Nunca imaginei um dia assim. Vivo por antecipação muitos dos dias da minha vida. Imagino cenários, antecipo situações, sofro por antecipação, sonho alegria e tristezas, imagino conversas, tento o simples tão difícil. Mas nunca imaginei que a Bu um dia fugisse. Era uma sexta à tarde e ligaram-me. Fiquei parada sem reacção. Não sabia o que fazer. Não sabia por onde começar. Liguei primeiro para uma amiga e para o meu irmão. Ficaram os dois como a noite. Liguei para um vizinho meu que tem duas cadelas para me aconselhar. A Bu fugiu porque é uma medricas. Estava a passear sem trela e ouviu um barulho grande e fugiu com o medo. Desorientou-se. A bem da verdade, ela nunca é orientada. O tempo que demorou a chegar a Braga foi uma eternidade. Preparei-me psicologicamente para que o pior tivesse acontecido ou fosse acontecer. O meu medo não era que a roubassem ou que se perdesse porque ela tem chip e uma placa com o nome dela é com o meu telemóvel. O meu receio é que fosse atropelada. Com uma rua cheia de trânsito à frente de casa nunca imaginei um bom cenário. Quando cheguei a casa comecei por procurar o Poeta e pedir-lhe que a procurasse e espalhar a notícia. Depois fui à pastelaria. Estava tudo em alerta. Depois fui procurá-la a pé a chamar pelo nome dela. Quando achei que a vi, avistei- a ao longe. Uma coisa pequena a andar junto ao rio. Comecei a gritar o nome dela. E ela imediatamente parou. Não correu, não andou, simplesmente parou. Rodava a cabeça sem sair do lugar. E quando cheguei ao pé dela ela não reagiu com a euforia e o barulho de sempre. A excitação era muita mas não se ouvia apenas se via. Desde esse dia que reparo que está muito mais atenta e que não foge. Desde esse dia que não mais a passeei sem trela.
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
domingo, 15 de dezembro de 2013
O fim de semana ideal
Fui buscar os meus sobrinhos a casa da mãe na sexta. Estava com a S. Os meus sobrinhos adoram o meu carro. E toda a conversa a caminho de Braga foi à volta disso. A S. conheceu-os nesse dia. Fartou-se de rir com eles principalmente quando o meu afilhado lhe disse:
-Gosto de tudo de carros, de chaves de carros e de lavar carros!
Quando chegamos a casa dos meus pais, o meu irmão já tinha ido buscar a Bu. Os meus sobrinhos deliram com a Bu. E o mundo para a Bu pára quando vê os meus sobrinhos. Pediram para ficar com ela. E eu não tive como não deixar porque ela é uma vendida e troca-me, sem nenhuma dificuldade, por eles.
Ontem, os meus sobrinhos foram passear com o meu irmão pelo centro e encontraram muitos amigos. Quando chegou a vez de andarem no comboio de Natal, o motorista não queria deixar a Bu entrar. Ao que o meu irmão lhe disse:
-Ou entramos todos ou não entra ninguém.
Perante este cenário, o motorista não teve outro remédio a não ser autorizar a Bu entrar...
Quando chegou a hora do conto na Centésima Página, o meu irmão teve que levar-me a Bu a casa porque, aí sim, não tinha hipótese de entrar. O meu afilhado, perante este cenário, já não queria ir à hora do conto. Queria ficar em casa comigo e com a Bu. Lá tive que entrar no carro e ir com eles. O meu irmão ficou com a Bu a passear nos jardins da Avenida Central e eu fui com os meus sobrinhos à livraria. Chegamos atrasados, como quase sempre, e o conto tinha terminado. Mas ainda chegamos a tempo de uma actividade. As crianças todas sentadas num tapete a construir uma colagem de um anjo de Natal.
O K. é uma simpatia. Mal chegou, entrou no meio da roda de meninos, sem qualquer receio. Sem ninguém lhe perguntar nada disse, em voz alta, o nome dele, que tinha uma cadela que se chamava Bu, e ainda apontou para trás para mostrar a titi e o irmão. O meu afilhado é o oposto. Não se quis sentar junto aos meninos se eu não estivesse com ele. É um anti-social como a madrinha. Para ele uma dezena de meninos é uma multidão. Passamos o resto do tempo a colar o anjo de Natal e o meu afilhado ainda desenhou a cara. Quando os meninos todos sairam fiquei eu, o K., o afilhado e ainda um pai com um filho com uns 9 meses. Os meus sobrinhos adoram bebés. E o introvertido do meu afilhado perdeu a vergonha com o pai do menino que se chamava Vasco.
- o meu avô chama-se Vasco - disse o afilhado
- E tenho uma cadela que se chama Bu e que faz muitas asneiras. Fez cocó no sofá da avó e roeu o tlm da titi, até comeu a tampa!
O pai do Vasco só se ria e o Vasco saltava enquanto o pai o segurava debaixo dos braços. O meu afilhado ainda teve coragem para mais uma coisa:
- Posso pegar no Vasquinho?
E o Vasquinho lá andou, com a ajuda do pai, entre os colos o K. e afilhado.
Depois de jantarmos na casa dos avós fomos para casa. Queriam ver o aviões mas por problemas técnicos acabaram a ver montagem de legos no tablet. Eu no meio, e os dois homens da minha vida, um de cada lado. Eu, que costumo ser uma friorenta, parecia estar nos trópicos, tal era o calor! Quando o afilhado adormeceu, o pai veio buscá-lo para a cama dele. A Bu, ignorando quem é a dona e quem a salvou de um futuro que não parecia muito risonho, trocou-me facilmente para ir dormir no quarto do afilhado. Ainda fui chamar por ela mas ignorou-me completamente. Acabei a dormir com o K. que é um verdadeiro aquecedor mas que, felizmente, não ressona. Adormeci tarde, como sempre, depois de muito ler.
Sei que o toque de alvorada foi pouco depois das 7 porque tenho uma vaga memória de ter ouvido, ao longe, o meu afilhado e o meu irmão a tomarem o pequeno-almoço. Eu continuei a dormir acompanhada pelo mais velho que dormia ocupando quase a cama toda.... e eu sem reclamar. Por volta das 11 acordamos com a Bu a saltar para cima de nós.
Fomos almoçar com os avós e à tarde os meus sobrinhos foram ao cinema com o pai ver "Frozen". Nem preciso descrever a cena da Bu de cada vez que os meninos se vão embora. Dá dó! Chora, soluça, uiva, raspa as patas na porta... nunca vi devoção maior.
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| copyright: Centésima Página |
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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
A destruição
A Bu, que está quase a tornar-se adulta, faz cada vez mais
asneiras. Quem a vê pessoalmente, à primeira vista, é inofensiva e tem um ar
muito meigo e doce. O problema da Bu são os vícios. Meias, ténis, chinelos,
peluches, pão, rolos de papel, fotografias, bolas de ténis só, para escrever
alguns. Todas as meias que encontra leva-as para a cama. Não lhes encontro
encontro estragos, ainda não percebi o que faz com elas...Nos ténis
interessa-lhe particularmente os atacadores. Os peluches é um misto de os
trincar com cheirar, mas a verdade é que não os destrói, só lhes arranja uns
defeitos. Fotografias e bolas de ténis é para roer até não sobrar nada. A porta
da casa de banho nunca pode ficar aberta porque a Bu adora desenrolar o papel
higiénico e fantasiar-se! A Bu não é grande apreciadora da comida seca que lhe
sirvo diariamente. Acho que só a come quando não aguenta mais a fome. O que ela
delira é com pão.
Mas o inimaginável aconteceu no domingo! Por vezes, deixo o
telemóvel a carregar em cima do balcão, na cozinha. Foi o que fiz no domingo de
manhã. Só que o problema é que, em vez, de o desligar quando acabei de tomar o
pequeno almoço, deixei-o todo o dia. O fio do carregador devia estar a cair
ligeiramente. Imagino que a Bu olhasse para o fio e desafiou o seu físico para
tentar alcançá-lo. Devia ter sido isso que fez. Quando cheguei a casa à noite
não reparei que o telemóvel não estava no sítio que o tinha deixado... Quando
me baixei para ver o que estava no chão, no meio de várias coisas destruídas,
encontrei o meu BB!! Estava irreconhecível... Respirei fundo e não me
descontrolei. Percebi que funcionava... contentei-me com pouco... E a Bu
olhava-me com aquele ar tão terno dela...
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
O Kitty
As palavras da P., dona do Kitty: "E assim passaram mais de uma dezena de anos.. O Kitty que foi gata uns anos, que mais parecia um coelho pelo seu tamanho, que se portava como um cão e que se achava um leão albino na caça ao insecto.. assim passaram os anos com os tratamentos espoliantes faciais matinais e ‘podológicos’ sempre que possíveis dada a sua obsessão compulsiva por pés que trazia a verdadeira euforia na abertura da época das havaianas, com as nossas idas ao WC sempre acompanhados, as esperas religiosas todos os finais de tarde sentado na porta de casa como se de um cão se tratasse, bem como os pedidos para ‘ir à rua’ mesmo sabendo que eram escadas ou jardim, as turras e oitos nas pernas, os momentos de glória de cada vez que alguém se sentava no sofá, a paixão pelas mantas e pela nossa cama, enfim.. a nossa sombra. Desde ontem que mais uma estrela brilha no céu.."
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Os bichos
Nunca tive animais de estimação. O meu pai sempre teve peixes
e tartarugas. E tivemos um canário que se chamava Francisco. De resto, tirando
os cães dos meus avós na infância, a minha experiência era quase nula. Quanto a
gatos, durante anos detestei-os porque quando tinha 3 anos, para largar a
chupeta, que eu fazia questão de a perder por todos os cantos, os meus pais
decidiram culpar o gato da minha avó. Levaram-me a acreditar, tal era o vício
da chupeta, que o gato tinha feito cocó nela. E do que é eles se lembraram? De
colocar café em pó molhado em cima da chupeta... Durante dias o gato não pode
aproximar-se de mim. E durante anos tive essa injusta aversão a gatos. O pobre
do gato não teve culpa nenhuma...
Anos mais tarde conheci gatos adoráveis que até pareciam
cães. E ainda tinha a esperança de poder ter um. Mas com a desculpa de durante
o doutoramento não ter horas para nada, as viagens serem muitas e o meu poiso
mudar a cada 6 meses, desisti da ideia.
Racionalmente, eu sou a pior pessoa para ter animais domésticos.
Vivo num apartamento pequeno, passo pouco tempo em casa, gosto de liberdade,
gosto pouco de ter amarras, gosto de fazer o que me apetece e muitas das vezes
sem planos... Agora, vejo-me com a Bu, uma cadela bebé que não deve ter mais de
4 meses e não chega aos 5 kgs. Acho que ela deve passar o dia a dormir. Se não
passa, deve sofre de insónias, como eu. Passa as noites a abanar com o rabo
sentada à porta do meu quarto. Quando me apanha a dormir tenta subir para a
cama. Quando estou acordada, nem se atreve a entrar no quarto. Quando tomo o
pequeno-almoço partilho o pão com manteiga. No início comia tudo. Agora lambe a
manteiga e deixa ficar o pão. Um dia deste deixei cair leite com café no chão.
Nos segundos que demorei a limpar o chão descobri que também é uma grande
adepta! Quando não faço o que ela quer, gane. Quando quer ir à rua gane também.
Acabei por descobrir a diferença baseada nas horas.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Os ossos do ofício
Há exactamente 9 dias, ainda a Bu não sabia andar direito na rua, nem eu a sabia guiar, aconteceu-me isto. Fomos levar uma garrafas de vinho para a reciclagem e o barulho foi tanto que ela devia ter pensado que o mundo estaria a acabar e desatou a fugir. Eu, com o susto, e por ter sido apanhada de surpresa, segurei a trela como pude... antes de a segurar, a parte de plástico bate-me na mão e fez-me este golpe. Pela localização do corte que se situa numa parte delicada por ser muito perto do osso, não pude ser suturada. O que deveria ser uma ferida pequena, foi piorando com os dias, até que me imobilizaram os dedos. Hoje, finalmente vou ver-me livre da ligadura e deixar de andar "presa".
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
A Bu Riscas
Faz hoje exactamente uma semana que encontrei a Bu na
estrada. Um dia de sol, como tantos outros, com a S. ao lado, descíamos
calmamente a Falperra até às Taipas e reparamos no que inicialmente parecia ser
um cão pequenino, desorientado no meio da estrada. Não saía da estrada. Parei o
carro e fomos buscá-lo, antes que
passasse à história, ou que não fizesse história de todo. Reparei imediatamente
que era uma cadela. Ela encantou-se connosco e nós com ela. Não tive dúvidas.
Não sei o que se me passou pela cabeça mas quis que entrasse imediatamente no
carro. Foi na parte de trás com a S. a fazer-lhe festinhas o resto do caminho.
Chegadas ao lab toda a gente que a viu adorou-a. Tratamos de improvisar-lhe um
recipiente de água. E nesse dia a minha
vida, tal como a conhecia, mudou. Animais para mim eram seres desconhecidos.
Nesse dia, comprei-lhe comida, trelas, brinquedos, desparasitei-a (interna e
externamente) e dei-lhe banho. Deram-me uma bata branca velha para a levar no
carro, tal era o festival de pulgas! Elas eram tantas que eu até fiquei com uma
epidemia psicológica. A coceira só passou no dia seguinte. Depois começaram as outras sagas: aprender a
fazer xixi e cocó no jornal; aprender a andar na rua; regular o ritmo biológico
de acordo com as idas à rua (de manhã e à noite); ensiná-la a não ganir... Até
ao dia de hoje faz tudo mais ou menos com a excepção audível do ganir. Ganir é
sagrado. Seja quando vou para a cama ou quando saio de casa. No primeiro e
segundo dia, fez cocó e xixi por todos os cantos da casa com excepção dos
quartos. Nunca a castiguei ou lhe ralhei. Foi sempre o reforço positivo: fazer
a festa quando acertava! Nos dias seguintes acertou sempre e desde ontem que
faz exclusivamente na rua! Grandes evoluções! Isto não seria possível, claro,
sem todas as dicas preciosas de amigas experientes. Eu que nunca ia para a cama
antes das duas da manhã, obrigo-me a ir a horas decentes para que a Bu faça o
seu festival de voz, sem que os vizinhos percam a paciência. Às 7:30, seja
sábado ou domingo, tenha ido dormir há uma hora ou a noite toda, ela dá a voz
da alvorada! E eu, qual independente convicta, deixo-me dominar pelos caprichos
dela. Eu que nunca saía de casa sem banho tomado, a única coisa que tenho tempo
de fazer é vestir qualquer coisa, tomar a minha vacina em jejum, colocar a
trela na Bu e rezar para que ela aguente até ao exterior do prédio. Das duas
vezes que tentei tomar banho antes, a Bu não aguentou mais a vontade. Agora o
segredo é correr bastante. Faz-me bem a mim porque retomei a actividade física
e à Bu que se cansa e pode dormir bem. Depois é voltar a casa, tomar o pequeno
almoço enquanto lhe atiro os ratos que ela faz questão de trazer de volta,
tomar banho e rezar para que não seja um dia entusiasmado para ganir quando
fechar a porta.
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