais. Polifonias. Narradores vários. Descrições cinematográficas.

Os personagens raramente são bonitos. Os personagens quase todos sem nome: a filha, o filho preto, o alferes, Sua Excelência, a viúva, a prima, Fernandinho. Na sua maioria tristes, infelizes, melancólicos, mas todos com uma sensibilidade acima da média.

O filho preto que trouxe de Angola depois de lhe matar a mãe e o pai. Todos o avisam que quando crescer se vingará. Foi trazido por solidão ou remorso? Por amor ou como um troféu? Casou-se, num casamento infeliz, com Sua Excelência, uma branca que o despreza e o troça. Humilde. Subsidiário. Obediente.Desde o início há um presságio que o filho matará o pai no dia da matança do porco: “Lembro-me da minha mãe sem orelhas...Lembro-me do meu pai de bruços no chão... Lembro-me que você os matou... matou a minha mãe, matou o meu pai, destruiu tudo o que pôde e no entanto passou-lhe uma coisa qualquer por dentro que o obrigou a impedir que me matassem... juro que não me apetecia matá-lo, gostava dele...”.

A filha “sempre zangada, amarga, fala-se-lhe e não responde, sorrimos-lhe e permanece séria”. Sempre sozinha. Indiferente. Mais esquiva do que os gatos. Largou os estudos. Ninguém nunca a questionou, obrigou, aborreceu. Quis largar os estudos, largou. Aceitaram sempre. Nunca lhe ralharam. “acho que não gosto seja de quem for, de que criaturas podia gostar e de que serve gostar, o que se faz com gostar, o que se ganha em gostar...”. Drogada. Ressacada. Descuidada.

A mulher sempre discreta em tudo desde o primeiro dia. Tímida. Educada. Sem aborrecer ou incomodar ninguém. Começou a sofrer de guinadas no rim. Descreve tão bem a dor com imagens. Descrições cinematográficas. “pedras no rim a comerem-na sem descanso com aqueles dentinhos horríveis, a alcançarem-lhe o fígado...é o sangue a apodrecer, é o corpo que desiste... As pedras no rim que se tornavam a pouco e pouco mais leves do que a água.  Um cancro no rim que lhe invadiu o corpo inteiro..A degradação com a doença. O sofrimento. O declínio. A agonia. A morte a chegar.

Todos os personagens partilham desta falta de amor, uns porque têm medo de o mostrar, outros porque não o sabem fazer, outros porque não foram ensinados, outros porque acham que não foram (de todo) amados. Quem sabe um livro sobre este medo?





quarta-feira, 5 de abril de 2017

Para aquela que está sentada no escuro à minha espera

Este romance é sobre uma mulher de 78 anos que perde a memória e as suas faculdades progressivamente: "sou uma mulher sozinha a perder a memória e o tino". É uma actriz aposentada que tinha pouco talento e andou por teatros manhosos a declamar patetices que ninguém ia ver". Nasceu em Faro e mudou-se para Lisboa. Teve dois maridos. Não fala. Quando fala, diz frases sem nexo. E vive de recordações do passado. Não se lembra, sobretudo, de acontecimentos recentes. Só a memória antiga permanece, e mais importante, a relação que ela tem com o pai. É isto que é dissecado ao pormenor.

O romance divide-se em três partes: primeiro, segundo e terceiro andamentos. A polifonia, tão característica, mistura-se, neste caso com uma sinfonia não muito desafinada composta de memórias antigas, que se confrontam com a realidade e com a imaginação, e algum desvarios.   “A noite é esquisita (...) as sombras tornam-se coisas verdadeiras e as vossas verdadeiras sombra (...) é noite o astro saudoso rompe a custo o plúmbeo céu (...) há noites em que adormecemos de mão dada e acordamos sempre sozinhos, por muito que não fujamos morreremos sozinhos".

Os personagens principais são a mulher sem memória, a senhora de idade (que cuidava dela e que tem um filho que morre), o sobrinho do marido (que é interesseiro, recebe a pensão e herdará o que é dela., a mãe (mais uma vez autobiográfica, e que tal como a sua, não tem grande instinto maternal e, neste caso, tem ciúmes da cumplicidade e da relação do marido com a filha), o médico e o pai (que é a sua grande ligação afectiva. Uma reunião de mundos que envolve o passado e o presente e pessoas vivas e que já morreram numa convivência paralela. Os personagens, maioritariamente, não têm nome, uma característica livros de ALA. Esta senhora sem memória foi uma actriz com pouco talento que se casou com... e era filha única. Tinha uma relação tocante e muito próxima com o pai. Com a mãe era o oposto. Personagens sempre tristes e deprimidos: "o meu avô no género calado, sem sorrisos, desatento de nós, ao reformar-se ficava de pijama o dia inteiro examinando a barriga" – uma frase tão”António Lobo Antunes (ALA).

Por oposição ao romance anterior, volta ao naperon e à classe média baixa, à falta de dinheiro. Mas os temas como solidão, falta de amor e traição, permanece. Os assuntos sempre abordados por ALA repetem-se: a falta de amor entre casais, a falta de interesse da mulher em relação ao marido, a atracção do médico pela assistente, o director do teatro que usa o seu pequeno poder para se aproveitar de uma actriz sem talento, a mãe que rejeita a filha, a falta de ambição, o marido maltratado pela mulher. O passado,o quotidiano e as suas personagens tão características misturam-se. Neste livro, mais marcante, a abordagem da velhice, da solidão e da angústia que isso causa. Mas sobretudo, a perda de memória: "As palavras não me vinham”. A perda da dignidade es questões existencias: “perder as capacidades em casa ou num lar, o que será melhor?”. Pobreza. Doença. Vergonha. Pudor. A indignidade da velhice: o nosso mal é durarmos demais (...) É assim que se acaba (...) Há alturas em que o desespero sobressalta a meio da noite (...) Afinal estar vivo é isto? Não sei se cosia com as mãos ou com os óculos...”. O tempo e a cruel passagem dele : “Ajudem-me a voltar a ser eu (...)  o tempo anula tudo (...) afasta-se do amor, abandona-o, esquece-o (...) A idade é uma gaita (...) tudo se gasta, é a vida (...) Não tinhas o direito de te tornar horrível (...) Que forma de acabar (...) Nada dura para sempre (...). Sexo, um dos grandes assuntos da humanidade, neste caso abordado do ponto de vista de obrigação e da infelicidade num casal "isto não é fole de ferreiro não te chegou uma dose? (...) diz amor diz (...) o crucifixo a bater contra a cabeceira da cama, primeiro muito ao de leve, depois menos leve, depois com força, depois cada vez com mais força e depois, finalmente, em estrondos tão intensos (...).

E as frases tão bem escritas por ALA: “São iguais às baleias os homens, ainda que morem longe morrem na mesma praia (...) Um dos pés nu e essa solidão do pé comoveu-o (...) A velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado (...) os homens gostam de acabar nos nossos braços murmurando-nos o nome normalmente errado, um nome de mulher, não importa qual, torna a eternidade habitável, encara-se em paz o túnel e a lâmpada ao fundo (...) com o peso da solidão do domingo inteiro em cima (...) segurando os músculos da cara para que não lhe víssemos a dor e via-se a dor nas sobrancelhas, via-se a dor nos caninos à mostra (...)o motor do gato já não roçava por mim porque os bichos dão conta, vão-se afastando da gente, acham que deixámos de ser nós, evitam-nos (...) a tragédia, como dizia o outro, não é ser velho, é envelhecer (...).

Um livro perturbador sobre a perda e a falta de memória. E como o nosso fim será igual: só.


quinta-feira, 23 de março de 2017

O discurso sublime de António Lobo Antunes

Há umas semanas deu uma grande entrevista ao Expresso muito diferente daquilo que o apelidam. Sincero, demorado, descritivo.

Não vi a gala da SPA na RTP. Cheguei ao vídeo do discurso pela Fernanda Mira Barros. No agradecimento do prémio da SPA Vida e Obra não parece o grande escritor. Parece pequenino. e (ainda) mais velho. O tempo não o tem poupado. Apesar disso, parece um menino grande. Tímido. Tom de voz muito baixo. Agradeceu emocionado ao Presidente da República que lhe lhe enviou um bilhete sobre um livro que tinha saído. Congratulou-se por termos um Ministro da Cultura que é um grande poeta. Disse que escrever foi o que sempre lhe deu sentido à vida. E falou do Senhor Barata que tem um cancro e ao qual prometeu dizer “adeus”. “Livre-se de não vencer essa puta!”.

Este é a pessoa que tive a honra de conhecer. O maior escritor vivo. A maior parte das vezes quando conhecemos os génios ou os nossos ídolos temos  a tendência para nos sentirmos defraudados. O António é o contrário: perde tempo com os seus leitores, é um grande ouvinte (apesar de ser “surdo como uma porta”, como ele diz), terno, meigo, tem uma voz linda, pausada, sorri muito, agradece na mesma proporção e adora NY.


Gosta de Jorge Amado, mais do homem do que do escritor, e pergunta quem é que o lê hoje. Eu! Eu adoro Jorge Amado. Parece sempre um menino grande que teve falta de amor e afecto. O menino prodígio que tem uma memória de elefante, que aprendeu a ler com 4 anos mas que se recusou durante três anos a decorar 5400 g de Anatomia, embora tendo uma memória prodigiosa. Nunca deixou de ser um menino tímido “que se virava para a parede” para não enfrentar as pessoas. Costuma dizer que era muito bonito e que agora é um monstro. Detesta levantar-se cedo. Tem uma vida monástica. Preparou-se a vida inteira para o talento que sempre teve: escrever. Ainda hoje escreve com um livro grande aberto (dos tempos em que fingia que estava a estudar enquanto escrevia).

Copyright: Sociedade Portuguesa de Autores (SPA)

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Regressos quase perfeitos: memórias da guerra em Angola

Regressos quase perfeitos vem da adaptação de uma frase do Whitman “uma mentira é um regresso perfeito”. Tal como o pai, cujos títulos de livros são sempre uma citação, este primeiro livro da filha, Maria José Lobo Antunes, que resulta da sua tese de doutoramento, também o é. Três coisas fizeram-me comprar este livro: ter sido escrito por uma Lobo Antunes, ter a chancela de tão grande editora Tinta da China (não há nada que não goste) e a temática da guerra colonial. Quando vi quem era a Maria José Lobo Antunes vi a cara do pai.

Agora falando do livro. Gostei muito, como disse o Joaquim Furtado. Apesar das Guerras do Ultramar serem “nossas” e de a distância temporal não chegar ao meio século, os livros sobre esta temática não são abundantes: “A guerra colonial portuguesa é, hoje, um país estrangeiro”. Habituei-me a ela nas referências biográficas e ficção de António Lobo Antunes e pouco mais li. O meu pai não foi mobilizado para a guerra porque teve a sorte de ter ido à inspecção em 1974. Como a maioria, naquele ano, passou à reserva territorial. As histórias e os relatos da guerra são, por isso, para mim distantes e resumem-se aos livros e séries de televisão. Tendo eu nascido em 1979, o Portugal descrito neste livro é um país muito distante e desconhecido. Este livro procura relatar a memória de alguns militares que a viveram. Chegaremos ao fim a perceber que a memória e o passado destes militares é tão diferente quanto as pessoas que o relatam. Alguns conceitos que são para nós, comuns mortais, desconhecidos, como camaradagem, são neste livro destacados. A camaradagem só pode ser compreendida por quem passou pela guerra (neste caso 26 meses): “Uma pessoa tem irmãos de sangue, nós somos irmãos de alma”. Depois a descrição dos almoços do CART 3313 são tocantes e a gratidão que sentem pelo seu camada alferes médico meliciano, António Lobo Antunes, “somos quem fomos”. Maria José Lobo Antunes tem uma ligação com estes homens de que não se lembra devido à tenra idade em que esteve em Angola. Mas todos eles se lembram muito bem dela. O pai, António Lobo Antunes, tornou-se escritor e a guerra é assunto muito presente na sua obra. Cus de Judas é o livro que mais retrata os mais de dois anos que passou em Angola, assim como, o livro que contém as cartas diárias que escreveu à mulher durante a guerra.

Portugal, naquele tempo era uma sombra do que fora, mas que o salazarismo insistia em que o destino de Portugal se cumprisse “enquanto império colonial , heranças de gerações gloriosas que tinham dado novos mundos ao mundo”, “Portugal do Minho a Timor”. Este era o Portugal que Salazar ambicionava, provavelmente (apenas) no seu imaginário, já que nunca saira de Portugal continental.

A tropa, para a maioria destes homens, que seriam soldados ou praças, homens que fizeram a 4ª classe ou nem isso. Homens cujo mundo era apenas frio, fome, miséria, trabalho e porrada. Eram filhos de “um país pobre e rural, onde a agricultura ocupava mais de um terço da população total”. Um país autoritário, em que a informação era considerada desnecessária e que vivia debaixo de vigilância e censura. O regime defendia o respeito pela autoridade, a valorização da tradição , o nacionalismo e a fé católica”. Os três pilares: Deus, pátria e família. Há muito a menção à palavra respeito. Respeito ou medo pelo professor que era maioritariamente um desumano que batia muito e sem coerência. Um ensino que era marcado unicamente pela coação e repetição e não pela razão. Aprendia-se que “Portugal era muito grande e muito rico”. Durante a ditadura, “a educação era um luxo”. Um país de acentuadas diferenças sociais entre patrões e criados. Um mundo de pais incógnitos e de mães solteiras. Pés descalços. Trabalho quase escravo a troco de (má) comida. Um trabalho duro demais para a tenra idade. Ninguém parece guardar saudades desse tempo em que se valorizava a humildade, a simplicidade, a pobreza, a ignorância e os perigos da ambição. Este foi o segredo do regime: “um lugar para cada um e cada um no seu lugar”.

O liceu estava reservado às elites. A aposta do regime era nas escolas comerciais e industriais. O magistério era o 5º ano mais dois. Aos 18 anos já se era professor primário.  Terminado o 7º ano fazia-se a admissão à universidade: “Os filhos dos ricos iam para a universidade para ser doutores e nós íamos para as escolas comerciais”. Só com inscrição ou frequência na universidade se ia para oficial miliciano.

Entre os ex-militares as opiniões dividem-se entre aqueles que achavam justa a guerra “acreditavam que era necessário defender aquilo que era nosso”,  aqueles que se voltassem atrás nunca iriam à tropa e aqueles que mesmo antes de irem já eram contra: “Nunca quis ir para a guerra. Abominava aquilo tudo”.  A maioria dos que foram para o Ultramar não tinham qualquer noção da rigidez do regime nem da opressão. Viviam num mundo demasiado fechado e escondido, longe das grandes cidades sem qualquer noção da realidade. A maioria considerou que a ida para a tropa foi um “abrir de olhos”, que lhes deu mundo e “alargamento de horizontes (...)  tudo era surpresa e novidade”.Oportunidades. Descoberta  da dimensão e variedade da paisagem. Os mais abastados perceberam que o mundo em que viviam era um privilégio. O grau de instrução era o elemento diferenciador: menos que o 5º ano eram praças, com o 5º ano eram furriéis milicianos e 7º ano completo eram oficiais.

A maioria desconhecia a realidade da guerra no Ultramar. Só começou a saber-se através de vizinhos, familiares e amigos recrutados para o serviço militar. O regime não esmoreceu e manteve a determinação de “manter a unidade de um país disperso pelo mundo”. Entre 1961 e 1973 foram mobilizados para a guerra cerca de 105 mil homens. Do que se passou na guerra ficou no segredo dos deuses e o pacto de silêncio entre os camaradas. A excepção era feita a acontecimentos cómicos e banais.

Os negros ou pretos eram vistos como uma raça menor, com “mentalidade de primitivos”.  O trabalho forçado dos negros só foi abolido quando se iniciou o conflito em Angola. Não existia uma harmonia igualitária entre brancos e negros: “a injustiça de um regime onde a cor de pele definia o lugar de uma pessoa”. Ocupavam lugares distintos. Os negros eram subalternos, obedientes e silenciosos. Os brancos referiam como desculpa a irresponsabilidade, preguiça e superstição dos negros. Enfatizavam a aversão dos negros ao trabalho. Não existia, também, igualdade entre homem branco e mulher negra. Usavam-nas, apenas. Referem, entre risos, a possibilidade dos filhos que deixaram para trás.

Todos falam, sem excepção do medo e do inimigo sem cara. O isolamento. A demora do passar do tempo. As saudades da família. Sensação de eternidade. O rebentamento de minas. Os ataques. A utilização de napalm (negada pelas Forças Armadas). O secretismo. Falam dos valores militares como a camaradagem, a coragem e o heroísmo. E das fraquezas que incluem a cobardia. Fizeram muita coisa, socialmente boa: vacinação conta a cólera e ensinar as crianças a ler e a escrever. Alfabetizaram muita gente. Os jogos de cartas. Os jogos de futebol. A caça. A torturante agonia da espera. O absurdo da morte. Os suicídios. Muito bem resumido por Lobo Antunes nas cartas enviadas à sua mulher, publicadas em livro: “Eu vou-me afundando numa apatia total. Nada faço, nada me apetece (...) chego a pensar que sairei daqui para um hospital psiquiátrico – como doente (...) o resto são mosquitos, chuvas, trovões, os mesmos horizontes que não mudam, que não mudam... Como acabará isto?”.

Estes ex-militares não relatam na primeira pessoa episódios grotescos. Mas percebe-se o pacto de silêncio, como a frase: “o que aconteceu lá, fica lá”.  Sobram suspeitas de violência e do horror da guerra. O pronunciável são as histórias aceitáveis, tudo o resto reduz-se a silêncio. São abordados os traumas da guerra, o stress pós-traumático, os mutilados.

Passados 26 meses, regressaram. Para trás ficaram os camaradas que não voltaram a ver durante muitos anos, retomando apenas os encontros anuais muito depois. Voltaram diferentes. Tinham vontade de normalidade. A guerra ficou-lhes para sempre.


Um excelente livro para quem, como eu, não nasceu nem viveu no salazarismo nem na ditadura. Aprende-se muito. Principalmente a não ter saudades e a não se querer voltar atrás. E depois, dá um certo orgulho, que passado meio século, as transformações são gritantes. E agora, puxando a brasa à minha sardinha, para dizer que as teses de doutoramento servem para alguma coisa, afinal. Como disse Clara Ferreira Alves na apresentação do seu Pai Nosso: “não podemos esquecer os anos de guerra colonial como se não tivesse existido”.




terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Da natureza dos deuses

Os títulos dos livros de António Lobo Antunes (ALA) são, na sua maioria, citações. O último “Da natureza dos deuses” é o título de um livro de Cícero. A principal temática deste livro é o poder e a riqueza. Monopólio e domínio. Submissão, servidão e subserviência. Infidelidade. Desumanidade. Velhice: “que maldade incompreensível o tempo”. A grandeza: “uma casa maior do que todas as casas do mundo, salas, corredores, varandas e o jardim e o pinhal e o campo de ténis..".

Este, é um dos livros maiores de ALA, ultrapassa as 500 páginas, exactamente 574, talvez também a fazer a analogia à imensidão dos deuses do título. Os nomes dos personagens, como é tão característico de ALA, são poucos. Os personagens deste livro são: a Senhora, o senhor doutor, o senhor presidente, o avô da Senhora, o sem abrigo, a dona da livraria, a funcionária da livraria, o empregado de casaco branco (Marçal), o sujeito da editora, secretária loira, o senhor engenheiro (adjunto do senhor doutor) casado com a secretária loira do senhor doutor (amante do Sr. Doutor), o senhor presidente,  a esposa do deputado, a dona da loja de roupa, o homem mais novo que o senhor doutor. O livro divide-se em 4 partes. As primeiras 3 partes com 10 capítulos cada e a quarta parte com 7 capítulos. Este livro passa-se entre Cascais, Estoril, Guincho e Lisboa.

O livro começa pelo tempo presente. O primeiro capítulo começa com a funcionária da livraria, que é uma retornada de África, vive com um filho pequeno numa casa barata de Cascais  e já passou os quarenta: “sou fácil de enganar, perdoo a todo o mundo, olho e não vejo, vejo e não ligo”. Não entende a razão de a Senhora conversar tanto com ela: “qual o motivo de falar comigo sou pobre”. Vai muitas vezes a casa da Senhora, que está sempre sentada com um cãozito nos braços, entregar livros: “a mulher idosa percorria o cãozito no colo com o anel”... “numa poltrona grande demais para ela... quase em contraluz, transparente, a voz apenas...”. Vive o presente numa profunda solidão  mas refere-se a um passado totalmente diferente: “os jantares que havia aqui o rei da Itália, o rei da Roménia, o duque inglês... A sala com os seus móveis, os seus quadros, os seus tesouros tão caros”.  A Senhora “não recebe visitas nem sequer dos filhos... qualquer desconhecida que a escute sem comentários nem perguntas... a garganta magríssima, as linhas claras dos ossos e os dentes tão nítidos sob a pele... não uma mulher idosa ou gasta, uma mulher quase defunta, não o palhaço que durante anos e anos aceitara ser... os olhos vazios".

O pai da Senhora (senhor doutor) “de olhos tão pobres apesar de ser dono de bancos, companhias, ministros”. É uma figura detestável, autoritário, um “dono disto tudo”, “um pulha”a quem toda a gente presta vassalagem: “A quantidade de gente que ele foi degolando ao comprido da vida (...) a afastar-se no sentido de subalternos que o esperavam, atenciosos, curvados (...). É uma questão de princípio não dar confiança a subordinados”.  Joga ténis com personagens  que vão sempre mudando à medida que vai deixando de precisar deles e à medida que os destrói: “Obrigado por consentir ganhar-lhe.” São continuamente substituídos. Tem sempre raparigas loiras novas a quem cobre com puldeiras e colares, tacões, perfumes que, são também substituídas com o passar dos anos e da idade. “...é sempre desagradável apertar a mão a um pobre, fica-nos o cheiro na pele”.

O avô materno da Senhora era judeu e com “estabelecimentozito de câmbios. O pai da Senhora salvou o avô da Senhora da falência: “Perdoo-lhe a dívida se me der a sua filha”. A mãe da Senhora tinha quinze ou dezasseis anos: “Não lhe faço mal descanse... Livra-se de ser preso e ainda ganha um genro que o protege”. O casamento da Senhora foi arranjado pelo pai: “Casas-te em Outubro” e a “Senhora a informar o pai de que preferia o sapo de uma cómoda transformado em príncipe”. O marido da Senhora, “herdeiro de outro banco que o pai da Senhora administrava, mais fábricas, mais empresas,...um monte no Alentejo, dois barcos na marina...”.

O avô paterno da senhora (pai do senhor doutor): “O meu pai teve que afastar o meu avô dos negócios... o meu avô morreu sem lhe ter perdoado... sem conhecimentos nem estudos... vendia jornais e lotarias no início, emprestava dinheiro no bairro... não se conhecia o pai, a mãe apenas, que trabalhava nas limpezas... ao regressar da tropa o pai da Senhora, há quem se lembre dele do bairro, aumentou os juros e transformou o negócio contra a vontade do meu avô... o pai da Senhora chamou advogados que proibiram o avô da Senhora de entrar”. O pai da Senhora para o avô da Senhora: “ A partir de hoje começa a sua santa vida que sorte... A partir de hoje tem tempo para o dominó com os amigos ler o jornalzinho e gozar a reforma... você está gasto não presta”. “O pai da Senhora comprou-lhe uma casita com uma horta na província e pagou a uma camponesa para tomar conta dele”.

O senhor engenheiro (adjunto do senhor doutor) é casado com uma das secretárias loiras do senhor doutor (e sua amante). Começou na contabilidade e passou, depois, a adjunto. Tem gabinete próprio, automóvel, secretária loira e facilidades no crédito desde que não abuse. O senhor doutor cumprimenta-o: “ele que não cumprimenta ninguém e eu honrado... convida-me para o ténis aos sábados, onde a minha esposa se senta ao lado dele, tão loira (...) sem me apertar a mão, claro, mas uma honra da parte de quem não cumprimenta as pessoas de modo que eu, agradecido”. Insinua que o filho mais novo é filho do senhor doutor: “o único que não se parece comigo, a coincidência de uma pálpebra pendente como o senhor doutor”. Sem um poder comparável ao senhor doutor, o senhor engenheiro, apesar de subalterno, de acordo com determinada hierarquia, tem poder. Como tal, também tem uma secretária loira, que é sua amante. Com o desenrolar das páginas, perceber-se-á que essa afirmação sobre a questão da paternidade do filho mais novo não faz sentido.

O Senhor presidente: “o que manda em Portugal... o senhor doutor visitava-o aos domingos... de pés numa escalfeta e manta nos joelhos... uma voz fraquinha (...) a voz fininha... de fatito cinzento e cabelo branco (...) sempre sozinho, escrevendo bilhetes minúsculos, numa caligrafia minúscula, para os ministros que não o viam, eram nomeados e despedidos através de cartõezinhos daqueles (...) o senhor presidente, que o mundo inteiro temia. Parece o personagem que vivia no sotão no livro “Caminho como uma casa em chamas”.

A mulher do senhor doutor (mãe da senhora) está aprisionada num quarto no alto da casa de onde, através da janela, está sempre à espreita e a ver os jogos de ténis. “O meu marido mandou pôr uma cadeira no meu quarto, mesmo no alto da casa, onde até os falcões da serra vejo e o mar por trás dela, outro mar além do Guincho... para me visitar de vez em quando, sinto-lhe os passos no corredor, mais lentos do que os dos criados, o empregado de casaco branco destranca a fechadura, volta a trancá-la quando ele se senta, sem olhar para mim, e fica ali calado...”. Há uma ténue alusão à infidelidade da mãe da Senhora: “anos depois a mãe da Senhora no comboio para Madrid com um homem...de óculos escuros e lenço na cabeça”.

O Marçal é o empregado do casaco branco, o“faz tudo” e o “cachorro” do senhor doutor. É o único que não foi substituído (...) Quando morreu foi o único momento em que vi o senhor doutor chorar... no escritório, não limpava as lágrimas, desciam-lhe as bochechas encalhando nas rugas”.
O sem abrigo atravessa todas as partes e todos os capítulos. O seu papel no livro, é para mim, um enigma.

A cronologia deste livro divide-se em várias gerações. Talvez do começo do Estado Novo até aos dias de hoje.

Há sempre algumas frase autobiográficas claras de ALA: “lembro-me que não chorava, não era que não me desse vontade, as lágrimas não saiam (...) Não me recordo de ser muito de beijos... aconteceu-me chorar...fui secando com a vida (...) sempre tive um problema com lágrimas, o meu pai não chorava, a minha mãe às vezes... mas escondia-as logo (...) a quem as lágrimas tornam um fraco”.
Há as habituais referências a África e à tropa, mesmo que de forma muito ténue. E as histórias paralelas que abordam o aborto, maus tratos e relações ocasionais. Depois de todas as evidências e aparências dos personagens há o submundo, a parte frágil e humana de cada um deles. Os livros de ALA, ao contrário do que o próprio não assume, são difíceis de perceber. Os leitores habituais terão bastante menos dificuldades para perceber as frase polifónicas, analepses e prolepses mas há uma analogia cinematográfica que se poderá fazer com os filmes de David Lynch. Muitas vezes os mistérios não são desfeitos e muitas vezes existem partes que poderão ter sido escritas para serem mesmo incompreencíveis. Quem sabe?

Famílias destruturadas. Traições. Mentiras. Humilhação. Desprezo. Insensibilidade. Mentiras. Ilusões. Indiferença. Destruição. Mostra-nos que o poder pode, quase tudo, mas não tudo. O senhor doutor, a mãe da senhora (mulher do senhor doutor), a senhora e o Marçal (empregado de casaco branco) são as chaves deste livro. Os dados estão lançados. Parte das personagens e do enredo está exposto. Mais não digo. Falta agora o leitor envolver-se e interpretar à sua maneira. Espero que aproveitem e desfrutem este livro que, apesar de denso, é cativante e nada monótono. Não sei se sou eu que me torno a cada livro mais devota do estilo de ALA e dos seus livros, ou se com o passar dos anos, comecei a percebe-lo melhor. Continua com a sua habitual escrita tão real, quotidiana, cuidada e cinematográfica.


Este livro já estava escrito há dois anos. Por esse motivo, não há qualquer relação entre os factos actuais do poder e queda dos banqueiros e bancos e a sua queda com este livro. Parece tratar-se de um pronúncio mas (provavelmente) não passa (de uma mera) coincidência. O livro não está organizado de acordo com este texto. Este texto é (apenas ) a interpretação que faço do livro que poderá não ser a verdadeira.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Caminho como uma casa em chamas

Este livro, último de António Lobo Antunes, tem como capítulos os diferentes apartamentos. É descrito a várias vozes, os vários narradores e a polifonia tão característicos da sua escrita.

Segundo direito. "sem gosto, os azulejos da cozinha atrozes, por baixo um casal de judeus emigrados...e um bêbado  com a família do outro, no terceiro uma actriz idosa...um prédio sem elevador nem garagem". "Até adormecer num divãzito que não existe mais, abraçado a um leão de pano a que falta uma orelha e mesmo sem orelha me defendia do mundo". " Nem no meu casamento bebi, apesar de tão aflito não bebi"." Não sei se sou infeliz, como se mede a infelicidade, devo ser infeliz..."

Segundo esquerdo. Juíza maltratada por todos os namorados mais novos. O marido deixou-a quando as crianças eram pequenas. 59 anos. Morou em Castelo Branco. Com peso a mais. Acha-se feia: " demoro-me numa loja até os espelhos me expulsarem, o rosto que se alterou, a cintura que já não tenho, a forma de andar que não acredito ser minha". Usa placa. Os filhos desprezam-na: "os meus filhos não telefonam, não escrevem, a indiferença deles magoou-me, não me magoa já", ... " os meus filhos adormeciam com o meu dedo na mão e hoje nem um postal me escrevem quanto mais um telefonema ou um retrato". Pedem-lhe dinheiro emprestado. Sente-se sozinha: "em certas noites quando as vozes do silêncio nos inquietam". A quem os namorados batem e chamam "pudim de banhas". E velha: " o meu cheiro a velha porque a pele se alterou, o cabelo grisalho' as rugas, a coluna...". "A idade roubou-ma, a minha pele, o meu marido, o meu avô, quase tudo, não refiro os filhos porque não são nossos, emprestam-nós e vão-se, os meus emprestaram-mos durante vinte anos e a seguir perdi-os, primeiro custou, depois habituei-me, hoje é-me igual, estiveram aqui, não estão aqui, não me pertencem mais". Tem um piano que frequentemente interrompe o silêncio. 

Primeiro esquerdo. Bêbado. "Bebe para espertares miúdo". "Aceitava por obediência porque me ardia na garganta, depois calor, depois os ossos fosforentes, depois o corpo que demorava a tornar a ser meu e o coração no umbigo"."O silêncio depois de pancadas e gritos". "Nunca encontrei degraus tão complicados, sempre a mudarem de posição e cada vez mais altos". "Na altura não era do sabor que gostava, era de sentir-me feliz, bastava-me um golfinho para conseguir voar, tão simples tudo, tão real! Se me perguntassem qualquer matéria na escola não falhava um resposta". Tem uma filha chamada Alexandra. A mulher e a filha riscaram-no do mapa, se se cruzarem na rua não se conhecem.

Primeiro direito. Judeus. "Falam em estrangeiro"

Terceiro esquerdo vive o tenente velhote, xenófobo e racista: "não se conhece a razão, alguns pretos dedicam-se, não pedem, não reclamam, não falam, acompanham a gente é obedecem", " mesmo mulatos alguma coisa lhes há-de entrar na cabeça até os animais aprendem".

Sótão: "uma tosse, um cochicho", "oiço-lhe os passos". "Contam que Salazar não faleceu, se esconde por aí continuando a mandar".

Terceiro. A actriz "lançando flores invisíveis ao público invisível". "Adoram-me". "Sou uma estrela", "encho plateias". "Mostra a esse vizinho simpático o cartão que o Salazar me enviou". " jantamos uma sopa e para chegarão fim do mês é o cabo dos trabalhos". A actriz tem 91 anos. Há muito tempo que não sai de casa, vive com a pseudo sobrinha amarradas pela pobreza. Poupam na luz para não gastar electricidade. Delírio puro: "tanto ruído no interior de mim onde actualmente silêncio que só os aplausos à minha tia que não é minha tia interrompem, tanta gente de pé na sala deserta e ela a sorrir para a direita e para a esquerda enviando beijos".

Os personagens e as vozes alternam entre o bêbado, os judeus, o cego, a actriz decadente que acha que o Salazar tem um fraquinho por ela, a cuidadora da actriz: "mora com uma velha maluca a cair da tripeça e tratá-la por tia...dama de companhia de uma actriz que foi quase esposa de Salazar"), o militar, maus tratos infligidos pelos filhos, violência doméstica... Um universo de solidão ("Manhãs mais compridas, tardes curtas, noites longuíssimas", "apesar de tudo prefiro as censuras ao silêncio da ausência, ligo o aspirador, deixo-o trabalhar para me sentir acompanhados"), decadência, depressão, envelhecimento que é comum a todos os personagens ("esses fluidos dos idosos...que o corpo não segura, custos, suores, gotas no nariz, misérias, pingos vermelhos sem relação com as lágrimas...não choram, babam-se apenas", " o suplício das escadas, sapatos que se elevam puxados pelas gruas das pernas"Todos eles vivem amarrados ao passado. Alguns com terror do passado. Gente psicótica com a mania da perseguição. Gente com muita falta de afecto. A temática da guerra sempre presente, mesmo que de forma subtil. Há, também, sempre um médico. A maioria dos personagens não tem nome. A narrativa do livro parece passar-se no outono, não por acaso, a mais triste das estações do ano.

António Lobo Antunes parece usar as suas memórias reais, como por exemplo, o seu pai, professor conceituado de Medicina e assistente de Egas Moniz, quando consultou Salazar aquando da sua  célebre queda da cadeira: "-Salazar um gigante - disse o professor. - Vi-o como daqui para aí." E dos tempos de aluno de Medicina: "cerebelo hipotálamo calcâneo" prédio situa-se algures em Lisboa. O enredo  divide-se, ou refere-se pontualmente, a Castelo Branco, Portalegre, Carcavelos, Barreiro ou a "genérica" província ("todas as terras da província se assemelham mais igreja menos igreja").

Sempre com pormenores detalhados sobre o comum quotidiano e sempre com um revivalismo e saudosismo dos anos 70/80: " a lavar a marquise com a esfregona". "O horror dos domingos quando as vozes da infância nos visitam". Os poucos nomes de personagens, alguns são pindéricos: Sofia Rosa. Descreve sempre situações com uma memória fotográfica surpreendente. A descrição pormenorizada de sensações como a náusea: "o corredor às voltas, no quarto um abismo e eu agarrado ao colchão". Analepses e prolepses constantes entre a infância e o presente.


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Maria Rueff sobre António Lobo Antunes

Para toda a gente que não teve oportunidade de assistir pessoalmente a este momento de pura arte. O escritor e o seu livro que salvaram a leitora. O escritor é o António Lobo Antunes, o livro é "A memória de elefante" e a leitora é a Maria Rueff. Aqui.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

António Lobo Antunes em Braga


Tenho uma amiga, a C., que adora música e os grandes compositores da geração beat e afins, e o que alguns escrevem, mas não tem a mínima curiosidade sobre as pessoas, sobre o que elas são, ou o que elas pensam. Ou seja, deve detestar biografias. Interessa-se apenas pela obra. Isto é o que pensa António Lobo Antunes.

Na sexta-feira, às 7 da tarde, bem atrasado, entrou na Centésima Página, com aquele ar distraído, desta vez a olhar os livros, com a cara fechada e com aspecto alienado. Começou por falar de como Braga era uma cidade importante para ele. As origens da família paterna eram de perto da Póvoa de Lanhoso. Uma família muito humilde e que o trisavô partiu para o Brasil e fez lá a sua vida mas que no fim veio aqui morrer. Falou mais uma vez do avô, António Lobo Antunes, a pessoa que mais gostou, a ele lhe deve a ternura e o carinho que lhe deu, ao contrário dos pais que nunca lhe deram, por questões de educação.

Depois falou que detesta a arrogância francesa e de como acham que somos apenas um país de porteiras e de mulheres a dias. No entanto, referiu que foi lá que recebeu dos mais importantes prémios literários.

Falou da morte da primeira mulher em 1999 e das cartas que nunca releu e que lhe escreveu de África. E de como as filhas o convenceram a publicá-las antes da sua morte: “Para que essas putas com quem o pai anda saibam de quem o pai gostava era da mãe”.

Não se esqueceu de referir os amigos, principalmente o Eugénio de Andrade, que era tão bonito, e que a doença modificou tanto. Que tinha sempre tanta delicadeza com ele, tão terno, e que quando o visitava tinha sempre uns miminhos como uns biscoitos e vinho fino. António Lobo Antunes disse estar arrependido até hoje de não o ter visitado nos últimos dias porque soube tempos depois que ele o esperava. A senhora que cuidava dele disse-lhe:
-Sr. Dr., O Sr Eugénio dizia-me sempre : “Ponha aí o fatinho que o meu amigo vem ver-me”. Falou também do Miguel Veiga e da colecção enorme de livros que tem, que não sabe como “parecem estar a reproduzir-se entre eles”.

Lamentou também que a crise limita os bons leitores e que quem lê é a burguesia, pequena e média. Os ricos segundo ele leêm revistas de golfe e revistas de economia e as mulheres deles lêem revista de moda francesas.
Falou também do quanto adora Caminha.

Como já tinha referido, acho-o muito menos distante, muito mais bem-disposto, como se a sua presença neste tipo de sessões não fosse um frete. Está muito mais confessional e acho que até mais interessado com os seus leitores. Como se necessitasse de lhes dar uma palavra e ser agradável com eles.

Quando me assinou os livros eu era a última pessoa. Perguntou-me o que fazia e essas coisas que nos levaram a NYC e falou de como gostava da cidade, e da editora na 5ª Avenida, que passou uma temporada lá a escrever na casa do irmão João numa cidade em New Jersey (que ele me perguntou se eu conhecia e que eu nem sequer nunca ouvi falar). Falou de Columbia e de quando o irmão João voltou de lá. Eu disse-lhe que o João Lobo Antunes tinha uma cadeira no Instituto de Neurociências, ele desconhecia...Agradeceu-me por ser uma leitora tão interessada e lá seguimos para o jantar. A idade aos homens ou lhes faz muito bem ou muito mal. A Lobo Antunes, a idade, está a torná-lo mais doce, mais grato. Aquele ar tão característico dele de zangado, irónico, desinteressado, enfadado, já não se lhe reconhece.







À Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva chegou mais de uma hora atrasado. Quem conversou com ele foi o Sérgio Guimarães de Sousa. Falou que a escrita para ele é um  ofício, que precisava de mais 12 anos para fazer tudo aquilo que precisa fazer, que tem muitos problemas em falar dos seus livros. “Porque é que os dias quando somos pequenos são tão lentos e quando somos adultos são tão rápidos?”.
Um dos maiores prazeres da vida foi o encontro extraordinário com o George Steiner em Cambridge, que considera um homem inteligente, com os afectos dentro da inteligência, que tem um piano de Bach em casa e cartas de Freud ao seu pai. “Sabem que ele é judeu, não sabem?”. “E sabem porque é que os judeus nõ se suicidam?”.  “Porque não podem ler o jornal de amanhã”.

Falou que gosta do livro “Monte dos Vendavais” que acha um livro histérico e kitch mas que gosta dele. Falou também do casamento, e de como estes são complicados. As mulheres gostam de variar os restaurantes. Os homen não gostam de variar. E as pessoas acabam de estar presas umas às outras numa rede de mentiras:
-Não gosto de ti (mulher)
- Não é que não goste de ti mas preciso de pensar (homem)
-O problema não está em ti, está em mim (homem)
- Então, rua! (mulher)

Mostra-se muito mais animado, muito mais humorado, muito mais risonho, mais aberto. E não larga os cigarros, que os fuma em todos os lugares proibidos.

Há quem refira que os livros do António Lobo Antunes ou se gostam ou se detestam. Os primeiros livros que editou eram sempre considerados os piores livros do ano. O editor de NYC, sem ler nada da sua obra disse: “Você vai conquistar o mundo”. Estátraduzido em mais de sessenta idiomas.

Depois do livro estar pronto, de tantas revisões, de tanta correcções, de passar pelo “detector de merda” nunca mais olha para ele. Nunca leu nenhum dos seus livros porque tem medo.
Confessa-se admirador de Bach e Schubert. Que é um homem  de poucas lágrimas, é como as grutas, chora para dentro. Chorou quando a mãe das filhas morreu, quando o pai morreu. Não seria capaz de voltar a ser médico, não por medo, mas pela enorme sensação de vazio.
Quando esteve doente há 6 anos um dos pintores amigos dele foi o único que lhe pareceu dizer a verdade: “Aguenta-te”. Recebeu mais de 5000 cartas dos seus leitores. Mas a que mais o marcou foi a de um rapaz do Minho que dizia “Não admito que o meu ídolo se vá abaixo das canetas”. “Fiquei muito comovido”.

Falou que as paredes da sua casa são repletas de estantes com livros. E que a sensação que mais gosta é ter as paredes cheias de livros e deixar impregnar-se por eles. Diz-se uma pessoa metódica e com horários. As pessoas pensam que a arte é feita por iluminados, mas não, é muito trabalho.

Contou também que a mãe era um apessoa muito bonita mas que o pai não. E perguntou-lhe:
-Porque é que a mãe casou com o pai que é tão feio?
-Porque tem uma voz que me transtorna.
Disse também que a mãe não tinha ciúmes e que isso chateava o pai. Uma das vezes, a mãe estava a fazer café enquanto fumava um cigarro e o pai a fumar cachimbo:
-A Maluda quer pintar-me o retrato.
-Está bem-disse a mãe.
-Nú.
(Sem resposta da mãe).
-Da parte de baixo
-Da natureza morta? –perguntou a mãe.
Diz ter cada vez mais orgulho de ser português mas que se recusou a estender a mão ao Primeiro-Ministro na Feira do Livro de Lisboa.
No final, quando começava a preparar-se para assinar os livros das pessoas ainda me viu sair e disse-me:
-Ana, já nos conhecemos há 3 horas!







facebook